quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Foz (José Ames)

DECLARAÇÃO DA IGUALDADE



"(...) a igualdade não é um objectivo nem um programa, é um princípio ou uma afirmação, não se trata de crer que os homens são iguais, trata-se de declarar que os homens são iguais e tirar as consequências deste princípio."

Alain Badiou (Conferência de 2 de Junho de 2004, em Rosário, Argentina, sobre: "A ideia de justiça")


Caí sobre estas palavras, atribuídas a Badiou, e interrogo-me sobre a possibilidade duma declaração poder tornar-se acção política sem alguma espécie de crença. De resto, o que levaria os autores da declaração a fazê-la se não estivessem convencidos que, no essencial, todos os homens são iguais? Se é apenas pela utilidade do princípio, podia igualmente defender-se, por exemplo, que a escravatura assumida é a condição mais favorável ao capitalismo

De resto, a escravatura também não nasceu da declaração contrária. Os homens terão simplesmente tomado as situações de facto (como a de haver um forte e um fraco) pela vontade de Deus, por exemplo, o que significa sempre tomar o fenómeno pela essência.

A partir daí, pode acreditar-se que os homens só não são iguais porque têm destinos diferentes. O próprio Aquiles se concebia  na situação do escravo (preferível, segundo ele, à morte) , o que não seria possível se acreditasse que entre um "herói" e o mais ínfimo dos homens não existe nada em comum. E Platão, no "Menon", ao chamar o pequeno escravo para mostrar que também nele existem as "ideias inatas", não diz outra coisa.

Com a descrédito da ideia de destino e numa sociedade onde os deuses foram substituídos pela ideia de sistema e de "forças sociais", toda a diferença parece ser culpa dos homens.

Declarar a igualdade é, pois, consequência directa dessa culpa. Culpa que, porém, só é politicamente eficaz se não for de todos, e se se dividir a humanidade em vítimas e predadores (o que é paradoxal, se os homens são, de facto, iguais).

De qualquer modo, não é uma declaração anémica que movimenta as paixões duma sociedade desigual.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

(José Ames)

UM MÉTODO PERIGOSO





Ao ver "Um método perigoso" (2011, David Cronenberg), não consigo afastar a ideia de que o autor não soube fugir da ilustração, a que não falta a frase famosa de Freud sobre a "peste" que ele e Jung levavam consigo para a América, nem o sofá da Bergenstrasse, 19.

O confronto de ideias entre o pai da psicanálise e Carl Jung desfavorece o primeiro, que nos parece mais o proprietário e guardião das ideias do que o seu criador. Esse retrato pode até não ser falseado, mas Jung, talvez pelo facto de ser o sujeito duma paixão amorosa, tem um relevo mais humano.

A"transferência" dos afectos de Sabina para o seu médico e a posição ética deste ao corresponder-lhe, são o anunciado tema da história. Jung e Sabina deixam-se arrastar para uma relação tórrida e mortificante para o psicanalista, até à ruptura provocada por este.

O "método perigoso" é a vida. Assim como os actores que tanto mimam o amor, acabam por ser mais  facilmente presas do amor e criaturas daquilo que representam, o psicanalista que mima o interesse (que começa, decerto, por ser "interessado") pelos problemas mais íntimos duma doente enfrenta os perigos da "transferência".

Depois dos tempos heróicos da psicanálise, terão sido encontradas soluções técnicas para este problema.

Mas Jung, no filme, faz jus ao aforismo de que não se pode saber sem sofrer. O que nos leva a pensar que o progresso técnico da arte psicanalítica abriu também as portas ao puro charlatanismo.


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Porto (José Ames)

PRIMAVERA



"(...) Pour tous les innocents qui haïssent le mal
La lumière toujours est tout près de s’éteindre
La vie toujours s’apprête à devenir fumier
Mais le printemps renaît qui n’en a pas fini
Un bourgeon sort du noir et la chaleur s’installe
Et la chaleur aura raison des égoïstes
Leurs sens atrophiés n’y résisteront pas (...)."

"Dit de la force de l'amour"  (Paul Éluard)



"O calor vencerá os egoístas". Quero crer. E os inocentes que odeiam o mal serão vingados pelos novos inocentes. O que se celebra aqui é a vida, para a qual a bondade ou a maldade são jogos de luz e de sombra.

Mas a palavra amor diz outra coisa. Diz que a vida tem de ser humana e que cada um de nós é como aquele botão de flor que "sai do negro" na primavera. O problema é que as nossas estações podem ter períodos muito mais largos do que os da natureza. Mas a força que renasce é a mesma. Podemos chamar-lhe amor.

