sexta-feira, 31 de agosto de 2007

PERFIS MOVEDIÇOS


Mapa da Alemanha

"Ao "tipo do Alemão" faltam, segundo a opinião geral, muitas qualidades individualistas, nomeadamente: tolerância e respeito em relação a outros indivíduos, uma certa independência de espírito e de rectidão de carácter, a disposição para defender as suas convicções contra um superior, uma coisa que os Alemães, conscientes dos seus defeitos, designam pelo nome de Zivilcourage;"

"The Road to Serfdom" (Friedrich Hayek)


A contrapor às notórias qualidades dos Alemães (são, em geral: "laboriosos e disciplinados, enérgicos e tenazes, conscienciosos e sinceros em tudo o que empreendem."), aqueles grandes defeitos parecem ter tido uma boa parte no comportamento da nação alemã durante o regime hitleriano.

E um homem como Eichmann, a propósito de quem Hannah Arendt inventou a conhecida expressão de "banalidade do mal", podia, sinceramente, considerar que não tinha feito mais do que o seu dever, como funcionário do Estado.

Hayek atribui esse perfil a uma tradição prussiana de falta de liberdade.

É sempre o passado que explica o presente. E, nós próprios, no nosso país, estamos a escrever a democracia no palimpsesto do salazarismo.

Por isso é tão importante a obra do tempo para afeiçoar as mentalidades às novas condições.

Suponho, portanto, que os "tipos" não são nada de definitivo e que só precisam de um "desmame" do passado, de uma distanciação e reelaboração da memória através dos mitos e dos monumentos.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O ESTADO DA ARTE


Lisboa (José Ames)

Movido pela curiosidade, fui ao Centro Cultural de Belém ver a colecção Berardo que gerou tanta polémica.

A primeira impressão é a de que o espaço parece ter perdido todo o seu valor, quando se vêem telas ou "instalações" ocupando toda uma parede ou salas inteiras. Em nenhum outro museu que conheça os estertores da arte se puderam estender com tanto conforto e oferecer-se assim à mórbida sede de cultura de um público, de antemão ganho pela dimensão do escândalo, pelo dinheiro envolvido e pelo apadrinhamento do Estado.

Assim, nenhuma surpresa, nenhum comentário ou riso, mas uma vontade determinada de aprender as regras do jogo, o mais depressa possível, de absorver a mais-valia que a própria polémica engendrou. Não passa pela cabeça de ninguém denunciar a fraude ou a nulidade. Talvez este seja o estado da arte e, como panorâmica de uma degradação, a CB é um "must".

Mas como tudo pedia a exclamação da criança que no conto denuncia que o rei vai nu, não faltou o puto que perguntasse para que servia aquela porta no meio da sala.

A NAVE DA REVOLTA



Em "The Caine mutiny", um filme de 1954, de Edward Dmytryk, que conta a história do motim a que levou, numa situação de grande perigo, a paranóia do capitão Queeg (Humphrey Bogart), interessa-me o "levantar de escudos" da instituição militar aquando do julgamento.

A acusação tem todo o campo de manobra para atacar os fundamentos da amotinação e explorar a ignorância dos conceitos básicos da psiquiatria por parte de Maryk (Van Johnson), o tenente, como se o senso comum não bastasse para reconhecer o comportamento de um louco. É impossível convencer aquele júri por palavras porque, à partida, todos estão interessados em dissuadir a indisciplina, mesmo à custa da verdade.

É o depoimento do próprio Queeg, com os seus tiques e os seus berlindes que muda completamente a situação, contra os "interesses" da instituição.

Actuando segundo a sua natureza e já não como representantes do poder, os oficiais que fazem parte do júri só podem dar razão aos amotinados.

