terça-feira, 31 de julho de 2007

A RECONSTRUÇÃO DO TEMPLO


Isaiah Berlin (1909/1997)


"A criação do Estado de Israel prestou aos indivíduos o maior serviço que uma instituição humana pode prestar: devolver aos judeus, não já simplesmente a sua dignidade e o seu estatuto pessoal, de seres humanos, mas qualquer coisa de incomparavelmente mais importante: o seu direito a escolherem enquanto indivíduos a sua maneira de viver - ou seja, essa liberdade de escolha de base, o direito a viver ou morrer, a tomar o caminho do bem ou do mal, conforme cada um entenda, à falta da qual a vida humana é uma forma de servidão, como efectivamente o foi no caso da comunidade judaica durante quase dois mil anos."

"O Poder das Ideias" (Isaiah Berlin)


Este ensaio de Berlin foi evidentemente escrito antes da questão palestiniana se ter tornado o protótipo dos conflitos aparentemente insolúveis.

Mas é útil perceber a importância desse simbolismo na realidade do Estado judaico. A memória dos dois mil anos de exílio está omnipresente e influencia todas as considerações políticas.

Não sei se esta "territorialização" acabará de vez com o destino do judeu sem pátria, eterno e frustrado imitador dos outros. Mas face à dramatização do conflito e à precariedade e do seu estatuto aos olhos dos seus inimigos, não é de estranhar que aquele destino se prolongue na imaginação, sendo Israel mais uma das reconstruções do templo destinadas a repetir-se até o fim dos tempos.


Bastide (José Ames)

ECONOMIA E VACAS SAGRADAS


http://images.google.com/imgres?imgurl=http://www.martusfs.com/

No país em que se admira o mercado quase como uma religião, o que acontece quando ele falha tão estrondosamente como acontece com o sistema de saúde?

Nada.

O sistema criou anticorpos suficientes para que já não pareça possível resolver o problema por métodos democráticos.

"Pior, 15% dos cidadãos não têm cobertura de seguro de qualquer espécie - o que deveria ser uma estatística surpreendente para a mais rica economia do mundo, mas provavelmente não é, porque isso é objecto de lamentações há tantos anos. Compare-se isto com a Alemanha, onde 0,2% da população não tem cobertura, ou com o Canadá e a Grã-Bretanha, onde toda a gente tem essa garantia do governo."

Mas por que não funcionam os seguros?

"Algumas pessoas que têm despesas mais prementes do que o seguro de saúde (por exemplo, os jovens pobres, que têm pouco dinheiro e justamente antecipam que não vão ficar gravemente doentes) saem do sistema. Como resultado, as companhias de seguros, precisando de cobrir os seus custos, aumentam os prémios para o cliente médio, afastando cada vez mais pessoas."

Contrariamente ao modelo dos "limões" absolutos (selecção adversa, na gíria dos economistas), o mercado não entra completamente em colapso. Porquê?

"Em parte, porque muitas pessoas acham que os riscos de terem de pagar por tratamento médico são tão preocupantes que estão dispostas a pagar substancialmente mais do que um prémio actuarialmente justo."

E, também, porque os grupos mais jovens são constrangidos a aceitar um pacote de seguros com o seu emprego.

Os custos duma gigantesca burocracia (as companhias têm de "monitorizar os riscos, o comportamento e as despesas dos seus clientes") pesam na ineficiência do sistema, sobretudo quando se pensa que, com muito menos custos, outros países garantem um serviço universal.

"Os cuidados de Saúde nos EUA custam um terço mais, por pessoa, do que ao seu rival mais próximo, a super-rica Suíça, e duas vezes mais do que muitos países europeus gastam."

Portanto, neste caso, o mercado não funciona, e o que funciona só é possível graças à falta de alternativas e a uma espécie de imposto privado sobre os mais jovens, atrelando o seguro ao emprego. Tudo isto ao mesmo tempo que se deixam milhões de pessoas sem qualquer cobertura.

Talvez o governo pudesse fazer melhor. Mas, como diz o autor: "infelizmente, enquanto os mercados podem falhar, os governos podem também falhar. Políticos e burocratas têm as sua próprias motivações."

(citações do livro de Tim Harford, "The undercover economist")

segunda-feira, 30 de julho de 2007

EGOMETRIA


http://www.reneelevy.com/Dessins

"(...) aquilo que esquecemos ter dito, ou mesmo o que nunca dissemos vai provocar a hilaridade, até num outro planeta, e a imagem que os outros fazem dos nossos actos e gestos parece-se tão pouco com a que fazemos de nós mesmos, quanto com um desenho qualquer falhado decalque em que a um traço negro correspondesse um espaço vazio, e a um espaço em branco, um contorno inexplicável."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Esta verdade psicológica que encontra tantas confirmações na sabedoria popular, do género de "ver o argueiro no olho do vizinho e não a tranca no nosso" não é, contudo, a última palavra.

Porque, por outro lado, aquilo a que se chama a fé em si próprio parte do princípio oposto de que são os outros que não acertam, por reduzirem todos os seus juízos a uma empírica mediania.

E o conformismo não é outra coisa senão essa vontade de nos corrigirmos em função de tais juízos.


(José Ames)

A DESIGUALDADE FUNCIONAL



"Em primeiro lugar, cada pessoa deve ter um direito igual ao sistema, o mais amplo possível, de liberdades de base iguais para todos, que seja compatível com o mesmo sistema para os outros. Em segundo lugar: as desigualdades sociais e económicas devem ser organizadas de modo a que, ao mesmo tempo, (a) se possa razoavelmente esperar que sejam em benefício de cada um, e (b) que estejam ligadas a posições e a funções abertas a todos."

"A Theory of Justice" (John Rawls, citado por Paul Ricoeur em "Soi-même comme un autre")


Poder-se-ia dizer, de outro modo, que todas as desigualdades na repartição da riqueza e dos rendimentos seriam em benefício de todos, se fosse possível estabelecer o limite a partir do qual "as transferências sociais se tornariam contraproducentes."

Rawls é acusado, à direita, por igualitarismo ("prioridade aos mais desfavorecidos") e, à esquerda, por "legitimar a desigualdade."

