terça-feira, 9 de janeiro de 2018

PAIDEIA



"Visto que, à excepção da justiça, se atribuiu a cada uma das quatro virtudes cardeais da antiga política o respectivo lugar dentro do Estado, pela sua localização numa classe especial da população, já não resta à justiça nenhum lugar especial nem classe nenhuma da qual seja património; e então surge intuitivamente perante o nosso olhar a solução do problema: a justiça consiste na perfeição com que cada classe dentro do Estado abraça a sua virtude específica e cumpre a missão especial que lhe cabe."
"Paidéia" (Werner Jaeger)

Percebe-se como a educação, no sentido da paideia, podia ser a chave do Estado perfeito. Tal como Marx e Lenine falavam num deperecimento do Estado, abolidas as classes, em favor da administração geral das coisas, Platão parece advogar o mesmo efeito sobre o Estado duma eficiente educação de cada classe na virtude que lhe é própria. Contudo, a experiência mostrou, contra os primeiros, de que longe de estar confinado à violência exercida sobre as classes dominadas, o Estado incorpora necessariamente a violência da sociedade sobre o indivíduo e, em vez do seu deperecimento, assistiu-se a um reforço do Estado e da burocracia, mesmo nos países onde, por outras razões, sempre se defendeu uma redução drástica do Estado.

O que vale hoje esta ideia da educação no sentido platónico? Se a interpretação de Jaeger está correcta e esta ideia nunca teve, no espírito de Platão, um alcance político directo, mas se aplicava à alma individual e a uma filosofia de vida, ela deixa de nos parecer absurda e contrária ao adquirido pelas ciências sociais e torna-se numa luminosa imagem do homem socrático, cujas forças e instintos, educados na "ginástica e na música", libertam a razão do seu papel de "cocheiro" para se dedicar à "contemplação da verdade".

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

(José Ames)

O EU INESGOTÁVEL

Joseph Vissarionovitch Djougachvili

"O caso, para o formular claramente, com certa dureza e sem nos limitarmos mais ou menos segundo os indivíduos, é que lhes faltavam duas coisas: pelo alto, a ciência e a filosofia; pelo baixo, o instinto popular. A filosofia que constantemente atestavam, o povo de que estavam sempre a falar, eram-lhes bastante estranhos. Viviam dentro de uma certa média, abaixo da primeira e acima da outra. Esta média era a eloquência e a retórica, a estratégia revolucionária, a táctica das assembleias. Nada afasta mais da alta luz que há na filosofia, da fecunda e calorosa vida que há no instinto do povo."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Michelet refere-se, evidentemente aos jacobinos. Os mais influentes dentre eles, jornalistas como Desmoulins e advogados como Robespierre. Filhos tardos de Rousseau, quanto à retórica, mas com o génio desconfiado e tortuoso dos jesuítas.

"Esta hipocrisia manifesta, esta denúncia sem provas, esta personalidade espantosa, este inesgotável eu que por toda a parte se encontrava nas suas palavras de chumbo, eram bem capazes de, com o tempo, esfriar os mais calorosos amigos de Robespierre."

No princípio do século XX, na Rússia, uma outra intelligentsia, já sem as recaídas românticas no eu, mas igualmente acima do povo e interpretando a sua vontade, seguiu as pisadas dos jacobinos. Começou pela filosofia alemã e acabou na inquisição de Joseph Vissarionovitch Djougachvili. Contudo, a história não se repete, nem como farsa. Há só uma mesma tragédia que resulta de se interpretar a chamada vontade do povo. Pois mesmo que, conjunturalmente, o povo pareça identificar-se com um indivíduo, a sua "vontade" é coisa que não pode ser interpretada.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Angra do Heroísmo 

UM URINOL NÃO É UM URINOL

"Fountain" (1917-Marcel Duchamp)

"A situação é diferente se os ready-made manifestam os desejos escondidos dos artistas, os seus rituais inconscientes e as suas fixações fetichistas. Neste caso, o espaço profano deixa de ser homogéneo, para se tornar o domínio da expressão do inconsciente.

