quinta-feira, 22 de junho de 2017

(José Ames)

IMITAÇÃO EM CADEIA



Dans de salon de Madame Verdurin
http://www.gerard-bertrand.net



"Mas a imitação tem por condições, não somente a ausência de uma originalidade irredutível, mas ainda uma finura relativa de ouvido que permite discernir primeiro aquilo que se imita a seguir."

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust reflecte sobre o espírito de família de alguns cenáculos ou salões mundanos, em que as mesmas frases e entoações e os mesmos gestos são recorrentes.

Claro que ele não conhecia a rádio nem a televisão. Hoje o cenáculo é todo o país, e as ocasiões de se ouvir repetir vezes sem conta as mesmas coisas e de se "absorver" os tiques de linguagem e a pose das personagens que aparecem no pequeno ecrã são epidémicas e quase dispensam um bom ouvido para a "música".

Mesmo a originalidade não resiste a esse assédio, senão pela abstinência que, fatalmente, passa a ser vista como falta de maneiras e uma espécie de snobismo.

É ver em que se transformam os espíritos mais originais quando consentem em dar uma entrevista ou em participarem, com a melhor das intenções, num concurso ou numa mesa redonda.

terça-feira, 20 de junho de 2017

(Évora)

JUSTIÇA DISTRIBUTIVA


Above, from left: Justice légale with Fortitude,
Justice particulière , Mansuétude, Entrepesie; 
below : Justice distributive, Justice commutative.
Les éthiques d'Aristote


"O facto de um especulador, que por acaso faz uma suposição exacta, ganhar uma fortuna em algumas horas, enquanto que os esforços de toda uma vida de um inventor que foi ultrapassado de alguns dias por um outro podem ficar sem recompensa, ou que o penoso labor do camponês que permanece ligado à sua terra a custo lhe granjeie de que sobreviver, enquanto que um homem que gosta de escrever histórias de detectives se permite oferecer-se uma vida luxuosa, eis o que parece injusto à maior parte das pessoas. Compreendo o descontentamento gerado pela observação quotidiana de tais exemplos, e estimo o sentimento que reclama a justiça distributiva. Se a questão fosse de saber se preferimos que seja o destino ou uma força omnipotente e omnisciente que recompense as pessoas em função dos princípios da justiça comutativa ou da justiça distributiva, nós escolheríamos certamente a segunda solução."

"Essais" (Friedrich Hayek)

A demonstração por Hayek de que a justiça distributiva pressupõe a centralização e uma "hierarquia incontestável de valores" e, logo, a garantia de que as decisões, por mais subjectiva que seja a apreciação dos casos individuais e por mais discutível a atribuição do mérito de cada um, não poderão ser contestadas para que o sistema possa funcionar, parece-me de uma lógica irrecusável. Desde que se aceitem os limites da razão e daquilo que podemos saber sobre a sociedade humana, nos seus infinitos processos e interacções.

Mas as consequências indesejáveis para a liberdade ( e para a política na sua essência) são facilmente desvalorizadas se professarmos a fé num pretenso conhecimento das leis de desenvolvimento da sociedade, o que nos conferiria uma espécie de omnisciência, por sermos capazes de prever o futuro e também uma certa omnipotência se abríssemos o caminho a essas leis e as tomássemos como norte da nossa acção.

Infelizmente, a realidade não podia ter troçado mais dos nossos prognósticos, reduzindo a pretensa ciência histórica à pura jactância.

Claro que se podia, contra os princípios da justiça embora, defender que o sacrifício da liberdade seria compensador em termos de produtividade económica. Mas nem isso é defensável perante os factos. Parece óbvio que se as pessoas, os trabalhadores são o mais valioso dos recursos, será mais produtivo o que apelar para a sua capacidade de invenção e para o seu zelo do que a mera obediência a ordens ou o cumprimento de uma obrigação.

O sentido de algo tão impraticável, sem uma drástica "redução da complexidade" (Luhmann) social e política, como a justiça distributiva, verifica-se ao nível utópico, no plano da inspiração.

