sábado, 31 de maio de 2008

O TIGRE ADORMECIDO



"The sleeping tiger", de 1954, foi filmado em Inglaterra, sob um pseudónimo, por Joseph Losey, uma das vítimas das perseguições políticas do McCarthysmo nos EUA.

Frank Clemmons (Dirk Bogarde), um jovem delinquente, depois de assaltar o dr. Clive Osmond (Alexander Knox), em vez de ir para a cadeia, é acolhido como hóspede em casa deste, com o compromisso de colaborar, durante seis meses, numa terapêutica.

A mulher de Clive, Glenda (Alexis Smith), acaba por se enamorar do "paciente" e contribui para o final trágico da história, como que demonstrando que todos temos em nós um tigre adormecido.

O único momento frouxo é o clímax do filme, quando Frank, seguindo os cânones da psicanálise, toma consciência da experiência traumática que induziu o seu sentimento de culpa, a delinquência resultando na vontade de expiar um crime que afinal não tinha cometido.

Para ganhar a confiança de Frank, o psicólogo tenta estabelecer uma relação informal e o menos hierárquica possível, surpreendendo o psicanalisando com manifestações inesperadas de generosidade.

No entanto, no momento em que sente que é preciso interpretar a crise de Frank, sai dessa posição para assumir a da autoridade médica ou a daquele que detém o conhecimento.

O "oportunismo" e o contraste entre esse papel autoritário e o abatimento de Frank são tão flagrantes, que percebemos que o modelo dessa relação é o da criança frente ao adulto.


(José Ames)

PASSE-PARTOUT


Edward O. Wilson


"Estes centros inundam a nossa consciência de todas as emoções - ódio, amor, culpa, medo e outras - que são consultadas pelos filósofos da ética que pretendem intuir os padrões do bem e do mal. O que é que - somos então compelidos a perguntar - fez o hipotálamo e o sistema límbico? Evoluíram pelo processo da selecção natural. Esta simples asserção biológica deve ser prosseguida para explicar a ética e os filósofos éticos, senão a epistemologia e os epistemólogos, em todas as extensões."

"Sociobiology" (Edward Wilson, citado por Michael Ruse em "O mistério de todos os mistérios")


Não é uma blague. Esta argumentação sofre simplesmente daquele vício de que fala Popper, a propósito de ciências que têm, a priori, resposta para tudo.

Admitido o princípio, está ainda tudo por explicar. O que é que aconteceu ao organismo primitivo? Evoluiu até à própria pergunta. O que é que isto quer dizer?

Mais interessante é esta outra afirmação de Wilson: "É como se a evolução social tivesse abrandado à medida que o plano físico do organismo individual se foi tornando mais elaborado."

O que nos permitiria "ler" a actual crise de valores colectivos, como o altruísmo e a cooperação, como factos evolutivos. O individualismo não seria então uma degenerescência anunciando o fim da coesão social, mas o sinal de uma maior complexidade.

sexta-feira, 30 de maio de 2008


Sibenik (José Ames)

GANDHI E A REVOLUÇÃO


Mohandas K. Gandhi. (1869-1948)


Gandhi costumava dizer que os comunistas não vivem de acordo com as suas ideias. Eles observam, de facto, uma separação radical entre o partido e a vida. Quem já viu um comunista distribuir todos os seus bens pelos pobres? Isso é mais próprio do evangelho, bem vistas as coisas, porque aí a salvação é da pessoa e não depende da ordem social. Enquanto que o comunista não se pode salvar sem fazer tudo para mudar a sociedade. A caridade não é uma virtude deste credo. Pelo contrário, é uma atitude sempre suspeita de querer sossegar a consciência sem a luta política.

Se se acredita que a sociedade é uma organização fundada em leis injustas e, portanto, não necessárias, só o revolucionário é moral, e é revolucionária a força organizada que revele a injustiça como produto necessário dum sistema que não muda a não ser contra os seus beneficiários e pelo emprego de técnicas experimentadas e com o aval do que se considera a ciência histórica.

Na imagística interna, o partido é uma força artificialmente travada, mas cujo destino é desenvolver-se, segundo um curso fatal para a vitória sobre todos os obstáculos. A ideia deste mecanismo agrada ao espírito operário e a todos os que não sabem ter a paciência necessária para caminhar da aparência à realidade, e para pensar o complexo mundo humano. Mas o que é pior é que a prudência do espírito é acusada de cobardia moral e de aliança com o inimigo pelo rude companheiro, como diz Alain. Ele está habituado a verificar imediatamente os efeitos da pancada do martelo, não compreende a mesa da negociação e o compromisso. Quem lhe fala na força colectiva não pode faltar com os resultados. Entreter o mito da força de classe é acreditar a revolução como efeito puramente mecânico. Quando o que se vê, e tem sido esse o espectáculo de todos os tempos, o número não é a verdadeira força do homem. Nesse estado é como uma massa destinada a cair ao mais baixo possível.

O método do indiano é completamente outro. Ele viu a opressão do harijan e tornou-se igual a ele. Não de todo, porque isso ninguém consegue, e de resto nem interessa à luta social, mas simbolicamente. Gandhi vestiu o opróbrio do intocável e desfez, graças ao seu prestígio, milénios de preconceitos. Como o punhado de sal que desafiou a proibição inglesa depois duma marcha de centenas de quilómetros a pé, não é a força que se opõe à força. Por detrás das instituições e de todos os poderes está o espírito. É esse que aprova e sustenta. A máquina sozinha está à mercê das leis da inércia, e uma crença pode pará-la.

