terça-feira, 28 de junho de 2016

(José Ames)

ANTI-ÉDIPO



"Em vinte e cinco séculos atravessaram-se três idades do amor: o prazer, a carne e o sexo."
(Michel Foucault)

E que pode suceder a esta decadência? O prazer é jovem e sem 'complexos', a carne é feita destes, e o prazer deixa de ser inocente. Por fim, o que o 'Anti-Édipo' (Deleuze & Guattari) chamou de 'corpo sem órgãos', a máquina desejante.

Entre as duas 'ausências' do sujeito, a 'carne' sempre culpada de não ser espírito. Podia dizer-se que esta culpa é estrutural na consciência moderna. Sem ela as 'causas' não seriam o que são.

O 'sexo' corresponde, talvez, a um estado real de desestruturação da culpa e ao regime de liberdade da 'mercadoria' (Marx).

Os autores do 'Anti-Édipo' chamam a esta fase paradigmática de 'capitalismo esquizofrénico'. O sistema simula a sua própria revolução 'molecular' e o fim do indivíduo. Ele é o sexo do sexo.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

(Bath)

A CRIATURA


Hulk Hogan Finds God. And Joel Osteen

"Normalmente diz-se que o Mal são mentiras, ignorância, ou mortal estupidez. A condição do Mal é muito mais o processo de uma verdade. Só há Mal na medida em que existe um axioma da verdade no ponto do indecidível, um caminho da verdade no ponto do indescernível, uma antecipação do ser para o genérico, e o forçar de uma nomeação no ponto do inomeável."
"Infinite Thought" (Alain Badiou)

Estará já este debate a ser travado no plano do religioso, ao usar da categoria do Mal? O que é que se subtrai quando em vez de Mal falamos de Falso? Não é esta a palavra que se deve contrapor à palavra Verdade? Mas a Verdade pode ser também uma categoria religiosa, como quando Cristo diz: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;(...) Porquanto a Lei foi dada por intermédio de Moisés; mas a graça e a verdade vieram através de Jesus Cristo."


(‎Bíblia do Rei Jaime Actualizada · ‎João 14:7)

O falso científico não nos permite extrapolações transcendentais. E não faz sentido aplicá-lo à questão do 'inomeável":

"Finalmente, o inomeável é o motivo central do pensamento do político que deseja submeter o Nazismo ao pensamento; como o é do poeta que explora os limites da força da linguagem; como o é para o matemático que procura os indefiníveis de uma estrutura; como o é para a pessoa enamorada atormentada pelo que o amor transporta de inomeável sexual."
(Alain Badiou)

O 'genérico' (ou o universal) da ciência não pode ser científico ao ponto de reclamar o carácter de definitivo e do 'Tudo ficou dito'. Não. A incompletude e o que não se pode saber não marcam apenas o destino do indivíduo, mas a própria espécie que, mesmo fora da perspectiva religiosa, é como se fosse uma 'criatura'.


domingo, 26 de junho de 2016

(José Ames)

COMO OS DEUSES


LUCIO CORNELIO TÁCITO


"Principes instar deorum esse." (Os imperadores são como os deuses)
(Tácito) 

Este crime foi chamado de 'lesa majestade divina' em lei posterior. Não era crime reparar a estátua do imperador que estivesse arruinada pelo tempo, atingí-la com uma pedra por acaso, fundí-la se não tivesse sido consagrada, usar de meros insultos verbais contra o imperador, faltar ao cumprimento de um voto jurado pelo imperador ou decidir um caso contrariamente à constituição imperial." 

in "Expansion of the law of treason under Tiberius" (Wikipedia e Encyclopædia Britannica) 

Eram como os deuses, mas não inspiravam um terror sagrado. Era permitido beliscar a imagem do imperador, uma tolerância que faz lembrar a que os Ingleses têm para os que troçam da sua rainha. Mas o império e a própria 'era de Augusto', restringiram tais liberdades. 

"Nos primeiros tempos da Antiga Roma, 'perduellio' era o termo para a ofensa capital de alta traição. Estava, sem rodeios, escrito assim na Lei das Doze Tábuas: "A Lei das Doze Tábuas ordena que aquele que provocou um inimigo ou entregou um cidadão ao inimigo deve ser punido com a pena capital."" (Paul Veyne) 

Essa insegurança inicial voltou mais tarde a dominar o clima político, já não por causa de uma ameaça do exterior, mas devido à corrupção interna e à falta de crença nas instituições. A loucura atingiu em cheio os herdeiros da 'Gens Julia' e o governo arbitrário tornou-se a norma. A fórmula de Lord Acton talvez tenha sido inspirada pelo exemplo dessa extirpe: 'o poder absoluto corrompe absolutamente.' 

