sexta-feira, 19 de maio de 2017

(José Ames)

PASSAR AO LADO


Henry James (1843/1916)


(...) Assim o vira ela enquanto ele não via; e assim ela servira agora para lhe trazer a revelação da verdade. E a verdade nítida e monstruosa era que, enquanto esperava, o seu destino era precisamente esperar. A companheira da vigília percebera-o a dada altura e oferecera-lhe a oportunidade de contrariar o destino. Mas nunca é possível contrariar o destino. No dia em que ela lhe dissera que o destino chegara, vira-o ficar estupidamente a olhar sem ver a saída que ela lhe oferecia."

"A fera na selva" (Henry James)

A dor no rosto do outro homem, uma dor verdadeira, a ferida de uma paixão, foi o clique que fez sair John Marcher do seu sono.

Até ali, ele pensava que visitar aquela campa, uma vez por mês, lhe daria a consolação de, pelo menos, ter vivido. Mas que espécie de vida tinha sido a sua que lhe permitia continuar como se ainda estivesse à espera e como se, realmente, nada se tivesse passado?

Este extraordinário conto mostra que o juízo de uma vida pode ser o resultado de uma história "mal contada". Podemos passar ao lado da verdade, como um fantasma, se a revelação não acontecer. Mas a revelação, que volta a rodar o filme para um olhar outro e tudo menos fiel dar-nos-á a verdade? Ou é a ideia do Amor que, de facto, nos julga, para grande felicidade dos romancistas?

Num único momento, fatal momento, a intensidade da dor no rosto do desconhecido, pôs a nu a insignificância da sua, o artifício que construíra à volta da sua cicatriz.

A vida toda baqueou sob a sentença. Mas pode o Amor julgar?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

(El Escorial)

A FRONTEIRA DO CINEMA


"Close-up" (1990-Abbas Kiarostami)



Em "Close-up", Hossain Sabzian, um jovem desempregado, procura no cinema a fuga da realidade, não alienando-se na sala escura durante um par de horas, mas levando até às últimas consequências a "inspiração" de se fazer passar pelo realizador Makhmalbaf, primeiro, num autocarro, com uma mulher que conhece os seus filmes e a seguir junto da família dela que não precisa de ser convencida a protagonizar um novo filme.

Depois de alguns dias de falsos ensaios, é finalmente desmascarado e conduzido ao tribunal. Aí arrepende-se e obtém o perdão das suas vítimas.No final, o impostor cinéfilo e o próprio Makhmalbaf visitam a casa dos mistificados sob o signo da reconciliação.

Este caso estranho é inspirado na vida real, sendo quase todos os actores pessoas que viveram os acontecimentos. A alucinação do cinema normalmente não resiste à luz do dia. Mas havia no jovem Sabzian uma fronteira por definir. Os seus problemas familiares e a incapacidade de encontrar trabalho durante o sua "ausência" tornaram-se um simples guião e a sua encarnação de Makhmalbaf valeu-lhe o respeito daquela família e a experiência, para ele inédita, de ser obedecido.

O caso confunde-se, evidentemente, com a loucura. É talvez o cinema, arte de fazer de conta que visivelmente fascinava mistificados e mistificador, levado a sério de mais.

domingo, 14 de maio de 2017

(José Ames)

A INSIGNIFICÂNCIA

The poster for Sunshine, Danny Boyle's new science-fiction thriller



"

Agora sabemos que se a Palavra "era no princípio", também pode ser no fim: que existe um vocabulário e uma gramática dos campos da morte, que as detonações termo-nucleares podem ser designadas como "Operation Sunshine". Seria como se a quintessência, o atributo que identifica o homem - o Logos, o órgão da linguagem se tivesse quebrado dentro das nossas bocas."

"Paixão Intacta" (George Steiner)


O movimento da crítica (pós-estuturalista, desconstrucionista, etc.) converteu todos os textos, sagrados ou não, em pre-textos. Nessa tarefa demolidora, todos os que se interessam pela literatura participaram com um prazer perverso, porque era como se não houvesse mais nada para além dela.

