quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


(José Ames)

A PRESENÇA TUTELAR


"O pecado mora ao lado" (1955-Billy Wilder)


"Arendt era para ela uma referência intelectual permanente, uma via que lhe permitia penetrar na cultura europeia, uma presença tutelar, por vezes maternal, revestindo-se de um olhar de censura. É significativa a revelação de McCarthy na carta de 8 de Dezembro de 1954, na qual confessa sentir o peso da presença de Arendt enquanto escreve algumas cenas de sexo e de sedução no seu romance 'A Charmed Life'."

"Nas teias de uma amizade: Hannah Arendt e Mary McCarthy" (Maria Luísa Ribeiro Ferreira)


Pergunto-me se alguma vez se poderá descrever o que nos põe fora de nós mesmos, como os transportes de amor ou as guinadas com que o segundo cavalo de Platão põe à prova a firmeza da nossa mão, sem uma "presença tutelar", a que podemos chamar também consciência ou super-ego, mas que é muitas vezes, simplesmente, uma pessoa que admiramos, normalmente mais velha.

Sinal, por um lado, que o sexo (mas não só o sexo) não pode ser "libertado" (Eros era, afinal, um deus menor, se bem que poderoso) e que mesmo antes da moral cristã e do puritanismo vitoriano ou outro existia, na Antiguidade, um limite chamado pudor.

E, por outro, que a pornografia não é a ultrapassagem desse limite, mas outra coisa. A sua natureza é a duma destruição da linguagem (esse podia, aliás, ser o critério para a distinguir do erotismo).

A "presença tutelar", sob qualquer das suas formas, é justamente o que liberta a linguagem. Nunca somos mais imaginativos como quando temos de contornar uma regra. Veja-se a maravilha daquela cena de "The seven year itch".

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Gaia (José Ames)

TÊTE À TÊTE


Michel de Montaigne (1533/1592)


"Este é um livro de boa fé, leitor. Advirto-te desde a entrada que não me propus nenhum outro fim que doméstico e privado; não tive consideração alguma pelo teu serviço, nem pela minha glória: as minhas forças não são capazes dum tal desígnio. Dediquei-o à comodidade particular dos meus parentes e amigos: àqueles que, tendo-me perdido (o que bem cedo farão), possam aí encontrar alguns traços das minhas condições e humores e que por este meio possam nutrir dum modo mais inteiro e mais vivo o conhecimento que tiveram de mim. "

"Essais" (Montaigne)


Assim começa Michel de Montaigne os seus famosos "Ensaios". Os seu parentes e amigos, afinal, somos nós e os que o leram durante este quase meio milénio.

Mas os pensamentos deste homem, "há muito fatigado da servidão da corte e dos empregos públicos" podem dá-lo, realmente, a conhecer?

O seu retiro, aos 38 anos, para o que ele chamava a sua citadela (a torre do castelo familiar), rodeado dos seus 1500 livros, permite-nos hoje deliciar-nos com um espírito livre, igualmente à vontade entre os clássicos greco-latinos e a política do seu tempo (foi conselheiro no Parlamento de Bordeaux), mas a obra é mais um lugar de refúgio do mundo, um tête à tête com a posteridade, do que um retrato do homem.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009


(José Ames)

O PLÁTANO



"Fedro - Eu advirto-te duma coisa, deixa de te fazer rogado, que ou eu me engano, ou encontrei a palavra que te fará falar.

Sócrates – Então não a digas.

Fedro – Vou dizê-la, pelo contrário. Essa palavra é uma jura: eu juro - mas por qual deus jurar, por qual? – Olha! Por este plátano, juro que se não pronunciares o teu discurso diante desta mesma árvore, nunca mais te mostrarei nem te falarei de mais discurso nenhum de ninguém.

Sócrates – Ah! Malvado, como tu soubeste achar o meio infalível de me levar aonde querias, apanhando-me pelo meu fraco pelos discursos!"

"Phèdre" (Platão)


Entre jurar por um plátano a dar, por exemplo, a sua palavra de honra vai um abismo.

Para Fedro a natureza é divina. Uma árvore pode servir de testemunha porque não se sabe as metamorfoses que sofreu (como a dos homens que a Musas enlouqueceram e foram transformados em cigarras, também referidos neste diálogo). A natureza não está separada dos homens, nem pode ser revelada como um processo objectivo.

Esta é a idade da harmonia sobre a qual só podemos lançar um olhar nostálgico.

