quarta-feira, 30 de novembro de 2016

(Braga)

UM HOMEM


THEORYKAL (CRÍTICA DA RAZÃO IMPURA): KARL MARX E 'A MISÉRIA DA ...


"Foi Marx que disse que a teoria da selecção natural era essencialmente uma descrição do capitalismo sem o conceito de conflito de classes, mas Blanqui seguramente teria apreciado a observação."
(Andrew Krumey)

Se considerarmos a teoria de Darwin como empírica, resultante da observação, o conceito de luta de classes é, de facto, do mesmo género, porque pode ser 'deduzido' da experiência.Tal como a frase 'fatalista' de que 'sempre haverá pobres e ricos'.

Mas o autor da 'Evolução das Espécies' não concebe a sua teoria como podendo funcionar como uma intervenção do homem numa 'lei natural'. Como se sabe, Marx comparava a função da sua teoria (igualmente empírica), ao trabalho de uma 'parteira da história'.

E, apesar do Grande Desfecho se tratar de uma profecia sem fundamento científico, ele estava certo num ponto: é que as nossas ideias, se não forem pura imaginação do indivíduo, têm sempre resultados práticos, directa ou indirectamente. Quanto mais não seja, afectam o ideador (a tal ponto é assim que a sociedade julgou por bem, em certos casos, encarcerá-lo). Ora quando todo um grupo de pessoas, ou uma coorte (Norman Ryder), perseguem a mesma ideia, isso não pode deixar de ter consequências na pequena ou na grande história.

Nada disto precisa de ser 'verdadeiro'. Pode ser até falso, no todo ou em parte. Isto acontece com todas as crenças humanas que só têm de durar para serem 'históricas' e ganharam um estatuto para lá do que é verdadeiro ou falso, em termos científicos.

Marx, ou o movimento de ideias com o seu nome, a certa altura do século XX foi o 'horizonte inultrapassável da nossa época' (Sartre).

Foi apeado desse lugar cimeiro, não por 'um passo atrás' no processo histórico, nem por qualquer lei natural ou antropológica, mas porque não podia ser mais do que um homem.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

(José Ames)

MESLIER


http://xn--encyclopdie-ibb

"Em 1729, Jean  Meslier,  um padre paroquiano exemplar, morreu cansado da vida, deixando as suas magras posses aos seus paroquianos. Entre os seus papéis, estes descobriram o manuscrito da sua 'Mémoire' na qual declarava que a Cristandade era um embuste."

"The case for God" (Karen Armstrong)

Esta é uma história que John Le Carré gostaria, talvez, de ter escrito. Mas Meslier não era um agente duplo. Ter-se-á traído, isso sim, pelo gesto de deixar aos paroquianos o seu manuscrito, mandando para o Diabo todas as consequências. Não estávamos, porém, na era da comunicação global e das redes sociais.


O caso remete-nos, assim, para o homem que foi capaz de exercer exemplarmente o seu múnus e morrer de velho sem que o que realmente pensava afectasse a imagem que apresentara para o exterior. Era, pois, uma espécie de funcionário da Igreja que cumprira, com mérito, os deveres associados à sua função. Tal como o melhor espião é aquele que sabe esconder-se atrás do zelo faccionário.

Aqui só a psicologia pode ajudar-nos. O 'bom' padre na realidade não servia outros interesses ( a não ser os abstractos ligados ao ateísmo em que foi, segundo alguns, um percursor) nem teve que comprometer a sua honra. Achou, suponho, que era indiferente que ele ou outro 'servissem' uma religião que, apesar de aos seus olhos ser, no melhor dos casos, uma superstição, era uma espécie de fatalidade, sendo os homens o que são.

Antes dos Enciclopedistas e do Iluminismo, antes da Revolução, este juízo, não era necessariamente má-fé, nem a sua conduta hipócrita, para um pároco de aldeia não bernanosiano. E se alegarmos o seu ateísmo militante (a título póstumo), presente na célebre frase: "O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre", não fica provado que fosse desonesto, quando muito poderia ter sido fraco, o que é outra coisa. Como foram fracos quase todos os que obedecem ou obedeceram a uma ditadura.