Porque podemos não ser omniscientes nem omnipotentes, mas o resultado de aceitarmos as nossas limitações só pode perpetuar a necessidade para além do que a nossa fraqueza justifica.

E é aí que a injustiça realmente começa.

segunda-feira, 19 de junho de 2017


(José Ames)

O TEMPO NARRADO

Franz Rosenzweig (1886/1929)

"Na obra de Rosenzweig, os momentos abstractos do tempo - passado, presente, futuro - são desformalizados; não se trata mais do tempo, forma vazia em que há três dimensões formais. O passado é a Criação. Como se Rosenzweig dissesse: para pensar concretamente o passado, é preciso pensar a Criação. Ou o futuro, e a Redenção; o presente é a Revelação."
"Entre nous" (Emmanuel Lévinas)

Podemos pensar o tempo como um movimento diferencial, ou como uma forma abstracta, tal como é medido pelo relógio.

Mas como é que as nossas vidas se inscrevem aí? O passado de cada um não é nada de formal. Tem flutuações, intensidades, lapsos e, talvez, uma direcção no sentido da morte.

Pensar concretamente o tempo há-de contemplar não só a passagem da vida, mas essa direcção para a transcendência.

E podemos ver como isto se assemelha a uma narrativa, condensada, por exemplo, no mito da Criação e da Redenção.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

(Covilhã)

O ESTADO INTERIOR


http://www.geocities.com/devoyault/actualite/


"A fina sensibilidade de Platão para tudo que é psíquico estende-se aos animais tanto como aos homens. Parece-lhe que em nenhum lugar como no Estado democrático os cães, os burros e os cavalos andam com tanta liberdade, com tanto desembaraço e com um tão grande sentimento de si próprios. Parecem querer dizer a todos os que encontram na rua: se você não sair da frente, não sou eu que lhe vou dar passagem!"

"Paideia" (Werner Jaeger)


Esta citação de "A República" fere os nossos sentimentos democráticos. Por que é que cães e gatos não deveriam sentir-se como iguais e disputar a "mão" uns aos outros nos passeios?

Mas compreende-se o ressentimento deste aristocrata, que tinha familiares ligados à chefia do Estado. E, talvez, nem seja caso disso. O grande desígnio de Platão não é a reforma do Estado, mas a da alma. O Estado, aqui, prende-se com o método. "E é assim que o pensamento grego sobre o Estado conduz em última instância à criação da ideia ocidental de personalidade humana livre." (ibidem)

E vejamos, enfim, em que é que a igualdade democrática tornaria essa personalidade, presa do vício essencial da democracia: a demagogia.

Em vez do homem que se orienta por princípios éticos e pelos ditames da razão, teríamos um energúmeno, em que o estômago ou o sexo teriam tantos votos quantos a capacidade de juízo.



quarta-feira, 14 de junho de 2017

(José Ames)

OS QUE NÃO QUEREM VER

"Cegos dirigindo cegos" (Pieter Breughel)

"Partindo da Boltzmanngasse, descia-se em alguns saltos a Strudlhofstiege e estava-se nessa maravilhosa galeria que já não existe e onde eu vi os meus primeiros Breughel. Pouco importa que sejam cópias - bem gostava de ver o ser inabalável, desprovido de sentidos e de nervos que, posto de repente diante desses quadros, se poria a questão: cópias ou originais? Para mim, poderiam ter sido cópias de cópias de cópias, isso nem me aquecia nem arrefecia, porque era a Parábola dos Cegos e o Triunfo da Morte. Todos os cegos que depois vi descendem do primeiro desses quadros."

"Le Flambeau dans l'oreille" (Elias Canetti)

Felizmente que é possível copiar uma obra-prima, sem o que nem o próprio Miguel Ângelo poderia ter esculpido as suas sublimes estátuas inspiradas nas da Antiguidade.

É claro que um texto não se funde tão intimamente com o seu suporte como um quadro ou uma escultura, e o que se perde é o contexto de uma língua viva. Mas isso também falta à arte de outros séculos para ser integralmente compreendida.

