sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A LIÇÃO CHINESA


"Chung Kuo Cina" (1972-Michelangelo Antonioni)



Trinta anos depois, com a emergência da superpotência económica e as consequentes pressões sobre o seu perfil ideológico, ver a reportagem de Antonioni sobre a China (1972 -"Chung Kuo Cina") pode ser uma experiência didáctica.

Quando filmou os chineses nas suas ocupações, passeando uma câmara exótica pela paisagem humana que parece não ter sofrido recentemente as inclemências da Revolução Cultural e do Grande Salto em Frente, mostrando as tradicionais virtudes de paciência e sabedoria milenares, uma coisa nos impressiona em primeiro lugar, que é a disciplina omnipresente que a todos afecta, desde os operários e camponeses às criancinhas nas escolas, que nem sequer "costumam ter caprichos".

Ora essa ordem, presente em toda a parte, que afecta os gestos e as palavras (discute-se a produção entre as citações do livrinho vermelho) e parece transformar o país numa grande fábrica, impõe-se como uma necessidade antes de todas as outras, perante a ameaça, sempre à espreita, da fome e da violência, e toda a tentativa de comparar essa sociedade com a da Europa moderna e a problemática da sua organização, nem sequer é concebível.

O casamento da filosofia alemã com o Império do Meio tal como chegou ao século XX parece acidental e pouco terá sobrevivido de Hegel e dos seus discípulos nos aforismos do Grande Timoneiro. Mas a ideia do Estado Todo-Poderoso e de partido revolucionário, a que Lenine deu a forma rematada, desempenhou decerto um grande papel no esforço centralizador para transformar a China. E se a disciplina fabril, à escala do país, era necessária nos anos 70, sabemos como as coisas mudaram desde então, graças à nova política económica, para esperar grandes novidades nesse capítulo.

Significativamente, o partido é a última coisa a mudar.

terça-feira, 27 de novembro de 2007


Sameiro (José Ames)

O REALISMO MORAL


Conde de Saint-Simon (1760/1825)

"Desde há mais de uma centena de anos, os críticos do sistema da livre empresa recorrem ao argumento segundo o qual a simples organização racional da produção resolveria todos os problemas económicos. Em vez de enfrentarem o problema posto pela escassez, os reformadores socialistas tiveram sempre a tendência para negar a sua existência. Desde os saint-simonianos, a sua tese é que o problema da produção foi resolvido, e que só resta o da distribuição."

"Essais" (Friedrich Hayek)


Ninguém pensaria, numa sociedade em que o rei tivesse a única grande fortuna, que a simples redistribuição resolveria os problemas de todos.

Mas quando os ecrãs são múltiplos, a organização muito mais complexa, e em vez de se suportar o fausto de um monarca, temos o de algumas centenas de famílias ou de magnatas, quando, além disso, uma grande percentagem dos recursos é desviada para o armamento ou para a burocracia governante, a ideia de que o problema está só na distribuição impõe-se irresistivelmente.

Contudo, o problema pode continuar a ser, no fundo, o do primeiro exemplo. A escassez sempre a condicionar a satisfação por igual das necessidades de todos.

Mas há aqui, evidentemente, um vício de raciocínio.

Porque a hierarquia das classes e a blindagem dos interesses farão sempre obstrução ao esclarecimento do problema social e da questão de saber se uma distribuição mais justa é possível, sem violência, e indo ao encontro dos valores essenciais.

A solução natural desta dificuldade parece estar, assim, na constante adaptação do sistema, em que a pressão dos que se sentem prejudicados constantemente obriga os interesses instalados a ceder.

Mas como essa pressão é "cega" e se move apenas pelo interesse material, transforma-se no próprio nervo do espírito de competição que caracteriza o sistema.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007


(José Ames)

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

AS BOAS INTENÇÕES


http://www.deepstream.com/images/about_us/


"Se as importantes concentrações de capital que são as empresas pudessem ser utilizadas à discrição das direcções, para qualquer fim aprovado de um ponto de vista moral ou social, se o juízo duma direcção de um determinado fim, em função de razões intelectuais, estéticas, científicas ou artísticas devesse justificar as despesas da empresa, isso transformaria as empresas de instituições ao serviço de necessidades expressas pelos indivíduos em instituições que determinam quais os fins que os esforços dos indivíduos deveriam servir."

