segunda-feira, 21 de agosto de 2017


(José Ames)

O FANTASMA NA MERCADORIA



"A forma da madeira, por exemplo, é modificada quando se faz uma mesa. A mesa não deixa de ser de madeira, coisa sensível e ordinária. Mas a partir do momento em que ela entra em cena como mercadoria, transforma-se numa coisa supra-sensível. Ela não está apenas assente com os pés em terra, mas põe-se de cabeça para baixo, face a todas as outras mercadorias, e sai da sua cabecinha de madeira toda uma série de quimeras que nos surpreendem ainda mais do que, sem nada perguntar a ninguém, se ela se pusesse a dançar."

"O Capital" (Karl Marx, citado por Jacques Derrida em "Spectres de Marx")

Derrida recorda a vaga espiritista que se espalhou na Europa, na segunda metade do século XIX, o interesse de Max Stirner, por exemplo, pelos "Mistérios de Paris" de Eugène de Sue e as "tentações espiritistas de Victor Hugo", para situar o devaneio fantasmático, naquela passagem, do autor de "O Capital".

Porque não se trata apenas de uma abstracção, segundo a qual devêssemos pensar o objecto e o seu "valor de uso", enquanto mercadoria. Marx sente a necessidade de efabular uma vida própria, enquanto "espírito", desse alter ego da mesa.

E isso era necessário, talvez, para transmitir a essa metamorfose do "valor de uso" em "valor de troca" a qualidade moral adequada à visão profética da obra.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017


(Burgos)

O OPOSTO DO CÍNICO

(Charles Chaplin in "The Tramp")


Charlot é um gentleman que vive abaixo dos seus pergaminhos. Não abdica duma indumentária formal, da sua cana e do chapéu de coco, quando não das luvas. Essa aparência exprime a reivindicação de ser tomado pelo que não é, ou uma adesão ingénua aos valores da sociedade que o põe à margem?

Ao mesmo tempo que limpa os ouvidos com o guardanapo, serve-se do chapéu para um ballet de vénias no registo da "delicadeza". Porque tropeça em toda a espécie de obstáculos, anda munido de uma escova para limpar o pó do fato e tudo lhe serve para cumprir os preceitos higiénicos a que se sente obrigado pela sua imitação da dignidade. Mesmo a cana lhe pode ser útil para limpar as unhas.

Esta rigidez iconográfica é compensada por uma incrível agilidade física que lhe permite escapar por entre as pernas dos polícias ou esquivar-se ao murro do brutamontes.

Era preciso que a sociedade arrogante e preconceituosa da sua origem fosse confrontada com este vagabundo que insiste em ser, mesmo nos maiores apertos, uma paródia do aristocrata.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

(José Ames)

UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA




"A descrição das relações entre os membros do Congresso e os funcionários aquando da preparação do orçamento federal americano é disso um bom exemplo. O funcionamento real da administração pública é demasiado complexo para que os membros do Congresso possam dela ter uma visão geral e para que possam avaliá-la. Eles não podem agir sem ter confiança na integridade pessoal dos funcionários que dominam os detalhes. Na prática, os representantes não controlam, portanto, os factos, mas somente a sua confiança, e é só através dela que podem controlar os factos. E, sob esse constrangimento, ao menor sinal de desonestidade, eles reagem com uma grande intensidade emocional, retirando a sua confiança ou ainda por meio de outras sanções."

"La Confiance" (Niklas Luhmann)

Este é um bom exemplo para desobnubilar os espíritos crédulos na possibilidade de uma democracia que faça jus ao seu nome e às suas origens. E isto por nenhum vício constitucional ou por nenhuma relação de forças adversa.

Tal como a representação política, que é uma assimptota cada vez mais divergente, o poder democrático é ainda mais indirecto e afastado das efectivas decisões do que os seus críticos sempre disseram. É, de facto, o pior dos regimes "à excepção de todos os outros".

Que a complexidade da "coisa pública" torne os políticos dependentes de uma coorte de técnicos e de especialistas que dominam os detalhes que eles não podem dominar, e que só possam julgar as opções pelos seus resultados práticos é uma situação muito próxima da monarquia constitucional.

O soberano não sabe, nem tem de saber. Basta que esteja rodeado das pessoas certas, as quais premiará ou castigará, conforme os êxitos ou os insucessos.

Não muda nada que este monarca seja eleito de quatro em quatro anos e que tenha tantas cabeças quantas as do governo e o parlamento reunidos.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Burgos 

A ÉTICA DA SAÚDE



Hipócrates (460/377 AC)


"Contudo, é movido pela mesma necessidade que leva a Medicina a não ser apenas a teoria do Homem são, mas também a do homem enfermo, quer dizer, patologia e terapêutica, que o conceito platónico da política abarca as formas degeneradas do Estado juntamente com as normais. Já no Górgias se via isto claramente. O que na República há de novo é a aplicação deste conceito da ciência, segundo o qual o conhecimento de um objecto implica ao mesmo tempo o seu contrário."

"Paidéia" (Werner Jaeger)

Platão não dispunha do conceito moderno de sistema, nem do de meio ambiente ou de evolução, que são outras tantas objectivações do espírito para interpretar a política num sentido normativo. A teoria da evolução, por exemplo, parece dar razão a uma teoria do progresso. Outros, vêem na História e na sucessão de sistemas um sentido a priori que é a continuação, noutra linguagem, da ideia do Juízo Final.

