domingo, 30 de setembro de 2007

PRAGMATISMO


Deng Xiao Ping (1904/1997)


"Conforme as reformas começaram a fazer-se sentir, os lucros foram caindo; começaram também a convergir, uma vez que os sectores mais lucrativos enfrentaram a feroz competição do governo local, das firmas privadas e das firmas estrangeiras. Durante os anos 90, as taxas de lucro médio caíram cerca de um terço; nos sectores mais apetecíveis caíram pelo menos metade. O efeito disto foi a redução do desperdício, um melhor retorno aos clientes chineses pelo seu dinheiro e para a China, potencialmente, um papel nos mercados mundiais. O poder da escassez (scarcity power) desapareceu.

"The Undercover Economist" (Tim Harford)


O autor analisa as razões do sucesso económico da China, desde que, terminada a loucura do "Grande Salto em Frente", e com a morte do grande líder, os dirigentes se viram na necessidade de substituir, pouco a pouco, o plano centralizado pelo mercado.

Não se trata de um passo atrás (para dar a seguir dois passos em frente), como foi a NEP de Lenine. É uma decisão política, em face do fracasso da orientação anterior, ainda sem cobertura teórica e a contrapelo da ideologia oficial.

De facto, a centralização da economia parte do pressuposto de que é possível prever o futuro, quando se acredita que a História obedece a leis (já descobertas). Ora, a experiência demonstrou que essa crença era demasiado optimista.

Em relação à perestroïka de Mikhail Gorbatchev, a diferença é que esta minou directamente o poder do partido com a consigna fatal da transparência (sendo o secretismo essencial ao arbitrário burocrático) e da reestruturação que, como nos relata Derrida, foi visto por alguns como uma desconstrução (sem dúvida, por não existir nenhum elo que não estivesse implicado no sistema), enquanto que a viragem chinesa foi o mais pragmática possível, de acordo com a decisiva influência de Deng.

A doutrina nunca foi posta em causa e, provavelmente, será abandonada de forma indolor pela força da realidade social, à medida que os velhos quadros forem substituídos.

E se a democracia vier a vingar na China, será o resultado de uma grande paciência política.

sábado, 29 de setembro de 2007

UM BURGUÊS REALMENTE PEQUENO



"Un borguese piccolo, piccolo"
(1977-Mário Monicelli)


O pequeno-burguês, apesar da sua aparência pacífica, mata. Não se deixem enganar por este funcionário público à beira da reforma, cujo único pensamento é obter um posto de guarda-livros no ministério para o filho. Que não fará ele, desde o beija-mão aos chefes à iniciação maçónica, para conseguir as provas do concurso?

É um pai extremoso que se revê com orgulho no jovem sem qualidades. Mas estamos em Itália. Todos os projectos vão ruir em segundos. Apanhados no meio do fogo cruzado entre a polícia e os assaltantes dum banco, uma bala vem atingir mortalmente o filho. A mulher que recebe a notícia pela televisão fica paralítica. É então que se vai revelar a verdadeira natureza deste homem igual a tantos outros. Os males do país vêm de haver liberdade a mais. Que importa prender o assassino para o soltar pouco tempo depois sob fiança?

O pequeno-burguês que fez a pulso a sua carreira no ministério decide fazer justiça por suas mãos. E é ver o ódio com que abate a golpes de macaco o jovem que julga ser o assassino. Enterrada a mulher, este reformado aborrece-se, incapaz de gozar o sol e o espectáculo das crianças no jardim. Mas eis que um latagão mal-encarado o insulta na rua, e de novo o vemos no cauteloso Fiat seguir o homem, com o mesmo ódio no olhar. Retrato injusto? Sem dúvida, como toda a entomologia a propósito do ser humano.

Monicelli levou-nos a um mundo caricatural de burocratas que eventualmente frequentam a Loja para agradar ao chefe. Quis fazer-nos rir com estas personagens traçadas a grosso, e Alberto Sordi foi o grande cómico de sempre. Pode troçar-se do doutor das Finanças que enche a secretária de caspa, admite-se que a Maçonaria seja tratada como um número de palhaços, tudo nesse tom se pode sustentar, embora seja o mais fácil. O erro de Monicelli é o estilo. A história é plausível, mesmo se o instinto de vingança não pode pretender à sociologia. Nem a pequenez redundante deste pequeno-burguês justifica a mesquinha visão do seu autor. É um filme que quer cobrar o riso com a demagogia.

