terça-feira, 31 de janeiro de 2017

(José Ames)

O 'BUG'




"Sendo  certo  que  um  homem  douto  pode  também  dizer  muita  asneira  quando não  tem  doutrina  fundada  e  de  bom  gosto."

(Luís António Verney)

De doutrina que não doutrinário, e é o 'bom gosto' que nos preserva de tal excesso. São os novos tempos que se fazem anunciar. O século XVIII é o século de Newton e de Kant. William Harvey, nascido no anterior, foi o homem que 'descobriu' a circulação sanguínea, enquanto sistema.

O nosso 'estrangeirado' proclamou uma nova verdade que era inconcebível  no Portugal desse tempo: o valor do juízo individual, sem se submeter a feudalidades religiosas ou monárquicas.

Sim, e essa 'mentalidade', esse movimento do espírito, só agora dá mostras de passar o testemunho a um outro tipo de juízo que já não parece residir no indivíduo. Um sintoma: a democracia tem um 'bug' que pode levar à sua destruição. As suas virtudes churchilianas em desespero de causa dependiam de um sujeito mítico que era o Povo. Dizia-se que a participação 'popular' provaria todas as promessas virtuais da democracia. Esse escopo foi finalmente atingido, e mais do que atingido, superado.

A era digital trouxe-nos a apoteose da 'participação' através da internet e das redes sociais. Mas o que surgiu dessa autêntica revolução não foi a entidade mítica, não foi o mito tornado 'realidade concreta', foi o mundo dos 'sistemas-caóticos'. O Povo sai da cena humanista com a entrada triunfal dos 'utilizadores'. O sujeito, esse grande espelho formador e deformador, vai juntar-se, no museu das metamorfoses, 'ao fuso e à roca e à de fiar'. 


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

(Provence)

CORRUPTIO



A palavra corrupção nunca foi tão badalada. É normal dizer-se que toda a política está afectada por esse mal. Que é uma questão de preço, ou de ameaça,  o mais honesto vender-se. A história confirma, aliás, que o fenómeno não é de um tempo, nem de uma época, mas que é uma constante da sociedade humana, como se antes de ser um vício social, fosse uma espécie de lei inerente à complexidade humana que encontra um paralelo na entropia física. Se é assim, em vez de nos queixarmos do lugar que ocupamos no campeonato da corrupção, mais valerá prevenir a doença e contê-la dentro de limites toleráveis.

A famosa frase de Lord Acton que diz que 'todo o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente' refere-se, porém, a outra coisa.

Na segunda parte da trilogia de Francis Ford Coppola, 'O Padrinho', assistimos ao processo que leva o sucessor de Vito Corleone, Michael (interpretado por Al Pacino), do crime organizado 'familiar' à solidão do poder absoluto, eliminando não só concorrentes, mas amigos e membros da própria família.

Não se trata já de prosseguir o objectivo de 'protecção' do grupo que prospera à margem da lei que começou por uma guerrilha sem tréguas contra os poderes instalados, até os suplantarem ou minarem pela corrupção e a violência.

Michael é o herdeiro descrente dessa tradição. O que vemos é a transformação do papel de 'padrinho', num destino trágico. É no teatro e na ópera, para não falarmos dos ecos de Tácito e dos outros historiadores da Roma Antiga, que encontraremos a 'ideia' de poder assumida pelo herdeiro mafioso. Nesse sentido, teremos, talvez, de deixar de falar em corrupção a propósito do 'poder absoluto'. Porque é um poder que verdadeiramente enlouquece. Corleone é um louco que se toma por Corleone, num tempo que já é o do mito do poder.

domingo, 29 de janeiro de 2017


(José Ames)

CARTEIRAS DO APOCALIPSE


(Karl Kraus)

"Kraus  afirmaria  em  1909,  em  termos  ao  tempo  inteiramente  fantásticos  (e  hoje insuportáveis),  que  o  progresso  do  tipo  científico-tecnológico  faria  "carteiras  de pele  humana". 
(George Steiner)

O grande satirista apenas antecipou de trinta anos a produção de sabão 'made-of-man' dos campos de extermínio. A ciência moderna e sobretudo as suas aplicações práticas podem então 'ter um fim' independente da ideia e da motivação original (sem que seja preciso equacionar uma vontade e uma consciência), a ponto de convocar o 'horror', como em "Apocalypse Now"?