"Essais" (Friedrich Hayek)


E, a fim de salvaguardar o interesse público seria lógico, continua Hayek, que os "representantes designados do interesse público controlassem a direcção", ou, de outra maneira, aqueles que foram escolhidos pelos accionistas "pelas suas capacidades em domínios completamente diferentes" teriam um poder exagerado sobre a cultura, a educação ou o que é que fosse o fim de interesse público perseguido.

O único fim desejável das empresas seria, assim, o de "afectar os seus recursos ao seu uso mais rentável", sem que tenha o poder de escolher entre valores.

Há, evidentemente, nestas prevenções, um pessimismo fundamentado na experiência e na noção de que o indivíduo é sempre condicionado pela organização. Nesse sentido, é uma posição mais "materialista" do que aquela que aposta na bondade ou na maldade intrínsecas, ou em função dum critério social.

E ilustra perfeitamente o velho aforismo que diz que "de boas intenções está o Inferno cheio". Porque pode parecer uma boa ideia que as empresas persigam valores nobres ou filantrópicos, em vez de objectivos rasteiramente económicos, com a mira no lucro máximo.

No entanto, o poder negativo de algumas empresas não suficientemente controladas pelo interesse público não seria nada comparado com o que essas mesmas empresas teriam se pudessem substituir-se ao Estado e de algum modo determinar os valores da sociedade.

Cenário perigosamente próximo sempre que o Estado abdique de funções essenciais como a educação e a saúde.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007


Elvas (José Ames)

A FORÇA DO OBTUSO


Leonardo Fibonacci (1170/1250)

"Se bem que Leonardo Fibonacci tivesse demonstrado desde 1202, no Liber Abaci, a superioridade do método de cálculo utilizando os algarismos indo-árabes sobre os algarismos romanos, foi preciso esperar ainda muito tempo para que os algarismos - ditos árabes - se tornassem de uso corrente, tão tenaz foi a oposição que eles encontraram. A mais célebre tentativa de "censura" foi orquestrada pela Arte del Cambio, associação dos banqueiros florentinos que, em 1299, tentou interditar o uso dos algarismos indo-árabes na contabilidade. Esta interdição foi reiterada pelo menos três vezes antes de 1316. Longe de assinalar que ninguém utilizava os algarismos indo-árabes, estas disposições provavam pelo contrário a sua popularidade."

"L'invention du temps mesuré au XIII siècle" (Anna Maria Busse-Berger)


Este exemplo é elucidativo de que não basta a uma ideia inovadora a evidência das suas vantagens para ser adoptada.

O que os banqueiros florentinos tinham que mudar nas suas rotinas pesava mais do que essas vantagens.

Ora, os homens não mudaram tanto para que esta atitude não se possa verificar nos banqueiros do século XXI.

Toda a aparente iniciativa a favor das novas tecnologias, com a consequente obsoletização dos que "resistem à mudança", não revela uma menor quantidade de preconceito nos banqueiros, mas a força de "sugestão" dos que vendem os novos equipamentos e os estudos milionários para manter as empresas up-to-date.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007


Dressed (José Ames)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

POLEMISTAS


http://www.facom.ufba.br/com024/dpm/images/screamy.jpg

Já tenho observado que há uma certa incompatibilidade que se vence pela fala. Mas então é uma fala distorcida e aparentemente inútil. Nas famílias é onde isso é mais visível por causa duma convivência necessária. Suponho que, à falta dessa necessidade, por tantos tecida, as pessoas se evitariam naturalmente, e isso não queria dizer menos respeito ou amor.