Deste lado do abismo, o indivíduo que jura pela sua honra, jura pela opinião. Um dito atribuído ao próprio Sócrates ilumina a questão: "O caminho mais grandioso para viver com honra neste mundo é ser a pessoa que fingimos ser."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


Ponte de Lima (José Ames)

A DATAÇÃO DE CRISTO


The Blessing of Christ by Fernando Gallego

"A coisa decisiva no nosso sistema não é que o nascimento de Cristo apareça agora como o ponto de charneira da história do mundo (…), mas antes que agora, pela primeira vez, a história da humanidade se estende (para trás) até um passado infinito que podemos recuar à vontade levando a pesquisa mais longe, como se estende para a frente até um futuro infinito. Esta dupla infinidade do passado e do futuro elimina todas as noções de começo e de fim, e estabelece a humanidade numa imortalidade terrestre potencial."

"La crise de la culture" (Hannah Arendt)


A história como processo no tempo foi levada às últimas consequências por Hegel, rompendo com toda a tradição metafísica que, desde Platão, "tinha procurado a verdade e a revelação do Ser eterno em todo o lado, menos no domínio dos assuntos humanos.", mas o nosso sistema de datação foi introduzido, no fim do século XVIII, como diz Arendt, "como um simples melhoramento técnico".

Por um lado, só esta concepção da história era compatível com a moderna cosmogonia ( a teoria do Big Bang é o exemplo dum começo, ainda que provisório). Por outro, se tudo é considerado como processo, tanto na natureza quanto na história, isso quer dizer que os factos e os acontecimentos perdem importância em relação às leis do processo e à sua natureza, coisa que vai contra o moderno método científico (de sujeitar a teoria ao teste da experiência).

Os novos rumos da ciência teórica apontam, porém, para uma nova metafísica.


domingo, 27 de dezembro de 2009


(José Ames)

OS CÍNICOS



"Les liaisons dangereuses" (1796)


"Os problemas acerca dos quais alegavam nunca pensar clamavam à sua volta. Recolher informação para a transformar em piadas era uma protecção para não serem abalados por forças fora do seu controle. Mostrar controle em pessoa era uma maneira de fazer o controle real sobre esses problemas parecer irrelevante."

"Avoiding politics" (Nina Eliasoph)


Esta amostra pertence ao grupo dos cínicos (e do strenuous disengagement) no estudo de Eliasoph.

Pensemos no exemplo dum cínico, na literatura clássica, como o conde de Valmont de "As ligações perigosas". Aqui a grande questão é o amor. E o rol das suas vítimas é a troça com que pretende disfarçar a sua incapacidade para o amor.

Enquanto a maioria dos habitantes de Buffalo opta por não falar sobre esses tópicos para não revelar a sua ignorância ou a sua incompetência, sentindo-se impotentes para intervir na esfera pública, os cínicos estão geralmente bem informados e tratam as questões sérias com uma frivolidade característica, não porque se sintam com mais poder de iniciativa do que os outros, mas por causa da sua preocupação maior: não passarem por lorpas (bubbas).

sábado, 26 de dezembro de 2009


Vila Franca de Xira (José Ames)

RETÓRICA



"Se tu quiseres mudar de lado passando despercebido, não consegues isso melhor se te deslocares por pequenos passos em vez de por grandes passos?"

"Phèdre" (Platão)


A atenção é como a serpente que se lança sobre o gesto brusco. É preciso adormecê-la deslizando progressivamente, encantá-la com a música mais suave. É assim que se pode levar uma audiência a tomar uma coisa por outra, sobretudo se existir entre ambas certa semelhança.

Mas Sócrates diz que só conhecendo a verdade se pode enganar os outros sem o próprio também se enganar. Devemos admirar-nos que a retórica política logre tanto os que enganam como os que são enganados?

O problema está naquele conhecimento da verdade, aparentemente, tão acessível ao filósofo ateniense, e que desapareceu do nosso campo de certezas.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


(José Ames)

ÁGORA


Ágora (2009-Alejandro Amenábar)

Amenábar conseguiu o feito de salvar do naufrágio esta grande produção. As personagens têm vida própria, mas ao mesmo tempo encontramos nelas a qualidade do símbolo, tantas são as ocasiões em que, através delas, podemos ler a história dos nossos dias.

Na luta pelo poder, em Alexandria, nos últimos anos do século IV AD, os cristãos, fortalecidos pelo apoio romano, não ficam, em fanatismo, nada atrás dos talibãs que destruíram os budas de Bamiyan. E dos seus heróis, por mais cruéis e sanguinários, a Igreja fará santos e mártires, como deve ser, porque (Freud dixit) na origem da cultura está sempre um crime.

Não me parece que o esforço de equidistância em relação às várias facções (pagãos, cristãos e judeus) peque por "politicamente correcto". Talvez que essa ideia de "objectividade" (sempre, mais ou menos, baldada) seja uma das nossas mais recentes conquistas, pois a verdade é que esquecemos durante mais de dois milénios a lição da "Ilíada" em que se fez justiça a Gregos e a Troianos.

