sábado, 31 de março de 2007


(José Ames)

IMAGENS DE UM DESMAME


"La Luna" (1979-Bernardo Bertolucci)


A falta da bofetada que separa o corpo da mãe é “La Luna”. Personagem do “Trovattore”, deusa nocturna iniciadora dos ritos primordiais. Interruptor simbólico do prazer, fonte de todas as energias e de todos os mistérios do corpo. Catarina ensina o filho a reter a urina para fazer em cima da bicicleta com a mãe pedalando na halo divino. Entre eles, um pai postiço, americano, que não exerce a lei. Quando morre duma síncope, sem tratamento, fechado já na urna automóvel, Catarina volta a cantar. O canto é a Itália, a juventude e o verdadeiro pai. Uma longa digressão pelo teatro incestuoso e pela auto-mutilação separa-nos do epílogo paterno. Resumida naquela arbitrária imposição da mão forte, está a realidade que se tornou sonho e imaginação. O homem preso no novelo maternal quer salvar o adolescente com o gesto fundador da ambivalência. Catarina, a mãe, tem a sua voz, o seu passado. Ele abandona Joe que finalmente reconstituiu a sua história, deixa-o seguir o seu caminho, a sua ópera. E esse italiano que lhe deu a bofetada e olha para trás comovido, enquanto ouve a récita de Verdi? Também ele se tornou adulto e pode amar a voz de Catarina. Pode pelo menos escutá-la sem paixão, sem ser como uma ofensa à mãe.

O que nos leva a ser tão indulgentes com este filme, que acaba tão bem, é a ideia da psicanálise. Só aborrece que este mito moderno não seja tratado como poesia. Há no filme uma demonstração desnecessária. Uma boneca russa dentro de outra. Esta viagem à procura do nome do pai – da herança, do território, do modelo que se ergue sobre o barro materno – corresponde a um tema literário ou à psicologia natural? O adolescente injecta-se de heroína porque não lhe importa a vida. A mãe como pessoa não lhe interessa. Verdi deixa-o indiferente, apesar de ser como um pai para Catarina. Não podemos deixar de pensar na actual crise da família que é uma crise da palavra do pai. A televisão apareceu como um politeísmo usurpador na casa familiar. Deu às crianças um simulacro do poder mágico sobre o mundo que era exclusivo do adulto. E a fonte da linguagem social e dos modelos de identificação passou a ser outra. Ninguém viveria um momento sequer com a peste dentro de casa, se pudesse correr com ela. Mas todas as barreiras foram vencidas. Não dispomos de nenhuma arma contra uma inclinação tão natural.

Os estupefacientes, os jovens cansados de viver, os adultos que regressam à infantilidade, sinais dos tempos. Mas há quem insista em ver no fenómeno de decadência espiritual apenas o conflito de gerações. Bertolucci dá ao filme uma conclusão que em linguagem política se podia chamar de reaccionária. Mas não esqueçamos que é um italiano, e que alguns jovens no seu país resolviam, na altura, o complexo de Édipo pelas armas.

sexta-feira, 30 de março de 2007

A CHAMA SOBRE A ONDA


"Viagem a Itália" (1953-Roberto Rossellini)


"E se o filme acaba - logicamente poder-se-ia dizer - por um milagre, é porque este estava na ordem das coisas, a qual, no fim de contas, releva do milagre. Uma tal filosofia é estranha à arte dos nossos dias: as suas maiores obras, mesmo as mais tingidas de misticismo, parecem inspirar-se numa ideia bem contrária. Apresentam-nos uma concepção do homem demiurgo - senão de facto Deus - bastante enganadora para o nosso orgulho e na qual nos deixámos enganadoramente entorpecer."

Eric Rohmer (sobre "Viagem a Itália" de Roberto Rossellini)


Recordemos esse final inesquecível. Katherine e Alexander parecem amantes exaustos, sem nada para dizer um ao outro, mas recriminando-se a aparente indiferença.

Essa viagem é talvez um derradeiro gesto romântico, em desespero de causa.

Nada parece resolver-se, mas vamos assistindo à conversão de Katherine (Ingrid Bergman) pelo poderoso efeito da paisagem humana, mesmo quando não passa de um tocante vestígio, como essas formas abraçadas descobertas em Pompeia.

O milagre que juntou o casal, ambos providencialmente empurrados pela multidão que acompanhava o andor, pertence à estética do movimento.

Mas Katherine já não era a mesma, tinha uma nova força. E só um deles precisava de mudar para que ambos voltassem a crer no amor.

O que é de uma beleza que nos deixa "senza fiato" é esta aparência coral, com a fé da multidão transportando essa outra chama, como o cimo de uma onda.


Berlim (José Ames)

UM ALARDE DE ADVOCACIA


Eurípides (485/406 AC)


"A raiz comum da eloquência grega e daquela dos heróis trágicos de Eurípides é a incessante transformação do antigo conceito de culpa e responsabilidade, que naquele período se operava sob o influxo da individualização crescente. O antigo conceito de culpa era totalmente objectivo. Sobre um homem podia cair uma maldição ou uma mancha, sem que em nada interviessem o seu conhecimento e a sua vontade. Era pela vontade de Deus que o demónio da maldição caía sobre ele. Isso não o livrava das infelizes consequências da sua acção."

"Paidéia" (Werner Jaeger)


Vê-se bem aqui que a liberdade está na origem de todo o desenvolvimento do espírito.

Enquanto o indivíduo foi incapaz de se separar da massa, e Deus era a explicação natural de tudo, como podia ser um espírito?

Houve certamente uma altura em que a verbosidade grega e o seu "alarde de advocacia" produziram um tal potencial linguístico que as perguntas nunca mais acabaram, já que a capacidade de se admirarem também não tinha limites.

