quinta-feira, 16 de novembro de 2017

(José Ames)


A FÉNIX SEM MEMÓRIA

(Buda gigante de Bamyán)


"Tomemos como exemplo os primeiros cristãos. Eles abandonaram a cultura pagã e foram para os desertos, para o espaço mais profano da sua época. Esta partida pode ser interpretada como uma destruição simbólica da cultura. No fundo, o eremitismo cristão é uma inovação que revaloriza o profano e desvaloriza os valores estabelecidos."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

A gruta dos eremitas vai adquirir "mais valor do que os valores mais antigos. No decorrer do tempo, constroem-se nesse lugar igrejas cada vez mais sumptuosas, ornadas de frescos e de oferendas votivas. Mas são sempre as relíquias do santo homem que constituem o maior valor, assim como um pequeno número de coisas simples, quotidianas que ele utilizou - o ready-made da sua santa vida, se quisermos."

Os talibãs que destruíram os Budas gigantes de Bamiyán não acabaram com uma real ou suposta idolatria, apenas transferiram o valor dessas estátuas para a cultura kitsch do proselitismo islâmico. E se tivessem "world enough and time", no próprio lugar da destruição, simbólica ao mesmo tempo que real, veríamos erguer-se o templo ou o museu dos novos valores.

Por muito crua que nos pareça esta "transvaloração", se pensarmos no que o Cristianismo fez aos mais belos templos pagãos, alguns dos quais sobrevivem como cativos, sob a forma de uma coluna e do seu capitel, integrados na nave da catedral, concluiremos que a história não nos conta outra coisa.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

(José Ames)

O LAÇO VIVO

(Man Ray)

"Podemos descrever sumariamente do seguinte modo a percepção do corpo de outrem:

a) nunca é objectiva. Não há percepção "tal qual" do corpo de outrem. A menor vibração do afecto faz variar os elementos objectivos do corpo percebido (estatura, forma, cor, etc.). Ora, como a percepção do corpo implica sempre uma relação afectiva, estas variações nunca se detêm. (...) Não há um sujeito aqui que perceba ali um corpo, mas um laço vivo de forças constituindo o solo sobre o qual se ergue a percepção das formas;
(...)
b) não é subjectiva. Porque este "objecto" percebido é sempre outro porque inapreensível do interior; o exterior resiste, é ele que esquematiza o meu/seu interior, é ele que impõe uma forma e uma materialidade à percepção."

"A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções" (José Gil)

Está aqui delineada uma teoria da física paradoxal do corpo a corpo (Gil chama-lhe metafenomenologia). Que explica as perturbações da linguagem no campo da nudez, o terror que pode provocar o corpo que passa a ser a órbita do rosto e não o seu "suporte" e, evidentemente, o desejo, como rapto da afectividade, sem distância para as palavras.

No corpo, tudo é expressivo (Cunningham, citado por José Gil). Ao contrário da "boutade" de que tudo é político, não nos custa nada admitir que a presença do outro faça todo o nosso corpo responder com a imagem induzida pela imagem que o outro projecta, mas que é, ao mesmo tempo, máscara e recusa de identificação. Logo, aqui tudo é expressão, conforme e contra a imagem.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

"Fábrica" (José Ames)

FRANÇOISE




"(...) ela tinha conservado da sua infância duas particularidades que podia parecer deverem excluir-se, mas que quando se encontram reunidas, se fortificam: a falta de educação da gente do povo que não procura dissimular a impressão, e até o doloroso alarme nelas causado pela visão de uma mudança física que seria mais delicado parecer não notar, e a rudeza insensível da camponesa que arranca as asas das libélulas antes que tenha ocasião de torcer o pescoço dos frangos e a quem falta o pudor que lhe faria esconder o interesse que lhe despertava ver o corpo que sofre."
"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust descreve a reacção da velha criada Françoise ao ver entrar, desfigurada pelo ataque de que acabava de ser acometida, a avó do narrador. E frisa que esta aparente insensibilidade não era devida à falta de amor pela doente, de quem, pelo contrário, muito gostava.

Marcel pode, assim, observar as duas atitudes opostas, ditadas por códigos de classe diferentes na forma de lidar com o sofrimento ou a diminuição do outro. A filha, evitando olhar o rosto devastado da mãe para não lhe transmitir a sua própria aflição e a da criada, cuja indiscrição revela toda uma outra "política": a das chamadas verdades da vida, ao mesmo tempo que isso lhe permite assumir a impassibilidade que a outra atitude procura pela esquiva e pelo pudor.

