domingo, 21 de agosto de 2016

(Paris)

OS ÍNDIOS DE FELLINI

Federico Fellini

Em "Entrevista" (1987), Fellini volta ao tema de "Otto e mezzo", filmando o fazer do cinema, a pretexto de contar as suas memórias sobre a Cinecittà.

O mesmo silêncio encantado, a presença do vento, o artifício do teatro e do circo, a galeria de monstros. O mundo do cineasta é povoado de tipos inconfundíveis. Anões e mulheres-gigantes. Convenceram uma de grande busto de que tinha o tipo felliniano, por isso ela aparece na audição. 

E, inesperadamente, nesta evocação sentimental que acaba numa paródia do western contra a televisão, com antenas em vez de flechas, a visita ao ícone de "La dolce vita", à mais felliniana das actrizes.

O reencontro do mítico par da Fontana di Trevi é potencialmente destrutivo.

Cerca de trinta anos depois, a realidade disforme debate-se como um pássaro ferido contra o ecrã.

Mastroiani, maquilhado como o Aschenbach no Lido de Visconti, é uma sombra repetindo um papel que foi o seu no mundo dos vivos e uma Anita enorme e porosa, na sua mansão guardada por molossos, deixa aparecer uma lágrima.

Esta confrontação da memória com o presente é como o contra-método do seu estilo. Um Fellini, cedendo ao pessimismo, diz-nos que sabe muito bem que não é o sonho que comanda a vida.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

(José Ames)

O PODER



"O poder é o que mantém o domínio público, o espaço potencial de aparecimento, entre homens que agem e falam, em existência. A própria palavra, o seu equivalente em grego 'dynamis'... indica o seu carácter 'potencial'. O poder é sempre, como poderíamos dizer, um poder potencial e não uma entidade imutável, mensurável e confiável como a força ou a resistência.
(Hannah Arendt)

A primeira consequência deste enunciado é que o poder que 'mantém o espaço público em existência' se distingue do 'poder' tal como ele é visto, nos nossos dias, pelos 'homens que agem e falam'. Não quer isto dizer que esse poder não assuma as funções de enquadramento necessárias, nem garanta o espaço da palavra, a qual, mesmo diminuída, permite, ao menos, uma comunidade política. É que essa natureza do poder fundador deixou de ser reconhecida no espaço público, para só aparecer o seu carácter constringente, burocrático e classista que  teorizações como a de Marx, lhe destinaram. Não é sem razão que já crismaram o nosso tempo como a era da suspeita. O poder é mais uma história do 'lobo mau'.

Trata-se tão-só do triunfo do individualismo e da Crítica (esta tem sempre que calar em nome de quem fala, não é?) que o 'capitalismo', com a sua terraplanagem, tão eficazmente desenraizou, ou é outra coisa, completamente diferente?

À medida que o 'sistema' passa a ser compreendido como uma catástrofe 'natural', percebemos que não é possível conservarmos uma teoria da evolução consistente. Isto é, há que introduzir  a narrativa do espaço público.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

(Alvoco)

TAGARELICE




"(...) toda a gente fora da 'polis', escravos e bárbaros, era 'aneu logou', privado, naturalmente, não da faculdade da fala, mas de um modo de vida no qual a fala e só a fala fazia sentido e onde a preocupação central de todos os cidadãos era falar uns com os outros."
(Hanna Arendt)

Não se deve levar esta ideia para o lado da proverbial tagarelice dos Gregos. Porque uma linguagem, uma mundividência não se constroem com indivíduos isolados ou desenraizados. Era o caso dos escravos, antigos prisioneiros de guerra ou descendentes destes.

A Grécia clássica não durou o tempo bastante, ou o seu sistema de classes foi suficientemente estável para que os 'aneu logou' tomassem a palavra e se pudesse falar numa cultura própria.

A própria noção de uma 'vontade de falar' característica do cidadão ou do emancipado presta-se por demais a uma interpretação pela dialéctica marxista para esta não se impor, à falta de melhor. A classe ociosa é a que tem todo o tempo para falar consigo própria.

É verdade que através dessa 'actividade' se chegou a algo de novo que está na base do mundo moderno. A ciência, nem é preciso relembrar as séries de Auguste Comte, começou pela especulação teológica, fase que, entre os Gregos, já não se podia incluir na tagarelice e no falar por falar.

Tudo isto sugere que a linguagem nos conduz mais do que a conduzimos. Que ela, por assim dizer, 'sabe mais' do que aquilo que lhe 'ensinámos'.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

(José Ames)

TAOISMO





"É fácil manter-se quieto e não deixar rasto, mas é difícil andar sem tocar a terra. Se segues os métodos humanos, poderás enganar e conseguir ainda escapar. No caminho do Tao, o engano é impossível.

Sabes que se pode voar com asas: falta-te aprender a voar sem elas. Estás familiarizado com a sabedoria daqueles que sabem, mas ainda não conheces a sabedoria daqueles que não sabem.

Observa esta janela: não é mais do que um buraco na parede, mas graças a ele todo o quarto está cheio de luz. Assim, quando as faculdades estão vazias, o coração enche-se de luz. Ao estar cheio de luz, converte-se numa influência por meio da qual os demais se vêem secretamente transformados."

"Escritos sobre Chuang Tzu" (Thomas Merton)

O discípulo é dissuadido por Chuang Tzu de se precipitar na acção, pois por essa via encontrará necessariamente inimigos e, no fim, tudo permanecerá igual. A sua sede de justiça esgotar-se-á nos primeiros esforços. São os 'métodos humanos' que nos submetem todos aos trabalhos de Sísifo.