Algumas espécies de brincadeira caem dentro desta lei, porém eu penso que se trata duma modificação permanente da fala, e o tom é sensivelmente sério, mesmo sob a aparência mais jocosa. Não se deve brincar com coisas sérias como se diz, mas acontece por vezes ser a única forma de entrar e sair da caverna, sem acordar a fera. É possível assim fingir uma naturalidade que é menos tirânica para o espírito do que os verdadeiros sentimentos. Pessoas que se tornam de um momento para o outro familiares por causa do casamento e que são obrigadas a um comércio diário que não se contenta com as fórmulas da simples cortesia recorrem quase sempre, por falta duma verdadeira base sentimental que é feita de experiência comum e de fidelidade, a uma espécie de hostilidade que tampouco é sentida, mas que lhes permite viver uma situação artificial..

A sogra é uma mãe de convenção. E não se pode negar o nome nem os direitos por causa do laço conjugal. Mas também é evidente que falta sinceridade a esta adopção, complicada, por outro lado, pelo envelhecimento resultante da separação dos filhos. Há aqui um problema de vocativo, naturalmente, errado mas justo socialmente. E vê-se o que o humor não educado pode fazer desta situação já de si incómoda. O sinal de que se salvam as aparências é conseguir-se falar, e a única fala que dá conta desta relação intratável é a polémica. E conheço um genro que leva este jogo tão longe que ofende sempre. Estas duas figuras tão glosadas pelo anedotário por causa desta curiosa dificuldade linguística são um exemplo puro da fala polémica.

Entre o pai e o filho há menos liberdade e a dificuldade também é outra. O anacronismo é o fruto do tempo nesta relação feita para se negar e recuperar. Além disso, a família quando se encerra sobre si própria corrompe-se pelo abuso dos sentimentos naturais. Mas não há prisões para o espírito quando ele se separa das suas paixões, para ser fiel ao mundo apenas e a si próprio. É ao preço duma distância na linguagem que é possível pensar, quando a magia familiar nos cerca no tempo e no espaço. Mas a história de cada um dita a forma de resolver o problema. Há um momento em que o filho deixa de ser filho e a sociedade celebra de várias maneiras esse momento. Ainda que a estrutura antiga permaneça, já nada é como dantes. Daí o silêncio selvagem de alguns, ou a querela aparente de outros. Contudo, as formas chamam a criança sempre presente, o que é julgar sem sequência e sem espírito crítico. Estranha intimidade.

terça-feira, 13 de novembro de 2007


Praia (José Ames)

FILOSOFIA








(Alain en salle de cours à Henri-IV)


Acabo de ler “Les souvenirs concernant Jules Lagneau”. Aí está o espírito do mestre passando para quem decifra os seus enigmas. Eu, que sigo Alain de livro em livro, recolho o pólen ciosamente, sempre pensando no estranho destino deste filósofo que para Maurois será dentro de cem anos o único vulto do seu século, tal Montaigne.

Mas duvido, porque não sei se a filosofia continuará a ser ensinada tanto tempo. Mesmo que o Estado se preocupe com o que cada vez mais é um simulacro da filosofia. E isso não é novo. Mas que toda a cultura se vá perdendo e o homem empobrecendo o seu pensamento é isso que é de temer. A ideia do progresso pode ser exaltada, o espírito técnico pode triunfar em todo os cantos do planeta, e ao mesmo tempo termos entrado num declínio imparável pela incapacidade de julgar essas pobres ideias.

Homens livres, guiados pelo espírito, há-de haver, amanhã como hoje, mas como poderão desarmar os bárbaros dos novos media? É possível falar a um auscultador? Por todo o lado o poder é adorado sob a forma dum botão ou dum pedal. Tornamo-nos maiores, mas pensamos menos. Somos talvez os novos dinossauros. Mas estou a falar do que ninguém pode saber. A filosofia foi e há-de ser sempre menos do que o grão de mostarda.