A história deveria servir-nos para, pelo menos, identificar um 'ponto de viragem' na religião, na arte,  ou, enfim, naquilo a que chamamos o progresso científico, em que começamos a explorar com mais profundidade e capacidade de análise as possibilidades lógicas e 'imaginativas', racionais e não-racionais do mundo da Criação. Porquê este elo religioso? Porque sem ele, sem a pressuposição de um sentido humano, por interposta figura, por detrás do nosso mundo, nem sequer poderíamos procurar as leis dos primeiros sistemas. Essa é, então uma necessidade humana, talvez, 'demasiado humana'.

Esse 'ponto de viragem', contudo, só pode ser fixado arbitráriamente. Se acreditarmos nele, surge um novo paradigma, em que Deus se esconde por detrás da nuvem da Razão ou simplesmente do Homem.

Ora, a modernidade está em vias de substituir esse paradigma pelo da inovação e da transformação permanente, por uma espécie de trotskismo da ideia da ciência. A 'revolução permanente', no fundador do exército vermelho, era, sobretudo, uma táctica anti-burocrática e anti-staliniana para salvar a pureza dos princípios.

Algumas estrelas da ciência moderna, e a de Einstein é a mais fulgurante, permitem-nos entreter o mito de que existe um destino humano da ciência e da tecnologia por que velam alguns homens providenciais, génios saídos como Minerva da coxa de Júpiter.

Entretanto, as  carteiras  de que falava Karl Kraus existiram e continuam a existir, porque o humano deixou de ser 'o' valor do nosso sistema. Prestamos culto aos deuses inferiores com a indispensável  vénia protocolar aos princípipios que apostatámos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

(Lisboa)


O CÉU E O CAOS



"Segundo  recentes  relatos  históricos,  Zhou (Chu En-Lai) tinha  sido  especificamente  instruído por  Mao  para  se  'vangloriar'  de  que  "embora  tudo  o  que  existe  sob  o[s]  céu[s] esteja  num  grande  caos,  a  situação  é  maravilhosa."
(Henry Kissinger)

Não é a negação da realidade, do 'caos' existente debaixo do Céu. Mas as duas ideias não são independentes uma da outra. É porque o Céu é perfeito que o caos na terra aparece. A situação de alguém que presume participar dos dois mundos é, na verdade, maravilhosa.

É uma aplicação inesperada do princípio do 'quanto pior, melhor'. Com o futuro 'necessário' da vulgata numa das mãos, quanto maior for a precipitação do caos mais podemos estar certos  de que a ideia acrisolada brilhará.

Mais, o caos não pode ser dispensado do seu papel de face negativa do Céu. Sempre um anjo caírá das fileiras harmoniosas dos Bem-Aventurados para recomeço da dialéctica do bem e do mal.

A situação é maravilhosa. A batalha contra os 'tigres de papel' esteve sempre ganha para quem conta o tempo por milénios.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

(José Ames)

O ARGUMENTO DE MOLIÈRE

("La mort de Louis XIV")

Se a 'nouvelle vague' não tivesse morrido há muito, Jean-Pierre Léaud encarnando um Rei-Sol afundando-se nas trevas, seria o rosto dessa morte. O adolescente dos '400 coups', que quebra a vitrina do cinema para roubar as fotografias de um filme, aparece no último Alberto Serra como uma massa pastosa na sua enorme juba empoada. À fenda dos olhos ninguém assoma que, de perto ou de longe, lembre a personagem histórica do Grande Rei. O cenário é o quarto do moribundo, quase do princípio ao fim. O passado foi deliberadamente posto de lado. Apenas o homem actual, ou o que resta dele. O amor pelos seus cães, uma decisão adiada sobre a renovação de um porto, mais como uma última veleidade de poder do que um acto de prudência, a comida recusada, cada vez mais.

Quase nada 'para meter o dente', ainda por cima quando se sabe que é tudo 'suposto' e que parece que apenas a cena dos galgos se baseia em testemunhos do acontecimento. As 'Memórias' do duque de Saint-Simon foram decerto valiosas para captar o espírito da época (ver a entrevista do 'Expresso'). 

Mas o filme não acaba com a morte de Louis. E ao longo da história, os diálogos mais interessantes são entre Fagon e o Senhor de Bouillon e, entre o primeiro e os médicos da Faculdade de Paris. O monarca absolutista deixou-se cair nas mãos de um médico, Fagon, que até ao fim negou a evidência da gangrena na perna esquerda do rei. A dieta por ele prescrita seria considerada aos olhos de hoje um verdadeiro veneno, o seu diagnóstico criminoso. Mas ninguém realmente sabia como curar o rei. As hipóteses eram fantasiosas e não valiam mais do que a gongórica receita de um charlatão de Marselha chamado ao caso. O doente concordou, perante a sentença de Fagon, que o homem devia ser imediatamente preso.