Quanto às ideias 'pré-revolucionárias' de Meslier sobre o Cristianismo, só podemos achá-las ingénuas e confrangedoramente do seu tempo.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

(Almada)

A BONECA DE ÓSCAR

Oskar Kokoschka (auto-retrato como "artista degenerado")



Kokoschka,  o   célebre  pintor   vienense,  teve  um  caso  de paixão assolapada por Alma Mahler, a mítica viúva do grande compositor.

Quando romperam, e para se curar desse fascínio, o pintor mandou fabricar uma boneca, em tamanho natural, com o aspecto de Alma.

Conta Elias Canetti ("Histoire d'une vie"):

"(...)Ele arrastava para todo o lado essa boneca como uma relíquia das disputas passadas. No café, estava sempre sentada ao seu lado, tinha direito à sua própria chávena de café e mesmo, dizia-se, ao seu lugar na cama."

Não é por essa anedota que Kokoschka é conhecido, felizmente. Mas é instrutivo citar este exemplo das metamorfoses do amor.

domingo, 27 de novembro de 2016


(José Ames)

A ERÓTICA DO SUPERMERCADO

Marilyn (Andy Warhol)

O supermercado talvez seja um lugar em que Eros se dá mal.

A própria ordem dos produtos, o sistema dos preços, a replicação controlada (A Marilyn Monroe multiplicada de Warhol é uma desconstrução do desejo), tudo é mortal para o imaginário.

Não há precipitação, nem atracagem do desejo sem que se forme um objecto, e o objecto é negado pela sua replicação em série.

Nesta asséptica ratoeira, o impulso de compra releva mais do linguístico (a associação das palavras) do que duma imagem.

Por isso suponho que não haveria nada de mais inóspito para um "selvagem" do que um supermercado.

sábado, 26 de novembro de 2016

(Duíno)

DE SANTO E DE LOUCO

(Germaine Lubin e Hugo von Hoffmannsthal)


"Eu só posso respirar nas regiões inferiores. "Esta frase de Robert Walser poderia ser a divisa dos poetas. Mas os cortesãos não a pronunciam e aqueles que adquiriram a celebridade nem sequer ousam pensá-la. "Não poderia esquecer um pouco que é célebre?" declarou ele a Hoffmannsthal. Ninguém disse com mais vigor o que há de insuportável nesses que alcançaram o sucesso."

Elias Canetti ("Le Territoire de l'homme")

Esta modéstia compulsiva, tão indiferente aos seus títulos evangélicos ou outros, esta completa ausência dum sentimento da própria importância é o que aproxima tanto Walser duma espécie de santidade.

Contudo, sabemos que essa simplicidade (presente nas suas quase ingénuas imagens) era também alienação.

Como se o ditado de que "de santo e de louco, todos temos um pouco" se verificasse neste autor como um filtro tomado em doses mortais.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

(José Ames)

A SÉTIMA PARTE


http://verticis.com.br/blog/marketing/os-sete-pecados-do-marketing-online

"Seria preciso, por exemplo, que a toilete nos lembrasse a pureza interior, os bálsamos os deveres da alma, as massagens a mão do destino e a pintura das unhas dos pés o dever de sermos belos mesma nas dobras mais secretas."
"L'Homme Sans Qualités" (Robert Musil)

Tais são os princípios de uma personagem do romance, o professor Lindner, do qual  o autor nos apresenta mais este interessante apontamento: "Diante de um pequeno lavatório de ferro, lavava a cara, o pescoço, as mãos e um sétimo do seu corpo, cada dia um outro, naturalmente."

Embora o professor Lindner seja um pedante, as suas obsessões são fascinantes e reveladoras do eterno problema filosófico da ligação do corpo e do espírito, problema que, por exemplo, Descartes 'resolveu' com génio através da glândula pineal. Estava errado, mas como diz Chartier, estava errado da maneira certa, porque isolou o corpo-espírito, durante alguns séculos,  de uma deriva místico-metafísica. Sem isso, não seriam possíveis as chamadas ciências humanas.