O título deixa supor que a discussão pública é que determina os acontecimentos, mas a mensagem do filme é muito mais pessimista porque a massa em movimento não tem um leme seguro que a impeça de massacrar um grande espírito como Hypatia e nem de cometer o maior dos sacrilégios: a destruição do seu próprio passado.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


Mértola (José Ames)

CESARION

Cleópatra


"(…) Caesarion was full of grace and beauty (son of Cleopatra, blood of the Lagidae); and the Alexandrians rushed to the ceremony, and got enthusiastic, and cheered in greek, and egyptian, and some in hebrew, enchanted by the beautiful spectacle – although they full well knew what all these were worth, what hollow words these kingships were."

"The Alexandrian Kings" (Constantine Cavafy)


O povo de Alexandria juntou-se para ver o filho de César e de Cleópatra, Cesarion e os seus irmãos Alexandre e Ptolomeu.

Não tinha ilusões sobre o futuro daquelas crianças ou é o poeta que imagina o espectáculo a partir do futuro, como historiador?

O povo não é profeta e a sua reunião cria os factos que depois serão avaliados como ilusão.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009


(José Ames)

O REAL NO PLURAL



"A questão da fé joga-se nas embocaduras e não nas fontes. E o princípio lógico da não-contradição nada pode esclarecer, desde o momento em que existem, não várias verdades, mas vários 'reais' (dos quais a realidade virtual é apenas o mais recente, não anulando os precedentes, mas fornecendo-nos, apenas, ainda mais um real). O real da crença tem o seu próprio realismo, tal como a positividade crítica tem o seu."

"Deus, um itinerário" (Régis Debray)


Segundo uma ideia ingénua, a realidade devia ser independente da crença. Mas se é preciso crer no 'real' é na medida em que ele não é sensível nem evidente.

A imensa maioria, se já ouviu falar disso, conhece o mundo da microfísica como Lucas conheceu Jesus. Ele "não viu nada, mas soube por Paulo que, ele próprio, ouviu dizer."
(ibidem) A verdade é que acreditamos na ciência porque ela nos encheu o mundo de "milagres".

São Tomé teve de ver para crer. Mas o que ele viu foi o milagre da ressurreição e, ele, não precisou de fazer mais perguntas. É assim que o grande número vê a tecnologia.

Podemos contentar-nos com esta ideia do real (o que podemos tocar ou que vemos a funcionar), mas isto é crença e não mais do que isso.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Viana do Alentejo (José Ames)

VALORES E PROBLEMAS



"Direi portanto não mais de que os valores emergem juntamente com problemas; que os valores não podiam existir sem problemas; e que nem os valores nem os problemas podem ser derivados ou de outro modo obtidos a partir de factos, apesar de muitas vezes dizerem respeito a factos ou estarem com eles relacionados."

"Unended Quest" (Karl Popper)


Popper sustenta que os problemas (e os valores) entram no mundo com a vida, mesmo que não exista uma consciência para os formular.

A palavra problema que vem do grego probállein (apresentar-se, atirar-se ou pôr-se em frente) significa um obstáculo que precisa ser ultrapassado. Compreendemos que um animal tenha um problema de alimentação e que se existisse um conselho de animais os problemas poderiam ser avaliados segundo, por exemplo, a sua dificuldade ou a sua importância para a vida.

Poderá dar-se que o mundo dos valores tenha tido origem em determinados problemas e que esse elo se tenha perdido para quem reflecte sobre os valores, embora isto soe, um pouco, à ideia marxista do económico como última instância e da ideologia como super-estrutura. Mas para a consciência os problemas são ideias (sobre a natureza ou a dificuldade dos obstáculos) e não factos, por muito objectivos que possam ser.

É possível por isso que os valores "descolem" para um mundo abstracto e independente. E teríamos que exigir dos valores um "certificado de origem", ou considerar que a abstracção e os problemas abstractos têm uma relação com os factos mais verdadeira ainda do que qualquer problema "real".

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


(José Ames)

O HUMANISMO DOS ANJOS



Proust no seu leito de morte


"O egoísmo, tão natural nos artistas e que representa a economia das suas potências perante um mundo cuja realidade está sobretudo na criação que dele faz, transparece em Cela quase como mais uma graça e uma burla sua. No entanto, é autêntico, ninguém estranha. O egoísmo é o humanismo dos próprios anjos."

"Embaixada a Calígula" (Agustina Bessa-Luís)


Este esboço sobre Camilo Cela foi feito durante um encontro de escritores na Provença, em 1959. São interessantíssimas as notas de Agustina sobre os diversos participantes.

Aqui, fala-se do que pode parecer egoísmo, e até insensibilidade, nos criadores, mas é sobretudo atenção apaixonada pelo que fazem nascer, com prejuízo do resto, inclusive da própria saúde. Proust não teria morrido aos 51 anos se tivesse consentido em tratar-se. Mas ele temia que as drogas obnubilassem o seu espírito e o impedissem de se dedicar à coda da sua grande obra. A rudeza de Miguel Ângelo é proverbial, pois a ideia tortura o artista sem escolher o momento e ganhava audiência no seu espírito por uma espécie de parti pris contra o mundo.