Os imperadores deixaram de 'ser como os deuses'. Mas enquanto os Gregos tinham deixado de acreditar nos seus mitos por causa da filosofia e da livre discussão, os Romanos deixaram de acreditar nos seus por que lhes eram demasiado familiares, demasiado (in)humanos. É um exemplo de como as boas convenções dependem de crenças inatacáveis. 



sábado, 25 de junho de 2016

(Esmoriz)

QUANDO ELE PASSA AO ATAQUE




Um crime delirante de Fantômas: a vítima, amarrada a uma cadeira, sente fugir-lhe um fio de sangue pelo braço . Uma venda impede-a de perceber que o facínora abriu a torneira de água quente. A via do tratamento pela água para o crime perfeito.

A criminologia do herói de Pierre Souvestre e Marcel Alain é um Kama Sutra. O inspector Jouve, sua antítese fraterna, é o factor velocidade. Por sua causa, o bandido imagina os golpes mais audazes e fulgurantes. Há quase uma contiguidade física entre o criminoso e o justiceiro, este falhando o outro por segundos. Essa é a situação da metamorfose: Mr. Hyde torna-se no Dr. Jekyll, isto é, no mesmo.

Lady Beltham não é uma clandestina, mas uma urna de vidro. Essa figura que se anima pela única vontade de Fantômas é a bela adormecida. Fandor, nome de ressonância eslava, é o comentário do génio. Para não se dissolver na música, a acção trágica cinde-se na fala magistral e no sentimento de assombro. Fantômas é apresentado como uma criatura diabólica, o mesmo é dizer, íntima. Na sua natureza, há um insondável psíquico, organizado como um segredo portador de morte. Fantômas é o resultado triunfante e livre do espírito da ambiguidade.

A máquina do prazer em Sade é um jogo infinito. A morte, como mostrou Barthes, é contrária à economia do castelo-refúgio. Fantômas tem o mundo debaixo da sua sombra. Não é a roleta russa, é a metralhadora. O seu prazer não olha a gastos. E a morte é o último fetiche duma lógica poética que não põe fim à vida, nem se alimenta da nossa angústia.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

(José Ames)

CLARIVIDÊNCIA



Higher Clairvoyance
UK Arhatic Yoga Retreat 2016


"Já não amamos suficientemente a nossa clarividência quando a comunicamos."
(Nietzsche)

Todo o budismo está aqui. Ver 'claramente' sem que a vontade de informação (que é o tratamento da experiência para os outros) perturbe a nossa visão, não é egoísmo, é expansão do ser e mística comunhão.

É, enfim, uma ideia do Oriente contra a qual desenhámos a nossa silhueta. E aí está a 'Noite Antiquíssima' em que o poeta atira ao Oriente uma das folhas do malmequer esquecido, as outras, o resto de si: "(...)

Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente de tudo o que nós não temos.
De tudo o que nós não somos (...)"

Como todo o programa de Nietzsche sobre o Super-Homem e a vontade do poder parece desmentido por nessa profissão de fé no êxtase da contemplação sem sujeito nem objecto!

E Pessoa ainda:"(...)

um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida."


quinta-feira, 23 de junho de 2016

 (Moscovo)

O MUNDO PODE ESPERAR


Empty Road Wallpapers


"'A acústica do vazio'. Quando um alfinete cai no soalho de um quarto vazio, o ruído parece desproporcionado, desmesurado: acontece o mesmo quando o vazio reina entre os seres."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Na harmonia entre o fero e a bela, Iago faz o vazio. Uma insinuação sua é aquele alfinete. O veneno que destila no caracol do ouvido. Havia o vazio antes, entre o mouro e Desdémona? De que era feita essa harmonia de contrários? De crença numa bela história, num sonho tornado pesadelo.

Uma história, um enredo são feitos de palavras, e é uma palavra que desencadeia a tragédia. No teatro, isso é por de mais visível. O que é dito não tem retorno e faz avançar a acção. Em Homero diz-se: '- que palavras atravessaram a barreira dos teus dentes?' Antes era um estado de coisas, depois das palavras ditas, é outro. De certo modo, o teatro é uma campânula para as palavras sob protecção do mundo.

O mundo é o que falta aos seres em que 'reina o vazio'. Porque o mundo desfaz o destino entretecido nas palavras e em todas as histórias e mitos. Mesmo aqueles que são necessários à nossa 'fraqueza'.

