domingo, 31 de julho de 2016

(Elvas)

EROS E TÂNATO




"Podemos dizer do erotismo que é a aprovação da vida até na morte. Propriamente falando, esta não é uma definição, mas creio que esta fórmula dá melhor do que nenhuma outra o sentido do erotismo."

"L'érotisme" (Georges Bataille)

Um filme de 1976, considerado por muitos como pornográfico, "O império dos sentidos", de Nagisa Oshima, parece ilustrar esta concepção. Os amantes deixam-se guiar por um instinto do prazer que os leva à exaustão e à morte. Não podemos, claro, deixar de ver aqui, o aspecto doutrinário do sexo. Michaux dizia que, na nossa época, o 'phalus' se tinha tornado 'doutrinário'. Isto é, tornou-se cultura, em vez de obedecer a qualquer instinto genesíaco.

Freud, nos últimos tempos, debateu-se com a sua famosa 'pulsão de morte', sem ter desenvolvido o conceito. Poderá explicar-se o suicídio com uma tal pulsão? E não sacrificará, no fundo, aquele par do filme japonês ao mesmo 'instinto'?

A 'aprovação da vida' acaba, assim, por ser reduzida à mais feliz das eutanásias. Uma despedida da vida num outro castelo de Silling, como o de Sade.

Mas há aqui, além disso, uma contiguidade com o budismo que transfigura de todo a pornografia.

sábado, 30 de julho de 2016

(José Ames)

ARQUEOLOGIA DE CÉZANNE

"Jogadores" (Paul Cézanne)

A revolução de Cézanne, pintor em que tantos reconhecem o pai da pintura moderna, corresponde ao fim duma certa natureza e da inocência do olhar.

A ideia de geometrizar as formas e de recusar a ilusão da perspectiva e do sensualismo fazia parte daquilo a que Foucauld chamou de novo paradigma, que abria o caminho e em que a moderna consciência se revia.

A liberdade em relação a um referente externo tornou a pintura definitivamente na coisa mental que segundo Leonardo já era.

Percebemos a concordância e a pertinência com a nossa experiência, mas elas já não são imediatas.

E penso naquilo que Einstein diz da ciência dos nossos dias: ela é cada vez mais abstracta e mais longe do empirismo. É preciso permanentemente reconduzir o ideal ao concreto, mas nunca será deste, nunca será da experiência que nasce o novo.

A pintura poderá então deixar de ser visual?

sexta-feira, 29 de julho de 2016

(Paris)

A DEUSA DA HISTÓRIA





"O Partido nunca está enganado.', disse Rubashov. .'Tu e eu podemos errar. Não o Partido. O Partido, camarada, é mais do que tu e eu e milhares de outros iguais a ti ou a mim. O Partido é a corporização da ideia revolucionária na história. A História não conhece escrúpulos nem hesitações. Inerte e sem errar, ela corre para o seu objectivo. A cada curva do seu percurso, deixa a lama que transporta consigo e os cadáveres dos afogados. A História conhece o seu caminho. Não comete erros. Aquele que não tem uma fé absoluta na História não tem lugar nas fileiras do Partido.' Richard não disse nada; com a cabeça nos punhos, permanecia imóvel com o rosto virado para Rubashov."

"Darkness at noon" (Arthur Koestler)

Donde surgiu este indefectível optimismo? A teoria da evolução dava à doutrina do comissário uma espécie de certificação científica. Tal como as espécies parecem resolutamente evoluir, em direcção ao Homem, através de uma providencial 'struggle for life', a História hegeliana, depois de corrigida, e de deixar de estar assente sobre a cabeça, adoptou o mesmo modelo de evolução imparável rumo ao Homem Novo.

Rubashov limita-se a repetir mecanicamente o oráculo. O detido sabe o que o espera depois de ter tentado contrariar a História ao ter criticado o rumo do Partido. Mais do que um crime, a sua rebeldia só pode ser vista como um pecado 'contra o espírito', a auto-exclusão da Teologia racional, identificada com o que 'já está escrito' (visto que podemos antecipar as principais etapas da história dialéctica).

