quarta-feira, 20 de setembro de 2017

(José Ames)

O GRÃO DA PELE



"Mulher empoando o pescoço" (Utamaro)


"Eu, dizia-me isso a mim mesmo, porque acreditava que há um conhecimento pelos lábios; dizia-me que ia conhecer o gosto dessa rosa carnal, porque não tinha pensado que ao homem, criatura evidentemente menos rudimentar que o ouriço do mar ou até a baleia, falta no entanto um certo número de órgãos essenciais, e nomeadamente algum que sirva para o beijo. Esse órgão ausente, ele substituiu-o pelos lábios, e através disso talvez chegue a um resultado um pouco mais satisfatório do que se estivesse reduzido a acariciar a bem-amada com um chifre. Mas os lábios, feitos para levar ao palato o sabor daquilo que os tenta têm de contentar-se, sem compreender o seu erro e sem confessarem a sua decepção, com vaguearem à superfície e chocar com a barreira da face impenetrável e desejada."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Pouca gente subscreveria, suponho, esta teoria do beijo, ainda que noutras culturas ele não tenha a importância que lhe damos.

Proust começa por uma metáfora gastronómica, mais próxima da verdade do desejo, e acaba na do microscópio. Ele diz: "nessa zona desolada, onde não podem encontrar o seu alimento, eles (os lábios) estão sós, o olhar e a seguir o odor abandonaram-nos há muito tempo. Primeiro, à medida que a minha boca começou a aproximar-se das faces que os meus olhares lhe tinham proposto beijar, estes, deslocando-se viram novas faces; o pescoço, visto de perto e como que à lupa, mostrou, nos seus largos grãos, uma robustez que modificou o carácter da figura."

O tacto e o gosto, transferindo-se ambos para o olhar, encontram o objecto não comestível, verdadeiro índice da ausência do desejo.

Mas com a mudança final da figura, e conhecendo as inclinações do romancista, perguntamo-nos se não é precisamente então que o desejo pode ser conjurado.

terça-feira, 19 de setembro de 2017


Alcobaça 

A GEOMETRIA DA IGUALDADE

John Stuart Mill (1806/1873)


"O rígido princípio da igualdade pode ser imposto pelo acaso ou pela necessidade exterior; mas os homens capazes de pesar cada um, como numa balança, e atribuir, conforme o seu gosto e a sua apreciação, a uns mais, a outros menos, tais homens teriam quer de descender de super-homens quer de se apoiar num terror sobrenatural."

"Principles of Political Economy" (J.S.Mill)

Nem os pensamentos mais razoáveis como este estão ao abrigo de interpretações contraditórias, conforme as paixões puxam para um lado ou para o outro. Mill refere-se a uma igualdade rígida ( que a natureza e a essência da política condenam), logo, pressupondo que existe outra.

Mas a chamada igualdade de oportunidades ou dos direitos cívicos é uma igualdade mitigada e as mais das vezes retórica. Será possível, "sem o terror sobrenatural", desentortar o que "nasce das condições objectivas que os homens herdam dos que os antecederam e nas quais fazem a história que lhes é possível e não a que lhes seria determinada pela sua pura vontade"?

A tradição popular resolveu esse dilema recorrendo à ideia da má e da boa sorte. Uns nascem num berço de oiro e outros numa enxovia. Hoje sabemos, com a história do século XX, que foi, politicamente, um dos séculos mais experimentais, que as diferenças de classe sociais são menos relevantes do que as diferenças de poder e que nunca esteve à vista uma qualquer expressão derradeira da divisão em classes.

É verdade que o princípio de Mill, sendo justo, pode servir de álibi para os que defendem o status quo que os favorece. Mas esse é o destino de todas as teorias: a de servirem como meio de acção.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

(José Ames)

A ARTE PELA ARTE

Gruta de Lascaux


"Mas em toda esta polémica, uma coisa salta aos olhos: não se fez mais do que perguntar o que um quadro representa e do que interpretar o representado. No entanto, o que é decisivo numa obra de arte, é saber por que é que ela representa justamente isso e não qualquer outra coisa. Mas para responder a essa questão, é preciso examinar a estratégia do artista, não em relação à realidade concebida de tal ou qual maneira, mas em relação aos outros quadros com os quais o artista se identifica ou contra os quais toma as suas distâncias - o representado só serve então como meio para essa estratégia."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

Como consequência desta teoria, no princípio da constituição do "arquivo" de obras de arte, o artista podia facilmente iludir-se quanto à representação da realidade. Imitar o mundo era o gesto mais próximo da criação, e a pintura estava, de uma maneira ou de outra, ao serviço da religião.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Bragança 