A curiosidade de Françoise, por outro lado, não está isenta de uma nuance de crueldade e de filosófico desagravo. Como boa católica, podia ver a justiça dos Céus repor nesse momento uma igualdade que a sociedade não cessava de desmentir.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017


(Leiria)

A ADAPTAÇÃO DO ESQUELETO

http://www.osteopathie-france.net

"Por outro lado, existem aqui também organizações autónomas apresentando resistências à adaptação, em particular sob a forma da burocracia estatal e das suas extremas necessidades securitárias, mas também sob a forma de partidos políticos, de sindicatos ou de outros grupos de interesses que se fixaram numa imagem interna do seu próprio sucesso organizacional - e isto muitas vezes sem se quererem dar conta do facto que as condições externas se modificaram grandemente. Nenhuma destas organizações é, no entanto, capaz de realmente testar as condições ambientais do seu êxito, e cada uma se atem antes de tudo à sua própria redundância."

"Politique et Complexité" (Niklas Luhmann)

"As condições ambientais do seu êxito" significaria o quê? Simular até que ponto uma organização está dependente de certas trocas de informação com os outros sistemas e das relações com o seu meio ambiente?

Isso não é, evidentemente, possível, quer dizer que o teste é a experiência real que força à adaptação, a bem ou a mal. Por isso, toda a retórica a favor da flexibilidade e da adaptação soa a parti-pris ideológico; como se as organizações e os indivíduos pudessem preparar-se para a mudança de que não se sabe o sentido, e quando se desconhece até que ponto a flexibilidade compromete a outra face do sucesso: a duma estabilidade mínima das organizações.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

(José Ames)

ONDE ESTÁ O PROFANO?


Claes Oldenburg, Colher de Jardineiro, Serralves


"Mas na realidade, a introdução de certos objectos profanos no contexto da memória cultural torna difícil dar-lhe um outro uso cultural. Nenhum museu tem necessidade de outro urinol virado do avesso se já possui um. Se se quiser reintroduzir uma coisa profana na tradição valorizada, deve-se começar por mostrar a realidade do seu carácter profano, quer dizer, o que a diferencia de todas as coisas que antes foram valorizadas."
"Du Nouveau" (Boris Groys)

Devia ser fácil dizer: isto não é arte! Uma cena de praia, uma paragem de autocarro com a sua fila de passageiros à espera, uma lata de refrigerante.

Mas, na verdade, alguém andou a mudar as etiquetas no nosso mundo de todos os dias. A começar pela fotografia, que transforma a vida em imagem. E quando, diante de um "motivo", lamentamos não ter trazido a câmara, é porque aquilo a que Groys chama de profano já não está lá.

Virtualmente, já é tudo ready-made e instalação interactiva.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

(Alentejo)

A UTOPIA

http://www4.ncsu.edu


"A maior das infâmias é abandonar as fileiras, jogar fora as armas e incorrer por covardia em qualquer outra falta desse tipo. O guerreiro que a comete, castiga-o Platão degradando-o para o escalão dos indivíduos dedicados ao lucro e converte-o em artífice ou camponês."

"Paidéia" (Werner Jaeger)

Se Platão fala da política da cidade, não admira que a sua utopia nunca tivesse sido muito popular. E mesmo na aristocracia não ganhou adeptos, por recusar a todos a inclinação natural.

Mas para aquela sociedade que fazia precisamente da negação da natureza a sua regra essencial, ele foi a grande inspiração. Tal como os guerreiros da "República", a Igreja exigiu o celibato nas suas fileiras e há muito de platónico no cristianismo, como se sabe.

Mas se fala da alma e só dela, não há ali nada que qualquer de nós não possa verificar em si próprio. Porque o espírito é uma pura aristocracia, se é espírito. E o castigo da degradação, quando se falta a si próprio, é justiça.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

(José Ames)

CONTRASTARIA


(Um retrato do Fayoum)


"Assim, se o vanguardista do princípio do século não foi aceite pelo grande público, foi em primeiro lugar porque ele elevava ao nível dos valores culturais os elementos do meio ambiente quotidiano que este público, que o manipulava todos os dias, considerava como "não culturais", e aos quais por isso procurava ultrapassar."

Esse artista priva, deste modo, o público da "ilusão que se lhe tinha tornado mais cara, aquela que lhe fazia crer que se podia aproximar da cultura valorizada, tal como ela é procurada, e nesta via põe claramente em evidência o seu fracasso."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

Este processo deve ter-se verificado em todos os passos dados pela arte fora do sagrado. Do hieratismo das figuras egípcias aos retratos do Fayoum, ou do esquematismo dos primitivos italianos aos padrões clássicos do Renascimento e destes ao realismo trágico de um Caravaggio.