Ora, só nos admiramos do que já não nos parece natural.

A liberdade é, assim, um efeito inesperado da linguagem.

quinta-feira, 29 de março de 2007

O PASSADO ACTUAL


Emil Cioran (1911/1995)

"No mito, a história dirige-se para o seu ponto de partida, para o passado. Nós, modernos, educados na ideia do progresso, só admitimos o movimento em direcção a um ponto ideal situado no futuro, enquanto que para o mito o devir não é significativo. O mito é uma forma de história para aqueles que sentem o passado como actual, de algum modo paralelo ao momento em que vivem."

"Solitude et destin" (Emil Cioran)


A palavra desmitificar tem um sentido impróprio. Dá ideia que nos livramos de um mito, a favor de outra coisa mais elevada, com outro grau de consciência. Que a idade dos mitos, na nossa era, foi definitivamente ultrapassada e que a tarefa actual é a de varrer os restos com a vassoura da ciência.

Na verdade, um mito é apenas substituído por outro (Popper), que responde melhor às questões que lhe colocamos.

Mas o ponto interessante é esta ideia de uma direcção para o passado, para a origem, quando a aparência é a de que nos dirigimos para o futuro.

De facto, o passado plasmado na linguagem não é tudo. Nós temos de avançar inteiros, e não só com a ponta do nariz tecnológica.

É por isso que, continuamente, temos que voltar à origem, tornando o passado não só real, mas actualizado.


(José Ames)

A CORRUPÇÃO DO ESPECTADOR


O Cambodja de Pol Pot

"No que me diz respeito, o ponto de viragem foi Pol Pot. Na época, muito poucos estavam ao corrente de Auschwitz. É verdade que havia alguns patifes que sabiam, filhos da puta que sabiam e não acreditavam, mas o seu número era ínfimo. O segredo dos nazis na matéria foi de uma fantástica eficácia. A rádio e a televisão faziam-se eco da carnificina no momento em que se desenrolava e informavam-nos que Pol Pot estava em vias de enterrar vivos cem mil homens, mulheres e crianças. Eu sou completamente incapaz de atribuir um sentido à frase: enterrar vivo um homem, uma mulher ou uma criança. Quanto mais cem mil!"

George Steiner (entrevista de Ronald Sharp)


Steiner esperava que as potências e Israel, por maioria de razão, interviessem para impedir esse holocausto. Nada disso aconteceu.

Aparentemente, o único efeito de se saber que essas atrocidades estavam a acontecer foi o de fazer alastrar à escala do planeta o cinismo e a insensibilidade, ao mesmo tempo que os sinceramente atingidos pela tragédia experimentavam o horror da impotência e a inutilidade do que sabiam.

Este caso-limite projecta uma luz muito incómoda sobre o significado da moderna "oração matinal" (que para Hegel era a leitura dos jornais). Porque à medida que se encurta o tempo entre os factos e a notícia - e, com a televisão e a Internet é, de facto, como se estivéssemos lá, intelectual e emocionalmente envolvidos -, mais óbvio se torna que a acção nos está vedada e que, portanto, mesmo o maior horror só pode ser vivido como espectáculo.

E se, para Descartes, a irresolução era o pior dos males, o que pensaria da situação do espectador que só pode decidir entre apagar o aparelho ( e sentir-se culpado de querer apenas preservar a tranquilidade do seu solipsismo e de revelar, aos olhos dos outros, o pecado da sub-informação) ou continuar com ele ligado para, com o tempo, se deixar anestesiar pelo confronto com um pseudo-problema (que o transcende enquanto sujeito ético)?

quarta-feira, 28 de março de 2007

A AURA DO VAZIO


"A vocação de S. Mateus" (Caravaggio)


Voltando a Caravaggio. O filme de Derek dá-nos o retrato de um homem que morre revoltado e descrente na religião.

E podia-se ver na sua pintura o triunfo da "carne", nessa nudez teatral, na fisiologia do trabalho e no ricto do esforço que vêm do seu grande homónimo da Sistina e dão lugar a todo um catálogo escultural.

Ao interpretar a história sagrada como um drama popular, protagonizado pelos pajens e prostitutas com que se cruzava nas ruas, descolou para sempre a pintura religiosa do classicismo numa antecipação realista.

Essa mudança equivale ao destronar de todos os deuses, mas, a quase dois séculos das Luzes e da religião da Humanidade, os seus quadros, nesse famoso "chiaroscuro", exprimem a suspensão da fé e o momento em que o corpo já tocado pela morte arde uma última vez.

E o segredo desta arte que tanto diz a crentes e a não-crentes é esse apontar para o vazio que a perfeição formal faz habitar pelo desejo.


Batalha (José Ames)

O MUNDO APROXIMADO



"No que respeita à sua medida pela régua, a igualdade de estatuto entre o lado e a sua diagonal fazem-me irresistivelmente pensar nessa frase de um matemático pelo qual tenho uma profunda admiração, Henri Lebesgue: "Uma medida geométrica começa fisicamente e só acaba metafisicamente.""

"Si 7=0, Quelles mathématiques pour l'école?" (Stella Baruk)


Mais adiante, e a propósito do teorema de Pitágoras, em que se demonstra que se "enchermos" de um líquido o quadrado cujo lado fosse a hipotenusa de um triângulo rectângulo e o "entornássemos" nos quadrados formados pelos dois catetos, ficariam sempre algumas gotas: "estas gotas epistemológicas poderiam chamar a atenção para o facto do mundo que nos rodeia não ser matemático. E o quantitativo tampouco."

Segundo a autora, o melhor serviço a prestar às jovens inteligências seria então explicar a diferença entre o "quantitativo quotidiano" que é aproximativo e a "teoria das idealidades matemáticas."

