sexta-feira, 31 de julho de 2009


Porto (José Ames)

A DESGRAÇA


"Starry Sky" (Van Gogh)


"Ser-se-ia muitas vezes tentado a chorar lágrimas de sangue ao pensar quantos infelizes esmagados pela desgraça são incapazes de fazer uso dela. Mas considerando as coisas friamente, esse não é um desperdício mais lastimável do que o da beleza do mundo. Quantas vezes a claridade das estrelas, o ruído das vagas do mar, o silêncio da hora que precede a alba não se vêm inutilmente propor à atenção dos homens? Não conceder atenção à beleza do mundo é talvez um crime de ingratidão tão grande que merece o castigo da infelicidade."

"L'Amour de Dieu et le Malheur" (Simone Weil)


Pode ser chocante para a mentalidade moderna sugerir que a beleza do mundo não é uma beleza qualquer, que não é casual, nem independente das necessidades humanas, mas que, pelo contrário, ela é uma necessidade profunda e, como diz Simone, uma espécie de sacramento.

Esse sentimento, essa quase criminosa "ingratidão" explica-se por, desde há muito tempo, termos passado a viver num nicho artificial onde só nos vemos e ouvimos a nós mesmos. É isso que significa o universo como conquista e ampliação do nicho.

Sem termos consciência dessa "distracção" fatal, também não podemos compreender que até a desgraça pode ter um sentido.

quinta-feira, 30 de julho de 2009


(José Ames)

CATARSE


Prometeu


“A espera impaciente das surpresas, do inesperado ou de coisas aterradoras, mergulhava as pessoas num ligeiro estado de embriaguez. Para se poder superar tudo isso, para não se cair de uma vez por todas na confusão e aí permanecer, aqueles que viviam sem interrupção em Berlim habituavam-se a não levar nada a sério, sobretudo os nomes. (…) Este cinismo manifestava-se pela agressividade em relação a toda a pessoa que se distinguisse de que maneira fosse. Isso podia aparecer como a expressão dum ponto de vista político, enquanto que, na realidade, se tratava de algo de diferente, uma espécie de luta pela existência.”

“Le Flambeau dans l’Oreille” (Elias Canetti)


Cinco anos depois dos acontecimentos relatados nestas memórias, a república de Weimar afundava-se ignominiosamente. A doença cujos sintomas transparecem na descrição dos berlinenses de Canetti chegou à extremidade que se conhece.

A intolerância e o fanatismo, uma fé ardente, mesmo que na mais baixa das religiões, a da força, são um pólo de atracção quase irresistível no estado geral de descrença e desespero de que o cinismo é o melhor sinal.

Reconhecemos esse cinismo em vésperas da Revolução Francesa na influência dos grandes libertinos.

A sociedade é como um sistema energético e todas as crises libertam grandes energias até se atingir um ponto de estabilidade.

Do facto de, no teatro político, um velho actor atacar o “politicamente correcto”, podemos julgar do estado do cinismo.

Mas enquanto for teatro, há catarse (como diria Aristóteles).

quarta-feira, 29 de julho de 2009


Alcochete (José Ames)

O FUTURO DA ECONOMIA


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"Quais são as hipóteses de alguma vez virmos a compreender os sistemas económicos? Eles são claramente exemplos de sistemas extremamente complexos, mas há um grande acervo de dados quantitativos para testar as nossas ideias. Os economistas profissionais que se dão ao trabalho de se preocuparem com assuntos práticos não se saem normalmente muito bem quando se trata de predizer o futuro da economia. São espertos, mas falta-lhes a ferramenta intelectual certa nas mãos."

"The Dreams of Reason" (Heinz Pagels)


Quando era estudante, Heinz perguntou ao professor se as curvas da oferta e da procura eram inventadas, baseadas em dados, ou se representavam uma teoria. O mercado, foi-lhe respondido, "estabelece um equilíbrio, e o ponto em que as ondas da oferta e da procura se intersectam determina o preço."

Mas para Pagels o sistema económico, tal como o sistema evolucionário ou a resposta imunitária estão longe do equilíbrio, e aí é que bate o ponto. "Pouco mais do que nada se compreende acerca dos sistemas dinâmicos longe do equilíbrio."

Como o autor menciona a "ferramenta certa", admite que um dia, mas não no futuro próximo, os economistas poderão prever o futuro da economia com maior acuidade.

Até lá o que temos é informação que nos dá a ilusão do conhecimento e a transferência de cada vez mais poder de decisão para o computador, factores que apenas acentuam o desequilíbrio do sistema e a sua imprevisibilidade.

