quarta-feira, 31 de outubro de 2007

MILAGRE EM MILÃO


"Miracolo a Milano" de Vittorio de Sica


"Milagre em Milão" (1951), de Vittorio de Sica, parece um filme inspirado pela personalidade física e moral do actor que desempenha o papel de Totó (Francesco Golisano).

A sua pureza contagiante explica todo o milagre nesse baldio de barracas que o milionário Mobbi, por causa do petróleo, disputa aos miseráveis.

De Sica leva a fantasia às últimas consequências e faz-nos sorrir perante a ingenuidade de todos aqueles mendigos cavalgando a sua vassoura pelos ares, sem uma nota de ironia que redima a cena.

Mas, justamente, o olhar de Totó é incapaz de ironia.

A caricatura e o moralismo são as únicas rosas deste milagre, se abandonarmos a perspectiva do "idiota" (Dostoiewski).

Os pobres, podendo satisfazer os seus desejos, tornam-se burgueses instantaneamente, exibindo os seus casacos de pele e os seus trajes de cerimónia (como Charlot).

Mas Totó convence e toda a comoção poderia não ser mais do que uma história contada pela sua mãe adoptiva que levou para o céu a subversão da loucura.


(José Ames)

OS IDIOTAS


A Ágora de Atenas

"Vivermos num mundo real e falarmos com os outros são fundamentalmente uma só e a mesma coisa, e para os gregos, a vida privada parecia "idiota" (*) porque lhe faltava a diversidade que decorre de falarmos sobre alguma coisa e, por isso, também a experiência do modo como as coisas realmente funcionam no mundo."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)

(*) Em grego, idion significa privado, só para si, peculiar.


Uma das teses mais surpreendentes de Hannah Arendt é a afirmação anti-aristotélica de que o homem não é um animal político.

Pelo que, muitas terão sido as sociedades na História em que a expressão do político esteve próxima do zero, e os regimes totalitários seriam o exemplo mais próximo do anti-político.

A política pressupõe, para Arendt, a liberdade e um espaço de palavra entre iguais.

A consideração da política como um meio necessário à vida ou à segurança, coisas que as ditaduras podem, às vezes, assegurar, é a negação da política.

A tendência nas sociedades ocidentais para a privatização (idiotização, no sentido grego) de todas as actividades que não tenham a ver com a necessidade (ou a "alienação") corresponde mais do que a um desencanto com a política, tal como ela é feita, à perda do sentido das palavras e do seu poder de desencadearem a acção.

A inflação não é apenas um fenómeno de natureza económica. Toda a palavra é desvalorizada pela repetição e pela ampliação mediáticas.

terça-feira, 30 de outubro de 2007


Gaia, antes do Metro (José Ames)

LAMPADA VELADA


Baden Powell (1857/1941)


No restaurante da pequena cidade, estão os escuteiros. Lembro-me que desprezava esta liberdade vigiada, quando encontrava em plena aventura adolescente o seu acampamento. Mas observo esta bela energia em uniforme e não posso deixar de admirar a sabedoria da instituição. É prolongar as aulas práticas e a lição de cortesia. O jovem sente-se na sua horda, mas é contido por uma espécie de honra ligada aos calções e à blusa. Vejo-os rir do riso agreste que lhes é próprio e dizer os disparates e trocadilhos que eu dizia. Há timidez da natureza no modo brusco e fanfarrão como interpelam os adultos que servem à mesa. Respondem-lhes com o sobrolho carregado os homens de avental. Estão à defesa perante o número e a ordem surpreendente.

Sorrio para mim, porque passei essa idade e a julgo com ternura escrava. Mas mergulho na sopa e logo aqueço. A hortaliça caseira toma conta dos meus pensamentos. Com o seu agradável vapor nas faces, sinto-me transportado para o que aquele grupo saudável já deixou para trás. Por um momento eu é que sou a criança naquela sala. Mas o meu exterior deve ser o mesmo, com os ângulos do tempo. A verdadeira volúpia é solitária. Nenhuma conversação me distrai do gosto a que me aplico de cada espécie da terra e do traço único da cozinha que depende geralmente duma divindade feminina. O apetite dos rapazes, aguçado pela marcha ao ar livre, é bom de ver. Mas sou eu que contemplo e respeito os alimentos. Cada batata frita é uma oferenda e uma metáfora do campo e do corpo humano, fonte do trabalho e do prazer.

Ouvi um operário dizer que não podia estar muito tempo a olhar para o prato. E havia nisso não só a pressa de acabar com uma pausa inútil e o apreço da coisa que se ganhou pelo esforço próprio, mas também o orgulho ingénuo de quem vai direito aos seus fins. Não há lugar aqui para venerar a natureza e o seu labor misterioso. É a lei da troca que faz esta rudeza sem tempo para os deuses. Por isso se come como quem arranca com os dentes um direito. Talvez que esse gesto seja mais propício a dar prazer ao espírito em vez do corpo, o que não diz a aparência. É caso para dizer que o estômago operário é primeiro que tudo político.