Mas, supondo que a nossa inteligência é imanente ao universo e não pode deixar de lhe corresponder, ao encontro, aliás, da teoria platónica das ideias, de onde vem esse desajuste entre a matemática e o mundo?

terça-feira, 27 de março de 2007

A PINTURA COM A FACA NOS DENTES


"Caravaggio" (1985-Derek Jarman)

Derek Jarman deu-nos um pessoalíssimo "Caravaggio", que subordina a pintura à tragédia.

A faca com o nome gravado que acompanha o pintor pela vida fora é o símbolo desse primado da violência, responsável pelo curso sinuoso da sua vida.

Não é por acaso que os quadros, tão justamente famosos, que pontuam os episódios apareçam como simples pretexto para o drama que o sexual transfigura, nem que o espectador seja confrontado com uma paródia da perfeição do mestre nessa matéria pictórica decepcionante, feita de esboços e pinceladas rápidas, como se o reconhecimento fosse culpado de "voyeurisme". Este homem apaixonado parece, assim, um louco que se tomou por Caravaggio.

A ideia de Derek de que a experiência da filmagem e a transformação dos actores pelo acto de cinema é o critério mais importante retoma uma das mais lídimas tradições da criação artística, nos antípodas do cinema comercial, o que nem era preciso dizer, mas de qualquer produtividade exterior à arte.


(José Ames)

A IDADE DE OIRO


Ésquilo (525/456 AC)

"Vemos o pequeno-burguês Diceópolis, sentado no teatro Dioniso já antes do nascer do sol, trincando com satisfação a sua cebola e falando ansiosamente consigo mesmo. Espera o aparecimento do novo coro de um certo dramaturgo frio e exagerado da moda, mas o seu coração suspira ardentemente pela tragédia de Ésquilo, agora fora de moda."

"Paidéia" (Werner Jaeger)


Trechos como este falam-nos de uma idade de oiro, em que os grandes poetas eram a maior influência espiritual.

Mesmo se aquele ateniense, sentado nos degraus do teatro, encontra nos novos tempos motivos para olhar o passado com saudade. "Os chefes, tanto democratas como aristocratas, tinham na boca as grandes palavras do seu partido, mas, na realidade, não era por um alto ideal que se batiam. Os únicos móveis da acção eram o poder, a ambição e o orgulho, e mesmo quando invocavam os antigos ideais políticos só se tratava de palavras." (ibidem)

E há toda a diferença do mundo entre a inspiração de um passado que nos transcende e cuja realidade depende de miraculosos indícios e a História documentada.

segunda-feira, 26 de março de 2007

A TELEVISÃO CONTRA O PASSADO



"A televisão desencadeia respostas neuro-fisiológicas nos seus espectadores. Pode criar doenças e decerto gera confusão e submissão a um mundo externo de imagens. Em termos globais, os feitos observados traduzem o condicionamento necessário ao controle autocrático."

"Quatro argumentos para acabar com a televisão" (Jerry Mander)


A televisão acaba de fornecer a melhor prova de que não é janela nenhuma para um mundo real ou ideal.

Nem nós somos assim, nem aspiramos a ser.

E os perigos de se identificar a opinião pública com o mundo dos telespectadores torna-se demasiado evidente.

Mesmo se esquecermos as piores facetas de Salazar, ele só podia ser o "maior português de sempre" ( e Cunhal o segundo), se tivéssemos, como país, a idade da televisão.

E em abono da tese que esta sondagem é um produto da mentalidade televisiva, um monólogo da televisão consigo própria, é que um desconhecido do grande público, ainda há meia dúzia de anos, alcançou o 3º lugar.

Para a televisão, o jornal de actualidades é tudo e o passado apenas um programa para minorias.


Palatino (José Ames)

A CONSPIRAÇÃO DOS DEUSES


O Conselho dos Deuses


"Homero concebia o poder dos deuses em termos tais que o que acontecesse na planície diante de Tróia seria apenas um reflexo das diversas conspirações no Olimpo. A teoria conspiratória da sociedade é uma simples variação deste teísmo, de uma crença em deuses que tudo governam com os seus caprichos e vontades. Provém do abandono de Deus e da consequente pergunta: Quem ocupa o Seu lugar? Esse lugar será então ocupado por diversos homens e grupos poderosos - sinistros grupos de pressão, culpados de haverem planeado a Grande Depressão e todos os males que sofremos."

"Conjecturas e Refutações" (Karl Popper)


É mais fácil, de facto, encontrarmos pessoas que julgam ter identificado a causa do mal que lhes acontece na vida ou dos problemas que afligem o país, quer nos grupos de que fala Popper, quer numa classe, ou num sistema, do que pessoas que aceitem, sem se sentirem injustiçadas, o magro quinhão que lhes coube.

Isso, afinal, é uma forma de sentirmos a falta das respostas duma religião que nos prometia uma justiça transcendente, recompensando os justos no Céu e castigando os maus no Inferno.

Essa justiça negava a antiga ideia da Necessidade e pressupunha, para além do jogo de forças e dos diversos condicionalismos, a acção voluntária dos indivíduos.

Isso explica, talvez, que, "depois da religião", e apesar duma tendência anti-humanista crescente que se verifica na Física e na Psicologia, no pensamento ingénuo da política prevaleça ainda uma teoria dos bons e dos maus (que em nada é modificada, quanto ao fundo da questão, quando se substitui a maldade metafísica pelos interesses).

domingo, 25 de março de 2007


(José Ames)

A ARTE DO IRRACIONAL


Rembrandt ("A meditação do filósofo")


"Este sentimento da imanência da morte recebeu a sua expressão mais forte em Rembrandt. A visão da actualidade da morte ao lado da vida, que encontramos num Hans Holbein, Mathias Grünewald, Lucas Cranach, Hans Baldung, etc, visão própria da arte do Norte, contém um vigoroso sentimento da presença da morte, que, longe de ser exterior à vida, lhe confere certas características e determina o seu curso. A vida perde completamente o encanto duma expansão irracional, porque a morte é um obstáculo inultrapassável e omnipresente."