Parece, talvez, masoquista a ideia dos filósofos da Grécia Antiga que consideravam a melhor das vidas uma preparação para a morte. Mas é como se, para eles, o renascimento fosse o verdadeiro objectivo. A passagem pela terra, pelo "negro" de que fala o poeta, não seria, assim, o oposto da vida, mas a própria essência da "primavera".

domingo, 27 de novembro de 2011

(José Ames)

A SUPERFÍCIE DAS COISAS



“Tive, pois, de suprimir o saber para encontrar lugar para a crença, e o dogmatismo da metafísica, ou seja, o preconceito de nela se progredir, sem crítica da razão pura, é a verdadeira fonte de toda a moralidade e é sempre muito dogmática...”

(Kant, citado por Jacques Taminiaux)


Não é o caso de toda a especialização ter o preconceito de que pode progredir sem "crítica da razão pura"? O facto é que o progresso, medido, pela sua eficiência e pela sua crescente complexidade, existe diante dos nossos olhos, sem termos de nos pôr a questão do seu valor epistemológico.

Num certo sentido, a ciência explora ainda a superfície das coisas (estando-lhe vedado o nómeno kantiano), mas como diz Musil, é aí que têm lugar as verdadeiras revoluções: "pode medir-se por isso o imenso poder criador da superfície, comparado com a obstinação estéril do cérebro."

Tal como Kant, temos de abdicar do saber para dar à moral, com a crença, uma fonte estável. Mas o progresso imparável do conhecimento já é independente da "crítica da razão pura", ou, no melhor dos casos, é apenas "criticado" pela experiência.

Assim, o "saber" aproximou-se enormemente da metafísica (a ciência é a melhor prova de si mesma), o que lhe permite prescindir de toda a crítica filosófica.

sábado, 26 de novembro de 2011

Antas (José Ames)

SEM TEMPO


"In Time" (2011, Andrew Niccol)


Eis um enredo que podia ser erigido em metáfora do capitalismo, que hoje, visivelmente, reclama toda a classe de exorcismos.

A expressão de que "o tempo é dinheiro" foi aqui tomada à letra, porque, segundo a história, as pessoas, a partir dos 25 anos, têm que pagar pelo tempo de vida. No "Banco Central" desta economia, em vez das barras de oiro, encontra-se um carregador com 1 milhão de anos. O código do cofre-forte é a data de nascimento de Darwin.

Não sei se "a lei do mais apto" é, ainda (se o foi alguma vez) a verdadeira ideologia do grupo dos predadores que agora se reúnem junto às poças do dinheiro digital e da "engenharia financeira".

Porque o seu deus não é a Natureza e muito menos a ciência. O seu deus parece ser a roleta, mas uma roleta viciada por um acordo mais ou menos implícito com os donos do casino.

E qual é a ideologia dum jogador que faz batota com a própria sorte? Ele não confia em nenhum deus porque, na verdade, já não arrisca. Limita-se à droga do poder.

"In time" nem precisa de ter boas intenções, por ser apenas um produto da "necessidade do mercado". Tal como há 30 ou 40 anos, as histórias da "Guerra Fria" eram as preferidas do público, agora, qualquer avatar de Wall Street nos agrada.

Mas dali não vem esperança nenhuma.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

(José Ames)

OS AIS DA DEMOCRACIA


"A Greve" (Serguei Eisenstein)


Como se pode medir o sucesso duma greve? A tarefa será tanto mais fácil se o número de adesões for erigido em único critério. Mas, assim, ela teria o fim em si mesma, o que não deixaria de ser estranho, face ao enorme esforço despendido e aos custos para a economia. Além disso, as expectativas criadas pela greve passariam para segundo plano, relevando-se apenas o êxito dos organizadores.

Numa situação como a que vivemos hoje, a greve tem todas as condições para vencer e convencer no plano táctico, ao mesmo tempo que, estrategicamente, parece não ter nenhuma e a própria escolha do "adversário" ser tudo menos clara. Com efeito, contra quem é esta greve? Contra a Troika, contra o governo que é o seu "pau mandado", contra a UE, ou contra o "sistema"?

É evidente, pelos resultados eleitorais das últimas décadas, que o sistema não está em causa para os que votam nos partidos do chamado "arco governamental". E, para os outros, a alternativa ainda não saiu da coxa de Júpiter. A adesão tem pois um motivo "economicista"; é a resposta possível (proporcionada pelo sistema) à política de austeridade e aos sacrifícios impostos pelos credores.