Emprestar as feições dos contemporâneos à representação de uma passagem bíblica ou fazer figurar um animal doméstico junto à perna duma mesa, na "Última Ceia", não era já abrir o caminho à tematização do quotidiano e a essa essência do profano que é a "natureza morta"?

O que é novo, mais do que a perda da aura de que fala Benjamim, talvez seja o desaparecimento do artista criador e a sua metamorfose num agente de contrastaria, especialista na demarcação do que deve e do que não deve ser valorizado.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

(Lamego)

METAMORFOSE

[Índios Terena, Cachoeirinha, RS, 1955].

"Assim, as diferentes teorias da intertextualidade mostraram que o novo é sempre constituído de antigo, de citações, de referências à tradição, de modificações e de interpretações do que já existe. Mas tirou-se muitas vezes a conclusão que na cultura em geral não há nada de novo e que não existe criador. Uma vez que a cultura se ocupa exclusivamente de variações do que já existe, não é necessário para a explicar nada que lhe seja exterior, nem a fortiori do homem como seu criador."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

O que é dizer que o radicalmente novo é uma espécie de utopia.

Mesmo duas culturas que se encontrassem, sem quaisquer contactos anteriores, como terá sido o caso da descoberta do Novo Mundo, só poderiam avaliar-se mutuamente a partir do que já conheciam. As naves e as armaduras do homem branco ou a gráfica nudez dos índios foram objecto de diferentes níveis de racionalização tendo como base os mitos já existentes.

Mas prescindir do homem como criador é admitir que as coisas encontram por si mesmas um sentido. E isso é absurdo. Quando valorizamos determinada obra, porque através dela se adaptam as fronteiras da nossa percepção dum mundo em metamorfose, é como se a arrancássemos da imanência e do espaço profano ( para dizer como Groys).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017


(José Ames)

PARAPEITOS

Joseph Turner (1775/1851)

"A marinha de Turner não revela nem "o ser" nem a essência de uma marinha: abre o olhar sobre o infinito do movimento das forças que nos "religam" a uma marinha (não a esta marinha-real-referente ou à sua ideia, mas àquilo mesmo, às próprias formas pictóricas que Turner criou na tela). O objecto de arte desencadeia e liberta nas suas formas um jogo de forças num plano infinito de movimento: liberta o infinito, e oferece-lhe um "médium" onde desdobrar-se e desenrolar-se. É isto uma obra de arte."

"A imagem-nua e as pequenas percepções" (José Gil)

É muito interessante esta ideia de uma física subliminar que a arte põe em movimento pela desorganização momentânea das nossas percepções.

Até se afirmar como um novo cânone estético, a obra de arte original desafia as nossas coordenadas espaciais e a nossa relação com o tempo, tanto quanto os nossos preconceitos.

Esse tremor que as novas formas trazem à consistência do mundo abre, de facto, a profundidade do abismo. E cada adaptação que recentra e ajusta as nossas coordenadas não é mais do que um parapeito, a que temporariamente colocamos persianas ou os frescos de uma nova criação do mundo.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Vila do Conde 

A CABEÇA DA MEDUSA


A Medusa de Caravaggio



"Quando, algumas horas mais tarde, entrei no quarto da minha avó, presas à sua nuca, às suas têmporas, às suas orelhas, as pequenas serpentes negras retorciam-se na sua cabeleira ensanguentada, como na de Medusa. Mas na sua face pálida e pacificada, inteiramente imóvel, eu vi completamente abertos, luminosos e calmos, os seus belos olhos de outrora (talvez ainda mais carregados de inteligência do que antes da sua doença, porque, como ela não podia falar, nem devia mexer-se, era aos seus olhos só que confiava o seu pensamento, pensamento que tão depressa tem em nós um lugar imenso, oferecendo-nos tesouros insuspeitados, como parece reduzido a nada, pois pode renascer como que por geração espontânea, graças a algumas gotas de sangue que se tira.)"
"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Toda a descrição da doença e agonia da avó, em "Le côté de Guermantes", que se supõe basear-se nas da mãe do autor, é um lugar cimeiro da literatura mundial.

Fiel a uma ética do olhar "inocente", o mais possível calcando aos pés todo o preconceito, como ao dragão o S. Jorge da iconografia, nem a memória clássica da cabeça de medusa parece trazer aqui um desmentido. A cabeça da avó coberta de sanguessugas (para, segundo o médico Cottard, lhe descongestionarem o cérebro atacado pela uremia) é uma imagem a que um autor como Proust não podia escapar, como, de resto, a ninguém que conhecesse o mito. E é esta espécie de necessidade que devolve a inocência à descrição.

