quinta-feira, 20 de julho de 2017

(Dubrovnik)

A CRIAÇÃO DO NADA

http://sergecar.club.fr/Dessins/foi.jpg

"Segundo uma expressão na moda, inventada como para sublinhar a indiscrição do empreendimento filosófico, ela (a filosofia) é desvelamento. Como, então, tratar enquanto filósofo de uma noção que pertence à intimidade de centenas de milhares de crentes, o mistério dos mistérios da sua teologia e que, depois de quase vinte séculos, reúne os homens e as mulheres com quem partilho o destino e a maior parte das ideias, à excepção precisamente da crença de que é questão esta noite?"

Emmanuel Lévinas (numa conferência realizada em Paris, em Abril de 1968)

O facto das opiniões sobre a religião se dividirem de forma tão marcada, entre crentes e não crentes, é, sem dúvida, um fenómeno de redução da complexidade, como lhe chama Niklas Luhmann.

De facto, a nossa capacidade de crença é mobilizada a todos os instantes e horas e pelas mais insidiosas formas, sem disso nos apercebermos.

Cremos, porque o contrário disso seria, por exemplo, sermos mal educados, termos mau feitio ou ser do contra (o que é também uma crença).

O que mais impressiona no fenómeno da crença colectiva, tão íntima e tão misteriosa, como diz Lévinas, para ser dissecada como um preconceito ou uma ilusão, é a realidade transcendente que faz aparecer no mundo.

E são tão reais os sentimentos, os movimentos e as acções que inspira são tão concretos e efectivos que a história demasiado ingénua que às vezes está na origem do fenómeno é o que menos importa.

Pode-se até fazer fé em quem por natureza não pode ser responsável, nem merece credulidade.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

(José Ames)

QUEBRA DE ETIQUETA



"Os Guermantes, ao mesmo tempo que viviam na fina flor da aristocracia, afectavam não fazer nenhum caso da nobreza. As teorias da duquesa de Germantes que, para dizer a verdade, à força de ser Guermantes, se tornava, numa certa medida, em algo de diferente e de mais agradável, punham de tal maneira acima de tudo a inteligência e eram em política tão socialistas que uma pessoa se perguntava em que parte do seu palácio se escondia o génio encarregado de assegurar a manutenção da vida aristocrática (...)"

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

A contradição da duquesa em "não acreditar nos títulos" e ao mesmo tempo manter o mais selecto dos salões e se referir ao seu próprio marido, perante os domésticos, como o senhor duque, só é possível porque as ideias políticas só mudam o mundo quando estamos dispostos a por elas "abandonar pai e mãe".

Numa sociedade regida pelas boas maneiras, como dizia Alain, pensar é já uma ofensa. Porque o pensamento põe tudo em causa, mesmo as boas maneiras, podendo fazer de uma chapelada um simples cumprimento a outro chapéu (Pascal).

Não se pode pretender que a inteligência está acima do resto sem romper a etiqueta. Mas a duquesa tinha alcançado, graças ao seu snobismo implacável e a algum talento natural, o estatuto de original.

As ideias em que dizia acreditar faziam parte dos seus dotes sociais. Nela, a contradição tornava-a ainda mais apreciada.
Porém, de facto, não pensava. A inteligência e o "espírito" eram apenas uma linguagem entre outras.

terça-feira, 18 de julho de 2017

(Entroncamento)

CONTROLO REMOTO



"O discurso de Sócrates na "Apologia" é um dos seus exemplos maiores (da persuasão na política), e é contra essa defesa que Platão escreve o "Fédon", uma "apologia revista", que considera, com ironia, "mais persuasiva", uma vez que é rematada por um mito do Além, que inclui castigos e recompensas materiais, sendo calculado de modo a assustar, mais do que a simplesmente persuadir os auditores."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

Conhece-se a descendência desse mito na religião cristã. Platão era pessimista, segundo Arendt, por ter sofrido a desilusão de ver um homem como Sócrates falhar na sua tentativa de convencer os seus juizes.

Não sei se a ideia do Inferno contribuiu para fazer melhores cidadãos, mas se vigorou por tantos séculos é porque era, de algum modo, necessária. E o facto do Inferno ter, aparentemente, fechado as portas, deve levar-nos a pensar, não que nos livramos de uma superstição útil, por nos termos tornado melhores, mas porque estamos muito mais organizados e funciona um outro tipo de controlo.