O resto da história contada neste romance também podia ser previsto. Chega a vez de Rubashov, o velho bolchevique que 'fez' a revolução, é atirado para fora do comboio da vitória, numa das também esperadas 'reestruturações' oficiais da História.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

(José Ames)

NORMALIDADE




"(...) interpretar consiste em reduzir um tipo de realidade a outro;"
(Claude Lévi-Strauss)

Onde começa, pois, a interpretação? O bebé procura interpretar a linguagem materna, reduzindo-a ao seu estado pré-linguístico que, como uma nave, a seguir é abandonado no espaço sem nome.

Observemos que Lévi-Strauss não fala em realidade, mas em tipos de realidade, como se estivesse a referir-se a mundos distintos. Nós podemos entender que, por exemplo, na nossa relação com a natureza, invoquemos qualquer coisa como níveis de realidade. E cada ferramenta tecnológica introduz no nosso mundo as práticas reveladoras de que só existe uma única realidade, ou uma 'última' realidade, se nos entregarmos ao 'quietismo' ou ao torpor da auto-satisfação.

Sabemos que uma realidade comum (que hoje nos propõem que seja a economia) é necessária para que a sociedade humana exista. Mas também sabemos que só conseguimos alcançar essa meta se excluírmos uma parte de nós próprios, que é infrequentável. Para isso servem os vários tipos de 'normalidade' e de ambientes de 'realidade'.

terça-feira, 26 de julho de 2016

(Paris)

EQUILÍBRIO

(Daniel Kahnman)



"Ilusão da focalização. Na vida, uma coisa nunca é tão importante como se pensa que é quando se está a pensar nela."
(Daniel Kahnman)

O contrário disso é uma espécie de automatismo. Não pensar nas coisas salva-nos de exagerar a sua importância, mas entrega-nos ao fatalismo e à incoerência. Talvez que a verdade por detrás disto esteja no valor da pluralidade. Só fazemos justiça ao mundo quando conseguimos formar a ideia comum de perspectivas diversas e até incompatíveis.

Isto é o mesmo que dizer que a integridade do pensamento pressupõe a ideia do todo que dá a cada parte o seu lugar na harmonia. Os excessos são sempre compensados e um ponto de vista só é justo através de um novo equilíbrio que o compensa.

Isto, evidentemente, faz pensar na democracia como um regime mais complexo, cujo equilíbrio é posto em causa pelas organizações primárias ou simplificadoras.



segunda-feira, 25 de julho de 2016

(VN de Gaia)


A ESCADA DE HEIDEGGER





"De um modo que visa a crítica da metafísica, Heidegger serve-se dos conceitos metafísicos como de uma escada, a qual deita fora após ter subido pelos seus degraus. Chegado lá acima, o Heidegger da última fase recolhe-se como é evidente, ao contrário do Wittgenstein da primeira fase, na silenciosa contemplação do místico, assumindo prolixamente, num gesto de visionário, a autoridade do iniciado."

(Jürgen Habermas)

A 'Escada de Jacob' era um meio de ascensão e de comunicação entre o Céu e a Terra. Os anjos, por ela desciam e subiam, segundo o sonho do patriarca descrito no Génesis. A ideia de 'arrombar' a entrada celestial pelo caminho dos anjos e depois cortar as comunicações é um sonho 'prussiano'.

Mas, que é a história do homem senão este 'deitar fora' a escada por onde subimos? Sem dúvida que nos compreenderíamos melhor se mantivesses a memória dos degraus que fomos subindo (e descendo). Esse, porém, não parece ser o método que serve a nossa 'pressa de chegar', como dizia o Gedeão.

Deitamos fora a escada sempre que podemos, porque é dessa forma que, aparentemente, de modo mais radical nos transformamos. O ponto é que o pensamento antes de nos catapultarmos para uns degraus 'acima' se perde e passa a ser colonizado pelo presente. O século XIX torna-se 'selvagem' aos olhos dos seus 'encobridores'. 