E não sentimos nesta dependência e inquietante proximidade do pensamento em relação ao verme, que lhe parece ser o mais oposto na cadeia da existência, a prefiguração de um outro tipo de contacto no metabolismo funerário dos vermes da terra?

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Varsóvia 

ALÉM DO DARWINISMO

Charles Darwin (1809/1882)

"Este problema do arbitrário político no cume da hierarquia deixa aparecer então um estado de facto que se pode formular de uma maneira geral: na medida em que os sistemas adquirem a sua própria autonomia através da sua perdiferenciação, tornam-se igualmente causas (ou pelo menos uma parte das causas) dos seus próprios problemas. É assim que o paradoxo de um poder político que é necessariamente arbitrário, devendo ao mesmo tempo ser controlável, se torna o problema próprio do sistema político. Com a descoberta de tais situações, a Europa começa por verdadeiramente se enamorar do paradoxo ou da metáfora paradoxal (...)"
"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)

E cita, na política, o período de 1650 a 1750 (que a frase: "O Estado sou eu." resume), na religião, a figura de Pascal e o oportunismo do seu "pari", o amor-paixão e, em economia, a célebre teoria de Adam Smith da "mão invisível".

O percurso do arbitrário, produto de uma crescente autonomia dos sistemas dentro do sistema, passa pelo momento do absolutismo, no século XVII, que evoluiu, pela necessidade de "organizar o controle deste uso arbitrário do poder político pelos próprios meios do sistema político", para o "Estado constitucional".

À medida que as relações do poder se tornam mais reflexivas e se impõe a "inclusão do público na perdiferenciação do sistema político", chegamos à democracia. Já não estamos aqui perante uma evolução do tipo darwiniano, de que o materialismo histórico nos dá uma ideia. O conceito chave é o de organização. Quanto mais complexa ( e as consequências da inovação tecnológica em todos os campos, nomeadamente, na demografia, contribuem especialmente para essa complexidade) for a sociedade, mais a questão da organização sobreleva todas as outras considerações, mesmo as que se referem às chamadas estruturas.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

(José Ames)

A REVERSÃO DO INTERIOR

Paul Cézanne ("Les Grandes Baigneuses")

"Há, na obra de Cézanne, um momento de viragem que transforma um pintor ainda clássico no inovador de onde vai sair toda a arte moderna: quando, no fim dos anos 70, começam as séries das Baigneuses. A partir daí nota-se uma ruptura; precisam-se as técnicas de decomposição da cor e do espaço, a teoria dos semi-tons de cores é levada às suas últimas consequências, a profundidade do espaço é cada vez menos perspectivista, etc. Como é que Cézanne consegue esse efeito extraordinário de desarticulação da cor que vai muito mais longe do que os impressionistas?"

"A imagem-nua e as pequenas percepções" (José Gil)

Esta pintura é um trabalho contra a percepção educada. Vai ao encontro do caos original, antes da nomeação do homem e das coisas.

Percebemos como a invenção, no Renascimento, da perspectiva correspondia a todo um projecto de dominação da natureza e de privilégio espacial do sujeito.

Com Cézanne, "os corpos não estão na paisagem como num cenário, mas tornam-se dela parte integrante, assumindo uma certa imobilidade natural, vegetalizando-se ou mineralizando-se à semelhança dos elementos que a ladeiam."

O quadro não existe já em função dos nossos movimentos, nem dos nossos interesses práticos. O mundo que nele vemos já não é o mundo, mas a "interioridade do pintor é agora toda a paisagem". Uma estranha afinidade parece vislumbrar-se entre esta técnica revolucionária e a ideia de um inconsciente que põe em causa a autonomia do sujeito. No fundo, é como se Cézanne tivesse renunciado a toda a objectividade, a todo o referente.