Por isso, quando dois economistas passam um pelo outro na praça têm de fazer um esforço para não se rirem.

terça-feira, 28 de julho de 2009


(José Ames)

FÚRIA DE PINTOR


O Marechal de Villars


"Entre tantos defeitos, não seria justo negar-lhe algumas qualidades. Tinha-as de capitão; os seus projectos eram ousados, vastos, quase sempre bons e mais adequados de quaisquer outros à execução e aos diversos manejos de tropas; de longe para esconder os seu intuito e de as fazer alcançar o objectivo, de perto para se colocar e atacar. O golpe de vista, embora bom, não tinha sempre a mesma justeza, e na acção a cabeça tinha clareza, mas era sujeita a demasiado ardor, e por isso mesmo a embaraçar-se. O inconveniente das suas ordens era extremo, quase nunca por escrito, e sempre vagas, gerais, e, sob o pretexto da estima e da confiança, com propósitos exagerados, reservando-se sempre os meios para se atribuir todo o sucesso e de lançar os fracassos sobre os executores."

"Saint-Simon" (Mémoires)


Este retrato de Claude Louis Hector duque de Villars (1653/1734) segue o modelo plutarquiano, pesando os defeitos e as qualidades da personagem nos pratos da balança. Mas aqui, o reconhecimento de algumas qualidades militares é desdito a seguir pelo seu inconveniente "extremo", e o que releva é uma grande fraqueza de carácter.

Sainte-Beuve, referindo-se a estas páginas das "Mémoires" fala em "fúria de pintor" que impediria de reconhecer as verdadeiras cores do homem, o qual nos é retratado como "um monstro de vaidade, de malfeitoria e sorte, uma caricatura." Para este literato, tudo o que de bom se pôde dizer depois sobre o marechal de Villars não aguentava a comparação com "este magnífico retrato em feio, onde Saint-Simon derramou todos os seus ardores e o seu amargor."

Outras tantas pistas para se perceber donde vem a "fúria de pintor" e a razão dum retrato tão desequilibrado ou a aplicação do método psicológico caro a um crítico literário tão denegrido por Proust?

Eu, por mim, avanço outra teoria que é a da dinâmica do próprio estilo. Há pessoas que não sabem deixar passar a ocasião para colocar um dito espirituoso, mesmo à custa da justiça e da verdade.

Em muitas circunstâncias, são as palavras que decidem por nós.

segunda-feira, 27 de julho de 2009


Lisboa (José Ames)

RITUAIS



"Em tempos já idos, estava muito em moda em Tokushima, como em todo o Japão, o entretenimento solene, quase religioso, de se reunirem os amigos em um pavilhão especial construído no jardim, preparando o dono da casa o chá, o chá-no-yu, ritualmente, e oferecendo-o aos convidados. A cerimónia incluía a contemplação da paisagem do jardim, das florescências ocasionais, a íntima concentração do espírito, a improvisação de poesias, etc."

"Caderno de impressões íntimas" (Wenceslau de Moraes)


Este Japão tradicional vemo-lo ainda no cinema. Não há cena de Ozu ou de Mizogushi em que não se sinta esta ritualidade e a contenção cerimoniosa dos gestos.

Mas parece que aquilo que nós, Ocidentais, reservamos para os lugares de culto é apropriado, no Japão, em qualquer lugar.

Sabendo qual tem sido a influência do exterior nos novos costumes dos japoneses, podemos nos perguntar até que ponto esse cerimonial está em vias de se tornar um simples vestígio do passado e se a nossa própria história não nos oferece exemplos do mesmo fenómeno.

Onde quer que o colectivo exerça a sua influência, damo-nos conta de alguma ritualização. Não é só uma questão de convivência e de boas-maneiras, mas de coreografia dos corpos e dos espíritos, uma adaptação ao movimento dos outros e ao seu ritmo.

Não se pode pensar em grupo, mas o que mais se aproxima disso é, talvez, qualquer coisa como a contemplação da paisagem artificial de que fala Moraes.

domingo, 26 de julho de 2009


(José Ames)

JUSTIÇA DISTRIBUTIVA



"A justiça distributiva requer a alocação de todos os recursos numa autoridade central; requer que se diga às pessoas o que devem fazer e os fins que devem servir. Onde a justiça distributiva é o objectivo, as decisões quanto ao que os diferentes indivíduos devem fazer não podem ser derivadas de regras gerais, mas devem ser tomadas à luz dos fins particulares e do conhecimento da autoridade planificadora. Como vimos atrás, quando a opinião da comunidade decide o que as diferentes pessoas receberão, a mesma autoridade tem também de decidir o que elas terão de fazer."

"The Constitution of Liberty" (Friedrich Hayek)


Por que é que tem de falhar uma ideia tão racional? O princípio "de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades" parece de uma cristalina justiça e poderia, decerto, funcionar numa sociedade fechada e mais ou menos controlada.