Ora a maior parte das vezes, eu como sem gosto, e isso é uma história antiga. É a disciplina quotidiana das paixões. Mas não originalmente voluntária. Aprendi a ser frugal como se aprende a ortografia: repetindo e sempre forçado um pouco. Que me acontece então neste domingo frescote diante da mesa dos moços? Visito o templo que se reconstruiu em três dias. A luz do espírito como que suspensa durante a orgia dos sentidos. Mas ao alcance da mão para nos iluminar no regresso.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

TAMBORES E CORNETEIROS



"Multiplicam-se as discussões, como se tudo fosse incerto, e estas discussões são conduzidas com o maior entusiasmo, como se tudo fosse certo."

David Hume ("Tratado da Natureza Humana")


É bem verdade que só o entusiasmo é comunicativo e que é preciso acreditar, nem que seja no momento, para fornecer o combustível necessário a esse entusiasmo.

Assim, quando tudo devia ser incerto, nós erguemos edifícios para durar. No fundo, nadamos em várias correntes do tempo. As nossas casas e os nossos templos caem (ou estão a cair) inexoravelmente, e se as nossa pirâmides duram ainda é porque já têm a forma do monte de poeira.

Também as nossas certezas começam a esmaecer já no momento em que as afirmamos. O encontro dessas vulnerabilidades, num dado momento, dá-nos a ilusão da força.


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"Não alcançam a vitória os soldados em pé de guerra, manejando a lança e a espada, mas sim os corneteiros, os tambores e os músicos do exército."

(Ibidem)


Hume, muito antes da política como espectáculo, falava do triunfo dos corneteiros.

Mas desde sempre foram os "músicos" que encantaram a espécie. Marchamos ao som dos tambores, como modelamos as nossas opiniões pela força da retórica.

Hoje, um SMS coordena muito mais do que um tambor, e a televisão nem precisa de nos emocionar através de uma boa figura de estilo, pois basta o efeito de vermos as mesmas imagens e ouvirmos as mesmas palavras ao mesmo tempo para ficarmos "afinados".


(José Ames)

LUZES DA CIDADE


Chaplin e Einstein na estreia de "Luzes da Cidade" (1931)


A linguagem de Chaplin vai direita ao coração. Não importa se o milionário suicida que encontra o melhor dos amigos no vagabundo, quando está ébrio e retome todas as distâncias de classe com a sobriedade ou uma pancada na cabeça, parece inverosímil. Não há ninguém assim e, no entanto, a imagem toca o fundo do problema.

O vagabundo, expulso pelo mordomo no dia seguinte, disputa a outro pedinte a perisca do charuto que um ricaço larga mais adiante, pegando no Rolls Royce que o outro lhe tinha oferecido sob a influência de Baco.

Não podia ser mais cínico este episódio de luta pela sobrevivência, contra a ideia de um cineasta que exagera na corda do melodrama. Aliás, não faltam os momentos de autocrítica. Os arroubos apaixonados acabam sempre com um vaso na cabeça que um gato faz cair da janela.

E o final deste maravilhoso "City Lights"?

A rapariga das flores que já consegue ver e tem agora uma loja de florista, graças ao dinheiro de quem ela pensava ser o seu príncipe encantado, reconhece pelo toque das mãos o vagabundo.

A sua desilusão estampa-se-lhe no rosto, mas a gratidão e o dever comparecem, como sentinelas armadas nesse reconhecimento.

Sabemos que o romance nem por um segundo tem futuro. Mas Chaplin não quer arruinar no nosso espírito a ideia do anjo. Porque nessa situação, a queda é obrigatória.

Assim, o filme acaba deixando-nos imaginar uma saída airosa para o anjo.

domingo, 28 de outubro de 2007


Gaia (José Ames)

MENSAGEM DE OUTRA GALÁXIA



Maltratado pelo ritmo da cidade, pela fúria de trabalhar mais depressa, o corpo protesta abandonado da razão. E eu procuro calá-lo, deixando de tomar café e de me deitar tarde. Mas o medo de que ele queira dizer-me uma coisa importante leva-me ao médico.

Podemos viver com os sintomas conhecidos sem lhes dar excessiva atenção. É como se o corpo perdesse a faculdade de se fazer ouvir e de interessar este inquilino sem respeito. Porém, basta um sinal incompreensível para nos lançar em terríveis conjecturas. Que me importa o ruído do motor no carro do amigo que me leva a casa? Mas bem vejo como isso se faz ruga e distrai da conversação. Quanto mais esta outra máquina, pela qual existo e penso, parece merecer os cuidados dum mecânico.

