segunda-feira, 31 de agosto de 2009


(José Ames)

TURISMO CULTURAL


Astolphe-Louis-Léonor, Marquis de Custine (1790/1857)


"Comparar os diversos modos de existência das nações da terra, estudar a maneira de pensar e de sentir dos povos que a habitam, apreciar as relações que Deus estabeleceu entre a sua história, os seus costumes e a sua fisionomia, viajar numa palavra: é um inesgotável alimento fornecido à nossa curiosidade, um eterno meio de actividade para o nosso pensamento; impedir-me de percorrer o mundo, seria tratar-me como a um sábio a quem se escondesse a chave da sua biblioteca."

"La Russie en 1839" (Astolphe de Custine)


Montaigne, embora tivesse deixado um journal de viagem, não precisava de sair da biblioteca do seu castelo no Périgord para estudar os povos e satisfazer a sua curiosidade. Bastavam-lhe o Latim e o Grego para percorrer as distâncias e sobretudo o tempo.

O marquês de Custine era um outro homem. Nascera depois da revolução científica do Renascimento. A viagem do "Beagle" terminara em 1836. E assim como Darwin procurava um novo ponto de partida independente da natureza aristotélica, fundado na experiência e na observação, Custine inspira-se no mesmo método para realizar o seu estudo. Poderia ter sido um pioneiro do turismo cultural, não fossem observações como esta, citada por Daniel Boorstin ("Cleopatra's nose"): "O império do Czar, segundo ele, era já verdadeiramente uma sociedade 'sem classes'. Abaixo do próprio autocrata não havia graus de independência ou dignidade, mas toda uma nação de escravos amedrontados."

É que o turista moderno vive para o auto-desfrute e não se toma suficientemente a sério; não lhe vem ao espírito que a sua experiência possa identificar os outros.

domingo, 30 de agosto de 2009


Leiria (José Ames)

O CONCÍLIO DOS OLÍMPICOS


Hitler com as SA em Munique


A fotografia parece surpreender o famoso magnetismo do Führer no acto de encadear as suas vítimas.

Aqueles rostos tão jovens, ávidos de glória e dum futuro radioso (ou de emoções fortes?), não sabem o que os espera, no papel de carne para canhão, de carrascos e assassinos do seu semelhante, na mais eficiente operação de desenraizamento colectivo de que há notícia na história.

A questão da responsabilidade está tão longe de explicar os factos, alguns falando já em bode expiatório a propósito de Hitler, enquanto outros pura e simplesmente pretendem reescrever a história à maneira dos grandes ditadores, que dá vontade de pedir socorro a Homero e à ideia dum concílio dos deuses determinado em cegar todo um povo.

sábado, 29 de agosto de 2009


(José Ames)

O HOMEM QUE GOSTAVA DO DESERTO


Howard Hughes


No “Aviador”, filme de Martin Scorcese, a caricatura do milionário, privilegiado sem alma, indiferente à sorte do seu semelhante, não existe. O que existe é a ideia duma paixão útil ao seu país: os aviões, mesmo se a excentricidade tudo parece sobrelevar.

Assim, o egoísmo e o prazer contribuem, consumindo o corpo, os milhões públicos e os da fortuna pessoal para o progresso duma indústria que interessa a todos.

Claro que Howard Hughes nos é apresentado como um louco visionário, amado mesmo pelos seus fracassos, que, apesar de tudo, sabe que existe uma espécie de Providência que transforma os erros privados em virtudes públicas. A história da aviação seria assim, como a de outras grandes realizações humanas, feita de génio, coragem, desapego pelo valor do dinheiro e de desafio das leis e das mentalidades.

A sua defesa no tribunal contra o requisitório do seu principal concorrente (a Pan Am) é uma invocação da ideia mais cara aos Americanos e que lhes vem dum período da sua história em que o Estado não era garante de nada: a iniciativa individual.

O fim de H.H. na loucura contribui para dissociar a sua figura da iconografia do capitalista, mesmo excêntrico. E se é verdade que nunca se perdoará a um multimilionário o seu dinheiro, também não se pode julgar a vida de um homem senão depois de ele morrer (Séneca).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009


Pulo do Lobo (José Ames)

A ERUDIÇÃO QUE DESAGRADOU A GOETHE


Palermo - 1740

Com modos muito pouco corteses, admoestei-o por estar a lembrar-nos esses fantasmas do passado. E fiz-lhe ver que já nos chegava saber que de tempos a tempos as colheitas eram arrasadas, senão por elefantes, pelo menos por cavalos e homens. Se ao menos não nos assustassem a imaginação e o seu sonho de paz com essas pelejas revisitadas!”