Mas o que diz a experiência histórica é que não existe nenhum sistema completamente fechado nem sob o controle suficiente duma autoridade central. Uma ditadura assenta mais na inércia do sistema do que no efectivo controle do ditador. O aparente sucesso de alguns regimes na sua auto-conservação não se deve confundir com o poder de um indivíduo ou de um grupo dirigente.

Todas as revoluções fugiram ao controle dos seus próceres, resultando noutra coisa muito diferente dos ideais e obrigando à conversão dos revolucionários, pelo menos enquanto cometidos à tarefa de conservar o poder.

Por isso, é paradoxal a justiça distributiva e só podemos permitir-nos uma aplicação parcial do princípio, o que a torna, para alguns, quase irreconhecível.

Como diz Hayek, a distribuição centralizada implica o controle total sobre a produção e isso significa a funcionarização da sociedade com a destruição da iniciativa dos indivíduos.

E eis como um princípio justo se transforma numa obstrução à justiça por não viabilizar o futuro.

sábado, 25 de julho de 2009


Zadar (José Ames)

ARTE OBJECTIVA E SUBJECTIVA





"Eu deveria talvez começar pela crítica duma teoria da arte amplamente aceite: a teoria de que a arte é auto-expressão, ou a expressão da personalidade do artista, ou talvez a expressão das suas emoções. (…) A minha principal crítica desta teoria é simples: a teoria expressionista da arte é vazia, porque tudo o que um homem ou um animal pode fazer é (entre outras coisas) uma expressão de um estado interior, de emoções e de uma personalidade. Isto é trivialmente verdadeiro para todas as espécies de linguagens humanas ou animais."

"The Unended Quest" (Karl Popper)


Popper cita os exemplos de Bach e Beethoven para dizer que em boa verdade não poderia propor o último destes músicos como modelo ou ideal artístico. Por muito que admirasse Beethoven não podia deixar de reconhecer na sua música um lado fortemente expressionista e subjectivo, talvez devido ao desespero em que vivia. "No entanto, a pureza do seu coração, os seus poderes dramáticos, os seus dons criativos únicos, permitiam-lhe trabalhar dum modo que não seria permissível a outros." Por contraste, em Bach a música correria duma fonte não contaminada pelo subjectivismo.

O papel revolucionário do romantismo, julgo que não pode ser posto em causa. Correspondeu ao ascenso dos valores individuais na nossa cultura. Mas é visível o esgotamento daquilo a que o filósofo chama de expressionismo. A melhor crítica é fornecida pelos exemplos que nos dá o que já foi a avant-garde. Os automatismos que invadiram a pintura e o comentário perpétuo e circular das obras do presente e do passado exprimem tanto a personalidade do artista como qualquer gesto involuntário.

A arte moderna é, ao mesmo tempo, cada vez mais objectiva, sendo o seu valor determinado por um sistema formal e ideológico e, cada vez mais, pelo mercado da arte.

sexta-feira, 24 de julho de 2009


(José Ames)

A TRANSCENDÊNCIA DA LEI


"The Trial" (1962-Orson Welles)


"'Mas terá ele compreendido o que estava a ler?' Enquanto a conversação prosseguia, Block movia continuamente os lábios e estava claramente a formular as respostas que esperava que Leni desse: 'Bem, eu não posso naturalmente dar a isso uma resposta certa, mas pude ver que ele lia aplicadamente. Passou todo o dia a ler a mesma página, correndo as linhas com o dedo. Sempre que eu ia ver, ele suspirava como se essa leitura fosse uma trabalheira para si. Presumo que os papéis que lhe deu são muito difíceis de compreender.' 'Sim', disse o advogado: 'isso são certamente. E não penso que ele tenha realmente compreendido o quer que seja. Mas pelo menos deve ter ficado com uma ideia da dura luta e do muito trabalho que é defendê-lo."

"O Processo" (Franz Kafka)


É costume falar em absurdo a propósito desta literatura. E a dependência e a fraqueza do indivíduo perante um sistema que só pode crescer em complexidade e tornar-se tão obscuro a ponto de se confundir, cada vez mais, com a arbitrariedade desafiam a razão por, aparentemente, o homem ser aqui vítima de si próprio ou da sua criação.

À medida que a justiça, enquanto máquina, mais parece existir para si própria, perfunctoriamente, as figuras de Block, num registo mais leve e de Joseph K. no tragicómico tornam-se figuras universais.

Quanto aos advogados, como Hudl, cuja inutilidade K. julga ter penetrado, são depois dos juízes os maquinistas essenciais.