"Solitude et Destin" (Emil Cioran)


Por oposição à arte do Norte, Cioran define a arte da Antiguidade e a do Renascimento meridional como ingénua e sonhadora, um "abandono voluptuoso à existência sem ser atormentada pela questão teológica."

"A Virgem Santa já não é uma mãe chorando o seu filho, mas torna-se uma beleza mundana, de misterioso sorriso, quase erótico."

É o "encanto pernicioso" que levou a heroína de Forster a apaixonar-se pela beleza de Itália, com que extraditamos da existência o seu lado trágico, tão marcado, por exemplo, nos retábulos de Isenheim (Grünewald), para na perfeição de um Rafael alcançarmos a vida das ideias.

Não é o nosso mundo, mas pura transcendência e estetização da morte.

Tão natural, de resto, como o céu azul dessas paragens.

A MULHER QUEGOSTAVA DE AJUDAR



Depois de ver a entrevista de Imelda Staunton, não encontro palavras para descrever a minha admiração pela metamorfose que representa a sua interpretação de "Vera Drake" de Mike Leigh (2004).

Esta mulherzinha da classe operária, nos anos 50, em Inglaterra, que distribui generosamente um carinhoso "dear", como no nosso país se usa dos diminutivos, até na conta dos restaurantes, é em tudo diferente da actriz desempoeirada e bem falante que nos explica o seu trabalho.

Vera ajudou ao longo de vinte anos muitas mulheres a abortar. Como uma missão e sem cobrar o quer que fosse.

Isso não impediu a Lei de a condenar a dois anos e meio de prisão, quando um dos casos corre mal. É óbvio que Vera não se considera culpada, mesmo se teve de dizer outra coisa ao juiz.

Apesar disso, escondeu a sua actividade da própria família, como se a solidariedade com o seu género fosse coisa íntima para que nem dos seus esperasse compreensão.

O espectáculo da felicidade desta família interrompido pela polícia que vem prender Vera é de um realismo impressionante.

No final, tem toda a lógica que a sociedade, hipocritamente, a condene.

Quanta a Vera, o que nos surpreende é donde lhe veio a força para prosseguir sozinha na sua prática clandestina, atraindo sobre aqueles que mais queria os raios da justiça terrena.

sexta-feira, 23 de março de 2007


Rua de Entre-Quintas (José Ames)

O RENDIMENTO DA CULPA


http://www.internationaldigitalart.com


Um estrabismo moral impede de ver os outros sem preconceito. Antes mesmo de lhes assacarmos tudo aquilo que temos contra nós mesmos. Descobrimos na classe uma ideia do homem que suspende a guerra mais íntima. Vários sistemas de culpa cavalgam o quotidiano do que se debruça sobre as tarefas mais simples e rotineiras. Mas ele não têm consciência disso antes do meu olhar fixo. Creio que a absoluta estranheza não poderia produzir nunca esse efeito.

Não é um pobre que julga a minha riqueza e me corta o acesso dum gozo sem problemas. É quem me divide em mim mesmo. O que não se suporta é a traição do semelhante, a inesperada condenação dos que não deviam enganar-se a nosso respeito.

Quando a diferença de classes se torna sintoma de um crime original, nenhuma diferença está livre de ser julgada. Por isso, a situação é a dum impasse, dum apelo silencioso à amnistia geral do tempo e da opinião. A vida intra-muros só não tende a degradar-se por causa da divisão estratégica que restabelece o equilíbrio. Se a classe não respondesse, a muitas vozes, a esse desafio do complot com o exterior, não podia impedir a vitória do seu bárbaro. É fácil, além disso, acusar quem nos acusa de viver em contradição, e não há dúvida que o mais forte dos dois é o que escolheu o seu campo.

O revolucionário – não há outro que não seja este burguês de mal consigo, pois não? – nunca se separa completamente do mal que quer erradicar. A única via que lhe resta para o corte total é o sacrifício, e esse reverte a favor da cultura opressora. A suspeita turva o olhar de uns e outros, trazendo ao mundo o veneno preparado nas caves da misantropia.

Mas a insatisfação é grande consumidora de signos securizantes e de identidade social. E por aí a máquina económica é accionada no sentido da criação de maiores diferenças e dum materialismo sem alma.

quinta-feira, 22 de março de 2007

ABRANHOS REDIVIVO



Que pensar desta investigação realizada pelo "Público" à licenciatura do primeiro-ministro?

Invoca-se uma polémica na blogosfera e o dever de informar para justificar um acto que se parece demasiado com uma exploração de fragilidades para um qualquer fim político.

Se não quero comparar esta investigação à devassa de algumas oposições ou de partidos no poder que não recuam diante do que pertence por direito à esfera privada e pessoal e como, por isso, não posso crer na tese da encomenda, só me resta o pasmo perante este zelo de autenticidade dos títulos.

É que ao mesmo tempo que se relativiza a importância dos doutores na política, lembrando o exemplo de homens como Jacques Delors, procede-se como se a questão de saber como Sócrates terminou o seu curso fosse crucial para o país e o que mais conta para avaliar a sua política.

Não é tão cedo que o "Conde de Abranhos" vai perder actualidade.


(José Ames)

OBJECTIVIDADE IMPERTINENTE



"O retrato era anterior ao momento em que Odette, disciplinando as suas feições, tinha feito do seu rosto e do seu corpo essa criação que, através dos anos, os seus cabeleireiros, os seus costureiros, ela própria - no modo de se comportar, de falar, de sorrir, de poisar as mãos, os olhos, de pensar - deviam respeitar nas grandes linhas."