UM DRAMA CRISTÃO





"Ontem chegou-me o Parsifal enviado por Wagner. Impressão da primeira leitura: mais Liszt do que Wagner; espírito da contra-reforma; para mim que estou habituado ao grego e àquilo que possui um valor humano geral, tudo isso é por de mais limitado no tempo pelas barreiras cristãs: apenas psicologia fantástica, nada de carne e sangue em demasia; e depois não gosto de mulheres histéricas; muitas coisas que o olho do leitor pode suportar tornar-se-iam insuportáveis em cena, imaginai os nossos leitores orando, tremendo, inclinando para trás os pescoços extáticos!"

Friedrich Nietzsche ( carta de 1872 a Hugo van Senger)

Os caminhos de Nietzsche e de Wagner separam-se. À medida que o compositor, que encontrou um patrono em Luís II, trabalha para o seu "mausoléu", a admiração do filósofo vai cedendo à decepção e à crítica.

"É preciso que o homem se dedique a uma tarefa que o ultrapasse: é a lei da tragédia! É preciso que ele desaprenda a terrível angústia que lhe causam a morte e o tempo, porque no mais breve instante, na partícula mais ínfima da sua vida pode sobrevir um acontecimento sagrado que de longe compensará todas as lutas e todas as misérias."

Um drama cristão era todo o contrário disto. A arte de Wagner celebrava-se a si própria, acima de todos os fins, no primado do estilo. Por que não um drama cristão?

Ou devemos considerar o Wozzeck um drama demasiado limitado no tempo e no espaço?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

(José Ames)

A FORÇA DA DÚVIDA



"Mesmo, reflectindo, se queremos descobrir em que sentido a ingénua representação já não engana o sábio, vemos que é a mesma ideia que faz que o seu cálculo e as suas medidas não o enganem mais; é a ideia de que não há nenhuma ideia suficiente. Aqui, no pensamento em movimento, ou melhor, em acto, aparece a dúvida, que não é de modo nenhum fraqueza, mas força, e antes afirmação redobrada; porque o espírito tem alcance bastante para ultrapassar os seus objectos, quaisquer que eles sejam, e julgá-los. Assim, a dúvida não é essa imaginação flutuante que Spinoza descreve, mas é o mais alto do juízo, pelo qual, poder-se-ia dizer, a certeza se acaba e coroa."

"Souvenirs concernant Jules Lagneau" (Alain)

E mais adiante: "O que é o homem que crê formar uma ideia verdadeira? Não é esse mesmo que se engana? Realmente o erro em toda a matéria é de reflexão, e consiste nisto: que se submete o juízo à ideia."

É por isso que um artista perfeccionista como a Callas, conforme ela disse numa entrevista, quando nos assombra pelo seu desempenho e arranca do público os mais entusiásticos aplausos, mesmo nesse momento de glória se debate com uma dúvida íntima e permanente.

E aquele santo homem cuja bondade decorresse da ideia entronizada no seu espírito sobre o que é o bem, de uma forma automática, como a consequência de uma premissa, teria, de facto, abdicado de julgar a realidade, o único e irrepetível de cada caso. Porque é a dúvida, seguida pelo risco de uma decisão, que o poderá manter na verdade.

Se alguém como Madre Teresa de Calcutá é suficientemente forte para confessar que a sua religião nunca foi uma questão de lógica, mas de fé vivida e de dúvida assediante, com isso põe talvez em causa um mito, mas contribui para a liberdade e o esclarecimento dos espíritos.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Cuenca 

O GRANDE SALTO

Andy Warhol's view of Mao Tse Tung


"Mao redesenhou pessoalmente as técnicas da agricultura chinesa, especificando a plantação mais cerrada e a sementeira mais profunda para aumentar a produção. O arroz plantado tão junto não podia crescer, mas os funcionários do partido, ansiosos por agradar a Mao, encenaram exposições do sucesso agrícola e industrial. Quando Mao viajava de comboio para admirar os frutos da sua política, os funcionários locais construíram fornos em faixas ao longo da linha e trouxeram arroz de uma distância de várias milhas, para replantar com a densidade oficialmente especificada, nos campos adjacentes. E nem esta charada pôde ser mantida sem o uso de ventoinhas eléctricas, que serviam para fazer circular o ar e impedir o arroz de apodrecer."

"The Undercover Economist" (Tim Harford)

O desastre foi muito agravado pela insistência oficial nessa política errada. O autor cita o caso do ministro da defesa que ousou levantar o problema da fome e por isso foi punido e obrigado a fazer a sua autocrítica.