O espectáculo de milhões, de quase todos, condenados à mecânica social sem poder esperar do alimento mais rico do espírito senão migalhas e falsificações tem-se repetido ao longo dos tempos. Contudo, quem hoje não é um pouco platónico, mesmo sem saber? A pureza das ideias e o rigor do pensamento não podem ser espalhados porque o grande número assegura as funções vitais, e é o corpo e a memória dos pensadores. Por isso que mudam a demografia e os mass media? Há uma informação mais rica e mais generalizada, certamente, mas a antiga desigualdade do saber permanece inabalável. Porque não é uma questão de democracia nem de política.

Se a televisão passasse a vida e a obra dos filósofos, ninguém aprenderia a pensar por isso. mesmo um esforço colectivo para devolver ao livro o seu lugar eminente não asseguraria a igualdade do saber. É a moral dos melhores que pensa e verdadeiramente sabe. Um povo pode ser cartesiano só até um certo ponto. E ainda bem, porque assim como a juventude obriga a pensar tudo de novo, a grande massa julga pelos instrumentos e pela felicidade.

Mas nada disto será a não ser que os homens queiram. Aceitemos o progresso desigual na filosofia e a necessidade duma sabedoria popular que recolhe tudo com o tempo, sem ser igual nem se bastar a si mesma. E encontremos a passagem neste mundo electrónico e superficial que são as sociedades desenvolvidas para o que pode continuar a filosofia.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007


(José Ames)

NO TROUBLE IN PARADISE


"The Blue Lagoon" (1980-Randal Kleiser)


Passadas as peripécias do naufrágio e da sobrevivência dos pequenos robinsons, a aventura reduz-se à descoberta do corpo feminino, duma forma ao mesmo tempo pedagógica e ingénua. O hardcore e a violência estão ausentes desta banda desenhada sobre a vida e a morte que não nos poupa nenhum passo da aprendizagem, segundo o lugar comum. Mas em nome de quê se pode dizer que não é um filme inteligente? O seu sucesso parece demonstrar que o problema de agradar ao público foi bem resolvido.

Sem desnecessária subtileza, nem complicação. O homem e a mulher existem um para o outro, e com o filho perdem mesmo o desejo de regressar à civilização. Mas é evidente que os autores da “Lagoa Azul” pensam que esta família bem podia existir no interior americano, refugiada numa espécie de paraíso que apenas o tantã incompreensível do habitante de outra ilha vem desfigurar. A perfeição da trindade familiar é a mentira que se quer ouvir. Mas não sem precauções, não ofendendo a mais superficial inteligência. A morte aí está, no sacrifício do estrangeiro e na comparação com o esqueleto de Paddy para moderar um idílio demasiado insosso e abrir a porta ao religioso. Que este seja um ideal sobretudo feminino não nos podemos admirar. O amor transforma o jogo infantil e a agressividade numa sinfonia povoada de tartarugas acopuladas e de bênçãos da natureza. Os outros homens não fazem mais falta do que a letra do “jingle bells”, porque a ideia do amor, do Natal e do Deus Pai podem guardar-se da corrupção como as velhas fotografias, e enxertadas no solo da amada ilha continuarão a alimentar as gerações como a bananeira.

Nesta historinha cor de rosa, há porém um outro rendimento demagógico que é a ideia da naturalidade do sexo. Os belos corpos conhecem-se para a santa consequência. No olhar do jovem há apenas curiosidade e entusiasmo. O corpo feminino é cheio de mistério para a jovem mesma. E aqui talvez se pesque uma grande ideia: o ventre como manifestação da divindade e o estatuto religioso da mulher na sociedade primitiva. Depois da vaga pornográfica, esta vingança da sexualidade ingénua até se parece com a saúde.

domingo, 11 de novembro de 2007


Guarda (José Ames)

