segunda-feira, 30 de abril de 2007

CONTRA FACTOS HÁ SEMPRE ARGUMENTOS


Theodor Adorno (1903/1969)


"O poder magnético que sobre os homens exercem as ideologias, embora já se lhes tenham tornado decrépitas, explica-se, para lá da psicologia, pelo derrube objectivamente determinado da evidência lógica como tal. Chegou-se ao ponto em que a mentira soa a verdade, e a verdade como mentira. Cada expressão, cada notícia e cada pensamento estão preformados pelos centros da indústria cultural. O que não traz o vestígio familiar de tal preformação é, de antemão, indigno de crédito, e tanto mais quanto as instituições da opinião pública acompanham o que delas sai com mil dados factuais e com todas as provas de que a manipulação total pode dispor."

"Minima Moralia" (Theodor Adorno)


Adorno aponta o exemplo dos alemães sob o regime nazi. As autoridades sentiam-se tanto mais seguras, "quanto mais selvagens se tornavam as atrocidades. A sua escassa credibilidade tornou fácil não acreditar naquilo em que, por mor da desejada paz, não se queria acreditar, enquanto ao mesmo tempo se capitulava diante dos factos." (ibidem)

Infelizmente, essa capitulação invisível, que trazem o ar que respiramos e as imagens que nos cercam na calote mediática, não se cinge aos regimes execráveis, nem às ideologias.

Cada vez mais é preciso que emprestemos aos "factos" a força de convicção que tem de vir de nós.

Nada me persuade melhor dessa verdade do que ver como em qualquer reunião as pessoas só ouvem o que querem ouvir.


(José Ames)

SALOMÉ NO MASCULINO


"Sebastiane" (1976-Derek Jarman)

Na arte, toda a provocação perde a sua força com a mudança dos costumes.

S. Sebastião, antigo capitão da guarda pretoriana de Diocleciano, passou à iconografia como um mártir em que na nudez escultural se exalta o sacrifício da juventude e da beleza, mas que em certas representações uma atitude equívoca do corpo crivado de setas sugere o que hoje chamamos de masoquismo.

Derek Jarman, com o seu primeiro filme, "Sebastiane", abstraiu-se quase completamente do contexto histórico e da motivação religiosa do personagem para se entregar, com alguma complacência, à hagiografia "desviada" do santo, tal como uma a elaborou parte da cultura moderna.

A morte de Sebastião surge aqui como o resultado do desejo trágico, cuja impossibilidade parece, apesar de tudo, abstracta, dada a insuficiente caracterização psicológica.

E podíamos ver neste final uma variação do tema de Salomé. Como S. João Batista, Sebastião é condenado à morte por despertar um desejo impossível, que o facto de ser partilhado torna mais impossível ainda na dialéctica do sacrifício.

domingo, 29 de abril de 2007

A RESISTÊNCIA ZERO



"Um artigo publicado por Hans Morgenthau no New York Times Magazine ("Reaction to the Van Doren Reaction", 22 de Novembro de 1959) assinalava estas evidências: era condenável conversar a título remunerado, duplamente condenável quando o tema eram questões intelectuais, e triplamente condenável no caso do conversador ser um professor. A resposta ao artigo foi de extrema indignação: tratava-se de um juízo que contrariava os preceitos da caridade cristã, e não se poderia esperar de ninguém, excepto de um santo, que resistisse à tentação representada por uma quantia de dinheiro tão elevada como a oferecida pelo programa."

"Responsabilidade e Juízo" (Hannah Arendt)


Deste caso, Hannah Arendt, ressalta que de todas as pessoas envolvidas, o público só considerou censurável a atitude do "homem que julgara, e não aquele que agira erradamente - ele próprio, e não uma instituição, não a sociedade em geral ou os meios de comunicação de massa em particular."

Portanto, o que todos se sentem incapazes de fazer, neste caso, de resistir ao dinheiro (pelo menos, quando está em causa algo de tão abstracto como o espírito desinteressado ou a dignidade do ensino), não deve ser censurado. Deve sê-lo, sim, aquele que se julga superior aos outros a ponto de criticar o que é natural que todos façam.

É claro que este é um exemplo perfeito da influência degradante do colectivo, do Grande Animal de Platão, que aqui se defende, "instintivamente".

Todos conhecemos na vida de todos os dias pessoas que criticam os políticos acusados de corrupção, mas para acrescentarem, logo a seguir, que fariam o mesmo se estivessem no lugar deles. Dizem-no com uma nuance de indignação, como se o exemplo vindo de cima lhes desse direito a eles de fazerem exactamente aquilo que condenam.


Caldas da Rainha (José Ames)

DA DECEPÇÃO AO PRAZER



"Ele pergunta-se "é isto belo? o que eu experimento? é admiração? é isto a riqueza de colorido, a nobreza, a força?" E o que lhe responde de novo é uma voz aguda, é um tom curiosamente questionador, é a impressão despótica causada por um ser que não se conhece, toda material, e na qual nenhum espaço vazio é deixado à "largueza da interpretação". E é por causa disso que são as obras verdadeiramente belas, se são sinceramente escutadas, que mais devem decepcionar-nos, porque na colecção das nossas ideias não há nenhuma que responda a uma impressão individual."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Critério que, sendo inteiramente justo, nos deixa sempre confusos. Porque também não podemos ter a certeza de que a nossa desilusão, o nosso eventual desagrado não são motivados por um carácter original, mas a que nunca chamaremos de "verdadeiramente belo".

E a menos que nos socorramos da célebre reversão shakespeareana do belo e do horrível para negar a estética da aparência, a favor da profundidade, da interpretação do que está por detrás das formas, ficamos, como o viajante que atravessa um país de que não conhece a língua, emersos na perplexidade, da qual só sairemos pela mudança do gosto colectivo ou pelo prazer do reconhecimento, quando a forma se repete, porque faz já parte da nossa "colecção de ideias".