A sua resposta ao primeiro grupo é que "a uma desigualdade arbitrária, as vantagens dos mais favorecidos seriam ameaçadas pela resistência dos pobres ou simplesmente pela falta de cooperação da sua parte." Ao segundo grupo: "uma solução mais igualitária seria rejeitada unanimemente, porque todos ficariam a perder."

É óbvio, porém, que a experiência desse limite a partir do qual o sistema ( e, aqui, não só o capitalismo ) penalizaria todos por um acréscimo de igualdade económica não tem qualquer possibilidade de ser realizada.

Mesmo admitindo que exista um tal limite, a impossibilidade da sua demonstração permanentemente alimentará o debate moral, transformando, porventura, uma questão técnica, em metafísica social.

domingo, 29 de julho de 2007

A DEFORMAÇÃO DO DUPLO



Do filme de Tarantino, "À prova de morte", saio com a impressão de que é só a violência que nos agarra à cadeira e que a imagem de marca deste realizador o está a encurralar neste único registo.

Mas tem de se fazer justiça ao jogo que a citação cinematográfica desempenha nos seus filmes. Nesta segunda parte, pensamos logo em "Thelma and Louise", de Ridley Scott, mas com um final paródico.

Por outro lado, há a fabulosa personagem de Kurt Russell e o significado da sua "deformação profissional". Como duplo, vivendo as cenas mais mortíferas como um simulacro, salta para a realidade numa confusão de códigos assassina. O paralelo com a violência virtual dos jogos electrónicos e de filmes como este não pode ser evitado.

É por isso que "à prova de morte" deve ser entendido à letra na boca deste "stuntman", visto que a morte nunca ocorre no virtual.

E a cena de pancadaria das mulheres com que termina o filme e o próprio comportamento de adolescente apanhado em falta evidenciado pelo assassino sugerem-nos que este é o nosso mundo e as suas fronteiras é que se tornaram indecisas.


Veneza (José Ames)

O OLHAR ETNÓLOGO


http://www.superlocal.ch/salem/wp

"Mas, se são percebidos como estranhos, o motivo é precisamente esse: a sua inteligência é demasiado penetrante, a sua dedicação demasiado grande; são especialistas na tribo, não membros dela. São seus servidores, talvez os seus salvadores, mas não são feitos da mesma massa homogénea."

"O Poder das Ideias" (Isaiah Berlin)


Berlin analisa o fracasso de todas as experiências históricas de assimilação das comunidades judaicas.

A maior perspicácia sobre as leis e a natureza da sociedade em que viviam, era uma questão de sobrevivência. Eles tinham que conhecer os gentios, melhor do que eles se conheciam a si mesmos.

E isso mesmo os mantinha separados e culpados, ainda que involuntariamente, de "objectividade".

Os judeus, sempre acompanhados da sua religião portátil (Debray), dos textos sagrados e do seu Sião celestial, tornavam-se, assim, o eternamente outro, por causa dessa primeira necessidade de conhecer, de "descobrir como os seus anfitriões funcionam."

A assimilação era, pois, logo de início afastada, como não desejada, nem aprovada pela religião e isso, em todo o lado, reproduzia a inultrapassável distância.

Algo de semelhante se pode encontrar no olhar etnológico.

O etnólogo estuda o homem primitivo, com toda a justiça de que é capaz, mas nunca a um mesmo nível de humanidade.

sábado, 28 de julho de 2007

O OUTRO MUNDO


"Os Outros" (2001-Alejandro Amenábar)


Na origem, há um acontecimento demasiado grave de que só as crianças retêm a memória.

Os filhos de Grace (Nicole Kidman) sofrem duma doença rara que os obriga a viver protegidos da luz natural. Por isso, a mãe se esforça por conter o sol, fechando os quartos à chave, um a um, como num navio se tem de estancar a água.

Depois, chegam três serviçais que ninguém chamou e que já conhecem a casa dum passado misterioso. São eles que explicam a Grace o estranho costume que tinham os anteriores inquilinos, de geração em geração, de posarem para a fotografia de olhos fechados. Era simplesmente porque estavam mortos. É assim que Grace descobre que esses criados também estão mortos, porque encontra o trio fotografado de olhos fechados.

A partir daí, percebemos que esta história de vivos convivendo com os mortos está mal contada desde o início. De facto, Grace, num acesso de loucura, tinha assassinado os filhos, suicidando-se a seguir, e esse é que é o acontecimento trágico original.

Os "actualmente" vivos entram no filme (são os novos ocupantes da casa) numa breve cena de espiritismo, em que os dois "mundos" comunicam.

E esta é a primeira vez que o cinema nos dá o ponto de vista do "outro mundo", dos espíritos com que o medium consegue estabelecer contacto.
Mesmo para quem não é seguidor do dr. Kardec, há nesta engenhosa encenação, sem os habituais truques para criar o suspense, suficientes motivos de admiração.

Se os mortos só podem viver no espírito dos vivos, de facto, não há limite para o bem e para o mal da sua influência. Isso é suficientemente credível para ter inspirado um dos mais antigos terrores da humanidade.

ALERGIA


"Uzak" (2002 - Nuri Ceylan)


Um jovem da montanha vem viver uns dias no apartamento do primo, fotógrafo, em Istambul.

Apesar dos laços de sangue, os dois homens não parecem ter nada a dizer um ao outro. A diferença de idades e de cultura é demasiado óbvia.

O rústico deambula, meio perdido, pela paisagem urbana (já alguém imaginou Santa Sofia coberta de neve?). O tráfico, os centros comerciais, as mulheres, não são bem reais para o seu olhar curioso, mas passam por ele como uma corrente de água.

O outro, habituado a viver só, observa com um rigor maníaco todos os pequenos transtornos que a presença desta criatura estranha implica no rame-rame da sua vida. Sente-se obrigado a esconder-lhe que às vezes gosta de se relaxar vendo um filme pornográfico.

Exasperado, mas sem verdadeiras razões, decide-se a dar-lhe a entender que chegou a hora de o deixar em paz.

Ao ver o seu saco de viagem no chão, o hóspede compreende o que lhe resta fazer.

Esta é uma imagem da Turquia moderna que nada tem a ver com a impressão que nos deixa uma visita turística. E este problema, da alergia ao outro, as mais das vezes latente nas nossas vidas de empedernidos individualistas, podia encontrar-se em qualquer das nossas metrópoles.