Hé, evidentemente, artistas cortesãos que sabem manter as conveniências que não podem dar-se ao luxo de ignorar. É por isso que a loucura, às vezes, guarda a criação, e seja difícil nalguns casos distinguir entre a vontade e a maldição.

E talvez aqueles que nos enganam apresentando-nos a loucura como um jogo sejam os mais felizes.

domingo, 20 de dezembro de 2009


Santo Tirso (José Ames)

O PENSAR E A INTELIGÊNCIA



Hanna Arendt contou numa conferência que na sua infância considerava os jogadores de xadrez como expoentes da inteligência humana, de acordo, aliás, com um preconceito muito comum. Como se sabe, hoje, qualquer computador pode bater essa inteligência.

A filósofa procurava dilucidar a diferença entre o pensar e a inteligência, porque os exemplos históricos abundam de indivíduos dotados da capacidade de cálculo e de resolver problemas complexos que, não obstante, falharam rotundamente na compreensão de situações em que se viram envolvidos e puderam desempenhar, de boa consciência, o papel de dóceis instrumentos em políticas da maior atrocidade contra os seus semelhantes.

Essa distinção, que nenhum Deep Blue até agora pôde perceber, deve ser, pois, essencial para todos nós. Arendt avança o conceito de "desfactualização" para explicar como é que o pensamento pode definhar por falta de realidade, sem prejuízo do poder da inteligência se manter activo (embora desligado do mundo).

"Nas sociedades contemporâneas há quatro formas principais de desfactualizar o mundo: a primeira resulta do emprego generalizado da mentira nas democracias de massas; a segunda de um relativismo niilista que transforma os factos em opiniões; a terceira de sujeitar os acontecimentos a processos de formalização; e a quarta, de minar a liberdade académica sujeitando-a a uma lógica mercantil."
("Arendt e o Fim da Política" de José Luís Câmara Leme)

sábado, 19 de dezembro de 2009


(José Ames)

O ESTADO AQUÉM DA POLÍTICA?



"O Estado democrático orienta-se pelas necessidades da população e esforça-se por melhorar a sua satisfação pela institucionalização da concorrência no acesso ao poder (em termos sistémicos, pode-se falar duma redundancy of potential command). Isso tem como consequência o aumento do número das próprias necessidades, assim como das expectativas do público, e acaba por se esperar do Estado prestações que são impossíveis de realizar tecnicamente com os meios da política, eventualmente através de decisões colectivas constringentes. Este mecanismo de auto-incremento é incapaz de encontrar em si mesmo as suas medidas e os seus limites. Não se pode regulá-lo politicamente. Só se pode cortar-lhe o abastecimento de energia."

"Politique et Complexité" (Niklas Luhmann)


O "corte de energia" podem ser as reduções orçamentais, o FMI ou as imposições de Bruxelas.

É um pouco o que dizia, no outro dia, o Miguel Esteves Cardoso numa divertida crónica a propósito do referendo suíço sobre os minaretes. Há coisas que não se perguntam, como se o Estado deve endividar-se para nos oferecer a todos um mês suplementar pelo Natal.

A massa não se comporta racionalmente. Rousseau achava que os diferentes interesses se compensariam uns aos outros, de modo a que qualquer coisa como uma vontade colectiva emergisse na altura de escolher um governo. Mas a estrutura dos interesses deve ter mudado muito (para além de haver uma grande diferença entre escolher um governo e decidir sobre um aumento do ordenado), para o resultado daquele hipotético referendo sugerido pelo cronista nos parecer tão óbvio, apesar do estado das finanças públicas.

O problema formulado por Luhmann parece levar a uma separação entre a organização do Estado e o sistema político, isto é, a burocracia talvez não seja, fundamentalmente, uma perversão da organização do Estado, mas a ossatura que resiste à sua instrumentalização pelos grupos de interesses mais influentes.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009


Gaia (José Ames)

JUÍZOS



"O Juízo, em geral, é a faculdade de pensar o particular como contido no universal. Se o universal (a regra, o princípio, a lei) é dado, o Juízo, que subsume nele o particular (…) é determinante. Mas se só o particular é dado, sobre o qual ele deve encontrar o universal, então o Juízo é somente reflexionante."

(Kant, "Crítica do Juízo", citado por Fina Birulés in "Juzgar en compañia")

Quer dizer, neste último caso, o Juízo funciona como um exemplo, sem valor universal (que "excede o acontecimento, porém", diria Arendt).

Mas os universais são dados apenas no mundo da lógica e dos conceitos. Todos os juízos com incidência na vida comum, tanto na vida privada, como na política, são juízos "reflexionantes". Devem ser originais para corresponder à novidade do caso, mas não valem para todas as pessoas.

