segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sem título

Barreiro (José Ames)

 

CUPIDO

Uma lição de amor (Ingmar Bergman)

 

"O amor é terrivelmente estável, e a cada um de nós está destinada apenas uma certa parte, uma ração. É capaz de aparecer numa infinidade de formas e prender-se a uma infinidade de pessoas. Mas está limitado em quantidade, pode consumir-se, tornar-se gasto e deslavado antes de atingir o seu verdadeiro objecto. Porque o seu destino reside nas mais profundas regiões da psique onde virá a reconhecer-se vivo e independente, o terreno sobre o qual nós construímos a espécie de saúde da psique. Não quero dizer egoísmo ou narcisismo."

"The Alexandria Quartet" (Lawrence Durrell)

 

Esta mistura de espírito e quantidade parece chocante. Já Simone Weil pretendia converter a atenção religiosa em energia operando no mundo entre as restantes forças. Ao ponto de imaginar uma fórmula de equivalência entre o que se pede a Deus, através da atenção absoluta, e o que Ele não poderia deixar de dar-nos como resposta.

Por outro lado, seria muito estranho que aquilo a que chamamos o amor (a entrega) não viesse dum recôndito amor pela vida e pelo nosso próprio ser.

Não sei se se pode falar em quantidade e numa certa 'economia' a este propósito. Mas é o mesmo que dizer que a sorte regula estas coisas e que o Amor é caprichoso como diz Bergman em 'Sorrisos de uma noite de verão' ou numa 'Lição de Amor'.

Aliás, o primeiro a evocar a 'economia' foi Platão, com a sua alegoria da pobreza e da riqueza. O Amor é pobre porque tem fome.

 

domingo, 29 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

A INJUSTIÇA SEM JUÍZO FINAL

Albert Camus

 

"O poder não se separa da injustiça. O bom poder é a administração sã e prudente da injustiça."

(Albert Camus)


Forçosamente, numa grande administração, as decisões são cegas sobre a maior parte das suas consequências fora do papel. Quero dizer que uma boa intuição e uma grande dose de sorte podem levar a melhores resultados que a 'competência' e a honestidade intelectual.

Não é só ter que 'agradar a Gregos e a Troianos' (e estamos a excluir a teoria da 'correia de transmissão' entre um governo e a 'classe dominante'). É que, na completa incerteza, a tendência é seguir os trilhos conhecidos da 'injustiça instalada'. É essa a grande objecção ao chamado reformismo, o qual, não obstante isso, é melhor do que o 'salto no escuro'. O 'escuro' aparece logo que se deixe de acreditar na pseudo-ciência económica.

O poder não sabe 'onde põe os pés', e a prudência seria, de facto, o menor mal, se os homens pudessem sempre ser razoáveis.

Mesmo quando a razão consegue ganhar alguma independência em relação às 'paixões', nunca é suficientemente isenta de 'racionalismo' e de vontade de poder.

 

 

sábado, 28 de junho de 2014

Sem título

Dresde

 

SORRISOS ANTI-MODERNOS


"O meu tio" (1958-Jacques Tati)




"- Mas é tudo tão vazio!
- Oh, não! É moderno. Tudo comunica."
"Mon oncle" (Jacques Tati)


Tati delicia-nos com o seu anti-modernismo bem intencionado.

Ele não perde uma oportunidade para troçar do último gadget e do arrivista que o incensa.

Os cães vadios, em que se misturam as classes e a irreverência urinária é da praxe, são o símbolo duma convivialidade que alguns homens perderam.

Hulot, esse homem-catástrofe que desarma a modernice, dependurado no seu eterno cachimbo, pela sua parte, insiste na vadiagem e, como Pessoa, continua a fugir a qualquer tentativa de o tornarem "fútil, casado e tributável".

Em vez da telefonia, prefere fazer reflectir o sol da sua vidraça sobre a gaiola da vizinha e ouvir a alegria dum canário.

Mas já não há burguesas a correr com o paninho para limpar os cromados do carro novo que o marido tira da garagem.