Fagon opôs-se primeiro a que a Faculdade fosse ouvida. Respondia a essa ideia com Molière. Os médicos não sabiam nada de nada, a não ser, talvez, o seu latim.

Mas Fagon, apesar disso, não estava acima deles. Falhou rotundamente contra o bom-senso e, na cena que fecha o filme, reconheceu o fracasso e que nem sabia a causa da gangrena que nunca quis admitir. 

Concluiu que se devia aprender com o 'erro' e tentar fazer melhor para a próxima.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

(Abadia de Fontevraud)

GUERRA E PAZ

Leão Tolstoi (1828/1910)

Alain começa por nos advertir, a propósito de "Guerra e Paz", contra a tentação de ler o desfecho para encontrar logo a "doutrina sublime".

Porque sem a evolução das personagens, que vão deixando para trás as suas ilusões, ao encontro dessa doutrina, não temos nada e não podemos julgar. O juízo é uma decisão que "ultrapassa e conserva todos os momentos duma vida".

Que substância teria a figura de Natacha Rostova, por exemplo, se em vez da jovem apaixonada que conhece no príncipe André o seu ideal e, devido à longa ausência imposta pelo velho Bolkonski, perde a fé, para se deixar seduzir por um biltre, abrir os olhos para esse abismo, expiar a sua falta e merecer o perdão do príncipe moribundo, tivéssemos só aquilo em que se tornou, a mulher sensata e pacificada que uniu o seu destino ao amigo de sempre, Pierre, o homem que mesmo no momento da sua queda se considerava ainda indigno dela?

No turbilhão, não há "centro humano", nem "centro divino", há uma realidade que se impõe a todos e a todos apanha desprevenidos e com "ideias da idade da pedra". Mas são essas ideias que nos permitem mudar e adaptar-nos. Não as ideias feitas dos outros. As nossas ideias feitas e os nossos preconceitos.

Kutuzov, o velho general tem uma forte ideia e que é a de se defender das ideias. "Os planos gerais escolásticos rompem-se antes de se formarem, pelos movimentos subterrâneos que Kutuzov escuta e toca, Kutuzov, o génio incrédulo e forte. Kutuzov vencerá, pelas estações, pelas paixões, pelo humor; ele não sabe como; ele está no turbilhão." (Alain, "Propos sur la Littérature" )

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

(José Ames)

FACTOS E FALSOS TESTEMUNHOS


("A Laranja Mecânica"

"Soljenitsyne  adiantou  mesmo  a  hipótese  de  que  a  Gestapo  torturava  para  obter 'factos',  enquanto  a  polícia  secreta  russa  torturava  para  produzir  testemunhos falsos.
"
(George Steiner)


Esta diferença não é, evidentemente, a que existe entre a verdade e a mentira. Não há verdade num lado e mentira no outro. E talvez não haja melhor exemplo de que a verdade não é o mesmo que um acordo da consciência com os factos e, muito menos, a verdade se confunde com a exactitude.

Todos os 'factos' estabelecidos (ainda que provisoriamente) pela ciência pertencem à exactitude e não à verdade. Basta pensar que num mundo sem gente deixam de existir factos. E embora pareça que eles permaneçam iguais a si mesmos e não sejam afectados pelo facto de pensarmos neles, como é o caso do 'facto consumado', isso não corresponde à realidade.

A Gestapo era polícia, juiz e carrasco ao mesmo tempo. Como as suas vítimas tinham sido previamente destituídas da sua humanidade pela ideologia e pelo assalto do Estado à sua dignidade, não precisavam de um verdadeiro trubunal nem de respeitar qualquer princípio. Tratava-se apenas de engenharia num ambiente burocrático. Como 'técnicos', os factos interessavam-lhes, como as peças ajustadas de um máquina importam ao seu funcionamento.

Ao contrário da ideologia primária dos slogans nazis, o Estado soviético tinha uma filosofia e, nos primeiros tempos, uma utopia que entusiasmou inúmeros homens de 'boa vontade'. A consolidação do poder fez-se contra esses ideais, mas obrigando-se a elite burocrática e o seu chefe a manter a ficção de que nada tinha mudado. Para isso, os factos estorvam (até as fotografias oficiais e o testamento do líder supremo).