A democracia, é claro, permite tanto as greves eficazes (no sentido de que desbloqueiam uma situação, ou impõem uma alternativa credível) como aquelas que, apesar de não terem qualquer eficácia em termos práticos e poderem até agravar os problemas, dum certo ponto de vista, caem no âmbito do direito de expressão.

Uma greve que não pode designar um objectivo concreto (que é o caso de todas as que são, no fundo, contra o "sistema") e não apresenta nenhum critério de sucesso realista, para além do número de grevistas, corresponde ao exercício do direito de protesto. Batem-me, mas eu tenho o direito de dizer ai!

Esta maneira de ver peca, talvez, por ser demasiado estreita. Porque é ao nível do sistema político e social que é preciso decidir  do carácter duma greve geral.

Já outros notaram, de paragens inesperadas - ou talvez não -,  o papel positivo da organização do descontentamento. Devemos pensar na economia de violência e irracionalidade, onde o civismo é tão fraco como entre nós, que representa uma greve geral como esta. Se ainda por cima a adesão é tão grande, só podemos regozijar-nos com o êxito da organização.

Por outro lado, não sabemos, quando fazemos um movimento, por pequeno que seja, se estamos a desencadear algum "efeito borboleta". Pode ser para pior, mas seríamos muito pobres em coragem se só nos mexêssemos com todos os trunfos na mão.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Canide (José Ames)

O REI E O BARÍTONO



"Todos os Steinbrokens, de pais a filhos (como ele dissera a Afonso) eram bons barítonos e isso trouxera à família não poucos proveitos sociais. Pela voz cativara seu pai o velho rei Rudolfo III, que o fizera chefe das coudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus quartos, ao piano, cantando salmos luteranos, corais escolares, sagas da Dalecarlia - enquanto o taciturno monarca cachimbava e bebia, até que,  saturado de emoção religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do sofá, soluçando e babando-se."


"Os Maias" (Eça de Queirós)




A mistura do álcool com a religião no rei melómano (suponho que inventado por Eça) cheira ao vitríolo da "casa". Afastemos as nuvens da cerveja preta e o que fica não é digno do nome de religião.

Mas a sátira não tem só como objecto o que já era naquela altura  uma caricatura dos alemães, com o seu gosto pela bebida do malte e pelos enchidos de porco.

O autor do"Crime do Padre Amaro"  deve ser, evidentemente, salvo de qualquer acusação de atacar a religião, pois o o seu alvo, tanto na história de Amaro como na anedota do rei Rudolfo, é simplesmente a hipocrisia.

Mas como isso nos leva longe! Quando queremos purificar o sentimento "verdadeiramente" religioso e expurgar toda a embriaguez, temos de percorrer o catálogo não só dos álcoois, como o das euforias colectivas, e, mais difícil ainda, o dos nossos motivos secretos ( secretos até para nós mesmos).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

(José Ames)

ARMADILHA PARA OS SÁBIOS


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"Somos feitos de tal maneira que o melhor em nós é primeiro julgado como muito mau; por exemplo, se uma criança se obstina e se fecha. Desde que ela descobre em si esse tesouro do querer que só a ela pertence, de imediato se arma; e o primeiro efeito é quase sempre uma espécie de maldade; porque ninguém ao princípio acredita que ela poderá salvar a sua mais cara opinião sem violência, e a mais pequena discussão mostra-o bem.  De modo que não ceder, que é a mais bela coisa, passa primeiro pela mais feia. E, pelo contrário, os carneiros que ainda não encontraram o seu ser são naturalmente preferidos, ainda que o pastor seja o mais sábio dos homens."

"Esquisses de l'homme" (Alain)


Por que é tão fácil ceder a essa espécie de prova que é a "maldade" da criança? Alain começa por dizer que é assim que somos feitos. Isto é, não é por termos tido certa educação ou frequentarmos determinado meio. O nosso "estofo" tem mais a ver com o facto de nós próprios já termos sido crianças e que a nossa "visão do mundo" começou por ser mágica. As palavras nunca perderam, para nós, essa origem.

O espectáculo da teimosia numa criança não se informa do futuro, mas das nossas próprias emoções. O sábio engana-se e o instinto não pode ser tão esclarecido. Mas aqui se trava uma das primeiras batalhas com significado para o desenvolvimento da criança. Aquele que viu, desde o início, a sua vontade assim diabolizada, poderá tornar-se realmente mau, ou abdicará do seu  tesouro para se juntar à "carneirada".