"Quando julgamos, recorremos à imaginação com o fim de nos colocarmos no lugar de outra pessoa. Trata-se de pensar com 'mentalidade extensa' (enlarged mind)"(ibidem)

Isto leva-nos à expressão tão corrente no mundo da política, mas mais usada como álibi do que praticada realmente: a "mentalidade aberta". Porque se há coisa que uma mente partidária não se pode permitir é colocar-se no lugar da "concorrência" (a não ser no sentido estratégico).

Donde, os juízos de partido nem sequer são reflexionantes. São juízos duma espécie particular, pois são deduzidos dum falso universal que é o próprio partido.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


(José Ames)

CONTACTO


René Descartes


"Não se raciocinará tanto sobre a luz que nós vemos quanto sobre aquela que do exterior entra nos nossos olhos e comanda a visão. (…) Se se tomarem as coisas assim, o melhor é pensar a luz como uma acção por contacto, tal como a das coisas sobre a bengala dum cego. Os cegos, diz Descartes, 'vêem com as mãos'. O modelo cartesiano da visão é o tacto. Tal modelo livra-nos de imediato da acção à distância e desta ubiquidade que constitui toda a dificuldade da visão (e também a sua virtude)."

"O olho e o espírito" (Merleau-Ponty)


Nesta decisão (Descartes parece separar a luz das trevas, com garbo militar), adivinha-se uma ética. A do encontro com a realidade, desbaratando as visões e os fantasmas. Qual é a diferença entre um espectáculo "natural" e uma imagem "artificial"? Tocar, como S. Tomé, a ferida do ressuscitado para crer que o objecto existe.

Houve também uma polémica, na Física moderna, sobre a acção à distância, que a ideia de campo contornou. Mas não é isso negar a distância duma separação de facto?

Imaginemos a noite absoluta, mais escura ainda do que a noite dos cegos (eles sabem que a luz existe). Poderíamos estabelecer entre as coisas verdadeiras relações espaciais, uma geometria e, até, uma matemática? Que razão seria a razão privada da medida terrestre?

Com as mãos, o mundo inteligível talvez não seja o que "vemos". De qualquer modo, a ciência, e muito graças a Descartes, evoluiu para a "perda do contacto".


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


Legnica (José Ames)

O CÚMULO




Agora que a vaga de protestos contra o modelo de avaliação dos professores se parece ter desfeito e, com o novo ministério, os sindicatos alcançaram tudo o que pretendiam, conseguindo, recentemente, que a progressão na carreira fosse completamente desligada do mérito, todos podemos ver que o que estava desde o início em questão não era o modelo, mas a própria avaliação.

Esta resistência a uma ideia que já fez o seu caminho (a contragosto da maioria, é preciso dizê-lo, mas imposto pelas entidades patronais, como um índice de modernidade e de maior justiça, na medida em que compensaria os melhores e os mais aplicados) no sector privado, resistência com um vigor e uma amplitude que a pura acção sindical ou, para alguns, o manobrismo, não podem explicar, não é passível de ser entendida sem referência a uma crise do ensino mais cultural.

Alguém já disse que antes da avaliação dos professores era preciso que os alunos fossem avaliados e que sem disciplina nenhuma das coisas é possível.

Estou em crer que o que foi pacífico nas empresas, para, na maior parte dos casos, se ter ritualizado e tornado um processo "para inglês ver", não pode resultar no ensino sem algumas condições essenciais, sendo uma delas uma mudança de mentalidade dos professores, visto que a imposição está fora de questão.

Foi sensível nesta grande contestação uma nota de revolta genuína, para além da "natural" resistência a qualquer tipo de avaliação. É como se à crise que se vive no ensino que é repercussão da crise da família, a montante, crise que grande parte dos professores é impotente para gerir, se respondesse com uma medida de "tempo de paz", ainda por cima polémica.

A acção dos professores foi um protesto contra o "cúmulo", mas a crise está no mesmo sítio, com avaliação ou sem ela.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009


(José Ames)

LES YEUX BANDÉS


"Les Yeux bandés" (2007-Thomas Lilti)