Esse ridículo de outro tempo é talvez o que nos faz sentir alguma simpatia por esse casal que se deixou capturar vivo numa prótese.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

O DIA DA CAUSA REDUNDANTE

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"As coisas que têm de ser tidas por certas perdem a sua força quando surgem na forma de proclamações arbitrárias...Fazer erradamente com que certas matérias sejam legisláveis resulta apenas na limitação, se não na anulação completa, daquilo que se tenta salvaguardar."
(Henry Kissinger)

A 'Declaração dos Direitos do Homem' refere-se a qualquer coisa de incerto (há provas constantes de que esses direitos não são reconhecidos na prática). A Constituição da República Portuguesa, diz VPV no 'Público', "está presa por arames". É o exemplo de uma proclamação destinada a garantir que o incerto se torne, por força da lei, a certeza 'certa'.

Que exemplo temos então de uma 'proclamação arbitrária', algo de tido como certo que se quer tornar mais do que certo, através da lei, com o resultado contraproducente denunciado por Kissinger?

Curiosamente, os casos que me ocorrem são 'deduções' de princípios abstractos tais como estão representados nos dois exemplos acima. A 'Declaração', sendo universal, já deveria conter os direitos de todos. Mas isso não impediu a proliferação dos direitos específicos, como os ligados ao género ou à raça.

Já alguém viu um 'Dia da Mulher', por exemplo, reforçar os 'Direitos do Homem' (passe a 'boutade')?


 

 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sem título

Moscovo

 

A MARCIANA

Simone Weil

 

"Alain, surpreendido com a sua falta de elegância e de feminilidade, apelidou-a de a 'Marciana' porque "não tinha nada de nós e julgáva-nos a todos soberanamente."

(in "Alain" de André Sernin)


Tal foi a primeira impressão que causou Simone Weil no seu mestre. O mesmo ser, que a certa altura do seu percurso espiritual procurou na passividade da matéria o modelo da obediência (ao Bem platónico e cristão) e da anulação da perspectiva egoísta, começou por marcar todos os que dela se tentaram aproximar com essa impressão de orgulho e de intransigência.

Pergunto-me se em todos os casos de 'santidade' não existirá, secretamente, essa raiz de orgulho, quanto mais não seja pelo reflexo do Bem ou da 'presença' do Cristo que distingue o que julga beneficiar deles. Parece-me certo que nenhuma humilhação sem a correspondente esperança ( fujo a empregar o termo pascaliano de 'aposta') terá qualquer efeito 'sobrenatural' (palavra weiliana se alguma é).

Thomas Nevin, na sua biografia de Simone, explica o seu orgulho (decerto, não apenas intelectual) pela relação privilegiada do povo judaico com o seu Deus. Simone era judia, 'não-assumida'.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

O HOMEM-MÁQUINA

 

"A partir do momento em que o vazio genético fosse inteiramente decifrado (...), a humanidade estaria em condições de controlar a sua própria evolução biológica; a sexualidade apareceria então claramente como aquilo que é: uma função inútil, perigosa e regressiva."

(Michel Houellebecq)

Mas só a sexualidade? Não há dúvida de que, à medida que vamos 'decifrando' os fenómenos naturais tal como fazem sentido e têm uma lógica inatacável no seu 'modus operandi', experimentamos um acréscimo de poder sobre o funcionamento das coisas.

Ora, por muito complexa que seja essa competência, trata-se sempre de uma redução daquilo a que chamamos natureza. É como o 'homem-máquina' de Descartes levado ao máximo desenvolvimento que as técnicas de hoje permitem. Temos de pôr a vida entre parêntesis para que esse homem alcance a sua plenitude.

À luz desse reducionismo, a sexualidade 'explicada' é tudo o que Houellebecq diz, 'inútil, perigosa e regressiva'. Mas quando tivermos o 'mapa' completo do novo Homem-Máquina aparecerá ainda mais claramente que não conseguimos dar-lhe mais utilidade, 'segurança' ou progresso.

Estamos só (?) a resolver problemas, ainda que não pareça.

 

 

domingo, 22 de junho de 2014

Sem título

Alcochete

 

UM RAFAEL ATORMENTADO




Na "Descida ao túmulo" da Galleria Borghese, há um conflito na direcção dos olhares que cria o caos na psicologia da cena.

Há desencontro e confusão nos sentimentos e a luz não cria nenhum foco que venha atenuar essa perda de sentido.