Assim se refere Goethe, nas suas memórias de Itália, ao incidente com o guia que insistia em lembrar-lhe que o lugar que visitavam, perto de Palermo, tinha sido o cenário da batalha de Panormus (251 AC), na qual o general cartaginês Asdrúbal fora derrotado.

Ao poeta chega o encanto do lugar e do momento presente, mas aquele tom até para si parece incompreensível, porque não é livre de preconceitos que a beleza se nos oferece. E a história romana, e o prestígio das suas personagens não é o que menos atrai ao passear entre as ruínas, as quais aparecem, então, como um índice materialmente pobre duma ideia maravilhosa que se alimenta das nossas leituras ou de outras formas de criarmos os mitos.

Como é do seu tempo o imperativo hedonista de agarrar o momento (carpe diem)! Porém, o seu sentimento de culpa, visível no tom de voz deslocado, anuncia já o espírito do turista moderno sempre em busca de informação e do “ter estado ali”.


quinta-feira, 27 de agosto de 2009


(José Ames)

A ARCA EM DIRECTO


O sacrifício de Noé (Jacopo Bassano)

Os leões observam, cheios de prudência e força, nos possantes êmbolos dos músculos depois correm, mandíbulas e garras a seguir despedaçam a presa ou lutam com um rival pela mesma fêmea. Eles, os leões, têm um nome e o seu repouso e os seus combates recebem duma psicologia de empréstimo as intenções e os desejos.

As séries da televisão sobre a natureza selvagem são um holofote no habitat dessas criaturas que acossámos nas suas reservas, mas que não podemos deixar em paz, porque as feras são como que o último elo que nos prende a um estado original de graça.

Gostamos de saber como vivem os animais e de neles encontrar uma sabedoria anterior ao “homo sapiens”. Como se expulso Noé e o Deus do Dilúvio, recorrêssemos ainda à sua Arca para bricolar uma moral.

Mas é só televisão!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


Taormina (José Ames)

O HOMEM SEM QUALIDADES


Robert Musil (1880/1942)

O Homem sem Qualidades (HsQ), que não sabia decidir-se sobre um estilo para a sua nova casa, porque havia excelentes argumentos para qualquer das opções, chega por um excesso da inteligência ao grau zero da política (também aqui a sua liberdade de escolha ficava paralisada).

Robert Musil é, assim, o genial percursor, com o seu HsQ, do conceito de politicamente correcto, tão em voga nos nossos dias.

A pretensão à ausência de preconceitos é ainda um preconceito, com a diferença de ser perfeitamente estéril (confrontar com as ilusões dum programa de televisão, como “os Prós e os Contra”). E o que falha na inteligência de Ulrich (o HsQ) é que ele se dispõe a viver o seu alto conceito de civilização, como se a sua superior inteligência bastasse.

A inteligência nada cria e o mundo que defronta não é racional. Deixa-se pensar. E são as raízes que pensam.

terça-feira, 25 de agosto de 2009


(José Ames)

CONVERSA SEM ASPAS



Estou sentado numa esplanada e oiço uma conversa entre amigos. Não os conheço, são apenas pessoas que passam um quarto de hora juntas, a ver o espectáculo da praia e a tomar uma bebida.

É espantoso como o nosso juízo depende de darmos ou não alguma dimensão às pessoas porque as conhecemos muito ou pouco, são familiares ou amigos, por exemplo, ou de as colocarmos num plano de completa indiferença, segundo um conceito.

No primeiro caso, tudo o que se diz tem aspas e nunca quer dizer só o que parece. Há uma profundidade que se furta ao olhar, mas que já sondámos num ou noutro ponto.

No outro caso, é uma conversa oca e banal, que nos admira ter ainda uma função e não descair no puro aborrecimento.

Se nos lembramos que está ali, talvez, a única transcendência que podemos conhecer...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009


Dubrovnik (José Ames)

A ATENÇÃO


A noite estrelada (Van Gogh)

Alain diz que a atenção é religiosa ou não é.

Há muitas maneiras de nos distrairmos: distraímo-nos de alguma coisa ou com alguma coisa, perdemos a atenção, por estarmos cansados, não prestamos atenção a um pormenor significativo; vemos a televisão para nos distrairmos, ou porque alguma coisa nos preocupa em demasia, porque queremos desviar-nos duma obsessão, porque não queremos pensar. Mas há uma só atenção que é a atenção pura, que considera os astros, conforme a etimologia. O que a torna menos pura, até à vigilância animal é o interesse.

