quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Canide (José Ames)

REPRODUÇÃO

Arthur Schopenhauer


"Imaginai por um instante que o acto da geração não fosse nem uma necessidade nem uma volúpia, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana poderia ainda subsistir?"

(Paul Virilio, citando Schopenauer)


Parece-me que existe aqui uma situação parecida com a da fé em qualquer religião estabelecida. Se não existisse um trabalho e uma organização para salvaguarda da memória e da tradição, depressa a fé perderia todos os testemunhos de que precisa.

Nunca é de mais repetir que nunca começamos nada de novo. Continuamos e introduzimos pequenas variações, quase sempre involuntárias (devem considerar-se assim todas as acções  e revoluções que não correm conforme a ideia), como na selecção das espécies pela natureza.

A nossa sobrevivência, enquanto espécie, tem sido "assegurada" pelo instinto "genesíaco", mas é óbvio que com esse instinto concorrem fortes razões culturais que ora o moderam, ora o exacerbam, num sentido ou noutro.

A sociedade ocidental parece estar cada vez mais dependente de correcções institucionais das condições de reprodução da espécie. A liberdade do indivíduo para escolher, ou "assumir" o seu perfil sexual é uma das razões por que a reprodução terá de deixar se ser gerida pelo acaso, ou pela "providência" da Natureza, devendo responder pela afirmativa à questão levantada por Schopenauer (um misógino, por sinal).

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

(José Ames)

O ANÚNCIO DE CLINT

Clint Eastwood


"A América está no intervalo. E a nossa segunda parte está prestes a começar."


Esta metáfora futebolística proferida por Clint Eastwood, no final do campeonato, atraiu todas as atenções e deu lugar, como não podia deixar de ser, na actual conjuntura política, a não pouca polémica.

A Chrysler ao pôr um "duro" do cinema a fazer o seu anúncio comercial, naquelas circunstâncias, não podia ignorar a irradiação política da metáfora.

Já não se tratava do regresso aos lucros duma marca de automóveis quase falida que teve de ser assistida pelos fundos públicos. É o país que se revê no optimismo daquela imagem e que quer acreditar que as dificuldades do presente são o intervalo antes do regresso em força da "equipa" na segunda parte.

Se o partido republicano viu na mensagem de Clint (ele próprio, ironicamente, um conservador) o apoio disfarçado à reeleição de Obama, isso pertence ao domínio da chicana. O importante é que um acto publicitário, um anúncio comercial,  tenha podido corresponder ao anseio popular com uma imagem na melhor tradição do que os americanos querem crer que seja a sua gesta, coisa de que nenhum político, por mais experimentado ou com maior eloquência foi capaz de se aproximar.

A conclusão, acho que não poupa o actual descrédito da política. Ao ponto dum produto da "fábrica dos sonhos" ( ou das mentiras ), como o velho cow-boy (mas portentoso realizador), num acto da mais inequívoca artificialidade, isto é, duma arte consabidamente para não ser levada a sério, ter sido credivelmente "autêntico"..
 
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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Porto (José Ames)

NÃO PETRARQUISEMOS

Joachim du Bellay (1522/1560)




"J'ai oublié l'art de pétrarquiser,
Je crux d'Amour franchement deviser:
Sans vous flatter et sans me déguiser:
Jeux qui font tant de plaintes
N'ont pas le quart d'une vrai amitié..."

(Du Bellay)



Petrarca está fora de moda, certamente. Mas os "jogos" do amor não estão nem podiam estar. Tudo sem que esteja em causa a graça ou a sinceridade.

O poeta quer falar francamente, sem ter de usar de lisonja, nem ter de se disfarçar. A consciência disso é que está a mais, diria eu. Porque a linguagem da paixão não olha a tanto. Que sei eu se exagero sobre as perfeições que contemplo ou se me apresento outro, escondendo os meus defeitos?

Aqui, o objecto da crítica é o amor "palaciano", ou a moda do amor. Um certo cinismo que o envelhece. A referência a Petrarca bem no-lo indica.

Em todas as épocas,  o amor "culto" teve o seu modelo. Nos nossos tempos, existe uma cultura de massas do amor, que procura o seu modelo no cinema, na televisão, na música ou nas artes do espectáculo, com a indústria da publicidade funcionando como a sua irónica redundância.

Mas a "franqueza de palavra" de que fala Du Bellay renasce em cada amor novo. E o resto é forma, ponto de apoio e lugar de invenção para a palavra.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

(José Ames)

A DECEPÇÃO DA MÚSICA

Robert Schumann


"(...) Schumann não permite que se entenda a sua música a não ser ao executante, ainda que a toque mal. Sempre me chamou a atenção este paradoxo: um determinado fragmento de Schumann entusiasmava-me quando o estava  a tocar ( de maneira aproximativa) e que quando o escutava em disco causava-me uma certa decepção."

"O óbvio e o obtuso" (Roland Barthes)



A mim parece-me natural que a música ouvida em casa, passivamente, sem a disciplina e atenção sustentada duma assembleia de ouvintes, é uma experiência, de algum modo, decepcionante. Quem pode executá-la, poderá, naturalmente, sentir de forma muito diferente, porque aí existe o estímulo de a fazermos.