É também a questão das imagens e dos símbolos que são necessários para que tenhamos presentes algumas coisas essenciais e que são invisíveis, por assim dizer. O protocolo higiénico do professor vai muito mais longe do que a higiene e até do que a moral. Ele serve, pelo seu exagero e 'excesso de consciência', como lente de um comportamento que é próprio de nós todos. E por que é que a 'sétima parte' do corpo, na sua forma vicariante, não é uma simples aberração?

O número sete, porém, diz-nos quase tudo sobre o assunto...

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

(Adare, Irlanda)

REVELAÇÃO FINAL



"Não  há  ciência  se  não  se  instituíram [...], numa  operação  independente,  as regras  arbitrárias  da  ciência.  É  no  arbitrário  que  a  ciência  se  prepara  para  fazer leis,  é  pelo  arbitrário  que  ela  é  possível."
(Paul Valéry)

Esta declaração parece provocatória, numa altura em que a ciência nos surge como a última esperança contra a incerteza absoluta, como a última 'terraferma'. Mas o 'princípio da incerteza' de Heisenberg é apenas um dos paradoxos através dos quais a ciência 'progride' como se houvesse algo acima da razão que os sancionasse, apesar de tudo.

Há um paralelo interessante que se pode traçar com a infância e as formas da primeira aprendizagem. Na verdade, todos começamos por repetir sons, palavras e frases que não compreendemos, cujo sentido se vai iluminando com o tempo. A língua materna, que é diferente de lugar para lugar, não tem nenhum vínculo com qualquer código de uma verdade universal. Nesse sentido, é arbitrária. Foi encontrada antes de ser instituída. Se regras há, é-nos impossível provar que podiam ser outras, o que parece o contrário de alguma coisa arbitrária. É, talvez, a mesma necessidade das leis da geometria que nós também não criámos e, por isso, não podemos responder por elas em termos absolutos.

Mas Valéry diz também que é esta qualidade do arbitrário que torna a ciência possível. O que significa que é o acaso que permite a existência de leis. Como assim?

É que se tudo estivesse 'determinado', e se tivéssemos consciência disso, não haveria diferença entre a existência e a ciência. Por isso é que a 'Revelação' pertence ao 'fim dos tempos'...


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

(José Ames)

A CAUSA DE TODOS OS CONFLITOS


"Alexandre  Herculano,  que  colaborou  com  Saldanha  no  golpe  de  1851  e  depois se  zangou  com  ele,  fez  a teoria  da  Regeneração.  A  causa  de  todos  os  conflitos estava,  segundo  ele,  em  Portugal  ser  um  país  pobre.  Muitos  dos  políticos, sem fortuna  pessoal,  dependiam  dos  cargos  públicos,  o  que  só  tornava  mais desesperada  a  sua  luta  pelo  poder.  Maior  riqueza  criaria  lugar  para  todos.  Uma boa  administração,  dedicada  ao  'fomento  material',  resolveria  tudo."

"História de Portugal" (coordenada por Rui Ramos, em co-autoria com Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro)

Como se vê, para Herculano, a pobreza do país não era uma fatalidade. Bastaria, diríamos nós hoje, que o desenvolvimento económico fosse a principal preocupação dos governos. Ele não diz governos, diz administração, o que pressupõe um regime em que os partidos estivessem focados nesse objectivo, o que é tarefa quase impossível, porquanto existem doutrinas e interpretações diferentes para o 'fomento material', para não falar do lastro aparelhístico e da competição pelo poder. Contudo, já experimentámos a ditadura militar e ideológica, com os resultados que se sabem.

Para além disso, e é talvez o mais importante, o pequeno país, mais ou menos isolado da 'civilização', que éramos na altura, é hoje uma malha de uma enorme rede internacional, e não há fio que se puxe sem resistência de interesses que, à primeira vista, não são os nossos, mas que se ligam com eles.

A nossa idiossincrasia, enquanto povo, nestas circunstâncias, está valorizada para além da medida. Não somos melhores nem piores do que os outros. E se fosse verdade o adágio de outros tempos 'pobrete, mas alegrete', estaríamos bem melhor do que outros.