Não podemos julgar o filósofo Martin Heidegger. O conhecimento de que nos orgulhamos apagou o rasto da nossa 'incompreensível' obscuridade e também nós nos livrámos da escada.

Numa próxima curva, encontraremos, talvez, o Planeta dos Macacos.

domingo, 24 de julho de 2016

(José Ames)

JUSTIFICAR E REFUTAR



"(...) já que todas as teorias filosóficas dogmáticas se apresentam mais eficazes e com maior força de 'convencimento' ao refutarem outras teorias, e com menos força quando justificam as suas próprias conclusões."
(Kant)

A crítica de Kant deu lugar ao idealismo hegeliano que Marx achou que era justo, excepto no facto de estar de pernas para o ar. Essa inversão dogmática efectuada pelo discípulo foi poderosa enquanto atacou a ideia do capitalismo, ao mesmo tempo que este saía, por força disso, do seu estado 'natural' de trágica inocência.

Mas a conquista do poder levou os teóricos post-marxistas a terem de justificar todos os desvios do seu ideal. E nisso, realmente, falharam. A sua crítica do capitalismo mostrou-se sem valor face ao resultado das medidas que foram obrigados a tomar, não para salvar o ideal (que foi fatalmente atingido), mas para salvar o regime, para, enfim, se salvarem a si mesmos.

A crítica cartesiana não se sentia obrigada a apresentar alternativas de sociedade; passava-se toda no sujeito individual. Alguns acusaram Descartes de minar as bases da religião, e ninguém pode demonstrar o contrário, apesar dele próprio acreditar em Deus ( a não ser que a sua piedade esteja ao nível da sua etiqueta social).

A partir da ideia de sistema, toda a crítica da economia política tinha o impulso 'dialéctico' da fórmula 'tese-antítese-síntese'. Não se tratava de alcançar a justeza do pensamento, de 'interpretar o mundo' correctamente, mas de 'transformá-lo' pela força da lógica confundida com a história.

O espírito de negação tem a força do 'separado', do que não se sente obrigado a contemporizar com um mundo essencialmente 'caótico'.

sábado, 23 de julho de 2016

(Provença)

CORTAR AS PONTES

"Apocalypse now" (1979-Francis Ford Coppola)


“Matamo-los e depois fazemos-lhes pensos rápidos” diz Williers. Os americanos não cortaram as pontes. Querem regressar a casa, mesmo em pensamento. Daí o êxito daquelas festas porno-circenses, com as little rabbits da "Playboy". A força dos vietnamitas é encarar a morte, o horror, como diz Kurtz, o oficial que não quis mais viver com a mentira. Esta guerra contra um povo é desigual. Apesar da tecnologia do invasor, é um confronto entre “homens de palha” e o espírito da selva.

Para ganhar a guerra, diz-nos Coppola, era preciso estar à altura da coragem deste povo. Perder a alma estrangeira. Desposar a morte. Williers no quarto de hotel, debaixo daquela ventoinha obsessiva, “gets soft”, enquanto o vietcongue (Charlie), na sua toca, “gets tougher”.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

(José Ames)

O MITO DE FREUD




"Canetti faz parte da pequena constelação de espíritos e sensibilidades de primeira água do nosso tempo que rejeitaram Freud e a construção psicanalítica como uma mitologia artificiosa e anti-histórica, cujo método é, no melhor dos casos, de ordem estética e cuja base material de demonstração os sonhos, actos de linguagem, estilos de atitude de uma população de raíz judaica na Europa Central 'fin-de-siècle', primordialmente feminina e da classe média é quase absurdamente limitada."
(George Steiner)

A mitologia mais bem sucedida do século XX. E isto porque tinha os condimentos necessários, de ordem cultural e literária, para 'explicar' a fenomenologia da psique. Steiner situa a sua matriz social com razoável presunção.

O comportamento humano é demasiado condionado pela nebulosa histórica e contextual para se poder isolar um mecanismo de causa-efeito. Mas uma história tem o seu próprio sentido que impõe aos factos a que dá cobertura, quaisquer que eles sejam.

