domingo, 31 de maio de 2009


(José Ames)

O SENTIDO NÃO É OBJECTIVO


www.thechangeblog.com


“There are no levels of meaning as such. There are, rather, levels of awareness on the part of the reader.

“A New Approach to Joyce” (Robert Ryf, citado por James T. Shammas)



Este pensamento, a propósito da obra de James Joyce, pode ser transposto para a nossa percepção do mundo.


A consciência moderna dos vários níveis de sentido da realidade que acompanha os progressos da ciência é diferente do “sentimento” da complexidade que é uma experiência de sempre.


Digamos que graças a essa consciência criámos novos objectos que estudamos e modificamos.


Mas essa nova complexidade esteve sempre presente na realidade física, por exemplo, faltando-nos apenas a teoria e os instrumentos, ou foi criada agora com a nossa percepção modificada?

sábado, 30 de maio de 2009


Estremoz (Josá Ames)

A CONQUISTA DO OESTE


pb.quebarato.com.br/classificados/a.conquista

“Nós somos de modo infame uma nação móvel. Essa é uma das pedras angulares do sonho americano e a causa na raiz das nossas igualmente infames reservas de optimismo. A nossa curta história, raízes imigrantes e espírito pioneiro alimentam a nossa aspiração à novidade e à liberdade, de mão dada comas nossas lealdades epidérmicas. Ser Americano é essencialmente ser de outro lado qualquer.”


“Distracted” (Maggie Jackson)




É um lugar-comum caracterizar a nação americana como desprovida de raízes. Isso explicaria a sua terrível capacidade de se mudar a si mesma, de se adaptar. E tudo concorre para fazer desse país uma espécie de laboratório da experiência humana contemporânea.


O termo americanismo define um juízo negativo dessa diabólica agilidade, que não se deve, contudo, à falta de preconceitos (podem ser mais tradicionalistas do que os europeus), mas à sua organização política e ao seu dispositivo económico.


Por isso, embora alguns estados europeus existam há menos tempo do que os EEUU, são estes os desenraizados. A razão é que, tal como a dos judeus, a sua religião é portátil e a conquista do Oeste ainda não acabou.

sexta-feira, 29 de maio de 2009


(José Ames)

JOHN FORD NO PARAÍSO


"A taberna do irlandês"

O homem que se apresentava: chamo-me John Ford e faço westerns, fez uma espécie de comédia na Polinésia francesa (Donovan’s reef).

A marca do autor revela-se logo numa virilidade truculenta, machista e patriótica que se exprime por uma contínua bebedeira, as “bagarres” de uniformes e pelos açoites (do género: estavas mesmo a pedi-los) no traseiro feminino.

Não há índios (o nativo das ilhas é um anjo musculado que toca ukulele), com a sua selvagem dignidade, para motivar o heroísmo. A paisagem não tem os contrafortes épicos do Monument Valley, mas é o paraíso na terra, com palmeiras, música e o amor na fase colectora.

Assim, resta aos velhos cowboys aborrecerem-se olimpicamente, partindo algumas garrafas e cadeiras. A luta metafísica que se trava em “O homem que matou Liberty Valance”, continua aqui, com os mesmos actores, no tom paródico.

quinta-feira, 28 de maio de 2009


Estremoz (José Ames)

PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO



“Sobre o museu das Almas no Purgatório, um dominicano, padre Omez, escreveu estas palavras:’Se admitirmos que semelhantes marcas não são efeito de um simples acidente ou de uma transposição mais ou menos consentida, deduzimos que elas não podem ser produto do fogo espiritual que consome as almas isoladas. Daí não poderem ser senão o efeito de um milagre de Deus, que cria para a circunstância um elemento capaz de queimar os objectos, deixando neles aquela marca negra que é o símbolo da queimadura espiritual dessas almas face à expiação.”

(in “Sob um nome falso” de Cristina Campo)


O raciocínio parece ser este: quando o fenómeno não é voluntário nem involuntário (um simples acidente), o que é que fica? : o milagre que é a vontade de Deus.

Porque estamos a falar duma marca no corpo e não dum objecto distante da galáxia, o que nos acontece pode referir-se à vontade individual (não faz sentido, pelo contrário, dizer-se que a órbita de Mercúrio é involuntária). Mas é por isso que aquele “símbolo da queimadura espiritual”, para a qual não contribuímos, nem se pode explicar pelas leis da Física conhecidas, nos é tão estranho como a órbita de Mercúrio.