Repare-se ainda na sinceridade da escuta que Proust reclama. Quer dizer, só quando nos "desarmamos" de certos preconceitos, com os quais mentimos a nós mesmos, sabendo e não sabendo que o fazemos, podemos perceber a verdadeira individualidade da obra.

sábado, 28 de abril de 2007


(José Ames)

RESPEITOSAS LIGAÇÕES


O centauro Quíiron e Aquiles


A idade não basta para explicar o respeito. É preciso ainda a distância dos sentimentos e uma soberana indiferença pelo que possam dar os jovens de pessoal. Todo o contrário, como se vê, não só do que lisonjeia a juventude por amor ou interesse, mas também da atitude preocupada dum pai. Aquilo que é livre e parece completamente não precisar de nós é o que mais atrai num jovem ambicioso. Mesmo a criança perde muito do seu encanto quando se torna insistente e dependente dos mimos.

Mais duma vez também vi o homem maduro e distante mostrar que a indiferença é um jogo entre ele e as suas paixões. O jovem é, naturalmente, sedutor. Mas quem o recebe sem guarda de fronteira perde-o e perde-se. Talvez que o milagre de “Teorema” (o filme de Pasolini) seja o dum jovem que sabe o que quer e para onde vai. Quem pode resistir à aliança do espírito e da graça? É preciso, porém, que a juventude aprenda. E o modelo vivo é o melhor mestre. Não é difícil de ver então que o espectáculo dum homem que se domina e é senhor das suas paixões, é o que mais aprecia o animal rebelde que apenas começou a pensar. Admirar é imitar.

O respeito fica quando a admiração bateu as asas. Mas uma roupagem de cortesia e um pudor nunca ofendido no riso e na intimidade são necessários. Seguramo-nos uns aos outros, mesmo quando o tempo esbateu a diferença de idades. Compreendo assim que certas fidelidades sejam muito mais do que a comunidade de ideias. De resto, as opiniões políticas, se vistas realmente pelo que são, sem partis pris, são o material neutro de que se cimenta a relação. Bem antes é a atitude para consigo e para com os outros, a moral, numa palavra, que é o fundamento verdadeiro da política. As construções ideológicas tornam-nos presa dum jogo político complexo e artificial. A isso podem resistir as relações veneráveis. Desde que a inteligência vá à frente a desbravar o caminho.

O homem respeitado liga-me a esse olhar exigente que não pisca. Suponho que um partido nunca terá a vida necessária para obrigar assim alguém a uma moral. Mais, a expectativa dos outros, satisfeita no passado e sempre convencida do seu direito é uma força básica da personalidade. Não se pode mudar de testemunhas, como se muda ou se pode mudar de ideias. Mas que conflito não vive a alma quando os contemporâneos mais próximos obrigam as ideias do passado a comparecer em tribunal!

sexta-feira, 27 de abril de 2007

ACÇÃO E CINISMO


Peter Sloterdijk

"Quem diz "desenvolvimento" e aprova os fins do desenvolvimento, encontrou uma perspectiva na qual pode justificar aquilo que serve o desenvolvimento. A "evolução" (progresso) é por isso a teodiceia moderna; essa teodiceia permite a última interpretação lógica da negatividade. No olhar evolucionista sobre quem deve sofrer e quem perecer, o cinismo intelectual moderno desempenha já o seu papel inevitável; para ele, os mortos são o adubo do futuro. A morte dos outros aparece-lhe como a premissa, tanto ontológica quanto lógica, do sucesso da "sua própria causa.""

"Critique de la Raison Cynique" (Peter Sloterdijk)


A "certeza", quer ela provenha da crença numa religião ou da crença na ciência é paranóica.

Mas a um certo nível, a modernidade perdeu já as ilusões do racionalismo, e daí, o cinismo intelectual.

Enquanto que a crença numa ideia como a do desenvolvimento faz parte duma natureza segunda (parece impor-se espontaneamente), herdada da idade de oiro da Razão. Os que crêem nela vivem ainda na "História" e por todo o lado vêem as consequências necessárias de uma lei. Os próprios danos colaterais já não reclamam uma solução, mas uma atitude.

O que se pergunta é se os cínicos são capazes de sair de uma posição de espectadores?

Peter Sloterdijk vem a Serralves no próximo dia 3 de Maio.


Alcobaça (José Ames)

O AMIGO DO POVO


Jean-Paul Marat (1743/1793)


O homem que no "Amigo do Povo" denunciava à justiça popular "todos os nomes que lhe ditavam", com moradas e tudo, para que "fossem degolados sem terem de procurar" e que confessou ter, "na sua precipitação", confundido uma vez La Salle com o marquês de Sade, esse homem, Marat, era capaz de dizer, segundo Michelet, estas palavras espantosas sobre si próprio: "Creio ter esgotado todas as combinações do espírito humano sobre a moral, a filosofia e a política."

Michelet diz também que a sua jovem cabeça fora esquentada pela educação dos pais que pretenderam, a todo o custo, fazer dele um grande homem, um Jean-Jacques. E o historiador remata dizendo que, em vez disso, fizeram dele o "macaco de Rousseau".

Ora, quando um louco como este, emergindo do sapal da revolução, se torna um ídolo popular, o símbolo da própria justiça, uma justiça encovada e de aspecto cadaveroso, é difícil não pensar num povo arrebatado por uma qualquer pulsão de morte.

Foi um desses terríveis momentos da história em que toda a sociedade se tornou uma sociedade policial, e cada patriota um delator.

Ainda não existia, como hoje, o órgão que contivesse e chamasse a si essa função.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

A CRÍTICA DO BISPO


George Berkeley (1685/1753)


"Se levantarmos o véu e olharmos por baixo (...), devemos descobrir muito vazio, escuridão e confusão, ou melhor, se não me engano, impossibilidades e contradições óbvias (...). Não são nem quantidades finitas, nem quantidades infinitamente pequenas, nem sequer nada. Não poderemos chamar-lhes fantasmas de quantidades desaparecidas?"