Fiquei muito motivado para ver os outros filmes de Ceylan.

sexta-feira, 27 de julho de 2007


(José Ames)

quinta-feira, 26 de julho de 2007

UMA PROMOÇÃO


http://populo.weblog.com.pt


A distinção apaga todos os juízos de valor que formam a psicologia duma secção. É como se um manto nos caísse sobre os ombros, tornando-nos irreconhecíveis. Tenta-se manter a mesma atitude e não mudar em nada, mas os outros esperam um sinal vindo doutra direcção. O silêncio de todos os dias passa a ser “caixinha”, ou gravidade prenunciadora dum distanciamento. Assim, a cortesia nos aliena das antigas amizades e o salto hierárquico é significado pela lei humana. Porque é irrelevante a violência interior e a complexidade moral da aceitação das honras. Não pode haver mistura para salubridade da inteligência. O silêncio, a atitude pacífica fazem-nos alinhar pelo princípio contrário. Seria preciso o escândalo e a indignação para conservar o direito ao estado anterior. Novas amizades se esboçam que repugnam ainda a quem gostou sempre de ser soldado raso.

À falta de galões, os homens mudam a expressão e a continência. A autoridade precisa de se impor pela aparência apenas. Daí o ar carrancudo de alguns chefes; eles têm medo de que o respeito falte se forem naturais. Mas nenhum homem se aceita como chefe sem as marcas da autoridade. É preciso que o trabalho, que é violência civilizadora contra si próprio e disciplina moral, se inspire no espectáculo dum homem exilado da pessoa e do mundo natural dos justos. Porque toda a parcela do poder tem o ricto da necessidade inflexível e do juiz que tem de julgar as acções só e os resultados. No aspecto do chefe aparecem as paixões no pelourinho e a ofensa também.

O PARADOXO DO SAMURAI



"Esta falta de preocupação pelo estranho ao grupo é dramaticamente ilustrada pela tradição samurai conhecida como "experimentar a espada nova", ou tsujigiri. A palavra japonesa significa, literalmente, "corte de cruzamento". Para que uma espada fosse aceitável para um samurai, tinha de ser capaz de trespassar um adversário, do ombro ao flanco oposto, de um só golpe. Participar numa batalha com uma espada incapaz de fazer isto poderia significar a desonra."

"Como havemos de viver?" (Peter Singer)


Assim, para experimentar a sua espada nova, esperava num cruzamento, "até que um camponês incauto, ou qualquer viajante não-samurai, calhasse passar por ali. Então com um só golpe, tentaria dividir o infeliz em dois."

Isto para relevar o terrível paradoxo do espírito tradicional japonês que aliava uma fortíssima e algo exótica solidariedade de grupo a uma indiferença em relação aos estranhos, que podia chegar a extremos como o daquela tradição samurai.

O Japão tradicional fornece, assim, um exemplo de falta de integração do indivíduo na sociedade como um todo. Ora, a sociedade democrática, através dos seus sub-sistemas, parece tender para algo de semelhante, conforme as teses de Niklas Luhmann.

E embora o indivíduo tenha aqui maior visibilidade, o que se pergunta é até que ponto isso corresponde a um conceito de acção (e, logo, de participação)?


Pula (José Ames)

EFEITOS DE REPRODUÇÃO



"Como no modelo das bonecas russas, a participação acaba por tornar-se uma organização dentro da organização, uma burocracia dentro da burocracia. O resultado deixa-se em geral denunciar sob o nome de burocracia e celebrar sob o de participação. Esta dupla apreciação acaba por ter um efeito imobilizador; cauciona-se por razões de princípio aquilo que se considera nefasto na realidade. O indivíduo particular resigna-se, quanto a si, a estratégias pessoais visando a acomodação ou o aumento da influência própria, ou então à sua defesa ou à sua imunização."

"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)


E, noutro passo, diz Luhmann que hoje nos é difícil compreender "até que ponto as esperanças ligadas às reivindicações de participação estavam sobreavaliadas, e até que ponto as ideias sobre a sua implementação e os seus custos podiam ser ingénuas."

O resultado decepcionante deste anseio da geração de sessenta e setenta, cujas origens o sociólogo remonta à Idade Média, quando o indivíduo podia aspirar a fazer parte dum todo, é normalmente interpretado como uma consequência dos obstáculos levantados pelo poder dominante. Esses crentes desiludidos podem, assim, poupar-se a uma análise do problema de fundo, atribuindo o seu fracasso às vicissitudes da luta de classes.

Mas o ponto passa, segundo Luhmann, por saber se é razoável esperar que o indivíduo possa participar (ter, realmente, uma palavra a dizer?) na própria sociedade democrática, quando esta, pela sua complexidade, passou a ter uma estrutura horizontal em que os vários sistemas se reproduzem e auto-regulam com recurso a teorias auto-referentes, relacionando-se os sistemas entre si como um organismo e o seu meio ambiente.

O facto é que o indivíduo só ganha voz, integrado num sistema (partidário, económico, mas também como espécimen do telespectador na medioesfera), nisso perdendo o que o distingue enquanto indivíduo particular.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

A ESCOLA DAS UTOPIAS


"Simplicius Writing Lesson"- Max Klinger, 1881


Confesso que ao princípio me pareceu uma boa ideia: todos os miúdos com um computador em cima da carteira. Que há de mais democrático e de melhor intencionado, para o bem das cabecinhas?

Mas se a calculadora pode ser uma falsa boa ideia, porque trava o desenvolvimento das capacidades mentais, instigando à preguiça no momento mais sensível, o que dizer do computador?

O que se esconde por detrás desta doutrina tão amada, é uma idolatria, de facto muito antiga, a mesma que pôs Moisés fora de si, ao descer do Sinai.

Hoje, ofuscam-nos as maravilhas da tecnologia, a ponto de cairmos na superstição de que elas se reproduzem a si próprias, e esquecemos que, por muito aparatosa que seja a casca, fosse ela a duma aeronave espacial, daquelas que demoram alguns minutos a passar no ecrã, o importante é a víscera pensante que se encontra no seu âmago.

Rapidamente, quase em alvoroço, como quem cai numa armadilha de olhos fechados, o governo, qual comitiva de outros reis-magos vem adorar a inteligência artificial que, num compreensível desvario, tomou pela inteligência tout court.