Théo (Jonathan Zaccaï) e Martin (Guillaume Depardieu) cresceram juntos, como irmãos. A confiança entre eles era absoluta. Uma vez, Martin deixou que Théo lhe vendasse os olhos para atravessar, a uma ordem sua, uma estrada movimentada. Mas um dia Théo "laisse tomber" Martin (o mais carente) e procura refazer uma vida própria. Casa. Espera um filho. Até que vê no jornal a notícia de que o seu amigo foi preso por violação e assassínio duma jovem da sua terra natal. O abandono do amigo pesa-lhe na consciência e Théo está pronto para uma solução, qualquer que ela seja (assim promete à mãe de Martin). Já nem lhe importa saber se o amigo é ou não culpado. O filme é admirável na forma como nos vai fazendo sentir a força do passado que une os dois homens, a ponto de levar Théo a um acto desesperado. No final há uma conversão ao bom senso e à razão, mas isso não é obra da palavra nem da reflexão. No momento em que vai jogar a sua vida, inutilmente, por causa da culpa, das promessas e dos juramentos, vê que alguém se prepara para cometer uma loucura semelhante. É o pai da rapariga assassinada, armado duma pistola, pronto a atirar sob Martin que os polícias fazem descer da carrinha. Théo põe-se à frente da arma e o outro desiste. Ambos compreendem que a dor do outro os desarma, que a vingança dum já não tem sentido e que a amizade do outro não pede uma nova vítima, mas a expiação. Théo sabe agora que a única maneira de "salvar" Martin é levá-lo a responder pelo seu crime.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


Ovar (José Ames)

O AZAR DE EICHMANN


Adolf Eichmann (1906/1962)


"Quase ao mesmo tempo, foi feito pela primeira vez um esforço para assegurar a independência dos juízes. Nos debates dos vinte anos seguintes a questão central tornou-se cada vez mais a prevenção da acção arbitrária do governo. Apesar dos dois significados de 'arbitrário' terem sido por muito tempo confundidos, veio a ser reconhecido, na medida em que o Parlamento começou a agir tão arbitrariamente quanto o rei, que o facto de uma acção ser ou não arbitrária dependia não da fonte da autoridade, mas de estar em conformidade com princípios gerais da lei pré-existentes."

"The Constitution of Liberty" (F.A. Hayek)


Este debate e a abolição, em 1641, dos tribunais de prerrogativa, como a Star Chamber que servia para os políticos darem força de lei à sua política, em vez de servirem aos juízes para administrarem a lei (F.W.Maitland), foi uma das "conquistas" da guerra civil inglesa.

As ideologias que tentam impor a sua lógica à realidade, fechando-se à experiência, facilmente ignoram o conceito de poder arbitrário. A bondade ou a maldade do governo decorre da natureza do poder, conforme a raça ou a classe que representa.

Mas as leis, evidentemente, mesmo se já existem, não garantem a justiça, se o próprio Estado estiver organizado para o crime ( o que poderia ser visto como indo ao encontro da ideia marxista de que o Estado está ao serviço da classe dominante, se não houvesse qualquer diferença entre uma democracia e um regime totalitário).

A propósito disto, recorde-se a frase de Adolf Eichmann, durante o seu julgamento: "Aquele que é membro dum bom governo tem sorte; aquele que é membro dum mau governo tem azar. Eu tive azar." (Hanna Arendt: "Compreensão e Política")

domingo, 13 de dezembro de 2009


(José Ames)

MAQUINISMOS


Fernand Léger ("Players")


"Contrariamente à tirania que se caracteriza pela ausência de leis, o totalitarismo não equivale à anarquia mas obedece a uma lei: a da Natureza no caso do nazismo, a da História no caso do bolchevismo. Todavia, a função e a definição das leis mudaram: as leis não são mais factores de estabilização, as "muralhas" que Platão invocava, mas tornam-se ao contrário leis de movimento, um acelerador das forças históricas e naturais: 'o terror executa imediatamente as sentenças de morte que a Natureza é suposta ter pronunciado contra as raças ou indivíduos "inaptos para viver", ou a História contra as "classes moribundas", sem esperar que a natureza ou a história, elas mesmas, sigam o seu curso, mais lento e menos eficaz.(*)'"

("La logique d'une idée: la fabrication du genre humain" de Sylvie Courtine-Denamy;

(*) "Les Origines du Totalitarisme" de Hannah Arendt)


Não foi antes da natureza e da história terem sido sistematizadas e as suas leis "reveladas" pela ciência ou pelo que passava por isso (o evolucionismo ou o materialismo histórico) que se lançaram os prometeicos empreendimentos sociais do século XX.

Assim que o conhecimento é passível de se converter em poder, parece existir uma lei que catalisa esse processo, com a constância com que uma corrente de água segue o declive no terreno. Não pode ter sido outra a explicação para a utilização da bomba atómica na última grande guerra, por muitas noites de sono que a decisão possa ter custado a Truman e ao seu Gabinete. Aplica-se aqui a famosa ideia hegeliana da astúcia da História, que é uma variação de outra que reza que "Deus escreve direito por linhas tortas".

Decerto não se acelerou coisa nenhuma, porque a "máquina" (ou o sistema) não é o modelo para a compreensão quer da natureza quer da história, mas o estado do mundo não deixou de se alterar radicalmente (embora num sentido imprevisível), apesar do erro de princípio.

sábado, 12 de dezembro de 2009


Paços de Ferreira

SUPERSTIÇÃO



Buffalo


"Os habitantes do campo no Oeste presumiam que para formar uma opinião legítima, uma pessoa teria que ter os conhecimentos técnicos que estavam para lá do alcance de quase todos os cidadãos. Charlotte, uma mulher mais velha de Buffalo, por exemplo, explicava que não se juntaria a um grupo hipotético que tentasse impedir a construção de um incinerador tóxico na sua comunidade porque não tinha o conhecimento científico adequado."