E é o advogado de defesa (José Ferrer) que no final, ao fazer uma espécie de retractação, denunciando Keefer (Fred Mac Murray), o intelectual, de ter inspirado o motim, vem restabelecer a "verdade" segundo o poder.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O HOMEM OU UM CERTO HOMEM?


http://droitshomme83300.free.fr

"Um exemplo de uma tal dialéctica subtil é-nos fornecido pela discussão actual sobre os direitos do homem. Quanto ao essencial, estes, tomados ao nível de textos declarativos e não propriamente legislativos, podem ser considerados como derivações bem argumentadas da própria ética da argumentação. E por isso eles foram ratificados pela quase unanimidade dos Estados; e, no entanto, a suspeita permanece de eles serem apenas o fruto da história cultural que é própria do Ocidente, com as suas guerras de religião, a sua laboriosa aprendizagem, nunca terminada, da tolerância."

"Soi-même comme un autre" (Paul Ricoeur)


Evidentemente, a suspeita existe e é uma fraqueza que os inimigos da democracia não deixam de explorar.

Tudo se passa como se a pretensão à validade universal do que se considera, no Ocidente, uma conquista da Humanidade, pudesse ser objectado e vituperado como um luxo de países que se desenvolveram duma certa maneira, sem que se tivesse que apresentar, ao mesmo tempo, uma alternativa universalmente válida.

O diferendo entre o universalismo e o contextualismo tornou-se inescapável, a partir do momento em que, através do desenvolvimento das comunicações, nos aproximamos de algo que tem uma certa analogia com a "consciência".

terça-feira, 14 de agosto de 2007

DESERTO VERMELHO



Nesta revisitação a Antonioni, reconheço a verdade das palavras de Proust quando disse que o artista verdadeiramente original é como o oculista que nos coloca as novas lentes e pergunta: - E agora vê?

Pois passados tantos anos sobre a primeira visão de "Deserto Vermelho", só posso dizer que aquelas lentes são as que uso desde então.

Agora, é justa a lentidão deste cinema, os diálogos frustres e inacabados, a música que está lá, mas não se ouve, a omnipresente arquitectura, como aqui, as chaminés, as tubagens, as máquinas, os armazéns que se apropriam da paisagem enevoada dos arredores de Ravena, com a sua estridência e os silvos de uma vida automática, como a do robot que faz de sentinela no quarto da criança adormecida.

Este mundo sem vida, este deserto, é denunciado pelo transtorno psíquico de Giuliana (Monica Vitti). Depois do seu acidente, perdeu o talento da adaptação que nos outros os faz encolher os ombros e seguir em frente, conformados com o artifício.

Mas ela tem muito viva dentro de si toda a poesia de uma ilha de águas transparentes em que até as rochas cantam misteriosamente.

A razão da sua esquizofrenia é que não consegue encontrar nos outros um eco dessa memória infantil. Os outros transformaram-se na feia realidade do fumo amarelo das chaminés que as aves aprenderam a evitar por causa do seu veneno.

Ela diz a Conrado (Richard Harris) que levaria para onde quer que fosse tudo o que amava e, sendo assim, para quê mudar de lugar?

O problema é que precisa dos outros para não enlouquecer. E até o filho, ao fingir uma paralisia, a destitui do seu papel de mãe sacrificante.

Na cena da cabana, isolada nos pantanais envoltos em nevoeiro, o promíscuo grupo de burgueses, para escapar ao tédio, e a pretexto do frio, lança-se alacremente na demolição duma parede para alimentar o fogo, e temos uma das imagens mais poderosas de naufrágio.

Giuliana parece extrair uma moral do que lhe acontece: aquela é, afinal, a sua vida, é o seu dharma.

E no final vemo-la com a criança, do lado de fora da fábrica, com as ominosas chaminés a cobrir o céu, tal como no começo do filme.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O ERRO DE PTOLOMEU


Friedrich Hayek (1899/1992)

"As pessoas nem sempre se dão bem conta disso, e por hábito justifica-se a delegação pelo carácter técnico da tarefa. Mas tal não significa que só o detalhe técnico seja delegado, nem mesmo que a inaptidão dos parlamentos para compreender os detalhes técnicos esteja na origem da dificuldade.

