segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

(José Ames)

A ENTREVISTA




"Mao: - E quando eu for para o Céu ter com Deus, dir-lhe-ei que actualmente é melhor ter Taiwan ao cuidado dos Estados Unidos.

Kissinger: - Ele ficará muito admirado de ouvir isso do Presidente.

Mao: - Não, porque Deus abençoa-vos a vocês e não a nós. Deus não gosta de nós [abana as mãos] porque eu sou um senhor da guerra militante e também comunista. É por isso que ele não gosta de mim. [Apontando para os três norte-americanos: Kissinger, George Bush e W.Lord ] Ele gosta de si, de si e de si."
(Entrevista de Mao Tsé Tung)

O que aconteceu para o Grande Timoneiro e o Tigre de Papel chegarem a esta linguagem quase bufa? Sente-se que o velho guerreiro valoriza a embaixada como uma homenagem pessoal, na hora em que a velhice não lhe permite mais a 'pavorosa ilusão da eternidade', como dizia o nosso Bocage, e depois de ter 'pintado a manta' com a sua engenharia ideológica, a visita dos americanos é como um balão de oxigénio. Nixon terá tido, ao menos, o mérito de aproveitar a oportunidade que a próxima 'ida para o Céu' do Grande Líder oferecia ao mundo.

A retórica está em todo o lado, mas neste intermezzo de alto nível, muda notavelmente de registo. Ao ponto deste diálogo ser quase cómico e de nele se falar num Deus de anedotário.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

(Braga)

O CONTINUUM ERÓTICO

"Sonho duma noite de verão"



A ilusão mais natural e a que mais apaixona a razão é a de que temos diante de nós objectos isolados, distintos, únicos.

E por isso temos de imaginar com algum esforço os fios indestrutíveis da rede que nos liga a tudo e cada coisa às outras coisas.

Agora, salto para o que não parece ter nada a ver com isto: o erotismo.

Um corpo nu, isolado, como acontece em certas doenças psíquicas   (e, por exemplo, no filme de Ingmar Bergman "A vida das marionetas") pode ser um espectro, uma atroz ilusão que permite todos os crimes, desde a tortura à vivissecção. Mas a nudez erotizada é já um complot teatral, com encenação, luzes e movimento dramático. Não podemos agora separar o objectivo do subjectivo.

É o sonho duma noite de verão, no qual podemos acordar com uma cabeça de príncipe ou uma cabeça de burro.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

(José Ames)

INCONSEQUÊNCIAS DA ACÇÃO

Atlas


"Assim, pois, se resumem todas estas inconsequências da acção: quase nunca fazemos tudo o que queríamos; fazemos muitas vezes o que não queremos; acabamos por querer aquilo que não queríamos. Primeiro, é quase sem sabermos que surge a acção contrária ao querer; depois, consente-se no conhecimento que temos dela; e o que fazíamos sem o vermos, o que fizemos sem o querermos, acabamos por querê-lo como o fazemos."
"L'action" (Maurice Blondel)

Com tais desmentidos da nossa ciência e do nosso poder, só temos que admirar a sabedoria dos Antigos que, ao menos, nunca acreditaram que fôssemos senhores do nosso destino.

Digo mais, se fôssemos capazes de ver à distância todos os antecedentes e todas as consequências dos nossos actos, não encontraríamos, em lado nenhum, o Atlas a quem pudéssemos impor o fardo da responsabilidade.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

(Madrid)

OS ALIMENTOS TERRESTRES





"Não desejes, Nataniel, encontrar Deus que não seja em todo o lado. Cada criatura indica Deus, nenhuma o revela. Desde o momento em que o nosso olhar nela se detiver, cada criatura desvia-nos de Deus." 

É assim que Gide inicia as "Nourritures Terrestres", obra que na altura causou um pequeno escândalo, tendo o autor se sentido na necessidade de explicar ao que vinha e que razões explicavam esse panteísmo dos sentidos. 

O certo é que essa obra contribuiu para a aversão de certos moralistas (mas não só) pela temática gideana. 