OVNIS


http://www.ciufo.cl/Adm/Modulos/Noticia/Images/

Para quem pretende transformar o mundo, do céu nunca vem nada de bom. Por isso, o fenómeno dos ovnis lhe é altamente suspeito. Há por detrás de cada superstição um explorador do homem, e quanto mais andar o povo com o nariz no ar, menos atenção dedica a quem lhe vai ao bolso. Todas as forças são precisas para a luta de classes. O jornalismo que entretém as pessoas com os discos voadores está ao serviço da direita, e o governo bem pode folgar as costas se apanha tanta gente distraída.
Graças à doutrina, tudo se pode compreender com o tempo pelo próprio progresso das ciências. Mas há que escolher hoje em termos políticos. O extraterrestre é um criador da unidade humana, e esse é o princípio da religião. Trocar as pessoas de Deus pela dum aviador sublime não seria grande vantagem para o materialista, se bem que um encontro de naturezas tão afastadas significaria, se fosse recebido em todo o seu impacto, uma autêntica catástrofe para o género humano e, logo, o fim de todo o sistema político.
A história dos discos voadores bem podia transportar-nos ao período fetichista, anterior ao estudo das leis celestes. E se nos lembrarmos que a astronomia é a base de todas as ciências, não podemos deixar de pensar em como é precário o nosso conhecimento, e no que diria Tales desses astros caprichosos. Mas o que é mais natural no meio humano do que o desconhecimento de todas as consequências dos nossos actos? Devemos contentar-nos com a estatística e as aproximações. É impossível prever o que dará a ovnimania.
A doutrina quer tratar as ideias como ideologia, e muitas vezes o que não chega a ser ideia. Mas sem uma ideia da sociedade, tosca que seja, é impossível agir e avançar no conhecimento dos homens e da política. Não admira, por isso, e pelas razões do ofício, uma dose de bom-senso tão venerável no operário que teimosamente crava os olhos no opressor e vê na nuvem do ódio o disco voador. É uma imaginação produtiva à medida do espírito técnico.

sábado, 10 de novembro de 2007

A HONRA DE DEUS



"Becket" (1964), o filme de Peter Glenville, baseado na peça de Jean Anouilh, "Becket, ou l'Honneur de Dieu", tem, talvez, a melhor representação do actor Peter O'Toole, o que é dizer muito.

É a história de uma amizade impossível de manter quando o rei, Henrique II e o arcebispo da Cantuária (Richard Burton) se defrontam na arena do poder.

Até ser nomeado pelo rei para o mais alto cargo da Igreja, no seu país, Becket, consciente da vida sem sentido que leva ao lado do seu real companheiro, diz que lhe será sempre fiel, enquanto puder improvisar a honra, dia a dia.

Mas o seu novo cargo fá-lo encontrar a verdadeira honra, e Becket, inspirado pelo que chama a honra de Deus, opõe-se ao monarca que protege um dos seus nobres acusado de assassínio.

Compreendemos por que, para Henrique, submeter-se à honra de Deus é, de facto, vergar-se ao poder da Igreja e por que para Becket continuar a ser fiel à amizade significa o mesmo em relação ao Estado.

Henrique acaba por ser o fautor do assassínio do seu rival. E, só depois de morto, Becket volta a ser amado.

O poder que separa os amigos não tem a conotação negativa do poder pessoal ou do poder abstracto.

De facto, ao invocarem um a Inglaterra e Deus o outro, deixam de se poder distinguir a paixão e a ideia política.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007


Viseu (José Ames)

A OBTUSIDADE DOS FACTOS


Matrix


"Julgo que não tenho necessidade de defender o ponto de vista segundo o qual só a teoria pode ser considerada como uma ciência no sentido estrito. O conhecimento dos factos enquanto tais não é uma ciência, e não nos ajuda a controlar o curso dos acontecimentos ou a influir sobre ele."

"Essais" (Friedrich Hayek)


Os factos devem constituir os dados nas nossas fórmulas, a fim de se poderem fazer previsões acertadas.

Mas é fácil confundir o cúmulo de informação sobre os factos, que a moderna tecnologia põe rapidamente ao nosso dispor, com uma maior capacidade de prever o "curso dos acontecimentos" e de controlar os processos sociais, a exemplo do que é possível fazer com os fenómenos mecânicos mais simples.