Se podemos tornar compreensível uma assim chamada sucessão de factos através de uma narrativa, não o deixaremos de fazer, mesmo à custa da racionalidade estrita.

Onde não havia quase nada, a psicanálise criou os seus mitemas e um método de interpretação que só não são fraudulentos porque não podemos viver sem essa forma 'espúria' de pensamento.

Não se pode provar que a teoria de Freud seja falsa, tampouco como o podemos fazer em relação aos deuses gregos.

Os efeitos da psicanálise, limitada 'visão do mundo' embora, são reais, ao mesmo título que o são os efeitos do 'Génesis' ou da 'verdade' cientificamente estabelecida.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

(Saint-Malo)

INDIRECTA E OBSCURAMENTE



(Santo Agostinho)

"Per speculum in aenigmate (por reflexo e obscuramente)"
Santo Agostinho

A força do sol não se pode olhar directamente. Demasiada luz 'come' a verdade.

Os cavernícolas de Platão estariam assim numa situação de vantagem. Se soubessem que lidavam com reflexos e fossem capazes de fazer a conversão para a 'realidade' que se encontraria sob a luz directa do astro-rei.

Os escolhidos abandonam o mundo subterrâneo para, depois de um momento de ofuscação, verem as coisas tal como elas são, sob a luz da verdade (o Bem). Platão diz que, depois disso, os 'iluminados' deveriam regressar à Caverna para ensinar os outros homens a 'mudar de vida'.

Reconhecemos aqui o modelo de todo o messianismo. Mas Agostinho, na 'Cidade de Deus', elege como inimigo o mundo das trevas, a Cidade do Diabo'. Poderia a Caverna escapar à identificação com o Mal?

Talvez a fórmula inicial, não pertença ao Agostinho polemista e doutrinador. O 'clarum per obscurius' que, por exemplo, Chartier admirava, talvez seja menos um método do que uma apologia da passagem, no espaço teológico, do inferior para o superior.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

(José Ames)

SABER O QUE SE DIZ



Um gole de triple seco transformou-se, na destilaria do meu corpo, num momento de irrealidade e insónia. Sinais respondem-me, como tantãs, “across the belly”. Por fim, a inteligência que corta um pesadelo vagamente trucidante, e flutuo no espaço. Eu, universo. Inacessível quase sempre, por causa do corpo. Várias pessoas falam em mim, a ponto de ter que impor um sujeito. Limpidez do céu e do pensamento. A atenção, tão rara e o problema da existência.

O conselho de Berger ( em Cabaud ): 'saber o que se diz é que é importante, não, saber o que são as coisas.'

A linguagem, sobretudo a vernácula, popular, o tronco da árvore (não os desprendimentos artificiais; ex: na ciência), tem de ser a expressão duma experiência real. A verdade é possível através dela. Hoje, a profusão das palavras, a velocidade da sua circulação são o véu de Maya.

É preciso, pois, “regressar” ao tempo longo. Procurar a inspiração nas origens. Por este andar, a década de 40 será, dentro em pouco, a nossa Antiguidade.

Para apaziguar as facções em luta nos meus intestinos, envio uma equipa no submarino de Fleischer.

terça-feira, 19 de julho de 2016

(Antuérpia)

A CLAVÍCULA DE SALOMÃO


Cabala Mineraliswww.artlebedev.ru/.../illustrations/cmart/29/


Casanova salva a vida a um senador de Veneza, retirando-lhe o emplastro de mercúrio com que o médico o queria curar da apoplexia. 

Com este audacioso golpe de bom-senso, ganhou um poderoso protector, o qual, a seguir a esta "milagrosa cura" não achou melhor do que crer nas capacidades cabalísticas do seu protegido.

A superstição estava na moda (e até o grande Newton condescendia com a magia branca) e, tirando partido da situação, Casanova declara possuir "um cálculo numérico, pelo qual e mediante uma questão que escrevia e igualmente transpunha em números, obtinha uma resposta que o instrua sobre tudo o que precisasse de saber." Era a chamada clavícula de Salomão (antigo livro de magia, ainda reimpresso em França, no século XX).