Pensemos só no exemplo da pulseira electrónica que encerra o detido numa prisão virtual. Ela é muito mais eficaz do que o medo da condenação às chamas eternas que devia ser sujeito a alguns lapsos de vigilância por incúria, sono ou embriaguez.

Com a pulseira realmente "Deus" não dorme.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

(José Ames)

DEPOSTA EVIDÊNCIA

http://europa.eu/scadplus/images/

"Chegou-se assim a uma pesquisa científica extremamente rica em resultados que se contenta cada vez mais com legitimar o seu método pelos seus sucessos, sem se questionar sobre o que acontece a esses domínios do saber nos quais essa certeza intersubjectiva não pode ser atingida, nem sobre o sentido geral de se ter de tomar como critério de verdade a certeza intersubjectiva em substituição da evidência que se alcança através de uma longa familiaridade."

"La Confiance" (Niklas Luhmann)

Pensar a certeza intersubjectiva, como critério de verdade, significa fazê-la depender da linguagem. Mas por essa via podemos chegar a um acordo a que não corresponda, de facto, um mundo, uma realidade objectiva. Contudo, isso não impedirá esse acordo de ter efeitos práticos e de criar uma nova realidade.

Estamos condenados, por isso, a modificar aquilo que vemos e pensamos, sem nunca atingirmos as coisas tal como elas seriam sem a nossa interferência.

Admitindo, porém, que há qualquer coisa como a experiência intuitiva, pré-verbal, que dá lugar a um outro tipo de certeza, ao abandonarmos a evidência como critério, talvez tenhamos perdido uma dimensão essencial.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

(Porto)

REGRESSO A LILLIPUT





"Na mentalidade primitiva aparecem o sujeito como existente e o verbo ser como activo e transitivo. O mundo para o primitivo nunca é dado, mas é como uma esfera anónima que se parece muito com o anonimato angustiante da existência ainda não assumida por um sujeito."

"Lévy-Bruhl et la philosophie contemporaine" (Emmanuel Lévinas)

O sujeito constrói-se e redimensiona o mundo. É uma experiência de todos o efeito que produzem em nós os lugares da infância, as casas e as ruas como as sentíamos confusamente, ainda não decididamente objectivas e mensuráveis, quando, como adultos, voltamos a vê-las e a percorrê-las.

Podia-se falar aqui no efeito de Lilliput. Como Gulliver, temos o ponto de vista do gigante.

E é claro que essa indistinção do mundo podia ser angustiante por não sabermos pô-lo à distância.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

(José Ames)

QUESTÕES DE MÉTODO



GWF Hegel (1770/1831)




"Mais importante é aqui o facto de que a dialéctica só poderia começar a desenvolver-se como método depois de Marx a ter despojado do seu conteúdo substancial efectivo. Em nenhuma outra parte a aceitação da tradição, acompanhada de um concomitante esvaziamento da sua autoridade substantiva, se pagou mais caro do que na adopção por Marx da dialéctica hegeliana. Ao transformar a dialéctica num método, Marx desembaraçou-a desses conteúdos que a haviam mantido dentro de certos limites e ligada à realidade substantiva. Fazendo-o, Marx tornou possível essa espécie de pensamento em termos de processo tão característico das ideologias do século XIX e que teria por desfecho a lógica devastadora dos regimes totalitários cujo aparelho de violência não se submete a quaisquer imposições da realidade."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

De facto, a ideia de processo derivada do hegelianismo e que se pode aplicar, por exemplo, à História, não é bem um pensamento. É decerto uma lógica, com o seu encadeamento, e que, como toda a lógica, pode prescindir completamente da experiência. A realidade nunca pode desmentir a lógica, visto que ela é perfeita no fechamento sobre si própria.

Arendt diz que o método, como critério da verdade, significa considerar "a cultura, a política, a sociedade e a economia no interior de um contexto funcional, (...) que pode ser tornado objecto segundo esta ou aquela perspectiva arbitrariamente assumida."