O programa das 'Nourritures' vai, sem dúvida, mais longe do que o optimismo de um Pangloss que encontra 'justificação' para tudo no 'melhor dos mundos possível'. E pode dizer-se que, algumas vezes, a sorte protege 'os que se deixam ir', mantendo-os no mundo da 'consciência reduzida' para além de toda a probalidade. 

Gide, ao que parece, saía de uma doença séria e só quis cantar um hino à vida. Ora, como diz o Eclesiastes, há um tempo para tudo. E quando nos entregamos ao júbilo e à dança comemorativa, não é justo que nos lembrem males passados ou presentes um pouco por todo o mundo (para não falar dos males futuros), segundo a agenda da 'Comunicação'. 

De resto, André Gide, não se ficou por essa obra de juventude. Se foi sincero e ingénuo, como convinha a essa idade, a maturidade, em vez de a enjeitar (chegou a escrever uma continuação, em "Nouvelles Nourritures Terrestres"), tomou-a como ponto de partida para outras criações que, infelizmente,  lhe pareceram sempre incompreendidas. 



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

(José Ames)

A SUPER-CONSCIÊNCIA




"Cada indivíduo é ao mesmo tempo o beneficiário e a vítima da tradição linguística na qual nasceu - o beneficiário, tanto quanto a linguagem dá acesso à memória acumulada da experiência de outras pessoas, a vítima, na medida em que o confirma na crença de que uma reduzida consciência é a única consciência, e como esta ilude o seu sentido de realidade, ele está por de mais predisposto a tomar os seus conceitos por dados, as suas palavras por coisas reais. Aquilo que, na linguagem da religião, é chamado 'mundo' é o universo da consciência reduzida, expressa e, como se, petrificada pela linguagem."

"The Doors of Perception" (Aldous Huxley)


Sabemos pela própria experiência que os nossos conceitos e as nossas palavras sofrem uma transformação que, de algum modo, procura acompanhar o novo mundo criado pela técnica e a comunicação. Só depois dessa mudança da linguagem tomamos consciência do que ocorreu na nossa vida.

O modelo de consciência universal que faz parte do monoteísmo é o único com que nos podemos medir, em termos de consciência. Não conhecemos, espontâneamente, o paradigma da consciência reduzida de que fala o autor do 'Brave New World'.

Embora se possam constatar vários graus de consciência ou de estados de alerta, não temos termo de comparação para uma consciência 'cósmica' a não ser a de Deus.

A experiência do misticismo oriental que tanto atraiu Huxley não se aproxima, isso é certo, do conceito ocidental de consciência.

De resto, não saberíamos o que fazer com uma tal super-consciência.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

(Dublin)

O SENTIDO DA ARTE



"Em todo o sofrimento, emoção, paixão, há um estádio em que isso pertence ao próprio homem no que ele tem de mais individual e de mais inexprimível e um estádio em que tal pertence à arte."
(Albert Camus)

Porque se atingiu o limite antes do entorpecimento ou do hábito e a arte seria uma espécie de contemplação desse extremo?

Ocorre-me, evidentemente, a teoria de Freud sobre a sublimação ou a ideia estóica e cartesiana do domínio das paixões (e do desvio dessa força para um fim útil ou aprovado pela moral).

Camus vai mais longe. É-nos sugerido, em vez do 'upgrade' moralizador, a oportunidade de um conhecimento distanciador de nós mesmos, através da arte.

Não se trata de dar expressão ao inexprimível no próprio homem. Mas de compreender o sentido universal nas forças que o sujeitam.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

(José Ames)

AS NOSSAS HISTÓRIAS





"O cuidado com as pessoas toma muitas vezes a forma da preocupação com a qualidade das suas histórias, não com os seus sentimentos."

"Pensar, Depressa e Devagar" (Daniel Kahneman)

Mas as histórias que contamos aos outros e a nós mesmos são, apesar de tudo, racionalizações conseguidas, no sentido em que contêm o dique dos sentimentos. Por que haveríamos então de desmontar esse andaime que o próprio ergue para preservar o auto-controlo e explorar o que 'está por detrás disso'?

Seria fazer prova de que acreditamos mais no homem 'espontâneo' e na desordem das suas emoções como mais próximos da verdade. Ora, esta teoria é um vestígio do rousseauismo e ignora o ser pensante que, por definição, nunca se oferece na totalidade, nem de forma imediata. O que fazemos dos nossos instintos e dos nossos primeiros movimentos é mais real do que tudo o que 'superamos'.