Há, pois, uma redução inevitável da realidade da obra, para além do que o processo de cópia acarreta. Se pensarmos que essa é a lei da nossa própria memória, visto que igualmente "reduzimos" a nossa experiência passada sempre que a evocamos, não podemos estranhar a fatalidade que atinge a cópia de um quadro como "A Parábola dos Cegos".

O alcance desta parábola é universal. Nós e o nosso semelhante podemos ver-nos, se quisermos, ali retratados. Basta que um homem reconheça que só sabe que não sabe para colocar todos os que julgam que sabem e os que arrastam consigo na situação dos mendigos de Breughel, a um passo da queda.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

(Toledo)

AS PERPLEXIDADES DUMA COZINHEIRA

A Cozinheira de Morse (Daguerre)

"A adesão à tradição é igualmente a razão do erro ainda mais fatal tanto de Marx como de Lenine, sustentando que a simples administração, por oposição ao governo, é a forma adequada do viver-juntos dos homens nas condições de uma igualdade radical e universal. Pressupunha-se que a administração seria o não-governo, mas de facto ela só pode ser o governo de ninguém, quer dizer, da burocracia, uma forma de governo em que ninguém assume a responsabilidade.
(...) O governo de ninguém governa muito efectivamente quando considerado do ponto de vista dos governados e, o que é pior, tem um importante traço em comum com o do tirano."
(...) Do ponto de vista dos súbditos a rede das normas em que se encontram presos é muito mais perigosa e mais mortal do que a simples tirania arbitrária."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

Esta visão administrativa resulta da ideia hegeliana das contradições superadas. Sendo a estrutura de classes a principal contradição, a sociedade sem classes seria, em princípio, uma sociedade em que o poder de uma classe sobre as outras, através do Estado, deixaria de ser necessário.

É surpreendente a dimensão do ponto cego desta análise que parece ignorar completamente a complexidade social, qualquer que seja a forma de governo, a ponto de se considerar que a sua administração não ofereceria dificuldade de maior e podia ser confiada a qualquer cozinheira.

O desaparecimento das classes, se fosse possível, não seria um factor de simplificação maior do que a consagração da divisão social em classes que ajustasse a ideologia à realidade.

O viver-juntos, como lhe chama Hannah Arendt, a uma escala que infinitamente ultrapassa a da ágora ateniense, desafia não só a nossa capacidade de conhecer a sociedade ( e o mundo ) em que vivemos, quanto a de nos organizarmos eficazmente.

Mas toda a inteligência e toda a boa-vontade e capacidade de iniciativa são poucas perante tal desafio, pelo que, pelo menos, devemos saber que tipo de organização não nos convém de todo por ser fatal àquelas virtudes.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

(José Ames)

A SANTIDADE POPULAR

Vendeia. Morte de Charette (1796)

"O maire republicano de Rennes, Leperdit, um alfaiate, que salvou esta cidade do Terror e da Vendeia, é um dia assaltado por uma populaça furiosa que, alegando fome, quer lapidar os seus magistrados. Desce, intrépido, do Hôtel de Ville, no meio duma chuva de pedras; ferido na fronte, enxuga-a e diz: "Não posso transformar as pedras em pão...Mas, se o meu sangue vos pode alimentar, é vosso até à última gota." E eles caíram de joelhos... Viam algo para além do Evangelho."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Michelet diz que a mulher foi o verdadeiro foco da contra-revolução na Vendeia. Ela recebia na igreja e no confessionário a centelha que ia depois, na intimidade do lar, incendiar a imaginação do camponês.

Embora a Convenção tivesse julgado a favor do camponês "o longo processo dos séculos, abolindo os direitos feudais, sem indemnização" e até os direitos censuais, não era o interesse económico que movia a revolta vendeana.

Só podemos admirar a inspiração desse maire republicano, ao servir-se dos próprios símbolos da religião para desarmar o fanatismo.