De todas as artes, a música é a que mais apoio precisa para a atenção, porque é invisível e se apresenta (ia dizer "se trava") no próprio campo em que surgem os nossos pensamentos. É claro que uma certa música pode iludir o problema da atenção porque o seu campo é a pele e o enervamento euforizante. E não é verdade que mesmo os melhores exemplos têm no ritmo e na bateria as "muletas" indispensáveis para ocupar todo o "espaço"?

Por outro lado, estudar ou ler, com música de fundo não é, verdadeiramente, escutá-la.

Se, em literatura, todos os resumos são maus ( e só os americanos podiam acreditar nas virtudes do "Reader's Digest"), a impressão que nos deixa a música reduzida a um ambiente é isso mesmo: uma impressão. A impressão do espírito domesticado.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Antas (José Ames)

NINGUÉM É ESTÚPIDO...



"Se a estupidez, com efeito, vista de dentro, não se parecesse, até ao ponto da confusão, com o talento, se, vista de fora, ela não tivesse todas as aparências do progresso, do génio, da esperança e do melhoramento, ninguém quereria ser estúpido e não haveria estupidez."


"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)



Isto é no que pensava Sócrates ao dizer que ninguém é mau voluntariamente. "Mal échoir", donde vem "méchant" (mau), em francês, quer dizer "cair mal", como assinalou Alain. Quem cai está sujeito a uma força, não é livre enquanto massa atraída pela terra. A tese é a de que só somos maus porque não pensamos, ou porque pensamos mal. Como o Cálicles de Platão, temos pressa em ferrar o dente.

É claro que, no caso da estupidez, se passa o mesmo. E basta a precaução de se saber estúpido para interrompermos ou não iniciarmos a acção e, nesse momento, deixarmos de o ser.

Podia-se dizer que assim como todos estão sujeitos a cair, também a estupidez nos espreita a todos. Mas há a que resulta dum entorpecimento do espírito ou da dificuldade do problema e a que é o fruto amadurecido da doutrina. Foi assim, que Ptolomeu, durante muito tempo, continuou a reger a astronomia, mesmo depois de Copérnico ter publicado o seu tratado. A doutrina da Igreja,  ao rejeitar a ideia heliocêntrica era, de facto, estúpida, mas é preciso ver também aqui o que fez a Igreja "cair": e era o caso de ter de mudar muito se abraçasse a "nova" ideia. E não se mudam só as ideias, mudam-se as pessoas, mudam-se os cargos e as funções . 

Por isto se vê que a estupidez governa o mundo. E a inteligência tem de esperar a sua oportunidade.

O mestre nestas coisas é Descartes que tão bem soube deslindar a "união do corpo e da alma", e cujo dualismo é a coisa menos compreendida na história da filosofia. É preciso ler Alain.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

(José Ames)

A FRESCURA DA ROSA

Um discurso de Rosa Luxemburg


"Os bolcheviques certamente cometeram mais de uma falta na sua política e sem dúvida ainda cometem - que nos citem uma revolução em que nenhuma falta foi cometida! A ideia de uma política revolucionária sem falhas, e sobretudo nesta situação sem precedente, é tão absurda que é digna só de um mestre-escola alemão."


"Écrits politiques" (Rosa Luxemburg)


Rosa Luxemburg escreveu estas linhas nos primeiros anos da Revolução, quando se podia ainda falar em faltas e as políticas eram mais ditadas pelos acontecimentos e pela situação de emergência do que pelos nobres ideais dos bolcheviques.

A verdade é que nada se começa absolutamente (a não ser a vida e os novos seres), mas se continua o que já aconteceu e o que já faz parte do mundo. A explosão social que permitiu a um grupo de homens, com audácia e organização, ocupar a estrutura do estado impôs uma rota e não outra, e não a que se queria. É como um movimento de cólera com que temos de nos arranjar, mas que, entretanto, já feriu susceptibilidades e, porventura, nos ganhou inimigos para a vida. Se os princípios da Revolução tivessem sido pacíficos, não teria vencido o stalinismo, que já não foi uma "falta", nem uma sucessão de faltas, mas uma política deliberada e "conservadora", no sentido em que o gelo conserva. Staline foi o homem necessário a esta glaciação.

Na altura, os bolcheviques teriam rido da ideia de uma revolução pacífica. Terá sido o 25 de Abril uma revolução? Mas o caso é que, nas últimas décadas, conhecemos uma verdadeira revolução que não faz mártires nem réprobos e que é a mais pacífica que se pode imaginar. São as transformações sociais e culturais operadas pela tecnologia. Depois de cada vaga dessa revolução, nada fica como dantes.

No campo da economia, podem-se apontar duas revoluções pacíficas: a causada pela inflação, que redistribui a riqueza, geralmente dum modo mais injusto, sem que nenhuma política do governo pareça estar por detrás dela (o que é, evidentemente, falso), e a austeridade do género daquela que nos está a ser imposta pelos banqueiros europeus.