A cor é soberana, como sempre, e o desenho faz-se valer nas atitudes arrojadas das figuras distribuídas pelo grande V central.

Não é uma pintura com a serenidade típica do mestre.

O pintor de 25 anos quer conquistar Roma.

sábado, 21 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

SAIR DO PLANETARIUM

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(...) As relações da Antiguidade com o cosmos instauravam-se de outra maneira: na embriaguês. Ora, a embriaguês é a única experiência pela qual nós nos asseguramos do mais próximo e do mais longínquo, e nunca um sem o outro. Mas isso significa que o homem não pode comunicar em estado de embriaguês com o cosmos senão em comunidade. É a marca da ameaçadora confusão da comunidade moderna de ter esta experiência por qualquer coisa de insignificante que se pode rejeitar e abandonar ao indivíduo, que faz dela um delírio místico por ocasião das belas noites estreladas."

"Sens unique" (Walter Benjamin, citado em "Critique de la Raison Cynique")


Um céu recamado de estrelas, contemplado como se fosse a primeira vez, é um desses contactos com a Beleza que os Gregos ousavam pedir aos deuses duas ou três vezes apenas na vida.

É preciso entregarmo-nos, como quem mergulha num banho lustral, deixando no vestíbulo as sandálias e todas as armas (incluídas as intelectuais).

Essa é uma experiência próxima talvez do "delírio místico", mas não creio que o sentimento da comunidade, neste caso, seja um órgão especialmente dotado para a comunicação com o cosmos e para a certeza do perto e do longe.

Ao contrário da embriaguês individual, receio que a colectiva tenha sempre um desfecho desastroso (contrário aos astros).

 

 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Sem título

 

Afurada, 2008

 

O CAVALO DAS NUVENS

"The wind" (1927-Victor Sjöström)



O vento, no belo filme de Victor Sjöström, é omnipresente e simboliza todas essas forças que ameaçam a frágil existência.

O próprio desejo, quando vemos as botas de Lige, na noite de núpcias, dum lado para o outro, como uma fera enjaulada, num breve plano é associado ao vento que levanta a poeira do deserto.

É inesquecível o rosto de Lillian Gish, nessa cena. Parece, contra a literatura do amor, fazer a pergunta de toda a inocência castigada: que mal fiz eu?
Só no final, Lige conquista a forma humana, como se se descolasse do bloco de mármore da violência e, com Letty, diante da porta aberta ao vento rugidor, ambos transformam em luz a tempestade.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

O INVERNO DE TOLSTOI

Sofia Tolsto

 

Albert Camus, no "Carnet III", transcreve esta passagem do diário de Sofia Behrs, a mulher de Tolstoi: "Ele enjoa-me com o seu povo." E acrescenta, entre parêntesis: ela recopiou 7 vezes 'A Guerra e Paz'.

Aparece aqui a figura de uma submissão ao 'destino'. A condessa não concorda com esse lado mais político do marido. Tem uma opinião própria, mas ela só pode manifestar-se, para além da confissão ao papel, como um dos combustíveis da perpétua discussão entre o casal que impede o exclusivo do desejo (os 'pecados de sofá' na confissão do mestre), quando este perde força.

Sem a canseira desta mulher, completamente devotada, mas lúcida, teríamos as obras-primas?

Tolstoi reproduz muitas das suas idiossincrasias na sua personagem Pierre Bezuhov, um homem à procura de si próprio e fraco de carácter. O papel de domadora dessas tendências anti-autorais e de guardiã do templo do grande homem cabe à pequena condessa, com metade da sua idade e que conservou, desde o casamento, o hábito de trocar a leitura dos respectivos diários (hoje chamar-se-ia a isso de transparência). No fim da vida, foi rejeitada pelo homem que a submetia à sua paixão tempestuosa e ao mesmo tempo a condenava por o ter levado à 'perdição'. Nesta situação, impunha-se um outro (o verdadeiro) diário, que Tolstoi teve o cuidado de lhe esconder (como na contabilidade de certas empresas) ende escrevia o que realmente pensava.

O endeusamento do povo sofredor era, afinal, mais uma das veleidades do seu 'inverno do descontentamento'. Sofia não tinha dúvidas sobre isso.