Alain dizia que uma emoção julgada torna-se um sentimento. É a primeira apropriação da nossa personalidade. O carácter é a seguinte, e é constituído pelos sentimentos em que nos reconhecemos, depois de atravessada a 'floresta dos enganos'.

É também verdade que podemos exprimir-nos em impulsos secundários que não surgem directamente da natureza, mas são uma espécie e síntese a partir do auto-conhecimento.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

(Braga)

FALANSTÉRIO


(Falanstério)


"Uma resposta possível é que o racismo e a retórica ambos se nutram da capacidade da linguagem para criar diferença."
(Lisa Perks)

É de supor que mesmo na situação do 'bom selvagem' as sementes da 'não-identificação' estejam latentes e a relação espontânea com o outro esteja sempre ameaçada pela radicalização da diferença, baseie-se ela na natureza ou na convenção.

O que se deve passar, então, numa sociedade 'feliz', em que as diferenças se sentem protegidas contra a linguagem da discriminação e, pelo contrário, são inspiradas por um florescimento sem limites, como era suposto acontecer nos falanstérios do socialismo utópico?

Talvez a ideia de Charles Fourier nos encaminhe na direcção certa. Porque o seu 'novo mundo amoroso', predisposto para a ocorrência dos encontros mais improváveis, em que, como em 'Sodoma e Gomorra' de Marcel Proust, o extravagante barão de Charlus está certo de encontrar Jupien, o homem dos coletes, tal como o besouro que entra no pátio dos Guermantes 'sabe' que mergulhará na orquídea mais exótica.

Vemos aqui que a linguagem pode também levar-nos para uma espécie de júbilo classificatório alimentado pelo amor da diferença (mas cuja representação é ainda inquietantemente concentracionária).

Será, pois, a linguagem, na sociedade humana, independente dos instintos sociais básicos, e só a força 'plástica', criativa/destrutiva, encontra passagem?

domingo, 21 de fevereiro de 2016


(José Ames)

MAQUIAVEL





"Para ele (Maquiavel), o ponto decisivo era que todo o contacto entre a religião e a política tem de corromper as duas, e que uma Igreja não corrompida, se bem que consideravelmente mais respeitável, seria ainda mais destrutiva para o domínio público que a Igreja corrompida de então."

(Hanna Arendt)

É um fenómeno que se está a desenrolar diante dos nossos olhos. Graças ao uso mediático da morte, o Estado Islâmico tem conseguido convencer os seus fiéis de que é uma entidade incorruptível que preza mais os testemunhos da fé do que a própria vida. Essa proeza depende de um regime de operacionalidade que põe imediatamente à prova os militantes, sem lhes dar tempo para pensar. A 'acção' tem de ser intensa e exigir o máximo dos combatentes. O recurso a crianças-suicidas é, assim, demasiado lógico para suscitar 'estados de alma'. Elas são a 'pureza' ao serviço da causa da purificação.

Só a normalização do Estado e a sedentarização poderão confrontar estes crentes com a realidade de uma manipulação sem escrúpulos e com a imagem que o resto do mundo tem deles.

O efeito desta 'blitzkrieg' e da barbaridade dos seus métodos sobre a imaginação dos espectadores é tão poderoso como já o líder nazi sabia que era.

De qualquer modo, e voltando a Maquiavel, é por de mais visível que uma cultura com tão pouco espaço para a política não tem qualquer defesa contra o fanatismo religioso (por muito que o cinismo possa ter já corroído os seus líderes).

Assim, a situação actual é a de uma destruição simultânea da religião e da política.

Maquiavel que tem mau nome na história, por causa do nome 'maquiavelismo' que injustamente distorce a sua mensagem, foi capaz de antecipar uma monstruosidade que é filha do niilismo actual e da comunicação instantânea.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

(Ericeira)

SERVOS


Camponeses russos


Os servos, em Gogol, são uma estranha raça de homens. Para o "barine", eles estão entre o animal doméstico e o deus menor que se tuteia, mas que não se conhece de todo, constituindo os sinais entre as duas espécies uma arte da interpretação mais do que uma linguagem.