O problema é que o 'alegrete' nos tempos que correm é sinónimo de alienação e de cretinice. As desigualdades que nunca deixaram de existir consideram-se, já não a vontade de Deus, mas a vontade de alguns homens. A ideia da Revolução estava, pois, na ordem das coisas virtualmente necessárias. Mas o fracasso da Revolução na Terra verificou-se ao mesmo tempo que um outro tipo de consenso pouco a pouco se impunha: o da comunicação instantânea e do simulacro da participação 'para além do voto'.

A Dívida é uma grilheta que arrastamos durante séculos e que tolhe os nossos movimentos, como está bom de ver. Mas nunca saberemos se, no caso de nos livrarmos dela, também nos livraríamos da pobreza de que falava Herculano, porque isso não depende só de nós.






terça-feira, 22 de novembro de 2016

(Valença da Minho)

A PERSONAGEM


(Drawing by Hans Olde from the photographic series, The Ill Nietzsche, late-1899)


"Overbeck  teve a impressão de que a loucura de Nietzsche era uma simulação. Impressão que sempre me deu um demente qualquer. O amor é talvez assim. Por metade, uma simulação."

"Cahiers III" (Albert Camus)

Devem existir tantos tipos de loucura quantas as personalidades. Ou pode pensar-se, como na teologia, que o Bem é único e o Mal é legião? Mas creio que neste caso, é mais ao contrário, com os loucos sob um grande chapéu, que vai da cretinice à esquizofrenia, e os 'normais' com a pletora de uma diferenciação sem fim, porque é assim que o mercado responde à armadilha da desigualdade extrema.

A simulação pressupõe a arte teatral. A falta de consistência da personalidade pode levar ao efeito Zelig (o genial filme de Woody Allen). O 'actor' desdobra-se em vários papéis sem um centro interpretativo. No limite, Zelig nem sequer chega a fingir.

Camus fala-nos de um outro tipo de louco, que está bem repartido entre os 'normais'. É, por exemplo, quando se diz que certa personagem pública se toma por ela própria, do género: "Napoleão era um louco que se tomava por Napoleão". E aqui temos de admitir que o corso feito imperador não teria podido levar a sua por diante sem simular que era, como dizem os americanos, 'bigger than life'.

Parece que Nietzsche tinha momentos de 'lucidez'. Era, então,  realmente, um homem caído nos abismos inacessíveis à razão humana, emergindo por momentos ao mundo dos homens, ou simularia ser Friedrich Nietzsche?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

(José Ames)

GÖDEL

(Einstein e Kurt Gödel)


"O matemático nascido na Áustria, Kurt Gödel, ensinou que, dada qualquer questão matemática que não tenha até agora encontrado resposta (excepto para questões que se resumem a um cálculo finito, como saber se White fez um movimento decisivo para ganhar um jogo de xadrês), é possível que a resposta não se possa provar a partir dos axiomas usuais da matemática. E, ainda assim, 85 anos depois de Gödel ter revelado esse pequeno monstro no centro da matemática, o facto é que ele tem estado a dormir, a maior parte do tempo. O Teorema da Incompletude de Gödel só levanta a cabeça em situações especializadas: para questões com que nos confrontamos apenas se estivermos à procura de verdades improváveis; ou questões da teoria transfinita dos conjuntos que nos levariam a argumentar que, de qualquer modo, nunca seria preciso ter respostas definidas; ou questões que indagam sobre se uma cadeia de 0s e 1s não tem padrão (mas a qual, por essa razão mesma, não têm geralmente interesse, a menos que por algum motivo nos preocupemos com essa cadeia sem padrão); ou questões que envolvam funções de crescimento super-rápido."

"The great mystery of mathematics is its lack of mystery" (Corey S. Powell, aeon.co)


Já Einstein se sentia perplexo perante a 'coincidência' do pensamento científico com o mundo.

Pode ser que a 'beleza do mundo' esteja apenas na nossa sensibilidade e que chegar à descoberta que o mundo tal como o descreve a nossa ciência é realmente verdadeiro e não um produto da imaginação seja uma experiência sobretudo estética que equivale a uma espécie de transcendência. Ao compreendermos a Natureza, através das suas leis, é como se nos alcandorássemos ao ponto de vista do Grande Arquitecto.