A analogia eucarística impediu um crime, por não ser de esperar de um "inimigo da religião". O historiador, apóstolo, sempre, da santidade do povo pretendeu ver aí uma revelação.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

(Braga)

A OBRIGAÇÃO DE TRESLER

La Chambre des Deputés

"Esta "trovoada de aplausos" arrebata as últimas resistências do leitor de bom senso; ele acha insultuosa para a Câmara (dos Deputados), monstruosa, uma maneira de proceder em si mesma insignificante; se for preciso, qualquer facto normal, por exemplo: querer fazer pagar os ricos mais do que os pobres, fazer luz sobre uma iniquidade, preferir a paz à guerra; achará isso escandaloso e verá aí uma ofensa a certos princípios nos quais ainda não tinha com efeito pensado, não inscritos no coração do homem, mas que emocionam fortemente, por causa das aclamações que desencadeiam e das compactas maiorias que congregam."

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust descreve a mudança de sentimentos operada no espectador (ou no leitor do jornal dos debates) de uma assembleia, por efeito dos gestos colectivos.

O homem de bom senso é demasiado ingénuo frente à subtileza dos políticos, subtileza que lhes vem da iniciação a certos rituais da assembleia e a esquemas de pensamento condicionados pela divisão dos partidos, entre o "nós" e o "eles".

E observa que "essa subtileza dos homens políticos que me servia para explicar o meio Guermantes e mais tarde outros meios não é outra coisa senão a perversão duma certa finura interpretativa, muitas vezes designada pela locução ler entre as linhas".

De facto, a ingenuidade é o pecado capital nas assembleias, precisamente, aquilo que nos faz tomar tudo à letra. Mas a subtileza de que fala Proust e que alimenta os sistemáticos mal-entendidos, tão produtivos para a lógica partidária, é uma pretensa inteligência, pois é ditada pela necessidade de se cultivar uma diferença, realmente, inessencial.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

(José Ames)

PASSAR AO LADO


Henry James (1843/1916)


(...) Assim o vira ela enquanto ele não via; e assim ela servira agora para lhe trazer a revelação da verdade. E a verdade nítida e monstruosa era que, enquanto esperava, o seu destino era precisamente esperar. A companheira da vigília percebera-o a dada altura e oferecera-lhe a oportunidade de contrariar o destino. Mas nunca é possível contrariar o destino. No dia em que ela lhe dissera que o destino chegara, vira-o ficar estupidamente a olhar sem ver a saída que ela lhe oferecia."

"A fera na selva" (Henry James)

A dor no rosto do outro homem, uma dor verdadeira, a ferida de uma paixão, foi o clique que fez sair John Marcher do seu sono.

Até ali, ele pensava que visitar aquela campa, uma vez por mês, lhe daria a consolação de, pelo menos, ter vivido. Mas que espécie de vida tinha sido a sua que lhe permitia continuar como se ainda estivesse à espera e como se, realmente, nada se tivesse passado?

Este extraordinário conto mostra que o juízo de uma vida pode ser o resultado de uma história "mal contada". Podemos passar ao lado da verdade, como um fantasma, se a revelação não acontecer. Mas a revelação, que volta a rodar o filme para um olhar outro e tudo menos fiel dar-nos-á a verdade? Ou é a ideia do Amor que, de facto, nos julga, para grande felicidade dos romancistas?

Num único momento, fatal momento, a intensidade da dor no rosto do desconhecido, pôs a nu a insignificância da sua, o artifício que construíra à volta da sua cicatriz.

A vida toda baqueou sob a sentença. Mas pode o Amor julgar?

segunda-feira, 15 de maio de 2017

(El Escorial)

A FRONTEIRA DO CINEMA


"Close-up" (1990-Abbas Kiarostami)



Em "Close-up", Hossain Sabzian, um jovem desempregado, procura no cinema a fuga da realidade, não alienando-se na sala escura durante um par de horas, mas levando até às últimas consequências a "inspiração" de se fazer passar pelo realizador Makhmalbaf, primeiro, num autocarro, com uma mulher que conhece os seus filmes e a seguir junto da família dela que não precisa de ser convencida a protagonizar um novo filme.

Depois de alguns dias de falsos ensaios, é finalmente desmascarado e conduzido ao tribunal. Aí arrepende-se e obtém o perdão das suas vítimas.No final, o impostor cinéfilo e o próprio Makhmalbaf visitam a casa dos mistificados sob o signo da reconciliação.