 

 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sem título

Praia de Salgueiros

 

MAQUIAVEL

Maquiavel

 

"Para ele (Maquiavel), o ponto decisivo era o de que todo o contacto entre a religião e a política tem de corromper as duas, e que uma Igreja não corrompida, se bem que muito mais respeitável, seria ainda mais destruidora para o domínio público que a Igreja corrompida de então."

(Hanna Arendt)


O mundo islâmico, para tragédia de todos, não teve o seu Maquiavel. Isto é, nunca terá organizado a sociedade civil fora do Estado-religião.

Compreendemos que a Igreja dos Bórgias foi indigna do Cristianismo, mas livrou-nos de Savonarola. O espírito deste era, de facto, o espírito, sem mais. A corrupção contra a qual profetizava era mais do que real e destruia a Igreja (ou obrigava-a mudar, como aconteceu, apesar de tudo). Mas a visão religiosa deste frade abafaria o indivíduo num mundo pré-político, sem liberdade.

Sempre que do mundo político emerge um espírito quase religioso que sumerge o indivíduo num partido, o eterno Savonarola ressuscita. No mundo moderno, isso, porém, só pode levar ao fracasso, e à podridão da política e dessa religião inferior.

Os anos 80 do século passado mostraram-nos que mesmo o 'cedro do Líbano' pode cair fulminado pela corrupção e o 'double talk'.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

UM PROFETA

 

"Ivan Illich, um eminente crítico da expropriação do conhecimento em direcção a um mundo inferior de peritos e abstracção, argumenta em 'Medical Nemesis' que a medicina profissional pode causar mais mal do que bem. Vamos aos médicos como vamos à oficina de mecânica. Eles falam uma linguagem que permanece impenetrável para nós. Acreditamos na cura na base de fé."

(Jerry Mander)

Illich foi um prègador incansável dos anos setenta. Eram os tempos de maior notoriedade da anti-psiquiatria e da escola 'não-directiva', do hino dos Pink Floyd 'Leave the kids alone!'. Enfim, também de outras utopias, herdeiras, em boa parte, do Maio de 1968, a maior 'bolha' revolucionária da história recente. Se a expressão 'espírito do tempo' ('zeitgeist') tem algum sentido, nunca ele foi tão presente e, com a aceleração do movimento social, tão 'consciente'. Pode-se, com efeito, estar equivocado com o sentido do movimento, mas vemo-nos a agir, o que é, sem dúvida, entusiasmante.

O que é desarmante é que Illich tem razão no fundamental. Mander cita ainda o caso de uma índia brasileira que compara a simplicidade e a eficácia dos contraceptivos tradicionais, com a complicação moderna no que implica em organização, divisão do trabalho e 'expropriação' da iniciativa individual. É a diferença entre a aldeia da tribo e a 'aldeia global'.

O balanço final que o nosso profeta arrisca é inescrutinável e talvez inútil. O crescimento e a concentração no mesmo lugar da população impõe um fardo que nada tem de romântico. Mas, muitas vezes, não temos outras ideias.

Outro exemplo flagrante é o da democracia e do 'espírito democrático' que, hoje, nada podem ter a ver com a experiência da Grécia antiga. A ideia de representação, no Estado da nossa nebulosa sócio-electrónica, parece mais um dos célebres mitos atenienses...

 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Porto (José Ames)

COMPOSIÇÃO

Jean-Claude Dreyfus e Lucy Russell

 

Jean-Claude Dreyfus, que interpreta Philippe-Égalité na "Inglesa e o Duque" (2001-Eric Rohmer), diz na entrevista incluída no DVD que o seu físico corresponderia ao do personagem. E até a sua faceta de bon vivant dispensaria qualquer composição.

O mesmo não se passaria com a alegada estupidez do Duque de Orléans, sobre a qual, sorrindo, o actor sugere que teve muito que compor. O sorriso faz, graciosamente, passar a imodéstia. Mas é um terreno escorregadio o da inteligência.

No caso do Duque, a possível falta dela não lhe salvou a cabeça, mas permitiu-lhe, por muito tempo ( aqui a longevidade é relativa ), navegar por entre os perigos, até ao dia fatídico.

terça-feira, 10 de junho de 2014