Mas o que trago do consultório é a ordem de viver doutra maneira, porque o médico é honesto e não cede perante a minha imaginação. Há um pensamento em Gandhi que ilustra bem esta loucura da medicina. Ele quis sempre sofrer todas as consequências dos seus actos. Um jantar copioso que nos soube bem pode resultar numa indigestão. Pois bem, é preciso aguentá-la. Excitei-me durante o dia e não consigo dormir? Que a mão se mantenha longe do frasco das pílulas. É que quando recorremos às drogas, desfazemo-nos duma parte do corpo e perdemos a experiência necessária. Se nos podemos furtar à dor e ao desconforto que são efeito dos nossos actos voluntários, entramos num círculo de irrealidade e não somos mais responsáveis.

Esta medicina apaga os ângulos da vida e habitua-nos a uma espécie de tristeza que é feita de prazeres sem risco e sem medida. A criança se crescesse tão protegida nunca chegaria a ser homem. E é isso que nos promete este ideal da anestesia. Claro que é possível imaginar a velocidade e a ausência de dor na gravidez e no parto, bem como no processo de germinação das plantas. Atingiremos, quem sabe, a velocidade da luz e o completo domínio das sensações. A tal ponto que não haverá diferença entre ser e imaginar. Mas teríamos destruído o homem. E então era preciso buscar quem pensasse por ele.

O geómetra, o medidor do tempo, o conhecedor da ciência dos sinais e da linguagem. Sem corpo, esse pensador não poderia actualizar os conhecimentos, nem sequer compreendê-los. O mito do computador a fazer as vezes de cérebro num mundo de escravos é uma inépcia completa, mas diz muito sobre o espírito desta época de insensível decadência.

O que dizes meu corpo? Que estás mal? Mas se tens razão, vou dar-te murros ou pôr tampões nos ouvidos? A cidade convida-me à febre e ao reflexo eléctrico. É fácil seguir a multidão apressada. Neste dia sem transportes, muita gente descobriu as pernas e a companhia do ar livre. Se olhar à minha volta e examinar o que faço durante o dia, traduzo bem esse sinal. Só se deve ter medo dum corpo que não sente. Paradoxo.

sábado, 27 de outubro de 2007


(José Ames)

O RELÓGIO VAIDOSO


O coelho de Alice



Por que é a vida insuportável quando se define? Quando reduzo, por exemplo, o meu dia ao trabalho e à leitura? Subitamente, o encanto de conversar à noite e nas horas vagas com os grandes autores desfaz-se. E a outra parte da minha vida activa torna-se pesada por falta de compensação. Contudo, regressar depois de sete horas de rotina mecânica, ao convívio do espírito é o que o homem de bem, como diria Montaigne, mais pode desejar.

A felicidade é invisível e não se pode pensar nela sem que fuja. O erro é crer que o tempo livre é uma preparação para o trabalho e mais nada. Levamos no corpo e na alma uma pancada tesa ao aplicarmo-nos a uma tarefa sem interesse, submetendo-nos a um ritmo artificial que deixa mossa. O resto do tempo é de descompressão. A forma humana recupera para novo embate. A ideia deste vaivém é que é mortal. Faz de nós um pêndulo absurdo. O futuro parece não poder escapar a esta lei oscilatória, e a vontade humana não é mais do que uma mola entre outras, de que se conhece perfeitamente a função. Mas é uma vaidade triste que nos faz pensar assim.

Condenamo-nos a viver nos estreitos limites duma servidão que não compreendemos. O trabalho que se vive como uma prisão é degradante e não pode deixar de infectar a vida das pessoas com o espírito da frivolidade e da violência inútil. Por muito abstracta que seja a tarefa e separada das funções naturais, há sempre um aspecto que é digno de contemplação e de amor misterioso. E isso é a longa cadeia do trabalho, que liga o passado e o presente de todos os homens, os vivos e os mortos, às outras espécies e à natureza. O edifício de vidro com as suas secretárias e os seus telefones e o complexo sistema de papéis, apesar do luxo e das despesas supérfluas, não é menos a colmeia dum trabalho quase imóvel e cerebral. Mas esta solidariedade de todos os órgãos económicos conhece os seus fantasmas.

A habilidade das mãos do escriturário é inútil como a cauda que já não temos. O corpo mais perfeito da criação sobra em cada trabalhador. Já não é necessário. O que nos leva a dizer que agora é preciso querer esse corpo. Salvá-lo como a coluna sublime das civilizações. Mas não é o trabalho económico que o pode fazer. É o tempo livre e são outros trabalhos. Cultura física, expressão admirável. E por aqui chego à causa daquela tristeza que é falta de ginástica e força por empregar, juventude para viver. Mas também vaidade, como dizia. A de julgar o universo e de tomar como dinheiro contado a aparência do saber.