Mas a justiça como ideia, como silhueta, não se confunde com a produção da máquina.

quinta-feira, 23 de julho de 2009


Dalmácia (José Ames)

A COR DO GATO


Deng Xiaoping (1904/1997)


"O governo socialista da China não tinha nenhum problema de acesso ao capital. Enquanto uma economia de mercado não pode simplesmente decidir poupar ou investir mais, uma economia socialista pode e normalmente é isso que faz. O capital veio dos programas governamentais: quase toda a poupança era feita quer pelo governo quer pelas empresas do Estado. Nos dois casos o dinheiro era tirado do bolso dos indivíduos e investido a seu favor."

"The Undercover Economist" (Tim Harford)


Por que não é sempre assim? Por que é que nos anos 50 a economia chinesa pôde crescer dum modo tão espectacular (cada 100 yuan investidos geravam um retorno de 140)?

"As tarefas com que se defrontava o governo chinês eram bastante claras: em particular, o que tinha sido destruído durante a guerra e a revolução tinha de ser reparado. O governo só precisava de dar ordens."

Os problemas vieram depois. Harford diz que, mesmo pondo de lado o caos do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural, o Estado não conseguia retirar valor dos seus investimentos. A eficiência era metade da de duas décadas atrás.

Claro que havia imensas necessidades a que acorrer num país tão pobre. "Havia muito investimento efectivo a fazer, mas o Estado não sabia como fazê-lo."

A dificuldade é acrescida quando o aumento da população e os avanços tecnológicos impõem uma permanente mudança. Não se pode planear a 10 anos porque ninguém sabe como será o mundo então e quais serão as necessidades.

Deng Xiaoping, ao reconhecer que o socialismo não pode ser a repartição da miséria e ao reintroduzir, pragmaticamente, o mercado, rendeu-se à evidência de que é melhor alguma informação (a do sistema de preços e da oferta e da procura) do que nenhuma.

Depois, foi o que se viu. O gato pode não se chamar socialismo mas não há dúvida que apanha ratos, pelo que é um bom gato.

quarta-feira, 22 de julho de 2009


(José Ames)

terça-feira, 21 de julho de 2009


(José Ames)

ARROZ A VENTOINHA



"Mao ordenou ao povo que matasse os pássaros que comiam o grão, e em resultado disso explodiu a população dos insectos daninhos. Mao redesenhou pessoalmente as técnicas agrícolas da China, especificando a plantação mais junta e as sementes em maior profundidade para aumentar as colheitas. O arroz plantado tão junto não podia crescer, mas os funcionários do partido, ansiosos por agradar a Mao, encenaram exposições do sucesso agrícola e industrial. Quando Mao viajava de comboio para admirar os frutos da sua política, os funcionários locais construíram fornos em fila ao longo da linha e trouxeram arroz de locais a milhas de distância para ser replantado nos campos adjacentes, na densidade especificada oficialmente. E mesmo esta charada não se podia manter sem o uso de ventoinhas eléctricas para fazer circular o ar e impedir o arroz de apodrecer."

"The Undercover Economist" (Tim Harford)


Esses funcionários do partido não fizeram diferente dos burocratas de Catarina a Grande, com as suas "aldeias Potemkine", para a soberana ver.

As ideias técnicas de Mao estavam erradas, mas sempre se podia emendar a mão, com mais ou menos danos, se ao líder supremo fosse permitido falhar. Por isso, o erro não podia existir. Era sempre culpa dos outros ou do clima. Foi essa, de resto, a explicação para as dezenas de milhões de mortos do Grande Salto em Frente.

A prática só é "o critério da verdade" quando não se está no poder. Depois, a verdade passa a ser uma questão de segurança.

O "despotismo esclarecido" do século XX foi uma tragédia, não por causa das intenções ou dos desvios doutrinários, mas porque os meios ao alcance do Estado eram propícios a que os erros atingissem uma escala colossal. Erros que não podiam ser admitidos sem pôr em causa o regime e o esclarecimento do déspota.

segunda-feira, 20 de julho de 2009


(José Ames)

A CORAGEM DE ETTY


O Campo de Concentração de Westerbork


"Eu sei que não é assim tão simples e, para nós judeus, menos ainda do que para os outros, mas se no despojamento geral do mundo do pós-guerra, só tivermos os nossos corpos salvos com sacrifício de tudo o resto e não esse sentido novo jorrando dos mais profundos abismos da nossa miséria e do nosso desespero, será muito pouco. Do recinto mesmo dos campos, novos pensamentos deverão irradiar para o exterior, novas intuições deverão estender a claridade à sua volta e, para além das nossas prisões de arame farpado, juntar-se a outras intuições novas que se terão conquistado fora dos campos com igual preço de sangue e em condições tornadas pouco a pouco igualmente penosas."