"Estimativas do dobre de finados resultante da fome situa-se entre os 10 e os 60 milhões de pessoas (...)" De qualquer modo, o único responsável que oficialmente se conseguiu acusar foi o mau tempo...A história repete-se, sem que os homens pareçam aprender com a lição dispensada.

Foi o ministro czarista Potemkine talvez o primeiro a inventar um espectáculo político deste género. Para agradar a Catarina II, dispôs ao longo da estrada que aquela haveria de percorrer, algumas aldeias-modelo, pretenso resultado da política iluminada da cabeça do Estado.

Por estes exemplos se vê que o maior perigo (maior até do que o das catástrofes naturais que não sofrem de teimosia nem de vaidade) é o da concentração do poder. Porque mesmo se, por um acesso inaudito de modéstia, pretendesse corrigir-se, rodeia-o um coro de aduladores (com interesses muito reais na situação) que transforma esse erro no maior dos 'sucessos'.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

(José Ames)

SUBLIMINAR




Já todos fomos "massajados" pela música de uma esplanada.


Às vezes, apetece-nos levantar e seguir a cadência, outras, deixar-nos flutuar como se o mar estivesse ali e nos envolvesse, e não tranquilamente deitado no horizonte.

A música modifica em nós o humor e o regime do movimento. E há até quem estenda a sua influência aos animais e às plantas.

A música é pois demasiado importante para ficar confinada aos músicos e aos melómanos.

Com quantas "estratégias" musicais nos confrontamos em sociedade?

Desde a indústria do rock e do seu papel retribalizador da juventude, ao fundo anestesiante dos centros comerciais e ao lubrificante sonoro dos elevadores, de que modo, verdadeiramente subliminar, não determina este tipo de música alguma coisa do nosso comportamento?

Por outro lado, como o silêncio, sob o assédio comercial, nos deixaria desamparados e sobreconscientes no acto da compra! E como sem essa escapatória, teríamos outros e talvez mais graves problemas de polícia, de desadaptação e disfuncionalidade!

Já Platão reconhecia a importância da música na vida da cidade e defendia a proibição de certos ritmos de origem oriental.

Mas é evidente que esse controlo não é desejável.

É preciso compreender a música, neste contexto, como um sistema auto-regulado, cuja semântica está ainda por enunciar.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017


Varsóvia (aqui está o coração de Chopin)

O PRÍNCIPE VASSILY



A personagem do príncipe Vassily da “Guerra e Paz” é um delicioso paradoxo. Um hipócrita que consegue ser sincero por um oportunismo genial. Porque ele não faz cálculos nunca, mas é exclusivamente o interesse próprio que lhe dita no instante a conduta a seguir. É, portanto, um homem que se conhece e que conhece o mundo dos salões de Moscovo e de S. Petersburgo.

A cortesia parece explicar este método admirável. A acção reflectida é boa para as coisas complicadas que exigem um mínimo de atenção e não se modificam com o aspecto do nosso rosto. Mas em sociedade não é assim. Quando o pensamento se vê, a acção é feia, e, como diria Alain, industrial. Porque o que é visível é a participação superficial e o esforço de aplicação da ideia. Ora isso ofende o semelhante que justamente espera não ser tratado como uma coisa. Falar a um homem só porque ele nos pode ser útil, é desprezá-lo no fundo. E se esse motivo é consciente é impossível que não afecte as relações. Toda a indelicadeza está em não se ser capaz de mostrar os signos do respeito e da consideração. É pagar em moeda humana esta atenção à dignidade do outro. Se, para além disso, é possível descobrir o coração sem a nuvem dum preconceito e dum pensamento de través, eis o interlocutor reconhecido em todos os seus direitos e em paz.

O humor pacífico, significado pelo semblante e pelos gestos, mas mais ainda por um tom cordial da voz, predispõe à amizade. Contudo, a gente dos salões é frívola e não pode cultivar nada de duradouro. O príncipe, movido sempre por um instinto seguro, trai o coração que ganha no momento. E no dia do Juízo, esta mesquinhez amável seria condenada, como é por todos quando mostra a sua verdadeira face. Mas é um pecado sem pensamento quase, e aí está o paradoxo.

Havia que julgar a vida e as obras deste cortesão, e isso é toda a injustiça. O que falta aqui é a vontade do bem e o desinteresse pelas pequenas coisas. Vassily é um libertino por não deixar escapar uma única oportunidade de prazer. Quando seria preciso recusar o vício, ele procede como se houvesse uma ordem dos deuses para tirar partido da situação que, primeiro, foi involuntária.