Acaso se acredita que a interactividade com um computador vai deixar de reforçar a destruição dos níveis de atenção e de concentração que os mesmos miúdos, ou grande parte deles, já contraíram em casa?

Serão todos decerto mais iguais, mas na distracção e na inibição da inteligência.

A ideia que se aprende melhor brincando chega, assim, a um novo patamar do declínio intelectual.

A nossa salvação está, então, nos "meninos selvagens", perdidos e encontrados, noutras selvas menos sofisticadas. Está nos rebeldes ao sistema de ensino, como, se calhar, sempre esteve.


(José Ames)

A VISÃO DE CHAADAEV


Pyotr Chaadaev (1794/1856)

"(...) Chaadaev interrogava-se, com efeito, sobre se os russos, tão tarde entrados no banquete das nações e ainda jovens, bárbaros e inexperientes, não teriam por isso mesmo certas vantagens - vantagens, de resto, esmagadoras - por comparação com as sociedades mais antigas e mais civilizadas."

"O Poder das Ideias" (Isaiah Berlin)


Autor duma famosa "Carta Filosófica" e arauto das ideias ocidentais, Chaadaev mostra-se aqui duplamente filósofo, ao admitir que podemos sempre aprender com os erros dos outros (sobretudo se nos parecem mais adiantados) e que há, às vezes, um lado positivo no objecto da nossa crítica, que pode resultar numa verdadeira oportunidade.

Mas para tal é necessário abandonar a demonização do adversário político e as utopias de refundação.

Pudemos ver, em Portugal, como a experiência doutras latitudes e as interpretações históricas a que deram azo acompanharam o nosso "processo" como uma espécie de "cábula", umas vezes acelerando, outras travando, ou poupando-nos alguns becos-sem-saída.

E com o golpe de asa de parecermos originais, a ponto de iludir, por um tempo, um homem como Sartre...

De resto, é a atitude de Chaadaev que nos permite ter alguma esperança em relação a esse gigante que entra agora em cena e que já não pode ter a inocência dos que o antecederam: a China.

terça-feira, 24 de julho de 2007

SISTEMAS


http://www.microsan.com.br

"A burocracia é sem dúvida o fenómeno mais notável, mas certamente não o único a caracterizar a evolução estrutural recente do sistema político. A democratização da formação da vontade política e a inclusão activa e passiva do conjunto da população no sistema político conduziram a passar dum impedimento dos desvios a um reforço dos desvios, ou ainda dum feedback negativo a um feedback positivo. O Estado democrático orienta-se segundo as necessidades da população e esforça-se por melhorar a sua satisfação pela institucionalização da concorrência para o acesso ao poder (...). Isso tem por consequência o aumento do número das próprias necessidades assim como das expectativas do público, e acaba-se por esperar do Estado prestações que são impossíveis de realizar tecnicamente com os meios da política, na ocorrência pelas decisões colectivas constringentes."

"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)


O conceito de sistema, que passou a ser usado a propósito de tudo e de nada, pode ter desenvolvimentos surpreendentes.

Considerado como um sistema cibernético, o Estado e a burocracia, a sua forma específica de organização, só conseguem reproduzir-se, segundo Luhmann, graças a uma teoria auto-referente que integre todos os desvios possíveis.

Mas a população concebeu a peregrina ideia de que o Estado existe para a servir a ela, e daí que as suas necessidades, por não serem geradas no espírito daquela teoria, entrem em conflito com o sistema político, o qual deixa de ser estável.

E então? Luhmann sugere que o realismo está do lado dos sistemas e que a democratização imporia desvios ingeríveis, por "falta de medida".

Esses desvios só encontrariam um limite na falta de recursos.

Mas por aqui se vê que nunca estivemos no reino da economia, porque a própria abundância de recursos não parece prometer qualquer estabilidade.


Porto (José Ames)

CAIXAS ENCOIRADAS


http://www.nicholsoncartoons.com


"Encarregado de negócios, em países com os quais estivemos a dois passos de entrar em guerra, o Sr. Norpois, ansioso pela volta que os acontecimentos iam levar, sabia muito bem que não era pela palavra: paz, ou pela palavra: guerra, que elas lhe seriam significadas, mas por uma outra, banal na aparência, terrível ou abençoada, e que o diplomata, com a ajuda da sua cifra, poderia imediatamente ler, e à qual, para salvaguardar a dignidade da França, responderia com outra palavra de igual modo banal, mas sob a qual o ministro da nação inimiga veria imediatamente: guerra."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


A diplomacia deve ter mudado muito desde os tempos de que nos fala Proust, mas terá conservado, ao menos, este espírito alusivo de circunlóquio, de "beating around the bush", sem o qual esta arte perderia a razão de ser.

De resto, antes das vias de facto, não é só a diplomacia que ocupa o terreno, pois, cada vez mais, na medioesfera, as mensagens disparam de todos os lados, banais ou não, as quais, com os gestos, abertos ou encriptados, que as acompanham deixariam o Sr. Norpois terrivelmente frustrado por já não poder controlar o segredo, nem ser mais o canal privilegiado.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

ÍCARO E A VANGUARDA


"Icarus"
http://www.bewsgorvin.co.uk


"Na Rússia, a ideia da profissionalização - a separação entre aquilo que alguém faz como especialista e a sua actividade como ser humano, a divisão entre o métier público e a vida privada, a concepção do homem como um actor que recita ora um papel, ora outro - foi sempre mais fraca do que no Ocidente."

"O Poder das Ideias" (Isaiah Berlin)


O papel extraordinário da "intelligentsia" russa, como uma verdadeira vanguarda, na transformação cultural desse grande país e na sua abertura às novas ideias que culminaram com a Revolução de Outubro, não foi por ninguém melhor observado, tanto quanto sei, do que por Isaiah Berlin.

Num livro dedicado ao poder das ideias que, no caso da Rússia dos séculos XIX e XX, nem sequer eram autóctones, nem os seus apóstolos especialmente coerentes (Berlin cita o exemplo de Turguenev "apaixonado e eficiente" inimigo da servidão, mas que nunca chegou a emancipar os seus servos, ao contrário de Tolstoi), esta vanguarda intelectual é de uma impressionante eficácia.