Houve um tempo em que os monges se afastaram do mundo para a ele voltar, depois de iniciados na missão a que tinham votado as suas vidas. Já era o que Platão esperava dos que vissem o Bem com os seus próprios olhos.

A "acústica do vazio", então, facilmente se torna na 'acústica do cheio', e o mundo pode esperar.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

(José Ames)

UMA IDEIA DE ARENDT

(Hannah Arendt)


"A palavra "auctoritas" deriva do verbo "augere", "aumentar", e o que a autoridade ou aqueles que comandam aumentam constantemente é a fundação."

(Hannah Arendt)

Foi assim que Roma criou a partir da sua lendária origem uma fonte de poder legitimado. Quanto mais perto dessa origem, maior a distinção.

Como se vê, a força ou a riqueza não eram suficientes para fazer aparecer a autoridade. A antiguidade de uma família, ao mesmo tempo que a aproximava de um passado em que os deuses e os heróis andavam pela terra e fundavam as cidades e escreviam a gesta dos povos, tornava os seus membros os mais 'qualificados', diríamos agora, para o exercício do poder.

Este espírito, tão contrário ao da democracia, de uma maneira ou de outra, estava no cerne de todo o regime aristocrático.

Como sabemos, o dinheiro acabou por comprar esses títulos e tornar a aristocracia uma impostura em que ninguém acreditava. Notemos que a supremacia da antiguidade não escandaliza a razão, como vemos pelo valor da origem em todas as religiões. Mas, hoje, não há razão que não proteste diante de qualquer sacralidade da hierarquia ou dos privilégios que infrinjam a norma de que todos os homens nasceram iguais. Só os novos heróis do desporto ou do espectáculo podem gozar deles com a secreta aprovação das massas.

Mas é claro que o valor da fundação não podia resistir à acção dos séculos e à extinção dos herdeiros dos 'founding fathers'. A aristocracia teve uma morte anunciada, o que não aconteceu com o mito dos 'melhores'. E daí a sobrevivência de regimes ou organizações fundadas na meritocracia e na especialização.




terça-feira, 21 de junho de 2016

(Provence)

O CERCADO COMUM

Ancient Egypt Priest


"O primeiro sacerdote que, com essa ponta (da corda) na mão e tendo cercado um terreno, encontrou os vizinhos satisfeitos com os limites do seu cercado comum, foi o verdadeiro fundador do pensamento analítico e, a partir dele, do direito e da geometria."
"As origens da geometria" (Michel Serres)

O pequeno escravo do 'Ménon' que Sócrates desvia do seu trabalho para demonstrar que o espírito geométrico existe em todo o homem, independentemente do seu lugar na sociedade (Alain), sugerere-nos, ao mesmo tempo, uma insondável arqueologia do indivíduo.

Dos começos que só podem ser especulativos fica-nos a ideia de que não é o colectivo que desempenha o principal papel no nascimento do sujeito individual. Que a 'consciência', tal como a conhecemos, não poderia ter resultado de uma prática social orientada pelo instinto de sobrevivência.

Encontramos, isso sim, a instância do sagrado na origem de uma evolução que nunca mais parou. Michel Serres arrisca:"O direito precede a ciência e talvez lhe dê origem; ou melhor: junta-os numa origem comum,  abstracta e sagrada."

Por outras palavras, é o que é mais estranho à palavra comum e ao 'lado prático das coisas', é o 'idealismo' mais extremado, se quisermos, e que é inseparável da imaginação, que encontramos no início da grande caminhada. E talvez esse 'extremismo' fosse um dos requisitos da memória colectiva. Tal como, mais tarde, o monumento funerário.

Que a ciência, hoje, triunfante, tenha balbuciado assim só a torna mais humana e...falível.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

(José Ames)

A RAZÃO TELESCÓPICA




"Na verdade, é contraditório ser infinito e ter limites, da mesma maneira que é contraditório ser infinito e ter uma proporção certa, isto é, determinada, em relação a alguma coisa finita. Consequentemente, nada do que é visível está separado de nós por uma distância infinita."
Johannes Kepler (1571/1630)

Em consequência, podíamos também dizer que o invisível que depende da impotência dos nossos telescópios é um falso infinito. Um salto nesta argumentação se afigura, então, irrespondível que é o de supor que todo o invisível obedece a essa mesma regra.

É o que a matemática faz unindo visível e invisível num mundo racional e calculável segundo a proporção humana.