É claro, porém, que o que se trata é de recusar um modo de vida tão fútil e insignificante. Não se pode reclamar a inocência dum homem que sistematicamente colhe vantagens pessoais num mundo que conhece de olhos fechados. E é isso, a sua habilidade permite-lhe representar sinceramente, o que vale o mesmo que ser sincero. Mas tudo são ratoeiras para o incauto e inexperiente Pierre. E quanto mais fala o coração do príncipe, mais engana. Contudo, não se deve chamar a isto perfídia ou hipocrisia. A vaidade do seu meio aristocrático não endurece, e a cortesia é uma arte aqui necessária e requintada. Mas qual é então o crime do príncipe Vassily?

Ele vive bem consigo e com os outros da sua classe. É um personagem amável, mesmo quando fecha a bolsa ou discute uma herança. Mas este homem é como se não existisse. de tal modo ele encarna as virtudes e os defeitos do salão russo. É essa a sua religião e é isso que o condena.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

(José Ames)

INTERDITOS E TABUS



"A impressão resultante de que alguma coisa de terrível está para acontecer porque se infringiram as regras de conduta é apenas uma forma do pânico que se produz quando nos damos conta que entramos num mundo desconhecido. A má consciência não é mais do que o medo dos perigos aos quais ficamos expostos deixando o caminho conhecido e entrando nesse mundo desconhecido. O mundo é suficientemente previsível enquanto nos ativermos aos procedimentos estabelecidos, mas torna-se terrífico quando deles nos desviamos."

"Essais de philosophie, de science politique et d'économie" (Friedrich Hayek)

"As regras normativas tanto quanto são interdições, como a maior parte delas o devia ser antes de serem interpretadas como ordens de uma terceira vontade, as regras do tipo "não matarás" poderiam de facto não ser muito diferentes das regras que nos informam sobre o que é." (ibidem)

A parte que no nosso conhecimento do mundo é representada por tais regras negativas seria impressionante se pudéssemos olhar esse mesmo mundo de uma forma desinibida.

E seria também a melhor prova da influência dos outros, dos vivos, mas sobretudo dos mortos, naquilo que nos parece mais espontâneo no nosso pensamento.

Por outro lado, o que Hayek diz sobre a má consciência como uma forma do medo é confirmado pela situação da criança que cometeu uma falta e que com isso sabe que desiludiu os pais. Também aqui o medo de perder o seu afecto tem muitas semelhanças com o medo do desconhecido.

terça-feira, 5 de setembro de 2017


Madrid 

SEM TESTAMENTO



"O Silêncio" (1963-Ingmar Bergman)



"Notre héritage n'est précédé d'aucun testament."
René Char

No filme de Ingmar Bergman, "O Silêncio", Anna (Gunnel Lindblom), a irmã mais nova, lamenta o tempo em que, com o pai ainda vivo e obedecendo-lhe, sabiam o que fazer.

Depois, Esther (Ingrid Thulin), a mais velha, tentou substituir-se à figura paterna, recorrendo a uma superioridade intelectual que confundiu, por um tempo, a ingenuidade de Anna. A necessidade que proclamava de encontrar um sentido para cada coisa dava-lhe a ela, a tradutora que falhava nos dois sentidos da tradução [tradere, de repor uma herança e transmittere, de repo-la de tal modo que o herdeiro a faça sua, a conserve e lhe dê vida (Anne Dalsuet)], uma supremacia que a mais nova não deixou de sentir como um poder dirigido contra si.

A verdade é que, desde a morte do pai, ambas estão entregues a si próprias, num caminho de trevas. É, exemplarmente, a situação descrita pelo poeta de uma herança sem testamento.

Sem dúvida, porque o passado não foi salvo (no sentido em que se deixou que fosse contaminado pela morte, e no de não ter sido "gravado", como se diz em informática), e o espírito ancestral deixou de ser uma presença viva.

É este "seco, fero e estéril" positivismo que o último gesto de Esther, abandonada no hotel, parece desmentir, deixando à criança aquele papel com uma palavra: alma.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

(José Ames)

O LEOPARDO



"Il Gattopardo" (1963-Luchino Visconti)


Há uma ideia espantosa em “O Leopardo”, e é que o palácio salve a miséria. A espécie em extinção que se demora sobre os últimos pedaços de carne, naquele baile de fim do mundo, tem consciência da sua própria morte, mas não conhece a má consciência. Isso é para os chacais e os carneiros que virão depois.