Mas acho ainda mais em Gandhi: ele podia realmente conhecer e amar os intocáveis. O revolucionário, que não é irmão de ofício e de vida, não pode suportar a visão do outro. No fundo, tem que considerá-lo ( ao explorado ) um homem que ainda não é. E assim se faz idólatra dos privilégios. É preciso que as diferenças sejam despidas do "pecado" para se revelar o ser humano. É uma forma paradoxal de caridade lutar por que os outros sejam mais homens.

quinta-feira, 29 de maio de 2008


(José Ames)

IDEIAS ARMADILHADAS



Pode ver-se na Internet um UTube com o documentário da BBC "The Trap", sobre a grande mudança imprimida por algumas elites e alguns governos ocidentais ao modelo de sociedade, aparentemente, à margem da clássica dicotomia capitalismo/socialismo e reivindicando-se da objectividade da ciência, nem mais nem menos.

Esse modelo está baseado na teoria dos jogos do matemático John Nash (popularizado pelo filme "Uma Mente Brilhante") que teria transposto para essa ideia comportamental a sua própria esquizofrenia.

A Guerra Fria teria depois aplicado nas suas previsões dos lances do adversário a teoria de Nash. Daí, esta saltou para a economia e para a política, nos anos oitenta, com Margaret Thachter e outros.

Outra fonte de tal ideologia seria Friedrich Hayek, o nobel de economia e autor de "Road to Serfdom", que me parece abusivamente metido nesta galera.

Quais são os efeitos dessa aplicação da teoria dos jogos à economia e ao Estado? Podemos resumi-los numa palavra: o neoliberalismo.

A ideia central é que é mais útil para a sociedade partir do princípio que, em qualquer situação, é o interesse que move os indivíduos (incluindo, naturalmente, funcionários públicos e governantes), do que esperar deles comportamentos altruístas e desinteressados.

A vantagem desta escolha é que os interesses são programáveis e, até certo ponto, convertíveis em números. O dinheiro seria o tipo de controle mais eficiente e o mercado a informação mais fidedigna da vontade dos indivíduos. Mais, em qualquer caso, do que as urnas de voto.

Ora, não me parece que tudo isto seja absurdo ou explicável por qualquer teoria da conspiração.

O que é certo é que os homens reduzidos ao egoísmo e ao interesse próprio são, realmente, uma caricatura.

O que está aqui presente também é a ideia de que correspondendo à vontade da maioria, que se pressupõe ter aquelas motivações, não se ofende a democracia, e se alcança uma verdadeira gestão social. Ao suprimir, porém, todas as outras vontades, instala-se uma ditadura sem ditador e destrói-se o que de melhor há na espécie.

Como, pois, tornar mais humana a política e a economia se persistirmos na prioridade da eficiência, da informação e do controle?

É óbvio que os gestores e os economistas não podem ter a última palavra, Mas quem tem, de facto, sobretudo nas situações críticas, uma palavra com mais peso, quando a política se degradou ao estado em que a vemos?

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A MULTIDÃO



"O contacto com o mundo dos espíritos, que, como se sabe, influenciou em Jersey tanto a sua existência como a sua produção literária, era, por mais estranho que isso possa parecer, acima de tudo um contacto com as massas, de que o exílio privara o poeta. A multidão é, na verdade, a forma de existência própria do mundo dos espíritos."

"Charles Baudelaire" (Walter Benjamin)


Hugo, no exílio, conversa com os espíritos, perante quem, como diz Benjamin, à falta das massas, prossegue a sua carreira de grande orador e de profeta.

Há uma ideia em Freud que se parece com isto: a neurose de conversão. A energia não é simplesmente contida, mas torna-se força plástica. Somatiza (ou, como aqui, fantasmiza).

O orador, sobretudo o inspirado, não tem indivíduos como interlocutores, que lhe possam objectar o quer que seja. As palavras derramadas sobre a assembleia são como que um pentecostes.

A multidão, porém, pode ser a sede de energias conflituosas. Nesse caso, a imagem dos espíritos devia ser substituída pela dos demónios à solta.


Guimarães (José Ames)

CEREJAS E PARADIGMAS


http://tue-tue.typepad.com/photos


"Quando os paradigmas são incluídos, como devem, num debate de escolha entre paradigmas, o seu papel é necessariamente circular. Cada grupo utiliza o seu próprio paradigma para argumentar em defesa do próprio."

(Thomas Kuhn, citado por Michael Ruse em "O mistério de todos os mistérios")


Esse debate estaria, por conseguinte, condenado à partida.

Mas é preciso contar com as tácticas de sedução, que levam a aceitar os argumentos contrários numa espécie de extraterritorialidade em relação ao paradigma.

Há aí um risco, como na metáfora que se aplica à conversação, de se trazerem agarradas as cerejas do outro cesto.

Como em princípio não é possível estar acima da sua própria cultura, talvez que a mudança de paradigma encontre nessas tácticas um dos seus mecanismos.

terça-feira, 27 de maio de 2008


(José Ames)

A FILIAÇÃO DE EROS


http://www.proex.ufes.br/arsm


"Aliás, insistindo assim diante de Albertine nesses protestos de frieza por ela, eu não fazia mais - por causa de uma circunstância e tendo em vista um fim particulares - do que tornar sensível, marcar com mais força, esse ritmo binário que adopta o amor em todos aqueles que duvidam demasiado deles próprios para crer que uma mulher possa alguma vez amá-los, e que eles próprios possam verdadeiramente amar."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


E não o aproxima do amor próprio esta característica do amor, ideia tão ao gosto do romancista?

Do passado, feito mundo interior, saem todas as personagens da "Recherche" que só vivem porque o narrador converte esse amor de si em desejo de escrita.

O ser em conflito consigo mesmo, o esquizóide, não chega a amar pela desfocagem que provoca no objecto. São aqueles que estão na plenitude de si que procuram projectar-se no outro.