"Avoiding politics" (Nina Eliasoph)


Este "respeito" pelo conhecimento técnico e científico raia, evidentemente, a superstição. Não há nada que não pudesse ser imposto, mesmo que sob a forma dum consentimento mal avisado, desde que suficientemente complicado e fora do alcance dos "leigos". A democracia não seria mais do que uma palavra se este espírito prevalecesse.

Mas este processo de invalidação do senso-comum parece levar-nos, inevitavelmente, àquilo a que, há uns anos, se chamou de tecnocracia.

Como se pode ver pela actual polémica sobre as alterações climáticas e o aquecimento global (tese que os mais bem informados considerarão cientificamente justificada, mas que está longe de granjear o consenso), é provável que atinjamos um ponto crítico em que o poder e as medidas que esse poder impuser venham "pôr fim" a todas as dúvidas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009


(José Ames)

TETRO


"Tetro" (2009-Francis Ford Coppola)


A sequência de "Red Shoes" em "Tetro" dá-nos a chave da personagem e inspira toda a poesia visual do filme de Coppola.

Um autor falhado (Vincent Gallo) refugia-se numa Buenos Aires marginal para se furtar ao seu destino. Como Saulo que, depois de cair do cavalo mudou de nome, Tetro é um monstro linguístico que transforma o patronímico italiano num nome que quer dizer "sombrio", para significar o corte com a família e a ferida sempre aberta. Este fatalismo é perturbado pela visita do irmão mais novo, Bennie (Alden Ehrenreich), que se instala em sua casa, enquanto o paquete onde trabalha sofre reparações. Um acidente leva Bennie ao hospital prolongando a provação de Tetro que deseja o fim de todos os contactos.

Através do manuscrito escondido pelo irmão, Bennie descobre que a história da sua família ganha as proporções da tragédia que atingiu a Casa dos Átridas. Um pai que tudo sacrifica ao culto narcísico do grande artista, a mãe que é conduzida para a morte, com Tetro ao volante e a revelação final de que Bennie é filho de Tetro (o pai deste tinha-lhe roubado a namorada) como ponto alto da coda dramática.

O talento de Tetro (reconhecido numa cerimónia que ele despreza) esmagado pela vaidade ("Há só lugar para um génio nesta família") e pela usurpação paterna, como o da bailarina do filme de Michael Powell e Emeric Pressburger é, de facto, uma maldição pois representa o parricídio simbólico fracassado.

Há um enredo nesta família deformado pela figura do pai, figura que só Bennie consegue "destituir" no funeral daquele que é, na realidade, o seu avô. Ele é o anjo que anuncia o novo começo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009


Génova (José Ames)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A MESA


"Le repas frugal" by Pablo Picasso


"A mesa torna visível e suporta a intimidade familiar; os amigos sabem que essa permite uma igualdade de encontro que lhes é própria; dos negócios tem-se a ideia de que a mesa os favorece, tal como a busca de resolução para os conflitos mais diversos. A euforia comercial com que as nossas sociedades promovem os tempos simbólicos acalma-se, por fim, em torno duma refeição. E, talvez por isso, à mesa pesa mais a solidão ou a incomunicabilidade em que muitos vivem."

"A Leitura Infinita" (José Tolentino Mendonça)


Será assim porque, desde que nascemos, o que comemos é a melhor imagem do que nos transforma interiormente? Como se nesse acto o mundo não fosse algo de separado, um espectáculo, mas o que se incorpora e transubstancia, como se, por um momento, voltássemos e ter um cordão umbilical, ligados ao ser?

A igualdade fundamental, quase tanto como no sono e na morte faz-se aí sentir, se virmos na alimentação o que ela realmente é: o elo terrestre.

Podemos compenetrar-nos desse significado quando comemos sozinhos, mas conhecemo-nos melhor à mesa, com os outros.


(José Ames)

A VOZ DOS VENCIDOS



"Sobre os Romanos, não se possui absolutamente nada para além dos escritos dos próprios Romanos e dos seus escravos gregos. Estes, os infelizes, entre as suas reticências servis, disseram o suficiente se nos déssemos ao trabalho de os ler com verdadeira atenção. Mas para quê esse trabalho? Não há móbil para esse esforço. Não são os Cartagineses que dispõem dos prémios da Academia, nem das cátedras da Sorbonne. Para quê, do mesmo modo, dar-se ao trabalho de pôr em dúvida as informações dadas pelos Hebreus sobre as populações de Canaã que eles exterminaram e subjugaram? Não é a gente de Jericó que faz nomeações para o Instituto Católico."