O baile não é um divertimento, apesar de ter sido preparado pela rápida imagem do trabalho no campo, é uma reprogramação da decadência. O tempo desse rendez-vous aristocrático e o discurso de Pallavicini, o general que liquidou o Garibaldi revolucionário e a ilusão duma Itália sem senhores, mostrando a mais completa falta de princípios, são a demonstração de que a espécie merece morrer. Essa complacência perante o destino desgosta o príncipe siciliano.

No espectáculo da vaidade, a juventude está significativamente ausente. Tancredo, o belo sobrinho, é despertado para as tarefas que realmente são as da sua classe: restaurar os signos do passado. É preciso avivar o retábulo da igreja. E o jovem oficial garibaldino não é mais do que uma camisa cor de salmão arrumada. Mas não há que ver aqui oportunismo. O tio compreende que o descendente dos Falconeri se empenhe na revolução do seu país, para que tudo fique na mesma. O cálculo político quando se é jovem e se arrisca a vida nunca é mesquinho. A classe média vai alcançar o casamento, pelo sangue e pela guerra.

Quando Tancredo volta a casa de seu tio, com a farda azul do exército regular e fazendo admirar o anel nupcial, que tão bem resume a nova aliança social, e silenciosamente, sem maneiras, com o cabelo molhado da chuva a bela Angélica corre ao seu encontro, como dizer melhor a paixão política de dois estilos?

O príncipe de Salinas não pode aceitar o cargo que lhe oferecem no Senado. Enquanto que o emissário do novo governo tenta fazer da miséria do povo siciliano um argumento para a necessidade das reformas e acordar no orgulhoso e lúcido aristocrata um sentimento de responsabilidade, Salinas bem vê que a sua classe não pode pensar assim, sob pena de perder a alma. A Sicília foi demasiado tempo uma colónia, não tem já forças para ser outra coisa. O príncipe desposa a ordem milenária, é a outra face da miséria. O lixo à porta do palácio está na natureza das coisas. E diz mais: que nada mudará, a não ser para pior, mas que os que lhe sucederem no seu lugar continuarão ainda a considerar-se o sal da terra. A culpa não cabe neste pensamento.

Unidos num mesmo destino, o senhor e o camponês existem por força do solo pobre e da servidão política ( a bota é para calçar ). Mas a ideia forte é a do corpo e o espírito. O luxo é um “desperdício” religioso. A riqueza e o poder de um são como as paredes do templo que negam a fatalidade económica e o quotidiano peso da existência. É como se a contemplação dos sacerdotes da riqueza impedisse de cair pela lei mecânica a acabrunhada alma do camponês entre as pedras do chão.

O grande felino concebe pois o orgulho e o sentimento da força cruel, mas não insaciável, segura e não duvidosa de si mesma e para os outros despótica. Não se pode deixar de reconhecer grandeza nesta vontade de permanecer igual a si próprio. E mais, se equivale ao desejo da morte como se vê no encontro efémero com a estrela, antes de se perder na viela furtiva. A sensualidade é a última razão.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Wroclaw 

A INTELIGÊNCIA E O JUÍZO



"Uma consequência suplementar é que o desfasamento entre a idade em que o espírito humano está mais desenvolvido e aquela em que se pode ter adquirido o conhecimento exigido a um especialista competente se torna cada vez maior à medida que passamos dos assuntos inteiramente teóricos àqueles que concedem a maior parte ao concreto. Cada um de nós vive provavelmente a maior parte da sua vida das ideias originais que concebeu quando era muito jovem. Daí decorre que um matemático ou um lógico podem realizar as suas obras mais brilhantes aos dezoito anos, enquanto que, para passar ao outro extremo, um historiador pode ter que esperar pelos seus oitenta anos para nos dar o seu melhor trabalho."

"Essais de philosophie, de science politique et d'économie" (Friedrich Hayek)

Hayek explica a grande diferença entre as chamadas ciências da natureza e as ciências sociais. As primeiras podem ser cada vez mais especializadas e "produtivas" nas suas aplicações práticas, como no-lo confirma a história do Ocidente. Pode dizer-se que o sucesso dessa especialização não é passível de limite, nem, realmente, de compreensão, enquanto não for confrontado com um ideal, qualquer que ele seja. Mas com Deus tendo morrido todo o ideal, só os efeitos a prazo da tecnologia nos proporcionarão algo de semelhante a um limite. De facto, não é preciso ter vivido muito para atingir a máxima força da inteligência, como o comprova o exemplo da teoria da relatividade.