Os nossos 'erros' foram assim projectados nas diversas cosmologias da história sem que pudesse verificar-se qualquer resistência factual. O cosmos foi o nosso caderno de exercícios geométricos. E quando Tales calculou a sombra da pirâmide com o auxílio do triângulo, aquela aprendizagem começou a revelar-se frutuosa. Através do método geométrico e do artifício algébrico (outra espécie de alavanca), construímos os andaimes da ciência que fizeram a maior das torres humanas.

A suposição de Kepler não previa qualquer lugar para a transcendência na 'máquina celeste'. Os instrumentos da visão permitiam todas as conquistas da razão proporcional. Isto, sem prejuízo, do grande astrónomo se inspirar em Deus e na harmonia pré-estabelecida.

O 'compreendo porque creio' confunde-se cada vez mais com o 'creio porque compreendo'.


domingo, 19 de junho de 2016

(Lamas de Moura)




PRESCRIÇÃO DA HISTÓRIA?


(Alain Badiou)


"A indecidibilidade de um acontecimento e a suspensão do seu nome são ambas características da política que hoje estão particularmente activas. É claro para um francês ou uma francesa que os acontecimentos de Maio 68 continuam a compreender uma aposta anónima ou não verificada. Mas mesmo a revolução de 1792 ou a revolução Bolchevique de 1917 permanecem em parte por decidir quanto ao que é por elas prescrito para a filosofia."


"Philosohy and truth" (Alain Badiou)

Se um acontecimento não se decide 'pela história' é porque existe uma 'vontade política' (ou filosófica) de explorar a jazida dos seus sentidos. Em termos práticos, trata-se de uma exploração que se poderia chamar de oportunística. Mas sabemos quanto a 'prática' pode ser a continuação da ideologia por outros meios.

A verdade é que todos os 'adquiridos' da história estão dependentes de um poder 'legitimador'. É isso o que nos diz o 'photoshopping' de Staline.

É nesse sentido que o 'Maio 68' não está 'fechado' e permanece umas das origens possíveis de novos eventos e novas ortodoxias. Sem prejuízo dos juízos 'definitivos' que, por exemplo, por estas bandas se fizeram, é possível dar-lhe um outro nome. E em relação a '1917', não é a pertinácia de uma crença contra os factos esmagadores, o melhor exemplo que apesar da implosão da 'grande mentira', o acontecimento está ainda disponível para um outro nome?

Para Badiou, evidentemente, a história não pode escrever em 'letra de forma'. Mas tampouco a filosofia, que não se pode encerrar na ilusão de 'dizer tudo o que há a dizer'.

sábado, 18 de junho de 2016

(José Ames)

MY PAST IS MY BUSINESS


(1983-Nagisa Oshima)

O beijo de Celliars (David Bowie), no filme de Nagisa Oshima. O sabre levantou-se sobre a cabeça do blasfemador, mas o guardião da ordem estava dividido no seu espírito.

A fraqueza do filme são os flash-backs. Lawrence diz que ninguém tinha razão quando punia em nome de princípios que considerava justos. Não eram universais, por isso não tinham razão. Mas eram princípios justos porque eram os deles. Baseavam-se numa tradição venerável.

O individualismo ocidental (my past is my business, diz Celliars) não justifica as ideias do Japão conservador que quer conciliar a delicadeza ancestral e o rigor militar. O hara-kiri é a justiça do colectivo assumida pelo suicida. Como se não houvesse salvação fora da obediência.

O capitão Yonoi considera que todos os prisioneiros são “honourable men” (já o sargento vê como uma vergonha que se mantenham em vida). Porém, quando o chefe inglês responde que não está disposto a fornecer ao inimigo informação sobre os peritos em armamento detidos no campo, o japonês retorque que vai dar a chefia a outro “honourable man”.

Por que é que neste embate de civilizações é o oriental que se mostra mais vulnerável? O ocidental é um cadinho de povos. É o espírito aberto do viajante e do peregrino. Pergunto-me se a célebre questão do monoteísmo do Ocidente não é uma espécie de razão das diferenças.

A outra sociedade, fechada e ainda politeísta, tinha que contrair a “peste”.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

(Valença do Minho)

A PROVA DO JOELHO

"O joelho de Claire" (1970-Erich Rohmer)



Em vésperas de se casar com Lucinde, Jérome, de trinta e cinco anos, envolve-se num jogo amoroso proposto por Aurora, uma escritora que não sabe como acabar a sua história.

A "cobaia" passa a comportar-se como uma personagem de ficção, distinta do homem, numa bela irresponsabilidade moral.

Assim, depois de se ter submetido às investidas de sedução de Laura e de ter sofrido com a sua inconsequência, mais do que o que pretendia, converte o seu abrupto desejo pela meia-irmã, Claire, numa nova atribuição da personagem. E desafia-se a conquistá-la simbolicamente, apoderando-se do seu joelho, eleito como metonímia do corpo ideal.