O quotidiano é visitado com a elegância e o humor do melhor cinema italiano. Mas quanto mais eficiente, mais falso é este melodrama que derrapa em filme negro. Porque se escolheu um protótipo, não se pode evitar o simbolismo nem a teoria social. Não se trata de contar um caso, mas o nosso caso. E nessa altura a Monicelli faltou o ar. De resto, o familiar é o que é menos conhecido, não é verdade? E há nesta teoria do pequeno-burguês um relento opressivo de velharia.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A VIDA DOS OUTROS


"A vida dos outros" (Das Leben der Anderen,
2006 - Florian von Donnersmarck)


A cena do elevador em que o desmoralizado capitão da Stasi encontra uma criança que revela um segredo demasiado perigoso para os pais, faz-me lembrar o final de "The Deer Hunter", quando o dedo no gatilho fica suspenso diante do veado.

A consciência da beleza, do valor da vida, é o que detém a personagem interpretada por Robert De Niro. E este polícia, a quem o cinismo dos seus superiores vem abrindo os olhos, automaticamente também leva o dedo ao gatilho, com a pergunta fatal nos lábios, sobre quem acusa assim a Stasi de fazer mal às pessoas. Mas pára a meio e, em vez disso, pergunta o nome da bola que o menino traz na mão.

O partido todo-poderoso é uma igreja de descrentes. Obrigados às palavras sacramentais e aos rituais da ordem, os jovens principiantes contam anedotas sobre Honnecker e os altos funcionários corrompem e esmagam aqueles que se atravessam no caminho da sua promoção ou do seu prazer.

A evolução do capitão Wiesler, que "monitoriza" a vida privada do poeta Dreyman, rival impotente do ministro que lhe cobiça a mulher, é uma espécie de terapia do concreto, do mundo real.

A vida dos outros é a melhor acusação da mentira oficial.

Como diz Dreyman, ninguém que oiça como deve ser esta música (sonata for a good man, de Gabriel Yared) pode ser inteiramente mau.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A DESCONSTRUÇÃO DA PERESTROIKA


Gorbachov na campanha da Louis Vuitton


"Certos filósofos soviéticos diziam-me em Moscovo, há alguns anos: a melhor tradução para perestroïka, é ainda 'desconstrução'".

"Spectres de Marx" (Jacques Derrida)


É vertiginoso pensar-se que a maciça realidade da superpotência podia ser vulnerável a um vírus filosófico, como o da desconstrução.

Mas é preciso nessa realidade distinguir o que constitui o sistema, feito de estruturas e de subestruturas e a respectiva semântica que o fazia existir para si próprio como um todo, e a sociedade "natural", a que os homens formam entre si, independentemente da sua vontade.

O resultado das duas linguagens (a do sistema e a do social), como naquelas empresas em que existe uma contabilidade "conveniente" e outra que reflecte a situação verdadeira para o patrão, foi uma análise da massividade da superpotência e uma separação entre a realidade e o artefacto que lhe correspondia.

A desconstrução é, de facto, uma análise que expõe os álibis da linguagem que invocam um mundo fora de si própria.

CONTO DE OUTONO


"Conto de Outono" (1998-Erich Rohmer)

"Conto de Outono" é uma deliciosa intriga de mulheres para arranjar um companheiro a Magali, a amiga vinhateira. Isabelle, através de um anúncio, sem a interessada saber, porque não acredita nessas coisas.

Entretanto, a procuradora leva demasiado longe a comédia e é com algum despeito que assiste à rápida substituição dos seus olhos azuis pelos da morena ( a azougada Laura do "Genou de Claire", 28 anos depois ).

Rosine, a sua jovem amiga, pelo seu lado falha a tentativa de aproximar Magali e o seu ex, professor de filosofia, com o que pretendia romper com uma ligação imatura.

Toda a gente representa, como na vida, porque todos têm de esconder os seus verdadeiros sentimentos.

As paixões exclusivas, como a de Magali pelo seu Côtes du Rhône, revela-se uma estratégia para lidar com a solidão. A verdade é que ninguém resiste a uma promessa de felicidade, por muito entrado em anos e desiludido que esteja.