Pensar que isto era assim ainda no século XIX ( a libertação dos camponeses da servidão só ocorreu em 1861) e que nem o "espírito do mundo a cavalo" conseguiu, apesar dos terríveis sacrifícios da invasão, mudar um iota!

Apenas meio século depois, a Revolução, como não podia deixar de ser, deu novos nomes a tudo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

(José Ames)

O QUE É CORRECTO




"O Sr. Wittgenstein argumenta que tudo o que é propriamente filosófico pertence ao que só pode ser mostrado, ao que é comum entre o facto e a sua imagem lógica. Daqui resulta que nada de correcto pode ser dito em Filosofia."
(Bertrand Russell)

Já dizia Hegel que o que falta à Lógica é a natureza. Mas, então, a lógica não seria auto-suficiente, o que é o caso. O sistema hegeliano aplicado à história provou que o que 'há de comum entre o facto e a sua imagem lógica' é uma apropriação dos factos pela lógica, que nada tem de filosófica.

Se a filosofia é essa 'busca ocidental do conhecimento' que George Steiner diz que é, 'num sentido trágico, a exploração suprema', um sistema significa o fim dessa busca. A própria lógica conhece-se apenas a si própria e é desprovida de qualquer 'sentido trágico'.

Quando se diz que a Matemática é a linguagem do universo, estamos ainda dentro da lógica e falamos como 'conquistadores' do continente absoluto.

E o que significa essa impossibilidade de correcção no que é dito em nome da filosofia, se não for um 'diktat' da Lógica? Se a lógica não pode falar do que lhe falta (a natureza), como poderia 'desautorizar' a filosofia?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

(Antuérpia)

LEALDADE




"O mal do pessimista é, então, não que castigue deuses e homens, mas que não ame aquilo que castiga - falta-lhe aquela primeira e sobrenatural lealdade às coisas."
(G.K. Chesterton)

Há, no pessimista, um prazer perverso em julgar que o universo faz coro com o seu mal viver. Que as mais das vezes é mal pensar que serve uma inclinação natural.

Sair desse 'estado de alma' implicaria um esforço que o pessimista sente que não seria compensado por um novo regime de prazer. Comporta-se como um jogador da bolsa crente do 'rating', ou, simplesmente, não quer trocar o certo pelo incerto.

A expressão de Chesterton de uma 'lealdade às coisas' parece antiquada e uma higiene do súbdito de Sua Majestade. Sabemos que os amigos devem ser leais e que a hierarquia militar preza tal qualidade acima de todas as outras. Ouvi um deles, há muito tempo, com a máxima gravidade defender, por parte dos soldados, uma 'fidelidade canina'.

Mas seria pena que tais conotações nos fizessem perder a ideia principal: a de que existe um laço natural com o semelhante de que a todo o momento nos abstraímos. Pensar, por exemplo, reclama essa abstracção, já que não se pode pensar colectivamente.

Acontece, talvez, que o pessimismo seja no fundo doutrinário. E que a sua doutrina comece por romper os laços com o semelhante, ao recusar qualquer projecto de vida.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

(José Ames)

REALIDADE


http://www.mbvsi.fr



"(...) toda a ideia do Sistema permanece secretamente orientada por uma mira que não é precisamente vontade de conhecimento no sentido científico do termo, mas uma espécie de intensa necessidade de escapar à realidade, ao mesmo tempo que pela projecção, a fascinação de um imenso mito: a omnipotência do espírito."

(N. Basiet, citado por Tagami)

"A ciência (...) é (...) um sistema de conhecimentos demonstrados, ligados entre eles numa unidade ideal, abstracta, independente dos objectos concretos."
(Massis, "Jugements", 1923, p. 64)

A realidade aproxima-se do caos na primeira definição. Por 'impotência do espírito', não vemos a ordem senão em nós mesmos, e é a essa ordem que chamamos razão e princípio de tudo o que existe.

Mas essa impotência, de facto, serve-nos de veículo para fora do labirinto do ser. É como um instinto secreto, ignorado por aquilo a que chamamos o instinto natural, como é o da sobrevivência. Dito de outro modo, se a Providência não existe, é preciso inventá-la para que o caos não seja definitivo.