Mas a rapariga está genuinamente apaixonada por um jovem atleta da sua idade. Trata-se de acariciar essa parte da anatomia com o seu consentimento.

Consegue-o, explorando afrontosamente os seus sentimentos e lançando a suspeita de traição sobre o namorado.

A carícia não é repelida pela vítima em lágrimas que o toma por uma forma de consolação inesperada.

Mais tarde, Aurora ouve o relato desta experiência "literária", meio divertida e algo escandalizada.

Mas, de facto, todas as personagens verdadeiras escapam ao seu autor.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

(José Ames)

O PASTOR PERDIDO




(Heidegger and his wife Elfriede)



"Para Heidegger, os acontecimentos essenciais desta angústia (da Europa) são a fuga dos deuses, a destruição da terra, o homem tornado social e a preponderância do medíocre. Nesta passagem, Heidegger diz-nos que para tal meditação uma coisa é decisiva: 'A mutação ocorre pela interpretação do espírito como intelecto, este sendo interpretado como a simples faculdade de raciocinar correctamente nas considerações teóricas e práticas, tal como na avaliação das coisas já presentes.'"
"Infinite Thought" (Alain Badiou)

Será realmente o que se passa? Uma metamorfose no 'social'? Desde Aristóteles que a filosofia nos diz que somos um ser social e um 'animal político'. O que impediu que a 'decadência' de hoje acontecesse mais cedo? A 'fuga dos deuses' daria todo o sentido a essa decadência se não pensássemos que os deuses foram uma ilusão da infância humana e se uma proposição pudesse encerrar a verdade.

Diz Badiou :"Todas as categorias pelas quais a essência de uma verdade pode ser submetida ao pensamento são negativas: indecidibilidade, indescernibilidade, 'o genérico nem-tudo' e o não nomeável. A ética das verdades reside inteiramente na medida tirada deste negativo, ou por outras palavras, nas limitações colocadas à potência da verdade pelos acasos desta construção.'

A 'mediocridade' do tempo vem-lhe, pois, da conformidade social e dos nossos heróis terem perdido o favor dos deuses, ou da prisão do espírito no 'leito de Procusta' da razão ocidental?

O ex-reitor de Friburg acena-nos do seu refúgio na montanha,  com os destroços da sua negação comprometida.

quarta-feira, 15 de junho de 2016


(Paris)

GUERRA DE RELIGIÃO




"Os antigos interesses de cada nação foram esquecidos por interesses novos; às questões de território sucederam questões de princípios. Todas as regras da diplomacia se encontraram misturadas e enredadas, para grande espanto e grande dor dos políticos desse tempo. Foi precisamente o que aconteceu na Europa depois de 1789."

"L'ancien régime et la révolution" (Alexis de Tocqueville)

Segundo o historiador, não há exemplo de uma revolução política como a Revolução Francesa; só se encontrariam semelhanças nas revoluções religiosas.

As ideias dos filósofos do século XVIII prepararam, sem dúvida, menos o povo do que as elites para o questionamento das fundações do (seu) poder.

Desagregaram-nas em pouco tempo, fazendo-lhes sentir, pela primeira vez, a 'má-consciência' e puseram a nu a falta de justificação dos seus privilégios. Ora, esse novo sentimento foi uma espécie de conversão silenciosa, embora se discutisse nos salões aristocráticos com a liberdade de espírito que, do ponto de vista do 'interesse de classe', essa fosse uma atitude que roçava a frivolidade.

Tocqueville refere precisamente os antigos e os novos 'interesses'. E Marx viu nisso uma passagem de mãos do poder de uma classe ociosa e decadente para uma classe activa que já dispunha dos meios necessários para suceder àquela.

A noção de interesse, pelo seu lado, é demasiado vaga. Quantos não estiveram, nessa guerra civil tornada numa guerra europeia, contra os seus interesses? Os princípios não são interesses, sendo até 'desinteressados'.

O futuro não muito longínquo corrigiu a percepção errada dos interesses que estavam em causa, bem como dos meios para os proteger. Afinal Napoleão veio acertar o relógio da história, pondo fim à 'guerra de religião'.

De religião, na verdade, mas da religião em que o homem é o seu próprio deus.


terça-feira, 14 de junho de 2016

(José Ames)

O PARTIDO DO AMOR

(Alfred Agostinelli, à direita)


"Há só duas classes de seres: os magnânimos e os outros; e eu cheguei a uma idade em que é preciso tomar partido, decidir de uma vez por todas quem se quer amar e quem se quer desdenhar, prender-se àqueles que amamos e, para reparar o tempo que desperdiçámos com os outros, não mais os deixar até à sua morte."

