quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

(Antas)

SEMPRE A ECONOMIA




"O seu capuchino reflecte o ponto de chegada de um sistema de espantosa complexidade. Não há uma única pessoa no mundo que consiga produzir o que é preciso para fazer um capuchino. O economista sabe que o capuchino é o produto de um esforço de equipa incrível. E não apenas isso, que não há ninguém responsável por essa equipa. O economista Paul Seabright recorda-nos a dificuldade que encontrou um certo funcionário soviético tentando compreender o sistema ocidental: 'Diga-me...quem é o responsável pelo fornecimento do pão à população de Londres?' A pergunta é cómica, mas a resposta - ninguém - é atordoante."

"The Undercover Economist " (Tim Harford)

Harford releva a  vertiginosa estranheza de um sistema que parece 'auto-regulado'. A economia 'tout court', especialidade dos economistas, os quais têm de sustentar uma visão coerente de como as coisas funcionam, através de modelos matemáticos, de técnicas estatísticas  e de teorias sociológicas sobre os contextos  e as  categorias sociais, etc, etc., têm os seus créditos estabelecidos por uma longa predominância da sua 'interpretação do mundo', uma interpretação que pretendem pragmática e, sobretudo, realista. Assim, é natural que não se interrogue excessivamente sobre os próprios fundamentos e seja particularmente cega quanto a qualquer sentido de estranheza.

Porque o que é racional, inteiramente racional, é a atitude do funcionário soviético ali referido. Há um inventor ou inventores para as novas máquinas e as organizações que tornam  possível a sua produção e distribuição têm um administrador ou um director técnico. A própria Revolução soviética é uma encarnação desse poder responsável, como o engenheiro à frente de um projecto competentemente elaborado. Essa é uma ideia esplêndidamente mecânica. Por isso, a incompreensão do burocrata perante uma auto-regulação obedecendo a uma finalidade racional explica-se facilmente, embora possa existir um erro calamitoso na base da sua percepção do mundo.

Mas os economistas do 'sistema ocidental' só se saíram bem enquanto a prova se cingiu à 'existência do pudim' que, como se sabe é comê-lo. Mas o abuso desregulatório de aumentar a dose de entropia do sistema  e de confiar cegamente na 'Mão Invisível' só lhes trouxe confusão e erro e levou-nos a todos à beira de outra 'implosão' atordoante.

Nem se pode dizer que o mundo esteja a ser bem interpretado. E os 'aprendizes de feiticeiro' não podem distinguir-se pela racionalidade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

(José Ames)

A SUPERFICIALIDADE


(Adolf Eichmann)


"Odeio aqueles que dizem obscuramente coisas claras. Odeio aqueles que dizem claramente coisas obscuras. E são os mesmos."
(Alain)

Hannah Arendt esclarece, no documentário que passou entre nós, nalgumas salas de cinema,  o sentido da expressão que agora passou a cliché de 'banalidade do mal'.

Essas  palavras, no contexto do julgamento de Eichmann, em Israel, referem-se ao carácter insidioso de uma metamorfose que não nos desperta em nenhum momento para o vácuo, fora da realidade, em que vivemos. É quase sempre uma 'atmosfera' colectiva que nos habitua, sem dramas, a viver sem precisar de pensar. Talvez todos nos comportássemos, nas mesmas circunstâncias, como aquele burocrata nazi. Não podemos dizê-lo. Com efeito, dizer que em todos existe essa potencialidade de destruir o ser humano, essa raiz de um inominável que escapa ao sistema da culpa e da punição, é retirar-nos a capacidade de julgar, ou sequer de identificar a causa ou as causas do genocídio. No entanto, essa incapacidade é coisa a que não é estranha a afirmação socrática de que 'ninguém é mau voluntariamente'.

O que o julgamento mostrou, aos olhos de HA, foi a inverosimilhança chocante de tentar diabolizar um humúnculo cheio de tiques e desnorteado por uma culpa esmagadora que  é incapaz de compreender. E HA releva aqui o ponto essencial: o burocrata carreirista da Gestapo não era capaz de pensar,  nem de 'parar para pensar'. Todos os seus actos manifestam a mesma percepção da realidade que teria, por exemplo, um viciado em drogas duras. O contexto que explica esse isolamento da realidade toma conta de todas as personagens do regime, depois de, por um lapso de tempo, ter absorvido as energias da nação, a sua cultura e a tradição do seu pensamento.