Mas percebemos como é que a "sublimação" da pulsão religiosa por via da utopia política pôde confundir de forma tão estrondosa os cálculos de Marx.

E não podemos deixar de ver aqui o efeito acelerador da organização, de acordo, aliás, com a visão leninista.

Só que, neste caso, melhor diríamos precipitação, como no mito de Ícaro.


(José Ames)

O MINUTO DA ELOQUÊNCIA


Maximin Isnard (1755/1825)

"Pergunto à Assembleia, à França, a vós, senhor (designando um deputado que o interrompia), se há alguém que, de boa fé, e no íntimo da sua consciência, queira garantir que os príncipes emigrados não conspiram contra a pátria? Pergunto, em segundo lugar, se há nesta Assembleia alguém que ouse garantir que todo aquele que conspira não deve ser desde já acusado, perseguido e punido? Se há alguém, que se levante!..."

O próprio Vergniaud, que presidia, ficou tão surpreendido com esta forma violenta e imperiosa que deteve o orador e observou-lhe que não podia proceder assim pela interrogação."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


O apelo é de Isnard, deputado provençal que, em 31 de Outubro de 1791, deu voz ao que todos sentiam surdamente. Vergniaud, como diz Michelet, era "uma alma profundamente humana" e inteiramente devotado à Revolução (na verdade, partilhando essa devoção com a que dedicava à bela Mlle. Candeille).

E ele sente naquelas palavras o turbilhão que tudo arrasta consigo, que encontrando eco no coração dos presentes, nem por isso era menos um abandono do leme e uma embriaguez. Mas contrapõe ao orador uma objecção puramente formal.

"Um arrepio percorreu a multidão e, após um breve silêncio, elevou-se um terrível aplauso."

Isnard acrescenta à eloquência e ao seu silogismo mortífero (era evidentemente impossível responder à pergunta), duas armas retóricas de assegurado efeito: a enumeração, que dá a qualquer questão, por mais complicada e confusa que seja uma aparência de ordem e de domínio aritmético (veja-se o uso da enumeração na política chinesa) e a dramatização que personaliza as abstracções, entidades complexas, como a França, ou colectivas, como a Assembleia. E, num golpe de génio oportunístico, servindo-se do próprio facto de ser interrompido para juntar o indivíduo interpelado em cena com aquelas entidades.

Já Cícero perguntava a Catilina até quando abusaria da paciência deles.

Na interrogação está, com efeito, o princípio dos media interactivos. Ninguém pode permanecer passivo.

domingo, 22 de julho de 2007

CAMPOS MAGNÉTICOS


Adolf Eichmann, em Jerusalém (1961)

"É preciso submeter-se às regras da organização para se tornar membro e para assim permanecer. É preciso declarar-se pronto a obedecer a ordens e a aceitar responsabilidades. E no seio duma zona pessoal de indiferença, é preciso igualmente estar pronto a aceitar a mudança permanente dessas condições. É bem conhecido que um tal processo nunca funciona de maneira bem planificada, mas comporta sempre um grau considerável de desvio, de ignorância e até de boicote, e isso não surpreenderá ninguém. O que se revela pelo contrário espantoso é a medida em que se consegue apesar disso normalizar um comportamento muito improvável e que não se poderia esperar num outro contexto."

"Politique et compléxité" (Niklas Luhmann)


Luhmann define o conceito de organização como um tipo particular de formação dos sistemas sociais.

Aquilo que o senso-comum pode verificar dum efeito "transtornante" da participação do indivíduo numa multidão tem aqui uma confirmação teórica, embora sob uma forma mais controlada, no contexto duma organização.

O indivíduo, também aqui, de alguma maneira, deixa de ser ele mesmo, porque o seu comportamento, por influência da organização, passa a não corresponder ao que se esperaria dele.

Claro que isto daria razão aos Eichmann que sempre se defenderam com a obediência a ordens e, neste caso, no seio da mais constringente das organizações, e vem trazer mais água ao moinho da desantropologização deste sociólogo.


Toledo (José Ames)

O HOMEM-COBAIA



"- Estás-me a atormentar.

- Sim, estou. Mas não é esse o meu objectivo. Só quero saber uma coisa. Quando enterro em ti estas palavras tal como punhais, o que é que tu sentes? O que é que se passa em ti? Não há aí qualquer coisa que rebenta? Diz-mo! Como um vidro de repente voa em estilhaços, antes mesmo que nos tenhamos apercebido da menor rachadela? A imagem que tu te tinhas feito não foi dispersa, substituída por uma outra, como uma visão da lanterna mágica? Não compreendes então nada? Não me posso explicar melhor, tu é que tens de me dizer...

Basini não parava de chorar."

"Les désarrois de l'élève Törless" (Robert Musil)


Törless, que se julga menos cruel do que o seu camarada Reiting e, em vez de movido por um instinto sádico, satisfazer uma curiosidade intelectual, senão decifrar um segredo metafísico, participa do mesmo ponto de vista "superior" em relação à vítima de ambos, Basini.

Este romance é de 1908, e o menos que se pode dizer é que é verdadeiramente profético.

Nesse ano, o jovem Hitler era ainda um adolescente.

Havia então, já nessa altura, na cultura europeia, um espírito que explica o derrube de todas as barreiras éticas que se ia seguir.

Basini podia ser completamente despojado da sua humanidade, em função de um interesse julgado superior.

O homem encontrava-se, muito antes do nazismo, pronto para todas as experiências-limite.

sábado, 21 de julho de 2007


"Vitrina" (José Ames)

O GIGANTE COM PÉS DE BARRO



Não nos podemos admirar que as companhias que gerem o "sistema" de saúde americano tenham chegado à política do quanto menos serviço, mais lucro. Nem que tenham todo um departamento de médicos e advogados para regatear o que é devido e fugir às responsabilidades sempre que possível.

O passado dos doentes é examinado à lupa por verdadeiros detectives para encontrarem a mais pequena contradição ou omissão que as desobrigue do pagamento.

Tudo isso Michael Moore vem mostrar ao mundo em "Sicko", como um escândalo, e essa nova sensibilidade é, decerto, uma das consequências da comunicação global.

Os Americanos já não podem acreditar que o seu modo de vida é o melhor dos modos de vida e o mais livre, quando alguns milhões dos seus compatriotas só são livres de morrer sem tratamento e de cuidados básicos.