Para quê dividir o tempo? Ao escrever uma linha rotineira, o que me obriga a dormir? Recusemos a voz interior da demagogia que nos quer dar a liberdade que já temos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007


Dubrovnik (José Ames)

O TAMBOR


"O Tambor" (1979-Volker Schlondörff)


Os filmes alemães do pós-guerra procuram todos uma explicação para o trauma, como se este povo tivesse de ser um monstro maravilhoso. Assim, a crueldade parece natural. Mas esta vitalidade é infeliz, como a mãe de Óscar no “Tambor”, que morre de devorar toda a espécie de peixe. O seu apetite sexual é vontade de morrer. E tudo se converte em símbolo. É uma geração em busca do pai possível. Mas o que aparece é a irrealidade feminina e a pulsão do suicídio.

A imagem que os alemães dão hoje de si é a da eficácia e da ordem social. Onde se escondeu o bárbaro? Ele nunca foi tão visível como nesta superfície demasiado perfeita para ser real. A ordem é o seu laconismo e a sua austeridade. É preciso imaginar um país vencido e sem direitos, por se ter arrogado todos, para compreender esta penosa marcha do silêncio. A Alemanha é uma nação prisioneira do símbolo. Na admiração pela técnica alemã exprime-se também o horror sagrado.

O que é que nos diz o filme de Schlondorff? Só se salvam os anões. Os que recusaram crescer como Óscar numa casa em que se fazem poucas vergonhas debaixo da mesa. Numa família sem pai, nem mãe. Sem modelos. Apenas a confusão das pernas e do sexo. “Este povo crédulo acreditava no Pai Natal, mas o Pai Natal era o Homem do gás”. As crianças velhas correram atrás desse sonho mortal. Introduza-se um ritmo de valsa na parada militar e o gauleiter fica sozinho à chuva com o braço ridiculamente estendido.

Mas quem sabe julgar a guerra, quando o coro é mais potente e o espectáculo da força nos subjuga? É preciso negar a solidariedade desumana, o que exprime bem a personagem de Óscar, o mesmo que não quis crescer. A História do anão é o circo. Mesmo quando enverga o uniforme nazi, a sua responsabilidade é infantil, e o espectáculo diz que o rei vai nu. Sem pertencer ao mundo das crianças ou ao mundo dos adultos, o pequeno Óscar é juiz da loucura colectiva. O pensamento salva-se ao nível das pernas, e à maneira alemã: como raça.

É a tetralogia da miséria humana. A aurora dos deuses passa por este perpétuo exame anatómico. Porque não é possível condenar a Alemanha do espírito, por muito frouxa que fosse a sua luz em dada altura. É preciso fazer a parte do mal, que é o mesmo que descobrir os demónios em nós mesmos. Na paixão que quer pensar. E essa lição é mais útil do que a do regime e da crise económica. O desumano tem a forma do homem.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

AUTARCIA




"É preciso sem dúvida reagir fortemente contra a ideia clássica do valor eminente da autarkia, da auto-suficiência. O perfeito não é o que se basta a si próprio, ou, pelo menos, essa perfeição é a de um sistema, não de um ser..."

"Journal Métaphysique" (Gabriel Marcel, citado por Emmanuel Lévinas)


Infelizmente, a lei da entropia nem aos sistemas físicos permite essa perfeição. Donde a autarcia seja apenas uma ideia.

O poder, enquanto distinto da força (Arendt), não engendra a ilusão da auto-suficiência, porque ele mesmo é a prova de que a política depende da cooperação.

Mas a corrupção do poder pela força, a hubris dos Gregos, é uma espécie de lei da entropia que rege todas as manifestações do poder.

O pensamento de Gabriel Marcel justifica a necessidade do outro para despertar a consciência de nós mesmos. E é bem sabido que dependendo da sorte e do vigor, a ilusão da auto-suficiência vem antes da verdade da interdependência. É o que Lévinas chama de fissão do Eu diante do outro.


(José Ames)

QUESTÕES DE MÃO


O Duque de Saint-Simon (1675/1755)


"Monseigneur (o primeiro filho de Luís XIV), tendo ido de Marly a Meudon, quis ali oferecer um jantar ao Eleitor (da Baviera); mas a surpresa foi grande de ele pretender ter a mão (*). Essa pretensão era em todos os sentidos nova e insuportável; nunca eleitor algum tinha imaginado uma semelhante sobre o herdeiro da coroa [...]; houve negociações, que chegaram a qualquer coisa de ridículo. [...] Monseigneur recebeu-o no exterior; eles não entrarem em casa por causa da mão; encontrou-se uma caleça, na qual entraram os dois ao mesmo tempo, cada um pelo seu lado; passearam muito; ao sair da caleça, o Eleitor despediu-se e foi para Paris, e de maneira a que Monseigneur não o visse, quer ao chegar, quer ao partir, descer da ou subir para a carroça. Desta maneira, embora Monseigneur estivesse à direita na caleça, a mão foi coberta por subirem ao mesmo tempo por lados diferentes, e pela afectação de não entrarem em casa e de só a verem de fora."