Querem-se actores que soletrem outros slogans e 'vivam' nas paradas o antigo entusiasmo. O falso testemunho dos revolucionários da primeira hora, dos mais sinceros que teimavam em atrasar a marcha do rolo compressor era precioso. A polícia tinha de os convencer a bem ou a mal. E alguns colaboraram para 'não desesperar as massas'.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017


O POEMA DA FORÇA


(Homero)

FL-"(...) A Ilíada é um poema que me interpela, que tem qualquer coisa mais profunda.
P - É chamado “poema da cólera”.
FL-Não só. É o poema do sofrimento humano e é o poema do entendimento do sofrimento como estado normal do ser humano. É um erro fundamental as pessoas pensarem que têm direito de ser felizes.
P - Como assim?
FL-O normal é estarem a sofrer, em situações que são desafiantes, injustas, doridas. Isso é o que distingue a vida da morte. Depois o sofrimento pára, isso significa que se morreu. Estar vivo e sofrer são duas coisas indissociáveis e a Ilíada tenta fazer sentido disso. Tenta mostrar-nos como é que conseguimos tirar partido dessa coisa tão inelutável que é estar permanentemente a sofrer."

(Entrevista a Frederico Lourenço de Anabela Mota Ribeiro, no 'Público' de 17/8/14)

Simone Weil, legou-nos a sua enorme admiração pela civilização grega e pela 'Ilíada' em particular. Chamava a esta obra de Homero 'o poema da força'. Partia da antiga ideia de Necessidade que hoje se perdeu ou se encontra camuflada sob muitos nomes. Talvez seja 'o' tabu essencial, como a nossa ideia da morte nos deixa perceber.

Frederico Lourenço, que traduziu Homero do original, prefere a designar a 'Ilíada' como  'o poema da cólera' (de Aquiles), conotá-la com o sofrimento humano.

A 'Necessidade' impõe-se aos próprios deuses na cultura grega, expondo, assim, uma espécie de fraternidade com o género humano. Apesar de 'imortais' e todo-poderosos sobre os homens, os habitantes do Olimpo obedecem a uma lei superior. Esta condição parece já anunciar a grande síntese do monoteísmo.

Mas os olímpicos não sofrem como os humanos, graças a uma divina disposição para o esquecimento a que podíamos chamar, sem intenção blasfematória, de Alzheimer feliz. O mito dos lotófagos, por outro lado,  fala-nos disso como de uma peculiaridade de insulares.

O certo é que a 'força' no sentido weiliano transcende em muito a física. Podíamos, hoje, ver no desenvolvimento tecnológico que transforma o mundo de uma forma mais radical do que a utopia marxista sequer sonhou, como uma manifestação exemplar. Aparentemente somos nós os inventores, contudo os efeitos dessa acção  sobre o nosso mundo, são apenas vislumbrados, senão são o nosso 'ponto cego'. Chegaremos ao ponto de 'criarmos' os seres, ou as próteses, que nos vão substituir, como nos mostra a série 'Humans'?

A menos que se veja no nosso destino uma luta do  espírito contra a força (ou contra a Necessidade), o sofrimento humano talvez não seja tão essencial quanto isso; não seria mais que uma singularidade histórica, herdeira do judeo-cristianismo.

domingo, 22 de janeiro de 2017

(José Ames)

A VERTIGEM DA EXACTIDÃO



Clifford Truesdell (1919/2000)



"Qualquer físico sabe exactamente o que significam a primeira e a segunda lei da Termodinâmica...e não há dois físicos que estejam de acordo sobre elas."

Clifford Truesdell (citação de Karl Popper)

Isto, a propósito da definição dos conceitos que Popper considera um falso problema, visto que não existe tal coisa como um conceito preciso. Todas as definições são contextuais e implícitas, facto que não tem impedido os espectaculares avanços da Física.

Mas claro que se tantos cientistas não abandonam facilmente a "caça aos gambusinos", como Popper lhe chama, da exactidão dos conceitos, compreende-se que em qualquer discussão política essa questão assuma toda uma outra importância.

A pergunta que todos temos de fazer antes de estabelecer um acordo ou um desacordo é de que é que se está a falar, o que não é o mesmo que procurar a exactidão.

Sabemos como num outro contexto linguístico ou temporal e paradigmático nos confrontamos todos com as dificuldades da tradução.