Todos os que trabalharam numa grande empresa sabem que se pode viver inundado de dados inúteis, visualizados no ecrã ou impressos em estradas de papel, os quais, para terem alguma utilidade, devem ser reconvertidos e interpretados para fazerem algum sentido.

Por isso, nenhum responsável se desobrigará do dever de esclarecer, por exemplo, uma comissão de trabalhadores pela simples apresentação dos dados.

O problema é que a política exige a cada parte uma interpretação autónoma e, não estando esta ao alcance do amadorismo, normalmente os trabalhadores dispõem só duma interpretação suspeita.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007


Alcochete (José Ames)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A GUERRA DO RUGBY


M.A.S.H. (1970-Robert Altman)

Talvez a questão mais interessante levantada pelo filme de Robert Altman "M.A.S.H." (1970) seja a de saber se esta paródia pode ser, como defendem os seus panegiristas, um filme contra a guerra.

A vida neste hospital de campanha, durante a guerra da Coreia, é uma divertida intriga, graças sobretudo ao elemento sexual e ao informalismo dos diálogos e da representação.

Os feridos e os mortos não chegam a ter existência. Por muito que sangrem, fazem parte dos adereços, como os frascos de soro, as macas e as tendas.

É verdade que ferozmente se troça dos poucos militaristas do campo e que a justificação da guerra está de todo o ausente do discurso.

Parece que os americanos transportaram para o campo militar o seu modo de vida e uma partida de rugby ocupa mesmo uma parte desproporcionada do filme, como a sugerir que a guerra não é outra coisa do que aquela luta pela bola no meio da lama e dos encontrões.

Enfim, parece-me mais uma comédia que se aproveita de uma história de guerra, onde a vida reclama os seus direitos, quaisquer que sejam as dificuldades, do que um filme contra a guerra.

Se a guerra não interrompe a vida nem impede os americanos de jogar rugby, o que haverá nela de atroz?

segunda-feira, 5 de novembro de 2007


Barcelos (José Ames)

domingo, 4 de novembro de 2007

AS FORMAS DA LIBERDADE


Alexis de Tocqueville (1805/1859)

"(...) não quebra as vontades mas amolece-as, dobra-as e dirige-as; raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói nada, impede de nascer; não tiraniza nada, incomoda, comprime, enerva, extingue, embrutece e reduz cada nação a não ser mais do que um rebanho de animais tímidos e industriosos, do qual o governo é o pastor.

Sempre acreditei que esta espécie de servidão regulada, doce e pacífica, de que acabo de traçar o quadro, se poderia combinar melhor do que aquilo que se imagina com algumas formas exteriores da liberdade, e que não lhe seria impossível estabelecer-se à sombra da própria soberania do povo."

"De la démocratie en Amérique" (Alexis de Tocqueville)


Que modelo de liberdade inspira este observador estrangeiro, ele próprio oriundo da nobreza do Antigo Regime da França, que lhe permite esta argúcia política e esta surpreendente modernidade?

Fala-se aqui em rebanhos e em pastores, em paz e, crê-se, em prosperidade, mas a liberdade ter-se-ia tornado "exterior", formal, como diria a crítica marxista.

A democracia de que Tocqueville faz o diagnóstico parece ter perdido a sua essência política, com a acção e a palavra sem outro sentido que não seja o da necessidade, da economia ou do bem-estar.

Tocqueville julga, pois, o regime americano, não à luz da experiência do seu próprio país (a Revolução e o bonapartismo), mas do conceito de política, tal como nos foi legado pela tradição clássica.