A arte pôde, a partir dele, realizar triunfalmente o seu sonho "hermafrodita" e exilar numa espécie de limbo a crítica da arte pela arte.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Leça da Palmeira 

O ARTEFACTO MAIS INFLUENTE

"Fountain" (1917) de Marcel Duchamp



"Assim, a "Fonte" de Duchamp ou o "Quadrado Negro" de Malevitch se deixam interpretar como obras de arte inferiores, feias, falhadas, mas ao mesmo tempo originais, novas e fazendo época. Estas duas concepções são igualmente lícitas; ambas dependem de uma interpretação bem determinada, segundo a qual as coisas são interpretadas ou como novas, ou como inferiores. Nenhuma dessas interpretações é sustentada pelo quer que seja, uma vez que não existe nem um fundamento ontológico da norma, nem um fundamento ontológico da alteridade e da não-normatividade universal."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

Nada nos alerta melhor do que esta valorização da novidade e do conceito original para as regras de um jogo que deixou há muito tempo para trás tudo aquilo que caracterizava a antiga estética. Mas, pelo facto de existir um "arquivo", como diz Groys, de obras de arte, podemos sempre comparar os novos objectos com os que já fazem parte da cultura.

Não é por acaso que se fala aqui em inferioridade e fealdade. A leitura, que é tudo quanto a diferença reclama, é muito mais fácil de satisfazer do que a emoção e o que dantes se chamava o sentimento do belo.

Talvez este seja o preço a pagar pela liberdade da arte, que já só se refere a si mesma. Mas não deixa de ser verdade que a arte enquanto processo técnico sofreu uma vertiginosa aceleração, a ponto do tempo e a "maturação" poderem nela significar cada vez menos. Basta pensar na arte instantânea ou no ready-made.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

(José Ames)

A DESGRAÇA DO PODER

The Modern Bed of Procustes - Punch cartoon


Ninguém se preocuparia em disfarçar um lapso de memória num assunto sem importância, ou mesmo a dificuldade momentânea de um raciocínio lógico. Porque não submetemos os outros normalmente a juízos desses. A conversação tem outra finalidade, e quando a intenção de examinar as palavras se vê, o discurso deixa de ser natural e o próprio comportamento.

É como olhar nos olhos com atenção. Isso perturba sempre. K. Lorenz já o disse, essa atitude em certos animais corresponde à ameaça de morte. Significa medir um challenger e fazer da luta a única relação possível. Em muitas ocasiões, a sociedade sujeita o indivíduo ao leito de Procusta.

O concurso de admissão para uma empresa numa situação de escassez de emprego é uma violência que conserva, apesar de tudo, a aparência da cortesia e do método. A lei da necessidade económica faz-se aqui sentir imperiosamente, e ainda mais quando a interferência humana desvia a escolha dos critérios mais objectivos. Aqui, o candidato preterido não pensa na espécie de juízo que fazem dele, mas no azar que teve. E é o mais razoável, no fim de contas. Mas devia ser sempre assim quando alguma coisa parece testar-nos. Que importa ser classificado por uma máquina? Todos vemos que a pessoa não pode ser nunca o objecto anónimo dum juízo. O concurso não é humano. E o homem que espia o nosso tropeção, e que em vez de nos levantar sem pensamento nos condena, é a incarnação do teste mecânico.

Ao contrário do anonimato, ser julgado pelo que nos conhece importa-nos tanto como a desgraça física. Mas pelas nossas reacções, pelo medo que mostramos do juízo desfavorável, por esta vontade de agradar que é a paixão juvenil, o outro é alertado e atraído para a mesma ratoeira.

O homem que acaba de receber um título é ainda menos livre para desprezar a opinião. Porque é ela que faz o título. E quem gostaria de usar signos sem valor? Porém, é próprio do signo durar como a instituição e na ausência do homem ser ainda. É próprio do signo tornar o homem ausente. Enquanto que a opinião muda como os humores e o vento.

O neófito do poder quer ser apreciado apesar dos títulos. Mas a consagração desperta nos outros a inevitável comparação. E esse pensamento não pode deixar de ser malevolente e injusto. Tudo é argumento para a razão que quer salvar o amor-próprio. O desprezo compensa-nos da arbitrária escolha armando um jogo em que o outro perde sempre. É preciso ser um santo para virar o desprezo para as próprias honras. O mais fácil, porém, é considerá-las imerecidas e procurar a prova do delito.

Talvez por este conjunto infeliz de circunstâncias, o homem do poder se torne estúpido à força de só poder ser inteligente e mau, porque lhe está vedado errar.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

(Cuenca)

O JOGO DA BONECA


"O passado traz consigo um índex secreto (heimlichen Index) que o destina à redenção (Erlösung). (...) Existe um entendimento secreto (geheime Verabredung) entre as gerações passadas e a nossa. Na Terra, nós fomos esperados. A nós, como a cada geração precedente, foi acordada uma fraca força messiânica sobre a qual o passado faz valer uma pretensão (Anspruch). Esta pretensão, é justo não a negligenciar. Quem quer que professe o materialismo histórico sabe por que razões ( sabe alguma coisa sobre isso: Der historische Materialist weisz darum).