(Bishop Berkeley, "The Analyst", citado por Charles Seif ,"Zero - Biografia de uma Ideia Perigosa")


Berkeley foi para mim, durante muito tempo, o próprio símbolo de um idealismo "sem os pés assentes na terra". De um "o Mundo é o meu sonho", como diz Karl Popper.

Mas o famoso bispo de Cloyne reclamava-se apenas do mais estrito senso comum, mesmo quando impugnava a realidade de alguns conceitos de Newton. O que ele dizia era que esses conceitos eram apenas nomes a que não correspondia nada que pudesse ser provado, como é o caso da ideia de força.

E nisso parece que foi profeta, porque o grau de certeza a que ciência hoje pode chegar é simplesmente conjectural. É claro que isto é mais do que aquilo que George Berkerley estaria disposto a conceder.

A citação vem a propósito dos entorses à matemática que alguns cientistas no seu tempo se viram obrigados a fazer por causa do zero (um número indigesto para a herança greco-cristã). Os cálculos de Newton funcionavam bem, e funcionaram durante os séculos seguintes, mas havia uma anomalia, e, em nome do rigor, Berkeley tinha razão.

Não importa que estivesse convencido de que só Deus podia explicar os segredos da Natureza, crença que impede qualquer progresso, mas que, sem embargo, pode, esplendidamente, motivar a crítica do conhecimento, como se viu no caso, redundando, assim, no sucesso de teorias "com os pés assentes na terra".


(José Ames)

ROMA, CIDADE ABERTA


"Roma, cidade aberta" (1945-Roberto Rossellini)


Através das várias histórias da resistência contra o ocupante, prepara-se a crucial cena da morte do chefe comunista às mãos dos seus torcionários, sem que lhe tivessem arrancado uma palavra.

D. Prieto (Aldo Fabrizio), o padre católico, também ele apanhado pela Gestapo, é testemunha desse heroísmo, e o facto do herói não acreditar em Deus só pode encher de júbilo o sacerdote, por revelar, não só os "ínvios caminhos" da Providência, mas a capacidade humana de resistência ao mal.

Esta crença no Homem que persiste em todos os filmes de Rossellini não é uma crença optimista. Para que o mal exista em toda a sua força é preciso que seja encarnado. Apesar da nota discordante do oficial alemão embriagado que destila o seu derrotismo, ou do comandante impressionado com a apóstrofe do padre sobre o cadáver de Manfredo, os alemães são representados com o traço rápido da caricatura, sempre do exterior e quase sem psicologia.

Nesse sentido, o filme sofre da sua proximidade com o tempo da guerra e não se aparta das regras do género.

A grandeza do cineasta está, porém, na autenticidade das suas personagens, como a da senhora Pina, interpretada por essa genial Ana Magnani, ou de D. Pietro, no detalhe realista, na sua crença de que a verdade só se deixa surpreender de improviso, sem grandes artifícios técnicos e contando com o imprevisível da própria representação de actores sem prática, como os que foi buscar à população de Maiori, e aos pés dos quais, segundo o testemunho da Bergman, prendia um cordão para os alertar de quando deviam dizer a sua deixa.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

A LEITURA NO ECRÃ


Friedrich Heinrich Füger, Marie-Madeleine

"O acto clássico de leitura, tal como o tentei definir no meu trabalho, requer possibilidades de silêncio, de intimidade, de cultura literária (literacy) e de concentração. Na falta de uma leitura séria, uma resposta aos livros que seja também responsabilidade é irrealista."

"Les logocrates" (George Steiner)


Apesar da conclusão de um estudo recente, estou convencido que a leitura no ecrã (com a tecnologia actual) não responde a nenhum daqueles critérios, à excepção da cultura literária, claro, mas que, neste caso, é uma disposição embargada.

Não conheço nenhum computador verdadeiramente silencioso, nem nenhum ecrã realmente "amigável", visto que o seu brilho cansa demasiado os olhos e impele a uma leitura apressada.

Quanto à concentração não pode ser a melhor com o ruído da ventoinha e a agressão visual.

Espero por isso o novo "salto tecnológico" destas maravilhosas máquinas, quando se resolver o problema do sobreaquecimento do material e os ecrãs forem tão inertes como uma folha de papel.

Mas evidentemente que me fiquei pelas condições técnicas da leitura electrónica.

Que dizer do acréscimo desesperante do ruído no nosso ambiente (Steiner fustiga, quanto a mim sem razão, o rock) e do défice na capacidade de concentração com que as crianças chegam à escola?


Serra do Pilar (José Ames)

DE PILOTOS E GOVERNANTES


1698-Academia Francesa


"O que acontece é que os esforços se concentravam primeiro no problema do modo como se poderiam formar os governantes e os guias do povo, e só em segundo lugar nos meios pelos quais estes homens dirigentes poderiam formar o conjunto do povo.

É este desvio do ponto de enfoque, que no fundo parte já dos sofistas, que distingue o novo século do anterior. E marca também o início de uma época histórica. É precisamente este novo objectivo que faz surgir as academias e as escolas superiores."

"Paidéia" (Werner Jaeger)

Devido à perda de influência, no século IV (a.C.), de forças como "a religião, os usos sociais e a "música", da qual na Grécia sempre fez parte a poesia, a grande massa furtava-se cada vez mais à acção modeladora do espírito e, em vez de beber nas fontes mais puras, buscava a sua expansão em substitutos de baixa qualidade." (ibidem)

A essa degradação do gosto colectivo terá sido sensível o criador da Academia, já de si naturalmente adversário da democracia, e para quem a questão de saber quem devia governar era a mais importante da política.

A comparação ( abusiva, segundo Karl Popper ) do governo com a função do piloto no alto mar obriga ao reconhecimento de que é o conhecedor da "arte" quem deve governar.

Mas não sei se no tempo de Platão não era praticável e compatível com alguma espécie de controle popular um governo de homens excepcionais. Em todo o caso, isso não seria, nessa altura, pior do que uma democracia integral (sem a moderação de um "conselho", por exemplo).