(Marcel Proust, citado por Yves Simon in "Les éternelles")


Não sabemos se Marcel cumpriu, ou teve tempo para cumprir um tal programa. Agostinelli, por exemplo, que terá inspirado a personagem de Albertine, desapareceu nas águas de Antibes mais o avião que pilotava.

Como essa 'ligação' ressoou por toda a catedral da "Recherche", pode dizer-se que o autor manteve o partido do amor (expressão stendhaliana) para além da morte do ser que o inspirou. 'Em busca do tempo perdido' é mesmo um romance de perdição. O ciúme serpenteia ao longo de páginas sumptuosas, mas em que se tornaria a meditação do início se fosse só isso? O partido tomado teve, afinal, o destino de Ícaro (e não haverá aqui uma alusão ao desastre?). Como as asas de cera inventadas por Dédalo para o filho, o ideal do amor para Marcel estava prometido às chamas do ciúme, já que a pessoa amada se tinha substituído ao mundo.

Conhecida a vida do romancista, apetece dizer que aquele desastre de avião se consumou e sublimou na escrita proustiana. E o romance explica todo o monumento humano.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

(Valença)

A MANUFACTURA





"Independentemente do que produza, uma organização é uma fábrica que manufactura juízos e decisões."
(Daniel Kahneman)

Parece intuitivo que o grupo organizado tem maior capacidade de intervir na sociedade e, daí, a imemorial existência de facções e de partidos. O que choca é que se compare o processo social da 'super-estrutura' e da 'ideologia' a uma manufactura. Porque os juízos e as decisões aparecem aqui libertos de toda a subjectividade e de toda a vivência e equiparados às 'forças de produção'. Como se vê, estamos ainda no 'horizonte inultrapassável' do marxismo (Sartre).



A utilidade deste avanço terminológico é o de toda a abstracção. Permite-nos estender o domínio do nosso cérebro, neste caso, nas ciências sociais, onde não é permitido 'pisar ramo seco' sem levantar a questão dos próprios fundamentos das ciências humanas.


Se nos organizamos para assegurar a eficácia do pensamento comum (limitado aos seus efeitos mais práticos sobretudo na política e na economia, não corresponderá isso, de certo modo, a um regresso ao 'homo homini lupus' e ao regime do mais apto postulado pelo darwinismo?

Como é natural, podemos interpretar o 'processo histórico' como a história da sobrevivência das 'manufacturas' mais eficientes na produção dos 'juízos e decisões' de maior sucesso.

De facto, a ser assim, o 'horizonte inultrapassável' parece ser o capitalismo (filho legítimo da teoria da 'Evolução das Espécies') e não a 'Crítica da Economia Política'.


domingo, 12 de junho de 2016

(José Ames)

VIRTUDE ENGATILHADA

Joseph Goebbels e a família

"É bom que saibas que o salteador foi, por várias vezes, a casa de uma professora que, sempre que falava com ele ou que ele falava com ela, punha um revólver carregado em cima da mesa, para responder com a arma a toda e qualquer impertinência."

"O salteador" (Robert Walser)

O efeito cómico desta passagem é irresistível.

E, por outro lado, faz-nos pensar não numa virtude eriçada como a da professora de Walser, mas na susceptibilidade do ministro nazi da propaganda que também tinha o gatilho fácil.

Simplesmente, aqui não era a virtude que se sentia ameaçada, mas o poder delirante.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

(Museu de Arouca)

RELENDO A ILÍADA



O bronze e a carne, numa dança assassina.

Aquele persegue, corta e atravessa os corpos, depois de seduzir os homens com o seu brilho e poderio.

A anatomia da guerra nem antes nem depois atingiu uma tal nudez. A descrição sem as roupagens moralistas ou sentimentais.

O poema da força, lhe chamou Simone Weil.

Os homens são joguetes dos deuses, que quando não tecem o seu destino, se aborrecem no Olimpo, mortalmente. Eles os imortais.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

(José Ames)

DOIS ERROS




"Vejo dois erros possíveis, dos quais o menor é o de esquecer o entendimento, como fazem os Demócritos e todos os Lucrécios, e o pior, que é de esquecer o objecto, quer dizer o próprio conhecimento, como fazem os dialécticos."