A par dessas diferenças de contexto, embora contemporâneos e no âmbito duma mesma língua, os "dialectos" partidários e religiosos colocam os principais problemas à razão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

(Ericeira)

A PARTE MALDITA

(Jeremy Rifkin) 

"A economia informal geralmente providencia apenas uma subsistência marginal. A economia do crime ('criminal economy'), por outro lado, é muitas vezes uma fonte de emprego lucrativa, mas se se permitir que cresça e prospere, pode levar mais longe a erosão das relações sociais em todos os países, tornando o mundo cada vez mais perigoso e desestabilizado."
(Jeremy Rifkin)

Sendo os homens como são, essa parte maldita do funcionamento das sociedades poderá alguma vez ser erradicada? As utopias já experimentadas provaram que o 'recalcado expulso pela porta regressa pela janela'. A virtude republicana, a virtude revolucionária foram enormes condensações de energia social que 'mudaram o mundo' para cenários estranhos às ideias inspiradoras. Ao fim e ao cabo, as utopias são outro nome da deusa da história que não 'pensa' pela cabeça dos homens.

Rifkin é um pragmático. Diz só que o sistema económico não pode ter como único objectivo a prosperidade e o crescimento, sem ter em conta a sua falta de princípios,  a sua desordem intrínseca. Se a deixarmos crescer (basta um 'quantum' de estupidez doutrinária para a ordem e a estabilidade ficarem em perigo), essa prosperidade e esse crescimento tornam-se impossíveis ou perdem o sentido para as sociedades.

Em 'The End of Work', o autor desenvolve um outro tipo de desordem que não pode ser considerada 'criminosa', visto que todos a adoramos. A força da tecnologia, por muita inovação e bem-estar que distribua, tem as características da Força, isto é de algo que escapa à nossa vontade e que até agora não conseguimos pensar e muito menos dominar.

Jeremy Rifkin, que é conselheiro da UE, tem uma visão optimista sobre o desfecho deste declínio do trabalho, substituído, cada vez mais, pela robótica e pelas novas máquinas: "No fim de contas, trabalho é o que as máquinas fazem. Trabalho é só acerca da produção de valores de utilidade. As pessoas, por outro lado, deveriam ser libertas para gerar valores intrínsecos e revigorar o sentido de comunidade partilhada."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

(José Ames)

ENTROPIA

Think Different - WordPress.com


Karl Popper em 'The unending quest' critica o que chama de 'teoria subjectivista da entropia', primeiro proposta por Leo Szilard, e "segundo a qual a entropia de um sistema aumenta sempre que a nossa informação àcerca dele diminui, e vice-versa. De acordo com a teoria de Szilard, qualquer ganho de informação ou conhecimento tem de ser interpretado como um decréscimo da entropia."

Ao contrário da entropia 'física', relacionada com as partículas e com a 'segunda lei da  termodinâmica'(*) que é o assunto da nota de Popper, a entropia em sentido figurado, no sentido da desordem de uma organização ou de um sistema social, é comprovadamente afectada pelo conhecimento e pela a formação que deles possamos ter. Mas há, à partida, uma outra grande diferença entre o conceito e as figuras. É que a 'entropia social' não mede um sistema isolado, como, até quanto sabemos, será o caso descrito na 'segunda lei da termodinâmica'.

Por isso, será sempre problemático falar em sistema a propósito da sociedade humana. Porque, embora se compreenda a intenção e até a necessidade de simplificar, não deixa de ser um caso de 'cadaverização' da vida. Não é essa a realidade.

Para lidar com o oxímero de um 'sistema aberto', não podemos mais do que tentar, sem grande resultado, 'corrigir o tiro' por antecipação. É para isso que servem os modelos com que nos iludimos.



(*) entropia (do grego εντροπία, entropía), unidade [J/K] (joules por kelvin), é uma grandeza termodinâmica que mensura o grau de irreversibilidade de um sistema, encontrando-se geralmente associada ao que denomina-se por "desordem", não em senso comum [Nota 1], de um sistema termodinâmico. Em acordo com a segunda lei da termodinâmica, trabalho pode ser completamente convertido em calor, e por tal em energia térmica, mas energia térmica não pode ser completamente convertida em trabalho." (Wikipédia) 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

(Antas)

SEMPRE A ECONOMIA




"O seu capuchino reflecte o ponto de chegada de um sistema de espantosa complexidade. Não há uma única pessoa no mundo que consiga produzir o que é preciso para fazer um capuchino. O economista sabe que o capuchino é o produto de um esforço de equipa incrível. E não apenas isso, que não há ninguém responsável por essa equipa. O economista Paul Seabright recorda-nos a dificuldade que encontrou o funcionário soviético tentando compreender o sistema ocidental: 'Diga-me...quem é o responsável pelo fornecimento do pão à população de Londres?' A pergunta é cómica, mas a resposta - ninguém - é atordoante."