(*) ter o lado direito em relação a alguém.

"Mémoires" (Saint-Simon, citação de Marcel Proust em "Le Côté de Guermantes")


A regra da prioridade na corte do mais protocolar dos soberanos distinguia-se, evidentemente, de uma regra de trânsito, por o direito à mão ser "pessoal e intransmissível", e não ter a mesma simplicidade nem a mesma clareza em todos os casos.

As infracções dependiam de uma boa explicação do código, mas era praticamente impossível prever todas as situações.

O génio de Luís XIV foi o de complicar suficientemente a etiqueta de Versalhes para manter a nobreza ocupada e longe das tentações frondistas, cumprindo as regras do seu grande jogo de salão.

Desse ponto de vista, não era um exagero considerar-se ele o astro à volta do qual todos faziam órbita.

Tal como a burocracia se justifica a si própria e mede a sua eficiência pelo movimento dos papéis, também esta aristocracia de raízes no ar, entre festas e jogos, só tinha um pensamento: a promoção.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A IMPORTÂNCIA DOS BOTÕES


http://librairie.medhyg.ch/librairie

"É a este nível que se torna explicável que, como muitas vezes foi notado, a própria consciência moral deixasse de funcionar sob as condições de uma organização política totalitária, e que isso se verificasse em boa medida sem que interviesse o medo do castigo. Nenhum homem que não possa tornar efectivo o diálogo consigo próprio, quer dizer nenhum homem privado da solidão que todas as formas de pensamento requerem, poderá conservar a integridade da sua consciência moral."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)


Nem como um eco, ou uma memória, porque todo o pensamento que não se actualiza no fio do juízo é uma simples mecânica.

É um paradoxo que só nos consigamos plenamente realizar, como diz Arendt, na pluralidade, que é a nossa verdadeira condição ( e não o homem individual, nem o sujeito aparentemente soberano), faltando, nos momentos mais importantes, às exigências da acção e da política para o encontro connosco mesmos.

Toda a polícia política sabe quanto é vulnerável o indivíduo a esse estranhamento de si próprio e como a consciência mais iluminada facilmente se apaga por falta das condições físicas da solidão.


Holanda (José Ames)

A NARRATIVIDADE DO MAL


"Blow up" (1966-Michelangelo Antonioni)


"Penso que não existe nenhuma obra de valor que se desenrole à volta da alegria ou do bem. O bem não tem história, se se pode dizer."

Michelangelo Antonioni


É certo. Compare-se o "Paraíso" ao "Inferno" de Dante. No primeiro, são círculos extáticos de bem-aventurados, penetrados pela luz do astro de que andam à volta.

É impensável destacar um detalhe nessa perfeição. O pormenor é já um desvio da única perspectiva possível. E é ao nível do incidente, do singular, do avulso e do desemparelhado que há história para contar. Aqui conta mais a borbulha do que a pele sem defeito, bela como um teorema.

E é por isso que a publicidade, ao inculcar-nos um modelo de estética e de erotismo nos "livra do mal" da beleza e da sexualidade.

Esse modelo tem tanto a ver com o desejo como um anúncio com uma carta de amor.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A SÍNDROME DA GROENLÂNDIA



O filme de Al Gore utiliza talvez a linguagem mais apropriada para passar a sua mensagem.

Os gráficos e as imagens são impressionantes, e os argumentos ganham com isso uma grande força demonstrativa.

O ex-candidato à presidência dos E.U.A. parece ter encontrado a missão da sua vida e só por maldade se veria aqui qualquer intuito de utilização da ecologia em proveito da sua imagem pessoal.

A importância da mensagem tem sido desvalorizada por alguns, por a considerarem alarmista e exagerada nas suas projecções, coisa, aliás, prevista no próprio filme como uma reacção "natural".

Se nem tudo serão factos incontroversos, a grande probabilidade de nos confrontarmos com uma acelerada tendência para a catástrofe devia fazer-nos parar para pensar.

Mas nunca os meros avisos foram suficientes para mudar o comportamento das pessoas a uma grande escala.

O próprio facto do filme obedecer a uma retórica de vídeo-conferência e de campanha mediática titila os nossos neurónios sem nos atingir mais a fundo.