É verdade então que o amor é filho da riqueza e da abundância, como se lê no "Banquete". Mas a mesma doutrina diz que é igualmente filho da pobreza.

A riqueza faz crescer o sentimento da própria inutilidade.

segunda-feira, 26 de maio de 2008


Lisboa (José Ames)

MEGALOMANIAS


Joseph Goebbels (1897/1945)


"Certamente que os ditadores totalitários não embarcam conscientemente na estrada da loucura. O ponto é antes que o nosso espanto em relação ao carácter anti-utilitário da estrutura do estado totalitário nasce da noção errada de que estamos, apesar de tudo, a lidar com um estado normal - uma burocracia, uma tirania, uma ditadura - devida a minimizarmos as enfáticas declarações dos governantes totalitários de que consideram o país onde conseguiram tomar o poder apenas o temporário quartel-general do movimento internacional na estrada para a conquista do mundo, de que julgam vitórias e derrotas em termos de séculos e de milénios, e de que os interesses globais preponderam sempre sobre os interesses locais do seu próprio território."

"Totalitarianism" (Hannah Arendt)


Esta concepção do estado totalitário como ligado à dominação do mundo era justificado, em Hannah Arendt, pelos exemplos do nazismo e do stalinismo que, como se sabe, não dependiam de qualquer mecanismo de controle eleitoral que os obrigasse a um mínimo de realismo.

Mas, como diz a filósofa, o facto de certas decisões (como a da prioridade da "questão judaica" sobre quaisquer objectivos militares) parecerem contraproducentes em termos de estratégia, na verdade, podiam integrar-se perfeitamente numa lógica milenarista.

Quando Goebbels diz no seu diário que qualquer que seja o resultado da guerra, os judeus ficarão sempre a perder, pensa que um mundo "desjudaizado" é condição fundamental para o advento do "novo homem". Como simetria, a "deskulakização" só peca por defeito.

Qualquer que seja o significado moral desta doutrina, podíamos incluí-la no catálogo geral das megalomanias. Dispor do futuro como se fosse uma realidade pensável e controlável é a loucura que está por detrás disso.

Sobre o conceito de estado totalitário, valia a pena estudar a sua evolução, principalmente desde a queda daqueles dois regimes.

Há uma tendência para o ligar ao ambiente descrito por Kafka, o qual pode perfeitamente passar sem um governante megalómano.

domingo, 25 de maio de 2008

ONDE HOUVER CÉU


Ao fundo, o Rijksmuseum
http://www.tcphelps.com/Blog%20Files/

"A ideia do nada não é própria da humanidade laboriosa: os que se afadigam não têm o tempo nem a vontade de pesar a sua poeira; resignam-se às durezas e às patetices da sorte; esperam: a esperança é uma virtude de escravos."

"Précis de décomposition" (Émil Cioran)


Comparo este desespero, este pensamento vencido, com o tom luminoso das palavras de Etty Hillesum.

Ela encontra os escravos naqueles que a perseguem. Por isso não há fel nem ódio no seu coração.

Mas crê, contra as provas (haverá outra crença verdadeira que não seja contra o que existe? O que existe não pede a crença, mas a submissão.), que não está tudo dito, que as forças para resistir e esperar as pode colher em toda a parte, na flor de jasmim da sua janela (de onde via o Rijksmuseum), como no baldio por detrás da sua barraca no campo de concentração de Westerbork.

Como ela diz: "Estamos em casa. Em todo o lado onde se estende o céu estamos em casa. Em todos os lugares da terra, estamos em casa, quando trazemos tudo dentro de nós."


(José Ames)

OS AMIGOS DE ETTY


Rainer Maria Rilke (1875/1926)


"Dentro de dias, vou ao dentista chumbar os meus dentes cariados. Seria verdadeiramente grotesco sofrer uma dor de dentes ali. Terei de arranjar uma mochila; levarei só o estritamente necessário, mas tudo deverá ser de boa qualidade. Levarei a Bíblia; quanto aos pequenos volumes de "Lettres à un jeune poète" e do "Livre d'heures", encontrarei um canto para os meter no meu saco? Não levarei fotografias dos que me são queridos, prefiro atapetar as minhas grandes paredes interiores de rostos e de gestos que reuni na minha numerosa colecção e que me acompanharão sempre."

"Journal 1941-1943" (Etty Hillesum)


Etty conjectura sobre o que teria de fazer se acaso tivesse já no bolso a ordem de requisição para a Alemanha.

Nenhum sinal de revolta contra um destino terrivelmente injusto. Nenhuma ilusão, mas também nenhum desespero.

As suas preocupações e o conteúdo da sua bagagem são reveladores duma vontade de conservar até onde for possível a saúde do corpo e do espírito.

Sacrificaria Rilke, apesar da sua enorme admiração, mas não a Bíblia. Até o momento em que o próprio Livro tivesse de entrar na sua colecção imaterial.

A sua última carta foi lançada do comboio para Auschwitz e recolhida por camponeses que a meterem no correio. Nessa altura ainda faz uma citação e termina com um "até à vista".

Depois, é o silêncio e a imagem das câmaras de gás.

Aquele "até à vista" foi profético. Não se encontraram apenas os quatro amigos a que Etty se referia mas todos os novos amigos que se tornaram os seus leitores.

sábado, 24 de maio de 2008


Amalfi (José Ames)

A ÁRVORE DO BEM E DO MAL


L'arbre de la connaissance
© Claude Portais


"Das duas questões fundamentais que eu tinha colocado logo de início, a primeira era com efeito: o que é "um verdadeiro homem?" e a segunda o que é a "graça de Deus?"