Este caso estranho é inspirado na vida real, sendo quase todos os actores pessoas que viveram os acontecimentos. A alucinação do cinema normalmente não resiste à luz do dia. Mas havia no jovem Sabzian uma fronteira por definir. Os seus problemas familiares e a incapacidade de encontrar trabalho durante o sua "ausência" tornaram-se um simples guião e a sua encarnação de Makhmalbaf valeu-lhe o respeito daquela família e a experiência, para ele inédita, de ser obedecido.

O caso confunde-se, evidentemente, com a loucura. É talvez o cinema, arte de fazer de conta que visivelmente fascinava mistificados e mistificador, levado a sério de mais.

domingo, 14 de maio de 2017

(José Ames)

A INSIGNIFICÂNCIA

The poster for Sunshine, Danny Boyle's new science-fiction thriller



"

Agora sabemos que se a Palavra "era no princípio", também pode ser no fim: que existe um vocabulário e uma gramática dos campos da morte, que as detonações termo-nucleares podem ser designadas como "Operation Sunshine". Seria como se a quintessência, o atributo que identifica o homem - o Logos, o órgão da linguagem se tivesse quebrado dentro das nossas bocas."

"Paixão Intacta" (George Steiner)


O movimento da crítica (pós-estuturalista, desconstrucionista, etc.) converteu todos os textos, sagrados ou não, em pre-textos. Nessa tarefa demolidora, todos os que se interessam pela literatura participaram com um prazer perverso, porque era como se não houvesse mais nada para além dela.

Steiner acrescenta uma outra pressão, de ordem técnica, sobre a palavra escrita. "A cultura de massas, a economia do espaço e do tempo pessoal, o desgaste da privacidade, a supressão sistemática do silêncio nas culturas consumidoras de tecnologia, a expulsão da memória (do hábito de decorar) dos métodos de aprendizagem escolar, originam o eclipse dos actos de leitura e do próprio livro."

De certo modo, a falta de um fundamento, de um sentido verdadeiro que torna irrefutáveis todas as apreciações sobre um texto e desqualifica até a divisão entre o bom e o mau gosto, tem um efeito paradoxalmente semelhante ao do regime canónico e teológico que vigorou na Idade Média.

A segurança dos fundamentos levou a que toda a produção fosse uma glosa interminável, auto-replicante, e sempre conotada a uma verdade original. O actual "colapso filosófico-psicológico" permite uma igual pletora da produção, que já não precisa de se justificar, que nos convida "a ganhar confiança sólida no peso crescente - isto é, estatístico - da concordância histórica e da persuasão prática. Os latidos e as ironias do desconstrucionismo ressoam na noite, mas a caravana do "bom senso" passa." (ibidem)

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Bustelo 

CADÁVERES EXCELENTÍSSIMOS

"Cadaveri eccelenti" (1975-Francesco Rosi)

Voltaire, nas palavras do Presidente Riches (Max Von Sydow), começou o ataque à magistratura. Foi o primeiro a lançar a dúvida sobre a sua "infalibilidade".

O juiz explica que não existe tal coisa como o erro judiciário. Porque as condenações e o valor do exemplo são imprescindíveis à ordem. É o princípio da dizimação. A inocência ou a culpa individuais nunca são a questão.

Nesta parábola sobre a Itália dos anos setenta, a partir dum texto de Leonardo Sciascia, vemos uma dessas vítimas do sistema judiciário transformar-se num assassino em série (a série é constituída por todos os magistrados que tomaram parte no seu processo).

Apesar da "chave" ser de fácil leitura para o inspector Rogas (Lino Ventura), o sistema dos partidos impõe a sua agenda e a sua interpretação, no sentido de uma viragem à direita e da repressão dos grupúsculos de esquerda.

Este cenário, que era credível nos tempos das Brigadas Vermelhas, parece hoje uma coisa de loucos.