Mas o concreto é do domínio, não da inteligência, mas do juízo, que é a função do espírito mais característica do humano, porque pressupõe a liberdade e a pluralidade (Arendt).

Hayek diz também: "Mas ninguém pode ser um bom economista se só for economista. E sou mesmo tentado a acrescentar que o economista que é só economista se arrisca a tornar-se um empecilho, senão positivamente perigoso."

É por isso que, sempre que falam os jovens prosélitos das teorias económicas e de gestão em voga, devia acender-se uma luz vermelha.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

(José Ames)

O PASSO DA VACA





O Wilde (1997-Brian Gilbert) interpretado por Stephen Fry é magnífico.

A tomada de consciência da sua identidade sexual, a certa altura da sua vida, permite-lhe invocar a inocência nas relações com a mulher e os filhos, ao mesmo tempo que, sob a fatal influência de Lord Douglas, desce de degrau em degrau até ao poço de onde soltará o seu "De Profundis".

As contradições em que se enredou no tribunal têm o cunho da verdade psicológica. Para justificar o "amor grego" perante uma assembleia puritana e bem-pensante era preciso mais do que o seu génio mundano e as brilhantes réplicas do seu teatro.

Mas é o próprio Wilde que, na metáfora do "Dorian Gray", reconhece a realidade do vício e os perigos de se afastar das convenções.

Alain dizia que não se deve apressar o passo da vaca, porque ela nos mostra logo os cornos. Foi o que fez a sociedade puritana nesse processo infame.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

(Afurada)

A AMIZADE SEGUNDO MARCEL


Jacob Burckhardt (1818/1897)


"Eu disse (...) o que penso da amizade: a saber que ela é tão pouca coisa que tenho dificuldade em compreender que homens de algum génio, e por exemplo um Nietzsche, tenham tido a ingenuidade de lhe atribuir um certo valor intelectual e em consequência recusar-se a amizades a que não estivesse ligada a estima intelectual."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust admira-se que um homem como Nietzsche tenha deixado o seu trabalho "para ir ver um amigo (Jacob Burckhardt) e chorar com ele, tendo tido conhecimento da falsa notícia do incêndio do Louvre." e compara esse "apoio exterior", essa "hospitalização" numa individualidade estranha à embriaguez.

É surpreendente o pouco caso que faz dos sentimentos, nesta opinião, alguém de uma sensibilidade quase mórbida e de uma dependência dos afectos tão irresistível. Mas, a certa altura, a sua vida tornou-se o casulo exclusivo da grande obra. Compreende-se, a essa luz, que o valor intelectual de uma amizade só podia concorrer como o trabalho da escrita, sem nunca atingir mais do que a superficialidade.

A ideia é, assim, perfeitamente consequente com as necessidades do criador, embora não deixe de ser perturbadora a indiferença, senão a ingratidão, com que o narrador corresponde aos testemunhos de amizade. Há, talvez, que imaginar aqui uma contaminação retrospectiva dessa indiferença.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

(José Ames)

SUBLIME FEALDADE

Georges Danton (1759/1794)

Quando Paris se mobilizava para a guerra sob a direcção da Comuna, depois dos acontecimentos de Agosto de 1792, "um bando de mulheres furiosas encontrou Danton na rua e injuriou-o como quem injuriara a própria guerra, acusando-o de toda a Revolução, todo o sangue que ia ser derramado, e da morte dos seus filhos, pedindo a Deus que tudo recaísse sobre ele."

Danton não se espantou. "Pôs-se em cima de um marco da rua e, para as consolar, começou por injuriá-las na sua língua. As suas primeiras palavras foram violentas, burlescas, obscenas. E ei-las pasmadas. O seu furor, verdadeiro ou simulado, desconcerta o furor delas. Este prodigioso orador, instintivo e calculado, tinha por base popular um temperamento sensual e forte, feito para o amor físico, onde dominava a carne e o sangue; Danton era em primeiro lugar um macho; havia nele muito de leão e de mastim, e também muito de touro. A sua máscara assustava."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Michelet termina este episódio dizendo que "as mulheres não aguentaram; choraram pela França em vez de chorar pelos seus filhos, e, soluçantes, fugiram, escondendo o rosto no avental."

Sentimo-nos com o orador e a sua "sublime fealdade" frente a esse grupo de mulheres, numa rua de Paris. A vivacidade da descrição dá-nos uma compreensão intuitiva do clima revolucionário.

As forças que actuam por detrás destas figuras já são demasiado abstractas e sujeitas a caução. Mesmo esta pitoresca psicologia sexual oferece resistência, podemos apoiar-nos nela. A anedota poderá ser dispensada quando pretendemos atingir o particular e o individual?

