quinta-feira, 22 de junho de 2017

(José Ames)

IMITAÇÃO EM CADEIA



Dans de salon de Madame Verdurin
http://www.gerard-bertrand.net



"Mas a imitação tem por condições, não somente a ausência de uma originalidade irredutível, mas ainda uma finura relativa de ouvido que permite discernir primeiro aquilo que se imita a seguir."

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust reflecte sobre o espírito de família de alguns cenáculos ou salões mundanos, em que as mesmas frases e entoações e os mesmos gestos são recorrentes.

Claro que ele não conhecia a rádio nem a televisão. Hoje o cenáculo é todo o país, e as ocasiões de se ouvir repetir vezes sem conta as mesmas coisas e de se "absorver" os tiques de linguagem e a pose das personagens que aparecem no pequeno ecrã são epidémicas e quase dispensam um bom ouvido para a "música".

Mesmo a originalidade não resiste a esse assédio, senão pela abstinência que, fatalmente, passa a ser vista como falta de maneiras e uma espécie de snobismo.

É ver em que se transformam os espíritos mais originais quando consentem em dar uma entrevista ou em participarem, com a melhor das intenções, num concurso ou numa mesa redonda.

terça-feira, 20 de junho de 2017

(Évora)

JUSTIÇA DISTRIBUTIVA


Above, from left: Justice légale with Fortitude,
Justice particulière , Mansuétude, Entrepesie; 
below : Justice distributive, Justice commutative.
Les éthiques d'Aristote


"O facto de um especulador, que por acaso faz uma suposição exacta, ganhar uma fortuna em algumas horas, enquanto que os esforços de toda uma vida de um inventor que foi ultrapassado de alguns dias por um outro podem ficar sem recompensa, ou que o penoso labor do camponês que permanece ligado à sua terra a custo lhe granjeie de que sobreviver, enquanto que um homem que gosta de escrever histórias de detectives se permite oferecer-se uma vida luxuosa, eis o que parece injusto à maior parte das pessoas. Compreendo o descontentamento gerado pela observação quotidiana de tais exemplos, e estimo o sentimento que reclama a justiça distributiva. Se a questão fosse de saber se preferimos que seja o destino ou uma força omnipotente e omnisciente que recompense as pessoas em função dos princípios da justiça comutativa ou da justiça distributiva, nós escolheríamos certamente a segunda solução."

"Essais" (Friedrich Hayek)

A demonstração por Hayek de que a justiça distributiva pressupõe a centralização e uma "hierarquia incontestável de valores" e, logo, a garantia de que as decisões, por mais subjectiva que seja a apreciação dos casos individuais e por mais discutível a atribuição do mérito de cada um, não poderão ser contestadas para que o sistema possa funcionar, parece-me de uma lógica irrecusável. Desde que se aceitem os limites da razão e daquilo que podemos saber sobre a sociedade humana, nos seus infinitos processos e interacções.

Mas as consequências indesejáveis para a liberdade ( e para a política na sua essência) são facilmente desvalorizadas se professarmos a fé num pretenso conhecimento das leis de desenvolvimento da sociedade, o que nos conferiria uma espécie de omnisciência, por sermos capazes de prever o futuro e também uma certa omnipotência se abríssemos o caminho a essas leis e as tomássemos como norte da nossa acção.

Infelizmente, a realidade não podia ter troçado mais dos nossos prognósticos, reduzindo a pretensa ciência histórica à pura jactância.

Claro que se podia, contra os princípios da justiça embora, defender que o sacrifício da liberdade seria compensador em termos de produtividade económica. Mas nem isso é defensável perante os factos. Parece óbvio que se as pessoas, os trabalhadores são o mais valioso dos recursos, será mais produtivo o que apelar para a sua capacidade de invenção e para o seu zelo do que a mera obediência a ordens ou o cumprimento de uma obrigação.

O sentido de algo tão impraticável, sem uma drástica "redução da complexidade" (Luhmann) social e política, como a justiça distributiva, verifica-se ao nível utópico, no plano da inspiração.

Porque podemos não ser omniscientes nem omnipotentes, mas o resultado de aceitarmos as nossas limitações só pode perpetuar a necessidade para além do que a nossa fraqueza justifica.

E é aí que a injustiça realmente começa.

segunda-feira, 19 de junho de 2017


(José Ames)

O TEMPO NARRADO

Franz Rosenzweig (1886/1929)

"Na obra de Rosenzweig, os momentos abstractos do tempo - passado, presente, futuro - são desformalizados; não se trata mais do tempo, forma vazia em que há três dimensões formais. O passado é a Criação. Como se Rosenzweig dissesse: para pensar concretamente o passado, é preciso pensar a Criação. Ou o futuro, e a Redenção; o presente é a Revelação."
"Entre nous" (Emmanuel Lévinas)

Podemos pensar o tempo como um movimento diferencial, ou como uma forma abstracta, tal como é medido pelo relógio.