(...) No entanto, ninguém até agora sugeriu, com seriedade, que a legislação civil seja delegada a um corpo de especialistas. O facto é que nestes domínios a legislação não vai além das regras gerais sobre as quais é possível que uma maioria se entenda, enquanto que no domínio económico os interesses a conciliar são tão divergentes que não há qualquer hipótese de se chegar verdadeiramente a um acordo sobre eles numa assembleia democrática."

"La route de la servitude" (Friedrich Hayek)


Hayek verbera a "prática de delegações massivas e indiscriminadas" a que o Parlamento britânico recorria, nos anos trinta, segundo o relatório Donoughmore e refere esta frase, ali, inocentemente reveladora:" se o Parlamento não delegasse o poder legislativo, não poderia votar as leis exigidas pela opinião pública."

E o dilema, em democracia, é então entregar a direcção da economia e de outras áreas governamentais a comissões especializadas e a organismos separados (o que Hayek chama de planismo), sob o pretexto da tecnicidade das matérias, ou deixar as forças económicas e a iniciativa dos indivíduos entregues a si próprios, desde que respeitem os limites da lei.

Aqui só podemos julgar pela experiência. E sabemos que a necessidade de planear até o detalhe e de impor escolhas que sempre implicam uma decisão a favor de uns e em detrimento de outros, decisão que, sendo os homens o que são, não deixaria de parecer arbitrária, levaria à omnipotência da burocracia que influiria na vida de cada um mais do que é admissível numa sociedade regida pela igualdade e pela justiça.

Na tão sedutora ideia de que a libertação das necessidades está ao alcance dos homens (o único obstáculo sendo, precisamente, a desigualdade económica ) e de que a sociedade se pode conduzir como um indivíduo racional, apenas precisando de acabar com a divisão dentro de si própria (a existência das classes) há muito mais do que aquilo que o marxismo viu nela.

Se é um erro, no fundo é o mesmo erro de Ptolomeu. A melhor explicação é aquela que parece estar de acordo com a experiência dos sentidos e com o sentimento da razão.

domingo, 12 de agosto de 2007


Baiona (José Ames)

sábado, 11 de agosto de 2007


(José Ames)

UMA ASSEMBLEIA




Tenho de esperar na bicha para assinar o livro das presenças, e em todos os rostos mais assíduos nestas lides exulta o mesmo prazer grávido e a febre dos grandes momentos.

A mole desta vez não tem o aspecto ameaçador da guerra entre partidos. Houve um certo desgaste da política, mas para além disso, adivinha-se o interesse comum. Ninguém tem soluções, mas a disposição de jogar a força é visível em muitos. A greve é a grande questão por decidir para os impacientes que, desprezando as considerações estratégicas e o estudo da situação, querem cavalgar a indignação geral. Há outros que vieram só para fazer frente a esses e evitar que sejam postos em causa certos princípios.

Mas o verdadeiro conflito desenha-se com o traço grosseiro que a multidão põe em tudo. Os oradores habituados ao microfone, transfigurados por aquela poderosa expectativa que sabem lisonjear, sem medo de encontrar hostilidade ou incompreensão, desancam, uns atrás dos outros, nas duas figuras patéticas da direcção, condenadas ao silêncio pela impotência e pelo desprezo doutrinário das assembleias.

Cada intervenção que impunemente excita e envenena a discussão, sempre tentada como álibi das emoções, faz inscrever novos oradores. O pior espectáculo da anarquia – o presidente da AG abandonou a mesa ao primeiro convite – não é a sala, ainda assim. As pessoas têm que obedecer à cadeira e à ordem imposta das filas. Os apupos que se ouvem não chegam para transtornar o grande animal perplexo.

A partir de certa altura, quando se vê que a discussão não é possível e não vão ser tomadas decisões, a massa fica ainda por causa do espectáculo. Para se deleitar num dos seus, sem hábito de falar nas reuniões, mas com o instinto seguro do que agrada à multidão.

Nessa noite abominei a demagogia e vi até que ponto ela nos enredava a todos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O MUNDO DE APU


"The World of Apu" (1959-Satyajit Ray)

Apu é um estudante pobre de Calcutá, que é convidado um dia por um amigo para um casamento na província.