Steiner acrescenta uma outra pressão, de ordem técnica, sobre a palavra escrita. "A cultura de massas, a economia do espaço e do tempo pessoal, o desgaste da privacidade, a supressão sistemática do silêncio nas culturas consumidoras de tecnologia, a expulsão da memória (do hábito de decorar) dos métodos de aprendizagem escolar, originam o eclipse dos actos de leitura e do próprio livro."

De certo modo, a falta de um fundamento, de um sentido verdadeiro que torna irrefutáveis todas as apreciações sobre um texto e desqualifica até a divisão entre o bom e o mau gosto, tem um efeito paradoxalmente semelhante ao do regime canónico e teológico que vigorou na Idade Média.

A segurança dos fundamentos levou a que toda a produção fosse uma glosa interminável, auto-replicante, e sempre conotada a uma verdade original. O actual "colapso filosófico-psicológico" permite uma igual pletora da produção, que já não precisa de se justificar, que nos convida "a ganhar confiança sólida no peso crescente - isto é, estatístico - da concordância histórica e da persuasão prática. Os latidos e as ironias do desconstrucionismo ressoam na noite, mas a caravana do "bom senso" passa." (ibidem)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Bustelo 

CADÁVERES EXCELENTÍSSIMOS

"Cadaveri eccelenti" (1975-Francesco Rosi)

Voltaire, nas palavras do Presidente Riches (Max Von Sydow), começou o ataque à magistratura. Foi o primeiro a lançar a dúvida sobre a sua "infalibilidade".

O juiz explica que não existe tal coisa como o erro judiciário. Porque as condenações e o valor do exemplo são imprescindíveis à ordem. É o princípio da dizimação. A inocência ou a culpa individuais nunca são a questão.

Nesta parábola sobre a Itália dos anos setenta, a partir dum texto de Leonardo Sciascia, vemos uma dessas vítimas do sistema judiciário transformar-se num assassino em série (a série é constituída por todos os magistrados que tomaram parte no seu processo).

Apesar da "chave" ser de fácil leitura para o inspector Rogas (Lino Ventura), o sistema dos partidos impõe a sua agenda e a sua interpretação, no sentido de uma viragem à direita e da repressão dos grupúsculos de esquerda.

Este cenário, que era credível nos tempos das Brigadas Vermelhas, parece hoje uma coisa de loucos.

Mas já vimos como a história nos pode surpreender com uma mudança súbita de "registo", pondo a "loucura" na ordem do dia.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

(José Ames)

OS MUITOS



"O desprezo pela política, a convicção de que a actividade política é um mal necessário, devido em parte às necessidades da vida que forçam os homens a viver como trabalhadores ou a governar sobre os escravos que os alimentam, e em parte aos males decorrentes do próprio viver-juntos, quer dizer, ao facto de os muitos, a que os gregos chamavam hoi polloi, ameaçarem a segurança e a própria existência da pessoa individual, corre como um fio vermelho ao longo dos séculos que separam Platão da época moderna."

"A Promessa da Política" (Annah Arendt)

Mas a política, como domínio da palavra e da acção, entre iguais, libertos da necessidade económica, graças a um estatuto social privilegiado, tendia a ser cada vez menos prática e ligada à realidade, a confundir-se com a liberdade de "se preocupar com o eterno (o aei on)."

Por isso, a conclusão pessimista de Platão deu-lhe a torção necessária a que a política se tornasse, de facto, uma libertação de quaisquer obrigações políticas e de toda a actividade pública. No que foi a fonte inspiradora da atitude cristã (Tertuliano: "Nada nos é mais estranho do que a coisa pública").

Essa retirada da política vingou, como diz Arendt, na instituição da universidade, com o seu espaço protegido da política.