De facto, se quisermos encontrar um país em que, nesse sentido, a política seja realmente impolítica teremos de dirigir o nosso olhar para o outro lado do Atlântico.

sábado, 3 de novembro de 2007


Angra do Heroísmo (José Ames)

NINGUÉM É PERFEITO


"Quanto mais quente melhor" (1959-Billy Wilder)


É preciso sabê-la morta e saber como morreu para sentir a verdade patética de Marilyn. E onde é que esse corpo parece mais “simpático” do que em “Some like it hot”? Com menos força de viver porque existindo em pleno imaginário. É o desejo do animal da câmara escura que o faz ser. As suas formas têm a substância do sonho, não é possível degradá-las pela posse, nem por um destino humano. Há algo de incompleto em todos os mitos que recupera o espaço em branco e faz símbolo do simples continente.

A morte prematura é potencialmente criadora do divino. Mas a nossa época reúne à volta da pira sacrificial os que odeiam todos os cultos. Sem a ética do religioso, todos nos convertemos em instigadores do suicídio. Fatalidade bem humana a que roubou a esta mulher o desejo de viver, como se tivesse compreendido que é a morte a fonte de valor do mito. Marilyn Monroe tem tudo da mulher excepto a realidade, e a expressão que devolve ao olhar que procura a plástica e a hipérbole sexual é a da criança que se deixa desejar sem compreender o desejo do adulto. Há uma coqueteria infantil em todos os seus movimentos conscientes. A forma cheia e lisa do símbolo oferece-se permanentemente à nossa admiração, mas acompanhada da reivindicação absoluta do órfão. Não é possível o olhar desinteressado e sem culpa.

O erotismo é solicitado pela simpatia histórica com a vítima do seu e do nosso cinema. No iate usurpado por Tony Curtis, MM faz a única cena de amor que se pode imaginar para o seu mito. Trocando com o parceiro a sua situação infantil, vêmo-la no trabalho incestuoso da iniciação. E se há uma espantosa perversidade em fazer funcionar o potencial erótico da figura directamente como recurso maternal, a astúcia imaginada para vencer a paradoxal frigidez e o puritanismo inverosímil mostra que a força deste erotismo se esgota no gesto de significar.

O acesso a esta pletórica vénus é defendido pelo olhar da medusa. Assim Billy Wilder deixa o desejo nu perante si mesmo, num genial comentário freudiano com os meios do melhor cinema. Não podemos permanecer na situação do voyeur insatisfeito. Nenhum strip-tease interessa, porque desde o início a nudez é palavra e intenção de seduzir. Eis por que o progresso deste erotismo é sempre desmistificador.

E encontrarem-se no fim de contas o ídolo e o adorador no mesmo impasse da irrealidade sexual é o que permite a MM ser um mito que tem a sua própria crítica.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

ASSIMÉTRICA RESPONSABILIDADE


Fedor Dostoiewski (1821/1881)

"É no Rosto do Outro que aparece o mandamento que interrompe a marcha do mundo. Por que me haveria eu de sentir responsável em presença do Rosto? É essa a resposta de Caim, quando se lhe diz: "Onde está o teu irmão?", ele responde: "Será que eu sou o guardião do meu irmão?" É isso o Rosto do Outro tomado por uma imagem entre imagens e quando a Palavra de Deus que ele traz permanece desconhecida. É preciso não tomar a resposta de Caim como se ele troçasse de Deus, ou como se respondesse como um garoto: "não fui eu, foi o outro". A resposta de Caim é sincera. Na sua resposta falta simplesmente a ética; há ontologia somente: eu sou eu e ele é ele. Nós somos seres ontologicamente separados."

"Entre nous" (Emmanuel Lévinas)


A força destas palavras é irresistível. Porque se compreende através delas que a razão, só por si, é impotente para fundar a ética.

Toda a argumentação lógica passará por cima do essencial, que é a não-distinção, à face da verdade, entre os seres, e que a ideia de igualdade de condição está muito longe de esclarecer.

Há um sentido de justiça que é operário (para dizer como Alain): é justo o que está à medida.

Mas há uma outra justiça que pode realmente ignorar a justeza, ser desequilibrada até.

"Uma das coisas mais importantes para mim, é esta assimetria e esta fórmula: todos os homens são responsáveis uns pelos outros, e eu mais do que qualquer de entre eles. É a fórmula de Dostoiewski (...)."