O encontro de dois seres, vindos de latitudes diversas e tendo percorrido os mais inesperados caminhos, tem o fascínio de um começo de vida, perante o qual as desilusões do passado não resistem como o cúmulo cinzento à força do vento.

terça-feira, 25 de setembro de 2007


(José Ames)

sábado, 22 de setembro de 2007

UM COMÍCIO


O espectáculo de Beppe Grillo



Vi na televisão italiana uma espécie de comício onde um barbudo muito zangado atacava a classe política, escandindo alguns palavrões ( suposto sinal do fim da paciência e da comunicação ), numa das belas praças desse país e perante milhares de pessoas, sobretudo jovens, que escutavam aquela vociferação numa tranquilidade aparente.

A reivindicação de que a política deve ser devolvida aos cidadãos, no entanto, embora aplaudida, pareceu-me assentar num equívoco, facilitado pela histriónica veemência do orador.

A situação italiana não é muito diferente da dos outros países da comunidade, em que a crise da política é sobretudo uma crise do político.

Onde estão os sinais de que uma renovação é possível, quando vemos as gerações do "render da guarda" desinteressarem-se tão ostensivamente pela palavra e a acção no espaço público, para dizer como Hannah Arendt? Onde está, por exemplo, a relève nos sindicatos?

A segunda parte daquele programa era um debate a propósito do espectáculo de Beppe Grillo.

A aparente unanimidade na constatação de um completo descrédito da política nesta era pós-Berlusconi não augura nada de bom.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

CYRANO SUBLIMADO


"A Lei do Desejo" (1997-Pedro Almodóvar)


Alguns anos passados, os filmes de Almodóvar parecem ter perdido a sua irritante feição provocatória.

Aquele mundo sem mulheres (tirando as mães, sempre possessivas) de "A Lei do Desejo" é o filão do cineasta, mundo tão codificado como um filme de vampiros ou um filme de guerra. Cinema só.

E não se pode dizer que se aqueles amantes fossem heterossexuais teríamos um cinema igual a qualquer outro, incaracterístico. Esta "escrita" é pessoal e o amor entre homens dá-lhe o suplemento trágico que o faz respirar.

Revendo este filme de 1997, encontramos o trio clássico sujeito à pura fatalidade, graças a uma espécie de curto-circuito do desejo.

A partir do momento em que a carta que Pablo escreve a si próprio, mas assinada e endereçada por Juan, é lida por António, este enamora-se do objecto do "discurso amoroso", do fantasmático desejo de Pablo.

Quando essa paixão resulta no crime (que um plano longínquo da falésia com as silhuetas de António e Juan anuncia) e no suicídio de António, no apartamento cercado pela polícia, vemos Pablo atirar pela janela a arma do crime: "a máquina de escrever" em que tinha formulado a lei da tragédia.

Pensa-se em Roxanne e em Cyrano que também escrevia pelo rival, mas morrendo este, jovem e belo, foi como se o segredo tivesse sido selado para sempre pelo duplo fantasma da escrita e da morte.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A GUEIXA REBELDE


"As Irmãs de Gion" (Kenji Mizoguchi)

"As irmãs de Gion" (1936-Kenji Mizoguchi) conta a loucura de uma mulher, O-Mocha, que tenta escapar ao seu destino de gueixa, desprezando os homens e fazendo-lhes guerra.

É atirada do automóvel por uma das suas vítimas e, na cama do hospital, lamenta a sua sorte.

Em contraponto desta atitude, Umekichi, a sua irmã mais velha, personifica a gueixa tradicional, com os seus conceitos de obrigação e lealdade, e é o alvo constante dos sarcasmos de O-Mocha.

Neste mundo, entre tabiques e ruas estreitas, mal iluminadas, os sexos entregam-se ao seu jogo de sempre, com assédios e enganos.

E o quimono exigido pela rapariga ao seu pobre pretendente, levando-o a um acto tresloucado que lhe custa o emprego, é o símbolo do poder do social que vem transtornar a ordem dos sentimentos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007


Varsóvia (José Ames)

O LAMENTO DA VEREDA


"Pather Panchali" (1955-Satyajit Ray)


A pobreza acossa-os como um cão raivoso.

O pai tem de procurar longe o trabalho e fica quatro meses sem mandar uma carta.