Não obstante, a ideia de que a política é independente da necessidade e de quaisquer fins sobrevive ainda por detrás da sociedade sem classes e do Estado evanescente.

domingo, 7 de maio de 2017

(Porto)

O EFÉMERO DO DISCO DURO



"Le philosophe lisant" (1734-Chardin)




"Não é um verdadeiro leitor, un philosophe lisant (Chardin), aquele que nunca sentiu o fascínio acusador das grandes prateleiras de livros não lidos, das bibliotecas à noite de que Borges é o fabulista. Não é um leitor aquele que nunca ouviu, no seu ouvido mais íntimo, o apelo das centenas de milhares, dos milhões de volumes alinhados nas estantes da British Library ou de Widener, pedindo que os leiam. Pois existe em cada livro um desafio contra o esquecimento, uma aposta contra o silêncio que só pode ser ganha quando o livro for de novo aberto (mas, em contraste com o homem, o livro pode esperar séculos pela sorte da ressurreição)."

"Paixão intacta" (George Steiner)

Que o espólio de todas as bibliotecas do mundo possa ser transposto para um disco duro aproxima esses milhões de obras, cujas lombadas demoraríamos talvez anos a percorrer, do nosso inconsciente.

A pulsão de ler seria então como o desejo de nos conhecermos em profundidade.

E quando todas essas páginas virtuais ressuscitassem à luz da consciência, seria a assembleia do Vale de Josafat.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

(José Ames)

A LÓGICA DO ABSURDO





Muito do fascínio dos filmes de Carpenter vem-lhes duma concepção metafísica do Mal.

Não há, por exemplo, nenhum motivo plausível para o assalto à esquadra, em "Assault on precint 13" (1976), se bem que seja deixada, negligentemente, uma ponta para interpretar o ataque suicida como uma vingança pela morte de um dos assaltantes.

Mas não, a partir do juramento de sangue dos cabecilhas, não voltamos a reconhecer um rosto nas sombras que invadem a noite em volta do recinto.

Compreendemos pela revelação de Wilson, um dos prisioneiros solto para o tudo por tudo, que se trata dum gang apostado em lutar até à morte.

E a pergunta persiste: porquê morrer para destruir uma esquadra abandonada?

sábado, 29 de abril de 2017

Milão

A APRESENTADORA DA MAÇÃ

"Carta a três mulheres" (1949-Joseph L.Mankiewicz)


O cineasta, mestre da intriga, autor do fabuloso "All about Eve" (e respectivo argumento), Joseph Mankiewicz, deu-nos, em 1949, outra jóia: "Carta a três mulheres".

Addie Ross, a amiga comum, é a voz-off que nos vai desfiando a meada. Sem nunca aparecer em cena, ela é a rival de todas aquelas mulheres, cujo casamento o fatídico sétimo ano põe em perigo. Mas, em vez de justificar o ciúme delas, Addie revela-se uma verdadeira fada do amor, mexendo os cordelinhos a fim de reforçar os laços e dar um novo fôlego às paixões.

Como em "Eve", cada flashback conta a história de Deborah, Rita e Lora Mae, sempre visando estabelecer o fascínio retrospectivo de Addie na mente dos respectivos maridos.

Durante a crise desencadeada pela carta de Addie, as suas amigas descobrem que não estão a fazer o que podem para salvar o seu matrimónio. E os homens, absolvidos da leviandade, saem como o investimento acima de todos os outros. Num papel deliciosamente passivo, como se toda a culpa só pudesse vir, realmente, de Eva.

segunda-feira, 24 de abril de 2017


(José Ames)

PENSAR SOBRE ANDAS




"Porque um pensamento sem fim prático é sem dúvida uma ocupação clandestina não muito conveniente. Esta espécie de pensamentos, sobretudo, que caminhando sobre andas, tem apenas um minúsculo ponto de contacto com a experiência, é suspeita de nascimento irregular. Sem dúvida falava-se assim outrora dos "voos do pensamento"; no tempo de Schiller, um homem cujo peito albergasse tão sublimes problemas teria sido muito considerado. Hoje, em contrapartida, ter-se-ia a impressão que este homem era um pouco anormal, a menos que fosse o caso do pensamento ser a sua profissão e a sua fonte de rendimento."
"L'Homme sans Qualités" (Robert Musil)

Por mais que os avanços da ciência dependam dos "pensamentos sobre andas", desligados, quase sempre, de qualquer utilidade prática, nunca abalaremos a desconfiança do homem mediano, "traumatizado" embora pelo sucesso tecnológico, filho natural da teoria e da abstracção.