Mesmo antes da cerimónia, o noivo revela padecer duma enfermidade grave e o casamento é dado sem efeito. Mas, segundo a tradição, a rapariga será para sempre amaldiçoada, se não casar nesse dia. O amigo procura convencer Apu a salvar a situação.

No primeiro momento, o estudante, que tem pretensões literárias e sonhos de independência, considera a proposta como uma coisa de loucos, mas a gravidade dos circunstantes e a aflição daquela família convencem-no a fazer um gesto que lhe parece nobre.

O casal logo a seguir vai viver no tugúrio do estudante na grande cidade. Aparna, a jovem esposa, regressa por um tempo a casa dos pais, por causa da gravidez.

Apu conhece o amor, sobretudo, o da ausência da amada. O destino, porém, como aquele velho que no autocarro parecia invejar a paixão com que relia uma carta de amor, pôs termo a essa felicidade enviando-lhe um mensageiro com a notícia da morte de Aparna ao dar à luz Kajal, um rapaz.

Apu, destroçado, inicia uma peregrinação pelo interior do país, cortando todos os laços e destruindo o manuscrito do seu romance. O amigo vai encontrá-lo a trabalhar numa mina e tenta chamá-lo à sua responsabilidade de pai.

Apu procura o filho em casa do avô, mas é rejeitado pela criança. Porém, no momento em que se resignava a partir sozinho, dá-se conta de que Kajal o segue à distância.

Tal como a noiva que não queria e que lhe veio a ser mais cara do que os seus sonhos, a criança indesejada e que jurara amaldiçoar por ser a causa da morte de Aparna é outro presente inesperado dos deuses.

Neste filme, transbordante de humanidade (não foi Renoir o mestre de Satyajit Ray?), há coisas admiráveis, como a transformação do pudor e da reserva de Aparna na confiança e amizade que se segue a uma intimidade perfeitamente elíptica. E este raccord sublime: quando a avó chora diante do berço a morte de Aparna, como que pressentindo a sua própria partida, solta um grande suspiro que se prolonga na imagem de uma onda que se desfaz na praia e quase vemos o seu refluxo arrastar consigo esse corpo cansado.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007


(José Ames)

DISPONIBILIDADE


Gabriel Marcel (1889/1973)

"No momento em que me comprometo, ou bem que arbitrariamente afirmo uma invariabilidade do meu sentir que não está realmente no meu poder instituir; ou antecipadamente aceito ter de cumprir, num momento dado, um acto que não reflectirá, de modo nenhum, as minhas disposições interiores quando eu o cumprir. No primeiro caso, minto a mim mesmo, no segundo, é a outrem que por antecipação consinto em mentir." (*) Como escapar a este duplo nó da constância de si próprio? Conhece-se a resposta de Gabriel Marcel: "todo o compromisso é uma resposta." É ao outro que eu quero ser fiel. A esta fidelidade, Gabriel Marcel dá o belo nome de disponibilidade."

"Soi-même comme un autre" (Paul Ricoeur)
(*) "Être et Avoir" (Gabriel Marcel)


Fará sentido então a promessa que fazemos a nós mesmos?

Quantas vezes não pudemos confirmar em nós próprios essa verdade de que algo que nos prometemos na juventude por completo se esvaziou, apenas pela passagem dos anos? Somos outros, e a promessa não foi feita àquele que somos agora. Tampouco lhe poderíamos mentir sobre os nossos sentimentos porquanto o coração é único e a consciência é uma só.

Aqui não há dilema. E a promessa só tem de ser cumprida, senão mudarmos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

REINOS DIFERENTES


http://www.pbs.org/wnet/nature/octopus/


"Desde havia algum tempo, sem saber muito bem o que tinha, ela queixava-se da sua saúde. É na doença que nos damos conta de que não vivemos sozinhos, mas presos a um ser de um reino diferente, do qual estamos separados por um abismo, que não nos conhece e ao qual é impossível fazer-nos compreender: o nosso corpo.