Walter Benjamin ("Illuminationen", citado por Jacques Derrida em "Spectres de Marx")

Se não existisse esse apelo do passado, se a herança não implicasse uma íntima vocação, poderíamos falar de uma verdadeira comunidade?

Derrida refere-se ao messiânico sem messianismo de Benjamin, a propósito do seu materialismo histórico, para relevar que, nesta medida, o "código marxista" era já de certo modo ultrapassado.

Com efeito, o conceito de dominante (em ideologia dominante, por exemplo) que se poderia reduzir ao truísmo da força ser sempre mais forte do que a fraqueza, é aqui posto em causa. O messiânico, mesmo sem um Messias, não é, pelo menos, da ordem da força.

A heterodoxia de Benjamin vai mais longe ainda quando compara "a lenda do autómato capaz de responder, numa partida de xadrez, a cada lance do seu parceiro e de se assegurar do êxito da partida." à sua réplica filosófica da "boneca chamada "materialismo histórico": "Ela pode audaciosamente desafiar quem quer que seja, se tomar ao seu serviço a Teologia, hoje, como se sabe, pequena e feia e que, ainda por cima, não ousa mostrar-se." (ibidem)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

(José Ames)

O TCHEKOV ESSENCIAL


"Peça inacabada para um piano mecânico" (1977-Nikita Mikhalkov)


Nikita Mikhalkov escolheu algumas personagens do teatro de Tchekov e fez um filme com essa temática: "Peça inacabada para um piano mecânico".

Sem o tempo, nem a economia das peças, não deixamos de reconhecer o tom genuíno, a atmosfera particular, o huis-clos techekoviano que o cineasta não abre mais do que o desejável, mesmo se grande parte do filme decorre em exteriores.

As figuras são nossas conhecidas: o médico que tem medo das estradas e é incapaz de sacrificar o mais estúpido dos prazeres, a ociosidade dos nobres que já não acreditam nos privilégios e por isso sentem a necessidade de constantemente recordarem a si próprios o seu "sangue azul" e a sua ilustração, fazendo gala de um darwinismo social, ou como o inútil do filho da casa que, embevecido pelo feminismo da consorte, se enternece com a ideia de doar os seus fraques aos mujiques.

O velho general dorme à frente de todos. A fé e o amor são traídos pelos melhores e os mais inteligentes, como Platanov. Este, numa cena que lembra o Murnau do "Nosferatu", depois de desmascarar a impotência do velho pretendente de Anna Petrovna, desliza pelo prado cacarejando um demoníaco falsete.

Julgando todo este grupo moralmente exausto, mas sentimentalmente refém, o credor de todos, filho de um operário, parece a demonstração da dialéctica hegeliana do senhor e do escravo.

Platonov é a consciência infeliz deste grupo que se entredevora, espantando o tédio com jogos de salão e foguetórios no rio. E o que mais impressiona é esse não arredar pé uns dos outros, por muito que se canibalizem. A solidariedade do grupo é-lhes mais cara do que a própria dignidade. Por isso, na cena final, todo o bando vem resgatar de braços abertos o rebelde Platonov que acaba de sofrer a última das humilhações com uma ridícula tentativa de suicídio.

Indiferente a este colectivo chilique, o rapazinho, sobrinho do darwinista, volta as costas ao sol da manhã e sonha, talvez, com um mundo sem raízes.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

OUTRAS MECÂNICAS




"É apenas com os progressos da civilização e da Razão que a subjectividade fortificada e a dominação consolidada reduzirão a festa a uma simples farsa. Os senhores introduzem a noção de gozo racional, como um tributo pago à natureza que não foi inteiramente domesticada; e tentam ao mesmo tempo neutralizar o gozo pelo seu uso e conservá-lo na forma superior da cultura; para aqueles que estão submetidos, eles tentam dosear esse gozo quando não os podem privar dele completamente. O prazer torna-se objecto de manipulação até que desapareça inteiramente nos divertimentos organizados. A evolução vai da festa às férias."

"La dialectique de la Raison" (Max Horkheimer e Theodor Adorno)

Este terreno é por de mais escorregadio. Que podemos saber da experiência subjectiva do primitivo? Por outro lado, parece ignorar-se a dependência do prazer em relação ao interdito e à disciplina. A organização não devia ser, à partida, contrária ao prazer. Mas sabe-se que Sade, guiando-se apenas pela razão, chegou ao sexo mecânico.