Isto equivale, como se sabe, ao conceito de sistema que é uma das palavras-chave da política moderna e que, tanto marxistas como não-marxistas, utilizam nas suas análises, nem sempre reconhecendo a sua origem.

Não há dúvida que aplicar a ideia de processo supõe que conhecemos o "movimento" da realidade (tese, antítese e síntese), e definir a complexidade política ou económica como um sistema é o mesmo que pensar ter dado a volta a essa realidade, tê-la distinguido do seu meio ambiente e conhecer as leis gerais por que se rege (ou pensar que estão ao nosso alcance, como o mecanismo do relógio a que levantamos a tampa).

quarta-feira, 12 de julho de 2017

(Bombarral)

O HOMEM QUE ACORDOU KANT

David Hume (1711/1776)


"Creio que a explicação reside largamente numa acusação que foi feita a Hume, com algum justiça, a saber que a sua filosofia era essencialmente negativa. O grande céptico, penetrado pela sua convicção de que a imperfeição de toda a razão e de todo o conhecimento humanos, não esperava nada de bom da organização política. Ele sabia que os grandes benefícios políticos, paz, liberdade e justiça, são por essência negativos, uma protecção contra os nossos erros, mais do que efectivos dons."
"Essais" (Friedrich Hayek)

Hayek comenta o pouco favor com que foram recebidas, no continente, as ideias de Hume, em comparação com as do seu hóspede de um momento, Rousseau.

Jean-Jacques era um poeta que sabia convencer não só a cabeça, mas também o coração. A ideia do bom selvagem, por exemplo, dava toda a força à crítica das leis e da tradição responsáveis pela corrupção dos homens. Era o estímulo necessário para a indignação moral e a nova religião da fraternidade. Esta filosofia parecia dizer: sejamos naturais e encontraremos a justiça e a concórdia.

Hume tinha outra ideia sobre a natureza humana e não desprezava as lições da experiência nem as da história dos povos. "Não era da bondade dos homens que ele esperava a paz, a liberdade e a justiça, mas de instituições que "punham no interesse de agir para o bem público mesmo os homens maus". Ele sabia que em política "todo o homem deve ser suspeito de ser um intrujão", se bem que, como acrescenta, "pareça um pouco estranho que uma máxima verdadeira em política seja falsa de facto".

Ora, o efeito do poder sobre mesmo o melhor dos homens é torná-lo digno da nossa suspeita, por estupidez, ambição ou, o que é ainda pior, por virtude (Saint-Just, um dos homens mais virtuosos da Convenção, distinguiu-se pela sua apologia do Terror).

Por isso, a filosofia negativa, ao impor limites que nenhum indivíduo ou organização podem ultrapassar preserva a liberdade de todos, poupando-nos os erros e as consequências da falta de consenso sobre as opiniões positivas.

terça-feira, 11 de julho de 2017

(José Ames)

A NARRATIVIDADE DO MAL



"Blow up" (1966-Michelangelo Antonioni)


"Penso que não existe nenhuma obra de valor que se desenrole à volta da alegria ou do bem. O bem não tem história, se se pode dizer."

Michelangelo Antonioni

É certo. Compare-se o "Paraíso" ao "Inferno" de Dante. No primeiro, são círculos extáticos de bem-aventurados, penetrados pela luz do astro de que andam à volta.

É impensável destacar um detalhe nessa perfeição. O pormenor é já um desvio da única perspectiva possível. E é ao nível do incidente, do singular, do avulso e do desemparelhado que há história para contar. Aqui conta mais a borbulha do que a pele sem defeito, bela como um teorema.

E é por isso que a publicidade, ao inculcar-nos um modelo de estética e de erotismo nos "livra do mal" da beleza e da sexualidade.

Esse modelo tem tanto a ver com o desejo como um anúncio com uma carta de amor.

segunda-feira, 10 de julho de 2017


Holanda 

A IMPORTÂNCIA DOS BOTÕES

http://librairie.medhyg.ch/librairie

"É a este nível que se torna explicável que, como muitas vezes foi notado, a própria consciência moral deixasse de funcionar sob as condições de uma organização política totalitária, e que isso se verificasse em boa medida sem que interviesse o medo do castigo. Nenhum homem que não possa tornar efectivo o diálogo consigo próprio, quer dizer nenhum homem privado da solidão que todas as formas de pensamento requerem, poderá conservar a integridade da sua consciência moral."
"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

Nem como um eco, ou uma memória, porque todo o pensamento que não se actualiza no fio do juízo é uma simples mecânica.

