quinta-feira, 20 de julho de 2017

(Dubrovnik)

A CRIAÇÃO DO NADA

http://sergecar.club.fr/Dessins/foi.jpg

"Segundo uma expressão na moda, inventada como para sublinhar a indiscrição do empreendimento filosófico, ela (a filosofia) é desvelamento. Como, então, tratar enquanto filósofo de uma noção que pertence à intimidade de centenas de milhares de crentes, o mistério dos mistérios da sua teologia e que, depois de quase vinte séculos, reúne os homens e as mulheres com quem partilho o destino e a maior parte das ideias, à excepção precisamente da crença de que é questão esta noite?"

Emmanuel Lévinas (numa conferência realizada em Paris, em Abril de 1968)

O facto das opiniões sobre a religião se dividirem de forma tão marcada, entre crentes e não crentes, é, sem dúvida, um fenómeno de redução da complexidade, como lhe chama Niklas Luhmann.

De facto, a nossa capacidade de crença é mobilizada a todos os instantes e horas e pelas mais insidiosas formas, sem disso nos apercebermos.

Cremos, porque o contrário disso seria, por exemplo, sermos mal educados, termos mau feitio ou ser do contra (o que é também uma crença).

O que mais impressiona no fenómeno da crença colectiva, tão íntima e tão misteriosa, como diz Lévinas, para ser dissecada como um preconceito ou uma ilusão, é a realidade transcendente que faz aparecer no mundo.

E são tão reais os sentimentos, os movimentos e as acções que inspira são tão concretos e efectivos que a história demasiado ingénua que às vezes está na origem do fenómeno é o que menos importa.

Pode-se até fazer fé em quem por natureza não pode ser responsável, nem merece credulidade.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

(José Ames)

QUEBRA DE ETIQUETA



"Os Guermantes, ao mesmo tempo que viviam na fina flor da aristocracia, afectavam não fazer nenhum caso da nobreza. As teorias da duquesa de Germantes que, para dizer a verdade, à força de ser Guermantes, se tornava, numa certa medida, em algo de diferente e de mais agradável, punham de tal maneira acima de tudo a inteligência e eram em política tão socialistas que uma pessoa se perguntava em que parte do seu palácio se escondia o génio encarregado de assegurar a manutenção da vida aristocrática (...)"

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

A contradição da duquesa em "não acreditar nos títulos" e ao mesmo tempo manter o mais selecto dos salões e se referir ao seu próprio marido, perante os domésticos, como o senhor duque, só é possível porque as ideias políticas só mudam o mundo quando estamos dispostos a por elas "abandonar pai e mãe".

Numa sociedade regida pelas boas maneiras, como dizia Alain, pensar é já uma ofensa. Porque o pensamento põe tudo em causa, mesmo as boas maneiras, podendo fazer de uma chapelada um simples cumprimento a outro chapéu (Pascal).

Não se pode pretender que a inteligência está acima do resto sem romper a etiqueta. Mas a duquesa tinha alcançado, graças ao seu snobismo implacável e a algum talento natural, o estatuto de original.

As ideias em que dizia acreditar faziam parte dos seus dotes sociais. Nela, a contradição tornava-a ainda mais apreciada.
Porém, de facto, não pensava. A inteligência e o "espírito" eram apenas uma linguagem entre outras.

terça-feira, 18 de julho de 2017

(Entroncamento)

CONTROLO REMOTO



"O discurso de Sócrates na "Apologia" é um dos seus exemplos maiores (da persuasão na política), e é contra essa defesa que Platão escreve o "Fédon", uma "apologia revista", que considera, com ironia, "mais persuasiva", uma vez que é rematada por um mito do Além, que inclui castigos e recompensas materiais, sendo calculado de modo a assustar, mais do que a simplesmente persuadir os auditores."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

Conhece-se a descendência desse mito na religião cristã. Platão era pessimista, segundo Arendt, por ter sofrido a desilusão de ver um homem como Sócrates falhar na sua tentativa de convencer os seus juizes.

Não sei se a ideia do Inferno contribuiu para fazer melhores cidadãos, mas se vigorou por tantos séculos é porque era, de algum modo, necessária. E o facto do Inferno ter, aparentemente, fechado as portas, deve levar-nos a pensar, não que nos livramos de uma superstição útil, por nos termos tornado melhores, mas porque estamos muito mais organizados e funciona um outro tipo de controlo.

Pensemos só no exemplo da pulseira electrónica que encerra o detido numa prisão virtual. Ela é muito mais eficaz do que o medo da condenação às chamas eternas que devia ser sujeito a alguns lapsos de vigilância por incúria, sono ou embriaguez.

Com a pulseira realmente "Deus" não dorme.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

(José Ames)

DEPOSTA EVIDÊNCIA

http://europa.eu/scadplus/images/

"Chegou-se assim a uma pesquisa científica extremamente rica em resultados que se contenta cada vez mais com legitimar o seu método pelos seus sucessos, sem se questionar sobre o que acontece a esses domínios do saber nos quais essa certeza intersubjectiva não pode ser atingida, nem sobre o sentido geral de se ter de tomar como critério de verdade a certeza intersubjectiva em substituição da evidência que se alcança através de uma longa familiaridade."

"La Confiance" (Niklas Luhmann)

Pensar a certeza intersubjectiva, como critério de verdade, significa fazê-la depender da linguagem. Mas por essa via podemos chegar a um acordo a que não corresponda, de facto, um mundo, uma realidade objectiva. Contudo, isso não impedirá esse acordo de ter efeitos práticos e de criar uma nova realidade.

