sexta-feira, 30 de setembro de 2016

(Amarante)

SOLIDÃO


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"Qualquer que seja a sua força comunicativa, o pensador proeminente está condenado à solidão: 'Allein zu sein / Und ohne Goiter, ist der Tod.' A solidão sem Deus é a morte. Nem mesmo o ser humano que mais amamos pode pensar connosco."

(George Steiner)

Mas pensar, na sua mais elementar expressão, também não nos poupa a esse destino. Não é por acaso que muitas pessoas preferem não pensar para não sairem do conforto de 'pensar' com os outros, isto é, de se conformarem com o ser superior que é o povo, a nação ou o Deus da sua religião. E sabemos como até um partido pode chamar a si todos os títulos dessa superioridade.

Ninguém procura conscientemente a solidão. Mesmo o eremita 'conversa' com o seu Deus, e o poeta mais inspirado tem a sua musa, ou seja o que for. Todo o nosso ser é a negação do solitário ideal. O mais fisicamente só vive numa comunidade do espírito que pode ser formada por outro 'solitário' como ele, pertencendo, ou não, ao mundo dos vivos.

Comte dizia que pensamos com a comunidade dos mortos. Limita-se geralmente essa pertença aos fenómenos da cultura. Mas vai muito para além disso. É do ser que se trata e não de folclore televisivo, nem de simples memória.

Não, 'directamente', não podemos pensar com aqueles que amamos. E é verdade que a dois nem sequer conseguimos compreender uma conta de somar, como alguém já disse. É preciso o desvio pelo que não tem nome, porque não tem parte no nosso mundo 'acabado', perfeito como é, ao ponto da robótica já prever o nosso futuro exílio.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

(José Ames)

A FERA NA SELVA

Henry James em Talland House, 1894

Uma das mais extraordinárias novelas que conheço é "A fera na selva" de Henry James.

May Bartram seduz John Marcher como uma parca (embora o autor não o diga, parece que não teria podido seduzi-lo fisicamente), inspirando-lhe o segredo de que ele já se tinha esquecido "de estar destinado a qualquer coisa rara e estranha, talvez prodigiosa e terrível, que mais tarde ou mais cedo viria ao seu encontro."

Ele confessara-lhe essa crença, num encontro sem consequências, em Nápoles. Quando se reconhecem, dez anos depois, em Weatherend, ela fá-lo recordar esse segredo.

A partir daí a sua vida torna-se realmente mais interessante, sem que qualquer deles admita pelo outro um sentimento mais forte do que essa amizade, da parte dele oportunística.

Quando May morre alguns anos depois, a fera ataca-o no cemitério, diante do espectáculo da dor dum desconhecido que, na campa ao lado, chora a sua companheira.

"A paixão nunca o tocara, pois era isto que a paixão significava; sobrevivera balbuciando e lamentando-se, mas onde estavam as chagas da dor? A coisa extraordinária de que falamos foi a descoberta repentina da resposta a esta pergunta."

May alimentara-o, na sua própria espera, com a imagem de si próprio, mas, na sua aridez, ele não precisava de mais nada.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

(Lisboa)

ÁJAX



Albert Einstein era claro quanto a uma responsabilidade colectiva do povo alemão pelos crimes do nacional-socialismo. Em carta a James Frank, em 1945, dizia que a presença de alguns 'melros brancos' não devia atenuar esta condenação.

Não sabemos até que ponto a filosofia alemã em geral e o hegelianismo em particular não estão por detrás, mesmo num homem como Einstein, desta noção de um sujeito da história e de uma responsabilidade colectiva cuja incarnação o autor da Fenomenologia via no Estado alemão do seu tempo. Mas o seu famoso 'Espírito' parece bem limitado, quando se olha para a monstruosa prole da segunda guerra mundial.

A questão da 'responsabilidade colectiva' está cheia de ambiguidades e é até insolúvel quanto a mim. Mesmo no caso de uma democracia, de haver um voto explícito num líder ou num regime (sabemos que Hitler chegou ao poder através de eleições, embora, numa atmosfera política muito condicionada pelos métodos e pela propaganda do extremismo político), só por irracionalismo consensual se pode dizer que a escolha foi livre e consciente das consequências.

E, no entanto, temos de 'postular' algum género de responsabilidade colectiva, para que o sistema seja credível.

Verdadeiramente, a situação do herói que se castiga a si mesmo, 'perturbado pelo deus hostil', tão característica do teatro grego, ainda esclarece melhor do que o pseudo conhecimento do futuro e das consequências da nossa acção a questão da responsabilidade colectiva.