É um paradoxo que só nos consigamos plenamente realizar, como diz Arendt, na pluralidade, que é a nossa verdadeira condição (e não o homem individual, nem o sujeito aparentemente soberano), faltando, nos momentos mais importantes, às exigências da acção e da política para o encontro connosco mesmos.

Toda a polícia política sabe quanto é vulnerável o indivíduo a esse estranhamento de si próprio e como a consciência mais iluminada facilmente se apaga por falta das condições físicas da solidão.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

(José Ames)

QUESTÕES DE MÃO


O Duque de Saint-Simon (1675/1755)


"Monseigneur (o primeiro filho de Luís XIV), tendo ido de Marly a Meudon, quis ali oferecer um jantar ao Eleitor (da Baviera); mas a surpresa foi grande de ele pretender ter a mão (*). Essa pretensão era em todos os sentidos nova e insuportável; nunca eleitor algum tinha imaginado uma semelhante sobre o herdeiro da coroa [...]; houve negociações, que chegaram a qualquer coisa de ridículo. [...] Monseigneur recebeu-o no exterior; eles não entrarem em casa por causa da mão; encontrou-se uma caleça, na qual entraram os dois ao mesmo tempo, cada um pelo seu lado; passearam muito; ao sair da caleça, o Eleitor despediu-se e foi para Paris, e de maneira a que Monseigneur não o visse, quer ao chegar, quer ao partir, descer da ou subir para a carroça. Desta maneira, embora Monseigneur estivesse à direita na caleça, a mão foi coberta por subirem ao mesmo tempo por lados diferentes, e pela afectação de não entrarem em casa e de só a verem de fora."

(*) ter o lado direito em relação a alguém.

"Mémoires" (Saint-Simon, citação de Marcel Proust em "Le Côté de Guermantes")

A regra da prioridade na corte do mais protocolar dos soberanos distinguia-se, evidentemente, de uma regra de trânsito, por o direito à mão ser "pessoal e intransmissível", e não ter a mesma simplicidade nem a mesma clareza em todos os casos.

As infracções dependiam de uma boa explicação do código, mas era praticamente impossível prever todas as situações.
O génio de Luís XIV foi o de complicar suficientemente a etiqueta de Versalhes para manter a nobreza ocupada e longe das tentações frondistas, cumprindo as regras do seu grande jogo de salão. Desse ponto de vista, não era um exagero considerar-se ele o astro à volta do qual todos faziam órbita.

Tal como a burocracia se justifica a si própria e mede a sua eficiência pelo movimento dos papéis, também esta aristocracia de raízes no ar, entre festas e jogos, só tinha um pensamento: a promoção.

quinta-feira, 6 de julho de 2017


(José Ames)

AUTARCIA



"É preciso sem dúvida reagir fortemente contra a ideia clássica do valor eminente da autarkia, da auto-suficiência. O perfeito não é o que se basta a si próprio, ou, pelo menos, essa perfeição é a de um sistema, não de um ser..."

"Journal Métaphysique" (Gabriel Marcel, citado por Emmanuel Lévinas)

Infelizmente, a lei da entropia nem aos sistemas físicos permite essa perfeição. Donde a autarcia seja apenas uma ideia.

O poder, enquanto distinto da força (Arendt), não engendra a ilusão da auto-suficiência, porque ele mesmo é a prova de que a política depende da cooperação.

Mas a corrupção do poder pela força, a hubris dos Gregos, é uma espécie de lei da entropia que rege todas as manifestações do poder.

O pensamento de Gabriel Marcel justifica a necessidade do outro para despertar a consciência de nós mesmos. E é bem sabido que dependendo da sorte e do vigor, a ilusão da auto-suficiência vem antes da verdade da interdependência. É o que Lévinas chama de fissão do Eu diante do outro.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Gaia 

LUZES DA CIDADE


Chaplin e Einstein na estreia de "Luzes da Cidade" (1931)


A linguagem de Chaplin vai direita ao coração. Não importa se o milionário suicida que encontra o melhor dos amigos no vagabundo, quando está ébrio e retome todas as distâncias de classe com a sobriedade ou uma pancada na cabeça, parece inverosímil. Não há ninguém assim e, no entanto, a imagem toca o fundo do problema.