Ora então, o que poderá ser ela? Será "a graça do perdão dos pecados". Pois bem, eis de um só golpe o nosso desacordo posto a nu. Porque me seria mais fácil admitir a ressurreição de Jesus do que aceitar ser perdoado por um Deus que me apresentam como o meu Criador."

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


Jeanson diz que a árvore do conhecimento era desde o princípio uma armadilha e que em qualquer dos casos o Tentador só podia ser o "Deus Eterno".

Este raciocínio decorre directamente do conceito de Omnipotência, que é uma extrapolação dos poderes humanos. A essa luz não é concebível que o poder não se exerça ou que não modifique o contexto como um buraco negro.

A desobediência é de facto impensável sem algo de divino e talvez o platonismo esteja na origem deste nivelamento do homem por cima.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

CIÊNCIA E CULTURA


A Stoa de Atenas

"Tudo isto é interessante. No entanto, muitos pensarão que as grandes questões sobre valores culturais permanecem por colocar. Em particular: o que dizer dos valores sociais e da visão evolutiva "egoísta" de Dawkins? No que diz respeito às origens, podemos concordar, sem argumentar, que a visão remonta directamente, via Origin ao século XVIII e ao livre empreendedorismo, ao capitalismo laissez-faire concebido por economistas políticos, particularmente Adam Smith."

"O mistério de todos os mistérios" (Michael Ruse)


A ideia de Adam Smith não nasceu armada como Minerva da coxa de Júpiter.

Era muito interessante subir às fontes, particularmente às da Grécia Antiga.

De onde vem essa crença em que o interesse, senão o bem comum, resulta mais facilmente de cada um seguir a sua motivação "egoísta" do que de um plano de governo?

É claro que a favor pode dizer-se, como Popper, que nenhum governo tem os dados suficientes para decidir com conhecimento de causa, e que os indivíduos, entre si, podem ajustar-se em qualquer coisa que seja uma solução possível.

Ora isto parece-se muito com uma discussão verbal, como as que os Gregos gostavam de travar ao longo da colunata da Stoa.

A verdade não é qualquer coisa de existente e ao alcance de um grupo mais esclarecido. É algo a que os indivíduos chegam, através de um processo contraditório que pode acabar no consenso ou no impasse, como alguns diálogos platónicos.

Mas como na política o egoísmo não tem que ajustar-se quando o poder ou a força distorcem as relações de homem a homem, o modelo da discussão não funciona sem leis que de algum modo o contrariem.



(José Ames)

AGONIA E NIRVANA


http://farm3.static.flickr.com


"Índia. Leituras sobrepostas. É preciso amar Deus impessoal através de Deus pessoal ( e por detrás ainda Deus, um e outro, e por detrás Deus ainda, nem um nem outro), com medo de cair na concepção de Deus como coisa, o que acontece por vezes a Spinoza."

"Cahiers" (Simone Weil)


As leituras sobrepostas permitem ultrapassar as contradições e unir os contrários a um nível superior, de modo a justificar tanto a acção como a imobilidade.

Essa capacidade de conciliação da religião hindu não pode, evidentemente, ser deduzida das condições geo-económicas dessa cultura, mas percebe-se que o capitalismo precisava para se implantar e desenvolver de uma lógica menos complexa e do horror da contradição.

Quando Simone descobre a Índia pode dizer-se que conhecia já as ilusões da acção e que a Revolução se tinha tornado interior.

O Deus-objecto de Spinoza não poderia alimentar essa paixão por uma verdade vivida e que não se compreendesse apenas.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

DESCOLAGEM


André Malraux (1901/1976)


"Do mesmo modo que a revolução democrática emancipa a sociedade das forças do invisível e do seu correlativo, o universo hierárquico, assim o modernismo artístico liberta a arte e a literatura do culto da tradição, do respeito pelos Mestres, do código da imitação. Arrancar a sociedade da sua subordinação às potências fundadoras exteriores e não humanas, desligar a arte do código da narração e representação: é a mesma lógica que actua, instituindo uma ordem autónoma cujo fundamento é o indivíduo livre."

"A Era do Vazio" (Gilles Lopevtsky)


E Malraux: "O que a nova arte busca é a inversão da relação entre o objecto e o quadro, a subordinação manifesta do objecto ao quadro."

O quadro já não é uma imitação do mundo, que é algo que o transcende e do qual apenas pode almejar a captação de uma aparência.

Agora, o quadro refere-se a outros quadros, à pintura como sistema, e o mundo é uma conotação do próprio passado, podendo ser completamente elidido.

Pode chamar-se a isto liberdade e relacioná-la com a democracia e a situação do indivíduo, mas talvez o mais relevante seja o advento duma nova complexidade social que cortou definitivamente os laços com a Natureza.


Oceanário (José Ames)

A MARMITA


La marmite épuratoire des Jacobins

(Armé d'une écumoire le cuisinier Robespierre coiffé d'un bonnet phrygien, examine à la loupe Anarcharsist Cloots tandis que Chaumette, Page, Hébert, Danton et Desmoulins sont dans la marmite.)


"Por quem seriam designados os recrutas? Não por uma alta autoridade, uma autoridade central, mas por estas paixões, pelos comités revolucionários de cada secção, autoridade inteiramente local, cheia de arrebatamento e de parcialidade, e muitas vezes movida sem querer por ódios pessoais, ou pelo menos suspeita de ódio, de tal modo que cada qual se julgaria, não designado por lei, mas proscrito pelo seu inimigo."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Imediatamente antes da suspeita geral se tornar no reino do Terror, o espírito enragé substitui-se à lei e Michelet diz que isso talvez tenha salvo a Revolução.

A paralisia que nessa altura atingia a Convenção, por cada qual imaginar no outro o movimento da traição, deixava antever o pior, dada a situação no Oeste ( a Vendeia) e a invasão iminente pelo estrangeiro.