A atenção normal é como uma luz de vigia, pronta para tocar o alarme, se for necessário. Tudo o que não nos interessa permanece fora desse panóptico quase instintivo. Não precisamos para isso de verdadeira atenção. Se um perigo iminente nos desperta vivamente é sempre para o imediato, para as causas e consequências próximas.

Se a atenção se exerce, de facto, é porque estamos já fora do caminho habitual, para lá do interesse prático. Ela dirige-se para o que nos ultrapassa infinitamente (mesmo dum ponto de vista ateu) e compreendo porque faz sentido que tenha de ser religiosa. Porque, face a essa transcendência, é já uma aspiração, muito para além do interesse e do saber. De antemão aquiescente com o sentido que procura.

domingo, 23 de agosto de 2009


(José Ames)

MOVIMENTOS DE COPA


Louise Brooks

Interessante questão é saber se a opinião política da mulher continua a ser, dum modo geral, mais conservadora do que a dum homem, numa era em que a questão da igualdade e a liberdade dos costumes sofreram tão consideráveis transformações.

Ninguém negará que a fisiologia da mulher, por causa da sua função reprodutora, a aproxima da natureza, com cujos ritmos e segredos se identifica muito mais do que o homem, o sexo da actividade e da razão separada (pensar realmente, pensa-se com o corpo todo).

Por isso a resposta à questão inicial parece dada. Se revolucionário se opõe a conservador, é o homem que é revolucionário, porque mais longe das raízes, tem mais movimento de copa.

Para competirem com a mesma liberdade, os sexos devem esquecer as diferenças, e é o que significa um certo radicalismo feminista.

Mas quem disse que a justiça é competição?

sábado, 22 de agosto de 2009


Santo Tirso (José Ames)

O PILRITEIRO DE MARCEL

Um pilriteito (Crataegus oxyacantha)

Evocando os festões branco e rosa do pilriteiro no caminho de Swann, Proust fala em epifania. Um ser desconhecido se manifesta na sua exuberância enchendo de júbilo a alma do narrador.

A Botânica, no autor da "Recherche" é toda uma reserva de metáforas, a mais genial das quais é a descrição do encontro de Jupien e do barão de Charlus no pátio dos Guermantes, como a improvável conjunção do insecto raro e da orquídea exótica:

"Eu sabia que esta espera não era mais passiva do que a da flor-macho, cujos estames se haviam espontaneamente orientado para que o insecto mais facilmente pudesse recebê-la; do mesmo modo, a flor-fêmea que estava ali, se o insecto viesse arquearia, coquete, os seus "estilos" e para ser melhor penetrada por ele faria imperceptivelmente, como uma donzela hipócrita mas ardente, a metade do caminho."(*)

Se fosse possível fazer tábua-rasa do aluvião psicológico que inundou a literatura e dos múltiplos avatares da psicanálise, seria preciso um regresso a La Fontaine, procurando as ideias no reino animal, ou ao pilriteiro de Marcel que como um crescendo musical nos envolve numa nuvem de pólen e alegria.

(*) Marcel Proust (in Sodoma e Gomorra)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009


(José Ames)

DESIGUALDADE



"As nações do nosso tempo não podem impedir os homens de se tornarem de condição igual, mas depende delas que o princípio da igualdade deva conduzir à servidão ou à liberdade, ao conhecimento ou à barbárie, à prosperidade ou à miséria."

"Democracy in America" (Alexis de Tocqueville)


Essa nova força que Tocqueville viu em acção faz hoje parte da "natureza das coisas". Ela exprime, no fundo, o primado da política sobre a religião. O homem religioso aceita as diferenças como sendo a vontade de Deus, enquanto o político procura sempre quem tira partido delas.

Uma sociedade desigual, hoje, não pode ter liberdade, nem conhecimento, nem prosperidade porque essa sociedade se encontra minada e desmoralizada pela divisão interna.

Para que algo como isso seja possível, tem que se alimentar a esperança num outro estado de coisas ou então promover o que se pode considerar como fatalismo. Não é Deus que quer, mas o sistema ou a economia.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009


Cáceres (José Ames)

POLÍTICOS RELUTANTES



"Todos os activistas que falavam nas manifestações e para a imprensa faziam discursos semelhantes, enfatizando os seus motivos aparentemente naturais e 'apolíticos', silenciando o espírito público dos seus motivos e as suas sugestões políticas. Assumiam que o fórum público era um lugar para os indivíduos queixosos exporem o seu lado da história, para falarem só por si."