O vagabundo, expulso pelo mordomo no dia seguinte, disputa a outro pedinte a perisca do charuto que um ricaço larga mais adiante, pegando no Rolls Royce que o outro lhe tinha oferecido sob a influência de Baco. Não podia ser mais cínico este episódio de luta pela sobrevivência, contra a ideia de um cineasta que exagera na corda do melodrama. Aliás, não faltam os momentos de autocrítica. Os arroubos apaixonados acabam sempre com um vaso na cabeça que um gato faz cair da janela.

E o final deste maravilhoso "City Lights"? A rapariga das flores que já consegue ver e tem agora uma loja de florista, graças ao dinheiro de quem ela pensava ser o seu príncipe encantado, reconhece pelo toque das mãos o vagabundo. A sua desilusão estampa-se-lhe no rosto, mas a gratidão e o dever comparecem, como sentinelas armadas nesse reconhecimento.

Sabemos que o romance nem por um segundo tem futuro. Mas Chaplin não quer arruinar no nosso espírito a ideia do anjo. Porque nessa situação, a queda é obrigatória. Assim, o filme acaba deixando-nos imaginar uma saída airosa para o anjo.

terça-feira, 4 de julho de 2017

(José Ames)

TAMBORES E CORNETEIROS


"Multiplicam-se as discussões, como se tudo fosse incerto, e estas discussões são conduzidas com o maior entusiasmo, como se tudo fosse certo."

David Hume ("Tratado da Natureza Humana")

É bem verdade que só o entusiasmo é comunicativo e que é preciso acreditar, nem que seja no momento, para fornecer o combustível necessário a esse entusiasmo.

Assim, quando tudo devia ser incerto, nós erguemos edifícios para durar. No fundo, nadamos em várias correntes do tempo. As nossas casas e os nossos templos caem (ou estão a cair) inexoravelmente, e se as nossa pirâmides duram ainda é porque já têm a forma do monte de poeira.

Também as nossas certezas começam a esmaecer já no momento em que as afirmamos. O encontro dessas vulnerabilidades, num dado momento, dá-nos a ilusão da força.


"Não alcançam a vitória os soldados em pé de guerra, manejando a lança e a espada, mas sim os corneteiros, os tambores e os músicos do exército."
(Ibidem)

Hume, muito antes da política como espectáculo, falava do triunfo dos corneteiros.

Mas desde sempre foram os "músicos" que encantaram a espécie. Marchamos ao som dos tambores, como modelamos as nossas opiniões pela força da retórica.

Hoje, um SMS ou um 'tweet' coordena muito mais do que um tambor, e a televisão nem precisa de nos emocionar através de uma boa figura de estilo, pois basta o efeito de vermos as mesmas imagens e ouvirmos as mesmas palavras ao mesmo tempo para ficarmos "afinados".

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Gaia, antes do Metro 

MILAGRE EM MILÃO


"Miracolo a Milano" de Vittorio de Sica



"Milagre em Milão" (1951), de Vittorio de Sica, parece um filme inspirado pela personalidade física e moral do actor que desempenha o papel de Totó (Francesco Golisano). A sua pureza contagiante explica todo o milagre nesse baldio de barracas que o milionário Mobbi, por causa do petróleo, disputa aos miseráveis.

De Sica leva a fantasia às últimas consequências e faz-nos sorrir perante a ingenuidade de todos aqueles mendigos cavalgando a sua vassoura pelos ares, sem uma nota de ironia que redima a cena. Mas, justamente, o olhar de Totó é incapaz de ironia.

A caricatura e o moralismo são as únicas rosas deste milagre, se abandonarmos a perspectiva do "idiota" (Dostoiewski). Os pobres, podendo satisfazer os seus desejos, tornam-se burgueses instantaneamente, exibindo os seus casacos de pele e os seus trajes de cerimónia (como Charlot).