É verdade, todavia, que a nossa época é mais propícia a uma desgraçada cedência dos pais que é tão prejudicial como a diabolização. Uma vontade fortalece-se pela oposição que encontra. Neste regime, até as crianças mais dotadas, vêem o seu querer degenerar em poder abusivo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Porto (José Ames)

A TIA DE ANA PAVLOVNA


"War and Peace"(1955, King Vidor)



"Cada visitante procedia à cerimónia de saudar esta velha tia que ninguém conhecia, que ninguém queria conhecer, e da qual ninguém queria saber; Ana Pavlovna observava este cerimonial com um interesse grave e solene, aprovando em silêncio. A tia falava a cada uma dessas pessoas com as mesmas palavras acerca da saúde delas e da sua própria, e da de Sua Majestade, que 'graças a Deus estava hoje melhor'. E cada visitante, embora a cortesia o impedisse de mostrar impaciência, deixava a velha com um sentimento de alívio por ter cumprido um dever vexante e não voltava a ela durante toda a noite."


"Guerra e Paz" (Leão Tolstoi)



A democracia é hoje quase tão real como a presença da velha tia no salão de Ana Pavlovna. Todos lhe prestam homenagem, mas ninguém, no fundo, parece querer saber dela.

É certo que a velha senhora (ainda que só quarentona, entre nós) repete sempre as mesmas frases sobre o poder do povo e a majestade do voto, mas cumprida a obrigação, todos a esquecem.

A começar pelos próceres da União Europeia que parecem já dar de barato que entrámos numa nova fase em que a democracia conta tanto como aquela personagem de salão. Veja-se o que escreveu António Guerreiro na última edição do Expresso:

"(...) a Europa está actualmente a promover um modelo técnico de governamentalidade (acabam de entrar em acção os "governos técnicos" de Roma e Atenas) que abole a política e a ideia de representação e mediação em que esta se baseia. (...) Esta forma de de governamentalidade, em que a referência não é a cidade (a polis), mas a empresa começou a ser designada por pós-democracia."

Nem mais. O prefixo serve aqui para desqualificar a democracia, como coisa irremissivelmente antiquada.

Salazar podia dizer que o povo não estava preparado. Agora, parece que é a própria democracia que está ultrapassada.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

(José Ames)

REVIRAVOLTAS


Winston Churchill



"O Dr. Paul Arnheim tinha pois razão quando dizia a Ulrich que a história universal não autorizava nunca um acontecimento negativo; a história universal é optimista: sempre entusiasta quando se trata de tomar um partido, e nunca tomando o partido contrário senão depois!"


"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)




A frequência das "reviravoltas" colocaria, de facto, um problema se o curso da história se acelerasse. Mas tal como as coisas se passam, o "entusiasmo"  com que se dividem os partidos só pode ajudar ao trabalho da "astúcia" histórica de que falava Hegel, ou ao que no cristianismo significa a expressão "Deus escreve direito por linhas tortas".

O tempo da "reviravolta" permite, assim, encontrar-se uma espécie de coerência lógica nas posições antagonistas que, podem preparar, o mais naturalmente possível, as respectivas inversões.

Esta é, evidentemente, uma ideia escandalosa na política e que a moralidade comum condena, por exemplo, com o termo de "vira-casacas" aplicado ao político que muda de opinião. Quando o jovem Churchill atravessou o corredor que separa, no Parlamento inglês, a bancada do partido no governo da bancada da oposição, foi sujeito à mesma reprovação. Mas nenhuma biografia leva isso à conta da falta de princípios, e o que é relevado é a sua ambição e a sua independência.

No espaço duma vida, somos levados a pensar que, ao abandonarmos certo contexto, a lógica que nos guiava se perdeu, a ponto do nosso entusiasmo, se ainda é possível, se pagar mais do que com uma traição às ideias, com uma traição a nós próprios. O que, de resto, não deveria causar-nos problemas porque crescer tem o mesmo efeito.

domingo, 20 de novembro de 2011

Praia da Adraga (José Ames)


O MANIFESTO DOS "PRÍNCIPES"



Louis Henri Joseph de Bourbon, Prince de Condé

 

"Tudo anuncia, tudo prova um sistema de insubordinação racional e o desprezo pelas leis do Estado [...]. Quem poderá dizer onde se deterá a temeridade das opiniões? Os direitos do trono foram postos em questão [...]. Em breve, os direitos de propriedade serão atacados; as desigualdades de fortuna serão apresentadas como um motivo de reforma." 