A um bandido qualquer, que encontrássemos na estrada, talvez pudéssemos torná-lo sensível ao seu interesse pessoal, senão à nossa desgraça. Mas rogar piedade ao nosso corpo, é discorrer em frente de um polvo, para quem as nossas palavras não podem ter mais sentido do que o ruído da água, e com o qual ficaríamos aterrorizados de estar condenados a viver."

"Du côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Há melhor imagem do que esta da nossa condição vulnerável?

Podemos reconhecer aqui um eco do dualismo cartesiano, entre o corpo e o espírito, mas para a experiência subjectiva que nos interessa é como se houvesse, de facto, duas naturezas de reinos diferentes. E um dia a nossa alma (animula, vagula, blandula) terá sempre de se confrontar com o silêncio inexpugnável do seu companheiro de jornada.


Os Alpes (José Ames)

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A AVENTURA


"A Aventura" (1960-Michelangelo Antonioni)

Anna desaparece numa das ilhas Líparas, depois dum grande desassossego que a levou a inventar o ataque de um peixe-cão e a discutir com Sandro (Gabriele Ferzetti), o namorado. Este, acompanhado dos amigos do iate e de Cláudia (Monica Vitti) procuram-na por toda a Lisca Bianca.

Na segunda parte, Cláudia e Sandro fazem uma viagem de amor pela Sicília, sob o pretexto de tentarem encontrar Anna. Em Taormina, Sandro é apanhado com uma prostituta e o filme termina em plena derrota moral, sem ilusões.

Hoje, quase poderíamos continuar a considerar revolucionária esta estética. Porque o cinema, dominado por Hollywood e a produção do outro lado do Atlântico, evoluiu numa direcção oposta, de montagem rápida, efeitos técnicos e emoções fáceis.

Mas, entretanto, passaram-se 40 anos. Este cinema, que se abre para o tempo real e que corresponde a um olhar novo sobre nós próprios, pode ser hoje melhor compreendido, com a percepção que ele próprio ajudou a modificar.

É de crer que assistamos a uma revalorização, para além da suscitada pela efeméride da morte de Antonioni (e de Bergman), só por efeito do mercado cultural.

Muito se falou, na altura, no tema da incomunicabilidade, neste autor. Estamos hoje em melhores condições para julgar o sentido dessa palavra.

As cenas da ilha são de uma beleza estonteante (magnífico preto e branco de Aldo Scavarda), menos pela paisagem física, do que por ser tão claramente um espaço em que as personagens são captadas num flagrante de vazio e inutilidade.

Anna é uma mulher complicada, mesmo neurótica, enquanto que Cláudia parece ter tudo para "comunicar" e ser feliz. O que falha neste romance (mais do que o efeito do sentimento de culpa, por terem esquecido e tão facilmente traído a "morta") é a própria inconsistência de Sandro ( a cena com o estudante de arquitectura, em Noto, é esclarecedora). De resto, é talvez ele que fornece a chave para o título do filme, quando sugere, meio por brincadeira, que aquele amor podia ser visto como uma aventura.

A lucidez e o pessimismo são o que melhor define esta psicologia do fracasso humano, que outros tentaram exprimir (como Huston, no "Tesouro da Sierra Madre"), sem conseguir envolver-nos desta maneira.

Tudo está em transcender o espectáculo, pela forma depurada e sem concessões. Num filme quase sem música, a flauta que se ouve na sequência da ilha, em que os dedos de Sandro roçam os de Cláudia, tem o mistério e o terror de uma serpente entre as ervas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A OBRA DO LIMBO


"The belly of an architect"
(1987-Peter Greenaway)


Um arquitecto americano (Kracklite) organiza, em Roma, no monumento a Vittorio Emanuele (a "máquina de escrever" dos romanos), uma exposição dedicada a Étienne-Louis Boullée, um arquitecto visionário do século XIX.

A grandeza do homenageado, que quase só deixou projectos, é motivo de um culto obsessivo que pouco a pouco vai isolando Kracklite, ao ponto de perder a mulher e a direcção da exposição.