Mas já vimos como a história nos pode surpreender com uma mudança súbita de "registo", pondo a "loucura" na ordem do dia.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

(José Ames)

OS MUITOS



"O desprezo pela política, a convicção de que a actividade política é um mal necessário, devido em parte às necessidades da vida que forçam os homens a viver como trabalhadores ou a governar sobre os escravos que os alimentam, e em parte aos males decorrentes do próprio viver-juntos, quer dizer, ao facto de os muitos, a que os gregos chamavam hoi polloi, ameaçarem a segurança e a própria existência da pessoa individual, corre como um fio vermelho ao longo dos séculos que separam Platão da época moderna."

"A Promessa da Política" (Annah Arendt)

Mas a política, como domínio da palavra e da acção, entre iguais, libertos da necessidade económica, graças a um estatuto social privilegiado, tendia a ser cada vez menos prática e ligada à realidade, a confundir-se com a liberdade de "se preocupar com o eterno (o aei on)."

Por isso, a conclusão pessimista de Platão deu-lhe a torção necessária a que a política se tornasse, de facto, uma libertação de quaisquer obrigações políticas e de toda a actividade pública. No que foi a fonte inspiradora da atitude cristã (Tertuliano: "Nada nos é mais estranho do que a coisa pública").

Essa retirada da política vingou, como diz Arendt, na instituição da universidade, com o seu espaço protegido da política.

Não obstante, a ideia de que a política é independente da necessidade e de quaisquer fins sobrevive ainda por detrás da sociedade sem classes e do Estado evanescente.

domingo, 7 de maio de 2017

(Porto)

O EFÉMERO DO DISCO DURO



"Le philosophe lisant" (1734-Chardin)




"Não é um verdadeiro leitor, un philosophe lisant (Chardin), aquele que nunca sentiu o fascínio acusador das grandes prateleiras de livros não lidos, das bibliotecas à noite de que Borges é o fabulista. Não é um leitor aquele que nunca ouviu, no seu ouvido mais íntimo, o apelo das centenas de milhares, dos milhões de volumes alinhados nas estantes da British Library ou de Widener, pedindo que os leiam. Pois existe em cada livro um desafio contra o esquecimento, uma aposta contra o silêncio que só pode ser ganha quando o livro for de novo aberto (mas, em contraste com o homem, o livro pode esperar séculos pela sorte da ressurreição)."

"Paixão intacta" (George Steiner)

Que o espólio de todas as bibliotecas do mundo possa ser transposto para um disco duro aproxima esses milhões de obras, cujas lombadas demoraríamos talvez anos a percorrer, do nosso inconsciente.

A pulsão de ler seria então como o desejo de nos conhecermos em profundidade.

E quando todas essas páginas virtuais ressuscitassem à luz da consciência, seria a assembleia do Vale de Josafat.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

(José Ames)

A LÓGICA DO ABSURDO





Muito do fascínio dos filmes de Carpenter vem-lhes duma concepção metafísica do Mal.

Não há, por exemplo, nenhum motivo plausível para o assalto à esquadra, em "Assault on precint 13" (1976), se bem que seja deixada, negligentemente, uma ponta para interpretar o ataque suicida como uma vingança pela morte de um dos assaltantes.

Mas não, a partir do juramento de sangue dos cabecilhas, não voltamos a reconhecer um rosto nas sombras que invadem a noite em volta do recinto.

Compreendemos pela revelação de Wilson, um dos prisioneiros solto para o tudo por tudo, que se trata dum gang apostado em lutar até à morte.

E a pergunta persiste: porquê morrer para destruir uma esquadra abandonada?

sábado, 29 de abril de 2017

Milão

A APRESENTADORA DA MAÇÃ

"Carta a três mulheres" (1949-Joseph L.Mankiewicz)


O cineasta, mestre da intriga, autor do fabuloso "All about Eve" (e respectivo argumento), Joseph Mankiewicz, deu-nos, em 1949, outra jóia: "Carta a três mulheres".

Addie Ross, a amiga comum, é a voz-off que nos vai desfiando a meada. Sem nunca aparecer em cena, ela é a rival de todas aquelas mulheres, cujo casamento o fatídico sétimo ano põe em perigo. Mas, em vez de justificar o ciúme delas, Addie revela-se uma verdadeira fada do amor, mexendo os cordelinhos a fim de reforçar os laços e dar um novo fôlego às paixões.