"Avoiding politics" (Nina Eliasoph)


O inquérito de Eliasoph mostra que estes americanos, embora possam estar politicamente motivados e em privado se mostrarem tão "políticos" como os outros, tendem a abrigar-se, em público e sobretudo para a comunicação social, debaixo da capa do apoliticismo. Mas de que é que se protegem? Será um simples cálculo a pensar na eficácia da sua mensagem, um mimetismo do homem comum, supostamente privado da palavra pública e vítima de profissionais demasiado hábeis?

É como se esses activistas, a quem embaraça a assunção pública da política quisessem ocupar a tribuna sem arcarem com a suspeita e o descrédito que o sistema atrai sobre si.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009


(José Ames)

O HEMICICLO DESLIZANTE


Winston Churchill (1874/1965)


"Como de costume, as razões de Churchill eram interessantes e baseadas em amplos princípios. Ele explicou que era por favorecer o sistema de governo de partidos (contra aquilo a que chamava o sistema de 'grupo'). Numa câmara semicircular, explicou, 'é fácil para um indivíduo mover-se através dessas insensíveis gradações da esquerda à direita, mas o acto de atravessar o chão (duma câmara rectangular) é um acto que requer séria consideração."

"Cleopatra's nose" (Daniel Boorstin)


Tal como viu Descartes no seu profundo "Tratado das Paixões", é quase sempre o inferior que explica o superior. A fisiologia que esclarece a moral. Para lidar com as nossas paixões, o filósofo começa por expurgá-las da imaginação e guiá-las como se fossem simplesmente forças.

Em defesa do velho edifício do parlamento londrino, Churchill invoca um argumento que nos alerta para o que se poderia chamar de política dos espaços, para a função da arquitectura que não é apenas uma técnica e uma arte de construção, mas um sistema persuasivo.

Será que o hemiciclo corrompe a regra da distinção dos partidos? Podíamos então dizer que a famosa "promiscuidade" dos corredores se prepara no salão nobre.

terça-feira, 18 de agosto de 2009


Berlim (José Ames)

HERANÇA SEM TESTAMENTO


Thomas Cromwell (1599/1658)


“A Magna Carta (1215), por exemplo, não poderia ter sido debatida por mais do que um pequeno fragmento de Britânicos – ou mesmo de barões – do seu tempo. Escrito em Latim, uma língua estrangeira culta, o documento sobreviveu nalgumas variantes escritas ‘originais’ e entrou na tradição constitucional Britânica mais pelo boato e o ouvir dizer do que pela inspecção pública. A grande tradição duma constituição Britânica não escrita deixou o conhecimento e o escrutínio dos direitos dos Britânicos a juízes e advogados mais do que aos do público.”

“Cleopatra’s nose” (Daniel Boorstin)


A seguir, Boorstin realça o novo e importante significado, para a democracia, que assume uma constituição escrita como a dos EEUU.

As tradições contam muito num país como a Grã-Bretanha que, ao mesmo tempo, está aberto a todas as inovações técnicas e à revolução dos costumes. O pragmatismo enforma a mentalidade geral e a ideologia é vista com suspeita pelo que promete de condicionamento da liberdade do indivíduo, embora haja quem veja nessa atitude a adopção inconsciente, e por isso mais perigosa, duma ideologia.

Mas o facto de nunca ter sido precisa uma constituição escrita pressupõe que a eficácia do sistema legal dos Ingleses se deve a um processo natural de crescimento. Porque é mais fácil de conceber uma mudança de ideias do que uma mudança de natureza, a herança da Magna Carta sobreviveu sem grandes crises, tirando o episódio de Cromwell e dos seus ironsides. Talvez por isso, este povo nunca tivesse sentido o que levou o poeta René Char a dizer “notre héritage n’est précedé d’aucun testament”, na sequência do colapso da França, durante a segunda guerra mundial, e da necessidade abrupta da acção (Hannah Arendt).

Por outro lado, a constituição americana parece mais ideológica do que o povo a que se aplica, sem dúvida por influência da Revolução Francesa e das ideias do tempo. E pode pensar-se que o facto de ela nunca ter sido realmente alterada reflicta a necessidade, para uma nação sem tradições, de sacralizar o seu documento maior.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


(José Ames)

O INFERNO NÃO É PRECISO


O Panóptico de Bentham


"Superficialmente falando, a perda da fé nos estados futuros é politicamente, senão decerto espiritualmente, a distinção mais importante entre o período presente e os séculos anteriores."