Greenaway parece querer dizer-nos que Kracklite estava condenado à auto-imolação pelo seu desejo de dar vida a um artista sem obra.

O ventre assume, assim, uma importância desmedida, sendo o lugar da fecundidade ou do aborto, aqui justificado pelo envenenamento, a exemplo de Augusto que, na versão de Robert Graves, comeu os figos envenenados de Lívia.

O Limbo a que a obra de Boullée foi votada, mas, admite-se, também a dos próprios projectos de Kracklite recebem, assim, o seu álibi, sob a forma da doença incurável: o carcinoma pancreático para o francês e, como que por simpatia, o próprio cancro do americano.

A ANARQUIA DE ROBESPIERRE


Lenine. Transformar a guerra imperialista em revolução socialista

"Este reforçou o efeito através de meios muito estranhos para um homem que amava naturalmente o poder. Lançou-se, no seu jornal, em plena anarquia, louvando os soldados no momento em que acabavam de fugir massacrando os seus chefes, opondo-se às severas medidas tomadas pela Assembleia para assegurar a disciplina. Pedia que se reunissem os soldados licenciados, que se formasse um exército; segundo ele, não eram menos de sessenta mil, e propunha friamente que se desse a tão numeroso exército um soldo duplo. Como regra, estabelecia a independência absoluta do soldado em relação ao oficial, salvo em dois momentos: em exercício e em combate."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Robespierre era, de facto, um hipócrita e não acreditava numa palavra do que pregava, só defendendo a indisciplina por motivos tácticos, como outros fizeram antes e depois dele?

Foi assim com a transformação da guerra mundial numa guerra civil pelos bolcheviques dirigidos por Lenine.

Essa campanha teve, contudo, enormes consequências para o futuro da organização do exército. Porque se era possível que os chefes estivessem enganados, então, por que não o direito de julgá-los em todas as ocasiões?

Mas depois dos anos revolucionários, nada desse espírito vingou, nem podia vingar, no exército da URSS.

Para Robespierre não havia alicerces intocáveis quando se tratava de salvar a Revolução - neste caso, impedir a guerra a que ele se opunha, como quase todo o partido jacobino, comprometido com a venda dos bens nacionais.

Mas a que ideia de homem podia corresponder essa independência absoluta do soldado?

A retórica das liberdades individuais que apaixonavam a sociedade naquela altura simplesmente não previa qualquer espécie de servidão, mesmo voluntária. A excepção que o tribuno concede, no caso do combate, revela a crença ingénua em que o indivíduo só tem contas a prestar à sua consciência e que a sociedade poderia basear-se nessa moral apenas, suprindo o que tradicionalmente a hierarquia e a disciplina da organização militar conseguem extrair do soldado.

sábado, 4 de agosto de 2007

UM JUÍZO SEVERO


Extrema flexibilidade (http://www.breaktaker.com)

"Bem se podem louvar hoje os méritos de uma flexibilidade acrescida e da capacidade de adaptação, isso não nos deve impedir de julgar com igual severidade a inconsequência do comportamento, a fraca viabilidade e o caos de um grande número de objectivos e de decisões heterogéneos. E isso significa que a fixação rígida num objectivo determinado uma vez por todas - o que hoje se chama de "tatcherismo" . pode também ter vantagem a título de ensaio. Se a flexibilidade e a rigidez designam duas variantes da formação de expectativas relativamente improváveis, o problema não se situa na escolha de uma contra a outra, mas na sua combinação."

"Politique et Complexité" (Niklas Luhmann)


O que leva a que em certos meios se considere apenas a flexibilidade nas relações laborais não é que a estabilidade e uma certa rigidez não sejam necessárias, mas a crença de que a flexibilidade nunca será suficiente.

Em Portugal, já temos um dos maiores índices de precariedade no trabalho e o uso dos recibos verdes ultrapassa tudo o que seria razoável.