E a razão é que o espírito prático funciona perfeitamente a um determinado nível dos problemas com que nos deparamos na vida quotidiana.

Mas essa inteligência ficará sempre aquém de qualquer descoberta.

domingo, 23 de abril de 2017

(Covilhã)

A LEITURA NÃO É DE COMPANHIA

structure of protein




"Mas no ocidente democrático-tecnológico, tanto quanto se pode dizer, os dados estão lançados. O in-fólio, a biblioteca particular, a familiaridade com os idiomas clássicos, as artes da memória pertencerão, cada vez mais, ao reduzido número dos especializados. O preço do silêncio e da solidão aumentará. (Parte da ubiquidade e do prestígio da música provém precisamente do facto de se poder escutá-la enquanto se está na companhia dos outros. A leitura séria exclui até os que nos são mais íntimos).
"Paixão intacta" (George Steiner)

É óbvio que o ideal do Homem da Renascença teve o seu tempo. Não é mais possível ao indivíduo dispensar a memória objectiva (a das enciclopédias e dos bancos de dados), nem conhecer o essencial das artes e das ciências.

Mas entre o especialista, confinado ao núcleo da sua proteína, e esse ideal, há espaço para um espírito "humano" que saiba relativizar a memória que cresce fora de si e o tipo de conhecimento que lhe está associado.

Como sempre, o problemas dos "muitos" é de outra natureza. E talvez esteja na sequência devida que a música, em tantos casos, tenha substituído a religião e o fanatismo. Podemos desfrutá-la, de facto, todos juntos.

Mas a leitura será cada vez mais para os que, como diz Pessoa, não são de companhia.

sábado, 22 de abril de 2017

(José Ames)

O ROMANCE DO ANTI-ROMÂNTICO


"O Bom Alemão" (2006-Steven Soderbergh)




"The Good German" termina numa atmosfera moral que é o oposto do final de "Casablanca", no que pretende ser, visivelmente, uma citação perversa.

Lena é conduzida por Geismer, o amigo americano, ao avião que a vai salvar de Berlim, mas não do seu passado. É nesse instante que lhe faz a revelação de ter a denúncia de vários judeus na consciência.

Não há nada de nobre na renúncia de Geismer, mas só a náusea e Lena não tem nada já de que abdicar. A célebre despedida de Bogart e Ingrid Bergman encontra aqui uma variação lúgubre e desesperada, de que o resto do filme não está à altura.

Salva-se a música herrmaniana (Thomas Newman) e a fotografia, digitalizada para preto e branco, de Peter Andrews.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Vila do Conde

O CANTO DAS SEREIAS


Le Polycratus a été traduit pour le roi Charles V
par le Franciscain Denis Foulechat.





"A música embaça o rito divino, porque perante o olhar de Deus, nos recintos sagrados do próprio santuário, os cantores, com o impudor das suas vozes lascivas e com uma afectação singular, tentam feminizar os seus apoiantes fascinados, interpretando as notas e terminando as frases com a sua voz de meninas. Se pudésseis só ouvir as exaustas emoções dos seus cantos e contracantos, sempre impróprias e pouco judiciosas, no princípio, no fim e no meio, creríeis que aquele era um conjunto de sereias, e não de homens."

"Policratus, 1159" (Jean de Salisbury, citado por William Dalglish e Anna Maria Busse-Berger em "les écritures du temps")

Assim, um sábio do século XII exprimia o sentimento que em si despertava a música ouvida na catedral de Notre-Dame. Parece que estamos a ver a ambiguidade sexual dos frades de Pasolini, na sua célebre trilogia.

A mulher, ausente desses grandes cenóbios, pela proibição do cânone, "persegue" com o seu corpo e a sua voz o espírito da comunidade. Através da estética e dos ideais da beleza, ela insinua-se nos corações.