Essa situação é, porém, impossível nos nossos dias, dado o enorme poder do Estado que abriu a possibilidade de um mal ilimitado e o facto da sociedade se ter tornado tão complexa que nenhum saber privilegiado é já possível, de modo que, como diz Popper, só nos resta garantir que os governados possam expulsar um mau governo, sem recurso à violência.

Para terminar, uma outra questão muito interessante. O carácter elitista que presidiu à criação do ensino superior, como se vê no texto de Jaeger, nunca foi desmentido nos tempos subsequentes, até à altura em que a democratização levou ao absurdo esse espírito de formação de elites dirigentes.

Parece, pois, que o primeiro passo para sair da crise da universidade será acabar com a ideia de um qualquer direito ao poder através do conhecimento.

terça-feira, 24 de abril de 2007

ECOS DA BASTILHA


"Quanto mais não fosse por consideração por todo o bem que a senhora duquesa faz em casa e na paróquia, dizia o senhor de Guermantes, é uma infâmia da parte desse quidam reclamar-nos o quer que seja." Mas Jupien tinha-se mantido firme, parecendo desconhecer de todo o "bem" que a duquesa poderia ter feito. No entanto, ela fazia-o, mas, como não se pode estendê-lo a toda a gente, a recordação de ter contentado um era uma razão para se abster em relação a um outro, excitando neste um tanto maior descontentamento ."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Está aqui, como que recolhido na concha do tempo, um eco da luta de classes.

Os privilégios foram definitivamente julgados pela grande Revolução. Assim, nesta sociedade que ainda sonha com a guilhotina, os ricos procuram desculpar-se através da beneficência.

Mas vemos por que mecanismo a boa-consciência se obtinha a um preço módico.

Os tempos difíceis da emigração estão sempre presentes no espírito dos nobres. Uma reviravolta é sempre possível, e "prudence oblige".


(José Ames)

A ESCOLHA DO DIABO



"O argumento do mal menor desempenhou um papel de primeiro plano na justificação moral que tentaram apresentar os servidores do regime. Trata-se de um argumento que se desenvolve, dizendo que, quando somos confrontados com dois males, o nosso dever é escolher o mal menor, ao mesmo tempo que recusar essa escolha constitui uma atitude irresponsável."

"Responsabilidade e Juízo" (Hannah Arendt)


Este argumento permitiu aos dirigentes nazis fazer aceitar o inaceitável, até o ponto em que o mal menor já não se distinguia do pior possível.

Hannah Arendt acrescenta que, à excepção de Kant, não veio da filosofia a intransigência contra este argumento, mas da religião.

Assim, no Talmude: "se nos pedirem que sacrifiquemos um homem em benefício da segurança de toda a comunidade, não o devemos entregar; se nos pedirem que cedamos para ser violada uma mulher em troca da salvação de todas as mulheres, não a devemos ceder."

"(...) Politicamente a fraqueza do argumento do mal menor está no facto de aqueles que o escolhem se esquecerem sempre e muito rapidamente de que escolheram um mal." (ibidem)

Nós temos uma expressão para um dilema destes: "entre os dois, venha o diabo que escolha."

Não há dúvida, todavia, que no menor dos males existe uma aparência de razoabilidade perante as opções a que não podemos escapar, mas muitas vezes é apenas a nossa falta de coragem que encontra um aliado na razão.

Hannah Arendt refere-se à polémica em torno da peça de Rolf Hochhuth, "O Vigário". Foi em nome do mal menor que a Igreja adoptou perante o regime hitleriano e o holocausto uma atitude que muitos consideraram de conivência.

Se Pio XII tivesse aberto essa "frente" espiritual, talvez se tivesse antecipado o fim das atrocidades. E que revolução isso não seria!

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O POVO VAI PARA O CÉU


Camille Desmoulins (1760/1794)


"Acreditavam no povo, tiveram fé no instinto do povo. Puseram ao serviço desta fé, para a justificarem perante si mesmos, muito espírito, muito coração. Nada mais comovente, por exemplo, do que ver, nos cruzamentos do Odéon e da Comédie-Française, o encantador espírito, Camille Desmoulins, misturando-se com os pedreiros e os carpinteiros que filosofavam à noite, falando de teologia com eles, justamente como o teria feito Voltaire e, encantado com o seu espírito, exclamar: são atenienses!"

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Esta passagem diz-nos muito sobre a teatralidade com que Michelet nos envolve nas suas descrições. Estamos a ver o fogoso redactor do "Le Vieux Cordelier" a debater com os pedreiros filosofia, como Simone Weil, mais de um século depois.

Mas vemos também a sugestiva poesia dos mitos. O da Antiguidade Clássica, das discussões na Ágora, de Sócrates convocando o jovem escravo, no "Menon", para demonstrar a ideia inata da geometria. E o do povo, criação do romantismo e, sobretudo, de Rousseau.

É esse o mito que está presente ainda em "A mãe", de Máximo Gorki, e em outras obras do realismo socialista.

A ideia de que só falta ao povo a ilustração e o tempo livre que a burguesia desperdiça para a libertação da Humanidade.

Porém, hoje, quando tanto a ilustração, massificada embora, e o tempo livre estão ao alcance do grande número, percebemos quanto as ilusões românticas eram isso mesmo: ilusões.


Monsarraz (José Ames)

A CALMA DOS DEUSES


Paul Valéry em 1940

"Ce toit tranquille, où marchent les colombes,
Entre les pins palpite, entre les tombes;
Midi le juste y compose de feux
La mer, la mer, toujours recommencée!
O récompense après une pensée
Qu' un long regard sur le calme des dieux!"

"Le Cimetière Marin" (Paul Valéry)


Por que é que o meio-dia é justo, como se a justiça já estivesse no céu antes da primeira injustiça?

"Calma dos deuses"..., "paz", isso exprime que as coisas estão em repouso por oposição ao homem que procura, que não encontrou, que pensa no futuro como uma estrada, e que se consome a desintrincar o saber do sonho."