Através das suas Memórias, ficamos cientes de que o truque foi inventado do princípio ao fim. Mas não podemos afastar, contudo, alguma credulidade da sua parte, face ao êxito que os seus ambíguos oráculos (que sempre se conciliavam com a sucessão dos factos) encontravam junto dos mais diversos espíritos.

Talvez não seja outro o segredo da astrologia e de ciências como a economia...

segunda-feira, 18 de julho de 2016

(Bamoral)

O ACORDO



L'UE, les Accords de libre échange et les droits de l'Homme: un ...


"No instante em que renuncias ao acordo com o outro, renuncias para a eternidade a saber o que é o bem e o que é o mal."
(in "L'Homme Sans Qualités" de Robert Musil)

Robinson não renuncia. Vive da memória e da esperança de ser 'salvo' da sua ilha. 'Sexta-Feira' aparece para impedir o segundo naufrágio, do homem na natureza.

O terrorista, como em 'The Man Who Was Thursday', de Chesterton, tampouco renuncia. Ele 'apenas' escolheu uma parte da humanidade contra todos os outros. O acordo, persegue-o, mas junto do semelhante.

Já alguém disse que é preciso que exista uma espécie de ética para uma sociedade de ladrões poder funcionar. Ocorre-nos logo o caso da Máfia onde se celebra uma moral particular, o culto da mãe, e um sentimento selvagem de honra, de 'onestà'.

Não é de admirar, portanto, que uma ética universal tenha permanecido até hoje como um ideal, e que o entusiasmo de um grupo se alimente da 'diferença' e da rivalidade com outro grupo ou outros grupos.

O bem e o mal ficam assim entregues à interpretação e à autoridade dos que supostamente sabem. As convicções fortes neste domínio são possíveis pela influência das instituições e das tradições. Isto é, o acordo com o outro não é um simples encontro de vontades, nem é inteiramente consciente.


domingo, 17 de julho de 2016

(José Ames)

O RESGATE DE EURÍDICE

"Solaris" (1972-Andrei Tarkowski)


"Solaris" não se passa no espaço físico, mas no cosmos, entre os vivos e os mortos.

Um verdadeiro contacto se estabelece e que é sempre uma ressurreição. Uma segunda oportunidade para se reparar a pobreza do amor e a injustiça que é o esquecimento.

O oceano de plasma (podia ser o éter ou o espírito do cosmos) sondando o sono dos astronautas convoca o passado essencial dos afectos.

A mulher, que se suicidara dez anos atrás por falta de amor, volta, nas condições de Solaris, para que possa ser resgatada.

O milagre desta aparição é que não a achamos artificial, nem inverosímil. Essa mulher não é uma replicante ( como em "Blade runner" ou na série de "Alien"). É um ser misterioso saído do sono de Kelvin, nem puro pensamento, nem alucinação dos sentidos, incarnado sem ter um verdadeiro corpo.

Como seria a humanidade na eternidade do amor. Com o mesmo olhar com que Brueghel envolve os seus vultos de camponeses absorvidos na sua tarefa diária, guardando rebanhos ou laborando a terra, minúsculas chamas brilhando na neve.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

(Antuérpia)

A PLATAFORMA DO TEMPO

Nocturlábio

"Não é o tempo que nos falta; somos nós que faltamos ao tempo."

Paul Claudel

Estaremos tão certos de saber o que somos para dizer que já não temos tempo nem lugar?

Sem dúvida que os tempos continuam para além de nós. O tempo que conheço apenas porque o sinto nos outros e com eles será ainda quando eu já não tiver tempo.

A perspectiva é a fonte de todos os nossos erros, mas sem ela a acção não é.

Assim, não há erros, mas destino.

Mas nada acontece necessariamente. O que acontece é que nunca é o que quisemos nem como quisemos.

O tempo não é nosso. Nós é que somos parte dele.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

(Espinho)

TRAIR O QUÊ?