Os instintos entraram em cena como o médico que tem de provocar uma crise para o organismo doente reagir.

Se há exemplo histórico de como os indivíduos rapidamente se tornam em joguetes dos acontecimentos é este.

Perante tanta imprevisibilidade, pode-se ainda dizer que alguém começa o quer que seja?

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A TRASLADAÇÃO DO IMPÉRIO


O Capitólio em Washington


"Porque não foi apenas o império que foi transportado para os Estados Unidos: também os seus signos de triunfo, profanos e sagrados migraram. A cúpula de São Pedro de Roma renasce em 1863 por sobre o edifício governamental americano. O pedestal do Memorial Lincoln, construído em 1922, está inocentemente ornamentado pelas insígnias do poder executivo romano, os fasces, esses feixes de varas que, como se ensina aos miúdos do liceu, eram levados pelos lictores, uma espécie de escolta policial dos cônsules romanos. Quem não vê que os fantasmas dos lictores fazem parte desde 1917 do perfil da política externa americana?"

"Se a Europa Acordar" (Peter Sloterdijk)


A Europa, através da ideia do império, continuaria a projectar-se no mundo e a fornecer-lhe a chave de uma estratégia.

A longevidade do império romano, o seu poderio por tanto tempo incontestado, habitam todos os sonhos de dominação e não podem ser evitados como as primícias de uma organização mundial.

Claro que os seus "signos de triunfo" vivem uma segunda vida que nada tem a ver com a primeira. O espírito da política romana tornou-se um ornamento que empresta algum prestígio do passado aos novos dominadores.

Mas na medida em que não há verdadeiro poder sem prestígio, talvez que a transferência do império para o outro lado do Atlântico represente melhor uma certa ideia da Europa do que as frustrações dos eurocratas que apenas conheceram o vazio do pós-guerra e a "tenaz da Guerra Fria".


(José Ames)

MÁSCARAS E PALAVRAS


Francisco Goya


"Além disso, se historicamente inquirirmos sobre as causas que com mais probabilidade transformaram os engagés em enragés, não é a injustiça que aparece em primeiro lugar, mas a hipocrisia. O seu momentoso papel nos últimos estádios da Revolução Francesa, quando a guerra de Robespierre contra a hipocrisia transformou o "despotismo da liberdade" no Reino do Terror, é por de mais conhecido para ser aqui discutido."

"On violence" (Hannah Arendt)


Arendt diz também que esta cruzada contra a hipocrisia aparece muito antes dos moralistas a terem estigmatizado como o vício característico da chamada "boa sociedade".

Não seriam os interesses por detrás do comportamento a provocar a raiva, mas a aparência de racionalidade e de direito.

Talvez o crime maior de Luís XVI, aos olhos dos jacobinos, fosse a sua dissimulação e o que os revolucionários acreditavam ser o pensamento constante da traição no seu espírito.

A Razão, como se viu então, pode engendrar o seu próprio fanatismo e ao querer a todo o custo que as máscaras e as palavras sejam transparentes favorece a pior das tiranias e os pesadelos de que nos falam os desenhos de Goya.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A SUPERIORIDADE DO HELIOCENTRISMO


O modelo heliocêntrico


"Qualquer um dos primeiros copernicianos era um ardente adepto de Pitágoras e de Platão, ou seja, acreditava que um universo centrado no sol é espiritualmente muito superior a um universo que coloca a Terra no seu centro."

(Thomas Kuhn, citado por Michael Ruse em "O mistério de todos os mistérios")


A ideia de Aristarco de Samos tinha contra ela o senso comum. Depois do advento do Cristianismo, somou-se ao senso comum a narrativa do Génesis.

A revolução só foi possível porque a Ciência tinha entretanto adquirido autoridade, a ponto de refutar o senso comum e obrigar a Igreja à interpretação literária.

A hierarquia espiritual que os Gregos atribuíam à astronomia podia conviver eternamente com o geocentrismo, dada a sua estrutura de classes.

Assim, a Ciência podia ter de facto uma dimensão religiosa e esotérica que inibia todos os seus efeitos revolucionários.


Batalha (José Ames)

GATOS E LAGARTOS


Charlotte Corday, o assassinato de Marat - Jean Joseph Weertz


"Era um estranho objecto. O seu trajo, ao mesmo tempo requintado e sujo, era menos de um homem de letras do que de um charlatão da rua, de um vendedor da banha-da-cobra, como de facto ele havia sido. Era uma labita que em tempos fora verde, sumptuosamente guarnecida de uma gola de arminho amarelada que ainda trazia o cheiro do seu velho doutor. Feliz escolha de cores que se casava às maravilhas com o tom acobreado da pele, e que, de longe, podia fazer tomar o doutor por um lagarto."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Assim o grande historiador descreve Marat, levado pela multidão em triunfo à Convenção, onde rosnou estas ferozes palavras, dirigidas aos seus inimigos na assembleia: "Tenho-os agora na mão. Irão também em triunfo, mas a caminho da guilhotina."

Somos transportados para o meio da cena tumultuosa que Michelet recria com grande dramatismo.

A análise dos grandes movimentos, a interpretação política e social também estão lá, mas como as monótonas descrições da técnica baleeira em Melville que criam tensão e espaço para o drama.

Para o seu teatro, Michelet serve-se muitas vezes da máscara do animal que nos representa o instinto como que imobilizado e assim dispensa qualquer preparação psicológica.

Robespierre é o gato, dissimulado e imprevisível. Marat a criatura das caves onde alimenta o seu fanatismo, é o lagarto que aparece um momento à luz do dia antes de se refugiar na sua fenda. Barthes disse tudo sobre esta escrita.

Literatura e da melhor. Mas pode a História compreender o passado sem o recurso da arte?