O facto é que não se pode compreender este discurso e esta obstinação sem perceber a mentalidade Estado-dependente que lhe subjaz. A do medo do risco e da verdadeira inovação. Para dar qualquer passo, quer-se a garantia de que não há qualquer resistência interna, seja ela sindical, corporativa ou simplesmente crítica.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007


Pallanza (José Ames)

VÁLVULAS


Speakers' Corner, Hyde Park, Londres

Sempre admirei o génio prático dos Ingleses. Por exemplo, essa instituição sui generis que é o Speakers' Corner, onde toda a palavra, por mais politicamente inconveniente que seja e dentro de limites legais, fixados com razoável tolerância, pode ser proferida ou ouvida por quem quiser.

Às vezes, encontra-se um carro da polícia por perto, mas tanto para proteger o orador como impedi-lo supostamente de "descarrilar".

O problema é que esta liberdade é exercida no único ponto do país onde não faz sentido dizer a verdade. Nunca passará pela cabeça de qualquer opositor político que se preze recorrer a esse púlpito para dizer o que pensa.

Esse lugar está marcado, seja o que for que ali se diga, pela insignificância, embora, ocasionalmente, como aconteceu em 2003 aquando dum protesto contra a guerra no Iraque, possa ser ocupado por verdadeiros manifestantes numa tentativa de desviar o símbolo do folclore para a actualidade.

A liberdade não está aprisionada numa jaula, como o tigre, para descanso do turista, mas não é uma liberdade a sério. O que é que lhe falta?

Falta-lhe o sentido e o risco de uma verdadeira acção. Ali, a liberdade é como que o fim de si mesma, como a sua pura forma num museu ao ar livre.

O parentesco desta instituição com o Carnaval é flagrante. Até as piores ditaduras consentem no Carnaval. Carne levare.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A CRENÇA DO MATERIALISMO


http://www.af.mil/shared/media/photodb/photos/

"O materialismo tem pelo menos a visão justa da fraqueza humana. Mas leva ao desprezo do homem. Colocando o bem na matéria, faz com que o homem seja tratado como matéria - ou abaixo dela. Porque duma relação ao mesmo tempo exterior e interior faz uma relação puramente exterior."

"Fragments et Notes" (Simone Weil)


Simone diz também que os materialistas crêem no materialismo, e que, apesar de tudo, o materialismo está mais próximo de "receber a verdade" do que o humanismo, pudesse ele permanecer "algum tempo sem esperança".

O que não passa no mundo de hoje não é que o materialismo seja uma crença (afinal, a própria ciência parte dos mitos em que acreditamos), mas é a ideia platónica do Bem, que orientaria essa crença.

O Bem é o sentido que se dá ao cosmos e ao homem como uma dimensão desse cosmos.

Mas podemos viver sem essa relação ao todo, de que parece, de resto, que perdemos a linguagem e a simbologia, para nos fixarmos no que podemos conhecer, isto é, em nós mesmos.

É verdade que esse culto pode ter consequências desastrosas e obrigar-nos a olhar, de cada vez, um pouco mais longe.

O ambiente, por exemplo, é apenas o emissário desse reino longínquo.


(José Ames)

A REVOLUÇÃO DO CORPO


"Lady Chatterley" (2006-Pascale Ferran)


A Lady Chatterley do filme de Pascale Ferran (2006) não é uma feminista (não conhecemos as suas leituras, nem a sua juventude) e percebemos pelo diálogo com Clifford que tem ideias sociais ingénuas.

Então, como surge esta consciência dum direito ao amor e este culto naturalista do corpo, no seio duma aristocracia vitoriana?

Tudo no filme é justo quanto à descoberta do prazer dos sentidos, aos silêncios e à timidez do guarda-florestal, por exemplo. A paisagem parece cúmplice deste regresso à simplicidade, mas a liberdade de Constance é inverosímil.

Nem sequer lhe falta a imprudência e a generosidade ( a mentira é contornada por esse acordo tácito com o marido, inválido de guerra) para ganhar a nossa razão.

Mas, enfim, que mundo é este?

Preciso de reler D. H. Lawrence para encontrar a ideia original.