Durante um aguaceiro, Durga, a jovem irmã de Apu, e perante o olhar atónito deste, entrega-se à chuva, numa cena de uma bela sensualidade. Mas o resfriado atira-a à cama e traz-lhe a morte.

Quando o pai volta, sem a fortuna prometida, com os magros presentes, encontra o luto e a casa destruída pela tempestade.

A família decide voltar para Benares, onde ele pode, pelo menos, ganhar a vida com as suas orações.

Vemos os três rostos olhando a estrada da carroça, a caminho da grande cidade, como se os melhores tempos tivessem ficado para trás.

A descoberta, na planície para lá do rio, do monstro fumegante sobre os carris é um momento de grande poesia.

E a eterna luta da velha tia pela sua côdea e o seu escaninho é a imagem da necessidade nua, como o é o aparente egoísmo da mãe de Apu, que a maltrata, porque a miséria lhe impõe escolhas desumanas.

Durga é acusada de ter roubado um colar a uma outra rapariga. Coisa fácil de acreditar, dados os seus hábitos selvagens e o gosto de regalar a anciã com os frutos que pilhava desde criança no pomar alheio.

Depois da sua morte, Apu descobre o colar escondido pela irmã e atira-o para o meio dos nenúfares do pântano. E esse gesto simboliza não só o perdão, como a piedade que é devida aos mortos.

sábado, 8 de setembro de 2007

COMO A CORRENTE





Não se podia contar uma vida com maior simplicidade.

Em "Aparajito" (1956-Satyajit Ray), Apu é uma criança como as outras, que corre com as da sua idade e conhece o segredo dos macacos que invadiram o templo.

Mas cedo é confrontado com a morte do pai. Este ganhava a vida como sacerdote nas escadas de Benares (vemos as moedas dos pobres caírem, uma a uma, arrancadas à necessidade). O trago que bebeu do Ganges, que o filho lhe foi buscar de madrugada foi o seu viático.

Satyajit tem o génio das transições. A lanterna que serve ao pequeno Apu para estudar à noite é o ponto de passagem para a adolescência e para uma nova vida em Calcutá, trabalhando para pagar os estudos. Mas as dificuldades são muitas. Cansado da vigília na tipografia, adormece na aula em que o professor fala da sinédoque, e a mãe importuna-o, de longe, com as saudades. Nem tem temp0 de a compensar, porque morre antes dele chegar.

Apu recusa a proposta do avô de continuar na aldeia a profissão do pai.

- E os ritos pela tua mãe?
- Faço-os em Calcutá.

E sem um abraço, nem um olhar, lá corre ele com a sua trouxa para apanhar o comboio.

A morte e a doença ocupam grande parte da história. O resto é o fogo onde se preparam as refeições e se ferve o chá, as correrias da criança e a ambição do estudante. Tudo passa como a corrente do rio sagrado.

- Os pais não podem durar sempre! consola-o o avô. Mas a sua silhueta magra já vai a caminho da grande cidade.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

E NÃO É POSSÍVEL CRISMÁ-LO?


O Palácio da Cultura e Ciência

"A rainha Juliana da Holanda é famosa por ter descrito o Palácio da Cultura e Ciência (Palac Kultury i Nauki) como "modesto, porém refinado". Este edifício enorme - uma oferta das nações da URSS - foi construído em 1952-1955 segundo o desenho de um arquitecto russo, Lev Rudniev. Este monumento ao "espírito de invenção e progresso social" já foi o segundo mais alto da Europa. Parece-se com os arranha-céus socialistas realistas de Moscovo e, embora só tenha 30 andares, com o seu pináculo, mede 230 mts e 68 cms de altura. O seu volume é superior a 800.000 mts cúbicos e contém 40 milhões de tijolos."

(Do Guia American Express)


O edifício mais mal amado dos polacos, por ter sido mais ou menos imposto por Staline e se erguer nos céus de Varsóvia como um símbolo da servidão, não deixa de ser o ex-libris da cidade.

A sua massiva arquitectura corresponde ao estilo característico dos regimes fortes da época, e é em si mesma uma promessa de durar.

O que já foi uma orgulhosa torre e que está hoje no centro de uma polémica (contra e a favor da sua demolição), é uma verdadeira máquina do tempo. O elevador que nos leva ao 30º andar é, aparentemente, o único órgão vivo da estrutura.