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O CÉU DOS LAMPIÕES

http://tecfa.unige.ch/perso/frete/memoire/scenario/univers/reverberes.html


"Os primeiros ensaios de iluminação a gás ao ar livre coincidiram com a infância de Baudelaire: foram colocados candelabros na Place de Vandôme. Sob Napoleão III, o número dos candeeiros a gás aumenta rapidamente em Paris. O facto trouxe mais segurança à cidade, fez a multidão sentir-se nas ruas como em casa, também à noite, e baniu o céu estrelado do cenário da grande metrópole de forma mais radical do que o tinham feito os prédios altos."

"Charles Baudelaire" (Walter Benjamin)


Toda a luz artificial é um ecrã. As grandes cidades projectam-se, de noite, contra o céu, tornando irreal o que está para além desse espectáculo.

Não podia deixar de ser assim, visto que tivemos de nos relacionar cada vez mais connosco próprios e não sabemos já lidar com a Natureza.

Mas começamos a sentir que esta não pode ser simplesmente "protegida", depois de a termos considerado como objecto de conquista. A consciência ecológica é ainda uma consciência de proprietário a quem compete zelar pela conservação dos seus bens.

E assim se acendeu o gás e apagou o céu. Este é cada vez mais um assunto de especialistas.

Quem tem tempo para considerar? (*)


(* segundo Ernout e Meillet, o lat. considerare significava originalmente "examinar com cuidado e respeito religioso os astros, segundo os princípios da astrologia" - Dic. Houaiss)


(José Ames)

POBRES EM MUNDO


Peter Sloterdijk


"De facto, durante meio século, a filosofia europeia, generosamente assistida pelas artes literárias e figurativas, desenhou imagens do mundo para pessoas ausentes, pobres em mundo e perdidas em signos estéreis."

"Se a Europa acordar" (Peter Sloterdijk)


Pobres em mundo é uma expressão de Heidegger. Os animais, por exemplo, seriam pobres em mundo. Não teriam representação do mundo. Em relação aos europeus isto significaria uma perda de realidade causada pelos traumatismos do século XX.

A que mundo reduziram a Europa as duas guerras mundiais? Sloterdijk fala num espaço vazio e na "tenaz das novas potências mundiais de oeste e leste". Se mundo há, a Europa já não ocupa nele um lugar central.

Bom, podíamos dizer que a tenaz perdeu já uma das suas mandíbulas e que talvez o centro não esteja em lado nenhum.

Mas o pensamento tecno-científico originário do velho continente parece ter-se tornado universal, como se fosse a condição sine qua non da redistribuição do poder e da influência cultural.

O dínamo grego tornou-se o princípio de todo o movimento.

domingo, 18 de maio de 2008


Amalfi (José Ames)

O ELO DA ATENÇÃO



"A falta de atenção dos alunos, de que todos os professores se queixam, não é senão uma das formas desta nova consciência cool e desenvolta, ponto por ponto análoga à consciência telespectadora, captada por tudo e por nada, ao mesmo tempo excitada e indiferente, sobressaltada pelas informações, consciência opcional, disseminada, nos antípodas da consciência voluntária, "intro-determinada".

"A Era do Vazio" (Gilles Lipovetsky)


Se entramos numa era de "indiferença pura, com o desaparecimento dos grandes fins e grandes iniciativas que merecem o sacrifício da vida", evitamos, ao mesmo tempo, "os sobressaltos da religiosidade histórica (*) e os grandes desígnios paranóicos."

É talvez essa a origem do fenómeno conhecido pelo "politicamente correcto" e duma tolerância que se confunde com o relativismo moral.

Mas num mundo globalizado, que toma consciência dos seus violentos contrastes, essa apatia confronta-se com o que lhe é mais oposto - e lhe recorda o seu próprio passado - , sob a forma do fanatismo político-religioso.

A mudança do tipo de atenção, no Ocidente, devida aos novos media e às novas formas da cultura, não deve, contudo, levar-nos a pensar que se trata dum indício duma decadência já vista, cercada pela vitalidade dos novos bárbaros.

Desde logo porque, apesar das diferenças gritantes, o modelo de cultura fundado na tecnologia impõe-se mesmo aos que sonham lançar-se ao assalto do império.

O nuclear, como um deus sem povo, nem cultura, unindo as duas pontas do arco, é disso o melhor sinal.


(*) A tradução é de Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria para a "Relógio d'Água";
no contexto, o adjectivo histérica, parecia-me mais adequado, do que histórica.

sábado, 17 de maio de 2008

OS FOLHETINS


Walter Benjamin (1892/1940)


"Devido a esta nova situação - a redução do custo das assinaturas -, o jornal tem de viver dos anúncios...; para conseguir muitos anúncios, o quarto de página dedicado à publicidade precisava de ser visto pelo maior número possível de assinantes. Era preciso um isco que se dirigisse a todos, sem se preocupar com opiniões pessoais, e cujo valor era o de colocar a curiosidade no lugar da política... Uma vez garantido o ponto de partida, a assinatura por 40 francos, através do anúncio, chegava-se quase necessariamente ao romance em folhetim."

"Charles Baudelaire" (Walter Benjamim)


Esta evolução na imprensa parisiense de meados do século XIX, que mobilizou escritores como Alexandre Dumas e Eugène de Sue, é um bom exemplo daquilo a que hoje chamamos de despolitização.

A necessidade económica, e não os desígnios de qualquer comité secreto da burguesia, estava, como se vê, na sua origem.

O papel crescente da publicidade no financiamento dos jornais mudou-lhes o carácter. O folhetim tornou-se mais importante do que a política ou a linha editorial. Vemos hoje, com a televisão, onde tudo isso levava.