Vemos aqui como a música servia à feminização, abortando a sublimação imposta pela doutrina.

É caso para dizer que o hábito faz o monge.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

(José Ames)

VISÃO DE ESPARGOS

"La botte d'asperges" (Eduard Manet)


"O que nisso se aprecia, é que está finamente observado, que é divertido, parisiense, e depois passa-se. Não é preciso ser um erudito para ver isso. Sei bem que são simples esboços, mas não acho que esteja suficientemente trabalhado. Swann tinha o desplante de nos querer fazer comprar "um molho de espargos". Que até ficou alguns dias. Só havia isso no quadro, um molho de espargos, como esses que o senhor está em vias de engolir. Mas eu, recusei-me a engolir os espargos do Sr. Elstir. Ele pedia por isso trezentos francos. Trezentos francos, por um molho de espargos!"

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

A suficiência com que o duque fala da pintura impressionista baseia-se numa pretensa evidência: a de que não está "trabalhada", que ficou no estado de esboço. E nisso, apesar do lado Saint-Germain dos seus pergaminhos, exprime a sensibilidade e os estereótipos de qualquer burguês do seu tempo, que apreciava ainda a arte pelo seu "valor acrescentado" e, sobretudo, pela dificuldade da sua execução.

Mas esse modelo tinha sido completamente posto em questão pela técnica fotográfica. Nenhuma imitação da natureza, por mais minuciosa e elaborada, podia competir com o "pincel da luz".

A nova liberdade da pintura impôs-se, assim, à custa de todo o critério objectivo. Só o mercado e o gosto mais "irresponsável" pontificam agora.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Madrid 

O OVO DA SERPENTE



William Blake: "The Book of Job"




"Não creio que seja possível que a cultura europeia recupere as suas energias interiores, o respeito por si própria, enquanto a Cristandade não for responsabilizada pelo seu papel seminal na preparação da Shoah (o Holocausto); enquanto não se reconhecer como responsável pela sua hipocrisia e impotência quando a história europeia se encontrou envolta em trevas."
"Paixão Intacta" (George Steiner)

Não me parece que se possa dizer que a cultura europeia contivesse dentro de si "o ovo da serpente". Não temos qualquer ideia sobre o que pode ter contribuído para a sua fecundação e para o seu desenvolvimento. A ideia de causalidade não é uma ideia da história, mas da física.

Mas tem sentido perguntar por que a Shoah não obrigou à revisão da ideia de Deus e a um novo começo, a partir do crime dos crimes. Está por explicar tudo aquilo que continua como se nada tivesse acontecido.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

(Lisboa)

LIÇÕES E PRECONCEITOS

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"É pelo menos possível construir uma argumentação racional a favor da nacionalização de todo o capital industrial (se bem que eu creia que pode ser demonstrado - e a experiência confirma-o - que as consequências duma tal política seriam desastrosas). Mas nem sequer é possível construir uma argumentação racional para sustentar que os operários empregados num momento dado numa empresa ou numa indústria deveriam deter colectivamente os equipamentos desta indústria. Toda a tentativa para imaginar as consequências duma tal medida mostra rapidamente que ela é absolutamente incompatível com um qualquer uso racional dos recursos da sociedade, e que conduziria a uma completa desorganização do sistema económico."

"Essais" (Friedrich Hayek)

Quem conheceu a voga que no nosso país tiveram ideias como a da autogestão e a do controle operário sabe que são ideias não só plausíveis, mas que facilmente ganham os espíritos, se o contexto político for favorável, como era o caso nos anos setenta.

A experiência demonstrou, porém, que essa facilidade e esse aparente bom-senso escondiam problemas de organização e de viabilidade económica insuspeitados, pelo menos para os mais ingénuos.

O resultado é que em nenhum lado vingaram essas ideias. E aqueles que gostariam de responder com o argumento de que seria preciso mudar todo o sistema para essas experiências terem sucesso, têm na ex-URSS a prova de que nem aí elas eram economicamente racionais.