"La crise de la culture" (Hannah Arendt)


Se o medo do Inferno já não tem qualquer utilidade política e os "amanhãs que cantam" não modelam nem inspiram os que são o "sal da terra", o que impedirá os homens de mentir e de fintar a lei sempre que podem?


O medo das sanções depende, por outro lado, dum panóptico (Bentham) que elimine as zonas de sombra e os ângulos cegos. Podemos, graças à tecnologia, imaginar um poder que tudo vê e a quem só falta espiolhar a nossa consciência (mas o behaviourismo pode ajudar), para que a função penal da religião seja substituída com sucesso.

domingo, 16 de agosto de 2009


Braga (José Ames)

FORA DA CAVERNA



"Possibilidade, necessidade, são nestas linhas (de Tucídides) os termos opostos à justiça. É possível tudo o que um forte pode impor a um fraco. É razoável examinar até onde vai essa possibilidade. Se a supomos conhecida, é certo que o forte cumprirá a sua vontade até ao extremo limite da possibilidade. É uma necessidade mecânica. De outro modo, seria como se ele quisesse e ao mesmo tempo não quisesse. Há aí necessidade tanto para o forte como para o fraco."

"Formes de l'amour implicite de Dieu" (Simone Weil)


Tal como Descartes conseguia imaginar o homem-máquina separado do espírito, temos nesta interpretação weiliana dum episódio da guerra do Peloponeso uma versão da pura mecânica social.

Só o espírito é criador porque não está sujeito à "necessidade" (a não ser a da sua própria lei). Para que o general ateniense respeitasse a fé e a liberdade dos habitantes da ilha de Melos teria de encontrar uma resistência que a fraqueza militar destes não poderia oferecer. A destruição de Melos estava assim ditada pela sorte. Esse destino só poderia ter sido diferente se a vontade ateniense fosse desarmada por outros pesos e outras medidas, por outra escala de valores, que Simone identifica com a graça e com a atenção "ao que não existe" e cita S. Paulo: "a fé é a visão das coisas invisíveis."

Os Atenienses não tinham a noção de um deus que "não mandasse onde quer que tivesse o poder". Simone compara a graça a uma espécie de génio. Esse génio faltava de todo aos mais fortes.

A necessidade mecânica (podemos nela incluir o instinto e a sensualidade) não tem, pois, nada a ver com a justiça. Esta só aparece quando a força se mede com outra força que deixe o resultado em dúvida.

Mas quando a sociedade se torna suficientemente complexa, a força não se mede só em espingardas, nem o poder simplesmente pelo estatuto ou a hierarquia. É tudo muito mais indecidível e por isso a justiça é muitas vezes requestada como uma espécie de técnica para se sair do impasse. Maquiavel subscreveria isto. É por isso que Platão a queria (à justiça) fora da Caverna.

sábado, 15 de agosto de 2009


(José Ames)

O PRAZER OBRIGA


Marcel Proust (1871/1922)


"(…) se Mme. Verdurin não fosse verdadeiramente indiferente à morte da princesa, para explicar que recebesse, deveria acusar-se duma falta bem mais grave? Esquecia-se que Mme. Verdurin teria confessado, ao mesmo tempo que o seu desgosto, que não tinha a coragem de renunciar a um prazer; ora, a dureza da amiga era qualquer coisa de mais chocante, de mais imoral, mas de menos humilhante, por conseguinte mais fácil de confessar, do que a frivolidade da dona da casa."

"La Prisonnière" (Marcel Proust)


Para não se recusar o prazer de receber, uma vez mais, a sua côterie, a Patroa prefere demonstrar uma chocante insensibilidade pela morte de um dos seus fiéis. É o mecanismo que levava o Duque de Guermantes, já com o fraque vestido, a considerar um exagero a notícia da morte dum seu primo.

É preciso um dilema como este, entre a obrigação e o prazer, para o verniz da urbanidade e da cortesia estalar, abrindo embora as fissuras que desfeiem menos, pois, como explica Proust, "Em matéria de crime, onde há perigo para o culpado, é o interesse que dita a confissão. Para as faltas sem sanção, é o amor-próprio."

sexta-feira, 14 de agosto de 2009


Manhouces (José Ames)

O SHERPA E O FILÓSOFO


Um sherpa do Nepal


"A consequência mais significativa, que alarga o alcance e o território da descoberta negativa, é uma relação alterada dos dados com o sentido. Antes da era do observador mecanizado, havia uma tendência para o sentido ultrapassar os dados. A moderna tendência é bem o contrário disso, quando vemos os dados ultrapassarem o sentido."