Nesta realidade vergonhosa e nesta desumanidade, que os próprios privilegiados terão de passar a olhar como tal, temos, se calhar, o segredo da alta competitividade de Além-Atlântico.

É porque não se contabilizam todos os custos (incluindo os humanos e sociais) que os lucros das empresas e os ordenados dos gestores conseguem atingir verbas tão astronómicas.

E, evidentemente, a ideia de mercado que justifica esta cegueira económica, com fatais repercussões para o povo americano e para o planeta, é a dum mercado em que só entram, grosso modo, a finança, a produção e o consumo, deixando de lado, como se não fossem custos reais, ou devessem ser suportados pelo resto da humanidade, os efeitos colaterais na situação social e no ambiente.

É assim que temos de perguntar, mesmo reconhecendo as virtudes da economia de mercado, que espécie de mercado é este que deixa de fora informação tão vital para o futuro da própria economia?

sexta-feira, 20 de julho de 2007

TUDO SOBRE O AMOR



"O problema imediato tem de ser necessariamente o de saber que tipo de actividade e de aspiração é que, deste elevado ponto de vista, merece o nome de eros. E ficamos atónitos, quando vemos esta pergunta receber uma resposta que não tem grandes pretensões moralizadoras ou metafísicas, mas que arranca inteiramente do processo natural do amor físico. É a aspiração a gerar no belo. A concepção habitual se equivoca em acreditar que esta aspiração a gerar se limita ao corpo, quando na realidade tem perfeita analogia na vida da alma."

"Paidéia" (Werner Jaeger)


Desta análise de "O Banquete", de Platão, ressalta um princípio já observado por Comte.

É o superior que explica o inferior. Eros só será reduzido ao Cupido duma certa comédia, se procurarmos a ideia do que representa ao seu nível, que é o nível da sensualidade e do amor romântico.

Mas não é verdade que qualquer ideia do homem que reconheça o problema do ser procurará explicar todos os anseios humanos e o próprio amor físico à luz desse problema?

Temos aí, talvez, a fonte de ideias como a Harmonia e a Beleza, correlativas, no indivíduo, da sua radical dissonância e insuficiência.


Guarda (José Ames)

A FÚRIA DAS METÁFORAS


Panorama d'Avignon par P. Bonnard - Musée Calvet - Avignon



Em Outubro de 1791, Avinhão, a cidade dos papas, estava nas mãos das forças retrógradas. Uma multidão fanatizada arrastou Lescuyer, patriota e secretário da Comuna, até ao altar da igreja, onde a paulada de um operário o prostrou:

"Nesse mesmo momento entrava a trombeta da cidade, e tocava para fazer silêncio, anunciar uma proclamação. O formidável zu! zu! gritado por milhares de homens fez calar a trombeta. Esta enorme multidão, concentrada num ponto, estava como que suspensa sobre o corpo jazente: os homens esmagavam-lhe o ventre a pontapé e à pedrada; as mulheres, com as suas tesouras e para que expiasse as suas blasfémias, cortaram com uma raiva atroz os lábios que as haviam pronunciado."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Esta chacina e a vingança revolucionária que se seguiu, uns dias depois (a matança da Glacière), abriram as portas ao Terror. Como num mecanismo, os actores partem sempre dum ponto sem retorno, acrescentando o crime ao crime.

Na descrição de Michelet, veja-se como a violência exercida por aquelas mulheres, levadas por uma fúria "santa", excedia em requinte a dos próprios homens. Levavam as tesouras de caso pensado, para aplicar a pena que julgavam apropriada, metaforizando as palavras blasfemas na carne viva, princípio que no "Mercador de Veneza" define a desumanidade do judeu Shylock. Este, para quem o dinheiro é tão precioso como a vida e em quem a noção do seu "direito" completamente abafa toda a compaixão, revela a mesma estupidez orgulhosa dessas avinhenses em defesa da sua religião.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

TUDO A FUNCIONAR



"O conceito de "medium" é aqui uma forma abreviada para designar os media de comunicação generalizados simbolicamente. Este conceito(...) designa os símbolos generalizados que podem ser utilizados na comunicação tendo em vista uma redução da probabilidade da recusa de comunicar. Os exemplos correntes destes media são a verdade, o amor, o poder e, no caso do sistema económico, o dinheiro."

"Politique et complexité" (Niklas Luhmann)


Sempre pensando na eficácia dos sistemas (no caso da sociedade, da comunicação), Luhmann audaciosamente propõe uma extensão do conceito de medium que normalmente associamos à tecnologia.

Não seriam do tipo do machado de sílex e do telemóvel os únicos instrumentos de que nos servimos.

Ao incluir a linguagem simbólica e noções abstractas como a verdade e o direito, por exemplo, é o próprio espírito que se submete à razão funcionalista, como lhe chama Habermas.

Compreende-se que este seja um passo importante na sua teoria dos sistemas para a evicção do homem.


"Boss" (José Ames)

JUSTIÇA DE SALÃO


"A Degradação de Dreyfus"

"Em todo o caso, se Dreyfus está inocente, interrompeu a Duquesa, não o prova de maneira nenhuma. Que cartas idiotas, enfáticas ele escreve da sua ilha. Eu não sei se o Sr. Esterhazy vale mais do que ele, mas tem um outro chique no modo de tornear as frases, uma outra cor. Isso não deve agradar aos partidários do Sr. Dreyfus. Que infelicidade para eles que não possam mudar de inocente."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Um homem pode ser condenado só pelo seu estilo, é o que nos mostra esta esplêndida passagem de Proust.

Nos meios em que a verdade é indiferente e o efeito da palavra, as boas-maneiras (que procuram sobretudo o acordo, mesmo que a forma esteja em contradição com o fundo), são tudo o que conta, ressalta a lei de Mc Luhan de que o medium, neste caso, o espírito de salão, é que é a mensagem.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O MUNDO ARTIFICIAL


http://www.wm-painting.ru/


"Na realidade, foi o plano de imanência, a própria vida a mudar; foi a vida que se tornou plano de composição, impregnada e formada de imagens, desviada cada vez mais de uma natureza, que desapareceu brutalmente e só sobrevive, também ela, em imagem."