É esta uma problemática ultrapassada? Nem por isso.

O padre Omez convoca a intervenção divina para justificar o fenómeno estranho (que logo deixa de o ser, quando é nomeado o seu Autor). Ora, na política, por exemplo, todos lidamos com objectos estranhos (uma crise não prevista pelos magos da finança) e logo os “naturalizamos”. Para uns é a falta de regulação, para outros a natureza do sistema (como a do escorpião na fábula contada por Orson Welles).

Não se podia, é claro, pedir ao pobre dominicano que usasse o nosso vocabulário sofisticado.

quarta-feira, 27 de maio de 2009


(José Ames)

REGRESSO ÀS ORIGENS


William Butler Yeats (1865/1939)


“Seria contrário à natureza conservadora das pulsões se o objectivo da vida fosse um estado que nunca tivesse sido alcançado antes. Tem de ser um estado anterior inicial que o vivente deixou uma vez e ao qual aspira a regressar acima de todos os desvios da evolução.”


“Para além do princípio do prazer” (Segismund Freud)



Sloterdijk (“O Estranhamento do Mundo”) cita também, a este propósito, Nietzsche que diz que “nós temos a arte de não morrermos da verdade”.


A ideia de Freud e de Nitezsche parece ir contra a tradição cristã de se alcançar, através da mortificação, a bem-aventurança. Contudo, o encontro final de Dante e Beatriz, no presumido Paraíso, é estático como a morte.


Se quisermos ler a eterna demanda da verdade como a procura de algo que não queremos realmente conhecer, toda a ciência seria atingida por um juízo de frivolidade ou, no melhor dos casos, como uma forma da arte de viver, desviando-nos dum conhecimento mortal.


De facto, o tempo é o que nos separa da verdade. E parece que tudo o que podemos conhecer é obra do tempo.


Yeats diz: “(…) though leaves are many, the root is one, through all the lying days of my youth, I swayed my leaves and flowers in the sun; now I may wither into the truth.”


Donde, a verdade, ao encontro do que diz Freud, talvez seja um regresso às incompreensíveis origens.

terça-feira, 26 de maio de 2009


Dublin (José Ames)

LEGENDAGEM



“(…) revivemos durante alguns minutos a organização do dispositivo cinematográfico, com a sua ausência de olhar e o seu plano geral que impede que se compreenda aquilo que é mostrado na falta de um comentador mais informado do que os espectadores.


Porque, neste estádio do plano geral fixo, como ir além da descrição? Na transmissão em pseudo-directo da “revolução romena”, já tínhamos feito a experiência da não-eloquência das imagens, se assim podemos falar, da incapacidade da imagem para narrar, na ausência do saber lateral sobre a realidade. Revivemo-lo no 11 de Setembro,”


“O Terror Espectáculo” (François Jost)




O plano geral, em princípio, não discrimina. Mas a profundidade de campo, por exemplo, pode distinguir um objecto próximo sem deixar de focar os outros planos.


Mas se não conhecermos a história de Susan Alexander, em “Citizen Kane”, não relacionaremos o copo em primeiro plano e a tentativa de suicídio.


Há alguns relatos etnológicos que demonstram que a leitura dum plano não é espontânea. As imagens que hoje dominam a nossa vida como que eclipsaram o “saber lateral da realidade” que permite a sua leitura.


Quanto menos apetrechados em termos linguísticos, mais próximos estamos de ser manipulados pela sua “legendagem”.


As primeiras imagens do ataque às torres do WTC não se distinguiam de facto do cinema. O sentido das imagens vacilou, num primeiro momento, entre o lúdico e o real. A ideia de que a imagem vale mil discursos esconde a sua dependência da linguagem. Só vale mil discursos quando cativa já da palavra.


segunda-feira, 25 de maio de 2009


(José Ames)

O UNIVERSO COMPROMETIDO


(Léon Bloy, 1846/1917)


"Escreve Bloy numa visita à Grande Cartuxa: 'a nossa liberdade é solidária com o equilíbrio do mundo, e é isto que é preciso entender se não se quer ficar ignaro do profundo mistério da Reversibilidade, que é o nome filosófico do grande dogma da Comunhão dos Santos. Todo o homem que produz um acto livre projecta a sua personalidade no infinito. Se ele der, contrafeito, uma esmola a um pobre, essa esmola trespassa a mão do pobre, cai no chão, atravessa o firmamento e compromete o universo...'"