(The Punishment Of A Traitor)




"Mas existe um anti-patriota que honestamente provoca a zanga de homens honestos, e a sua explicação é, penso eu, o que já sugeri: ele é o pouco sincero amigo sincero; o homem que diz: "Tenho pena de o dizer, mas estamos arruinados" e que não tem pena nenhuma. E pode dizer-se dele, sem retórica, que é um traidor; porque está a usar desse feio conhecimento que lhe foi concedido para fortalecer o exército, para desencorajar as pessoas de se alistarem. Porque lhe é permitido ser pessimista como conselheiro militar, ele está a ser pessimista como sargento recrutador."

(G.K. Chesterton)

O sistema de partidos, feliz ou infelizmente, acabou com os traidores, porque não se pode trair na ausência de uma fé comum. E só a guerra pode calar as divergências e presumir uma tal fé. A traição só se entende no domínio privado.

Vemos, assim, que todos os pessimistas mudaram de humor com a sua passagem ao poder. E o optimismo dos que governaram até essa altura virou em fel político, arrastando com ele uma visão sobre o país fatalisticamente negra.

Contudo, ninguém traiu. Pelo contrário todos, não importa adeptos de que partido, cumpriram 'as regras do jogo' que já não são de inspirar quem quer que seja e de incutir a força moral necessária, mas as de permitir uma escolha entre o 'pareil' e o 'même'.

A que se presumia a mais forte e a mais antiga das democracias modernas, o modelo de tantas outras, mostrou no 'Brexit' que continua a ser possível a existência de democracias sem democratas, que o 'povo soberano' é tão passível de ser manipulado pelo medo, como as multidões do 'panem et circenses'.

As agências financeiras e os fundos especulativos tornaram-se os verdadeiros mestres de cerimónias. A sua função é espalhar o pessimismo (como o célebre 'there is no alternative') pelos povos.

Eles não podem condoer-se das consequências dos seus 'conselhos', porque vivem delas.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

(José Ames)

A ROMA DE FEDERICO




"Sabemos que Roma é uma cidade carregada de História, mas a sua sugestão está antes num quê de pré-histórico, de primordial, que nitidamente aparece em algumas das suas perspectivas ilimitadas e desoladas, em certas ruínas que parecem resíduos fósseis, ossos, como de esqueletos dos mamutes."

(Federico Fellini)

O cineasta italiano diz também que em Roma há pouquíssimos nevróticos o que impediria uma certa maturidade:

"Aqui não há nevróticos nem tampouco adultos. É uma cidade de crianças apáticas, cépticas e mal-educadas; até um pouco disformes, psiquicamente, já que impedir o crescimento não é natural."
(idem)

É um paradoxo que a história, na cidade antiga mais 'documentada' tenha sido devorada por um passado ainda mais antigo. É certo que Fellini se refere à sugestão ou à imaginação. Mas as ruínas não têm que ser interpretadas como prova do passado. A proeza de Fellini é conseguir dirigir aos vestígios da Roma Antiga um olhar tanto quanto possível inocente de qualquer leitura histórica.

Assim, o que acontece é que a 'pègada humana' perde os seus contornos na 'pègada' maior. Com isto, são também os traços da culpa que se apagam.

O habitante da Roma felliniana vive numa espécie de limbo sem a falsa profundidade da culpa. E tudo isto é o mais pagão que podemos imaginar.


terça-feira, 12 de julho de 2016

(Porto)

A DOENÇA DOS ESPECÍFICOS



(Albert Einstein)


"Mas oponho-me à ideia de que a escola deve ensinar directamente aqueles conhecimentos específicos que viremos a empregar mais tarde na vida activa. As exigências da vida são demasiadamente variadas para que seja viável esse ensino específico e directo. Parece-me, à parte isso, condenável tratar o indivíduo como uma ferramenta morta. A escola deve ter como objectivo que os seus alunos saiam dela com uma personalidade harmoniosamente formada, e não como meros especialistas."