Não é, evidentemente, inútil o apelo de Al Gore, porque não sabemos qual é a "massa crítica" de consciência necessária para uma mudança decisiva, mesmo que, de princípio, se faça sentir apenas numa elite ou em grupos minoritários.


(José Ames)

O HOMEM QUE ACORDOU KANT


David Hume (1711/1776)

"Creio que a explicação reside largamente numa acusação que foi feita a Hume, com algum justiça, a saber que a sua filosofia era essencialmente negativa. O grande céptico, penetrado pela sua convicção de que a imperfeição de toda a razão e de todo o conhecimento humanos, não esperava nada de bom da organização política. Ele sabia que os grandes benefícios políticos, paz, liberdade e justiça, são por essência negativos, uma protecção contra os nossos erros, mais do que efectivos dons."

"Essais" (Friedrich Hayek)


Hayek comenta o pouco favor com que foram recebidas, no continente, as ideias de Hume, em comparação com as do seu hóspede de um momento, Rousseau.

Jean-Jacques era um poeta que sabia convencer não só a cabeça, mas também o coração. A ideia do bom selvagem, por exemplo, dava toda a força à crítica das leis e da tradição responsáveis pela corrupção dos homens. Era o estímulo necessário para a indignação moral e a nova religião da fraternidade.

Esta filosofia parecia dizer: sejamos naturais e encontraremos a justiça e a concórdia.

Hume tinha outra ideia sobre a natureza humana e não desprezava as lições da experiência nem as da história dos povos.

"Não era da bondade dos homens que ele esperava a paz, a liberdade e a justiça, mas de instituições que "punham no interesse de agir para o bem público mesmo os homens maus". Ele sabia que em política "todo o homem deve ser suspeito de ser um intrujão", se bem que, como acrescenta, "pareça um pouco estranho que uma máxima verdadeira em política seja falsa de facto".

Ora, o efeito do poder sobre mesmo o melhor dos homens é torná-lo digno da nossa suspeita, por estupidez, ambição ou, o que é ainda pior, por virtude (Saint-Just, um dos homens mais virtuosos da Convenção, distinguiu-se pela sua apologia do Terror).

Por isso, a filosofia negativa, ao impor limites que nenhum indivíduo ou organização podem ultrapassar preserva a liberdade de todos, poupando-nos os erros e as consequências da falta de consenso sobre as opiniões positivas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

QUESTÕES DE MÉTODO


GWF Hegel (1770/1831)


"Mais importante é aqui o facto de que a dialéctica só poderia começar a desenvolver-se como método depois de Marx a ter despojado do seu conteúdo substancial efectivo. Em nenhuma outra parte a aceitação da tradição, acompanhada de um concomitante esvaziamento da sua autoridade substantiva, se pagou mais caro do que na adopção por Marx da dialéctica hegeliana. Ao transformar a dialéctica num método, Marx desembaraçou-a desses conteúdos que a haviam mantido dentro de certos limites e ligada à realidade substantiva. Fazendo-o, Marx tornou possível essa espécie de pensamento em termos de processo tão característico das ideologias do século XIX e que teria por desfecho a lógica devastadora dos regimes totalitários cujo aparelho de violência não se submete a quaisquer imposições da realidade."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)


De facto, a ideia de processo derivada do hegelianismo e que se pode aplicar, por exemplo, à História, não é bem um pensamento.

É decerto uma lógica, com o seu encadeamento, e que, como toda a lógica, pode prescindir completamente da experiência. A realidade nunca pode desmentir a lógica, visto que ela é perfeita no fechamento sobre si própria.

Arendt diz que o método, como critério da verdade, significa considerar "a cultura, a política, a sociedade e a economia no interior de um contexto funcional, (...) que pode ser tornado objecto segundo esta ou aquela perspectiva arbitrariamente assumida."

Isto equivale, como se sabe, ao conceito de sistema que é uma das palavras-chave da política moderna e que, tanto marxistas como não-marxistas, utilizam nas suas análises, nem sempre reconhecendo a sua origem.

Não há dúvida que aplicar a ideia de processo supõe que conhecemos o "movimento" da realidade (tese, antítese e síntese), e definir a complexidade política ou económica como um sistema é o mesmo que pensar ter dado a volta a essa realidade, tê-la distinguido do seu meio ambiente e conhecer as leis gerais por que se rege (ou pensar que estão ao nosso alcance, como o mecanismo do relógio a que levantamos a tampa).


Terceira (José Ames)

O CONSTRUTOR SOLNESS


"O Construtor Solness"

O simbolismo está datado, e é isso que mais choca na peça de Ibsen que a "Cornucópia" levou à cena.

A figura de Hilde (Beatriz Batarda) é a juventude de Solness (Luís Miguel Cintra) ou a sua própria morte, pela negação do tempo. Por isso Solness se defende dela, contra-atacando a actual juventude dos outros. É injusto para com o seu empregado Ragnar e atravessa-se no caminho da sua felicidade.