"Sob um falso nome" (Cristina Campo)


A alma do crente não se encontra num mundo físico, ainda que com os seus insondáveis mistérios, dos universos dentro de universos e a falta dum fundo na descida ao mundo das partículas e sub-partículas.

O seu mundo é o mundo do sentido que o olhar de Deus percorre em todas as direcções. A liberdade não é, pois, o acto espontâneo duma vontade que vence todos os constrangimentos para seguir um destino pessoal, mas considerar-se a alma da natureza do próprio Deus.


A metáfora filial (somos todos filhos de Deus) significa que este "sangue" místico condiciona a questão da liberdade. Não faz sentido ser livre em relação a si próprio ou ao que é seu.

O pensamento, mais rápido do que a luz (porque não atravessa realmente o espaço) é o Atlas que sustém este universo.

A dúvida e a hesitação têm repercussões universais e a moeda, em vez de ficar na mão do pobre, rola neste espaço mental produzindo o caos.

domingo, 24 de maio de 2009


Coimbra (José Ames)

CORIOLANO


'Coriolanus,' by William Shakespeare. Directed by Laird Williamson




"Eu darei as minhas razões, que têm mais valor do que as suas vozes. Eles sabem que o trigo não foi uma recompensa, pois estavam bem cientes de não terem prestado nenhum serviço para tal; sendo pressionados para a guerra, quando o próprio âmago do Estado foi tocado, não queriam atravessar as portas. Esta espécie de serviço não merece trigo grátis. Estando em guerra, e mostrando eles mais valor nos motins e revoltas, não fales a seu favor."


"Coriolano (Acto III)" William Shakespeare



O Senado romano comprou a paz com a ralé, preparando os futuros abusos e expondo o Estado, diz o poeta. Mas Coriolano é um homem só e a sua opinião é considerada, rude como o homem, e intempestiva. Quanto mais fácil não é emprestar o ouvido ao coro de aduladores do povo, quando a ruína ainda não é para hoje!

Toda a democracia devia ter o seu Coriolano (sem fazer o que este depois fez por despeito contra a sua própria pátria).

A demagogia está bem estabelecida, porque não é doutra forma que as crianças são levadas a ultrapassar as suas birras, e todos fomos crianças. Por isso não se espere que os partidos sejam virtuosos ao ponto de a pôrem de lado.

É preciso, pois, um Coriolano que não se importe de cair em desagrado.

sábado, 23 de maio de 2009


(José Ames)

CONFISSÃO


"Confession" (1998-Aleksandr Sokurov)


"Confissão", de Aleksandr Sokurov, tem o condão de nos dar a espessura do tempo a bordo dum navio russo em viagem pelo Ártico.

O comandante narra a vida da tripulação, que se resume a muito pouca coisa: o espaço é exíguo, todos estão sob a vigilância uns dos outros e, como diz o narrador, a privacidade não tem nem pode ter aqui lugar. As cenas, como num documentário, mostram-nos os marinheiros a comer ou a dormir. Tirando isso, a actividade principal decorrente do problema do espaço é a limpeza.

A noite ártica (dez minutos de luz do dia apenas) agrava o pendor melancólico e fatalista da raça. O silêncio e a imobilidade opressivos dão a estes homens confinados por uma obrigação férrea o ar de estarem à espera, como numa situação terminal.

Perante as inspecções sanitárias que espiolham as suas partes íntimas, os recrutas despem-se uns a seguir aos outros sem um murmúrio ou um esgar de contrariedade. O narrador põe no espírito dum deles a revolta: - Por que é que eu tenho de aguentar isto? Por que é que estou aqui? Para a seguir concluir que, tendo apenas dezoito anos, não é ninguém neste mundo. Apesar da nudez dos corpos, o desejo não tem espaço, o homoerotismo parece gelado como as paredes de aço ou a paisagem cinzenta.

"O Norte não precisa de nós, nem nós queremos nada dele", desabafa consigo mesmo o comandante. A única vida humana ali são os autores do passado, como Tchekov, não a noite gelada e as extensões que se adivinham.