Poderíamos dizer que a função de informar e de formar a opinião pública não se paga a si própria e que quanto mais dispendiosos forem os meios para levar a cabo essa missão mais aquilo que se diz é condicionado e desvirtuado pelas "condições de produção".

A Internet permite-nos, talvez, esperar uma mudança nessa situação.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

EPPURE SI MUOVE


Galileu enfrentando a Inquisição


"Ora a fé não estava certamente mais implicada no século XVII pelas descobertas da astronomia do que está hoje pelas da física ou da paleontologia. Galileu e os seus juízes não falavam das mesmas coisas: um falava das leis e do mundo físico, os outros não falavam de nada. Por muito intensa que pudesse ser a sua fé, ele não corria, portanto, o risco de traí-la se respondesse o que quer que fosse."

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


Não havia, diz Jeanson, um terreno comum entre a verdade científica e o dogma. Mas o problema é a linguagem induzir nas pessoas a ideia de que as palavras querem sempre dizer alguma coisa.

É claro que a Inquisição temeu que a fé sofresse com os efeitos duma contradição nas palavras, e, nisso, enganou-se miseravelmente.

Galileu que, segundo este autor, fraquejou ao comentar a sua abjuração, como se existisse uma contradição real, parece-me, pelo contrário, ter resumido o melhor possível a situação.

O "Eppure si muove" remete para a teologia o problema de encontrar um outro sentido para as palavras.


(José Ames)

DESVELAMENTO


http://www.sgeier.net/fractals/fractals/


"Os homens dizem: "Tudo passa", mas quantos apreendem o alcance desta aterradora banalidade? Quantos fogem da vida, a cantam ou a choram? Quem não está imbuído da convicção de que tudo é vão? Mas quem ousa afrontar as consequências disso? O homem de vocação metafísica é mais raro do que um monstro - e no entanto cada homem contém virtualmente os elementos dessa vocação. Bastou a um príncipe hindu ver um enfermo, um velho e um morto para compreender tudo."

"Précis de Décomposition" (Emil Cioran)


Somos incapazes de renunciar. "Esperamos tudo - mesmo o Nada - só para não ficarmos reduzidos a uma suspensão eterna, a uma condição de divindade neutra ou de cadáver."

O véu de Maya só pode retirar-se se compreendermos que, na realidade, "nada passa".

É outra maneira de usar a razão, mas que não é contra a vida, essa.

Se se atinge esse cume do pensamento em que deflagram as grandes negações é porque a razão não negou antes do tempo.

Haverá então qualquer coisa como a fidelidade à origem?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

PROFECIA


http://www.derok.net/derok/images/sports/implosion.jpg


"Tudo o que é necessário para salvar a humanidade de uma catástrofe é o passo a ser dado por um desses Estados independente em relação ao outro, não por meio da guerra que produziria o desastre, mas mediante acordo."

"Ensaios Impopulares" (Bertrand Russell)


A ideia de Russell era que os EEUU e a URSS tinham que chegar a um acordo para salvar o mundo duma catástrofe.

Como não podia perceber o grau de podridão que já atingia uma das superpotências e, nisso igual a tantos outros intelectuais, julgando a realidade pelo seu conceito, só imaginava uma saída na impensável humilhação política dum primeiro passo ou num mais do que improvável acesso de responsabilidade humanitária.

Afinal, a solução para esse problema - que trouxe outros perigos para a humanidade - foi a implosão nunca vista de um regime que, como num filme acelerado, nos deu a última versão do Declínio e Queda.

Decididamente, os únicos profetas são os que acertam por acaso.


Caserta (José Ames)

INÚTIL RECTIFICAÇÃO


Amour et Psyche (Antonio Canova)


"Por vezes, nas noites de espera, a angústia é devida a um medicamento que se tomou. Falsamente interpretada por aquele que sofre, ele acredita estar ansioso por causa daquela que não vem. O amor nasce neste caso, como certas doenças nervosas, da explicação inexacta de um mal-estar penoso. Explicação que não é útil rectificar, pelo menos no que respeita ao amor, sentimento que (seja qual for a causa) é sempre erróneo."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


Proust parece pensar, como Lacan, que no desejo não há relação.

A imagem que desencadeia o desejo não é real, embora nasça sempre de um encontro. A sedução é interpretação e reflexo. O outro procura coincidir com a projecção do desejo, tornando-se verdadeiramente uma máscara (persona) do mesmo.

Se é assim, explicar que se trata de uma ilusão é absolutamente inútil. Porque o desejo, no caso do amor, não passa sem esse engano, esse cinema que o outro ilumina dentro de nós.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

JUDAS AVATAR



"Em todo o empreendimento humano, podem encontrar-se duas espécies de traidores: aqueles que traem a letra para tentarem permanecer fiéis ao espírito e aqueles que, traindo ao mesmo tempo a letra e o espírito, mostram bem que escolheram renegar-se, renegando o sentido mesmo da sua empresa."

"La foi d'un incroyant" (Francis Jeanson)


Mas é verdade que podemos redistribuir o que pertence à letra e o que pertence ao espírito.

Não há nenhum critério objectivo da traição, porque se pode sempre atribuir às palavras e aos actos o sentido duma fidelidade superior.

No limite, imaginemos o ser omnisciente que conhecesse o verdadeiro espírito duma parábola, para além daquilo de que o seu suposto autor seria consciente (é, outra vez, a insondabilidade da pergunta). Esse ser poderia inspirar actos que parecessem trair tanto o espírito como a letra, e, no entanto...

Judas como avatar de Cristo: - Vai, e faz o que tens de fazer.


(José Ames)

O SILÊNCIO DO PERGUNTADOR



"A resposta é a infidelidade da pergunta."