O conceito de dominação que perpassa nestas linhas confere ao poder uma falsa omnisciência. Não é de admirar que depois da mais-valia, o explorador se interesse pela própria vitalidade, numa economia já libidinal.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017


(José Ames)

A ÓPTICA DO AMOR

Jesus e Madalena (Catedral de Chartres)

"É por isso que as mulheres um pouco difíceis, que não se possuem de imediato, das quais nem se sabe logo se algum dia poderão ser possuídas, são as únicas interessantes. Porque conhecê-las, aproximarmo-nos delas, conquistá-las, é fazer variar de forma, de grandeza, de relevo a imagem humana, é uma lição de relativismo na apreciação de um corpo, de uma mulher, bela quando se volta a percepcionar, quando retoma a elegância da silhueta no cenário da vida. As mulheres que se conhecem primeiro através da proxeneta não interessam, porque permanecem invariáveis."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Há aqui alguma perversão "voyeuse", que reduz o amor à imaginação. O corpo visto como um caleidoscópio imerge no mundo físico da óptica que transvasa da relação amorosa. E, singularmente, o que falta aqui, o aspecto moral do amor, surge como preconceito sob a forma da invariância, a propósito das mulheres fáceis.

Mas não é a figura cristã da Madalena ( não das madalenas de Combrai) o próprio desmentido da invariância?

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Vístula 

O PARTIDO DO AMOR





"(...) se me tivessem perguntado em que é que - no decurso dessa tagarelice interminável, em que calava a Albertine a única coisa em que pensava - se baseava a minha hipótese optimista a respeito de possíveis complacências, eu teria talvez respondido que esta hipótese era devida (enquanto os traços esquecidos da voz de Albertine redesenhavam para mim o contorno da sua personalidade) à aparição de certas palavras que não faziam parte do seu vocabulário, pelo menos na acepção que ela agora lhes dava."

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Há, claro, todo um preconceito nesta apreciação da jovem amiga que o visita em Paris, e perante a qual se encontra numa situação simétrica àquela em que tinha experimentado uma resistência (então, era ela que estava deitada), mas também perante o poder de uma presença fisicamente decepcionante, a ponto de, para guardar alguma coisa da imagem que o simples nome evocava, desejar, por momentos, fechar os olhos. Com efeito, pressupunha que essa mudança de vocabulário não era espontânea no meio social de Albertine. Isso sugeria-lhe como que uma perda de inocência propícia ao "partido do amor", como diria Stendhal. "'Selecção'(com o significado de elegante), mesmo para o golfe, pareceu-me tão incompatível com a família Simonet, como o seria, acompanhada do adjectivo 'natural', com um texto anterior de vários séculos aos trabalhos de Darwin."

Depois, o efeito de sugestão numa imaginação literária como a de Marcel de uma frase como: "C'est à mon sens, ce qui pouvait arriver de mieux...J'estime que c'est la meilleure solution, la solution élégante.", no que ela promete de uma evolução misteriosa, num sentido indefinido, mas tão cativante pela novidade que, contrariando o desejo manifestado várias vezes pela sua amiga de se despedir, a essas palavras a atraiu a si e a fez sentar de novo na beira do leito.

E Marcel, que não amava ainda essa "rosa à beira-mar", de pétalas tão defeituosas, como não podia ter deixado de se aperceber pela proximidade, começava, enfim, a vislumbrar o princípio completamente independente do físico que explica a paixão amorosa.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

(José Ames)

CONIVÊNCIA


Martin Heidegger (1889/1976)



"É isso que confere a sua força sugestiva ao desejo de recomeçar com ela (a metafísica) desde o princípio, de questionar radicalmente, de esgaravatar a aparência com a qual a cultura fracassada recobre a sua culpabilidade e a verdade. Mas desde que esta pretensa demolição consentiu em pôr-se à procura de uma camada profunda, intacta, é que ela verdadeiramente se ligou à cultura que ela se vangloria de demolir. Enquanto os fascistas tonitruavam contra o bolchevismo cultural destruidor, Heidegger tornava a destruição respeitável como dispositivo para penetrar o ser. A crítica da cultura e a barbárie não vão sem uma certa conivência."