"The Undercover Economist " (Tim Harford)

Harford releva a  vertiginosa estranheza de um sistema que parece 'auto-regulado'. A economia 'tout court', especialidade dos economistas, os quais têm de sustentar uma visão coerente de como as coisas funcionam, através de modelos matemáticos, de técnicas estatísticas  e de teorias sociológicas sobre os contextos  e as  categorias sociais, etc, etc., têm os seus créditos estabelecidos por uma longa predominância da sua 'interpretação do mundo', uma interpretação que pretendem pragmática e, sobretudo, realista. Assim, é natural que não se interrogue excessivamente sobre os próprios fundamentos e seja particularmente cega quanto a qualquer sentido de estranheza.

Porque o que é racional, inteiramente racional, é a atitude do funcionário soviético ali referido. Há um inventor ou inventores para as novas máquinas e as organizações que tornam  possível a sua produção e distribuição têm um administrador ou um director técnico. A própria Revolução soviética é uma encarnação desse poder responsável, como o engenheiro à frente de um projecto competentemente elaborado. Essa é uma ideia esplêndidamente mecânica. Por isso, a incompreensão do burocrata perante uma auto-regulação obedecendo a uma finalidade racional explica-se facilmente, embora possa existir um erro calamitoso na base da sua percepção do mundo.

Mas os economistas do 'sistema ocidental' só se saíram bem enquanto a prova se cingiu à 'existência do pudim' que, como se sabe é comê-lo. Mas o abuso desregulatório de aumentar a dose de entropia do sistema  e de confiar cegamente na 'Mão Invisível' só lhes trouxe confusão e erro e levou-nos a todos à beira de outra 'implosão' atordoante.

Nem se pode dizer que o mundo esteja a ser bem interpretado. E os 'aprendizes de feiticeiro' não podem distinguir-se pela racionalidade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

(José Ames)

A SUPERFICIALIDADE


(Adolf Eichmann)


"Odeio aqueles que dizem obscuramente coisas claras. Odeio aqueles que dizem claramente coisas obscuras. E são os mesmos."
(Alain)

Hannah Arendt esclarece, no documentário que passou entre nós, nalgumas salas de cinema,  o sentido da expressão que agora passou a cliché de 'banalidade do mal'.

Essas  palavras, no contexto do julgamento de Eichmann, em Israel, referem-se ao carácter insidioso de uma metamorfose que não nos desperta em nenhum momento para o vácuo, fora da realidade, em que vivemos. É quase sempre uma 'atmosfera' colectiva que nos habitua, sem dramas, a viver sem precisar de pensar. Talvez todos nos comportássemos, nas mesmas circunstâncias, como aquele burocrata nazi. Não podemos dizê-lo. Com efeito, dizer que em todos existe essa potencialidade de destruir o ser humano, essa raiz de um inominável que escapa ao sistema da culpa e da punição, é retirar-nos a capacidade de julgar, ou sequer de identificar a causa ou as causas do genocídio. No entanto, essa incapacidade é coisa a que não é estranha a afirmação socrática de que 'ninguém é mau voluntariamente'.

O que o julgamento mostrou, aos olhos de HA, foi a inverosimilhança chocante de tentar diabolizar um humúnculo cheio de tiques e desnorteado por uma culpa esmagadora que  é incapaz de compreender. E HA releva aqui o ponto essencial: o burocrata carreirista da Gestapo não era capaz de pensar,  nem de 'parar para pensar'. Todos os seus actos manifestam a mesma percepção da realidade que teria, por exemplo, um viciado em drogas duras. O contexto que explica esse isolamento da realidade toma conta de todas as personagens do regime, depois de, por um lapso de tempo, ter absorvido as energias da nação, a sua cultura e a tradição do seu pensamento.