"L'Enracinement" (Simone Weil)


A História é a história dos vencedores, dos que puderam transmitir o seu testemunho e deixar-nos os seus monumentos. Se os Gregos tivessem construído os seus templos em madeira e os tivessem decorado com estátuas de cera, se os seus poetas e filósofos tivessem escrito em material tão perecível como o seu próprio corpo (o paralelo é pertinente: Kafka imaginou um código penal que aplicava a letra da Lei no próprio corpo do condenado), a sua civilização não teria existido para nós. Teríamos de voltar a descobrir a geometria e a inventar a teoria das ideias. Os Romanos teriam sido mais bárbaros do que o que foram.

A sobrevivência do espírito dos vencidos é quase um milagre, mas em parte é explicada pela dispersão dos testemunhos. Se a arte e a filosofia gregas estivessem reunidas num único lugar, o primeiro Calígula poderia cortar-lhes a cabeça.

Não podemos dizer, portanto, que só a lei do mais forte tenha prevalecido, embora, quando existe, a voz soterrada dos vencidos seja quase só um murmúrio. "Por maioria de razão, é preciso nos documentos ler entre as linhas, transportar-se inteiro, com total esquecimento de si, para os acontecimentos evocados, demorar a atenção nas pequenas coisas significativas e nelas discernir todo o seu significado." (ibidem)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009


Madrid (José Ames)

CONSUMO E CULTURA


http://serconsumista.zip.net/


"A dificuldade relativamente nova com a sociedade de massa é talvez ainda mais séria, não em razão das massas elas mesmas, mas porque esta sociedade é essencialmente uma sociedade de consumidores, em que o tempo de lazer não serve já para as pessoas se aperfeiçoarem ou adquirirem uma melhor posição social, mas para consumirem mais e mais e para se divertirem cada vez mais. E como não há bens de consumo à volta para satisfazer os apetites crescentes dum processo vital cuja energia viva, que não se despende já no labor e no esforço dum corpo em trabalho, deve usar-se no consumo, tudo se passa como se a própria vida saísse dos seus limites para se servir de coisas que nunca foram feitas para isso."

"La crise de la culture" (Hannah Arendt)


Arendt nega, pois, a possibilidade de uma cultura do consumismo, identificando no modo como se vive o lazer o critério do que é cultura.

Só que, assim, teríamos de negar a cultura a todos os povos que viveram na completa necessidade, mas sem que, por exemplo, o acto de comer e os que asseguram a procriação deixassem de ter as suas formas próprias. Teríamos que reservar a ideia duma cultura popular apenas para a civilização burguesa.

Outra coisa é dizer que a rápida usura dos bens de consumo nos despega da natureza e de qualquer tradição. Nesse sentido, tornámo-nos uma espécie de nómadas. A nossa natureza é tão abstracta como o deserto, e tanto podemos tornar-nos supersticiosos (o que já acontece em relação a uma ciência cada vez mais distante da nossa percepção) como contrair uma religião do deserto.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


(José Ames)

O CAFÉ COM LEITE



"'Esse acto abominável e sensual a que chamamos ler o jornal', escreveu Proust, 'graças ao qual todas as desgraças e cataclismos do universo ocorridos nas últimas vinte e quatro horas, as batalhas que custaram a vida a cinquenta mil homens, os homicídios, as greves, as falências, os incêndios, os envenenamentos, os suicídios, os divórcios, as emoções cruéis de estadistas e actores, são transformados por nós, que nem queremos saber, num presente matinal, coexistindo em maravilhosa harmonia, de uma forma particularmente excitante e revigorante, com a recomendada ingestão de alguns tragos de café au lait.'"

(in "Como Proust Pode Mudar a Sua Vida" de Allan de Botton)


Dando como certo que a maioria dos que lêem os jornais ou vêem o telejornal não é masoquista, é de admitir que, realmente, não queiramos saber. Não falo daquelas pitadas de intriga política que tanto animam uma conversa de café (ou de salão, no caso de Proust) e que, sejamos realistas, são tão necessárias à sociabilidade como o jogo das simpatias e das antipatias. Falo do que poderia ser uma experiência traumatizante se a sentíssemos sem precaução e sem a anestesia do hábito, como tantas tragédias humanas que vemos emolduradas por um ecrã, comodamente instalados no sofá.

Há uma ponta de cinismo na observação de Marcel, que hoje se encontraria ainda mais justificada pela mediatização massiva. Na verdade, por imperativo cultural, não podemos alhear-nos do que se passa no mundo, mesmo se esse "conhecimento" contribui para aumentar o nosso sentimento de impotência. A ilusão de que queremos, realmente, saber é um pequeno preço a pagar pelo acto "abominável e sensual".

Se a "razão cínica" vem "estragar a festa", devemos saudá-la como a homenagem possível à verdade.