"Lettres de Westerbork" (Etty Hillesum)


Quantos terão como esta corajosa pequena holandesa, conservado o espírito, no meio das provações, e, sobretudo, um coração isento de desespero e de recriminação (nem sequer a pergunta de Job a Deus: que mal é que eu te fiz?), mas acreditando até ao fim que "cada situação nova, seja ela melhor ou pior, comporta em si a possibilidade de enriquecer o homem de novas intuições." Menos de um ano depois destas linhas terá passado pelas chaminés de Auschwitz e as últimas palavras escritas de que temos conhecimento são as do bilhete atirado do vagão da morte para o desconhecido.

É certo que ainda em Westerbork, Etty gozava duma situação especial que lhe permitia ir algumas vezes a Amsterdam donde escreveu as cartas, talvez por isso consiga falar ainda no pós-guerra e na responsabilidade do testemunho, como se houvesse ainda futuro para ela, sem se sentir no fim do mundo como um Primo Levy.

Mas não é esta fé contra os factos que nos leva a superar o individualismo e o absurdo da existência? Não é a morte, nesse sentido, a obrigatória ilusão que nasce duma perspectiva apenas humana?

domingo, 19 de julho de 2009


Viseu (José Ames)

OLHAR ANTES DE SALTAR



"A falta de sucesso entre a juventude americana é muitas vezes assacada a professores incompetentes, a textos maçudos e ao tamanho excessivo das turmas. Nós sugerimos uma outra razão para os estudantes ficarem aquém do seu potencial intelectual: o falhanço no seu exercício da auto-disciplina."


"Self-Discipline Outdoes IQ in Predicting Academic Performance of Adolescents" de Martin Seligman e Angela Duckworth (citado por Maggie Jackson in "Distracted")


O estudo destes autores revela o que já se esperava: o trabalho e auto-disciplina são mais importantes do que uma grande inteligência. É a história da lebre e da tartaruga.

Um QI superior não impede um adolescente de perder o seu tempo com jogos de computador ou com a televisão em prejuízo dos estudos.

A capacidade de diferir um prazer (recorrendo às vezes à imaginação) está na base da auto-disciplina. "Os Antigos Gregos tinham um termo para a impulsividade: akrasia, uma deficiência da vontade." Ou "o auto-controle é a essência de olhar – literal e cognitivamente – antes de saltar."(Maggie Jackson)

Se este fenómeno da falta de concentração e de auto-domínio está na base do falhanço escolar e da impreparação para o futuro, está à vista de todos que o problema é mais de cultura do que das instituições ou das pessoas. E o que define, neste aspecto, a nossa cultura é uma espécie de fetichismo tecnológico.

Até onde poderemos considerar os gadgets como próteses extensivas, se resultam na contracção ou no definhamento de funções essenciais?

sábado, 18 de julho de 2009


(José Ames)

O MUNDO IMPOSSÍVEL


J.-M.G.Le Clézio)


"À volta da erva, o mundo é circular, gelado, invisível; as coisas existem sem fenómenos, ou com fenómenos de tal maneira pequenos que nem sequer vale a pena falar deles. As coisas estão ali por blocos, por ilhotas; estão longe, nada vem em direcção à erva, nada entra nela de modo diferente que não seja pelas fibras das folhas ou pelos filamentos das raízes. Nada comunica. E, no entanto, não é a morte, muito pelo contrário. É a vida heteróclita, sem ligações com o resto do mundo."

"A Febre" (J.-M.G. Le Clézio)


Nesta impossível imersão no não-humano, na vida rente ao chão, das plantas e da química orgânica, percebemos que o que acima se descreve é uma paisagem humana.

O autor diz que nada comunica. É verdade que as coisas parecem isoladas e a trabalhar como autómatos. Mas os nomes ligam-nos à língua e ao pensamento e, então, tudo comunica.

Se não pudéssemos falar delas ou escrever sobre elas, a comunicação entre as coisas seria verdadeiramente não-humana, ou então seria a sua separação que se revelaria ilusória.

Se calhar, é a nossa consciência que interrompe um tempo unido e distribui as coisas pelo nosso habitat.


sexta-feira, 17 de julho de 2009


Chaves (José Ames)

HUMILDADE


Albert Einstein (1879/1955)


"Uma das facetas predominantes na conduta da pesquisa científica é a agressão intelectual, que se manifesta no desejo de conhecer e exercer a própria inteligência em resolver o enigma do universo. Nenhuma grande ciência foi descoberta com o espírito de humildade. Um saudável sentido do ego e de intolerância intelectual é crucial para conduzir a investigação."

"The Cosmic Code" (Heinz Pagels)


O autor cita, a propósito, a resposta de Einstein a alguém que recomendava um jovem físico por ser muito humilde: "Como pode ser humilde? Ele ainda não fez nada!"