                                                                                               Albert Einstein (1936 - "Sobre a Educação")

Como, em vez disso, o nosso caminho é o da perdição quando ouvimos a classe dirigente lamentar-se de que a escola está demasiado afastada das necessidades da economia! Era caso antes para dizer que quanto menos específico o ensino, mais realista e mais adaptado à permanente mudança que é a da sociedade de hoje. Formar o juízo e a capacidade de inteligir é muito mais importante do que tudo o que possamos memorizar e que, em grande parte, está condenado ao esquecimento. E não está aí a memória objectiva das máquinas para relativizar esse tipo de saber?

segunda-feira, 11 de julho de 2016

(José Ames)

DUALISMO METÓDICO



Descartes (Groninger Museum)


"(...) não concebo qualquer extensão de substância em Deus, nos anjos ou em nosso espírito, mas apenas uma extensão de poder, de modo que um anjo pode proporcionar esse poder a uma parte maior ou menor de substância corpórea; pois se não existisse corpo algum, esse poder de Deus ou de um anjo não corresponderia a nenhuma extensão. Atribuir à substância aquilo que só pertence ao poder é efeito do mesmo preconceito que nos leva a supor toda substância, até a do próprio Deus, como uma coisa que pode ser imaginada."

(Descartes em resposta a Thomas More)

A acepção em que o grande filósofo considera a palavra poder não se 'encaixa' nos nossos usos de linguagem. Mas dentro do seu esquema dualista faz sentido considerá-la como a 'res cogitans' que, ao lado de Deus e da 'res extensa' formam a sua trilogia ontológica.

O 'método' leva-nos a pensar o mundo em termos de espírito e matéria, não como se fosse essa a sua realidade, mas como a forma mais 'rigorosa' de separar coisas absolutamente distintas e, assim, seria como uma 'prótese' epistemológica que nos permitisse entender o mundo em que vivemos e pensamos.

É o que Proust sugere no seu exemplo das lentes que experimentamos para obviar às insuficiências da nossa visão. O oftalmologista não nos interroga sobre a qualidade do que vemos, mas apenas pergunta se vemos melhor.

Segue-se que, para Descartes, não faz sentido atribuir realidade corporal ao que aumenta, em nós, o 'poder' (ou o espírito). E alguns contestarão esta afirmação com o testemunho de criadores motivados pela mescalina, por exemplo.

Mas o método cartesiano permite-nos mover a linha de separação. É o que todos fazemos quando empregamos a palavra 'verdadeiramente'.

domingo, 10 de julho de 2016

(José Ames)

O GÉNIO


Jinn lamp. ℱα℮ḯґ℮ Ðυṧт & Ðяεαღ †αł℮ṧ

"Na Grécia, o mito escapou-se do rito como o génio se escapa da garrafa."
(Roberto Calasso)

Seria, então, a dança a origem das ideias? O pensamento no estado de harmonia com o corpo. É tardia esta percepção entre os modernos de que o 'corpo' também pensa.

Muitos criadores situaram a origem das suas melhores ideias na sua infância quando os titãs, os deuses da terra, são tudo o que aparece, e o pensamento se debate no magma inicial.

Perguntamo-nos, contra essa ideia, se a 'originalidade' do indivíduo pode ter aí o seu fundamento e se, na ausência ainda da história de cada um, do seu 'acquis', não seria antes essa a marca do 'impessoal' que na interpretação de Simone Weil, por exemplo, seria a 'casa do sagrado'.

Se assim fosse, talvez vivamos na ilusão de que o 'génio' é o mais pessoal do indivíduo, quando o verdadeiro génio não está na idiossincrasia ou no percurso do indivíduo, mas em algo que o transcende de todo em todo.

sábado, 9 de julho de 2016

(José Ames)

A VERTIGEM DA NOITE

Luís II da Baviera


"(...) A noite... não há coisa mais bela do que a noite. Diz-se que o culto da noite...da lua...é um mito maternal... Enquanto que o culto do dia, do sol, seria um mito viril... E, no entanto, para mim o mistério, a grandiosa beleza da noite foram sempre o reino sem limites dos heróis. E, portanto, também o da razão... Pobre doutor Gudden, obrigado a estudar-me de manhã à noite e da noite à manhã. Mas eu sou um enigma. Eu quero permanecer para sempre um enigma, para os outros, e mesmo para mim."