Esse passivo histórico, contudo, não bastou para acabar com ilusões como essas, e a prática dos sindicatos reflecte isso mesmo, ainda hoje.

Continua-se a pensar que a sinceridade, a honestidade, a boa-vontade e, sendo a nossa cultura o que é, o mais apreciado ainda "espírito de pobreza", designam, naturalmente, alguns para certas posições, donde se espera que ajam segundo a justiça e aquelas boas disposições.

Esquece-se, uma e outra vez, que a organização e a função modificam as pessoas e que um operário à frente duma administração já não é um operário, nem pensa como tal, mas pensa como um gestor ou um burocrata. Por esse motivo aquela espécie de moralismo automático, em função duma categoria social, só nos pode extraviar.

Apetecia dizer que quando os sindicatos, em vez dessa moral fácil, tiverem em conta e souberem explicar as consequências das suas propostas, algo de novo se veria. O problema é que a organização sindical não está em posição de ver tão longe, em primeiro lugar, porque não lhe cabe gerir.
Ora, parece que essa demonstração seria imprescindível numa verdadeira negociação.

quinta-feira, 13 de abril de 2017


(José Ames)

O COMPROMISSO

"The Arrangement" (1969-Elia Kazan)



"O Compromisso", de Elia Kazan, envelheceu um tanto, mais pelas suas incursões fora do classicismo, como algumas ideias de teatro ou o recurso à banda desenhada.

Eddie (Kirk Douglas), o homem que vende o cigarro limpo, com um nome eólico, acorda um dia para a mentira do seu sucesso e o falhanço do seu casamento e enfia o carro desportivo debaixo de um camião.

Depois é a psicanálise duma história familiar que explica por que é que vivera sempre em função dos preconceitos dos outros e, sobretudo, dos de um pai prepotente. Gwen (Faye Dunaway) é a amante que expõe todo esse fracasso, em nome do que ele poderia ser: escritor? vagabundo? Não sabemos.

Mas Deborah Kerr tem o papel mais antipático da sua carreira. Ela é Florence, a esposa mecânica dos anos de falsa glória, cúmplice da mentira universal. E em todas as tentativas para o reconquistar, depois de saber tudo o que havia a saber, só consegue extrair do seu próprio deserto a planta sufocante de um instinto maternal e de um falso apagamento que não resistem a nenhum sacrifício de vida artificial.

Como o patrão e os colegas avidamente aguardando o seu regresso à "razão" que os justifique a todos e ao negócio lucrativo, que a cavalo de um nome grego abre os odres da morte, Florence é uma extensão hospitalar e psiquiátrica deste complot de interesses, na sua função de vencer a crise e voltar a pôr de pé a personagem.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

(José Ames)

A MEDICINA SEM PALAVRAS

(Galeno e Hipócrates)




"A diferença existente entre o médico dos escravos e o médico, formado cientificamente, que curava os homens livres revela-se, segundo a divertida exposição que Platão faz nas "Leis", na maneira como cada um dos médicos procede para com os seus doentes. Os médicos dos escravos correm de um paciente para outro e dão as suas instruções sem falar (aneu logon), isto é, sem se demorarem a fundamentar os seus actos, com base na simples rotina e na experiência. Esse médico é um tirano brutal. "Se um deles ouvisse falar um médico livre a pacientes livres, em termos muito aproximados das conferências científicas (...), explicando como concebe o regime da doença e elevando-se à natureza de todos os corpos, morreria certamente de riso e diria o que a maioria das pessoas chamadas médicos replicam prontamente em tais casos: o que fazes, néscio, não é curar o teu paciente, mas ensiná-lo, como se a tua missão não fosse devolver-lhe a saúde, mas fazer dele médico."

"Paideia" (Werner Jaeger)

Da pressão do número de doentes pode resultar algo de muito parecido com a tirania sem palavras de que fala Platão.

O "médico dos escravos" quase sempre não tem tempo senão para ouvir e passar a receita. E quando, por milagre, se encontra um clínico mais livre para explicações que procuram menos transmitir um conhecimento do que tranquilizar o doente, a fila de espera sofre na fatalidade das suas correntes.