Quando se fala em conquistas da ciência ou do espírito humano quer-se dizer isso mesmo. Há uma certa tensão envolvida, uma esperança, uma ilusão até sobre a importância do que se pretende alcançar que são o oposto da "equanimidade" e da falta de ambição do espírito humilde. Alguma vaidade talvez seja necessária aos grandes empreendimentos, mas que na arte é visível e altera a forma.

Também é por isso que a grande literatura e a grande música requerem um estado de pureza próximo da santidade (como queria Simone Weil).

Einstein, depois do seu "anno mirabilis", podia ser humilde. É mais um louro na sua coroa de glória.

quinta-feira, 16 de julho de 2009


(José Ames)

A REESCRITA DO PASSADO



"A reescrita do passado é dinâmica, virada para o futuro. Tem como função dar sentido ao presente, oferecendo um ponto de mira invejável a uma comunidade com razões para duvidar do seu porvir. É por isso que cada um dos episódios das Escrituras (cuja redacção se estende por sete ou oito séculos) fala a linguagem do século em que foi escrito, e não a do momento em que supostamente ocorreu."

"Deus, um itinerário" (Régis Debray)


Não é a história, portanto, que melhor dá conta do passado real (seria preciso uma arqueologia da imaginação), mas a literatura.

Segundo Debray, a reescrita do passado "não procede de uma vontade de enganar, nem do simples talento de efabulação (apesar das baleias e das trombetas…), mas de um instinto de conservação: a imaginação do grupo tem de retrabalhar a realidade, para não se cair na desesperança, ou no absurdo. Vale mais mentir a si próprio, para não morrer."(ibidem)

Staline, na sua maneira abrupta, ao apagar Trotski e outros revolucionários das fotografias oficiais, terá percebido isso, e era só preciso que a pátina do tempo selasse o seu "gesto escritural" para que a Revolução tivesse uma nova origem, mais consentânea com as aspirações do ditador.

Orson Welles dizia que o cinema é montagem. A memória dos povos também.

quarta-feira, 15 de julho de 2009


Taormina (José Ames)

DESINIBIÇÃO


Máscara Luba, Congo


"A existência de 'fiel' do barão, vivendo, por causa de Charlie, apenas no pequeno clã, tinha tido, para quebrar os esforços que ele fizera durante muito tempo para manter uma aparência enganosa, a mesma influência que uma viagem de exploração ou a permanência nas colónias em certos europeus que aí perdem os princípios directores que os guiavam em França."

"La Prisonnière" (Marcel Proust)


Com isso, Charlus acabou por se familiarizar com a sua anomalia, "ao ponto de já não se aperceber que não podia sem perigo confessar aos outros o que acabara sem vergonha por confessar a si próprio."

Não sei se, a propósito deste abandono inconsciente da "máscara", podemos falar em mudança de personalidade. Afinal, todos os esforços para manter uma aparência de virilidade não podiam esconder ao observador preparado a natureza profunda. É o narrador que, no primeiro encontro, confunde a atenção apaixonada com o olhar dum louco ou de quem o pretendia, talvez, assaltar.

Mas a personalidade é, até certo ponto, uma escultura social.

A experiência que todos podemos comprovar duma certa desinibição quando estamos no estrangeiro é, ao mesmo tempo, uma libertação e a falta dum apoio, o princípio de um desmoronamento.

terça-feira, 14 de julho de 2009


(José Ames)

O PROTECCIONISMO


Os Everglades do sul da Florida


"Se formos honestos, então, o argumento de que o comércio leva ao crescimento económico, o qual leva à alteração climática, conduz-nos a uma única conclusão: deveríamos cortar os nossos laços comerciais para termos a certeza de que os chineses, os indianos e os africanos continuem pobres. A questão é se qualquer catástrofe ambiental, mesmo uma severa mudança climática, poderiam infligir o mesmo terrível custo humano quanto manter três ou quatro biliões de pessoas na pobreza. Fazer essa pergunta é responder-lhe."

"The Undercover Economist" (Tim Hartford)


Hartford desmonta todos os argumentos contra a liberdade do comércio mundial, e é difícil não estar de acordo com ele, sobretudo quando parece haver, para usar uma imagem conhecida, uma mão invisível que faz com que, no final, todos fiquem a perder.

Veja-se o que se passou nos EEUU em 1998, quando os produtores de açúcar americanos receberam um subsídio de 1 bilião de dólares (metade dessa verba foi parar às mãos de apenas dezassete agricultores). Essa protecção da produção doméstica prejudicou os produtores de açúcar da Colômbia que tiveram de se virar para a produção de cocaína, com os efeitos desastrosos que se sabe sobre a saúde dos americanos e o aumento do crime e da corrupção. Hartford nem aos ambientalistas concede uma compensação. A produção subsidiada encoraja as formas intensivas de exploração, e o que se passou foi que a poluição química resultante da produção intensiva se tornou numa séria ameaça para os Everglades do sul da Florida.