"Manifesto dos príncipes (Condé, Conti e o conde d'Artois) de 12/12/1788, cit. por Jean-Christian Petitfils)



Se estivesse uma Revolução à vista, imaginar-se-ia um tal manifesto da parte dos "privilegiados" do sistema?

Nunca por nunca deveria esse manifesto invocar a subversão das leis do Estado, porque o Estado, segundo eles, deve ter o mínimo de leis possíveis e regulamentar o menos que puder.

Os direitos da democracia? Se se passa por cima da vontade do eleitorado para impor a receita "necessária"…

E quanto ao resto, não precisamos de que as desigualdades, cada vez maiores, sejam consideradas como a consequência do direito inalienável de cada um a utilizar, em benefício próprio, as suas capacidades e, mais importante ainda do que isso, a sua própria sorte? A desigualdade não é um problema: ela é a "galinha dos ovos de oiro"!

Esse outro "manifesto dos príncipes" nunca "deveria" aparecer sob tal forma, porque esta guerra social foi desencadeada pela "desclassificada réplica" daqueles que o lançaram em vésperas da Revolução.

Mas não estaremos certos de que se bateriam pelos seus privilégios também com essas armas?

 

sábado, 19 de novembro de 2011

(José Ames)

DANTON

Gérard Depardieu no "Danton" de Andrzej Wajda


"Nous ne voulons pas condamner le Roi, nous voulons le tuer. "
(Danton)


A ideia da história atingiu nesta frase de Danton o seu ponto mais dogmático.

Não se pretende julgar Luís XVI, porque levá-lo a juízo seria dar-lhe uma oportunidade de defender o que não tem defesa. Seria, além disso, uma farsa, porque a sua morte era "necessária" para lá de quaisquer considerações humanitárias.

É essa a situação de um réu que todas as circunstâncias acusam e que ofenderia a própria justiça não condenar. A boa consciência comete crimes, mas no reino paranóico da virtude, o medo é o maior dos carrascos.

Eu prefiro que um poderoso escape à justiça e faça troça das leis, que viver num tal reino virtuoso, em que um homem está já morto por simples dedução lógica.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Guarda (José Ames)

O CAPITALISMO DE ROSTO HUMANO


Niklas Luhmann
 
"A autonomia que caracteriza a sociedade moderna não é, de facto, de modo nenhum, uma autonomia dos seres humanos, mas a autonomia dos próprios sistemas. A autonomia do sistema político não surge da capacidade de um sujeito ou vários sujeitos deduzirem leis universais, às quais  os sistemas sociais deveriam obediência e que, logo, libertariam o sistema político de obrigações externas. (...) Pelo contrário, Luhmann vê a autonomia simplesmente como um pré-requisito contingente de um sistema social que funcione. Os sistemas, sustenta, tornam-se autónomos tanto quanto aceitam (ou encontram meios paradoxais de obscurecerem) a sua própria contingência, tanto quanto reconhecem ( ou paradoxalmente obscurecem o facto) de que não podem guiar-se por motivos externamente deduzidos, e consequentemente, tanto quanto criam e comunicam a sua própria realidade como sentido plausivelmente contingente."

"Niklas Luhmann's Theory of Politics and Law" (Michael King e Chris Thornhill)


Os sistemas regem-se pelas suas próprias leis estruturais e  o papel da "ideologia" é tornar esse funcionamento compatível com a ideia que temos de nós e do mundo. No caso de ser demasiado "desumano", cabe-lhe lançar "a nuvem de poeira" que o torne minimamente aceitável.

Quando vemos as proporções catastróficas que atingiu a crise do sistema, a primeira coisa que salta aos olhos é que não vai ninguém "ao leme". E que as várias "narrativas" para explicar o fenómeno são outras tantas tentativas de racionalizar e de tornar "digeríveis" os acontecimentos, tanto da parte dos "fautores" da desordem como das suas vítimas ( ou melhor dizendo, dos representantes destas).

É óbvio que o sistema deixou de funcionar e que procura uma qualquer forma de estabilidade para se reformular, seja o que for que pensem disso os seus ideólogos ou contra-ideológos.

Neste momento, a extrema contingência do sistema tornou-se insuportável. E apenas se pode esperar que, à força de novos e "paradoxais meios", essa contingência regresse a uma aparência menos feroz. É a hora do capitalismo de "rosto humano".