("Luís da Baviera" in "Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano)

Mesmo um rei, quando mergulha assim no domínio do irracional e o seu romantismo tem tão desastrosas consequências no orçamento, depressa encontra os limites do seu poder.

Por maioria de razão, numa época em que a monarquia se achava já em tantos países limitada constitucionalmente.
Ainda assim, as fantasias de Luís II não foram em pura perda.

Os seus palácios, que atingiram a perfeição do kitsch, são hoje visitados por milhares de turistas, como tantas outras megalomanias do passado.

Mas o que torna o caso do sucessor de Maximiliano II tão cativante é a força das suas ilusões e do seu irrealismo que o separam do poder como se dum reagente químico se tratasse.

sexta-feira, 8 de julho de 2016


(Cuenca)

SILVA, SIMPLESMENTE




A propósito da fortuna dos nomes e da necessidade de arranjar outros para ter sucesso, Casanova, depois de citar os casos de Voltaire e d'Alembert, diz:

"Se ele tivesse conservado o seu nome de Tognolo, este nome prejudicá-lo-ia muito, porque não poderia nunca pronunciá-lo sem lembrar o que, pelo mais desprezível dos preconceitos, se chama de baixa extracção, e a classe privilegiada, por um abuso culpável, não crê que num camponês possa existir elevação e génio. Virá o tempo, sem dúvida, em que a sociedade, mais esclarecida e por conseguinte mais razoável, reconhecerá que em todos os estados os sentimentos nobres, a honra e o heroísmo se podem encontrar tão facilmente quanto numa classe cujo sangue nem sempre está isento da mácula do aviltamento."

"Memórias de Casanova"

Já por aqui passaram Beaumarchais, os Enciclopedistas e a Revolução Francesa.

É o que faz escrever sobre o passado longínquo.

O jovem estouvado que corria atrás das suas conquistas galantes não teria certamente feito esta reflexão.

Mas não me resta se não concordar quanto à questão dos nomes.

Ninguém poderá nunca reconhecer o mérito a alguém que assine simplesmente Silva.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

(José Ames)

ORIGINAIS E CÓPIAS

Teoria das Ideias de Platão (http://afilosofia.no.sapo.pt)

"Supondo ordem mesmo entre os objectos que não se precedem naturalmente uns aos outros."
Descartes
A força deste pensamento foi-me mais uma vez presente, ao ler as notas de Albert Einstein sobre a noção de espaço contínuo deste filósofo.

Naquela suposição, que é de facto uma posição, apenas apoiada na decisão de fazer o mundo corresponder às leis do espírito, está contido o essencial da doutrina cartesiana.

Não é que o mundo seja amorfo e caótico e que nesse caos a determinação da vontade faça a lei.
É antes crer que se encontramos a ordem dentro de nós, é porque ela existe também no universo, visto que nós não nos criámos a nós próprios.

É verdadeira, pois, a Teoria das Ideias expressa no "Fédon".

Só precisamos de nos lembrar do que, com todo o ser, já sabemos.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Du côté de Gaia (José Ames)

O ÚLTIMO PASSEIO NA NEVE

O último passeio na neve de Robert Walser


O estilo de Walser é caótico. Parece que diz tudo o que lhe vem à cabeça, sem nunca perder o fio da meada.

E tudo isto banhado numa inoportuna e desconcertante ternura.

Como diz Musil deste autor:

"(...) não um jogo literário, mas um jogo humano, cheio de agilidade, de devaneios, de liberdade e que oferece toda a riqueza moral desses dias de ociosidade, aparentemente inúteis, em que as nossas convicções mais firmes se desfazem numa agradável indiferença."

É por isso que se pode pensar que esta escrita tenha já o segredo dos longos anos de silêncio que se iam seguir, no asilo de Herisau.

O período crucial que ali passou, desde 1930, até à sua morte, em 1956, coincide com o capítulo mais negro da história europeia. E foi como se este homem, que parecia "não reparar em nada", não tivesse forças para se envolver, nem mesmo com uma atenção distraída.