O que aconteceu depois de Gödel, é que a nossa compreensão do desenho do Universo assenta num instrumento imperfeito que não seria capaz de se justificar a si mesmo. Se formos tentados a explorar todos os seus mistérios depressa chegaremos à conclusão de que a Razão não foi feita para isso.

Então, parece que o que podemos compreender do mundo é apenas aquilo que de alguma forma nos ajuda a viver. E que o sonho de uma razão ilimitada no seu poder de dissipar os arcanos da nossa existência não está ao seu alcance.

domingo, 20 de novembro de 2016


(Ericeira)

O JARDIM DO LIBERTINO



"Depois, de todas as vezes que me encontrei em Pádua para acabar o meu direito, estive alojado em casa deste bom padre, mas sempre incomodado de aí ver junto de Bettine o casca-grossa que viria a desposá-la e para o qual ela não parecia feita. Irritava-me que um preconceito, do qual não tardei a desfazer-me, me fizesse reservar-lhe uma flor que eu teria podido colher."
"Memórias de Casanova"
Está aqui o homem todo.

O velho que escreveu estas palavras não desautoriza o jovem que as tinha no pensamento.  O libertino não é responsável. A sua vida é um passeio pelo jardim.

Por muito temente a Deus que fosse Casanova, era um homem do seu século que se tinha apropriado da religião como se fosse uma teoria do direito.

Nada podia já manter de pé a Bastilha.

sábado, 19 de novembro de 2016


(José Ames)

ARQUEOLOGIA DO INDIVÍDUO




"O mais admirável em Montaigne é que ele não tem pressa. Manipula docemente as emoções e os pensamentos mais impacientes. O interesse que dedica a si mesmo é inabalável. Nunca verdadeiramente se envergonha da sua personagem. Não é cristão. Tudo o que observa lhe parece importante, mas, no fundo, ele é por si mesmo a sua própria e inesgotável fonte de observação (...)."
Elias Canetti ("Le Territoire de l'homme")

Antes de Rousseau e do exame interior, da descoberta do indivíduo pelo romantismo, Montaigne é o moderno capital, para compreender a nossa própria época. Sem ele a psicologia e a aventura freudiana seriam incompreensíveis.

Já não é o mundo e a natureza que temos de explicar e comentar, mas o próprio pensamento. E Canetti tem razão, sem um forte cepticismo em relação à religião, nunca o homem poderia ter ocupado todo o universo.

Que interessa que o nosso próprio espirro nos ensurdeça?

"Quer o queira quer não, aquele que se estuda a si mesmo estuda todas as coisas. Aprende a ver-se, mas de repente, tanto quanto permaneceu honesto, ele descobre tudo o resto, e esse resto é tão rico como ele, e até, coroamento supremo, mais rico."
(ibidem)

sexta-feira, 18 de novembro de 2016


(Lisboa)

MÁQUINAS SOCIAIS



"Segundo os termos desta lei (a Lei das Doze Tábuas), os que fossem condenados por 'perduellio' (alta traição) eram  enforcados na 'arbor infelix' (uma árvore tida por desgraçada), ou atirados da Rocha Tarpeia. As suas famílias não podiam chorá-los e as suas casas eram arrasadas."
(Paul Veyne)

Passar segredos de Estado ao inimigo, no tempo da Antiga Roma, era muito mais grave do que a espionagem moderna que os romances de Le Carré tão bem comentam. O cinema também não existia para levar o espectador à empatia através da encenação ou do talento dos actores. O teatro de então permitia-se a sátira e a comédia mas no sentido do cinismo que endeusava os imperadores e acolhia os deuses estrangeiros.

A insidiosa 'dissolução dos costumes' e a decadência que se seguiu foram a consequência dessa mesma grandeza (no sentido espacial) que marcou a importância de Roma na história do Ocidente.

A simplicidade é uma virtude que não se pode conservar por muito tempo. O castigo da Rocha Tarpeia, quem o defenderia hoje, com a 'alta traição' de devassar um 'email' e de o publicar na rede tornada quase inevitável? Foi esse o crime de Snowden?