(...) Não se estava a ver de que maneira o método de Duchamp em geral podia ser continuado. As diversas teorias do inconsciente, muito particularmente o estruturalismo e mais tarde o post-estruturalismo, acabaram por indicar a via."

"Du Nouveau" (Boris Groys)


Este caminho continua a permitir que qualquer objecto retirado do espaço profano (por oposição ao espaço da cultura) seja transformado em arte, pelo simples efeito duma legenda. Quanto maior for a distância entre esse objecto quotidiano e o seu comentário, mais se justifica a invocação do inconsciente e, logo, duma originalidade "compulsiva".

Quando Maigritte representou numa das suas telas um cachimbo para negar que fosse tal na legenda, criou um outro precedente que pode ser aplicado ao ready-made. Porque basta recusar a um objecto o nome do seu uso, para se criar um artefacto que passa a corresponder à definição estética da inutilidade e da ausência dum fim.

Mas é certo que isso nos levaria aos impasses de Duchamp. Não se poderia distinguir a minha denegação da de qualquer outro.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

"Dead leaf" (José Ames)

SIMPLIFICAÇÕES

http://hugues-bazin.recherche-action.fr/2006/12/06/complexite/

"Os sistemas complexos são incapazes de completamente apreender a sua própria complexidade (...). Eis por que, nos sistemas complexos, todas as operações são dispostas de maneira redutiva, e isso tanto relativamente à sua própria complexidade como à do seu ambiente. (...) Cada auto-observação e cada auto-descrição deve desde logo assentar sobre uma auto-simplificação."

"Politique et Complexité" (Niklas Luhmann)

Observo-me porque não me conheço. Mas as informações que recolho correspondem a uma selecção em função duma teoria simplificadora sobre mim próprio. Só essa redução pertinente da complexidade me permite comunicar com o meio ambiente sem nele me dissolver.

Luhmann diz mais, que "quanto mais rico for o equipamento semântico da auto-observação, mais o sistema pode fazer depender as suas operações internas dos acontecimentos exteriores aos quais ele deve tratar como relevando do acaso (...)"

Está aqui esboçado um esquema de interacção entre dois sistemas. Vemos, assim, que quanto maior for a informação dum sistema sobre ele próprio (e não necessariamente num sentido realista), mais está em condições de se abrir ao meio envolvente. Mas também que deverá abdicar de compreender o outro sistema (ou o seu meio ambiente) como dotado duma lógica. Em relação aos outros a teoria do acaso é a que mais se assemelha à da própria complexidade.

Claro que a psicologia constantemente infringe esta regra, e não podia ser de outra maneira.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Castelo do Queijo 

A ARTE INSTANTÂNEA

(Kasimir Malevitch)


"Aqui, Malevitch envia-nos para a tradição cultural valorizada da contemplação mística, para o platonismo e o seu amor pela geometria, como para o ícone cristão. Assim, a grande tradição cultural, que em Duchamp permanecia em plano de fundo, encontra-se em Malevitch no primeiro plano. Mas, ao mesmo tempo, o "Quadrado Negro" de Malevitch é uma figura geométrica profana que remete em primeiro lugar para o mundo profano da técnica, das construções técnicas e da produção de massa estandardizada; por outras palavras, é igualmente um ready-made."
"Du Nouveau" (Boris Groys)

Portanto, uma intrigante ausência de "valor acrescentado", do ponto de vista da capacidade técnica e da criatividade artística que é característico de tanta pintura moderna, como justamente aquele quadro de Malevitch ou a obra de Rothko, quando comparada, por exemplo, com a tradição clássica, cujo nível técnico era difícil de alcançar, compreende-se à luz do gesto inaugural de Duchamp que, pela simples descontextualização do objecto profano acedia ao valor artístico.

É que, de facto, dentro deste espírito, não é importante o trabalho a que o artista sujeita as formas, seja deformando a "Mona Lisa" ou entregando ao acaso mecânico a modificação duma obra consagrada ou de qualquer objecto do mundo 'profano'. O caso é que este objecto já está pronto (ready-made) para receber o estatuto de obra de arte, pela pura intenção do artista.