Mas serão exemplos como estes suficientes para condenar todo o proteccionismo como contraproducente?

O apostolado de Hartford a favor do comércio sem barreiras parte da premissa de que há apenas uma espécie de desenvolvimento e que, por isso, é retrógrado, senão inútil, impedir quaisquer trocas comerciais.

Não estará, porém, a diversidade do planeta ligada a tempos diferentes e a caminhos diferentes, e a racionalização económica não será uma simplificação destruidora dessa diversidade?

segunda-feira, 13 de julho de 2009


Miranda do Douro (José Ames)

O PROGRESSO



"A maior ameaça ao progresso não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento."

"Cleopatra's nose" (Daniel Boorstin)


Somos tanto mais atreitos à ilusão do conhecimento quanto mais crentes nos tornámos no progresso. Sentimos que as coisas se movem cada vez mais rapidamente e gostaríamos de acreditar que esse é o movimento do progresso.

Mas fazem-nos falta as coordenadas essenciais para sabermos em que direcção vamos.

Será que, como nos diz Maggie Jackson, na nossa "ânsia duma conectividade virtual voraz, os outros se tornaram opcionais e a conversação uma arte perdida em vias de desaparecimento"? Como pergunta ainda a mesma autora, "pode uma sociedade sem foco profundo preservar o seu passado e aprender com ele?"

O alerta de Boorstin tem como axioma a bondade indiscutível do progresso, coisa que, por exemplo, Platão não admitia, e daí a utopia duma ordem imutável na sua perfeição. Mas hoje trata-se menos de uma assimptótica melhoria do que evitar o caos e a entropia duma sociedade cada vez mais complexa. E, se for assim, continuará esse nome a ser apropriado?

domingo, 12 de julho de 2009


(José Ames)

CONTINGÊNCIA


"A Origem do Mundo" (Gustave Courbet)


"O modo como os cientistas abordam o problema da origem do universo pode ser apreciado se imaginarmos a sala de audiências de um tribunal. A razão por que um julgamento é necessário nesta ramo da ciência é que só há um universo e que a sua criação é única. Os cientistas não podem ir lá fora testar a sua teoria no local, porque o acontecimento acabou. A origem do universo é como um crime que aconteceu no passado, que já não está a acontecer, e tudo o que os cientistas podem fazer é reunir provas apontando para o acontecimento e retirar as melhores conclusões possíveis."

"The Cosmic Code" (Heinz Pagels)


Isto, de qualquer modo, era o estado da ciência há vinte anos. Agora, discute-se se, em vez de um, não existem miríades de universos e evitar-se-ia, assepticamente, o uso da palavra criação.

Temos, porém, melhor do que a metáfora do pretório, com os advogados, defendendo cada um a sua causa e um juiz a decidir, juiz que poderá ser a comunidade científica e decisão que nunca transita em julgado, por bastar uma nova prova para a pôr em causa?

É claro que temos de chegar a conclusões, mesmo que provisórias. Sem isso, regressaríamos sempre ao ponto de partida e a nossa ignorância não seria produtiva. Porque não saber realmente, mas dispondo de uma teoria, é um progresso considerável em relação ao que não tem nenhuma ideia para falsificar.

Assim, a contingência quanto ao passado e à questão insolúvel por excelência, a da origem de tudo, é tão avassaladora quanto a contingência relativa ao futuro.

sábado, 11 de julho de 2009


Aquileia (José Ames)

OS CORDELINHOS DO FUTURO


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"'Hoje sabemos que, quer gostemos quer não, temos de viver sem grande confiança em prospectos seguros quanto ao futuro'. O seu ponto é mais propriamente que o geral reconhecimento de ignorância, insegurança e impotência não parece impedir o alastramento das reivindicações (às vezes extravagantes) do conhecimento acerca do futuro de aparecerem regularmente na lei e na política. Para Luhmann, as expectativas do poder profético e preditivo destes sistemas podem muito bem parecer necessárias às suas operações. No entanto, ele continuamente enfatiza que qualquer semelhança entre as tentativas para cumprir essas expectativas e o que futuro realmente reserva é pura coincidência."


"Theory of Politics and Law" (Michael King e Chris Thornhill)


Se todas as previsões cumpridas do futuro são simples coincidências, não são por isso menos necessárias. São teorias que nos permitem agir e organizar o sentido das coisas.

Porém, o reconhecimento da sua natureza hipotética devia levar-nos a abster-nos de modificar o presente com base em grandes perspectivas quanto ao futuro. O futuro a longo prazo devia permanecer utópico e não ser mais do que uma vaga aspiração da alma humana, isto se formos optimistas.