É impressionante deixar as ruas de uma cidade moderna para entrar no seu halo petrificado, com alguns funcionários saídos de um qualquer salão da Madame Tussaud, nas suas tarefas de controle e de vigilância.

A experiência não é deprimente porque nos encontramos num museu e se supõe que essa atmosfera peculiar e esses andares fechados são a fiel reprodução da história "natural".

Que os varsovianos tenham amaldiçoado este edifício "refinado", que se ergue na sua clareira deserta no meio da cidade, compreende-se.

Mas não podemos deixar de sentir um certo incómodo perante um destino anunciado. O camartelo é aqui o instrumento de uma guerra de religião.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

AS BANALIDADES DO ORGANISMO


Wilhelm Reich (1897/1957)

Como envelheceu mal o filme de Dusan Makavejev "Wilhelm Reich - Mistérios do Organismo" (1971)!

Esse apelo ao orgasmo libertador e à masturbação universal tirava de uma incipiente crítica do stalinismo (Dusan era jugoslavo), aqui apodado de fascismo vermelho, crítica que não se distinguia de uma análise em termos de sexualidade reprimida, todo o seu ar de irreverência e inconformismo.

Entre as tiradas brechtianas e a paródia dos slogans partidários, conta-se a história de um encontro entre um bailarino russo e de uma adepta jugoslava do Organon de Reich que acaba numa decapitação (a arma é o patim de gelo), com o russo dando asas à sua alma eslava numa canção nostálgica.

Tanta inépcia custa a crer que tivesse alguma vez merecido o entusiasmo da crítica. Mas não há nada como rever o filme para nos darmos conta do caminho percorrido pela "mentalidade", desde o Maio de 68.

A REVERSÃO DO INTERIOR


Paul Cézanne ("Les Grandes Baigneuses")

"Há, na obra de Cézanne, um momento de viragem que transforma um pintor ainda clássico no inovador de onde vai sair toda a arte moderna: quando, no fim dos anos 70, começam as séries das Baigneuses. A partir daí nota-se uma ruptura; precisam-se as técnicas de decomposição da cor e do espaço, a teoria dos semi-tons de cores é levada às suas últimas consequências, a profundidade do espaço é cada vez menos perspectivista, etc. Como é que Cézanne consegue esse efeito extraordinário de desarticulação da cor que vai muito mais longe do que os impressionistas?"

"A imagem-nua e as pequenas percepções" (José Gil)


Esta pintura é um trabalho contra a percepção educada. Vai ao encontro do caos original, antes da nomeação do homem e das coisas.

Percebemos como a invenção, no Renascimento, da perspectiva correspondia a todo um projecto de dominação da natureza e de privilégio espacial do sujeito.

Com Cézanne, "os corpos não estão na paisagem como num cenário, mas tornam-se dela parte integrante, assumindo uma certa imobilidade natural, vegetalizando-se ou mineralizando-se à semelhança dos elementos que a ladeiam."

O quadro não existe já em função dos nossos movimentos, nem dos nossos interesses práticos. O mundo que nele vemos já não é o mundo, mas a "interioridade do pintor é agora toda a paisagem".

Uma estranha afinidade parece vislumbrar-se entre esta técnica revolucionária e a ideia de um inconsciente que põe em causa a autonomia do sujeito.

No fundo, é como se Cézanne tivesse renunciado a toda a objectividade, a todo o referente.

A arte pôde, a partir dele, realizar triunfalmente o seu sonho "hermafrodita" e exilar numa espécie de limbo a crítica da arte pela arte.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

FROM RUSSIA WITH LOVE


A Batalha de Raclawice


"O Panorama representa a batalha de Raclawice de 4 de abril de 1794, quando os Polacos derrotaram os Russos. Mede 120 metros de comprimento e 5 metros de altura, e os artistas Jan Styka e Wojciech Kossak levaram nove meses a pintá-lo. Foi descerrado em Lviv, na Ucrânia, em 1894. Levado para a Polónia em 1946, foi finalmente exibido em Wroclaw em 1985."

(do Guia American Express)


O Panorama está no interior de uma rotunda e as cenas foram pintadas com um grande realismo. A transição dos arbustos que juncam o solo à beira do passeio panorâmico para os arbustos pintados é quase insensível.