Porque "o sonho exprime o universo total de que o homem é uma parte. O puro contemplativo esquece-se de si; não faz a cisão entre o seu conhecimento do mundo, o eu e a coisa. Este género de conhecimento é o puro olhar." (comentário de Alain)

O que é que acaba no mar e que cemitério é este?

A perpétua mobilidade do mar é o túmulo de toda a forma, a imagem do ser de Parménides.

Daí a recompensa depois de se dar a volta ao objecto do espírito sem poder constitui-lo na permanência.

domingo, 22 de abril de 2007

PALAVRAS JACENTES



"Ensinar, pequeno, não é divertido! Não falo daqueles que se safam com algumas frioleiras: tu verás que chegue no decurso da tua vida, aprenderás a conhecê-los. Verdades consoladoras, dizem eles. A verdade, primeiro liberta, depois consola. Mas por que não condolências? A palavra de Deus! é um ferro em brasa. E tu que ensinas, querias pegá-la com pinças, com medo de te queimares, não a seguravas com ambas as mãos? Deixa-me rir."

"Journal d'un curé de campagne" (Georges Bernanos)


Chame-se-lhe a verdade do Evangelho, ou a verdade, sem mais.

Poderá aquele que ensina ser um veículo inerte apenas, confiando talvez em que o que debita se impõe pela sua própria força?

Não tem toda a palavra jacente (a dos livros, mas também a da moderna memória artificial) que ser "ressuscitada" e "encarnada" numa voz, num "testemunho"?

Na situação "interactiva" do que aprende com uma máquina nunca acontece o milagre.


(José Ames)

WELCOME TO THE MACHINE



"A utopia abstracta seria demasiado facilmente compatível com as mais astutas tendências da sociedade. Que todos os homens sejam iguais é justamente o que a ela se ajusta. Considera ela as diferenças reais ou imaginárias como estigmas que testemunham que as coisas ainda não se levaram demasiado longe; que há algo subtraído à maquinaria, algo não inteiramente determinado pela totalidade. A técnica do campo de concentração acaba por fazer dos prisioneiros os seus guardas, dos assassinados os assassinos. A diferença racial leva-se ao absoluto, a fim de absolutamente se poder eliminar, o que aconteceria quando já nada restasse de diferente. Uma sociedade emancipada não seria, todavia, um estado uniforme, mas a realização do geral na conciliação das diferenças."

"Minima Moralia" (Theodor Adorno)


É certo que o papel de cada um o modifica, a ponto do que faz de carcereiro ser também, em certa medida, carcereiro de si próprio.

Mas se o inumano ficou artificialmente nivelado nos campos de concentração, por outro lado, exacerbaram-se as diferenças de poder, o qual, sem qualquer função social já, se tornou puramente mecânico.

"O que os Alemães fizeram esquiva-se à compreensão, sobretudo à psicológica, pois as atrocidades parecem de facto ter sido praticadas mais como medidas de terror cegamente planificadas e alienadas do que como satisfações espontâneas. Segundo os relatos de algumas testemunhas, sem prazer se torturava, sem prazer se assassinava, e justamente por isso para lá de toda a medida." (ibidem)

sábado, 21 de abril de 2007

OS FILHOS DE SATURNO


"Danton" (1982-Andrzej Wajda)

Há detalhes que valem mil explicações. Quando a governanta de Robespierre, no filme de Andrzej Wajda, esbofeteia a criada por seguir de olhos gulosos o "Incorruptível", na sua casaca verde "severamente escovada" (Michelet), porque: "não se olha assim o cidadão Robespierre!", percebemos na expressão reprimida da mulher do povo o fascínio que une a sexualidade e a morte.

Os revolucionários não dormem, desde o Comité de Salvação Pública, e tudo no cenário indica o carácter opressivo da urgência, como se a fadiga colocasse aquele punhado de homens sob o signo de um deus malévolo que se fizera passar pela História.

Há uma cena, em John Reed, em que também Lenine descansa, entre reuniões, deitado no soalho.

Wajda dá-nos uma lição de política na maneira como Robespierre, que se opõe, de início, contra quase todos os outros, à prisão de Danton (em nome da dívida de gratidão que a Revolução tem para com um tal homem), alcança o consenso, depois de um momento de reflexão em que esconde o rosto entre as mãos (- Mas tu estás a rezar, Maximilien!).

Sem responder ao colega que insinua um recolhimento religioso no antigo protegido do bispo de Arras, Robespierre, num volte-face, alia-se à maioria considerando Danton culpado de traição, mas argumenta que, apesar disso, não deve ser preso no interesse da Revolução...


Leiria (José Ames)

PROMETEU ATRAIÇOADO


Prometeu

"Em nenhum momento, as forças da cultura e da recepção humanistas impediram o triunfo da barbárie. Continuaram a fazer-se sob o Reich investigações de primeira ordem, em filologia, em história antiga e medieval. Como disse Gadamer, numa forma verdadeiramente assustadora, bastava saber conduzir-se manierlich ( ter boas maneiras, mostrar-se respeitoso das convenções) em relação ao regime nazi para poder seguir uma brilhante carreira de docente e continuar a estudar os clássicos. A única precaução indispensável: não ter cometido a indiscrição de ser judeu!"

"Les logocrates" (George Steiner)


Esta capacidade de conviver com o mal absoluto, sem se sentir tocado no mais profundo do ser, esclarece rudemente, quanto a mim, o papel da razão, em cada homem, como a continuação do instinto por outros meios.

Justificando o injustificável (se o homem e não a vida for a referência), fornecendo toda a espécie de argumentos apaziguadores da consciência e enobrecendo actos e omissões, apenas motivados pelo interesse ou o egoísmo, até ao ponto em que não mais se distinguirá da loucura ( que também se poderia definir pela ausência de medida comum entre os homens).