Mas como é que as nossas vidas se inscrevem aí? O passado de cada um não é nada de formal. Tem flutuações, intensidades, lapsos e, talvez, uma direcção no sentido da morte.

Pensar concretamente o tempo há-de contemplar não só a passagem da vida, mas essa direcção para a transcendência.

E podemos ver como isto se assemelha a uma narrativa, condensada, por exemplo, no mito da Criação e da Redenção.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

(Covilhã)

O ESTADO INTERIOR


http://www.geocities.com/devoyault/actualite/


"A fina sensibilidade de Platão para tudo que é psíquico estende-se aos animais tanto como aos homens. Parece-lhe que em nenhum lugar como no Estado democrático os cães, os burros e os cavalos andam com tanta liberdade, com tanto desembaraço e com um tão grande sentimento de si próprios. Parecem querer dizer a todos os que encontram na rua: se você não sair da frente, não sou eu que lhe vou dar passagem!"

"Paideia" (Werner Jaeger)


Esta citação de "A República" fere os nossos sentimentos democráticos. Por que é que cães e gatos não deveriam sentir-se como iguais e disputar a "mão" uns aos outros nos passeios?

Mas compreende-se o ressentimento deste aristocrata, que tinha familiares ligados à chefia do Estado. E, talvez, nem seja caso disso. O grande desígnio de Platão não é a reforma do Estado, mas a da alma. O Estado, aqui, prende-se com o método. "E é assim que o pensamento grego sobre o Estado conduz em última instância à criação da ideia ocidental de personalidade humana livre." (ibidem)

E vejamos, enfim, em que é que a igualdade democrática tornaria essa personalidade, presa do vício essencial da democracia: a demagogia.

Em vez do homem que se orienta por princípios éticos e pelos ditames da razão, teríamos um energúmeno, em que o estômago ou o sexo teriam tantos votos quantos a capacidade de juízo.



quarta-feira, 14 de junho de 2017

(José Ames)

OS QUE NÃO QUEREM VER

"Cegos dirigindo cegos" (Pieter Breughel)

"Partindo da Boltzmanngasse, descia-se em alguns saltos a Strudlhofstiege e estava-se nessa maravilhosa galeria que já não existe e onde eu vi os meus primeiros Breughel. Pouco importa que sejam cópias - bem gostava de ver o ser inabalável, desprovido de sentidos e de nervos que, posto de repente diante desses quadros, se poria a questão: cópias ou originais? Para mim, poderiam ter sido cópias de cópias de cópias, isso nem me aquecia nem arrefecia, porque era a Parábola dos Cegos e o Triunfo da Morte. Todos os cegos que depois vi descendem do primeiro desses quadros."

"Le Flambeau dans l'oreille" (Elias Canetti)

Felizmente que é possível copiar uma obra-prima, sem o que nem o próprio Miguel Ângelo poderia ter esculpido as suas sublimes estátuas inspiradas nas da Antiguidade.

É claro que um texto não se funde tão intimamente com o seu suporte como um quadro ou uma escultura, e o que se perde é o contexto de uma língua viva. Mas isso também falta à arte de outros séculos para ser integralmente compreendida.

Há, pois, uma redução inevitável da realidade da obra, para além do que o processo de cópia acarreta. Se pensarmos que essa é a lei da nossa própria memória, visto que igualmente "reduzimos" a nossa experiência passada sempre que a evocamos, não podemos estranhar a fatalidade que atinge a cópia de um quadro como "A Parábola dos Cegos".

O alcance desta parábola é universal. Nós e o nosso semelhante podemos ver-nos, se quisermos, ali retratados. Basta que um homem reconheça que só sabe que não sabe para colocar todos os que julgam que sabem e os que arrastam consigo na situação dos mendigos de Breughel, a um passo da queda.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

(Toledo)

AS PERPLEXIDADES DUMA COZINHEIRA

A Cozinheira de Morse (Daguerre)

"A adesão à tradição é igualmente a razão do erro ainda mais fatal tanto de Marx como de Lenine, sustentando que a simples administração, por oposição ao governo, é a forma adequada do viver-juntos dos homens nas condições de uma igualdade radical e universal. Pressupunha-se que a administração seria o não-governo, mas de facto ela só pode ser o governo de ninguém, quer dizer, da burocracia, uma forma de governo em que ninguém assume a responsabilidade.
(...) O governo de ninguém governa muito efectivamente quando considerado do ponto de vista dos governados e, o que é pior, tem um importante traço em comum com o do tirano."
(...) Do ponto de vista dos súbditos a rede das normas em que se encontram presos é muito mais perigosa e mais mortal do que a simples tirania arbitrária."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

Esta visão administrativa resulta da ideia hegeliana das contradições superadas. Sendo a estrutura de classes a principal contradição, a sociedade sem classes seria, em princípio, uma sociedade em que o poder de uma classe sobre as outras, através do Estado, deixaria de ser necessário.