Não há aqui nada a deduzir (de uma hipotética lei), mas tudo a interpretar. Dir-se-ia que se há uma lei é a da não literalidade, por isso os mitos nos dizem mais sobre o que aconteceu do que a notícia.

Porque, como alguém disse, se pressupõe um sentido antes mesmo de o termos encontrado. Coisa que falta à notícia, mas que é o principal no mito.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Foz (José Ames)

A RAZÃO À DEFESA




"Para todos os géneros de sistemas reais que existem no mundo, quer se trate de unidades físicas ou biológicas, para as pedras, as plantas ou os animais, o mundo é demasiado complexo: ele contém mais possibilidades do que aquelas a que o sistema pode reagir, ao mesmo tempo que se conserva. Um sistema posiciona-se face a um "ambiente" constituído de maneira selectiva e quebra-se ao contacto de contradições que se produzem entre o mundo e o meio ambiente."

"La Confiance" (Niklas Luhmann)

Depois que os limites da razão foram postulados por Kant, esta ideia de que o mundo é mais complexo do que aquilo que podemos racionalizar e compreender impunha-se por si própria.

Mas Luhmann dá uma volta ao problema, consequente com a sua expulsão do sujeito, o qual depois de ter de abandonar o paraíso deixa de estar no centro das coisas. A razão não seria já o instrumento para desbravar o desconhecido e acrescentar novos conhecimentos à herança da humanidade, como o indómito explorador cuja pesquisa não conhece limites. Não, agora ela aparece-nos ao serviço de uma estratégia de sobrevivência, protegendo a vida humana dos "raios" da complexidade.

Os seus maiores feitos não são no sentido de nos aproximarmos do conhecimento da verdade, num progresso ilimitado de raiz iluminista, mas, à medida que a nossa organização se complica, nos protegermos da nossa ignorância face ao que nunca poderemos sondar na sua verdadeira profundidade.

A redução da complexidade defendida por Luhmann seria assim como que o regresso a um antropocentrismo defensivo e sem ilusões.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017


Wroclaw 

A MÁSCARA CARNÍVORA


"O retrato de Dorian Gray"


A ideia, expressa no romance de Oscar Wilde, "Dorian Gray", de uma imagem que imediatamente revelasse a qualidade da alma de uma pessoa é muito interessante e é aparentada com a feitiçaria.

Como se sabe, Dorian vendeu a alma pela juventude (como Fausto): ele conservaria sempre os seus vinte anos e, em sua vez, o retrato envelheceria, expressando não só a decadência física, mas a própria degradação moral a que está associada a transacção com o diabo.

Tendo levado uma vida criminosa, menos em função desse pacto do que da nefasta influência de um cínico, Dorian, no final, põe termo à vida atacando o retrato e trocando ambos as máscaras.

Por muito que os olhos sejam o "espelho da alma", conservam sempre o ambíguo da profundidade. No pacto de Dorian Gray, o retrato é, sob o aspecto de uma fealdade crescente, o espelho que diz toda a verdade, mesmo a mais secreta, o espelho que todos nós precisamos de esconder. E é o que faz a personagem, levando o retrato para o sótão e passando longas horas diante dele, sem testemunhas.

Se pensarmos bem, é o segredo que nos concede a liberdade de mudarmos, pois nos protege do juízo definitivo dos outros e de, com isso, nos tornarmos a própria máscara.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

(José Ames)

O GRANDE PLANO


David Griffith (1875/1948)


"A lenda pretende que Griffith ficou tão emocionado pela beleza de uma actriz durante a rodagem de um dos seus filmes, que fez de novo filmar, de muito perto, o instante que acabava de o deslumbrar, e que, ao tentar intercalá-lo e conseguindo-o, inventou o grande plano. A anedota mostra bem em que sentido se exercia o talento de um dos grandes realizadores do cinema primitivo, como ele procurava menos agir sobre o actor (modificando o seu desempenho, por exemplo), do que modificar a relação deste com o espectador (aumentando a dimensão do seu rosto)."

"Esquisse d'une Psychologie du Cinéma" (André Malraux)


Como o teatro foi o primeiro modelo do cinema, e há autores (como Oliveira) que pretendem ser isso o essencial, a liberdade da câmara quanto ao espaço (por exemplo, a distância em relação aos actores) e ao tempo (pensemos só no uso da montagem paralela em "Intolerância" do mesmo Griffith) teve que ser descoberta.