Porque há um momento em que este oportunismo da razão, como segundo instinto, a desqualifica como um abuso da ferramenta prometeica.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O HÍFEN DA FORMA



"O aforismo de Nietzsche - "o grau e o tipo de sexualidade de um homem chegam ao último pino do seu espírito" - é algo mais do que um simples facto psicológico. Porque as mais distantes objectivações do pensamento se nutrem dos impulsos, ele destrói nestes a condição de si mesmo."

"Minima Moralia" (Theodor Adorno)


Sim, ou como dizia Alain, nós nunca iniciamos nada, apenas continuamos, com uma pequena manobra do leme, um movimento da natureza.

A ideia da sublimação sexual é portanto verdadeira, mas só a questão do grau pode torná-la significante.

Sem o carburante dos sonhos, do desejo, da nossa forma com hífen (como em corpo-espírito) ou sem ele, as ideias seriam imediatamente "universais", clones inúteis umas das outras.


(José Ames)

INVENCÍVEIS TENTAÇÕES


Hannah Arendt (1906/1975)


"Tomara, de certo modo, como um dado adquirido que todos nós julgamos, como Sócrates, que é melhor sofrer a injustiça do que praticá-la. Mas foi uma convicção que se revelou equivocada. Havia uma convicção generalizada segundo a qual é impossível resistir a qualquer espécie de tentação, e não se pode acreditar ou sequer esperar que algum de nós se mostre digno de confiança quando as coisas começam a correr mal, de tal maneira que ser-se tentado e ser-se forçado seriam quase a mesma coisa (...)"

"Responsabilidade e Juízo" (Hannah Arendt)


Quando esta é, de facto, uma convicção generalizada e espontânea, digamos assim, para a distinguir, por exemplo, de uma interiorização da censura ou de uma distorção do juízo provocada pelo medo da repressão em pessoas normalmente inteligentes, então a expressão adoptada por Hannah Arendt, a propósito do processo de Eichmann, de banalidade do mal, tem todo o sentido.

E não apenas aplicada ao caso daquele indivíduo que se considera uma peça da engrenagem e que tanto pode empenhar-se na produção de sabão para uso humano, como na utilização de humanos como matéria do sabão.

No seu relativismo "descomplexado", que é o paroxismo dos complexos, ninguém expressa melhor do que Oscar Wilde este momento da cultura, quando disse que era capaz de resistir a tudo... menos à tentação ("Lady Windermere's fan").

quinta-feira, 19 de abril de 2007

AS BLUSAS DE VIENNA


"Johnny Guitar" (1954-Nicholas Ray)


Aquele início de "Johnny Guitar" no "saloon" de Vienna, perdido na tempestade de pó do deserto, sem clientes, mas com a roleta a girar e o empregado do bar suspenso da palavra que a sede há-de ditar nos lábios do improvável forasteiro, faz-me lembrar a paranóia de alguns lugares artificiais, em que nem mesmo a multidão consegue esconder o vazio que os "consome".

Quem viu a Crawford como "mulher fatal" ou "lady as a tramp", reconhece que tudo isso ficou para trás, e o sexo vacilante da patroa do "saloon", o fascínio do poder na sua voz, vão revelar um feminino mais vibrante ainda.

Quando Vienna, sentada ao piano, enfrenta o bando de energúmenos conduzidos por uma Fúria (Emma) e se ergue, no seu vestido branco (quanto é aqui voluntariamente confuso este símbolo!), para assumir um ambíguo discurso do progresso, eles sabem muito bem por que a querem "linchar", apesar de inocente. Vêem nela a ameaça futura aos seus interesses, com a nova cidade que o caminho de ferro vai fazer crescer no deserto.

Como se não fosse a "hubrys", a ambição pessoal de Vienna que lhes fazia frente!

E neste filme tão maravilhosamente pictórico, haveria que glosar interminavelmente a vibração que provoca na atmosfera o amarelo ou o vermelho das blusas de Vienna.

Tem razão Martin Scorcese ao considerar este um filme hipnótico.


Espinho (José Ames)

PARAR É CAIR


A segunda Guerra Púnica

"Contra todas as razoáveis e ponderadas advertências de Nícias, que advoga a paz, Alcibíades desenvolve o seu emocionante e ambicioso plano de conquista da Sicília e de domínio da Grécia inteira, explicando que a expansão de um poder como o ateniense não se pode "racionar". Quem o possuir só poderá conservá-lo se o estender cada vez mais, pois qualquer pausa representará um perigo de ruína."

"Paidéia" (Werner Jaegar)


É sabido como este argumento, aparentemente baseado na mecânica (já se aplicou na metáfora da Revolução como uma bicicleta), tem servido em todos os actos imperialistas da história e inspirou, por exemplo, o conceito de Blitzkrieg, a acção que surpreende o inimigo sem lhe dar tempo de se preparar.

Explica-se, assim, a derrota dos cartagineses nas "delícias de Cápua", que se seguiu à fulgurante arremetida de Aníbal.

Mas é um argumento que ignora o efeito do tempo nos assuntos humanos e leva a que se sobrestime a importância da força actual.

A "expansão" defendida por Alcibíades só se podia conservar mediante uma força muito maior do que a necessária à conquista.

Mas que lhe importava isso, se obtivesse a glória?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

O FANTASMA APAIXONADO


"O fantasma apaixonado" (1947-Joseph L. Mankiewicz)

Mrs. Muir (Gene Tierny), uma bela viúva, apaixona-se por uma casa assombrada pelo espírito do capitão Gregg (Rex Harrison).

Este faz com ela uma espécie de pacto. Para poder comprar a casa, o fantasma dita-lhe as suas memórias, que são imediatamente um sucesso.

Mas o espírito retira-se diante do primeiro concorrente de carne e osso (George Sanders) que, afinal, se revela indigno da paixão que desperta.

Mrs. Muir vive então o resto da sua vida na memória do que, retrospectivamente, lhe parece o seu único e verdadeiro amor: o amor pelo fantasma.

O génio de Mankiewicz quase nos leva a confundir o que realmente se passou (o amor desiludido) com o que se teria passado apenas na cabeça de Mrs. Muir.