("Alain, un sage dans la cité", de André Sernin)

Mas que dizer do objecto fora do nosso alcance que é a espécie de meditação da astronomia? Todo o esforço da ciência, nesse caso, não foi o de integrar os resultados da observação, ou melhor, da 'consideração' que é o que nos diz a etimologia, num sistema 'amigável' para o nosso cérebro?

Sem as outras ciências, ainda no limbo imemorial, não havia como tornar mais humana essa construção senão através da mitologia. Hoje libertámo-nos dos deuses, mas não de um tal começo. Faz falta a obscuridade de um Heráclito para nos compreendermos.

Alain considera o 'entendimento' (ou, modernamente, a inteligência) como necessário à apreensão do 'objecto' e, nisso, é um bom discípulo de Descartes, o filósofo que melhor compreendeu o dualismo. Mas Blondel, mais perto de nós, diz outra coisa: "Para apreender o seu objecto, o entendimento transforma-o na sua própria substância." ("Action"). Pela inteligência, compreendemo-nos, sobretudo, a nós mesmos.

Mas talvez isto não seja tão paradoxal como parece. Se o objecto foi aspirado por um abismo, como pode o sujeito permanecer a sua estrela polar?

Os 'dialécticos' não podem ser acusados de se terem deixado encantar pela sua língua.




quarta-feira, 8 de junho de 2016

(Lisboa)

OS PERIGOS DA CONVERSÃO


"A conversão de S.Paulo" de Luca Giordano

"(...) Não. Nunca o fiz (a cena de sexo) por uma questão de educação. As pessoas são educadas no estilo vitoriano e não começam a transgredir, porque é muito perigoso. Não tem nada a ver com o bem ou o mal, é perigoso, é uma traição à linha da educação, que pode dar péssimos resultados, desajustes, doenças. Pode-se ficar com um eczema terrível. Devemos ter fidelidade à linha da educação porque toda a conversão é perigosa. Justamente, o que está a acontecer nos países de Leste é perigoso, porque é uma conversão."
(Agustina Bessa-Luís em entrevista ao Expresso, 1/12/1989)

A última 'conversão' talvez tenha sido a do partido Baath, partido do poder, no Iraque de Saddam Hussein, ao niilismo de 'fachada religiosa' do Daesh.

Nada a ver com a 'queda do cavalo' de Saulo, na estrada de Damasco, onde não faltou a coreografia nem a terrível questão:'- por que me persegues?'

A conversão do Baath foi tão violenta como é a privação da droga. Essa conversão não se estuda nas madrassas, mas no desespero e nos abismos da sobrevivência.

A 'cena de sexo' que Agustina não introduziu em nenhum dos seus romances, na realidade, faz tanta falta à sua obra como faz na maior parte dos 'clássicos'. Proust que parece obcecado pelo amor e o ciúme precisa tanto dessa 'realidade da vida', como a cúpula de S. Pedro no Vaticano precisa de uma coluna no seu ápex.

Na verdade, mesmo em Henry Miller, cujo estilo me parece um dos mais 'amigáveis' em relação à sexualidade como tema literário ou mero expediente narrativo, nunca é o sexo que 'fala' (e sabemos como ele é peremptório) e que toma conta da cena.

A pergunta supõe que como facto da vida, o sexo é 'incontornável' e nem que seja como personagem clandestina ou conotação mais do que óbvia não pode deixar de estar presente (ou em negação) em qualquer produto do espírito humano. E se a obra fosse uma espécie de mónada do criador poderia concordar. Mas a questão é a que Roland Barthes já formulou na sua teoria do texto. Quem é, em última análise, o autor do texto literário?

Camões, por exemplo, não saberia como ser 'explícito' no sentido moderno. O que ele 'transmite' só pode ser interpretado pela leitura moderna. Por razões óbvias, não se lhe pode pedir que tivesse escrito como se estivesse noutro local e noutro tempo.

terça-feira, 7 de junho de 2016

(José Ames)

O GRANDE TIMONEIRO




A gigantesca estátua dourada de Mao Tsé-Tung – Observador




"Mao: - E quando eu for para o Céu ter com Deus, dir-lhe-ei que actualmente é melhor ter Taiwan ao cuidado dos Estados Unidos. 
Kissinger: - Ele ficará muito admirado de ouvir isso do Presidente. 
Mao: - Não, porque Deus abençoa-vos a vocês e não a nós. Deus não gosta de nós [abana as mãos] porque eu sou um senhor da guerra militante e também comunista. É por isso que ele não gosta de mim. [Apontando para os três norte-americanos: Kissinger, George Bush e W.Lord ] Ele gosta de si, de si e de si."
("On China", Henry Kissinger)

Tudo é teatro nesta conversação. Jogo e rodeios ('going around the bush'). Winston Lord, um dos presentes, interpreta assim a lenga-lenga do 'Grande Timoneiro': "Na maioria dos exemplos, o significado mais amplo é evidente. Noutros, porém, pode não haver nada de particularmente significativo, ou podia acontecer que um homem algo senil tivesse estado a vaguear sem objectivo por um momento..."