A proibição da abertura desta exposição durante 39 anos, quer tenha sido decretada por Moscovo, quer assumida pelas autoridades polacas para não desagradar aos Russos, diz tudo sobre a liberdade existente nas relações entre os dois estados.

Raclawice é o equivalente de Aljubarrota para os Polacos.

Mas nem as melhores relações com Espanha nos obrigaram a tapar com crepes o mosteiro da Batalha durante quarenta anos.


Ericeira (José Ames)

ALÉM DO DARWINISMO


Charles Darwin (1809/1882)

"Este problema do arbitrário político no cume da hierarquia deixa aparecer então um estado de facto que se pode formular de uma maneira geral: na medida em que os sistemas adquirem a sua própria autonomia através da sua perdiferenciação, tornam-se igualmente causas (ou pelo menos uma parte das causas) dos seus próprios problemas. É assim que o paradoxo de um poder político que é necessariamente arbitrário, devendo ao mesmo tempo ser controlável, se torna o problema próprio do sistema político. Com a descoberta de tais situações, a Europa começa por verdadeiramente se enamorar do paradoxo ou da metáfora paradoxal (...)"

"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)


E cita, na política, o período de 1650 a 1750 (que a frase: "O Estado sou eu." resume), na religião, a figura de Pascal e o oportunismo do seu "pari", o amor-paixão e, em economia, a célebre teoria de Adam Smith da "mão invisível".

O percurso do arbitrário, produto de uma crescente autonomia dos sistemas dentro do sistema, passa pelo momento do absolutismo, no século XVII, que evoluiu, pela necessidade de "organizar o controle deste uso arbitrário do poder político pelos próprios meios do sistema político", para o "Estado constitucional".

À medida que as relações do poder se tornam mais reflexivas e se impõe a "inclusão do público na perdiferenciação do sistema político", chegamos à democracia.

Já não estamos aqui perante uma evolução do tipo darwiniano, de que o materialismo histórico nos dá uma ideia. O conceito chave é o de organização.

Quanto mais complexa ( e as consequências da inovação tecnológica em todos os campos, nomeadamente, na demografia, contribuem especialmente para essa complexidade) for a sociedade, mais a questão da organização sobreleva todas as outras considerações, mesmo as que se referem às chamadas estruturas.

domingo, 2 de setembro de 2007

A CABEÇA DA MEDUSA


A Medusa de Caravaggio


"Quando, algumas horas mais tarde, entrei no quarto da minha avó, presas à sua nuca, às suas têmporas, às suas orelhas, as pequenas serpentes negras retorciam-se na sua cabeleira ensanguentada, como na de Medusa. Mas na sua face pálida e pacificada, inteiramente imóvel, eu vi completamente abertos, luminosos e calmos, os seus belos olhos de outrora (talvez ainda mais carregados de inteligência do que antes da sua doença, porque, como ela não podia falar, nem devia mexer-se, era aos seus olhos só que confiava o seu pensamento, pensamento que tão depressa tem em nós um lugar imenso, oferecendo-nos tesouros insuspeitados, como parece reduzido a nada, pois pode renascer como que por geração espontânea, graças a algumas gotas de sangue que se tira.)"

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Toda a descrição da doença e agonia da avó, em "Le côté de Guermantes", que se supõe basear-se nas da mãe do autor, é um lugar cimeiro da literatura mundial.

Fiel a uma ética do olhar "inocente", o mais possível calcando aos pés todo o preconceito, como ao dragão o S. Jorge da iconografia, nem a memória clássica da cabeça de medusa parece trazer aqui um desmentido.

A cabeça da avó coberta de sanguessugas (para, segundo o médico Cottard, lhe descongestionarem o cérebro atacado pela uremia) é uma imagem a que um autor como Proust não podia escapar, como, de resto, a ninguém que conhecesse o mito. E é esta espécie de necessidade que devolve a inocência à descrição.

E não sentimos nesta dependência e inquietante proximidade do pensamento em relação ao verme, que lhe parece ser o mais oposto na cadeia da existência, a prefiguração de um outro tipo de contacto no metabolismo funerário dos vermes da terra?


(José Ames)

PARAPEITOS


Joseph Turner (1775/1851)


"A marinha de Turner não revela nem "o ser" nem a essência de uma marinha: abre o olhar sobre o infinito do movimento das forças que nos "religam" a uma marinha (não a esta marinha-real-referente ou à sua ideia, mas àquilo mesmo, às próprias formas pictóricas que Turner criou na tela). O objecto de arte desencadeia e liberta nas suas formas um jogo de forças num plano infinito de movimento: liberta o infinito, e oferece-lhe um "médium" onde desdobrar-se e desenrolar-se. É isto uma obra de arte."