"A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções" (José Gil)


Onde está a natureza no Japão moderno? Simula-se tudo, desde os grandes espaços aos minúsculos jardins.

O próprio Fuji Yama é um signo mais na iluminura da paisagem.

A arte, nisso mais eficaz do que qualquer linguagem que quisesse "duplicar" o mundo, converteu a nossa percepção de modo a que víssemos o mundo artificial apenas e o triunfo do simulacro, como dizia Baudrillard.


Lerma (José Ames)

TABULA RASA


Niklas Luhmann (1927/1998)


"Todavia, o pessimismo de autores como Max Weber, Theodor Adorno ou Arnold Gehlen a propósito do devir da sociedade moderna, antes de motivar um discurso de resignação ou de fuga em direcção a uma improvável "post-modernidade", deu lugar a um incontível prazer teórico em Luhmann. Porque se trata realmente de um prazer, o leitor convencer-se-á disso, no amor pela abstracção e na satisfação permanente do autor."

(Jacob Schmutz, apresentando Niklas Luhmann)


Parece fora do lugar esta referência ao prazer que a teoria proporciona ao autor. Em princípio, nada designa a abstracção como fonte especial de contentamento.

Neste caso, parece existir por detrás desse sentimento a consciência de ter criado uma sociologia "iconoclasta" quase de raiz:

"levantar o desafio de pensar a complexidade duma sociedade que se caracteriza justamente por uma desumanização crescente, tanto nas relações de poder, como na sua organização económica, no seu sistema jurídico e até nas suas relações amorosas."

Em vez de se estudarem os impasses que o desenvolvimento económico e tecnológico impõem a uma sociologia do homem, inspirar-se nas ciências de ponta, como a biologia e a cibernética, para tornar irrelevante o problema da desumanização.

Isto podia ser ilustrado por um adágio como este: senão podes vencer o sistema, junta-te a ele.

terça-feira, 17 de julho de 2007

O SUPEREGO NÃO PERDOA


Jacques Derrida (1930/2004)


"Nesse momento, vê-se que a aceitação intelectual, teórica, filosófica, ideal ou ideável da interpretação analítica não basta para levantar o recalcamento, quer dizer, segundo Freud, a fonte última da resistência. O que tem ainda de ser vencido, é a compulsão de repetição(...). Freud nomeia então uma quinta resistência a do superego que opõe a culpabilidade à cura: a necessidade de ser punido pode tornar-se intransigente, a confissão ou a interpretação podem deslizar na superfície ou à volta desta resistência."

"Résistances de la Psychanalyse" (Jacques Derrida)


Esta bem pode ser uma forma mais subtil de tautologia, a exemplo da virtude dormitiva do ópio.

A análise falha a cura, apesar de aparentemente compreendida a história e a origem do recalcamento. Mas os sintomas repetem-se, sem apelo nem agravo, pondo em causa a parte útil da teoria.

O passe de mágica está na palavra compulsão. Voltamos à estaca zero com um suposto novo conhecimento: de que tem de ser assim.

O recurso, em última instância, ao superego, não sendo relevante para a cura, vale, assim, apenas como mito explicativo.


(José Ames)

UM DUQUE À LA PAGE


Dreyfus reabilitado


"O Duque decorava-se com a sua mulher mas não a amava. Muito "suficiente", detestava ser interrompido, além de no seu casamento ter o hábito de ser brutal com ela. Tremendo duma dupla cólera de mau marido a quem se responde e de grande falador que não se escuta, ele bruscamente parou e lançou à Duquesa um olhar que embaraçou toda a gente."

"Du côté de Guermantes" (Marcel Proust)


O Duque não é mau diabo, mas graças ao dinheiro e ao poder da sua casta perdeu informação importante sobre a sua humanidade.

Numa sociedade em rápida mutação, a sua veleidade em manter-se actualizado e "moderno" leva-o às mais ridículas contradições.

Sobre o caso Dreyfus, por exemplo, ao mesmo tempo que declara não ter qualquer preconceito de raça, considera um escândalo que o seu sobrinho tome partido pela inocência deste oficial de origem judaica.

O poder é um isolante que nada ensina sobre o mundo, inspirando, no melhor dos casos, algumas fábulas políticas sobre o uso do material humano.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

A CRISE DA CRISE


http://www.patrickthorne.com


"A experiência demonstra-nos ainda que os nossos avós se enganaram ao crerem numa possível divulgação das luzes, pois o que hoje em dia atinge, pela divulgação, as massas, não é mais que miserável caricatura que, longe de servir de molde às suas capacidades de raciocínio, as habituam à credulidade. A própria arte é atingida pela alienação geral, que, privando-a de público, lhe corrompe a própria inspiração."

"Opressão e Liberdade" (Simone Weil)


Simone escreve no contexto de um "triunfo dos movimentos autoritários e nacionalistas", em 1934, e de crise económica e social, em que o trabalho é sentido como "um privilégio ocasionalmente concedido pela sorte, privilégio de que outros seres humanos são excluídos a nosso favor" e os próprios chefes de empresa perderam a "ingénua crença num progresso económico ilimitado".

Toda a crise se apresenta como o momento privilegiado duma leitura esclarecedora (como quando se trata duma doença), que identifica os vários nós do problema, e as tendências latentes encontram nela toda a visibilidade possível.

O diagnóstico de Simone Weil, pouco antes da segunda grande guerra tem, no entanto, uma estranha familiaridade com o que hoje ainda se pode pensar.

Mas o caso é que não são o autoritarismo, nem o nacionalismo que abalam a nossa esperança na "democracia e no pacifismo".

É actual (sê-lo-á necessariamente?) a crítica da divulgação do conhecimento e da situação da arte.

Porém, de que crise económica podemos falar, a não ser na acepção duma crise consubstancial ao capitalismo?

No entanto, tal como nos anos trinta, o trabalho é, cada vez mais, visto como um privilégio...


Campanhã (José Ames)

A CHINA MOVE-SE


"Natureza-Morta" (2006-Jia Zhang-Ke)

A paisagem grandiosa das "Três Gargantas" não chega a impor-se. Destacam-se no fundo das ruínas como um cenário.

O ambicioso projecto da barragem transtornou a vida dum povo paciente ante as intempéries, que prossegue a sua azáfama, os seus milenários truques de sobrevivência, nos escombros da aldeia que vai ser submersa.