No final de contas, para um céptico, todo a história da personagem, todo o seu poder se podia reduzir à imagem de um velho senhor da guerra, no estado patético que antecede a 'imortalidade'.

Mao parece ingénuo, mas sente-se acima disso. Quem poderia beliscar o ícone da Revolução?

Kissinger confidencia-nos uma pergunta do presidente: "       - Têm alguma maneira de me ajudar a curar a minha actual incapacidade de falar claramente?"

É quase a "Sombra do Guerreiro" (Kurosawa): ele não precisa de 'falar claramente', nem sequer de estar lá. A sua sombra basta. Não precisa de 'presença de espírito'. Ele é espírito, o dos outros e a imagem dos outros, mesmo quando o homem se comporta como o triste objecto da adulação.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

(Braga)

OBRIGATÓRIA VISIBILIDADE





Um fenómeno intrigante, ou talvez não, é a permanência de cartazes políticos fora do prazo.

É como se alguém ingenuamente acreditasse que a ocupação do espaço urbano pela figura do candidato, muito depois das eleições, trouxesse ao respectivo partido um maior reconhecimento, através duma espécie de integração no ambiente.

É como o exemplo oposto da clandestinidade. A visibilidade obrigatória.

domingo, 5 de junho de 2016


(José Ames)

O GRANDE ANIMAL COMO MEDIUM

Stendhal (1783-1842)


A mãe de todas as revoluções, a de 1789, foi feita por homens comuns de que emergiram algumas personalidades excepcionais, toda uma galeria que, desde o Anjo da Morte Saint-Just, ao audacioso Danton e ao gélido advogado de Arras, superarem na tragédia o seu modelo romano.

Mas a massa que transformou o país e alimentou essa pavorosa guerra civil e que Bonaporte fez sangrar na "Grande Armée" e transformar em estátuas de gelo nas estepes russas, esses heróis, essas novas elites, eram individualmente o patético albatroz descrito por Stendhal ("Vie de Henry Brulard"):

"Não, a posteridade nunca saberá que energúmenos foram esses heróis dos boletins, e como eu ria recebendo o "Monitor" em Viena, Dresde, Berlim, Moscovo, que quase ninguém recebia no exército a fim de que não se pudesse troçar das mentiras. Os "Boletins" eram máquinas de guerra, trabalhos de campo e não peças históricas."

Assim, cada povo é um mistério para si próprio até ao momento do entusiasmo que o actualiza como animal colectivo, e em que os anjos e demónios tomam conta da terra.

Mc Luhan preconizava para a educação um único papel: o de corrigir o efeito dos media.

Ora, o mais primitivo e também o mais poderoso é sem dúvida o ser colectivo.

sábado, 4 de junho de 2016

(Génova)

O POVO E A CANALHA

("Le cri du peuple")

"Apesar das minhas opiniões então perfeitamente e fundamentalmente republicanas, os meus pais tinham-me perfeitamente comunicado os seus gostos aristocráticos e reservados. Este defeito ficou-me sempre e por exemplo impediu-me, não há dez dias, de colher uma boa fortuna. Eu abomino a canalha (para ter qualquer comunicação com ela), ao mesmo tempo que sob o nome de povo desejo apaixonadamente a sua felicidade e que acredito que esta só lhes pode ser conseguida interrogando-o sobre um objecto importante. Quer dizer, chamando-o a nomear os seus deputados."
"Vie de Henry Brulard" (Stendhal)

A ideia de povo surgiu da Revolução Francesa , como outra Minerva em armas da coxa de Júpiter.

Mas Stendhal, cinquenta anos depois, ainda pode, sobre a questão, sentir-se dividido entre a inteligência e o coração. Por idealismo crer na igualdade de todos os homens, mas sentindo, no mesmo movimento, uma poderosa aversão física pela "canalha".

Saúde-se, ao menos a ausência de hipocrisia e meça-se o caminho percorrido até aos dias de hoje! Porque hoje todos são povo e a palavra canalha caiu em desuso e nem os marginais são mimoseados com ela.

Os mais elitistas escondem-se por detrás da cruz, sob a designação de partido popular, por exemplo. E o dinheiro substituiu os antigos privilégios e as formas demasiado directas do desprezo.