Quem conseguir vencer a prova da lentidão e da monotonia, tem neste filme um alimento de eleição, uma raridade no cinema de hoje.

sexta-feira, 22 de maio de 2009


Ericeira (José Ames)

AGENDAS PARAMETRIZADAS


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"Raramente estamos completamente presentes num momento ou para os outros. A presença é algo de nu, permeável e emendado. Acrescente-se a este retrato da vida doméstica americana o ascenso do individualismo ligado à rede e começareis a ver por que os membros da família não estão à porta, saudando-se uns aos outros. Para lidar com as nossas pulsantes órbitas pessoais e para nelas nos mantermos, vivemos num mundo por nós fabricado, alimentando-nos de menus separados, ligados aos centros de media baseados no nosso quarto, aderindo a agendas parametrizadas."

"Distracted" (Maggie Jackson)


A experiência de todos os dias é o que somos menos capazes de analisar. É verdade que as rotinas nos facilitam a vida, mas é só uma parte de nós que nelas se envolve. Que ocasião haverá para o que nos devia solicitar mais intensa e profundamente, se aperfeiçoarmos uma agenda exclusivamente configurada segundo os nossos gostos e inclinações?

Parece que o desenvolvimento tecnológico vai num único sentido que é o do individualismo e das relações virtuais, e que ao físico está prometido um ersatz do erotismo e da morte, com a sistematização do desejo como design, provido do seu código e da sua semântica.

Não é por acaso que a cultura que mais avançou nessa via "desconheça" a realidade física da morte.

quinta-feira, 21 de maio de 2009


Ovar (José Ames)

SINGULARIDADES


Manoel de Oliveira e os actores de "Singularidades duma rapariga loira"


Oliveira conta aqui a história dum anjo loiro que se revela ladrão.

É preciso compreender a reacção do jovem Macário (Ricardo Trêpa). Tal como nesse outro conto moral, "La Marquise von O", a decepção é tanto maior quanto de mais alto caem as nossas ilusões. No filme de Rohmer, o salvador da bela marquesa é o mesmo homem que viola o seu corpo inanimado.

Há um apontamento de mestre que define a personagem de Luísa (Catarina Wallenstein). Na cena do beijo, a câmara foca apenas as pernas. E vemos a rapariga loira fazer algo de "out of tune": ela levantou a perna como se sentisse numa cena já vista.

Tanto basta para termos de procurar noutro lado a sua paixão (ou o seu vício).

É curioso o desfasamento dos costumes conforme a narração de Eça (o sobrinho pedindo a bênção) que Oliveira conserva tal e qual, no meio de alguns adereços modernos, como o computador.

Se quisesse actualizar realmente a narrativa, Oliveira teria de dar algum lugar ao "politicamente correcto": afinal a rapariga sofria de cleptomania; nada mais do que isso.

quarta-feira, 20 de maio de 2009


(José Ames)

AS CHAVES DE CASA


"Algumas vezes ele saía muito tarde e regressava pouco antes de amanhecer, o que significava que ela tinha que esperar por ele. Monsieur Proust nunca levava as chaves de casa."

André Aciman (Introdução a "Monsieur Proust" de Céleste Albaret)


Este doente do magnum opus, protegido dos ruídos no seu quarto da rua Hamelin forrado a cortiça, caverna que os efeitos especiais da fumigação para a asma tornavam no ambiente vulcânico da criação, nunca pôde suportar dormir sozinho.

No regresso a casa, depois duma sortida nocturna (e aqui o vício que poderia motivar o voo do morcego tem o mesmo valor da verificação maníaca dum pormenor que irá dar à obra a consistência do cristal), quando voltava precisava de ser imediatamente acolhido pelo "círculo mágico" de que fala Céleste que, para ele, não era outra coisa do que a benevolência maternal. A criada que o esperava era o símbolo mais próximo desse gesto querido.

Por isso, não podia levar as chaves.

terça-feira, 19 de maio de 2009


Génova (José Ames)

A EXISTÊNCIA DOS OUTROS


Cristina Campo (1923/1977)

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"Na época em que foi concebida esta tragédia ("Venise sauvée"), Simone Weil escrevia a Joe Bousquet: 'conseguir compreender totalmente que as coisas e as pessoas existem. Alcançá-lo, nem que seja uma vez antes de morrer; essa é a única graça que eu peço.' Só um sentimento assim, de tal modo indiviso da realidade, tem o poder de criar uma obra poética, a verdade correspondente; e com ela a possibilidade de uma leitura total (que reúna em si todos os planos da vida e da consciência) dos símbolos e das figuras que a mesma coloca perante nós."