Mas Totó convence e toda a comoção poderia não ser mais do que uma história contada pela sua mãe adoptiva que levou para o céu a subversão da loucura.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

(José Ames)

MUDAR O HOMEM OU O MUNDO?

Village Politics (Engraving by Jazet, 1820)

"Independentemente do modo como as pessoas respondem à questão de saber se é o homem ou o mundo que está em perigo na presente crise, uma coisa é certa: qualquer resposta que coloque o homem no centro das nossas preocupações actuais e sugira que é o homem que é preciso mudar para conseguirmos melhorar a situação é uma resposta profundamente impolítica."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

Verdade que era evidente para o marxismo, o qual, nas palavras de Lévinas, não é só conquista, mas reconhecimento do outro, qualquer que tenha sido o desvirtuamento da sua encarnação histórica. E, nisso, ia contra o princípio da salvação individual proposto pelo cristianismo.

Mas se considerarmos o que é próprio do conceito de política, em Arendt, temos também que reconhecer que o ideal da transformação do mundo deixa de ser político, a partir da altura em que a sociedade de iguais se confunde com um partido.

Porque tal ideal poderia igualmente ser assumido por um déspota esclarecido (o que no fundo é a "ditadura do proletariado"), situação, por excelência, anti-política.

quarta-feira, 28 de junho de 2017


(Barcelos )

ASSIMÉTRICA RESPONSABILIDADE

Fedor Dostoiewski (1821/1881)


"É no Rosto do Outro que aparece o mandamento que interrompe a marcha do mundo. Por que me haveria eu de sentir responsável em presença do Rosto? É essa a resposta de Caim, quando se lhe diz: "Onde está o teu irmão?", ele responde: "Será que eu sou o guardião do meu irmão?" É isso o Rosto do Outro tomado por uma imagem entre imagens e quando a Palavra de Deus que ele traz permanece desconhecida. É preciso não tomar a resposta de Caim como se ele troçasse de Deus, ou como se respondesse como um garoto: "não fui eu, foi o outro". A resposta de Caim é sincera. Na sua resposta falta simplesmente a ética; há ontologia somente: eu sou eu e ele é ele. Nós somos seres ontologicamente separados."
"Entre nous" (Emmanuel Lévinas)

A força destas palavras é irresistível. Porque se compreende através delas que a razão, só por si, é impotente para fundar a ética.

Toda a argumentação lógica passará por cima do essencial, que é a não-distinção, à face da verdade, entre os seres, e que a ideia de igualdade de condição está muito longe de esclarecer.

Há um sentido de justiça que é operário (para dizer como Alain): é justo o que está à medida. Mas há uma outra justiça que pode realmente ignorar a justeza, ser desequilibrada até.

"Uma das coisas mais importantes para mim, é esta assimetria e esta fórmula: todos os homens são responsáveis uns pelos outros, e eu mais do que qualquer de entre eles. É a fórmula de Dostoiewski (...)."
(Ibidem)

terça-feira, 27 de junho de 2017

(José Ames)

NINGUÉM É PERFEITO







"Quanto mais quente melhor" (1959-Billy Wilder)




É preciso sabê-la morta e saber como morreu para sentir a verdade patética de Marilyn. E onde é que esse corpo parece mais “simpático” do que em “Some like it hot”? Com menos força de viver porque existindo em pleno imaginário. É o desejo do animal da câmara escura que o faz ser. As suas formas têm a substância do sonho, não é possível degradá-las pela posse, nem por um destino humano. Há algo de incompleto em todos os mitos que recupera o espaço em branco e faz símbolo do simples continente.

A morte prematura é potencialmente criadora do divino. Mas a nossa época reúne à volta da pira sacrificial os que odeiam todos os cultos. Sem a ética do religioso, todos nos convertemos em instigadores do suicídio. Fatalidade bem humana a que roubou a esta mulher o desejo de viver, como se tivesse compreendido que é a morte a fonte de valor do mito. Marilyn Monroe tem tudo da mulher excepto a realidade, e a expressão que devolve ao olhar que procura a plástica e a hipérbole sexual é a da criança que se deixa desejar sem compreender o desejo do adulto. Há uma coqueteria infantil em todos os seus movimentos conscientes. A forma cheia e lisa do símbolo oferece-se permanentemente à nossa admiração, mas acompanhada da reivindicação absoluta do órfão. Não é possível o olhar desinteressado e sem culpa.