"Cleopatra's nose" (Daniel Boorstin)


Um exemplo da descoberta negativa, para Boorstin, é o trabalho de Copérnico estabelecendo que a Terra já não era o centro do universo. Toda uma visão focada para o geocentrismo perdeu, assim, o sentido.

Dum certo modo, os dados nunca faltaram, Durante muito tempo, acreditámos nos nossos sentidos, como S. Tomé. Mas os nossos sentidos não estavam sujeitos à revolução permanente da "observação mecanizada". Já não estamos, por isso, na medida humana, que é a única criadora de sentido.

A montanha de dados que cresce para fora do sentido espera o sherpa que vença a sua altura e o filósofo que diga, como Hegel diante de outra montanha: é assim."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009


(José Ames)

CABEÇA, CORAÇÃO E VENTRE


Emmanuel Gabellieri


"J.F. Mattei responde, com efeito, a Karl Popper que se Platão parece opor-se à ideia de igualdade política que é própria da democracia moderna, não é porque ele teria um modelo de pensamento tirânico, mas porque o seu pensamento do ser como harmonia, sistema de relações e de proporções, o interdita de pensar as relações do um e do múltiplo segundo a pura regra da igualdade numérica do idêntico. Ora, isto não exclui de modo nenhum o reconhecimento da exigência democrática, pois que se vê muito claramente que, para Platão, do mesmo modo que a filosofia é dialogal e não solitária, o regime político ideal não é a monarquia mas 'uma mistura' de monarquia e de democracia, como o diz o Estrangeiro nas 'Leis' (VI 757 b-e)."

"'Action' et 'Inspiration': un double fondement du politique?" (Emmanuel Gabellieri)


O conceito do regime político ideal pode ser uma aspiração dos indivíduos, mas nos que detêm o poder inspira normalmente a acção autoritária.

Mas talvez a questão esteja mal colocada e o melhor regime não tenha a ver com um modelo prévio, mas com a natureza e a história política de uma dada sociedade.

A democracia não podia ser o regime ideal para o filósofo de "A República" que via o político condicionado por uma natureza orgânica do social, com cabeça, coração e ventre. A estrutura de classes, desse ponto de vista, era necessariamente mais justa do que a igualdade "sem órgãos". Por muita volta que se dê, não se pode converter um aristocrata com tantas razões para o ser numa espécie de democrata à inglesa.

De resto, a igualdade em qualquer das democracias conhecidas é a sua parte utópica, e o que vemos é a reconstituição mais ou menos funcional dum "orgânico" que não é reconhecido na semântica para auto-consumo do regime.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009


Vila do Conde (José Ames)

HANNAH E SIMONE


Hannah Arendt e Simone Weil


"(…) S. Weil estigmatiza o individualismo latente da filosofia moderna do direito em nome da transcendência ético-metafísica. Mas, em consequência, a necessidade do direito parece negligenciada onde, finalmente, Arendt reconhece melhor o seu papel de mediação entre os indivíduos e a ordem política como tal (P. Moreau).

Se as proximidades parecem frequentes no plano ético-político, as coisas parecem à primeira vista mais difíceis no plano político-religioso. Arendt vê o germe do totalitarismo, não em primeiro lugar na absolutização do poder, mas 'na tentação da bondade' veiculada pelas revoluções modernas secularizando o desejo de incarnação do cristianismo (G. Decrop). O cristianismo seria assim 'anti-político' por natureza, centrado num além sem relação com a visibilidade do mundo, salvo corrupção perigosa da sua essência."

Emmanuel Gabellieri (coordenador do colóquio internacional "Amor mundi, Amor Dei. Éthique, politique et réligion chez Simone Wil et Hannah Arendt" organizado pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Lyon (2002)"


A experiência do nazismo pode ter na origem um desejo religioso, não havendo fanatismo senão de religião? Existirá, de facto, uma matriz comum por detrás da ideia de mudar o homem para seu bem, mesmo contra a sua vontade, e a ideia de "purificar" a raça e livrar a humanidade do sangue contaminado duma estirpe inferior ou maléfica para a saúde do arianismo e a sua hegemonia?