Hoje ninguém riria ao ver um médico tentar fundamentar os seus actos, porque devolver a saúde ao doente implica que este compreenda como chegou ao estado em que se encontra e que, pela razão, possa voltar ao caminho da saúde.

Os médicos que se vêem obrigados "a correr de um paciente para outro", de facto, abdicam da principal força de regeneração, que é a vontade esclarecida do doente e o seu tranquilo realismo.

A simples prescrição do medicamento é, na verdade, uma violência (ou a continuação do sagrado por outros meios), com todos os seus efeitos colaterais, que nos reduz à simples credulidade. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

(Lisboa)

A SEPARAÇÃO DAS ÁGUAS


René Descartes (1596/1650)



"Mas é seguro que a tematização convenha ao Infinito, a visão seja a suprema excelência do espírito e que, através do egoísmo e da egologia do ser, ele aceda ao modo original do pensamento?"
"Entre nous" (Emmanuel Lévinas)

Na ideia do Infinito, "o pensamento pensa mais do que pode conter" (Descartes). Como podemos pensá-lo então?

Sabemos que a série dos números não tem fim, não porque tenhamos tentado chegar a um limite, mas porque a razão assim o determina. Quer dizer, a experiência nunca poderá desmentir essa ideia, porque é através da razão que julgamos a experiência.

É claro que quando se diz que "Deus criou o homem à sua imagem e semelhança", o Infinito de Deus ganha uma espécie de visibilidade. A visão, no Ocidente, está no centro do espírito.

À última pergunta, Descartes respondeu como Alexandre cortando o nó górdio, isto é, pela decisão.

Não podemos conceder ao inconsciente freudiano, ou aos estados intermédios entre o sono e a vigília, a dignidade do pensamento. Res extensa tudo, porque sim.

segunda-feira, 10 de abril de 2017


(José Ames)

O CONFESSOR E A CHOUANNE


Paula Rego (Série do "Crime do Padre Amaro")


"Se o casamento é a união das almas, o verdadeiro marido era o confessor. Este casamento espiritual era muito forte, sobretudo quando era puro. O padre era muitas vezes amado com paixão, com um abandono, um entusiasmo, um ciúme pouco dissimulados. Estes sentimentos eclodiram com extrema força, em Junho de 91, quando, sendo o rei traduzido de Varennes, se pensou na existência duma grande conspiração no Oeste, e vários directórios dos departamentos resolveram encarcerar os padres."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Sobretudo quando era puro. Isto é, nada que se parecesse com o idílio de Amaro e da sua Ameliazinha. Essa paixão nunca poderia abandonar a penumbra da sacristia e a alcova clandestina e declarar-se abertamente como piedade e revolta do coração.

Não há nada que se possa comparar, hoje, a essa influência do confessor, em que a sublimação sexual redobrava as energias da convicção.

Ciúmes de facto, amor de facto, mas na situação de extra-territorialidade e de dupla linguagem.

Só podemos encontrar um paralelo naquilo que agora se chama de mundo virtual, em que a vida se vive sem todas as consequências.

domingo, 9 de abril de 2017

(Baleal)

A OUTRA VIRILIDADE

"Maurice" (1987-James Ivory)

"A saga homérica de guerra e de intimidades masculinas com a sua grande ênfase nos desportos de competição, parece estar próxima, como nenhum outro texto o está, da escola de rapazes, dos internatos masculinos, do regimento e do clube (configurações essenciais para a sociedade inglesa, não para o Continente)."
"(...) O tópico é simultaneamente insistente e ilusório. Como tantas vezes sucede na fenomenologia dos sentimentos ingleses, o homoerotismo é, digamos, orgânico e organizante".
"Paixão intacta" (George Steiner)

Num filme como "Maurice" (James Ivory), vemos como essa função organizante do homerotismo se perverteu em má-consciência e desejo de "dessublimação".

O estado de graça dos heróis homéricos de que os vitorianos sofreram a nostalgia não é possível com a educação mista e a doutrinação sexual.