A banalidade está toda na superficialidade de um quotidiano sem contacto com a realidade. É esse o ambiente do mal arendtiano. Eichmann, nessa espécie de julgamento foi o 'bode expiatório'. Por muito que custe aos herdeiros das vítimas e que nos custe a todos, por assim ficar exposta a natureza perfunctória do sistema judiciário  (farsa é a palavra que não se pode pronunciar), o que esteve em causa naquele tribunal mediatizado para convencer o mundo de que se tinha encontrado o fio condutor da verdade e consagrado o povo judaico no seu papel sacrificial (o futuro iria demonstrar de que maneira o sionismo foi capaz de replicar a violência sobre um outro tipo de vítimas, sempre invocando as necessidades de segurança do novo estado) ia muito para além de todas as encenações e de toda a compreensão por via da psicologia ou da sociologia, dos exemplos do passado ou do presente. Talvez só a filosofia pudesse tentar compreender. Foi o que Hannah Arendt fez para incompreensão geral e fúria do seu próprio povo.




segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Interior (José Ames)

GRAÇA

http://garden.punt.nl/upload/Grace_morning.jpg

"Entre as perturbações do crescimento histórico, ao primeiro nível está a Graça: a Graça, sempre a par da Justiça, é o arbitrário - divino ou humano -, é o capricho, teocrático ou tirânico, oposto à regularidade da Lei natural (lei republicana). Este par, meio-moral, meio-vitalista, arrasta uma verdadeira dicotomia da História: tudo na História é Graça ou Justiça, Fatalidade ou Liberdade, Cristianismo ou Revolução. A História não é outra coisa senão o combate de uma e de outra, sucessão trágica de paragens e impulsos: a Síria, Alexandre, os Judeus, o culto de Maria, os Jesuítas, a Monarquia, Spinoza, Hegel, Molinos, Hobbes: a Graça, A Pérsia, a Grécia, os Valdenses, a Feiticeira, os Protestantes, Leibniz, Hoche, o século XVIII: a Justiça."

"Michelet" (Roland Barthes)

É mais razoável, no fim de contas, considerar a Justiça como um resultado (das boas leis, da boa organização) ou como algo de imprevisível e "caprichoso", arbitrário, como a Graça?
Seria mais razoável se o homem se explicasse pela Razão (ou pela falta dela). Mas tudo é novo e inesperado, troçando dos nossos planos individuais ou colectivos, pelo que a Graça podia ser outro nome para a Fortuna.

Mas como é preciso que o homem viva em sociedade, chamemos justiça a uma certa ordem (aquela que decorre automaticamente das instituições). E quanto à verdadeira justiça, a de homem a homem, atribuamos-lhe, como Michelet, o belo nome de Graça.

Para sermos justos, precisamos de algo mais do que a vontade.

domingo, 15 de janeiro de 2017

(José Ames)

AS VALQUÍRIAS DO PALAIS-ROYAL

(As Norns, origem das valquírias nórdicas)

"Eram precisas raparigas; não essa raça franzina que vemos nas ruas, próprias para confirmar os homens na continência. As raparigas que então se passeavam eram escolhidas, não será necessário dizê-lo, como se escolhem nos pastos normandos os gigantescos animais, florescentes de carne e de vida, que se mostram no carnaval. O seio desnudado, os ombros, os braços despidos, em pleno Inverno, a cabeça enfeitada de enormes ramos de flores, dominavam de alto toda a multidão de homens. Os velhos recordam-se, do Terror ao Consulado, de ter visto no Palais-Royal quatro loiras, colossais, enormes, verdadeiros atlas da prostituição, que, mais do que qualquer outra pessoa, carregaram o peso da orgia revolucionária."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Sente-se nesta descrição a carga genésica que o grande historiador atribui à Revolução. Mas escassos três anos decorridos após a tomada da Bastilha, o povo de Paris está exausto e desmoralizado pelos massacres. Os burgueses fecham-se em casa, amedrontados, perante os excessos da sua revolução. Marat sente o poder escapar-se-lhe das mãos assassinas e desabafa: "O enfado e o cansaço tornaram as assembleias inúteis".

Outras paixões, que não as da acção, tomam conta dos espíritos sobreexcitados, aos quais já só as sensações mais fortes dão o sentimento da vida. As valquírias do Palais-Royal parecem ocupar a cena, enquanto na "casa das máquinas" se preparam os silogismos do Terror.

Todas as revoluções conhecem esse momento de perigo em que se transformam numa engrenagem. O povo deu-lhes a amplidão oceânica, mas o recuo da maré põe a nu de que é feito o poder e como rapidamente se tem de articular e de crescer. O Terror apenas limpou terreno.

sábado, 14 de janeiro de 2017

(Aljustrel)

FISIOLOGIA DO PASSADO




"A nossa experiência passada não nos apresenta qualquer objecto determinado, e como a nossa crença, por mais ténue que seja, se fixa num objecto determinado, é evidente que a crença não provém apenas da transferência do passado para o futuro, mas de qualquer operação da fantasia conjugada com ela. Isto pode levar-nos a conceber de que maneira esta faculdade participa em todos os nossos raciocínios."