"À l'ombre des jeunes filles en fleurs" (Marcel Proust)


Às vezes, da janela de um autocarro, surpreendemos na rua um conhecido, que passa sem nos ver, entregue aos seus pensamentos.

Então compreendemos quanto do aspecto moral de uma pessoa depende da presença dos outros e do esforço inconsciente dela própria para não os desiludir, para não deixar cair a máscara social, da qual já não consegue separar-se.

É o privilégio dos outros ver a nossa personagem fora do teatro, mas à custa de uma objectividade impertinente.

quarta-feira, 21 de março de 2007

SER OU NÃO SER


Jules Lagneau (1851/1894)

"Os mitos religiosos e a própria dialéctica abstracta não fazem mais do que traduzir uma recusa de querer conforme o mundo. Porque é profundamente verdadeiro que o mundo basta; e nisso Lucrécio está no caminho da salvação, mas é verdade também que é preciso procurar o mundo."

Alain (Comentários sobre "Charmes", de Paul Valéry)


Assim, seguindo nisso o seu mestre Lagneau, o filósofo diz-nos que o mundo afinal não basta: "(...) um pensamento como esse, provado e suficiente, objecto suficiente, já não seria um pensamento."

Escolher não ser é cair no sono e no mecanismo, que é uma tentação de todos os momentos. Mas escolhe-se realmente esse movimento para baixo, ou isso é mais um aspecto da luta com a necessidade, em que nossa vontade representa a parte mais fraca?

Mas Lagneau diz-nos, e bem, que nem o mundo temos, se descermos.

Por isso, não são apenas os heróis que se procuram manter de pé, mas qualquer um de nós, e sempre. E isso é pensar.

"Être ou ne pas être, soi et toutes choses, il faut choisir."


Alentejo

A HORA DA CORUJA


Minerva


"Uma das causas da visão pessimista da história e da cultura, é que o homem se dá conta num momento dado da independência da sua evolução em relação às suas exigências. O indivíduo torna-se então consciente da nulidade do seu esforço, da vaidade de todos os esforços visando a modificar o sentido da história. Substituindo-se a um activismo gerador de todas as espécies de ilusões, a contemplação serena situa as coisas no seu ambiente normal."

"Solitude et Destin" (Emil Cioran)


Este pensamento é crepuscular. A hora em que, segundo Hegel, levanta voo o pássaro de Minerva.

Sendo realista, porque todos os nossos esforços conscientes não podem deixar de ter efeitos imprevisíveis, na mesma medida, aliás, em que, na sua origem, temos de incluir demasiadas coisas que nos ultrapassam, é um pensamento que não poderia ser adoptado como regra universal.

Felizmente que, tirando os sábios, os velhos e os desiludidos, ninguém acredita realmente na subordinação humana ao que os Gregos chamavam de Necessidade.

Por isso, graças a todos os deuses do Olimpo, há um longo caminho de erro e de ilusão a percorrer para que alguns possam chegar àquela conclusão.

Donde, de facto, os nossos esforços podem ser considerados rigorosamente necessários e conformes à razão.

E este outro realismo vai mais longe do que o outro. Só que não é compatível com a enfatuação individual.

terça-feira, 20 de março de 2007

O PLATONISMO DE HITCH



"Todo o filme, sob a luz deste vibrante acto de acusação, adquirirá uma nova coloração: o que estava adormecido reaparecerá e o que vivia morrerá no mesmo instante, e o herói, triunfante da vertigem, mas para nada, não encontrará de novo senão o vazio a seus pés."

Eric Rohmer sobre "Vertigo" de Alfred Hitchcock


No início da sua crítica, Rohmer coloca esta frase de Platão: "Ele próprio, por ele próprio, com ele próprio, homogéneo, eterno." e termina-a dizendo que os filmes de Hitchcock "têm por objectos - para além daqueles com os quais sabem cativar os nossos sentidos - as Ideias, no sentido nobre, platónico, do termo."

Eis uma opinião hiperbólica sobre um cineasta que confessou nunca tirar os olhos da plateia, que está de acordo, porém, com a crítica francesa da época, ou não tivesse ela "descoberto" o mestre.

Mas não há dúvida que, talvez por mérito do argumento (Alec Coppel e Samuel Taylor) e da música (Bernard Herrmann), "Vertigo" é um filme-parábola com uma ressonância metafísica, única na obra de Hitchcock.

"Essa Madeleine julgada verdadeira e contudo nunca verdadeiramente conhecida, verdadeiro fantasma em qualquer caso, uma vez que ela apenas existia no espírito do detective, não sendo senão uma ideia."

Não estou certo também se, por ironia, Hitchcock não terá simplificado a ideia sobre o seu cinema.

A verdade é que quanto mais depurada a forma, mais nos aproximamos do símbolo. A própria eficácia duma técnica narrativa como a do "suspense" pode apresentar-se como uma espécie de rapto do significado, e o mito que dorme em todas as histórias pode então não andar longe.


(José Ames)

A MECÂNICA DO ENTUSIASMO



"Tudo isto foi trabalhado com grande habilidade, com uma notável perícia. Se fosse possível traçar a sua história detalhada e completa, ficaríamos muito edificados sobre um curioso tema de alta filosofia: como, numa época indiferente, incrédula, podem os políticos fazer, ou antes, refazer o fanatismo? Belo capítulo a acrescentar ao livro indicado por um pensador: A Mecânica do Entusiasmo."

"Hstória da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Como é que um clero sem fé (estávamos no século das Luzes: alguma classe ou corporação podia ter ficado imune ao racionalismo triunfante?) conseguiu levantar a Bretanha e a Vendeia contra a Revolução?