Maurice Blanchot


Até a pergunta que se repete a quem a não ouviu bem.

A lei do tempo faz-nos percorrer mundos entre um instante e outro, de tal modo que julgamos estar num lugar e já estamos noutro.

A pergunta nasce duma conjuntura "astronómica" que nunca mais se repete. Se quisermos subir à nascente, tudo nos desencaminha. Que milagre é então uma resposta que coincida com a pergunta!

A maior parte das vezes, as "naves" encontram-se num espaço forçado pela vontade: -Não era bem isso, mas está bem.

O pragmático, a esta altura, interrompe-nos, impaciente: - Vamos lá a ver, se eu fizer uma pergunta precisa, tenho o direito de esperar uma resposta concreta. Por que não haveria de ficar satisfeito? De que perguntas estamos a falar?

Não, evidentemente, das perguntas de um teste americano. Das outras, das que contêm já a resposta, mas como num cofre de que se perdeu a chave, das que querem perguntar outra coisa diferente da própria pergunta, das que não têm resposta...

Não é por acaso que Sócrates se refugiava nas perguntas.

terça-feira, 13 de maio de 2008

JUVENTUDE SEM JUVENTUDE



Baseado num conto de Mircea Eliade, o último filme de Coppola ("Youth without youth") é a história de Dominic Matei, um velho professor de Bucareste que, atingido por um raio ao atravessar a rua, recobra a sua juventude.

E é como se lhe fosse dada uma nova oportunidade de acabar a sua investigação sobre as origens da linguagem.

Laura, o seu grande amor, regressa do mundo dos mortos sob a forma de um avatar mediúnico que, nas suas crises, convoca línguas já desaparecidas, cada vez mais antigas. Mas esse esforço rouba-lhe a vida e Matei renuncia a essa busca obsessiva do conhecimento. Decide separar-se e regressar à sua terra natal, onde, no café Select encontra os velhos companheiros. Mas eles são incapazes de compreender que ele regresse do futuro. Matei abandona a reunião dos amigos e acaba por morrer no gelo da noite, com a sua verdadeira idade.

A moral da história poderia ser a de que o conhecimento traz consigo a morte e o fim das ilusões. Jovem, sem ser "de novo", Matei é afectado por tudo o que já sabe e pelo que deixou por fazer. É o amor que a certa altura lhe abre os olhos, pois verifica que se servia de Laura para os seus fins, em vez de a amar. A digressão pela religião da Índia sugere que a metempsicose poderia ser a chave dessa repetição do destino.

A mais simples explicação seria, contudo, considerar tudo um sonho. A personagem sonha com as suas obsessões e acorda no ponto em que estava quando adormeceu, transformado interiormente.

Esse é o modelo de Alice. O importante é que dentro do sonho, a vida do sonhador é avaliada através de apostas simuladas.

Matei aprendeu a renunciar e libertou-se da grande frustração da sua vida.


Cápua (José Ames)

A ESFERA PESSOAL




"Devemos o facto de tal não ser possível não apenas à democracia, mas, também, à doutrina da liberdade pessoal. Esta doutrina, na prática, consiste em duas partes: de um lado, que um homem não será punido excepto mediante processo legal e, de outro, que deverá haver uma esfera, dentro das acções de cada homem, que não esteja sujeita à acção governamental. Esta esfera inclui a liberdade da palavra, a liberdade de imprensa e a liberdade de religião. Costumava incluir, também, a liberdade de empreendimento económico."

"Ensaios Impopulares" (Bertrand Russell)


De facto, a democracia sem a liberdade pessoal pode ser pior do que uma tirania.

Um tirano cria tantos inimigos, que tem de fazer da sua protecção o primeiro fim do governo, mas os seus actos não têm a cobertura moral da legalidade, da nação ou duma maioria.

É claro que a minoria hoje oprimida pode ser a maioria de amanhã, e o indivíduo agora espezinhado ser reconhecido um dia como profeta.

Certamente que a única maneira de não se cometerem erros fatais, como estes, é proteger o indivíduo aquém dum certo limite. Porque a opressão da maioria, além de ser injusta, é contrária à democracia.

A questão da "liberdade de empreendimento económico" é muito interessante. Porque todas as outras liberdades individuais podem ter grande repercussão nos outros e na vida social e por isso não se vê a razão para a sua exclusão.

Se é certo que deve ser limitada, nisso não se diferencia da liberdade de expressão, por exemplo, que não pode ser ilimitada sem se parecer com a libertinagem.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

SHAKESPEARE E A BÍBLIA



"Existe uma excepção suprema e desafiadora a esta ubiquidade da presença bíblica na literatura inglesa. Estudos auxiliares falam de um número considerável de alusões a material bíblico em Shakespeare. Citações das Escrituras, na maior parte mudas e indirectas, foram identificadas. No entanto, não há conflito central nem compromisso de qualquer natureza (como há, pelo contrário, com Homero e Plutarco)."

"Paixão Intacta" (George Steiner)


"Presumo que algum instinto prudente de superior autonomia inibiu Shakespeare de um contacto demasiado próximo com os únicos textos, com o único discurso em acção, que poderiam ofuscar as suas próprias faculdades." (ibidem)

Isto é tão assombroso que logo pensamos no impacto das Revoluções sobre a língua e a cultura duma nação, na acção dos seus mecanismos de censura, com os epifenómenos de histerismo e sublimação, como termo de comparação.

O "recalcamento" do discurso bíblico por parte do maior vate nacional ter-lhe-ia sido imposto pela criação duma nova língua no contexto duma crescente distanciação em relação à Igreja de Roma?

A falta de naturalidade de Shakespeare, glosada num outro ensaio de Steiner, aparece assim como a marca duma autonomia que transcende o próprio teatro.