(Ibidem)


(José Ames)

MUDAR O HOMEM OU O MUNDO?


Village Politics (Engraving by Jazet, 1820)

"Independentemente do modo como as pessoas respondem à questão de saber se é o homem ou o mundo que está em perigo na presente crise, uma coisa é certa: qualquer resposta que coloque o homem no centro das nossas preocupações actuais e sugira que é o homem que é preciso mudar para conseguirmos melhorar a situação é uma resposta profundamente impolítica."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)


Verdade que era evidente para o marxismo, o qual, nas palavras de Lévinas, não é só conquista, mas reconhecimento do outro, qualquer que tenha sido o desvirtuamento da sua encarnação histórica.

E, nisso, ia contra o princípio da salvação individual proposto pelo cristianismo.

Mas se considerarmos o que é próprio do conceito de política, em Arendt, temos também que reconhecer que o ideal da transformação do mundo deixa de ser político, a partir da altura em que a sociedade de iguais se confunde com um partido.

Porque tal ideal poderia igualmente ser assumido por um déspota esclarecido (o que no fundo é a "ditadura do proletariado"), situação, por excelência, anti-política.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007


Alcácer do Sal (José Ames)

O SILÊNCIO DE CATÃO



Nunca se é rigoroso e absolutamente isento num conflito humano. Nem os que julgam de fora podem compreender. Mas ao juiz não convém interessar-se no drama das paixões, e assim ele decide, no melhor dos casos, condenando sempre o animal. Porque a paz não pode deixar de vir quando se pensa bem. Não há interesses que resistam à felicidade do acordo entre pensantes.

Quando há dias um comunicado acusou um grupo privilegiado da profissão de ir comer ao restaurante à custa da empresa, em vez de utilizar a cantina, isso deu lugar a um movimento da parte deles com todo o aspecto da indignação. O seu contra-ataque baseou-se todo na falta de rigor do comunicado: não tinham sido só eles, e a responsabilidade era do director. Mas isso permitia-lhes dizer que a afirmação era rotundamente falsa. Porém, o facto da despesa inútil e da diferença de tratamento permanece como antes.

O privilégio tem sempre uma sanção do poder. E o que distingue esta liberalidade, concedida a quem já goza de mais regalias do que os outros, dum direito particular é não estar inserida num sistema escrito, ou consensual. A ordem de serviço justifica, mesmo quando é um diktate. E sobretudo transfere para um plano político e abstracto a oposição entre pessoas. Os que recebem os favores podem assumir o ar mais inocente debaixo duma guerra de palavras à volta dos princípios. Mas esta acusação mostrou o privilegiado como se tomasse a iniciativa. É faltar à regra do jogo.

E o que eu observo é a adesão geral a esse sistema, apesar de tantos que resmungam. O capitalismo submete estes frouxos defensores da igualdade, não pela atracção do dinheiro, mas pelo lado mais necessário. Ao mesmo tempo que verberam a corrupção duma parte da classe, não deixam de desejar que a sua empresa vença a prova da concorrência pelos métodos do capitalismo selvagem, se preciso for. É essa contradição que reduz a denúncia moral a um exercício de retórica.

Só quando o homem se dispõe a perder tudo é que a verdade aparece nua. Os esforços para fazer reinar a virtude neste meio são como estender a mão para deter um comboio em marcha. O pior seria que nos enganassem os vícios aparentes. Porque é por causa de alguma virtude que a sociedade dos homens é possível. E que sentido tem dizer que o espectáculo é a depravação geral e o amor do dinheiro, se não é para concluir que a justiça é possível e urgente? Apesar dos progressos da tecnologia e do poder do Estado, temos felizmente de reconhecer que o homem é o animal de sempre. Isso permite toda a esperança, se buscarmos a sabedoria antiga e de todas as épocas.

Por isso, se eu fosse juiz, tinha de condenar um comunicado que agitasse os espíritos em vez de esclarecê-los. O silêncio de Catão vale mais do que a sua cólera.