A lei da contingência de todas as nossas previsões do futuro é talvez a maior causa de decepção de que são motivo todos os políticos e governantes. O seu dilema é que precisam de apontar metas e de se comprometer com o futuro, mesmo que seja o próximo futuro. Como não podem existir tantas coincidências quantas as promessas, o seu destino é bem de lamentar, porque são julgados como se tivessem tido alguma vez nas mãos os "cordelinhos" do futuro.

sexta-feira, 10 de julho de 2009


(José Ames)

O RIO DO ESQUECIMENTO


"Vista de Delft" (Johannes Vermeer)


"Abateu-o um novo golpe e ele rolou do canapé para o chão onde acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto. Morto para sempre? Quem pode dizê-lo. Decerto que nem as experiências espíritas nem tampouco os dogmas religiosos trazem a prova de que a alma subsiste. O que se pode dizer é que tudo se passa na nossa vida como se entrássemos nela com o fardo de obrigações contraídas numa vida anterior; não há nenhuma razão nas nossas condições de vida nesta terra para que nos creiamos obrigados a fazer o bem, a ser delicados, a ser polidos até, nem para que o artista ateu se creia obrigado a recomeçar vinte vezes um trecho do qual toda a admiração que virá a excitar pouco importância terá para o seu corpo comido pelos vermes, como o pano de muro amarelo que pintou com tanta ciência e refinamento um artista para sempre desconhecido, apenas identificado sob o nome de Ver Meer."

"Sodome et Gomorrhe III" (Marcel Proust)


Esta ideia é toda platónica. Er, descido aos Infernos, presencia a cerimónia da escolha pelas almas do saco com a sua vida futura (sempre a mesma). Uma vida que apesar de reincidente é vivida como se fosse a primeira vez por virtude da água do Letes.

Que a máquina do Inferno tenha sido deliberadamente utilizada para fins políticos não é novidade nenhuma. O medo das penas eternas é um freio poderoso em almas crédulas.

Mas a outra parte do díptico, a pedagogia da outra vida é mais obscura e não se confunde com a problemática do chamado "ópio do povo". O mito de Er da Panfília estará tão completamente ausente das nossas vidas como parece, ou representará ele uma das traduções possíveis dum fenómeno recorrente, mas secreto, na nossa cultura?

Donde nos vêm essas obrigações implícitas que ninguém nos transmitiu e que não podem ser todas explicadas pela "arte de viver" em sociedade? Será o desejo de glória um motivo suficiente para o artista de que fala Proust refazer vinte vezes o seu quadro?

Seja lá o que for a Humanidade, parece que temos de recorrer a uma ideia como essa para dar sentido a alguns comportamentos dos indivíduos. E a verdade é que os que viveram antes de nós são como que a nossa vida anterior. Pelo efeito da água do rio do esquecimento, todos os indivíduos de outras vidas são como um único e só indivíduo.

quinta-feira, 9 de julho de 2009


Terceira (José Ames)

VALORES


http://blog.vinde.org.br/up/


"Eu nada direi portanto além de que os valores emergem em conjunto com os problemas; que os valores não poderiam existir sem problemas; e que nem os valores nem os problemas podem derivar ou de qualquer outro modo ser obtidos dos factos, apesar de muitas vezes pertencerem a factos ou estarem com eles relacionados."

"The Unended Quest" (Karl Popper)


Deus não tem problemas, logo, segundo a tese de Popper, valores tampouco. E, evidentemente, só existem valores eternos na medida em que formos eternos, o que não é o caso.

Este método pode esclarecer, de facto, muita ambiguidade no nosso tempo de mediatização global. É verdade que através da eficiência e do alcance das comunicações, ninguém pode ignorar o que se passa nos antípodas, mas também é verdade que, na maioria dos casos, não se pode fazer nada, portanto, como diz o povo, "o que não tem remédio, remediado está". Existe um problema nos antípodas, mas não no meu mundo real, quando muito é um problema da minha consciência que não se pode facilmente desenvencilhar duma responsabilidade paradoxal.

Além disso, há problemas não resolvidos, que podem ser um obstáculo à vida enquanto não se encontrar uma solução, e problemas insolúveis ( como o da verdade sobre o Universo ), com os quais vivemos à custa duma solução simplesmente credível ( o Big Bang ), ou ilusória.

Os valores que emergem com os problemas são o quê em relação a uma solução? Será simplificar demasiado dizer que o valor do que podemos fazer para minorar o sofrimento à nossa volta depende da eficácia da nossa acção, mas que perdermos o apetite por causa das imagens da miséria no mundo não tem qualquer valor?