Uma das ferramentas para acrescentar ordem ao mundo cavernoso é a ideia de sistema. Estamos tão dependentes de tal simplificação que, em qualquer debate, para obter um consenso fácil, não há como pronunciar essa palavra mágica.

Com isso, adiam-se indefinidamente os encontros da nossa impotência. E parece que ligando as coisas desse modo temos, finalmente, acesso à verdade escondida, à realidade.

E é o melhor que podemos fazer para 'escapar à realidade', criando um sentido que prescinde dela.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

(Varsóvia)

ENTROPOLOGIA





"A 'antropologia', diz Lévy-Strauss na conclusão de 'Tristes Tropiques', pode hoje ser considerada uma 'entropologia': o estudo do homem passou a ser o estudo da desintegração e da extinção certas."


(George Steiner)

É a Física e a segunda lei da Termodinâmica que enformam este pensamento, que nos ditam um ponto de vista 'não-humano', aparentemente longe do antropocentrismo.

"(o homem) surge como uma máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando para a desagregação de uma ordem original e precipitando uma matéria poderosamente organizada numa inércia cada vez maior e que será um dia definitiva. Desde que começou a respirar e a alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo (...), o homem nada mais fez do que alegremente dissociar milhares de milhões de estruturas para as reduzir a um estado em que elas não são mais susceptíveis de integração."
("Tristes Tropiques")

A pergunta que ocorre imediatamente é se a consciência, imparável, de que a ciência é apenas o primeiro andar da caverna platónica, tomando a própria sombra como as figuras do cosmos, não vai forçar-nos a mudar de 'paradigma', como dizia Michel Foucault.

De resto, a ideia de que a nossa presença na Terra pode durar, em termos relativos, o tempo do riscar de um fósforo, ou o cenário da entropia por si mesma não parecem menos absurdas do que a hipótese de que 'viemos para ficar' na nossa 'verdadeira casa'.




domingo, 14 de fevereiro de 2016

(José Ames)

O FAVORITO

"A vocação dos Filhos de Zebedeu"


No quadro de Marco Basaiti "A Vocação dos Filhos de Zebedeu" (1510), Jesus na margem recebe os discípulos que abandonaram a faina no lago da Galileia. Um dos irmãos, é João, o preferido.

Esta inclinação é demasiado humana, sendo esse discípulo de todos o mais jovem. E como é de supor num texto tão inspirado, em que o recurso à parábola e à economia de meios é a regra, o "fraquinho" do Mestre não nos é revelado por acaso.

É que a Incarnação para ser perfeita não podia ignorar as inconsequências da "carne". Mas só até certo ponto. Preferência, sem injustiça para com os demais.

João, foi também o visionário do Apocalipse e talvez que este seja um dom dessa amizade da transcendência.

A ideia de ver nos Evangelhos uma incarnação só meio sucedida, pelo imperativo doutrinário, está na origem de algumas tentativas modernas de "completar" a humanização de Cristo.

O discípulo preferido parece ser o "shifter", como diria Barthes, duma leitura mais "mortalizante", que tornaria real o abandono do "Eli, Eli lama sabachtani?" na cruz.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016



(Pula)

O HOMEM SELVAGEM

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"Nenhum psicólogo comportamentalista que observasse as pequenas aldeias isoladas no Interior do Brasil declararia decididamente que os seus habitantes "desenvolvem diferentes formas de loucura" a fim de enfrentarem a chuva, as carências alimentares e a desolação."

(Claude Lévy-Strauss, citado por George Steiner)

Parece que a razão (iluminista, ocidental, universal) é indissociável de um tipo de loucura, ou irracionalidade correspondente.

Os etnólogos que se depararam com os 'exóticos' comportamentos de algumas tribos isoladas tiveram que ultrapassar muitos dos preconceitos que traziam no seu saco de viagem. Não chegava, claramente, atribuir esses hábitos de vida ao atraso e à superstição. Mas foi-lhes necessário manter o seu mais forte preconceito que precisamente os guiava nesse choque de raças e de culturas: o de que os selvagens eram seres racionais; assim como os missionários partiram da ideia de que tinham alma.