"Dialectique négative" (Theodor Adorno)

Talvez essa afinidade secreta entre o que parece mais elevado (a crítica em nome do Ser ou da Verdade) e o mais vil, a barbárie que, às vezes, é só o que parece radicalmente diferente, como o eram todos os não-Gregos, explique a vertigem de Heidegger, a sua estranha fascinação por um poder que justamente pretendia criar o novo, a partir de supostas raízes.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017


Varsóvia 

A IMPORTÂNCIA DO CABELO



"O pobre homem, pesado e mole, não conseguia, nesta noite suprema da monarquia, estar de pé até ao fim; dormira uma hora, e acabara de levantar-se. Via-se pelo penteado, liso e desfrisado de um lado. Foi então que se pôde avaliar o perigo dessas modas pérfidas na Revolução. Quem pode estar certo, em tais crises, de ter à mão o valete cabeleireiro?...Assim estava ele, e assim os ineptos o deixaram descer, mostrando-o e passeando-o. Para cúmulo do mau augúrio, estava de roxo, cor que é o luto dos reis; era, aqui, o luto da realeza."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Nas horas que precedem o 10 de Agosto de 1792 que iniciou o compasso trágico da Revolução e ditou a sorte do rei, este não estava à altura dos acontecimentos.

Mais uma vez, a importância do detalhe, do minúsculo na grande história. É ainda a tese de Pascal e do "nariz de Cleópatra". Este desfrisado da cabeleira de Luís XVI, a balofa figura que ganhava coragem só na religião. Michelet diz, noutro passo: "A conversa tomava uma feição desagradável; toda a gente estava emocionada, excepto talvez o rei, que acabava de deixar o seu confessor, tendo posto a consciência em ordem e não se preocupando muito com o que poderia acontecer."

A fatalidade está na cabeça dos homens apenas. A importância de cada gesto, que nos parece de antemão poder ser delimitada, atribuindo-se a este a força e àquele a pusilanimidade, só seria definitiva se os homens nunca se excedessem e se não fossem, de bom ou de mau grado, arrastados pela onda que cavalgam ou que os submerge.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

(José Ames)

A ACTUALIDADE DOS ESPECTROS

Karl Marx (1818/1883)


"Os homens fazem a sua própria história (ihre eigene Geschichte), mas não a fazem espontaneamente (aus freien Stücken), nem nas condições escolhidas por eles só, mas antes nas condições que encontram, aquelas que lhes foram dadas e transmitidas (überlieferten Umständen). A tradição de todas as gerações mortas (aller toten Geschlechter) pesa (lastet) com uma carga muito pesada sobre o cérebro dos vivos [Marx diz:"lastet wie ein Alp", quer dizer "pesa à maneira de um fantasma", um dos seres espectrais que dão pesadelos (...)]. E mesmo quando parecem ocupados a se transformarem, a eles e às coisas, a criar alguma coisa de completamente novo (noch nicht Dagewesenes zu schaffen), é precisamente nessas épocas de crise revolucionária que eles evocam [conjuram, precisamente, beschwören] temerosamente os espíritos do passado ( beschwören sie ängstlich die Geister der Vergangenheit zu ihrem Dienste herauf ), que eles lhes pedem emprestados (entlehnen) os seus nomes, as suas palavras de ordem (Schlachtparole), os seus trajes, para aparecer na nova cena da história sob esse disfarce respeitável e com a linguagem emprestada (mit dieser erborgten Sprache),"

"Le dix-huit Brumaire de Louis Bonaparte" (Karl Marx, comentado por Jacques Derrida em "Spectres de Marx")

Este dístico, apesar da ruína que atingiu o resto do edifício, tem ainda hoje um ar lavado e actual. E, reflectindo a verdade de uma continuidade entre o passado e o presente (não só sob o aspecto material, mas da própria subjectividade) parece infirmar o próprio conceito de Revolução, o qual, a partir da Revolução Francesa, ganhou o sentido de uma tabula rasa sobre o passado. Mas é o próprio Marx, noutro passo, que reivindica para as revoluções do futuro (depois do século XIX) a libertação dos "espíritos do passado" e do recurso a uma linguagem emprestada, consequentemente, de resto, com a nova fé no materialismo histórico.

Depois havia aquela curiosa necessidade de uma máscara respeitável, como se vigorasse a velha tradição platónica de, em política, não se poder prescindir dos mitos, nem transpor o fosso entre a elite dos que sabem para onde vão e a massa anónima que deve ser "levada", como um animal susceptível de movimentos bruscos e perigosos.

Claro que Marx não se refere naquele trecho a uma hipocrisia implícita dos agentes, mas à sua falta de liberdade. Se tanto a vanguarda quanto a massa pudessem assumir plenamente o que são, com nomes que nunca se viram e um discurso nunca antes ouvido, é provável que ninguém se entendesse.

E talvez que a necessidade de todos os actores falarem a mesma linguagem seja o princípio do descaminho.