Mas quem não percebe que essa função "orgânica e organizante" é tanto mais eficaz quanto menos consciente, como no mundo desportivo ou no mundo militar?

sábado, 8 de abril de 2017

(José Ames)

CONFIANÇA E CONTROLE

(http://code.gnu-designs.com/Lots-o-Gadgets.jpg)



"É sensato adiar as decisões até que o curso do tempo tenha produzido acontecimentos e reduzido mais a complexidade. O dinheiro, o poder e a verdade constituem (...) mecanismos sociais que permitem adiar decisões ao mesmo tempo que as garantem e, portanto, viver com um futuro duma complexidade indeterminada e mais elevada."

"La confiance" (Niklas Luhmann)

Ao mesmo tempo que propõe que se distinga a confiança do domínio dos acontecimentos, Luhmann alerta para o facto do progresso da civilização tecno-científica não nos permitir um domínio das coisas que possa substituir a confiança.

"Será mais de contar com a necessidade de se apelar cada vez mais à confiança, a fim de se poder suportar a complexidade do futuro engendrado pela técnica."

Podemos verificar no nosso dia a dia o fenómeno de substituição do controle pela confiança. Os nossos aparelhos, cada vez mais sofisticados, seriam uma fonte de grande insegurança se não pudéssemos confiar em toda a panóplia de serviços que asseguram a sua manutenção e reparação, e se o mercado não nos oferecesse a possibilidade de os substituir pelo mesmo ou outro modelo, mais longe ainda do nosso controle.

Também não conhecemos e muito menos dominamos o funcionamento do nosso corpo ao nível celular, sem deixarmos de reivindicar o autocontrole.

É a confiança nos automatismos biológicos que nos permite a liberdade de movimentos.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

(Alcácer do Sal)

A RAZÃO DO ACORDO



(http://dlibrary.acu.edu.au/research/theology)

Causa estranheza esta ideia da verdade como mecanismo social que nos permite adiar decisões (Niklas Luhmann).

Vejo isso assim: uma teoria é sempre uma tentativa de prever o futuro, tenta dizer-nos como será o estado seguinte do universo, se forem observadas determinadas premissas.

Na medida em que nos liberta da acção urgente (é o instinto que responde à urgência) permite-nos, de facto, adiar até "a poeira assentar" ou que o próprio tempo resolva. Mas claro que este conceito de verdade está longe de coincidir com a verdade tradicional ou filosófica. É uma ideia da sociologia dos sistemas.

Podíamos considerar nesse sentido o consenso como uma definição da verdade (se estiver errado, permite-nos adiar, nem que seja pela última vez), o que nos levaria à negação de tudo o que nos faz ser o que somos.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

(José Ames)

A PORTA ABERTA



("Êxodo" de Marc Chagall)



"Em Êxodo 32,14, por outro lado, a Versão Autorizada consegue tê-la (a tradução) absolutamente, o que é o mesmo que dizer escandalosamente, correcta: "E o Senhor arrependeu-se do mal que pensara fazer ao seu povo." Um Deus arrependido! O que significa que a porta para o diálogo, para a persuasão, permanece aberta mesmo quando, como na parábola de Kafka sobre a Lei, nós somos incapazes de compreender que assim é."
"Paixão intacta" (George Steiner)

Em Kafka, o homem que espera diante do guarda uma vida inteira para entrar no palácio descobre, na hora da morte, que a porta esteve sempre aberta.

Mas, como diz Steiner, o escândalo é absoluto. Que o temor do sagrado (ou de um simples guarda) nos impeça de ter acesso à justiça (ou à paz connosco mesmos).

Os Gregos habituaram-nos à flexibilidade dos deuses (mas não da Necessidade). Foram os Hebreus que nos deram um Jeová inacessível.

Mas esta passagem do Êxodo revela-nos uma fraqueza insuspeitada, quase a prova da imanência (um deus apenas humano). E descobrimos com isso um outro valor da liberdade, que já não tem origem na política.