O erotismo é solicitado pela simpatia histórica com a vítima do seu e do nosso cinema. No iate usurpado por Tony Curtis, MM faz a única cena de amor que se pode imaginar para o seu mito. Trocando com o parceiro a sua situação infantil, vêmo-la no trabalho incestuoso da iniciação. E se há uma espantosa perversidade em fazer funcionar o potencial erótico da figura directamente como recurso maternal, a astúcia imaginada para vencer a paradoxal frigidez e o puritanismo inverosímil mostra que a força deste erotismo se esgota no gesto de significar.

O acesso a esta pletórica vénus é defendido pelo olhar da medusa. Assim Billy Wilder deixa o desejo nu perante si mesmo, num genial comentário freudiano com os meios do melhor cinema. Não podemos permanecer na situação do voyeur insatisfeito. Nenhum strip-tease interessa, porque desde o início a nudez é palavra e intenção de seduzir. Eis por que o progresso deste erotismo é sempre desmistificador.

E encontrarem-se no fim de contas o ídolo e o adorador no mesmo impasse da irrealidade sexual é o que permite a MM ser um mito que tem a sua própria crítica.

segunda-feira, 26 de junho de 2017


Angra do Heroísmo 

AS FORMAS DA LIBERDADE

Alexis de Tocqueville (1805/1859)


"(...) não quebra as vontades mas amolece-as, dobra-as e dirige-as; raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói nada, impede de nascer; não tiraniza nada, incomoda, comprime, enerva, extingue, embrutece e reduz cada nação a não ser mais do que um rebanho de animais tímidos e industriosos, do qual o governo é o pastor.

Sempre acreditei que esta espécie de servidão regulada, doce e pacífica, de que acabo de traçar o quadro, se poderia combinar melhor do que aquilo que se imagina com algumas formas exteriores da liberdade, e que não lhe seria impossível estabelecer-se à sombra da própria soberania do povo."

"De la démocratie en Amérique" (Alexis de Tocqueville)

Que modelo de liberdade inspira este observador estrangeiro, ele próprio oriundo da nobreza do Antigo Regime da França, que lhe permite esta argúcia política e esta surpreendente modernidade?

Fala-se aqui em rebanhos e em pastores, em paz e, crê-se, em prosperidade, mas a liberdade ter-se-ia tornado "exterior", formal, como diria a crítica marxista. A democracia de que Tocqueville faz o diagnóstico parece ter perdido a sua essência política, com a acção e a palavra sem outro sentido que não seja o da necessidade, da economia ou do bem-estar.

Tocqueville julga, pois, o regime americano, não à luz da experiência do seu próprio país (a Revolução e o bonapartismo), mas do conceito de política, tal como nos foi legado pela tradição clássica.

De facto, se quisermos encontrar um país em que, nesse sentido, a política seja realmente impolítica teremos de dirigir o nosso olhar para o outro lado do Atlântico.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

(José Ames)

IMITAÇÃO EM CADEIA



Dans de salon de Madame Verdurin
http://www.gerard-bertrand.net



"Mas a imitação tem por condições, não somente a ausência de uma originalidade irredutível, mas ainda uma finura relativa de ouvido que permite discernir primeiro aquilo que se imita a seguir."

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust reflecte sobre o espírito de família de alguns cenáculos ou salões mundanos, em que as mesmas frases e entoações e os mesmos gestos são recorrentes.

Claro que ele não conhecia a rádio nem a televisão. Hoje o cenáculo é todo o país, e as ocasiões de se ouvir repetir vezes sem conta as mesmas coisas e de se "absorver" os tiques de linguagem e a pose das personagens que aparecem no pequeno ecrã são epidémicas e quase dispensam um bom ouvido para a "música".

Mesmo a originalidade não resiste a esse assédio, senão pela abstinência que, fatalmente, passa a ser vista como falta de maneiras e uma espécie de snobismo.