A simplicidade da República romana perdeu-se para sempre. O primarismo de alguns líderes mundiais da opinião e da política é, na verdade, um fenómeno complexo e não-pessoal. Não caracteriza, realmente, os indivíduos 'primários', mas as máquinas sociais de que fazem parte.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

(José Ames

A ANTIGUIDADE É UM POSTO


A hierarquia militar como fator criminógeno"


"'Eles são de pareceres opostos', dizia um comandante no cúmulo da agitação, 'e são ambos coronéis'; ao que eu dizia, julgando fazer espírito: 'É preciso saber qual dos dois é o mais antigo no posto.' Mas tal não foi de modo nenhum julgado impertinente. Era a solução. Julgue-se, depois disso, um chefe supremo."
(Alain)

Alain fala da guerra. Mas a política é a continuação etc., etc. A solução administrativa de um diferendo está contemplada no regulamento. É tudo enormemente facilitado.

No tempo dos aristocratas, não se podia ter razão contra um nobre, digamos, antes do Iluminismo. Embora Luís XIV, por exemplo, obedecesse ao seu médico e ouvisse o seu confessor, ou até o carpinteiro do palácio quando se tratava das medidas de uma janela, no fundo, isso resultava da sua crença em Deus e na existência de intermediários. Não foi por acaso que os revolucionários endeusaram a Razão.

Ora, o sistema militar não peca por falta de racionalidade. Antes pelo contrário. Foi também Alain que disse que com aqueles princípios o mais certo seria a ruína  programada... racionalmente. Mas isto é a infância do racionalismo. Já devíamos ter todos percebido que a sociedade humana utiliza o método racional, necessariamente, mas não é racional.

Em comparação, o sistema que proclama assentar na vontade popular e que, por isso, tem de recorrer à encenação e ao teatro, só é racional na medida em que os seus 'artistas' conseguem simular um consenso. A democracia é, ainda assim, 'o pior dos regimes, excepto...' etc. porque nos dá a ordem racional, sem o regulamento.

Mas tudo nas nossas origens explica o magma que ameaça o consenso democrático.

Quando a tecnologia complica esse consenso e torna mais problemática a definição do povo eleitor, não só a formação de uma vontade colectiva, mas a capacidade do voto se separar do ruído dos mídia e da ciberesfera e assim traduzir uma opinião autêntica, como seria aquela que idealizaram os legisladores da democracia, temos de nos perguntar se ainda estamos no político ou se já entramos numa outra espécie  de consenso, o consenso das partículas e da sociedade digital.

O 'Corpo sem Órgãos' de que falavam os autores do Anti-Édipo?

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

(Paris)

O PÓS-VERDADE



"(...) o  que  há  de  deplorável  nas  teorias  modernas  do  comportamento  não  é  que sejam  falsas,  é  que  se  podem  tornar  verdadeiras,  é  que  são,  de  facto,  a  melhor conceptualização  possível  de  certas  tendências  evidentes  da  sociedade  moderna."
(Hannah Arendt)

Não precisamos de imaginar o que  é a multiplicação da 'doxa' e a sua creditação pelo número nas redes sociais, contaminando todos os 'media'. Acabamos de as ver em grande escala nas presidenciais americanas.

Não chega a ser uma teoria. É um simulacro da 'vontade eleitoral' que é bem pior. Esse povo que se revela no Twitter e no Facebook nada tem a ver com a 'atomização' da sociedade individualista que alguns ainda temem. É o princípio da 'desestruturação' política e social do Povo que substituiu o Deus das monarquias na legitimação da sociedade democrática.

Os Dicionários Oxford escolheram  'pós-verdade', cujo uso se acentuou no contexto do Brexit e da eleição de Trump, como a palavra do ano. Diz a notícia do 'Guardian': "(a palavra) é definida pelo dicionário como um adjectivo 'relacionado ou denotando circunstâncias nas quais os factos objectivos têm menos influência na conformação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal."

Mas parece-me que isto não é o mesmo que desprezar conscientemente os factos. É fechar-se a qualquer demonstração contrária à paixão política. Infelizmente, a formulação do Dicionário implica que para o eleitor enviesado se pode passar por cima da verdade. Não é isso.