Para S.Weil, a "'banalidade do mal' habita toda a história humana, onde H. Arendt faz dela um traço específico do totalitarismo moderno, por meio do qual o mal absoluto entrou na história. S. Weil é menos pessimista neste ponto, mas é-o mais, em contrapartida, quanto ao laço eterno entre o mal e o político, ligado ao 'prestígio do poder', a acção autêntica consistindo em opor à fascinação do poder a frágil beleza do mundo comum ('Venise sauvée'), enquanto Arendt insiste mais na exigência duma pluralidade na acção (G.P. de Nicola)."

Embora os horrores do genocídio estejam presentes desde o próprio Antigo Testamento e, assim, não haveria que falar no mal absoluto, talvez se possa entender essa ideia através da mesma "banalidade do mal" que significará que o mal enquanto oposto do bem terá deixado de se reconhecer quando todos os limites foram ultrapassados. Então, para falarmos do mal só poderemos referir-nos ao Absoluto, porque o nazismo e o stalinismo puseram a ética comum no museu da história, "ao lado do fuso e da roca de fiar". Na mesma medida, só poderíamos também procurar o bem absoluto. É a ideia de Simone Weil.

terça-feira, 11 de agosto de 2009


(José Ames)

A PICARETA VOADORA



"Tomemos, por último, o Trotskismo que já desde há alguns anos vem criticando o nosso Partido da "Esquerda" e que, ao mesmo tempo, como o Quinto Congresso do Comintern correctamente o coloca, é um desvio pequeno-burguês. O que pode haver de comum entre um desvio pequeno-burguês e o espírito realmente revolucionário? Não é óbvio que as frases "revolucionárias" estão aqui meramente como camuflagem para o desvio pequeno-burguês?"

"The Seventh Enlarged Plenum of the E.C.C.I." (Joseph Stalin)


Não é óbvio que qualquer desvio da linha "correcta" só pode ter o mesmo discurso daquela por camuflagem?

Então mais preciso é que se ponha a ênfase no advérbio. Os desviantes não podem ser realmente revolucionários por causa do seu espírito pequeno-burguês. Eles pertencem a um estrato social que "constitui um meio mais ou menos comum para o oportunismo em geral".

Quando mostram sentimentos de "ultra-esquerda" é porque "esperam a vitória da revolução no próprio dia seguinte".

Mas o conflito com Trotsky não se pode resumir ao confronto entre a paciência ("científica") e a impaciência (oportunista). É o poder que está em causa, e as facções recorrem a todas as armas ao seu alcance. As de Trotsky eram sobretudo retóricas, mas as do seu arqui-inimigo podiam desferir um golpe de picareta a 10000 kms de distância.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009


Praia (José Ames)

A PRINCESA INCONTINENTE



O Duque de Saint-Simon (1675/1755)


"Era um fúria loira, e além disso uma harpia: tinha delas a falta de vergonha, a maldade, a hipocrisia e a violência; tinha delas a avareza e a avidez; delas ainda a gulodice e a prontidão em aliviar-se e levava ao desespero aqueles a casa de quem ia cear, porque nem precisava, ao sair da mesa, de toilette, a qual nem tinha frequentemente tempo de alcançar, e deixava um rasto medonho de sujidade no chão que dava muitas vezes um trabalho dos diabos ao pessoal de Mme du Maine e de Monsieur Le Grand. Ela não ficava de modo algum embaraçada, arregaçava as saias e seguia em frente, depois voltava dizendo que se sentira mal: estava toda a gente já habituada."

"Mémoires" (Saint-Simon)


Neste retrato da princesa de Harcourt, voamos nas asas do melhor estilo do cronista tão admirado e pastichado (como quem pratica o "cravo bem temperado") pelo autor da "Recherche".

Não sabemos se é justo (é uma fábula justa?), mas não sentimos a falta de uma hipotética qualidade nesta princesa da corte de Luís XIV. Basta-nos a cor forte, fauvista, para colocar este retrato no panteão da literatura.

E, para além do pitoresco da situação, não temos diante dos olhos a comédia humana do tempo, com aristocratas que se julgam acima das conveniências e criados a limpar o produto da sua incontinência, sem revolta, sem se perguntarem como hoje, com todo o direito, fariam se isso se enquadrava nas suas funções?

domingo, 9 de agosto de 2009


(José Ames)

AS ALTURAS


http://www.science-et-vie.net/img/illustrations/T/trou-noir-stellaire.jpg


"Há espanto diante da extraordinária ruptura do alto num espaço fechado ao movimento. A altura toma assim a dignidade do superior e torna-se divina. Desta transcendência espacial atravessada pela visão, nasce a idolatria.