"Sob um falso nome" (Cristina Campo)


Que a existência nos pareça evidente e o voto de Simone Weil quase enigmático tem a ver com os planos da vida e da consciência de que fala Cristina Campo.

Não tenho mais consciência de que, por exemplo, este caderno e esta esferográfica existem do que existência do meu braço. E se é o mar que contemplo, faço parte do espectáculo porque posso deixar de estar diante dele e envolver nisso todos os sentidos.

Mas a compreensão total da existência, para ser desejada como a salvação, é outra coisa. Está acima da ordem da responsabilidade compreender que os outros existem. Porque a compreensão de todos os planos da vida diluiria a própria subjectividade na realidade do ser.

Alcançar por um momento esse cume da existência, infelizmente, não nos salva da queda (e da decadência). Não devia ser o maior salto que podemos dar, mas uma plataforma para caminhar na luz. Como o paraíso de Dante, devia ser um triunfo e uma recompensa, e não a visão fugitiva dum lugar onde não poderemos nunca morar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009


(José Ames)

FALAR COM OS MORTOS



"Talking to the dead and talking on the phone both hold out the promise of previously unimaginable contact between people."

(Pamela Thurschwell, citada por Maggie Jackson in "Distracted")


No final do século XIX, as comunicações deram de facto um salto gigantesco, que só não nos parece tal por termos entretanto adoptado essa passada.

A telepatia, com que Einstein brincava na sua crítica à acção à distância dedutível da teoria quântica e o espiritismo que seduziram homens como H.G. Wells não pareciam mais improváveis do que o telefone.

E, de repente, suscitando a mesma admiração supersticiosa que sentiu o narrador proustiano ao estabelecer, em Balbec, um contacto com a sua mãe em Paris, fez-se a ponte entre o visível e o invisível.

E não é preciso pensar no mundo da relatividade geral e no facto de podermos estar a receber a luz duma estrela morta ou mensagens de impérios inimaginavelmente mais antigos do que o império egípcio, para percebermos que o humano ganhou uma nova e incompreensível dimensão e que "falar com os mortos" está longe de ser apenas uma metáfora.

domingo, 17 de maio de 2009


Estrada Nacional (José Ames)

A CAUSA ORACULAR



"Eu tinha chamado a isto 'efeito de Édipo', porque o oráculo desempenha um papel da maior importância na sequência de acontecimentos que levou ao cumprimento da sua profecia. (Era também uma alusão à psicanálise, a qual tinha estado estranhamente cega para este facto interessante, mesmo se o próprio Freud admitisse que os próprios sonhos sonhados pelos pacientes eram muitas vezes coloridos pelas teorias dos seus analistas).

Unended Quest (Karl Popper)


Popper deixara de acreditar que este "efeito de Édipo" fosse a marca distintiva das ciências sociais em relação às ciências da natureza. Também na biologia molecular, "as expectativas frequentemente desempenhavam um papel produzindo o que era esperado."

Não sei se este efeito não é uma modificação devida ao observador, como as que são inseparáveis da física quântica.

No caso da psicanálise, no entanto, os "obliging dreams" de Freud não fazem do paciente uma câmara de eco do analista. A teoria psicanalítica introduz um elemento estranho na situação mental do doente que obriga este a um esforço de adaptação e de "recuperação" (como se dizia, há uns anos, que o capitalismo recuperava a crítica dos seus opositores), de consequências imprevisíveis. E às vezes mudar um estado de coisas é tudo o que é preciso.

De qualquer modo esta contingência só nos leva a equiparar a psicanálise a outras práticas de sugestão.

sábado, 16 de maio de 2009


(José Ames)

METÁFORAS CELESTES



"Os filósofos existenciais falam de um "estar lançado no mundo", mas eu prefiro as descrições psiquiátricas de 'dissociação'. Os seres humanos podem dissociar a sua mente do mundo e criar metáforas como a dum filme cósmico a 3 dimensões. As metáforas são símbolos livremente criados transcendentes em relação ao mundo, os quais, se os partilharmos, organizam a nossa experiência social de novas maneiras."