Toda essa cultura teria redundado numa grande insignificância e na desvalorização geral da arte se não se tivesse que se medir com aquilo a que Groys chama de arquivo cultural (de que fazem parte, por exemplo, os museus e as bibliotecas).

"A cultura é já sempre uma hierarquia axiológica. Todo o acto cultural ratifica ou modifica esta hierarquia. (...) Obras de arte e teorias são comercializadas no mercado conformemente ao valor que lhes é atribuído pelos acontecimentos culturais."

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

(José Ames)

DESFAÇATEZ SNOBE

http://platea.pntic.mec.es/cvera/exfrances

"Quem quer que o conhecesse teria ficado tão surpreso como eu. A gente mundana de bom grado se dispõe a falar calão, e aqueles a quem se pode censurar certas coisas, a mostrar que não receiam falar delas. Prova de inocência aos seus olhos. Mas essas pessoas perderam a escala, não se dão conta do grau a partir do qual um determinado gracejo, se tornará demasiado especial, demasiado chocante e será uma prova mais de corrupção do que ingenuidade."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Este tipo de audácia, ou de descaramento, é a confirmação de que podemos moldar o interior pelo exterior.

Já Platão queria banir da sua utopia a imitação de certos estilos orientais na poesia e na música, por causa do seu efeito desmoralizante sobre os guardiões da cidade.

O próprio pode deixar de pensar na contradição e só um observador alertado que possa comparar essa atitude com os actos que a contradizem não cairá no logro.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

(José Ames)

A DEMOCRATIZAÇÃO DA ARTE



"Enquanto a massa se volta para aquilo que é reconhecido como tendo valor cultural e, do mesmo passo, o desvaloriza, a estratégia própria à economia cultural consiste em compensar essa desvalorização dos valores culturais pela valorização do que é destituído de valor. É por isso que a valorização do que é destituído de valor é tanto um sinal de democratização da cultura quanto de resistência a essa democratização."
"Du Nouveau" (Boris Groys)

A partir do momento em que o consumidor de arte pode dizer: "Isto também eu fazia!", com o que culmina realmente a democratização, tanto na produção como no consumo de arte, parece evidente que não existe um valor intrínseco, escondido nas obras de arte que se trataria de decifrar ou revelar.

Groys diz também que "a pretensão de uma actividade criadora espontânea a partir do nada parece ingénua." Quer dizer, que o acervo histórico das obras de arte, todos os museus e bibliotecas, são, cada vez mais conscientemente, o necessário ponto de partida para a inovação. Situação que nos faz pensar na antiga escolástica, quando a citação e o comentário do comentário eram tudo quanto se podia esperar em termos de originalidade.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

(José Ames)


A FÉNIX SEM MEMÓRIA

(Buda gigante de Bamyán)


"Tomemos como exemplo os primeiros cristãos. Eles abandonaram a cultura pagã e foram para os desertos, para o espaço mais profano da sua época. Esta partida pode ser interpretada como uma destruição simbólica da cultura. No fundo, o eremitismo cristão é uma inovação que revaloriza o profano e desvaloriza os valores estabelecidos."

"Du Nouveau" (Boris Groys)

A gruta dos eremitas vai adquirir "mais valor do que os valores mais antigos. No decorrer do tempo, constroem-se nesse lugar igrejas cada vez mais sumptuosas, ornadas de frescos e de oferendas votivas. Mas são sempre as relíquias do santo homem que constituem o maior valor, assim como um pequeno número de coisas simples, quotidianas que ele utilizou - o ready-made da sua santa vida, se quisermos."

Os talibãs que destruíram os Budas gigantes de Bamiyán não acabaram com uma real ou suposta idolatria, apenas transferiram o valor dessas estátuas para a cultura kitsch do proselitismo islâmico. E se tivessem "world enough and time", no próprio lugar da destruição, simbólica ao mesmo tempo que real, veríamos erguer-se o templo ou o museu dos novos valores.

Por muito crua que nos pareça esta "transvaloração", se pensarmos no que o Cristianismo fez aos mais belos templos pagãos, alguns dos quais sobrevivem como cativos, sob a forma de uma coluna e do seu capitel, integrados na nave da catedral, concluiremos que a história não nos conta outra coisa.