É assim que Ájax, o herói de Salamis, provoca uma chacina nos rebanhos gregos, julgando lutar pela vida...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

(José Ames)

COMUNICAÇÃO

(Jürgen Habermas)


"O 'sim' e o 'não' dos actores que agem de modo comunicacional é tão predeterminado pelos contextos linguísticos e tão influenciado pela retórica que as anomalias que se manifestam nas fases de esgotamento já só se apresentam como sintomas de uma vitalidade evanescente, como processos do envelhecimento, como processos análogos aos naturais e não como consequência de soluções erróneas de problemas e como respostas 'inválidas'."
(Jürgen Habermas)

Qual a importância desta ilusão de racionalidade? Se as coisas 'funcionam', digamos assim, que benefício pode advir de 'pôr as coisas no seu lugar' e catalogar de erro as 'soluções' encontradas, em vez de naturalizar a falência dessas soluções, ou seja, qual é a vantagem de 'prever' um esgotamento pela lógica do certo e do errado, ou de esperar esse mesmo esgotamento 'naturalmente'?






segunda-feira, 26 de setembro de 2016

(Lisboa)

A RAZÃO E OS DEMÓNIOS


(Francisco Goya)


"(...) porque o irracional pode ser coerente com ele mesmo, com os seus axiomas implícitos;"
(Paul Veyne)

Entre as 'racionalidades', Veyne inclui a irracionalidade, porque se a razão pode ser plural, basta que a irrazão seja lógica para ser admitida no santuário apolíneo.

Então, a loucura deixa de ser a maldição antiga que excluía o indivíduo da humanidade e que, na mitologia, era muitas vezes o sinal de um favoritismo dos deuses. Só se lhe pede que seja 'maníaca', isto é, de uma lógica 'à outrance'.

O parentesco deste 'destronamento' da razão com o fim do antropocentrismo (do primeiro grau, por assim dizer) é evidente. O homem racional torna-se um homem de racionalidades em que o oposto da razão, outrora parte do paradigma, é absorvido pela pluralidade do sentido.

Poder-se-á ainda falar de uma Razão universal? E qual poderá ser a nova metafísica que sustente este Babel 'legislativo?

domingo, 25 de setembro de 2016

(José Ames)

O PRÍNCIPE




Luchino Visconti (1906/1976)


Visconti não confiava no talento do actor. Queria que fosse exacto. 

Como no caso da decoração do palácio Ponteleone, de "Il Gattopardo", em que os pratos deviam sair da cozinha a fumegar e as flores, trazidas todas os dias, de avião, de San Remo, tinham de ser frescas, o actor tinha de ser autêntico. O corpo não podia simplesmente representar. 

Um dia, Visconti convocou Renato Salvatore para se maquilhar às 7 da manhã e fê-lo esperar até às 8 da tarde. Obteve o estado de exasperação que precisava para a cena de "Rocco". 

No ensaio da célebre cena do baile, Burt Lancaster não foi mais bem tratado. Doía-lhe o joelho e a cena ia mal. Quando Luchino se apercebeu, pôs-se aos berros e disse-lhe que "não era nada consigo essa história de "divo" (Burt era uma star no seu zénite) e da entorse que tinha arranjado só porque ainda tinha a pretensão de se armar em jovem desportista." 

("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano) 

Veja-se o que o cineasta diz de si próprio: 

"(...) Os actores mais inteligentes compreenderam por que é que eu queria em cena coisas verdadeiras, precisas, exactas. Criou-se a meu respeito uma lenda, a do encenador insaciável, terror dos empresários e dos directores de teatro. Existe sobre o cuidado que tenho na montagem dum espectáculo, uma montanha de anedotas divertidas, mas falsas." (ibidem) 

Bem vistas as coisas, esta obsessão em imitar a vida é muito pouco teatral e a maior parte do cinema corre noutra direcção.

Mas isso é o que cada criador traz à arte: o que não existia antes dele.

sábado, 24 de setembro de 2016

(Lisboa)

O SONAMBULISMO



"Ah, o facto de não te teres apercebido de nada", aqui ela pareceu hesitar por um instante - "o facto de não te teres apercebido de nada é o estranho do estranho. É o mistério do mistério."
"A fera na selva" (Henry James)

Marcher não adivinha nos silêncios de May o que ela não lhe podia dizer (que o amava). Mas o que estava para acontecer, o destino que ele esperava e que ela concebera como um filho, já tinha acontecido.

E Marcher sem compreender ainda, sempre à espera que o grande perigo desse um sentido à sua vida e que, por isso, tinha que se lhe dar a conhecer.

É a melhor ilustração da ideia de que se pode falhar a vida, por não nos precavermos contra o tempo, que a certa altura nos falta, e por adormecermos no hábito que amamos sempre de mais.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

(José Ames)