É ver em que se transformam os espíritos mais originais quando consentem em dar uma entrevista ou em participarem, com a melhor das intenções, num concurso ou numa mesa redonda.

terça-feira, 20 de junho de 2017

(Évora)

JUSTIÇA DISTRIBUTIVA


Above, from left: Justice légale with Fortitude,
Justice particulière , Mansuétude, Entrepesie; 
below : Justice distributive, Justice commutative.
Les éthiques d'Aristote


"O facto de um especulador, que por acaso faz uma suposição exacta, ganhar uma fortuna em algumas horas, enquanto que os esforços de toda uma vida de um inventor que foi ultrapassado de alguns dias por um outro podem ficar sem recompensa, ou que o penoso labor do camponês que permanece ligado à sua terra a custo lhe granjeie de que sobreviver, enquanto que um homem que gosta de escrever histórias de detectives se permite oferecer-se uma vida luxuosa, eis o que parece injusto à maior parte das pessoas. Compreendo o descontentamento gerado pela observação quotidiana de tais exemplos, e estimo o sentimento que reclama a justiça distributiva. Se a questão fosse de saber se preferimos que seja o destino ou uma força omnipotente e omnisciente que recompense as pessoas em função dos princípios da justiça comutativa ou da justiça distributiva, nós escolheríamos certamente a segunda solução."

"Essais" (Friedrich Hayek)

A demonstração por Hayek de que a justiça distributiva pressupõe a centralização e uma "hierarquia incontestável de valores" e, logo, a garantia de que as decisões, por mais subjectiva que seja a apreciação dos casos individuais e por mais discutível a atribuição do mérito de cada um, não poderão ser contestadas para que o sistema possa funcionar, parece-me de uma lógica irrecusável. Desde que se aceitem os limites da razão e daquilo que podemos saber sobre a sociedade humana, nos seus infinitos processos e interacções.

Mas as consequências indesejáveis para a liberdade ( e para a política na sua essência) são facilmente desvalorizadas se professarmos a fé num pretenso conhecimento das leis de desenvolvimento da sociedade, o que nos conferiria uma espécie de omnisciência, por sermos capazes de prever o futuro e também uma certa omnipotência se abríssemos o caminho a essas leis e as tomássemos como norte da nossa acção.

Infelizmente, a realidade não podia ter troçado mais dos nossos prognósticos, reduzindo a pretensa ciência histórica à pura jactância.

Claro que se podia, contra os princípios da justiça embora, defender que o sacrifício da liberdade seria compensador em termos de produtividade económica. Mas nem isso é defensável perante os factos. Parece óbvio que se as pessoas, os trabalhadores são o mais valioso dos recursos, será mais produtivo o que apelar para a sua capacidade de invenção e para o seu zelo do que a mera obediência a ordens ou o cumprimento de uma obrigação.

O sentido de algo tão impraticável, sem uma drástica "redução da complexidade" (Luhmann) social e política, como a justiça distributiva, verifica-se ao nível utópico, no plano da inspiração.

Porque podemos não ser omniscientes nem omnipotentes, mas o resultado de aceitarmos as nossas limitações só pode perpetuar a necessidade para além do que a nossa fraqueza justifica.

E é aí que a injustiça realmente começa.

segunda-feira, 19 de junho de 2017


(José Ames)

O TEMPO NARRADO

Franz Rosenzweig (1886/1929)

"Na obra de Rosenzweig, os momentos abstractos do tempo - passado, presente, futuro - são desformalizados; não se trata mais do tempo, forma vazia em que há três dimensões formais. O passado é a Criação. Como se Rosenzweig dissesse: para pensar concretamente o passado, é preciso pensar a Criação. Ou o futuro, e a Redenção; o presente é a Revelação."
"Entre nous" (Emmanuel Lévinas)

Podemos pensar o tempo como um movimento diferencial, ou como uma forma abstracta, tal como é medido pelo relógio.

Mas como é que as nossas vidas se inscrevem aí? O passado de cada um não é nada de formal. Tem flutuações, intensidades, lapsos e, talvez, uma direcção no sentido da morte.

Pensar concretamente o tempo há-de contemplar não só a passagem da vida, mas essa direcção para a transcendência.

E podemos ver como isto se assemelha a uma narrativa, condensada, por exemplo, no mito da Criação e da Redenção.