"Contra a Revolução não haveria resultado possível sem a guerra religiosa. Por outras palavras: contra a fé, a única força era a fé." (ibidem)

Em certos lugares, a população podia mais facilmente ser enganada sobre o alcance das medidas da Assembleia, escamoteando aquelas que eram realmente populares, como a abolição do dízimo, e "anunciando-lhes que dentro em pouco iam tirar-lhes um terço dos seus móveis e dos seus animais."

"(...) O que perdeu Luís XVI, diz Froment nas suas brochuras, "foi ter tido ministros filósofos."

"(...) O que tornava a contra-revolução impotente era que tinha no seu seio, embora a diferentes níveis, a filosofia do século, isto é, a própria Revolução."

Vê-se, assim, que onde as novas ideias não tinham ainda penetrado, nos campos e onde não se falava o francês, o fanatismo teve muito por onde arder e os interesses, falsamente ameaçados, puderam exprimir-se na guerra religiosa.

Mas no resto do país, lavrado pela charrua dos filósofos, o movimento fez nascer um outro tipo de entusiasmo, que honra a espécie, e que se podia chamar de religião da Humanidade.

segunda-feira, 19 de março de 2007

ANULAÇÃO E OCULTAÇÃO


"Auto-retrato" (Oskar Kokoschka)

"Porque a arte abstracta tem por característica reduzir o linear até o anular.
(...) A desagregação psíquica recusa a consistência formal e anula o contorno."

"Solitude et Destin" (Emil Cioran)


E estas palavras a propósito da pintura de Kokoschka: "As insuficiências técnicas formais constatadas na obra de Kokoschka não são devidas, como erradamente se afirma, a uma incapacidade artística; elas estão condicionadas por uma visão centrada sobre as origens do mundo, e são dela o resultado." (ibidem)

Não se pode aplicar a toda a pintura moderna a moral do "rei vai nu".

Decerto, não saberemos nunca se o "caos", a ausência da técnica, são um efeito de uma auto-anulação da superioridade formal, uma espécie de voto monástico contra a Babel das linguagens, ou, por exemplo, uma inspiração da desagregação psíquica que faria da expressão um processo de cura.

Os artistas modernos não têm tempo para "sofrer" os períodos de um Picasso, os quais não deixam qualquer dúvida sobre a força que se anula ou transforma em novas plásticas.

Por isso, e porque o "caos" é ele próprio uma linguagem, acredito com Cioran no regresso do "contorno" e do "linear", de resto já à vista nalguns pintores.


Museu Capitolino (José Ames)

A PAIXÃO DA ESCRITA



"E assim a beleza da vida, palavra de algum modo desprovida de significação, estádio situado aquèm da arte e no qual eu vi Swann deter-se, era aquele a que, através do amortecimento do génio criador, da idolatria das formas que o tinham favorecido, do desejo do menor esforço, um Elstir devia um dia retrogradar."

"À l'ombre des jeunes filles en fleurs" (Marcel Proust)


Como estamos longe aqui de uma teoria da inspiração que desse ao artista a capacidade mediúnica de se exprimir pelos deuses! O génio seria assim algo de exterior que lhe ocuparia o espírito sem o conformar, como um rio que não modificasse as suas margens.

O percurso de Marcel Proust é o contrário disso, a começar pelas primeiras tentativas de crítica literária e, a crer na confissão do narrador, as dolorosas dúvidas e o adiamento recorrente da obra, até à definitiva clausura para se deixar sangrar em escrita, na imobilidade prenhe e alucinada de uma fêmea a quem o tempo e as forças podiam faltar, antes de trazer à luz o novo ser.

Opõem-se então nesta passagem o hedonismo do diletante e a ética do parto.

domingo, 18 de março de 2007

DEPILAÇÃO DO HOMEM-LEÃO


Nicole Kidman em "Fur"


"Freaks was a thing I photographed a lot ... it had a terrific kind of excitement for me... Most people go through life dreading they'll have a traumatic experience. Freaks are born with their trauma. They've already passed it. They're aristocrats". Diane Arbus


Podemos ver o filme de Steven Shaiman (2006), "Fur, an imaginary portrait of Diane Arbus", como uma cura pela neurose, de alguém incapaz de viver com o seu passado familiar ( o pai era um rico comerciante de peles) e o seu prolongamento no casamento com um fotógrafo de moda, em que as zibelinas, as martas e as chinchilas eram outros tantos sinais da crueldade e da dominação parental.

Não admira que o objecto privilegiado da sua fotografia, quando se torna independente, seja o mundo dos "freaks", esses seres entre o humano e a monstruosidade física que, como disse, por terem já passado o seu trauma, são verdadeiros aristocratas, e que se tivesse apaixonado por Lionel, o homem-leão, que mora no andar de cima. É do alçapão que o marido de Diane verá descer toda uma procissão de criaturas do circo, espécie de duendes que, aos seus olhos, têm prisioneira a mulher amada.

Através do olhar de Diane (maravilhosa Nicole Kidman!), a humanidade dos "monstros" parece-nos mais requintada e triunfante da fealdade dos seus corpos torturados.

A tal ponto que "Freaks", o célebre filme de Tod Browning (1932), perante esta obra, passou de repente à pré-história.


(José Ames)

ENTRE A LÓGICA E A VIDA


"Wiitgenstein" (1993-Derek Jarman)


O modelo teatral, com a iluminação isolando as personagens do cenário em fundo negro, os momentos da biografia e as principais ideias descritos em "sketches" brilhantemente escritos e interpretados, não é nada a que a BBC não nos tenha já habituado.

No filme de Jarman sobre Wittgenstein, que pretendia que a filosofia só se podia preocupar com pseudo-problemas, temos essa estética e uma história que ilustra bem que os nossos problemas tampouco são os da Lógica.