Mas não adianta resistir ao destino. Hilde desce da montanha para lhe lembrar o melhor de si próprio que jaz debaixo de anos de auto-tortura e sentimentos de culpa. A ideia de que todo o êxito mundano se paga com a morte do ideal. O sucesso profissional de Solness coincide com o incêndio que destruiu a casa da família de Aline, a sua mulher, e com a morte dos seus filhos gémeos.

Hilde convence-o a subir ao alto da torre que acaba de construir e a colocar ali uma coroa, como fizera há dez anos. Solness precipita-se, depois de cometida essa façanha.

Não estamos habituados a ver as ideias conviverem como personagens entre as demais.

Mas a psicologia está lá, sem uma falta.

Contra o senso-comum, um velho que se recusa a envelhecer faz uma espécie de pacto com a morte. Em troca de um último momento de glória, abandona-lhe o resto dos seus tristes dias.

domingo, 21 de outubro de 2007


(José Ames)

O HOMEM QUE GOSTAVA DO DESERTO


Howard Hughes

No “Aviador”, filme de Martin Scorcese, a caricatura do milionário, privilegiado sem alma, indiferente à sorte do seu semelhante, não existe. O que existe é a ideia duma paixão útil ao seu país: os aviões, mesmo se a excentricidade tudo parece sobrelevar.

Assim, o egoísmo e o prazer contribuem, consumindo o corpo, os milhões públicos e os da fortuna pessoal para o progresso duma indústria que interessa a todos.

Claro que Howard Hughes nos é apresentado como um louco visionário, amado mesmo pelos seus fracassos, que, apesar de tudo, sabe que existe uma espécie de Providência que transforma os erros privados em virtudes públicas. A história da aviação seria assim, como a de outras grandes realizações humanas, feita de génio, coragem, desapego pelo valor do dinheiro e de desafio das leis e das mentalidades.

A sua defesa no tribunal contra o requisitório do seu principal concorrente (a Pan Am) é uma invocação da ideia mais cara aos Americanos e que lhes vem dum período da sua história em que o Estado não era garante de nada: a iniciativa individual.

O fim de H.H. na loucura contribui para dissociar a sua figura da iconografia do capitalista, mesmo excêntrico. E se é verdade que nunca se perdoará a um multimilionário o seu dinheiro, também não se pode julgar a vida de um homem senão depois de ele morrer (Séneca).

sexta-feira, 19 de outubro de 2007


Porto (José Ames)

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

CARTESIANISMO


René Descartes (1596/1650)



O que trabalha em casa, às horas que quer e sem ter ninguém a vigiá-lo, apenas regulado pela obra a fazer e a necessidade, não sabe até que ponto o trabalho próprio é feito pelos outros e contra os outros. E talvez que a disciplina patronal à moda antiga apenas quisesse cortar a influência do grupo, de modo a que o trabalhador contasse com todas as suas forças.

É a ideia da primeira burguesia industrial esta de somar indivíduos e de organizar a produção sem recorrer à psicologia. Foi preciso pôr em causa essa ordem mecânica para descobrir que o homem trabalha mais e melhor num bom clima humano e que os progressos da produtividade dependem tanto da técnica e da organização como das relações entre as pessoas.

Quando a disciplina se torna flexível, o sentido da responsabilidade é partilhado por muitos, mas sem os privilégios do poder. Por outro lado, a organização pode ser tão complicada que as pessoas se guiem apenas pelo seu temperamento, encontrando múltiplos recessos que escapam à cadeia dinâmica que dá vida à empresa. E é um paradoxo genuinamente burocrático esta situação do funcionário escondido pelos papéis. Esses redutos contrariam a lei da empresa e do trabalho colectivo. Mas não se vencem pela investida hierárquica.

A organização deficiente põe à prova o carácter do trabalhador. E não há melhor exercício da vontade e do autodomínio do que enfrentar quotidianamente a inércia dos outros e o seu comodismo. Porque o trabalho próprio passa a ser preocupação pelo trabalho dos que faltam, dos que passeiam ou simplesmente se relaxam no serviço. As tarefas deixam de ser coisas que se fazem sem pensar quase, para se tornarem sentimentos e emoções ferradas. Quem não perder a cabeça encontra aí o fogo que tempera. Sem procurar nenhuma vantagem material ou ideal, a força chega e o pensamento que de cada vez deve limpar as ideias da paixão sai mais robusto da prova.

Mas é bom de ver que o egoísmo dos que se limitam a assistir a esse esforço é mais propriamente medo de si próprio. De não saberem vencer o despeito e a raiva, de a cada momento se sentirem motivo de troça e não ser capaz o pensamento de deixar o tórax munido de espanador e do vento do espírito. É claro, porém, que a empresa não pode contar só com a boa-vontade. Por isso a disciplina e a autoridade regressam periodicamente, quando ao abuso do poder se seguem os excessos da liberdade – porque a verdadeira liberdade não é colectiva.