Que o desejo esteja na origem do "close-up" está, assim, na ordem das coisas. Malraux, mais adiante, acrescenta: "é, portanto, da divisão em planos, quer dizer a independência entre o operador e o realizador em relação à própria cena, que nasceu a possibilidade de expressão do cinema - que o cinema nasceu enquanto arte."

Welles disse qualquer coisa de parecido reconhecendo o primado da montagem. Mas como não podemos imaginar um filme feito, por exemplo, de sequências avulsas, retiradas daqui e dali, temos de considerar como um exagero esta opinião.

Quanto ao grande plano, que permite dirigir o olhar e a atenção do espectador, tem muito de manipulação. Talvez seja por isso, e devido às reduzidas dimensões do ecrã, que as telenovelas fazem dele uma tão generosa utilização.

E aqui é a sugestão, medium quente, contra o princípio interactivo da televisão formulado por Mc Luhan.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O rio Vístula 

ENTROPIA

Entropia (http://www.techfak.uni-bielefeld.de)

"Assim um organismo vivo aumenta constantemente a sua entropia, ou cria entropia positiva e assim tende a aproximar-se do estado perigoso de entropia máxima, que é a morte. Não pode manter-se afastado dela, quer dizer, permanecer vivo, senão retirando continuamente do meio ambiente entropia negativa. Logo, um organismo "alimenta-se" de entropia negativa."
"What is life?" (Erwin Schroedinger)

Em que é que nos ajuda uma definição da vida como esta? A força enigmática, sobrenatural, com que os Antigos explicavam o fenómeno (mas também havia quem defendesse, como Demócrito, que tudo era uma questão de átomos) mantinha uma barreira de superstição que "protegia" o homem do avanço temerário no experimentalismo e na manipulação.

A entropia é o grau zero do materialismo. O conceito brotou espontaneamente da árvore de Demócrito logo que se esvaziaram os templos.

Não foi por acaso que Marx escolheu este filósofo para assunto da sua dissertação académica.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017


(José Ames)

O FANTASMA NA MERCADORIA



"A forma da madeira, por exemplo, é modificada quando se faz uma mesa. A mesa não deixa de ser de madeira, coisa sensível e ordinária. Mas a partir do momento em que ela entra em cena como mercadoria, transforma-se numa coisa supra-sensível. Ela não está apenas assente com os pés em terra, mas põe-se de cabeça para baixo, face a todas as outras mercadorias, e sai da sua cabecinha de madeira toda uma série de quimeras que nos surpreendem ainda mais do que, sem nada perguntar a ninguém, se ela se pusesse a dançar."

"O Capital" (Karl Marx, citado por Jacques Derrida em "Spectres de Marx")

Derrida recorda a vaga espiritista que se espalhou na Europa, na segunda metade do século XIX, o interesse de Max Stirner, por exemplo, pelos "Mistérios de Paris" de Eugène de Sue e as "tentações espiritistas de Victor Hugo", para situar o devaneio fantasmático, naquela passagem, do autor de "O Capital".

Porque não se trata apenas de uma abstracção, segundo a qual devêssemos pensar o objecto e o seu "valor de uso", enquanto mercadoria. Marx sente a necessidade de efabular uma vida própria, enquanto "espírito", desse alter ego da mesa.

E isso era necessário, talvez, para transmitir a essa metamorfose do "valor de uso" em "valor de troca" a qualidade moral adequada à visão profética da obra.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017


(Burgos)

O OPOSTO DO CÍNICO

(Charles Chaplin in "The Tramp")


Charlot é um gentleman que vive abaixo dos seus pergaminhos. Não abdica duma indumentária formal, da sua cana e do chapéu de coco, quando não das luvas. Essa aparência exprime a reivindicação de ser tomado pelo que não é, ou uma adesão ingénua aos valores da sociedade que o põe à margem?

Ao mesmo tempo que limpa os ouvidos com o guardanapo, serve-se do chapéu para um ballet de vénias no registo da "delicadeza". Porque tropeça em toda a espécie de obstáculos, anda munido de uma escova para limpar o pó do fato e tudo lhe serve para cumprir os preceitos higiénicos a que se sente obrigado pela sua imitação da dignidade. Mesmo a cana lhe pode ser útil para limpar as unhas.

Esta rigidez iconográfica é compensada por uma incrível agilidade física que lhe permite escapar por entre as pernas dos polícias ou esquivar-se ao murro do brutamontes.

Era preciso que a sociedade arrogante e preconceituosa da sua origem fosse confrontada com este vagabundo que insiste em ser, mesmo nos maiores apertos, uma paródia do aristocrata.