O amor pode então viver apenas da ideia do amor?


(José Ames)

O TEATRO DAS IDEIAS


O Clube dos Jacobinos


"Os frades arrendaram o seu refeitório por duzentos francos, e por outros duzentos francos o mobiliário - mesas e cadeiras. Mais tarde, como o local não chegasse, o clube conseguiu que lhe emprestassem a biblioteca e por fim a igreja. As sepulturas dos antigos frades, a escola sepultada de São Tomás, os confrades de Jacques Clément, foram assim as mudas testemunhas e os confidentes das intrigas revolucionárias."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


E assim os frades arranjaram lenha para se queimarem...

Sem doutrina, sem saberem muito bem o que queriam (no princípio eram todos monárquicos), vagamente inspirados pelo "génio da Antiguidade", de que "pelo menos sentem a austeridade moral" (contra o deboche aristocrático), "a força estóica, e nelas bebem a inspiração das devoções civis", os Jacobinos "não são a Revolução, são os olhos da Revolução, são os olhos para vigiar, a voz para acusar, o braço para bater." (ibidem)

Os Jacobinos sabiam só o que não queriam, mas sabiam-no como o estômago "sabe" o que lhe faz mal.

E foi preciso que o Antigo Regime tivesse sido "simplificado" até a um estilo, uma linguagem, uma mentalidade, quando todas as aparências de uma casta com violência contrastavam contra as ideias do século. Tudo "providencialmente" preparado pela separação suicida empreendida desde Luís XIV em Versalhes, que colocava, como no teatro, a corte opressora no centro do palco, debaixo da luz libertadora da filosofia, para que a decapitação do rei assumisse quase a forma de um silogismo da Razão.

terça-feira, 17 de abril de 2007

A VOZ DO NUNCA VISTO



"A voz de uma mulher ao telefone permite dizer se quem fala é bonita. O timbre reflecte como segurança, naturalidade e tranquilidade todos os olhares de admiração e de desejo que alguma vez lhe foram expressamente dirigidos. Ela expressa o duplo sentido da palavra latina gratia: agradecimento e graça. O ouvido percebe o que é próprio do olho, porque ambos vivem da experiência de uma mesma beleza. Esta é reconhecida já no primeiro momento: notificação íntima do nunca visto."

"Minima Moralia" (Theodor Adorno)


Como se se aplicasse aos sentimentos e às ideias a lei de Lavoisier.

A matéria também tem memória.

No outro dia, o ortopedista disse-me que os Raios X têm uma propriedade aditiva: as novas radiações somam-se às antigas que são "conservadas" nos nossos ossos.

O nosso ouvido ao telefone é então como um contador Geiger reconhecendo o efeito sobre a voz que se ouve da radiação da beleza.


Porto (José Ames)

RETROPROJECÇÃO



"Quem sabe se os Gregos, precisamente na riqueza da sua idade juvenil, não quiseram o trágico, não foram pessimistas? Quem sabe se não foi o delírio, para retomar uma expressão de Platão, que espalhou sobre a Hélada os maiores benefícios e se, por outro lado e inversamente, os Gregos, na época da sua deliquescência e da sua fraqueza, não se tornaram cada vez mais optimistas, superficiais, declamatórios, ferrenhos da lógica, desejosos de reduzir o universo à lógica, portanto, também mais "serenos" e mais "científicos"?"

"O nascimento da tragédia" (Friederich Nietzsche)


O racionalismo, vê-se, está aqui no banco dos réus, como um sinal de que o homem se separou do ser universal e da sua força misteriosa, para se entregar à ilusão de que se criou a si próprio e ao ideal de viver uma vida controlada.

O optimismo é filho dessa ilusão e da superficialidade da lógica.

Mas estará o pessimismo melhor fundamentado? E não é a idade juvenil, justamente, superficial e calculando mal a sua força, por natureza optimista?

O pessimismo de Nietzsche tem essa qualidade anti-burguesa, comum a todo o profetismo da época, que o leva a projectar no passado a pulsão suicida da sua classe.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

A MARILYN DE WARHOL


"Marilyn" (Andy Warhol)


"O desejo é a infelicidade do feliz."

Emmanuel Lévinas


A insatisfação do desejo está para a felicidade como a dúvida está para a fé.

Esta torna-se num simples teorema, num objecto em que já não estamos, quando deixamos de a pensar desde a origem, como algo a que podemos faltar.

Pois o que seria a felicidade "conquistada", senão uma espécie de mausoléu?

Uma fotografia do efémero reproduzida mecânicamente como a Marilyn de Warhol?


(José Ames)

A ESPADA DE PAULO


San Paolo fuori le mura, Roma (José Ames)

"Não é só que Paulo de Tarso seja, muito provavelmente, o adido de imprensa e o virtuoso de relações públicas mais capaz de que temos memória, ele foi também, muito simplesmente, um dos muito grandes escritores da tradição ocidental. As suas epístolas contam-se no número de obras-primas duráveis da retórica, da alegoria estratégica, do paradoxo e da "peine cuisante" de toda a literatura. O simples facto de S. Paulo citar Eurípides atesta um "bookman", um homem do livro quase nos antípodas do Nazareno que ele metamorfoseia em Cristo. São muito raras na história as figuras - pensa-se em Marx, em Lenine - que tenham rivalizado com a soberania pauliniana em matéria de propaganda, no sentido instrumental e etimológico de propagação didáctica, ou com a sua intuição de que os textos escritos transformariam a condição humana."

"Les logocrates" (George Steiner)


Pensar que sem um intérprete com o génio de Paulo, o movimento cristão teria provavelmente ficado por uma grande oportunidade perdida, reduzido às dimensões de uma das muitas seitas que apareceram na região!