Na falta destes conceitos, Platão inspirou-se na ideia de ordem cósmica que, no homem, é desfeita pela doença e a morte. Por isso a Medicina foi a primeira ideia do que deve ser e do que não deve ser em política. Depois da sociedade humana ter evoluído como evoluiu, podemos perguntar-nos se essa ideia "iatrológica" faz ainda algum sentido.

Mas se reconhecermos que o homem da medicina hipocrática perdeu, entretanto, tudo o que fazia dele uma natureza individual e que o conceito de saúde é, cada vez mais, político e dependente da organização social e até do estado do planeta, a norma platónica continua válida (de qualquer modo, mais do que uma limitação da política à pura influência das ideias).

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

(José Ames)

A TRANSPARÊNCIA


http://www.mark-grosset-photographies.com


"A autoridade é sempre a representação-delegação (vertretung) de uma complexidade que não é explicitada de uma forma detalhada. O seu estilo depende da maneira como é representada esta possibilidade de explicitação."

"(...) a autoridade não é questão de um saber que seria o objecto de um dom e seria apenas acessível a um pequeno número; releva antes de uma competência específica que se aprende e se exerce no modo da divisão do trabalho."

"La Confiance" (Niklas Luhmann)

Isto seria, segundo Luhmann, consequência de não existir mais a verdade do ser por revelar, mas apenas afirmações possíveis e processos de tratamento da informação, processos "instituídos de uma maneira independente em relação a estruturas sociais determinadas, independentemente, sobretudo, de um estatuto superior repousando sobre outras funções, quer se trate, por exemplo, de funções religiosas, políticas ou económicas."

A "transparência", por oposição à complexidade, permitir-nos-ia dispensar as decisões problemáticas e não consensuais. Porque, em primeiro lugar, se o futuro fosse previsível, poderíamos trocar toda autoridade pelo "piloto automático", ou colocar à frente da administração do Estado a cozinheira de Lenine.

O problema é que o estado seguinte do universo nunca pode ser transparente nesse sentido, e a autoridade é, precisamente, o que nos permite agir como se o fosse, como se soubéssemos o futuro e pudéssemos sempre honrar as nossas promessas.

A autoridade é um exemplo daquilo a que Luhmann chama de mecanismo para redução da complexidade.

domingo, 6 de agosto de 2017

(Czestochowa)

A RAIZ DA INSPIRAÇÃO



Paul Cézanne (1839-1906)


"Entre esses quadros, alguns dos quais pareciam os mais ridículos às pessoas mundanas interessavam-me mais do que os outros ao recrearem essas ilusões de óptica que nos provam que não identificaríamos os objectos se não fizéssemos intervir o raciocínio. Quantas vezes de carro não descobrimos uma comprida rua clara que começa a alguns metros de nós, quando foi apenas uma parede violentamente iluminada que nos deu a miragem da profundidade! Então, não é lógico, não por artifício de simbolismo mas por sincero retorno à própria raiz da impressão, representar uma coisa por essa outra que, no relâmpago de uma primeira ilusão, nós tomámos por ela?"

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

Proust entendeu perfeitamente a pintura moderna nestas linhas. Aquele raciocínio que nos permite a identificação das coisas é o inimigo da arte depois de Cézanne. Por isso tantos pintores encontraram a inspiração no titubear das crianças e nos primitivos.

Mas como a variação das formas "ingénuas" é limitada, foi preciso dar outro passo para algo que já não tem nada a ver com a percepção.

O "raciocínio" continua proscrito, por infecundo, e a própria imaginação não é tão livre como promete. O automatismo dos dadaístas e dos surrealistas já não garante a diferença. O passo decisivo foi tornar o sistema da arte (que inclui as obras do passado, os museus, a internet e a bolsa de valores) na única fonte de inspiração.

Mais virgem do que o inconsciente do artista individual é o efeito da reacção em cadeia das obras de arte "conversando" umas com as outras.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

(José Ames)

ENTRE AS GUERRAS

Bertolt Brecht (1898/1956)


"O aspecto animal e o aspecto intelectual, vindos à luz e levados ao apogeu, encontravam-se em interacção, como uma espécie de corrente alternada. Quem quer que estivesse desperto para a sua animalidade antes de chegar a Berlim tinha de a empurrar até ao seu máximo para poder afirmar-se contra a dos outros e logo se achava gasto e arruinado, se não fosse de uma solidez excepcional. Aquele que, pelo contrário, fosse dominado pelo seu intelecto e não tivesse cedido ainda à sua animalidade só podia sucumbir à complexa riqueza do que era proposto ao seu espírito. Uma pessoa sentia-se fustigada por todas estas coisas múltiplas, contraditórias, brutais e não se tinha tempo de compreender o quer que fosse, só se sentiam os golpes. Não se tinham ainda digerido os da véspera e já os novos choviam. Arrastávamo-nos assim em Berlim como um pedaço de carne estragada, não nos sentíamos todavia batidos o suficiente e estava-se à espera dos novos golpes."
"Le flambeau dans l'oreille" (Elias Canetti)

Era assim que o jovem Canetti via a capital da Alemanha nos anos vinte do século passado. O homem dividido pela aceleração das coisas e o desequilíbrio espiritual. Faltava o tempo de pensar.

Alguns, como Brecht, atravessavam o turbilhão, secretos, aparentemente impávidos, mas retirando a sua força da verificação das profecias. "Era a custo que se acreditava que tivesse apenas trinta anos, não parecia ter envelhecido, mas ter sido sempre velho."

Esse clima sobreexcitado fez a cama do pior dos regimes, quase por necessidade física de encostar o corpo.

Vivia-se no meios dos destroços da última guerra e a única coisa que parecia firmar-se eram os músculos da próxima.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

(Toledo)