"Tratado da Natureza Humana" (David Hume)

Parece que Hume era uma das leituras favoritas de Luís XVI.
Assim, o seu espírito devia estar dividido entre as máximas jesuíticas, a consciência de rei (a razão de Estado) e a filosofia.

Mas é o filósofo escocês que nos explica que a herança das ideias e o que se experimentou e aprendeu no passado, com os mestres e as cerimónias destinadas a inculcar no indivíduo o espírito colectivo, não são simplesmente "transferidos".

A fisiologia e a imaginação dão-lhes um cunho pessoal, e se são vivas, nem por isso são menos indistintas lembranças do que foram.

Por isso, talvez que as hesitações do rei fossem fruto duma imaginação contrária a qualquer tipo de acção, que transformava as ideias em argumentos da indolência.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

(José Ames)

TALES

http://1.bp.blogspot.com/-6AB-fbtZdo0/TlLkSmu7sGI/AAAAAAAAACA/UcfUWsjXNI0/s1600/Piramide.jpg

"Tales dizia também, segundo Cícero, que tudo está cheio de deuses. Este geómetra não falava, certamente, ao acaso, devemos crer. Talvez que, observando a força destas diversas aparências da água, tão poderosas sobre os sentidos, quisesse relacionar o politeísmo abstracto com o fetichismo da natureza, tão durável quanto o espírito."

"Abrégé pour les aveugles" (Alain)

Diz o filósofo que todo o homem contemplando o mar, abstraído de tudo o resto, encontrará o mundo primitivo, informe mas, em breve, povoado de deuses - porque eles são já um esboço de ordem. Proteu, nas suas diversas aparências, movediço como as ondas do oceano, é já objecto do pensamento. E é isso o que quer dizer o 'fetichismo da natureza'.

Ver nessa infância do espírito mais do que superstição e medo de 'perder o pé' num meio inóspito para qualquer abstracção não pode ser senão um acto de fé.

Alain lembra que Tales era geómetra, tendo medido a altura da pirâmide  do deserto pela sua sombra, como reza a lenda. Pois é esse mesmo pensador da triângulação que nos diz que o mundo está cheio de deuses. Não, decerto, no espírito científico moderno que veria nessa afirmação a ambição de livrar a nossa visão de uma superstição, mas, é de supor, com a convicção de que por detrás de todas as aparências há algo de misterioso  e sobrehumano que importa 'considerar', como se de um astro inacessível se tratasse.

Em que é  que esse espírito 'religioso' é desfeito, como se desfazem as nuvens, pela geometria e pelo nosso empreendimento técnico é coisa que o filósofo de Mileto não poderia, na verdade, conceber.

Mas faz todo o sentido incluir a geometria e a lógica no conhecimento da nossa razão, ou 'logos', para os Gregos. Algo que, 'por ínvios caminhos', se encontra em harmonia com o mundo exterior como se as ideias platónicas ou as 'ideias inatas' de Descartes tivessem algum fundo de verdade...



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

(Alcochete)

CORTES LÓGICOS

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)



À filosofia, segundo L. Wittgenstein, não caberia mais do que uma crítica da linguagem, e tudo o que não é linguagem não pode ser dito, nem pensado. As coisas que caem fora da linguagem são as que os Antigos chamaram de Metafísica e sobre o que construíram os seus mitos imorredouros.

Se o Mundo só é conhecido pela rede dum sistema, com uma estrutura lógica a ele adequada, mas exterior, a Física seria só aquilo de que podemos falar e o resto seria a mística.

Quais as implicações deste corte, deste dualismo à la Descartes que separa a lógica do resto? Primeiro haveria que saber por que mistério se adequariam os nossos sistemas ao Mundo. Porque funcionam. Mas talvez em Descartes encontremos, segundo Alain, uma resposta. Porque o Mundo não quer nada de nós e é-nos indiferente, a ordem, a vontade podem fazer o seu caminho. Racional, onde agora se lê lógico. A adequação seria não monadológica, mas a que existe entre a matéria e a forma que lhe empresta o espírito humano.

Mas se não se pode pensar o Metafísico, será que as perguntas que na sua ideia têm origem deixaram de ter sentido?

Aqui só temos a história dos factos e das ideias para infirmar a tese de LW. A lógica não é todo o pensamento, porque não somos apenas fabricantes de instrumentos. E é onde Descartes tem razão contra LW, ao abrir as paixões à Filosofia e à Ética. E não é porque estas escapam de algum modo à necessidade que pode existir a Ética?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

(José Ames)