Acompanhamos a peregrinação deste mineiro da longínqua província de Shanxi, em busca duma filha que não vê há dezasseis anos e encontramos a termiteira humana para quem o poder, passada a febre do maoísmo e do "assalto ao comité-central", volta a ser o que sempre foi neste país: uma espécie de Himalaia burocrático donde caem as eternas avalanches.

Se compararmos este "social" degradado, por exemplo, ao do filme de Scola, "Porcos, Feios e Maus", percebemos as grandes diferenças entre os dois tipos de desenraizamento. Aqui a solidariedade pode ser violenta e as mulheres, apesar da prometida "metade do céu", continuam em mitigada servidão.

No final, parece que o nosso mineiro abandona o objectivo que o pôs em marcha. Tendo encontrado a mulher que o deixara naquela altura, "por ser jovem e não compreender", decide voltar às minas para pagar o seu resgate.

Parece um conto taoísta. Um homem procura uma coisa e encontra outra, que era o que secretamente desejava.

domingo, 15 de julho de 2007


(José Ames)

O SPAGHETTI DOS COMUNISTAS




Ainda o filme de Francesco Rosi. Depois de sabermos que a estúpida potestade de Eboli proibia os dois comunistas de se falarem, a imagem do prato coberto por causa da chuva e aquele assobio para chamar o outro significam, da forma mais nua possível, que de todos os proscritos, só eles não tinham sido amnistiados. A comida, pelo que tem de mais quotidiano e de obediência à necessidade, surda aos rogos do homem, dá bem a ideia dessa solidariedade profunda que dispensa as palavras.

Sacrificados por esse poder mesquinho, os dois homens tornam-se maiores do que eles próprios são. A mudez e a interdição de falar parecem mais eloquentes do que a poesia. E não só aos olhos dos camponeses que sofrem sem escândalo a mão pesada da injustiça, mas aos seus próprios olhos. O Estado, grosseiramente, dava um rosto à suas vítimas. Isolando os políticos da vida da terra onde mergulhava a ventosa fiscal, o poder desobrigava-se da ancestral e incompreensível calamidade dos campos, para se mostrar como uma força humana simplesmente injusta.

O homem oprimido morre duma certa maneira. E a sua vida torna-se um símbolo liberto das pequenas servidões que pesam sobre qualquer homem. Esses comunistas, como todos os mártires de que se orgulha o partido, sobem ao céu da mitologia moral. Não são mais pessoas privadas, com direito a mudar o seu próprio destino. Porque a linguagem dos heróis deve conservar a beleza e a sua forma imutável.

O star system produziu alguns desses mitos que infalivelmente devoram a carne. Quando se morre jovem e prometendo o impossível, mais o sacrifício e o trabalho da morte é nítido. Esta aproximação do mártir e da vedeta pode parecer frívola. Mas o homem é o mesmo ser espiado pela morte e pelo fracasso em todos os papéis. Os bastidores convidam-nos a uma maior prudência. Por outro lado, quem pode julgar do heroísmo dos que sofrem a tortura? Nem a todos é dado o mesmo temperamento e a mesma saúde dos nervos. Dir-se-ia antes que é preciso fazer heróis, contra eles próprios se preciso for. Isso é dar armas à justiça.

Mas os comunistas de Eboli têm mais do que a ideia de ser heróicos: essa amizade castigada que se troca no prato de spaghetti. É como se eles dois fossem investidos da sagrada função de representar o melhor da humanidade. Frente à parede do ódio e da ignorância, o espírito assobia. Mas é preciso compreender que esta grandeza é de todo o homem e não do comunismo. E que mesmo se o carrasco sabe o que faz, não sabe o principal: que é o outro que os salva a ambos. E talvez isso se vislumbre no rosto bondoso de Volontè.

sábado, 14 de julho de 2007

ARQUEOLOGIA DA JUSTIÇA



"É, de facto, no modo da queixa que penetramos no campo do injusto e do justo. E, mesmo no plano da justiça instituída, nos próprios tribunais, continuamos a comportar-nos como "queixosos" e a "apresentar queixa". Ora, o sentido da injustiça não é somente mais pungente, mas mais perspicaz do que o sentido da justiça; porque a justiça é muitas vezes aquilo que falta e a injustiça aquilo que reina. E os homens têm uma visão mais clara do que falta às relações humanas do que as maneiras de as organizar."

"Soi-même comme un autre" (Paul Ricoeur)


O paralelo com a arte médica, já relevado por Werner Jaeger na concepção do justo e do injusto na origem da filosofia, encontra aqui um eco retumbante.

Porque o modelo parece ser o do próprio corpo, que quando não está bem se queixa.

A saúde, pelo contrário, que podemos dizer dela? Podemos fazer dela um objectivo, ou o ideal da saúde é, na verdade, a luta contra as doenças e os males físicos ou psíquicos?


Cuenca (José Ames)

TECNOLOGIA PELO FUTURO


Jeffrey Shaw, Configuring the Cave
http://www.immersence.com/publications/images


Os meios que utilizamos, individualmente ou em grupo, diz-nos a ética que nunca são neutros, qualquer que seja a sua justificação em nome dos fins.

Mas eu quero precisar um pouco a questão.

A tecnologia não tem um outro efeito sobre as culturas que não se encontram no "estádio" necessário para a produzir e integrar simbolicamente?

É todo o problema do colonizador e do selvagem. Sabe-se como foram destruídas as civilizações ameríndias com a chegada dos europeus na época dos Descobrimentos e da Conquista.

O efeito "analítico" e " hiperbolítico", para dizer como Derrida, foi o duma verdadeira "desconstrução".

O facto de algumas culturas arcaicas, nos nossos dias, terem descoberto um fim político-religioso para o uso duma tecnologia completamente exógena, não é menos devastador.

Podemos dizer, assim, que os telemóveis, os computadores e a Internet, bem como a alta tecnologia bélica que o terrorismo global volta contra a civilização técnica que os produziu pode ver-se como uma maquiavélica instrumentalização e uma colonização paradoxal.

Carrega todo o simbolismo possível que o suicídio seja a via preferencialmente escolhida pela juventude aliciada pelo terrorismo.

É dizer muito sobre o futuro dessa cultura recolonizada no próprio momento em que se revolta.