A 'boa-vontade' de que se fala no Evangelho, também poderia ser vista como uma 'transformação interior', mas como o demonstra a tradição dos mártires da Igreja, não estaria completa sem o confronto com a intolerância e a injustiça. Mas esta 'militância' inspira-se em quê? Talvez no episódio da expulsão dos vendilhões, ou na violência descritiva de algumas passagens do Livro.

Mais interessante ainda é a expressão: 'sabedoria dos que não sabem'. E outra aproximação pode ser feita com o texto evangélico. Por exemplo, com o exemplo dos lírios que não sabem fiar e que Deus vestiu sumptuosamente. É a poesia, de facto, que nos pode ajudar a compreender o oxímero de uma sabedoria que não sabe.

Note-se que não se trata de um instinto, nem de uma prática tradicional e sem conceito. É a ideia de uma perfeita e dócil instrumentalização pelo divino, como queria Simone Weil.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

(Legnica, Polónia)

A BÍLIS E O SER

Martin Heidegger (1889-1976)


"Heidegger é o pequeno-burguês da filosofia alemã, que pôs à filosofia alemã o seu barrete de dormir "kitschig", o barreto preto e "kitschig" que Heidegger usava sempre, em todas as ocasiões. Heidegger é o filósofo de chinelos e barrete de dormir dos alemães, nada mais.

(...) sempre me repugnou, porque tudo em Heidegger foi sempre para mim asqueroso, nem só o barrete de dormir na cabeça e as ceroulas de Inverno de tecido caseiro por cima do fogão aceso por ele próprio em Todnauberg, nem só o seu bordão da Floresta Negra por ele próprio entalhado, tal como a sua filosofia da Floresta Negra por ele próprio entalhada, tudo neste homem tragicómico foi sempre para mim asqueroso, me repeliu sempre profundamente, em qualquer altura que nele pensasse;"

" Antigos Mestres" (Thomas Bernhard)

A caricatura parece certeira, quando se olham as fotografias e se pensa na forma como tratou o seu mestre Husserl.

O homem exterior está todo nessa figura ridícula, se quisermos (se atravessarmos um limite), com a sua boina preta e o seu bordão. Mas o desenho vai mais longe. Sugere que a impressionante obra filosófica é uma fraude que corresponde ao envelope desse corpo.

O imenso cortejo de admiradores e de discípulos aparece então desencaminhado e seduzido por um contexto lamentável.

Sabemos que a bílis de Bernhardt é particularmente propensa à decomposição de ácidos gordos de essência austro-germânica. Não o podemos levar a sério.

E, no entanto, nunca mais voltarei e olhar uma fotografia de Heidegger da mesma maneira.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

(José Ames)

O OUTRO LADO DA LUA



"Não se pode descrever bem a vida dos homens se a não fizermos banhar no sono em que ela mergulha e que, noite após noite, a contorna como a uma península rodeada pelo mar."

("À la recherche du temps perdu, le Côté de Guermantes", Marcel Proust)

O paradoxo é que essa parte da nossa vida não conta para a maior parte, e alguns sonham em reduzir o tamanho da 'península' ao de uma ínsua à margem da vida, quase sem solução de continuidade. A verdade é que já se pensou em 'aprender' durante o sono, isto é, sem passar pela experiência.

Em contrapartida, lemos com deleite as observações deste 'especialista' do sono. Como se entra e sai dele, como se confundem as formas na passagem, e são páginas e páginas voluptuosas, para quem não tem pressa de chegar ao fim.

É uma verdade que devia entrar-nos pelos olhos dentro, mas que, talvez por boas razões, recalcamos. Durante o sono é como se recebêssemos da terra uma recarga de vitalidade para a nossa existência estremunhada. E já uma vez aqui comparei essa situação com as vagens adormecidas de um célebre filme de Don Siegel ("Invasion of the bodysnatchers", 1956).

Não podemos, realmente, compreender o homem apenas pela sua vida activa. E se um dia conseguirmos 'largar no espaço' essa parte de nós, parece que, ao mesmo tempo, teremos descolado do planeta para sempre.


domingo, 14 de agosto de 2016

(Lisboa)

TORRE DE MARFIM

"Violência e Paixão" (1974-Luchino Visconti)

Em 1973, Enrico Medioli, o argumentista de Visconti, propõe-lhe um filme moderno. É a história dum professor que vive com uma velha criada, no meio dos seus livros e objectos de arte.


"Um homem maduro, no limiar da velhice, um homem duma cultura excepcional", mas, prossegue, "ele é em definitivo culpado, porque se retirou na sua torre de marfim, numa solidão privilegiada e protegida, numa espécie de sumptuoso regaço materno, em que ele estagna, preso aos seus hábitos e sem traumas, na contemplação da arte."

("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano)

Este não é o filme que eu levaria para uma ilha deserta (sendo dos que mais admiro), porque ele me tornaria demasiado sensível o facto de viver numa ilha deserta.

O sonho do professor é a tentação dos que a vida em sociedade desilude pela gritaria e o mau gosto, pela falta de reverência da juventude pelo passado.

No seu palácio romano, ele conversa com esse passado e prefere a pintura dos grupos de família ("conversation pieces") a uma verdadeira família.

O que lhe acontece quando, por razões financeiras, tem de alugar o andar de cima é uma série de catástrofes que são a vida.

sábado, 13 de agosto de 2016

(José Ames)