A banalidade está toda na superficialidade de um quotidiano sem contacto com a realidade. É esse o ambiente do mal arendtiano. Eichmann, nessa espécie de julgamento foi o 'bode expiatório'. Por muito que custe aos herdeiros das vítimas e que nos custe a todos, por assim ficar exposta a natureza perfunctória do sistema judiciário  (farsa é a palavra que não se pode pronunciar), o que esteve em causa naquele tribunal mediatizado para convencer o mundo de que se tinha encontrado o fio condutor da verdade e consagrado o povo judaico no seu papel sacrificial (o futuro iria demonstrar de que maneira o sionismo foi capaz de replicar a violência sobre um outro tipo de vítimas, sempre invocando as necessidades de segurança do novo estado) ia muito para além de todas as encenações e de toda a compreensão por via da psicologia ou da sociologia, dos exemplos do passado ou do presente. Talvez só a filosofia pudesse tentar compreender. Foi o que Hannah Arendt fez para incompreensão geral e fúria do seu próprio povo.




segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Interior (José Ames)

GRAÇA

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"Entre as perturbações do crescimento histórico, ao primeiro nível está a Graça: a Graça, sempre a par da Justiça, é o arbitrário - divino ou humano -, é o capricho, teocrático ou tirânico, oposto à regularidade da Lei natural (lei republicana). Este par, meio-moral, meio-vitalista, arrasta uma verdadeira dicotomia da História: tudo na História é Graça ou Justiça, Fatalidade ou Liberdade, Cristianismo ou Revolução. A História não é outra coisa senão o combate de uma e de outra, sucessão trágica de paragens e impulsos: a Síria, Alexandre, os Judeus, o culto de Maria, os Jesuítas, a Monarquia, Spinoza, Hegel, Molinos, Hobbes: a Graça, A Pérsia, a Grécia, os Valdenses, a Feiticeira, os Protestantes, Leibniz, Hoche, o século XVIII: a Justiça."

"Michelet" (Roland Barthes)

É mais razoável, no fim de contas, considerar a Justiça como um resultado (das boas leis, da boa organização) ou como algo de imprevisível e "caprichoso", arbitrário, como a Graça?
Seria mais razoável se o homem se explicasse pela Razão (ou pela falta dela). Mas tudo é novo e inesperado, troçando dos nossos planos individuais ou colectivos, pelo que a Graça podia ser outro nome para a Fortuna.

Mas como é preciso que o homem viva em sociedade, chamemos justiça a uma certa ordem (aquela que decorre automaticamente das instituições). E quanto à verdadeira justiça, a de homem a homem, atribuamos-lhe, como Michelet, o belo nome de Graça.

Para sermos justos, precisamos de algo mais do que a vontade.

domingo, 15 de janeiro de 2017

(José Ames)

AS VALQUÍRIAS DO PALAIS-ROYAL

(As Norns, origem das valquírias nórdicas)

"Eram precisas raparigas; não essa raça franzina que vemos nas ruas, próprias para confirmar os homens na continência. As raparigas que então se passeavam eram escolhidas, não será necessário dizê-lo, como se escolhem nos pastos normandos os gigantescos animais, florescentes de carne e de vida, que se mostram no carnaval. O seio desnudado, os ombros, os braços despidos, em pleno Inverno, a cabeça enfeitada de enormes ramos de flores, dominavam de alto toda a multidão de homens. Os velhos recordam-se, do Terror ao Consulado, de ter visto no Palais-Royal quatro loiras, colossais, enormes, verdadeiros atlas da prostituição, que, mais do que qualquer outra pessoa, carregaram o peso da orgia revolucionária."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)

Sente-se nesta descrição a carga genésica que o grande historiador atribui à Revolução. Mas escassos três anos decorridos após a tomada da Bastilha, o povo de Paris está exausto e desmoralizado pelos massacres. Os burgueses fecham-se em casa, amedrontados, perante os excessos da sua revolução. Marat sente o poder escapar-se-lhe das mãos assassinas e desabafa: "O enfado e o cansaço tornaram as assembleias inúteis".

Outras paixões, que não as da acção, tomam conta dos espíritos sobreexcitados, aos quais já só as sensações mais fortes dão o sentimento da vida. As valquírias do Palais-Royal parecem ocupar a cena, enquanto na "casa das máquinas" se preparam os silogismos do Terror.

Todas as revoluções conhecem esse momento de perigo em que se transformam numa engrenagem. O povo deu-lhes a amplidão oceânica, mas o recuo da maré põe a nu de que é feito o poder e como rapidamente se tem de articular e de crescer. O Terror apenas limpou terreno.

sábado, 14 de janeiro de 2017

(Aljustrel)

FISIOLOGIA DO PASSADO




"A nossa experiência passada não nos apresenta qualquer objecto determinado, e como a nossa crença, por mais ténue que seja, se fixa num objecto determinado, é evidente que a crença não provém apenas da transferência do passado para o futuro, mas de qualquer operação da fantasia conjugada com ela. Isto pode levar-nos a conceber de que maneira esta faculdade participa em todos os nossos raciocínios."