De qualquer modo, o que ressalta desta situação é que estamos a regressar ao ambiente dos comícios da Roma Antiga, em que a opinião 'popular' era manipulada por alguns grupos quando não era simplesmente mercenária.

As redes sociais têm agora o mesmo privilégio comicieiro que a plebe de Roma tinha sobre a população de Itália e das províncias do império.

O 'pós-verdade' é como o regresso do 'Grande Animal' platónico ao trono do Povo Soberano.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

(José Ames)

TEOLOGIA


Renee Bolinger - Philosopher Portraits: Gottlob Frege

"O pensamento não tem necessidade para existir de nenhum complemento, é um todo acabado. Pelo contrário, a negação tem necessidade de ser completada por um pensamento."
(Gottlobe Frege)

Deus existe sem negação até ao momento de uma célebre dissidência. A ideia de Deus é perfeita se fizermos a abstracção do tempo. Começando ele a correr (o que é, sem dúvida, um antropomorfismo) surge o momento criador, o tempo da abertura à negação. É aí que cabe o livre-arbítrio humano.

A matemática, que está fora do tempo, é um todo acabado com um ponto de fuga: os números irracionais. Como a teoria da Relatividade, tem o seu próprio ponto de fuga que é a ideia do buraco negro. Parece que esta teoria só é sustentável enquanto a matemática for capaz de manter os buracos negros fora da existência, como entidades abstractas necessárias à coerência einsteiniana.

Isso significa, voltando à teologia, que o Diabo é necessário à harmonia da Criação. Com a condição de permanecer num estado mitológico semelhante à abstracção de um buraco negro.

Claro que hoje podemos falar de Deus e do Diabo como os Gregos falavam dos seus deuses, sem o mínimo sentimento de transcendência.

Como o pensamento, em Frege, a perfeição divina não precisa de complemento. Até que se 'corporiza' no tempo humano. E o homem é o 'nec plus ultra' da imperfeição e da incompletude.

Pelo simples facto de existirmos já somos negação. O pensamento sem a sua sombra está no Paraíso de Dante.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

(Hamburgo)

A PRODUÇÃO DO TÉDIO


O que entretém a plausibilidade de certas cenas em que D. Quixote vê a realidade corresponder à sua loucura e dar razão às suas mais descabeladas fantasias é que os outros, o mundo dos razoáveis, encenou realmente as suas histórias, sem se preocupar com os rabos de gato que deixava de fora.

E o motivo que, por exemplo, levava os Duques a condescender em aventuras como a da ilha da Barataria e do governo de Sancho Pança era simplesmente o de se divertirem à custa de dois pobres de espírito.

O tédio é um grande empresário.

domingo, 13 de novembro de 2016

(José Ames)

BAQUIANA JOANINA





Há um quadro de Leonardo da Vinci que mostra bem a liberdade que um artista com a sua fama se podia permitir, mesmo perante um rei tão poderoso como Francisco I, que lho encomendou.

O João Baptista não lhe interessava como tema religioso, nem ele era suficientemente humilde para se apagar por detrás de uma tradição.

Enquanto a sua representação da virgem se mantém no domínio de uma feminilidade e de uma maternidade intemporais, este varão, percursor do Cristo e que se alimentava dos gafanhotos do deserto, muda flagrantemente de sexo, a ponto de causar escândalo, e dos seus atributos (a cruz que se transforma em tirso e os rins passando a cobrir-se duma pele de leopardo) terem que ser mudados para dizer "a cara com a careta". 

João reaparece como Baco, numa Arcádia que já o era, muito mais do que deserto. De perna traçada, à beira do caminho, não anuncia nada, a não ser a sua graça feminil. E aquele indicador apontado para O que vinha a seguir e a intensidade do olhar que acompanha esse gesto parecem, na verdade, convidar o passante para uma aventura equívoca.

sábado, 12 de novembro de 2016



A PAIXÃO DA ORDEM

Schlichter / Blinde Macht, 1937


"O amor do poder é no fundo o desejo de estabelecer uma ordem entre os homens e as coisas à sua volta, uma ordem grande ou pequena, e esta ordem é desejável pelo efeito do sentimento do belo."