Como em "Eve", cada flashback conta a história de Deborah, Rita e Lora Mae, sempre visando estabelecer o fascínio retrospectivo de Addie na mente dos respectivos maridos.

Durante a crise desencadeada pela carta de Addie, as suas amigas descobrem que não estão a fazer o que podem para salvar o seu matrimónio. E os homens, absolvidos da leviandade, saem como o investimento acima de todos os outros. Num papel deliciosamente passivo, como se toda a culpa só pudesse vir, realmente, de Eva.

segunda-feira, 24 de abril de 2017


(José Ames)

PENSAR SOBRE ANDAS




"Porque um pensamento sem fim prático é sem dúvida uma ocupação clandestina não muito conveniente. Esta espécie de pensamentos, sobretudo, que caminhando sobre andas, tem apenas um minúsculo ponto de contacto com a experiência, é suspeita de nascimento irregular. Sem dúvida falava-se assim outrora dos "voos do pensamento"; no tempo de Schiller, um homem cujo peito albergasse tão sublimes problemas teria sido muito considerado. Hoje, em contrapartida, ter-se-ia a impressão que este homem era um pouco anormal, a menos que fosse o caso do pensamento ser a sua profissão e a sua fonte de rendimento."
"L'Homme sans Qualités" (Robert Musil)

Por mais que os avanços da ciência dependam dos "pensamentos sobre andas", desligados, quase sempre, de qualquer utilidade prática, nunca abalaremos a desconfiança do homem mediano, "traumatizado" embora pelo sucesso tecnológico, filho natural da teoria e da abstracção.

E a razão é que o espírito prático funciona perfeitamente a um determinado nível dos problemas com que nos deparamos na vida quotidiana.

Mas essa inteligência ficará sempre aquém de qualquer descoberta.

domingo, 23 de abril de 2017

(Covilhã)

A LEITURA NÃO É DE COMPANHIA

structure of protein




"Mas no ocidente democrático-tecnológico, tanto quanto se pode dizer, os dados estão lançados. O in-fólio, a biblioteca particular, a familiaridade com os idiomas clássicos, as artes da memória pertencerão, cada vez mais, ao reduzido número dos especializados. O preço do silêncio e da solidão aumentará. (Parte da ubiquidade e do prestígio da música provém precisamente do facto de se poder escutá-la enquanto se está na companhia dos outros. A leitura séria exclui até os que nos são mais íntimos).
"Paixão intacta" (George Steiner)

É óbvio que o ideal do Homem da Renascença teve o seu tempo. Não é mais possível ao indivíduo dispensar a memória objectiva (a das enciclopédias e dos bancos de dados), nem conhecer o essencial das artes e das ciências.

Mas entre o especialista, confinado ao núcleo da sua proteína, e esse ideal, há espaço para um espírito "humano" que saiba relativizar a memória que cresce fora de si e o tipo de conhecimento que lhe está associado.

Como sempre, o problemas dos "muitos" é de outra natureza. E talvez esteja na sequência devida que a música, em tantos casos, tenha substituído a religião e o fanatismo. Podemos desfrutá-la, de facto, todos juntos.

Mas a leitura será cada vez mais para os que, como diz Pessoa, não são de companhia.

sábado, 22 de abril de 2017

(José Ames)

O ROMANCE DO ANTI-ROMÂNTICO


"O Bom Alemão" (2006-Steven Soderbergh)




"The Good German" termina numa atmosfera moral que é o oposto do final de "Casablanca", no que pretende ser, visivelmente, uma citação perversa.

Lena é conduzida por Geismer, o amigo americano, ao avião que a vai salvar de Berlim, mas não do seu passado. É nesse instante que lhe faz a revelação de ter a denúncia de vários judeus na consciência.

Não há nada de nobre na renúncia de Geismer, mas só a náusea e Lena não tem nada já de que abdicar. A célebre despedida de Bogart e Ingrid Bergman encontra aqui uma variação lúgubre e desesperada, de que o resto do filme não está à altura.