"Tratado da Natureza Humana" (David Hume)

Parece que Hume era uma das leituras favoritas de Luís XVI.
Assim, o seu espírito devia estar dividido entre as máximas jesuíticas, a consciência de rei (a razão de Estado) e a filosofia.

Mas é o filósofo escocês que nos explica que a herança das ideias e o que se experimentou e aprendeu no passado, com os mestres e as cerimónias destinadas a inculcar no indivíduo o espírito colectivo, não são simplesmente "transferidos".

A fisiologia e a imaginação dão-lhes um cunho pessoal, e se são vivas, nem por isso são menos indistintas lembranças do que foram.

Por isso, talvez que as hesitações do rei fossem fruto duma imaginação contrária a qualquer tipo de acção, que transformava as ideias em argumentos da indolência.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

(José Ames)

TALES

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"Tales dizia também, segundo Cícero, que tudo está cheio de deuses. Este geómetra não falava, certamente, ao acaso, devemos crer. Talvez que, observando a força destas diversas aparências da água, tão poderosas sobre os sentidos, quisesse relacionar o politeísmo abstracto com o fetichismo da natureza, tão durável quanto o espírito."

"Abrégé pour les aveugles" (Alain)

Diz o filósofo que todo o homem contemplando o mar, abstraído de tudo o resto, encontrará o mundo primitivo, informe mas, em breve, povoado de deuses - porque eles são já um esboço de ordem. Proteu, nas suas diversas aparências, movediço como as ondas do oceano, é já objecto do pensamento. E é isso o que quer dizer o 'fetichismo da natureza'.

Ver nessa infância do espírito mais do que superstição e medo de 'perder o pé' num meio inóspito para qualquer abstracção não pode ser senão um acto de fé.

Alain lembra que Tales era geómetra, tendo medido a altura da pirâmide  do deserto pela sua sombra, como reza a lenda. Pois é esse mesmo pensador da triângulação que nos diz que o mundo está cheio de deuses. Não, decerto, no espírito científico moderno que veria nessa afirmação a ambição de livrar a nossa visão de uma superstição, mas, é de supor, com a convicção de que por detrás de todas as aparências há algo de misterioso  e sobrehumano que importa 'considerar', como se de um astro inacessível se tratasse.

Em que é  que esse espírito 'religioso' é desfeito, como se desfazem as nuvens, pela geometria e pelo nosso empreendimento técnico é coisa que o filósofo de Mileto não poderia, na verdade, conceber.

Mas faz todo o sentido incluir a geometria e a lógica no conhecimento da nossa razão, ou 'logos', para os Gregos. Algo que, 'por ínvios caminhos', se encontra em harmonia com o mundo exterior como se as ideias platónicas ou as 'ideias inatas' de Descartes tivessem algum fundo de verdade...



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

(Alcochete)

CORTES LÓGICOS

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)



À filosofia, segundo L. Wittgenstein, não caberia mais do que uma crítica da linguagem, e tudo o que não é linguagem não pode ser dito, nem pensado. As coisas que caem fora da linguagem são as que os Antigos chamaram de Metafísica e sobre o que construíram os seus mitos imorredouros.

Se o Mundo só é conhecido pela rede dum sistema, com uma estrutura lógica a ele adequada, mas exterior, a Física seria só aquilo de que podemos falar e o resto seria a mística.

Quais as implicações deste corte, deste dualismo à la Descartes que separa a lógica do resto? Primeiro haveria que saber por que mistério se adequariam os nossos sistemas ao Mundo. Porque funcionam. Mas talvez em Descartes encontremos, segundo Alain, uma resposta. Porque o Mundo não quer nada de nós e é-nos indiferente, a ordem, a vontade podem fazer o seu caminho. Racional, onde agora se lê lógico. A adequação seria não monadológica, mas a que existe entre a matéria e a forma que lhe empresta o espírito humano.

Mas se não se pode pensar o Metafísico, será que as perguntas que na sua ideia têm origem deixaram de ter sentido?

Aqui só temos a história dos factos e das ideias para infirmar a tese de LW. A lógica não é todo o pensamento, porque não somos apenas fabricantes de instrumentos. E é onde Descartes tem razão contra LW, ao abrir as paixões à Filosofia e à Ética. E não é porque estas escapam de algum modo à necessidade que pode existir a Ética?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

(José Ames)