Estamos condenados, por isso, a modificar aquilo que vemos e pensamos, sem nunca atingirmos as coisas tal como elas seriam sem a nossa interferência.

Admitindo, porém, que há qualquer coisa como a experiência intuitiva, pré-verbal, que dá lugar a um outro tipo de certeza, ao abandonarmos a evidência como critério, talvez tenhamos perdido uma dimensão essencial.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

(Porto)

REGRESSO A LILLIPUT





"Na mentalidade primitiva aparecem o sujeito como existente e o verbo ser como activo e transitivo. O mundo para o primitivo nunca é dado, mas é como uma esfera anónima que se parece muito com o anonimato angustiante da existência ainda não assumida por um sujeito."

"Lévy-Bruhl et la philosophie contemporaine" (Emmanuel Lévinas)

O sujeito constrói-se e redimensiona o mundo. É uma experiência de todos o efeito que produzem em nós os lugares da infância, as casas e as ruas como as sentíamos confusamente, ainda não decididamente objectivas e mensuráveis, quando, como adultos, voltamos a vê-las e a percorrê-las.

Podia-se falar aqui no efeito de Lilliput. Como Gulliver, temos o ponto de vista do gigante.

E é claro que essa indistinção do mundo podia ser angustiante por não sabermos pô-lo à distância.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

(José Ames)

QUESTÕES DE MÉTODO



GWF Hegel (1770/1831)




"Mais importante é aqui o facto de que a dialéctica só poderia começar a desenvolver-se como método depois de Marx a ter despojado do seu conteúdo substancial efectivo. Em nenhuma outra parte a aceitação da tradição, acompanhada de um concomitante esvaziamento da sua autoridade substantiva, se pagou mais caro do que na adopção por Marx da dialéctica hegeliana. Ao transformar a dialéctica num método, Marx desembaraçou-a desses conteúdos que a haviam mantido dentro de certos limites e ligada à realidade substantiva. Fazendo-o, Marx tornou possível essa espécie de pensamento em termos de processo tão característico das ideologias do século XIX e que teria por desfecho a lógica devastadora dos regimes totalitários cujo aparelho de violência não se submete a quaisquer imposições da realidade."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

De facto, a ideia de processo derivada do hegelianismo e que se pode aplicar, por exemplo, à História, não é bem um pensamento. É decerto uma lógica, com o seu encadeamento, e que, como toda a lógica, pode prescindir completamente da experiência. A realidade nunca pode desmentir a lógica, visto que ela é perfeita no fechamento sobre si própria.

Arendt diz que o método, como critério da verdade, significa considerar "a cultura, a política, a sociedade e a economia no interior de um contexto funcional, (...) que pode ser tornado objecto segundo esta ou aquela perspectiva arbitrariamente assumida."

Isto equivale, como se sabe, ao conceito de sistema que é uma das palavras-chave da política moderna e que, tanto marxistas como não-marxistas, utilizam nas suas análises, nem sempre reconhecendo a sua origem.

Não há dúvida que aplicar a ideia de processo supõe que conhecemos o "movimento" da realidade (tese, antítese e síntese), e definir a complexidade política ou económica como um sistema é o mesmo que pensar ter dado a volta a essa realidade, tê-la distinguido do seu meio ambiente e conhecer as leis gerais por que se rege (ou pensar que estão ao nosso alcance, como o mecanismo do relógio a que levantamos a tampa).

quarta-feira, 12 de julho de 2017

(Bombarral)

O HOMEM QUE ACORDOU KANT

David Hume (1711/1776)


"Creio que a explicação reside largamente numa acusação que foi feita a Hume, com algum justiça, a saber que a sua filosofia era essencialmente negativa. O grande céptico, penetrado pela sua convicção de que a imperfeição de toda a razão e de todo o conhecimento humanos, não esperava nada de bom da organização política. Ele sabia que os grandes benefícios políticos, paz, liberdade e justiça, são por essência negativos, uma protecção contra os nossos erros, mais do que efectivos dons."
"Essais" (Friedrich Hayek)

Hayek comenta o pouco favor com que foram recebidas, no continente, as ideias de Hume, em comparação com as do seu hóspede de um momento, Rousseau.

Jean-Jacques era um poeta que sabia convencer não só a cabeça, mas também o coração. A ideia do bom selvagem, por exemplo, dava toda a força à crítica das leis e da tradição responsáveis pela corrupção dos homens. Era o estímulo necessário para a indignação moral e a nova religião da fraternidade. Esta filosofia parecia dizer: sejamos naturais e encontraremos a justiça e a concórdia.

Hume tinha outra ideia sobre a natureza humana e não desprezava as lições da experiência nem as da história dos povos. "Não era da bondade dos homens que ele esperava a paz, a liberdade e a justiça, mas de instituições que "punham no interesse de agir para o bem público mesmo os homens maus". Ele sabia que em política "todo o homem deve ser suspeito de ser um intrujão", se bem que, como acrescenta, "pareça um pouco estranho que uma máxima verdadeira em política seja falsa de facto".

Ora, o efeito do poder sobre mesmo o melhor dos homens é torná-lo digno da nossa suspeita, por estupidez, ambição ou, o que é ainda pior, por virtude (Saint-Just, um dos homens mais virtuosos da Convenção, distinguiu-se pela sua apologia do Terror).

Por isso, a filosofia negativa, ao impor limites que nenhum indivíduo ou organização podem ultrapassar preserva a liberdade de todos, poupando-nos os erros e as consequências da falta de consenso sobre as opiniões positivas.

terça-feira, 11 de julho de 2017

(José Ames)