Simone Weil ("Attente de Dieu")

Perguntamo-nos se isto tem alguma coisa a ver com a realidade, quando pensamos em alguns casos concretos de vontade do poder.

Na origem, estaria a ideia socrática de que nenhum homem é mau voluntariamente, a qual, pelo menos, nos permite reconhecer a natureza e a dimensão social do homem.

Não se trata de negar a responsabilidade prática que condena a sociedade a "usurpar" uma justiça necessária. É que a outra ideia de que a raiz do mal está toda no indivíduo é tão abstracta como a própria ideia do indivíduo isolado e auto-suficiente.

Dentro desse espírito, é incompreensível que se persiga o poder sem uma qualquer ideia de ordem futura, ideia que já justificou todos os crimes no passado, como se sabe. Que esse futuro seja belo e radioso aos olhos do maior carrasco, também já se viu.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

(José Ames)

A LIOFILIZAÇÃO DOS SONHOS




"A nossa oniromancia moderna torna apenas mais ordinários os homens. Ela descolora a imagem da sua tensão interior, em vez de a esclarecer."
Elias Canetti ("Le Territoire de l'homme")

Por que é que tudo o que tocamos se transforma em "matéria circulante"?

Aplicamos uma grelha de leitura, simulamos um modelo, verificamos uma hipótese, é assim que avançamos na conquista do mundo.

Há muito que o Cavalo de Tróia foi introduzido na cidadela interior para matar os nossos sonhos com palavras.

"Ai do louco que os interpretar (aos sonhos) depressa de mais: perdê-los-á para nunca mais os encontrar; murcharão antes mesmo de os ver reverdecer."
(ibidem)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

(Porto)

ANAMNESE DE UMA NAÇÃO

(American Civil War)



"'Se  quiserem  fazer  eleições  com analfabetos', berrava  ele  aos evolucionistas, 'façam-nas  os  senhores, porque  eu  quero  fazê-las  com votos conscientes... Indivíduos  que  não conhecem  os  confins  da  sua  paróquia, que  não têm  ideias  nítidas  e  exactas  de  coisa  nenhuma,  nem  de  nenhuma  pessoa,  não devem  ir  à  urna,  para  não  se  dizer  que  foi  com  carneiros  que  confirmámos a República!' Esses  indivíduos  eram  quatro milhões  e  meio  de  portugueses, mais de quatro quintos do país."

(Vasco Pulido Valente in "A República Velha")

Muitos democratas nos EUA talvez gostassem de excluir do direito de votar a maioria de 'analfabetos' que Donald Trump conseguiu apascentar. São pessoas "que não conhecem os confins da sua paróquia", nem estão interessadas na retórica da globalização. E, também, se podia dizer que  "não têm  ideias  nítidas  e  exactas  de  coisa  nenhuma". Desconfiam dos líderes da nação, de Walt Street e da Google. Numa palavra, não são modernas, nem 'politicamente correctas'. Fazem lembrar aquele povo dos Apalaches que persegue os domingueiros da canoagem em 'Deliverance', o filme de John Boorman. Tal como essa gente perdida das montanhas por onde passa o rio Chattooga, a nova maioria parece ter surgido do nada, tal era o ruído de fundo da América dos prodígios, da alta finança e da tecnologia.

Haverá sequer uma linguagem comum? A América da prosperidade escondia um 'deficiente' no quarto da criada. E uma personagem 'clownesca' (um Joker como o de Batman?) soube dar-lhes voz e falar a sua   linguagem reprimida, por muito que os palavrões e a gesticulação malcriada escandalizem os 'afluentes', os únicos que existem para a 'indústria dos sonhos', que formata o imaginário americano.

No Portugal do princípio do século XX, os quatro quintos do país rural e analfabeto voltaram facilmente ao seu longo silêncio pária, como pretendia o chefe do partido republicano. Afonso Costa não era um democrata.

O povo americano viu-se, nestas eleições, num espelho fragmentado. As circunstâncias do  'nascimento de uma nação' trabalham o fundo do pensamento de todos. Afinal, talvez haja uma falha maior do que a de Santo André, no coração americano.