Por isso estava-lhes vedado (aos etnólogos e aos missionários) uma explicação pelo catálogo da loucura. Agustina dizia que o corpo é uma inteligência. Por que haveríamos de recusar a ideia de uma 'razão submersa' nos ritos estranhos do homem selvagem?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

(José Ames)

OS HUNOS

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"O mundo já se teria extinguido sem dúvida no tempo das grandes invasões, se cada um tivesse querido defender-se até à última gota do seu sangue."
(in "O Homem Sem Qualidades", de Robert Musil)

Sabemos, pela experiência histórica, que o indivíduo, ao entrar na dinâmica de um colectivo, deixa de pensar por ele mesmo (embora conserve, quase sempre, a ilusão de que essa circunstância não perturba o seu 'livre arbítrio'). O facto é que nenhuma organização gosta da  independência.

É talvez demasiado simplista a ideia de que o indivíduo se perde completamente no seio da massa em movimento e que a organização possa ser descrita como uma simples maquinaria. De resto, sempre se disse que a 'união faz a força', mas ninguém disse que, como instrumento, essa união possa encontrar por si o seu objecto e o seu objectivo.

O facto dos Hunos, por exemplo, dentro da sua massa bélica, terem encontrado tão poucos casos de resistência do tipo 'até à última gota de sangue' deve-se, naturalmente, ao instinto de sobrevivência dos povos atacados e, talvez, à compreensão do significado da força (não-humana, entenda-se). Força a que Simone Weil atribuiu o verdadeiro protagonismo na 'Ilíada'. Por isso, crismou a obra-prima de Homero de 'poema da força'.

Mas, os seguidores de Hitler, os hunos da nossa era, não encontraram da parte das suas principais vítimas, os judeus, qualquer tipo de resistência e muito menos esse heroísmo do 'até à última gota de sangue'. Como se, nesse momento, se cumprisse uma predestinação histórica. Como se fosse cobrada uma dívida antiquíssima que criava aquela espécie de letargia.

O instinto de sobrevivência não tinha qualquer hipótese. E também não se pode dizer que os judeus compreendessem a força que os atacava. Outro castigo de Jeová, mais do que merecido?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

(Baleal)

FIGURAS DO MUNDO REAL





"Ao que aconteceu, enquanto correlato de uma proposição, Wittgenstein chama muitas vezes de realidade. A realidade, não é exactamente o mundo. É também uma categoria do mundo, mas podia dizer-se: a realidade é uma figura local do mundo."

(Alain Badiou)

Teríamos, então, que a linguagem não pode descrever o mundo como realidade. O 'correlato da proposição' seria ainda uma representação do mundo sob a figura local da realidade.

Porque a realidade fora do mundo por nós 'construído' não está ao alcance, da linguagem. Mas como nunca poderemos fazer dessa realidade o objecto da nossa experiência, tal como ela é formatada pelo complexo técnico-científico, essa realidade existiria para quem?

Da 'grande realidade' não sabemos se é 'matéria' ou 'espírito'. Não há como provar que qualquer dos grandes filósofos esteja errado. Nenhuma cosmogonia é absurda.

Finalmente, a chamada morte de Deus é mais uma figura da metafísica irremediavelmente 'local'.



terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

(José Ames)

CLARAVAL

Abadia de Clairvaux


"E foi também, aquilo que ele dizia de si próprio: a 'chimera saeculi', um estranho ser ansioso de contemplação e constantemente arrastado para a acção."
(José Mattoso sobre Bernardo de Claraval) 

A ânsia de S. Bernardo pela contemplação podia ser comparada com o oposto dela que é o tédio e o terror do claustro interior a que, por um instante, não têm acesso os ruídos do mundo.

Anna Gerschenfeld, nas páginas do 'Público' de ontem, fala-nos de experiências levadas a cabo por neurocientistas americanos. "Estes surpreendentes resultados foram revelados, em 2014, num estudo publicado na revista Science pelo psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA), e colegas. Mais precisamente: 12 dos 18 homens (67%) e seis das 24 mulheres (25%) testados preferiram receber choques eléctricos a não ter nada para fazer (a não ser pensar) durante a sua curta permanência em isolamento forçado."