"The Cosmic Code" (Heinz Pagels)


A alternativa a esta criação de metáforas de dissociação mental em relação ao "mundo", parece ser a via da fusão espiritual aconselhada por algumas religiões orientais.

Na medida em que for possível a não-distinção do ser, nós seremos então verdadeiramente o alfa e o ômega. Mas a simples existência do nosso cérebro contradiz este cenário. Ele diz-nos que a nossa própria existência é problemática e que o nirvana de modo nenhum está ao alcance de todos. Para nos despojarmos precisamos primeiro de nos vestir.

O que a psiquiatria tem revelado é que precisamos muitas vezes de criar um mundo à parte para seguirmos em frente. E há-os de todos os feitios. Há as pátrias e as religiões portáteis e aquelas que andam à volta dum lugar fixo.

De qualquer modo, se nos "libertarmos" de tais mundos, será só para nos integrarmos num outro aparentemente maior, mas que será ainda uma metáfora.

sexta-feira, 15 de maio de 2009


Lisboa (José Ames)

DISCURSO CONTRA PANDORA



"As imagens dispensam o comentário e acompanham-se de longos momentos de silêncio pouco comuns na televisão. A surpresa manifesta-se quando alguma coisa interrompe um curso de existência, abrindo abismos de incerteza. Corresponde aqui à distância incomensurável entre o acto de filmar tarefas que têm a ver com a banalidade quotidiana e a irrupção de um facto decididamente insensato. Ainda não se trata de um acontecimento, uma vez que o acontecimento é obra de um discurso que só se revela a posteriori, mas de factos brutos, que abrem o abismo de uma indeterminação completa. Nesse momento, o acontecimento 'que nunca se dá em presença' não está consumado, está ainda em suspenso."

"O mito de Pandora revisitado" (Jocelyne Arquembourg)


As primeiras testemunhas do "11 de Setembro" encontram-se como que fora da protecção da linguagem e a sua única reacção é, tal como nos filmes-catástrofe, o inevitável: Oh, my God!, espécie de mnemónica instintiva.

A televisão vai levar algum tempo a "enquadrar" o que se está a passar. À medida que surgem os comentários e as interpretações, o "facto bruto" torna-se objecto de discurso e pode ser dominado.

Diferentemente dos pesadelos, em que por mais emotivos que sejam, nada acontece realmente, no mundo inter-subjectivo tudo acontece, mas na linguagem.

"Longe de se propagar de forma desordenada para fora da caixa de Pandora, o sentido do acontecimento é assim contido na definição da situação de urgência que os factos engendraram. A informação funciona então como um cicatrizante, quer-se tranquilizadora, unificadora, oscila entre a mostração/demonstrações (as ameaças e, depois. o envio de tropas para o Afeganistão) e a ocultação aceite de maneira consensual (os corpos das vítimas dos atentados, os combates no território afegão)." (ibidem)

quinta-feira, 14 de maio de 2009


(José Ames)

O PROCESSO SEM FIM



http://antonioribeirolopes.no.sapo.pt


"O futuro das máquinas inteligentes, creio eu, reside menos nos peritos ou nos filósofos da inteligência artificial do que nos engenheiros informáticos e cientistas - hardware e software designers - que, ignorando o debate, irão onde quer que a compreensão tecnológica e científica os possa levar."

"The Dreams of Reason" (Heinz Pagels)


Se o debate tivesse alguma importância no futuro científico e tecnológico, poderíamos esperar que as considerações éticas jogassem nesse futuro algum papel, poderíamos esperar alguma espécie de controlo e de compreensão sobre uma questão tão crucial para a humanidade.

Mas a perspectiva de Pagels, com a qual, infelizmente, tenho de concordar, pois é a repetição dum processo conhecido, sobretudo desde que deixámos para trás a física clássica, é duma crescente independência do sistema técnico-científico, o qual descolou de quaisquer objectivos "antropológicos" em favor dos do universo da lógica e corresponde, cada vez mais, à definição do que, por exemplo, Niklas Luhmann caracterizava como um sistema autónomo face ao ambiente humano.

A questão parece insolúvel, visto que o primado da filosofia e da ética interromperiam o processo revolucionário do desenvolvimento técnico-científico.