O actor (Karl Johnson) que dá corpo a esse filósofo sem humor e sofrendo, nas palavras do seu amigo Maynard Keynes, de uma forma inabitável de "integridade moral", consegue transmitir-nos toda a aura e excentricidade deste vienense fundamental.

sábado, 17 de março de 2007


Porto (José Ames)

CATACUMBAS


Catacombs of Callistus


A catacumba está fora da visão e por isso o poder pode ser surpreendido. O olho triangular não domina esse labirinto dos mortos. O seu dardo certeiro precisa de luz e da distância suficiente para ler.

Quem tivesse de percorrer o enigma para o compreender seria um guia de cegos e nunca um déspota esclarecido. Faltava-lhe a percepção simultânea e a acção fulminante. Um grande espaço exige uma grande velocidade para abolir o tempo. Porque o oprimido é aquele que não tem tempo para responder.

Bastava que o desafio existisse por um momento para pôr fim ao reino absoluto do Único. Os pequenos territórios estagnam porque o rebelde encontra um déspota indolente e fraco. O ar do império forma redemoinhos inconsequentes no enclave sem horizontes.

Se é verdade que a primeira necessidade política é a segurança – mesmo o herói precisa de confiar quando dorme -, homem nenhum pode iludir o poder absoluto sem sacrifício do sono. E aí está a grande esperança de toda a servidão: que a maior força precisa de se tornar em fraqueza e contar com a fidelidade e o medo dos outros. É como se Gulliver mudasse do país dos anões para o país dos gigantes durante o sono.

O despotismo interessa-se pelos vivos. Só é preciso pôr sentinelas junto dos mortos quando eles ressuscitam. A região dos mortos que tem espaço para novos inquilinos e para o trabalho dos que transportam e arrumam os despojos, quando não para a contemplação dos túmulos, é o lugar ideal para a conspiração. A cidade dos jacentes, do último destino de toda a acção comunica esse silêncio hostil a toda a vaidade revolucionária e a perspectiva do tempo mais solene que relativiza todas as coisas.

As catacumbas fizeram os mártires iluminados do circo. O olhar que perscruta a superfície tem medo que o olhem debaixo de terra. Por isso é mais seguro o cemitério ao ar livre ou a cripta gerida pelos sacerdotes. A noite continua a ser a metáfora mais geral do inimigo da ordem. O mundo da imaginação revela-se para muitos a saída para a rebelião individual. Ou a selva do guerrilheiro, a poesia. Mas o déspota aprendeu pelo seu lado a controlar os esgotos e o crocodilo de cada sanita. A espalhar os mortos pela cidade, a recensear. A polícia desceu ao reino da clandestinidade e trouxe a notícia fatal para a tranquilidade do tirano: as catacumbas estão em toda a parte. O homem, no seu íntimo, despreza, se é livre, o medo de quem oprime que é a principal causa do seu excesso. Rebelde no espírito, não é a ordem que sonha destruir. Mas o pensamento da servidão e da miséria.

Comecemos pela coragem de pensar sozinhos, quando se pode pensar. A humanidade não nos força.


sexta-feira, 16 de março de 2007

A ARTE DE VIVER


Edward Morgan Foster (1879/1970)


"Então, o encanto pernicioso da Itália actuou nela e, em vez de adquirir informação, começou a ser feliz."

"Room with a view" (E.M.Forster)


Ao comentar este pensamento com um italiano, veio ao de cima aquela natural antipatia (acompanhada do não menos natural fascínio) entre as nações do norte e as do sul, resultante das diferenças de temperamento dos homens e da fisionomia dos países.

O romancista, ao mesmo tempo que admira a arte de viver desse povo, anfitrião de tantos poetas, cada um com a sua "Viagem em Itália", criticando até a contabilidade turística do anglo-saxão, não deixa de ver um pecado, um excesso na despreocupação de um estilo de vida que não tem a utilidade como objectivo norteador.

E o meu amigo, ao causticar este talento para se aborrecerem dos Ingleses, fá-lo com uma nuança de inveja pela eficácia deste povo prático, que a ironia não consegue esconder.



(José Ames)

A VONTADE DE CRER


Emil Cioran (1911/1995)


"A vontade de crer é a expressão desta orientação perspectivista, que não é de modo nenhum criadora. O movimento religioso contemporâneo é uma tentativa de romper com a cultura moderna em vias de esgotamento, mas ele não tem nada de um começo de vida (nomeadamente porque, em vez de produzir valores novos, se dirige para os valores religiosos como para qualquer coisa que lhe é exterior)."

"Solitude et Destin" (Emil Cioran)


Na impossibilidade de criar, "muda-se de orientação", para o que já existe.

Então, a longevidade, a capacidade de resistir à mudança ao longo do tempo que caracteriza a Igreja Católica, quando a criação de novos valores se encontra num impasse, permite-lhe responder a uma necessidade real, mas ao lado, e de um modo não orgânico.

De cada vez, o recurso do espírito às formas tradicionais deve ter, por isso, um sentido diferente. E a religião que começou por um movimento original, teve, ao longo dos séculos, diversos avatares, de que só a forma era religiosa.

Mas a ideia de criação talvez seja metafísica, tanto em arte, como no resto.

quinta-feira, 15 de março de 2007

PENSAR A POESIA



"Platão desenvolve Homero como um objecto. Como é que a poesia tem este privilégio de fixar o pensamento, de o surpreender no seu movimento, de inteiramente o assegurar no contorno justo, não o posso realmente saber. A obscuridade justamente célebre de "La Jeune Parque" deve-se unicamente ao seu assunto, que é uma pura história da alma sem nenhum vislumbre de memória, um jogo de transformações estritamente ligado aos remoinhos do Universo."