É claro que a frustração do reformador da ordem cisterciense é muito relativa. Por um lado, a entrega total à contemplação seria fatal às suas intenções reformadoras, por outro, a acção para que se sente continuamente arrastado impede-o de conhecer o verdadeiro tédio.

S. Bernardo, apesar dessa divisão um tanto retórica, deve ter sido um homem feliz, e 'sem estados de alma', como se diz.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

(Ĺisboa)

INTELIGÍVEL E VERIFICÁVEL

(Paul Valéry)



"A ciência, no sentido moderno da palavra, consiste em fazer depender o saber do poder; e vai até subordinar o inteligível ao verificável."
(Paul Valéry)

A teoria da relatividade se tivesse sido formulada no tempo dos grandes filósofos da Grécia Antiga (por um extraterrestre, digamos), não seria considerada 'científica', mas, provavelmente, ter-se-ia olhado para ela como um hieróglifo mais ou menos sagrado, como diz a palavra.

Nesta fase, teria havido já uma apropriação por um poder 'sacerdotal' afim do que existiu no Antigo Egipto.

A parte moderna da frase valeriana é a que nos diz que a sociedade grega de então não subordinaria, como nós, o 'inteligível ao verificável'.

Se o tivesse feito, não haveria um começo grego da ciência. Porque, como disse Comte, a série do conhecimento, começou pela a astronomia que só podia 'considerar' os astros de longe, sem poder 'verificar' o que quer que fosse. Isto é, deu-se todo o valor à explicação inteligível, sem se pensar que a falta de 'verificação' fosse tão 'desastrosa', como pensamos hoje.

E aqui entra a subordinação ao poder. É que o indivíduo muito raramente tem os recursos necessários para provar. É preciso todo um sistema de 'verificação' que, só esse, confere o estatuto científico. O inteligível não basta. O seu principal defeito é a impotência junto da colectividade.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

(José Ames)

A DIÁFANA NUDEZ


Santo André (José de Ribera)




A expressão verdade nua tem um sentido no Santo André de José de Ribera, que representa cruamente o apóstolo, não disfarçando as rugas da idade nem o desenho das suas costelas, tão próximo da ideia de que a verdade se encontra escondida, como o esqueleto o está sob a pele e a morte sob a aparência da vida, e tem outro sentido, por exemplo, nas representações em que uma bela mulher não parece ter nada que esconder.

Assim, na estátua do Largo do Barão de Quintela (em tempos, tradicionalmente mutilada), de Eça com a Verdade, o escritor seduz-nos com a alegoria, mais do que nos abre os olhos. E a nudez feminina é uma imagem paradoxal da verdade, pois nos desvia de facto da realidade, e é quando se encontra mais despida que é mais secreta.

Retirado o "manto diáfano da fantasia", encontramos o verdadeiro véu.
(Berlim)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O MODO DE PRODUÇÃO

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Há uns anos, Agustina disse, numa entrevista a Clara Ferreira Alves, que era impensável que dalí a dois mil anos o ser humano ainda se preocupasse com o sexo.

A verdade é que em algumas espécies o acasalamento ocorre uma única vez, e o macho pode aí perder a vida, como se esse fosse o real objectivo da sua existência, a sua perfeita consumação.

E, no caso dos humanos, talvez que só relativamente há pouco tempo, dada a história da espécie, começássemos a nos 'preocupar' com a sexualidade. O que sabemos é que, existindo várias representações do corpo desde que há registo histórico, o sexo teve sempre um lugar eminente (pela negativa, como no Cristianismo, ou pela exaltante afirmação, como no hinduísmo) em todas as religiões.

Não sabemos até que ponto a nossa concepção do mundo e a própria linguagem assentam nas ideias de cada sociedade sobre o facto da sexualidade.

Agustina emprega o termo 'preocupação', referindo-se, provavelmente, a um desequilíbrio característico da nossa época, em que o sexo se tornou 'estranho' e separado da natureza. Não é a obsessão ateísta dos libertinos do século XVIII, mas a da produção e a da mercantilização tão glosadas politicamente.