À entrada da sua basílica, em Roma, é a espada e a fronte carregada que nos impressiona na sua estátua. O paradoxo de uma religião do amor que se revê nesta "terribilità", neste zelo de separar, através de um sinal, os homens uns dos outros, está na origem da tradição guerreira de alguns papas, como Júlio II, que nem por um momento duvidaram de que a paz não é nunca um dado.

domingo, 15 de abril de 2007

NÃO SE DENUNCIA O ÓBVIO



Como a indicar, com Baudrillard, que hoje em dia tudo se recicla, "O Caimão" (2006-Nanni Moretti) começa pela redescoberta do rebotalho dos anos 70, retrospectivamente enobrecido sob o título de um "protesto contra o cinema de autor".

No seu estúdio cercado pelos credores, Bruno Bonomo encara o projecto duma jovem inexperiente de um filme anti-Berlusconi, sobre a Itália dos últimos 30 anos, como uma boa ideia para sair de apuros. Infelizmente, ninguém parece acreditar na necessidade de denunciar uma coisa que toda a gente sabe. É desse facto, dessa corrupção das consciências que vem a força de um personagem como Berlusconi.

O projecto tem de ser abandonado e Bruno volta à rotina, com a filmagem do regresso de um improvável Colombo na sua incrível caravela.

Mas o filme não acaba aqui. Numa espécie de post-scriptum em forma de parábola, assistimos ao julgamento e à condenação do magnata italiano, a que se segue a insurreição contra os juízes do "seu" público, essa criatura da televisão feita à sua própria imagem.

E é com esta profecia pessimista que Moretti ajusta contas com a política do seu país.


Pontevedra (José Ames)

EVASIVAS


Theodor Adorno (1903/1969)

"Na forma de umas tantas frases sobre a saúde e o estado da esposa, que precedem o almoço na conversa de negócios, está ainda aproveitada, inserida, a oposição à própria ordem dos fins. O tabu de falar de assuntos profissionais e a incapacidade de conversa recíproca são, na realidade, a mesma coisa. Porque tudo é negócio, nada de mencionar o seu nome, como acontece com a corda em casa do enforcado."

"Minima moralia" (Theodor Adorno)


Mas quando a "conversa recíproca" se resume a falar da agenda do telejornal, sem distância para um qualquer ponto de vista, é como se os novos Bouvard Pécuchet se limitassem a conferir o que ambos viram, às vezes, de companhia.

Não é realmente tão fácil quanto isso ter uma conversa pessoal. Para dizer como Adorno, o tabu que a impede é o de só falarmos de assuntos mediatizados. Tudo o resto é a agendazinha de cada um e o desporto nacional do "diz-se diz-se".

sexta-feira, 13 de abril de 2007

AMOR QUE NÃO PERDOA


"Medo" (1954-Roberto Rossellini)

Enquanto o marido está na prisão, Irene (Ingrid Bergman) envolve-se com Enrico.

Depois, perseguida pelo remorso, tenta abandonar o amante, mas sentindo-se igualmente culpada por isso.

É nesta angústia que lhe aparece a Sra. Schultze, que Enrico trocou por Irene, perseguindo-a com a chantagem.

À beira de perder a cabeça, Irene descobre que a chantagista é um instrumento do seu próprio marido que assim a pretendia castigar (vemos um exemplo do seu "rigor", quando pune os seus filhos por uma falta insignificante).

O segundo título do filme é "Non credo più all'amore".

No fundo, o que está em causa neste thriller psicológico, baseado num livro de Stephan Zweig, é a incapacidade de perdoar. É esse defeito de generosidade, nos homens que conhece, que não deixa qualquer esperança a Irene. No bilhete que deixou quando pensava no suicídio, pedia perdão e perdoava.

O princípio de uma justiça formal e segundo a letra que inspira a acção do marido condena definitivamente o amor.


"Azulejo" (José Ames)

A REVOLUÇÃO PAPAL


Demetrio, duque de Croacia y Dalmacia, recibido el título real
de un legado de Gregorio VII (1073-1085), promete realizar el óbolo de San Pedro


"O acontecimento sócio-cultural mais importante que se desenrolou no fim do século XI na Europa é usualmente chamado "Reforma Gregoriana". Rompendo com esta tendência, um historiador americano, Harold J. Borman, propôs que se chamasse a este acontecimento "Revolução Papal""

"O que é o Ocidente?" (Philippe Nemo)


O acontecimento, que envolveu Gregório VII e outros papas, antes e depois dele, foi uma reacção à perda de influência da Igreja pela fragmentação do poder no feudalismo, quando passou a reivindicar o poder mesmo sobre os reinos seculares.

"Gregório pôs este programa em execução com uma série de medidas espectaculares. Combateu a simonia (corrupção na nomeação dos cargos eclesiásticos), o nicolaísmo (vida marital dos padres) e as investiduras laicas. (...) Decidiu o celibato dos padres: o clero constituiu assim um corpo social independente, cujas riquezas já não poderiam ser dispersas e que ficaria inteiramente disponível para a sua tarefa pastoral." (ibidem)

Conseguiu-se " "recristianizar", quer dizer, polir e humanizar, o duro direito romano e "jurisdicizar", isto é, tornar mais prática, a invivível moral cristã. O efeito mais importante desta síntese foi o de promover o direito enquanto tal", donde emergiu "pouco a pouco o modelo do "Estado de direito" que estava destinado na Europa ao futuro que conhecemos." (ibidem)

As consequências do reforço do poder papal nos primeiros séculos do segundo milénio não serviram, pois, apenas os interesses da Igreja. Podemos ver em acção nesse esforço de unificação do poder uma racionalidade que deita por terra o mito do obscurantismo da Idade Média.

O nosso erro é sempre o de julgar o passado com as categorias do presente e esquecemos com a mesma facilidade que a luta de contrários nunca designa um princípio vencedor sem conservar o princípio vencido, às vezes como uma espada de Dâmocles suspensa.

Afirmações contraditórias podem sempre, por algum ângulo, ser verdadeiras. Por exemplo se se disser que a Igreja, nesse tempo, favoreceu o progresso da humanidade e que, simultaneamente, criou, com a Inquisição, o modelo da opressão dos espíritos.