É surpreendente a dimensão do ponto cego desta análise que parece ignorar completamente a complexidade social, qualquer que seja a forma de governo, a ponto de se considerar que a sua administração não ofereceria dificuldade de maior e podia ser confiada a qualquer cozinheira.

O desaparecimento das classes, se fosse possível, não seria um factor de simplificação maior do que a consagração da divisão social em classes que ajustasse a ideologia à realidade.

O viver-juntos, como lhe chama Hannah Arendt, a uma escala que infinitamente ultrapassa a da ágora ateniense, desafia não só a nossa capacidade de conhecer a sociedade ( e o mundo ) em que vivemos, quanto a de nos organizarmos eficazmente.

Mas toda a inteligência e toda a boa-vontade e capacidade de iniciativa são poucas perante tal desafio, pelo que, pelo menos, devemos saber que tipo de organização não nos convém de todo por ser fatal àquelas virtudes.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

(José Ames)

A SANTIDADE POPULAR

Vendeia. Morte de Charette (1796)

"O maire republicano de Rennes, Leperdit, um alfaiate, que salvou esta cidade do Terror e da Vendeia, é um dia assaltado por uma populaça furiosa que, alegando fome, quer lapidar os seus magistrados. Desce, intrépido, do Hôtel de Ville, no meio duma chuva de pedras; ferido na fronte, enxuga-a e diz: "Não posso transformar as pedras em pão...Mas, se o meu sangue vos pode alimentar, é vosso até à última gota." E eles caíram de joelhos... Viam algo para além do Evangelho."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Michelet diz que a mulher foi o verdadeiro foco da contra-revolução na Vendeia. Ela recebia na igreja e no confessionário a centelha que ia depois, na intimidade do lar, incendiar a imaginação do camponês.

Embora a Convenção tivesse julgado a favor do camponês "o longo processo dos séculos, abolindo os direitos feudais, sem indemnização" e até os direitos censuais, não era o interesse económico que movia a revolta vendeana.

Só podemos admirar a inspiração desse maire republicano, ao servir-se dos próprios símbolos da religião para desarmar o fanatismo.

A analogia eucarística impediu um crime, por não ser de esperar de um "inimigo da religião". O historiador, apóstolo, sempre, da santidade do povo pretendeu ver aí uma revelação.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

(Braga)

A OBRIGAÇÃO DE TRESLER

La Chambre des Deputés

"Esta "trovoada de aplausos" arrebata as últimas resistências do leitor de bom senso; ele acha insultuosa para a Câmara (dos Deputados), monstruosa, uma maneira de proceder em si mesma insignificante; se for preciso, qualquer facto normal, por exemplo: querer fazer pagar os ricos mais do que os pobres, fazer luz sobre uma iniquidade, preferir a paz à guerra; achará isso escandaloso e verá aí uma ofensa a certos princípios nos quais ainda não tinha com efeito pensado, não inscritos no coração do homem, mas que emocionam fortemente, por causa das aclamações que desencadeiam e das compactas maiorias que congregam."

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust descreve a mudança de sentimentos operada no espectador (ou no leitor do jornal dos debates) de uma assembleia, por efeito dos gestos colectivos.

O homem de bom senso é demasiado ingénuo frente à subtileza dos políticos, subtileza que lhes vem da iniciação a certos rituais da assembleia e a esquemas de pensamento condicionados pela divisão dos partidos, entre o "nós" e o "eles".

E observa que "essa subtileza dos homens políticos que me servia para explicar o meio Guermantes e mais tarde outros meios não é outra coisa senão a perversão duma certa finura interpretativa, muitas vezes designada pela locução ler entre as linhas".

De facto, a ingenuidade é o pecado capital nas assembleias, precisamente, aquilo que nos faz tomar tudo à letra. Mas a subtileza de que fala Proust e que alimenta os sistemáticos mal-entendidos, tão produtivos para a lógica partidária, é uma pretensa inteligência, pois é ditada pela necessidade de se cultivar uma diferença, realmente, inessencial.