Salva-se a música herrmaniana (Thomas Newman) e a fotografia, digitalizada para preto e branco, de Peter Andrews.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Vila do Conde

O CANTO DAS SEREIAS


Le Polycratus a été traduit pour le roi Charles V
par le Franciscain Denis Foulechat.





"A música embaça o rito divino, porque perante o olhar de Deus, nos recintos sagrados do próprio santuário, os cantores, com o impudor das suas vozes lascivas e com uma afectação singular, tentam feminizar os seus apoiantes fascinados, interpretando as notas e terminando as frases com a sua voz de meninas. Se pudésseis só ouvir as exaustas emoções dos seus cantos e contracantos, sempre impróprias e pouco judiciosas, no princípio, no fim e no meio, creríeis que aquele era um conjunto de sereias, e não de homens."

"Policratus, 1159" (Jean de Salisbury, citado por William Dalglish e Anna Maria Busse-Berger em "les écritures du temps")

Assim, um sábio do século XII exprimia o sentimento que em si despertava a música ouvida na catedral de Notre-Dame. Parece que estamos a ver a ambiguidade sexual dos frades de Pasolini, na sua célebre trilogia.

A mulher, ausente desses grandes cenóbios, pela proibição do cânone, "persegue" com o seu corpo e a sua voz o espírito da comunidade. Através da estética e dos ideais da beleza, ela insinua-se nos corações.

Vemos aqui como a música servia à feminização, abortando a sublimação imposta pela doutrina.

É caso para dizer que o hábito faz o monge.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

(José Ames)

VISÃO DE ESPARGOS

"La botte d'asperges" (Eduard Manet)


"O que nisso se aprecia, é que está finamente observado, que é divertido, parisiense, e depois passa-se. Não é preciso ser um erudito para ver isso. Sei bem que são simples esboços, mas não acho que esteja suficientemente trabalhado. Swann tinha o desplante de nos querer fazer comprar "um molho de espargos". Que até ficou alguns dias. Só havia isso no quadro, um molho de espargos, como esses que o senhor está em vias de engolir. Mas eu, recusei-me a engolir os espargos do Sr. Elstir. Ele pedia por isso trezentos francos. Trezentos francos, por um molho de espargos!"

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

A suficiência com que o duque fala da pintura impressionista baseia-se numa pretensa evidência: a de que não está "trabalhada", que ficou no estado de esboço. E nisso, apesar do lado Saint-Germain dos seus pergaminhos, exprime a sensibilidade e os estereótipos de qualquer burguês do seu tempo, que apreciava ainda a arte pelo seu "valor acrescentado" e, sobretudo, pela dificuldade da sua execução.

Mas esse modelo tinha sido completamente posto em questão pela técnica fotográfica. Nenhuma imitação da natureza, por mais minuciosa e elaborada, podia competir com o "pincel da luz".

A nova liberdade da pintura impôs-se, assim, à custa de todo o critério objectivo. Só o mercado e o gosto mais "irresponsável" pontificam agora.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Madrid 

O OVO DA SERPENTE



William Blake: "The Book of Job"




"Não creio que seja possível que a cultura europeia recupere as suas energias interiores, o respeito por si própria, enquanto a Cristandade não for responsabilizada pelo seu papel seminal na preparação da Shoah (o Holocausto); enquanto não se reconhecer como responsável pela sua hipocrisia e impotência quando a história europeia se encontrou envolta em trevas."
"Paixão Intacta" (George Steiner)

Não me parece que se possa dizer que a cultura europeia contivesse dentro de si "o ovo da serpente". Não temos qualquer ideia sobre o que pode ter contribuído para a sua fecundação e para o seu desenvolvimento. A ideia de causalidade não é uma ideia da história, mas da física.

Mas tem sentido perguntar por que a Shoah não obrigou à revisão da ideia de Deus e a um novo começo, a partir do crime dos crimes. Está por explicar tudo aquilo que continua como se nada tivesse acontecido.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

(Lisboa)