Alain (Comentário sobre "Charmes", de Paul Valéry)


O preciso contorno do pensamento é esse o privilégio da poesia.

Não se pensa a partir do informe, da confusão, mas do que parece dito ou escrito para sempre, na sua impossível nitidez.

A filosofia grega nasceu, então, dos cantos da guerra de Tróia e do maravilhoso dos mitos capturados pela linguagem poética, a mais concisa e a mais eloquente.

Quando o poeta fala só da Natureza, o Homem que se encontra no âmago fala das entranhas como um oráculo: por enigmas.


S. Lázaro (Jose Ames)

UM NOVO DOGMATISMO?


Galileu Galilei

Leio em Popper ("Conjecturas e Refutações") que o cardeal Bellarmino, um dos inquisidores já no processo contra Giordano Bruno, não se opunha à teoria heliocêntrica de Galileu, como, de resto, o próprio papa...

O problema era que a comodidade assim obtida nos cálculos, de acordo com a observação, fosse mais do que uma aparência:

"(...) Galileu agirá avisadamente se falar hipoteticamente, ex suppositione...; dizer que descrevemos melhor as aparências supondo a Terra em movimento e o Sol em repouso do que se usássemos excêntricos e epiciclos é falar acertadamente. Não há perigo nisso, e é tudo aquilo de que a matemática necessita."

Karl Popper compara esta atitude com o instrumentalismo, hoje, segundo ele, a "perspectiva oficial" da teoria física e que se tornou "parte do actual ensino da Física."

"(...) Aquilo que actualmente lhes interessa, enquanto físicos, é (a) o domínio do formalismo matemático, i.e., do instrumento, e (b) as suas aplicações; e não querem saber de mais nada." (ibidem)

Este abandono da tradição galilaica ( o verdadeiro conhecimento por detrás dos fenómenos, como todo o platonismo) é explicado por Popper "pelas dificuldades na interpretação do formalismo da Teoria Quântica" e pelo "espectacular sucesso prático das suas aplicações." (ibidem)

É vertiginoso pensar-se que hoje tão poucas diferenças, a nível filosófico, existam entre a atitude da Inquisição, que zelava pelo respeito da letra dos Evangelhos e a da Física moderna que postula a existência de um mundo em que a verdade é independente daquilo que "a matemática necessita".

A ciência pode desenvolver-se, então, num mundo de aparências e de experiências bem sucedidas, sem que a religião, fosse ela a mais obscurantista, encontrasse contra ela qualquer objecção.

quarta-feira, 14 de março de 2007

UMA VÃ TENTATIVA


Vilfredo Pareto (1848/1923)

"- Apesar da uniformização, da globalização das nossas sociedades de consumo?

- Felizmente, sim; há tantos elementos perfeitamente irracionais a intervir, neste jogo do possível e do impossível dos desejos que os economistas gostariam de racionalizar... É por isso que Vilfredo Pareto teria, parece que tardiamente, reconhecido a economia como não sendo mais do que "uma vã tentativa de contar a psicologia."

"Si 7=0, Quelles mathématiques pour l'école?" (Stella Baruk)


Não se pede à economia que seja "científica", certa e demonstrável, porque ela tem mais a ver com a História do que com a Física, uma História que se trata de prever, nas suas grandes linhas.

Admito que precisemos de um método por aproximação, falível no detalhe, mas que não ande muito longe de acertar numa tendência (se as condições previstas no modelo não se alterarem).

Logo, quanto mais geral, menos incerta, mas também menos útil.


(José Ames)

LINHA SINUOSA



"A 22 de Outubro, a Assembleia declarou que ninguém seria eleitor se não pagasse em imposição directa, como proprietário ou locatário, o valor de três dias de trabalho (ou seja, no máximo, três francos).

Com esta linha, tirou das mãos da aristocracia um milhão de eleitores dos campos."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Robespierre e outros "objectaram inutilmente que os homens eram iguais, e portanto todos deveriam votar, nos termos do direito natural.

(...) Na crise em que se estava, nada mais vão, mais funesto que esta tese do direito natural. Os utopistas, em nome da igualdade, davam um milhão de eleitores aos inimigos da igualdade." (ibidem)

Não sei se os então utopistas poderiam hoje ser chamados de democratas.

Eles lutavam por um princípio que, na época, era revolucionário, mas que podia ser prejudicado pela lógica da Revolução.

Para Michelet, intuitivo e pragmático, não havia dúvida que o princípio devia ser protegido de si mesmo e que a Revolução traria na ponta dos chuços a almejada igualdade.

Este tacticismo provou ser a melhor demonstração da fórmula saliniana: é preciso que tudo mude, para tudo ficar na mesma,

Mas não podemos ignorar que se ainda hoje a igualdade é uma utopia, já não o é como em 1789.

E talvez devêssemos distinguir as utopias, conforme elas se situam no futuro e inspiram a acção dos homens, ou no passado e, presas das contradições resultantes de experiências históricas negativas, são incapazes de dar asas às palavras e às ideias.

terça-feira, 13 de março de 2007

SÍMBOLOS E PROFECIAS



Em "A lenda da Fortaleza de Surami", de Sergei Paradjanov (1984), um jovem deixa-se emparedar na muralha para a manter de pé, contra os inimigos do seu país. E reza a moral da história que é invencível o povo que é capaz de tal sacrifício.

Não há, claro, qualquer relação física entre essa imolação e a consistência da fortaleza.

O gesto do jovem Zourab é, no entanto, o maior desafio que se pode fazer à imaginação. E se a ideia lhe é inspirada pela Pítia (ela própria emparedada na sua vidência) e é imediatamente eficaz, é porque opera aqui o realismo dos símbolos.


Capitólio (José Ames)