O que acaba por ser, em Agustina, uma esperança quase revolucionária...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

(José Ames)

A MALDIÇÃO DO ANEL



A notícia chamava de bom samaritano ao homem que entregou na polícia a mala perdida com um tesouro.

Dificilmente o caso se adequa à passagem bíblica. A simples honestidade e até a prudência podem estar na origem desse gesto.

Há uma diferença, na verdade, entre o roubo, mesmo "oferecido" por uma oportunidade excepcional e o achado de que nos apropriamos.

A culpa no primeiro caso resulta da acção, mas no segundo temos a ilusão da passividade.

Aquilo que vulgarmente se chama de o sistema permite-nos também esse tipo de ilusão e que nunca nos ponhamos as questões verdadeiramente incómodas.

Suponho que aqui se aplica plenamente a história de Gigés e do anel de oiro que lhe permitia ser invisível, como se pode ler em Platão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

(Bolonha)

GUIA PARA CEGOS


(Michel Houellebecque)

"Os homens e as mulheres que frequentam as 'boîtes' aos pares renunciam rapidamente à procura do prazer (que exige finura, sensibilidade, lentidão), em proveito de uma actividade fantasmática bastante insincera no seu princípio, de facto, decalcada das cenas de 'gang bang' dos pornos 'mode' difundidos pelo Canal +."
(Michel Houellebecque)

É sabido que a luxúria é considerada pela teologia católica como um pecado capital que consiste em procurar os 'prazeres da carne', e os 'anjos maus' foram os responsáveis pela sua introdução no mundo: "Com efeito, estes anjos pecadores e apóstatas ensinaram as mulheres a se maquilharem e a frisarem o cabelo."

Não se pode dizer, claro, que este 'pecado capital', é uma construção artificial dos teólogos, dado que a sua importância no sistema da culpa católica vai muito para lá do 'prazer sexual', e é, por assim dizer, estrutural. Para criar a altura do Céu não se podia deixar de cavar o abismo. A distância em relação à natureza é, pois, uma condição necessária.

Houellebecque, pelo seu lado, fala-nos de uma "baixa tendencial da taxa de prazer' que 'seria, ao mesmo tempo, sumária e inexacta. Fenómenos culturais e antropológicos, segundos, o desejo e o prazer, finalmente, pouco explicam da sexualidade."

A 'renúncia do prazer' na cultura da noite de que nos fala o escritor evoca um 'mundo do avesso' em que parece necessário um guia para cegos.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

(José Ames)

UMA ENTREVISTA

(Agustina Bessa-Luís)


CFA: Deus? Deuses? 
AB-L: Deus. O equilíbrio perfeito do cosmos. Acredito nisso, e numa sobrevivência. Vivo rodeada de fantasmas. 
CFA: Isso não contradiz a sua racionalidade? 
AB-L: Não. É também uma forma de racionalidade. Para certas pessoas é mais fácil acreditar que não acreditar."

(Entrevista de Clara Ferreira Alves a Agustina Bessa-Luís)

Esta entrevista já tem uns anos e não é possível hoje voltar a interrogar a sibila. Mas aqui, a grande escritora deixa-nos uma ponta do seu novelo ariânico.

Como é que a racionalidade se liga tão intimamente à crença, tão longe de ser o seu oposto, como pretende uma certa tradição filosófica e o próprio senso comum? Não se censura aquele que se deixou vencer pelas preferências pessoais na hora de julgar?

Esse 'erro' não se pode atribuir a Descartes, o pai do racionalismo moderno. Basta ler o seu 'Tratado das Paixões' para ficarmos a saber que a razão ganha mais no bom uso das paixões do que no combate a elas, sabedoria que nos legaram os estóicos.

É razoável, pois, que esta 'política' pressuponha, não uma racionalidade separada, mas uma razão consubstancial à 'inteligência do corpo' (Agustina).

A dificuldade em não acreditar vem de não ser 'natural' este desentranhar da razão e de esta não poder encontrar em si o seu próprio fundamento.

Começamos por acreditar que a razão não nos engana (o que Descartes dizia de Deus). Depois nas provas dessa razão que trouxeram ordem ao caos. Mas, no entanto, devemos também acreditar que a razão não se esgota na ciência e na técnica, nem no ordenamento do caos.