Diferentemente da agitação em que se debate a concupiscência (epithemiticon), diferentemente das deslocações para o alvo em que o olho antecipa o gesto da mão, a abóbada celeste confirma o repouso imperturbável da terra firme. Este repouso reina e, para a autoridade do soberano, eleva-se a obediência anterior a todo o juramento, a religião."

"Transcendance, idolâtrie et sécularization" (Emmanuel Lévinas)


Nesta arquitectura do espírito, como se vê, a ideia de Deus não é necessária. O contraste entre o céu ilimitado e a terra onde tudo é limite é representado no olhar daquele que adora, como toda a arte religiosa no-lo deu a ver. Assim, é o Deus dos idólatras, do terrível e do sublime kantiano que cai no âmbito da desproporção física. Essa desproporção "torna-se divina", como diz Lévinas.

Todos os que são testemunhas desse incomensurável não podem senão fazer corpo, identificando-se com uma certa abjecção.

Este ligar-se com (re-ligare) começa por ser a fisiologia do grupo para se erguer depois à altura do diálogo com a divindade.

sábado, 8 de agosto de 2009


(José Ames)

NEOLATRIA


Alexis de Tocqueville (1805/1859)


"O papel que, da Antiguidade aos nossos dias, todas as utopias políticas atribuem à educação, mostra bem quanto parece natural pretender fundar um novo mundo com aqueles que são novos pelo nascimento e pela natureza. No que respeita à política, há aí, por certo, um profundo erro de concepção: em vez de se juntarem aos semelhantes esforçando-se por agir pela persuasão e correndo o risco de fracassar, intervém-se dum modo ditatorial que se funda sobre a superioridade absoluta do adulto, e tenta-se dar lugar ao novo com um 'fait accompli'."

"La Crise de la Culture" (Hannah Arendt)


Já Tocqueville tinha notado o entusiasmo americano por tudo o que é novo. O papel destinado à educação é uma das utopias aplicadas menos reconhecidas enquanto tal e mais equivocamente consensuais.

Arendt, contudo, chama a atenção para o que significa essa pretensão de, através da educação das crianças (oí neoí, os novos, para os Gregos) transferir para a geração futura a obrigação de criar um mundo melhor. Se a "Revolução" se pode fazer assim, naturalmente, quase pela acção do tempo, qual será a necessidade da política?

Esta abdicação dos adultos pode ser característica da neolatria dos Americanos (Tocqueville, enviado para estudar o sistema carceral, terá sido particularmente sensível a este apoliticismo), mas a Europa, embora influenciada pelo idealismo de Rousseau, seguiu um caminho muito diferente.

Entretanto, fomos também contagiados pela neolatria, mas não se pode dizer que a educação passasse a assumir aquele papel revolucionário. A principal razão talvez seja a de que a própria ideia de Revolução deixou o plano político para voltar ao definitivamente utópico (não se encontra em lado nenhum), com a consequência do nosso mundo, imperfeito como é, assumir, paradoxalmente, a qualidade das coisas acabadas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009


(José Ames)

A MÁQUINA DE ESCREVER


http://www.pseudo-sciences.org/IMG/jpg/271Psychanalyse.jpg


"Estes dois termos (libido e eros) não têm a mesma história, mas apesar disso, tendo em consideração a época presente, podem comparar-se. Quando a psicanálise (porque uma época que foge da profundidade intelectual só pode saber com espanto que possui uma psicologia das profundezas) começou a tornar-se uma filosofia na moda e veio romper a monotonia da vida burguesa, tudo se explicou pela libido, ao ponto de, em última análise, ser tão difícil de dizer desta chave (ou falsa chave) o que ela poderia ou não poderia ser."

"L'Homme sans Qualités" (Robert Musil)


Parece que esta profundidade nada tem de elaborado ou de particularmente misterioso, pois seria, de facto, uma superfície próxima mas separada por um véu que nos escondesse o mais trivial dos espectáculos. Afinal nem se trata de psicologia, mas de fisiologia e instinto.

Se não fosse o número ventríloquo do psicanalista, nem seria possível contar a partir disso uma história. Mas o emprego do mito grego no contexto moderno deu à nova "ciência" as suas "lettres de noblesse" e abriu o inconsciente à escrita.

Serão os símbolos, além do resto, máquinas de escrever?