"A imagem-nua e as pequenas percepções" (José Gil)


É muito interessante esta ideia de uma física subliminar que a arte põe em movimento pela desorganização momentânea das nossas percepções.

Até se afirmar como um novo cânone estético, a obra de arte original desafia as nossas coordenadas espaciais e a nossa relação com o tempo, tanto quanto os nossos preconceitos.

Esse tremor que as novas formas trazem à consistência do mundo abre, de facto, a profundidade do abismo. E cada adaptação que recentra e ajusta as nossas coordenadas não é mais do que um parapeito, a que temporariamente colocamos persianas ou os frescos de uma nova criação do mundo.

sábado, 1 de setembro de 2007


Varsóvia (José Ames)

RIO BRAVO


"Rio Bravo" (1959-Howard Hawks)


Hoje, ao rever Rio Bravo, numa cópia em mau estado, verifiquei que a fraca definição da imagem me fez ver outro filme. As figuras não eram nítidas, as legendas tremiam, mas o som era distinto e envolvente. A voz de John Wayne nunca me pareceu tanto a do herói impoluto que comove pela paixão vencida, como uma espada. Mas Hawks soube torná-la cantante e significativa da amizade e do amor. Este actor consegue sair da estátua que o cinema lhe fez, a ponto da sua imobilidade e contenção de sentimentos serem o símbolo do épico.

Compreende-se o desafio à inteligência do cineasta nesta rudeza que se quer a marca da humanidade sublime. Mas também segurança e resistência do tipo. Porque o bom western confina o estudo psicológico com o valor do símbolo. O sherife John T. Chance tem o passado que interessa à acção. E o seu romance com Feathers – a voz da Dickinson é o contrário da insensibilidade aparente do cowboy, é uma expressão da pele – parece um tempo musical, donde vai surgir a violência por contraste.

No western, todos os actores são actores de composição. A intenção moral da história obriga a um convívio com os heróis positivos. Dude, o bêbedo, é salvo pela rude confiança de Chance e pelo canto da morte representado na trompete mexicana: - Tinha-me esquecido porque me meti nisto! dirá, quando o velho Stumpy quer fechar a janela por causa da música. Colorado é o jovem atraído pela justiça que ganha a estrela de deputy. Walter Brennan, incomparável no papel do coxo tagarela, valioso pelos seus defeitos – é a sua teimosia e o gatilho fácil que permitem a Dude imaginar o seu estratagema -, mas capaz de surpreender todos pelas suas virtudes: em vez de aceitar o papel de inválido, apareceu no shotdown final a cortar a retirada ao bando de Burdette.

A verdade ética reduz a figura do bandido a um esboço sumário. É que seria demasiado fácil encontrar no inimigo do sherife as mesmas virtudes do herói e outra fatalidade. É justa, portanto, esta discrição sobre o mal. Dir-se-ia que Burdette e os seus homens apenas existem para realçar o heroísmo e a coragem de homens e mulheres comuns. A natureza nas suas fúrias também exalta o carácter, mas é outro cinema. Apenas o obstáculo humano explicaria uma história como esta, onde o que acontece podia ser doutro modo, em que o tempo não segue uma lei mecânica. Que arte consumada esta!

Depois da batalha, o homem sorri – sem aquela alegria feroz das ideias de dinamite. No quarto de hotel, Feathers quer fazer falar o cano ainda fumegante de John T. E ele só responde: - se desceres com essas meias, mando-te prender! Que verdade há nesta confissão de amor que toma as formas do ofício e da contradição!… Por isso Feathers lhe salta ao pescoço, compreendendo tudo, sem despir o herói. A cor e a nitidez talvez me tivessem demorado a imaginação.

Assim, os grandes traços explicados pela voz deram-me a experiência da encenação ideal. E será por isso que me espanta a visão que tive do filme no passado. É que agora eu tive que dar as minhas próprias ideias e achei um enorme prazer em estar de acordo com Hawks. Enquanto que a minha longa adolescência e a sedução das imagens me levavam por outro caminho.