Organizar melhor os homens, de resto, é sempre submeter o indivíduo a um princípio exterior. O progresso é tornar cada vez menos pessoal a necessidade. Separar o espírito das coisas. É a lição de Descartes.

REGRESSO A LILLIPUT


Gulliver em Lilliput


"Na mentalidade primitiva aparecem o sujeito como existente e o verbo ser como activo e transitivo. O mundo para o primitivo nunca é dado, mas é como uma esfera anónima que se parece muito com o anonimato angustiante da existência ainda não assumida por um sujeito."

"Lévy-Bruhl et la philosophie contemporaine" (Emmanuel Lévinas)


O sujeito constrói-se e redimensiona o mundo.

É uma experiência de todos o efeito que produzem em nós os lugares da infância, as casas e as ruas como as sentíamos confusamente, ainda não decididamente objectivas e mensuráveis, quando, como adultos, voltamos a vê-las e a percorrê-las.

Podia-se falar aqui no efeito de Lilliput. Como Gulliver, temos o ponto de vista do gigante.

E é claro que essa indistinção do mundo podia ser angustiante por não sabermos pô-lo à distância.


(José Ames)

DEPOSTA EVIDÊNCIA


http://europa.eu/scadplus/images/

"Chegou-se assim a uma pesquisa científica extremamente rica em resultados que se contenta cada vez mais com legitimar o seu método pelos seus sucessos, sem se questionar sobre o que acontece a esses domínios do saber nos quais essa certeza intersubjectiva não pode ser atingida, nem sobre o sentido geral de se ter de tomar como critério de verdade a certeza intersubjectiva em substituição da evidência que se alcança através de uma longa familiaridade."

"La Confiance" (Niklas Luhmann)


Pensar a certeza intersubjectiva, como critério de verdade, significa fazê-la depender da linguagem.

Mas por essa via podemos chegar a um acordo a que não corresponda, de facto, um mundo, uma realidade objectiva. Contudo, isso não impedirá esse acordo de ter efeitos práticos e de criar uma nova realidade.

Estamos condenados, por isso, a modificar aquilo que vemos e pensamos, sem nunca atingirmos as coisas tal como elas seriam sem a nossa interferência.

Admitindo, porém, que há qualquer coisa como a experiência intuitiva, pré-verbal, que dá lugar a um outro tipo de certeza, ao abandonarmos a evidência como critério, talvez tenhamos perdido uma dimensão essencial.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

CONTROLO REMOTO




"O discurso de Sócrates na "Apologia" é um dos seus exemplos maiores (da persuasão na política), e é contra essa defesa que Platão escreve o "Fédon", uma "apologia revista", que considera, com ironia, "mais persuasiva", uma vez que é rematada por um mito do Além, que inclui castigos e recompensas materiais, sendo calculado de modo a assustar, mais do que a simplesmente persuadir os auditores."

"A Promessa da Política" (Hannah Arendt)


Conhece-se a descendência desse mito na religião cristã.

Platão era pessimista, segundo Arendt, por ter sofrido a desilusão de ver um homem como Sócrates falhar na sua tentativa de convencer os seus juizes.

Não sei se a ideia do Inferno contribuiu para fazer melhores cidadãos, mas se vigorou por tantos séculos é porque era, de algum modo, necessária.

E o facto do Inferno ter, aparentemente, fechado as portas, deve levar-nos a pensar, não que nos livramos de uma superstição útil, por nos termos tornado melhores, mas porque estamos muito mais organizados e funciona um outro tipo de controlo.

Pensemos só no exemplo da pulseira electrónica que encerra o detido numa prisão virtual. Ela é muito mais eficaz do que o medo da condenação às chamas eternas que devia ser sujeito a alguns lapsos de vigilância por incúria, sono ou embriaguez.

Com a pulseira realmente "Deus" não dorme.


Entroncamento (José Ames)

QUEBRA DE ETIQUETA


Etiqueta

"Os Guermantes, ao mesmo tempo que viviam na fina flor da aristocracia, afectavam não fazer nenhum caso da nobreza. As teorias da duquesa de Germantes que, para dizer a verdade, à força de ser Guermantes, se tornava, numa certa medida, em algo de diferente e de mais agradável, punham de tal maneira acima de tudo a inteligência e eram em política tão socialistas que uma pessoa se perguntava em que parte do seu palácio se escondia o génio encarregado de assegurar a manutenção da vida aristocrática (...)"

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)


A contradição da duquesa em "não acreditar nos títulos" e ao mesmo tempo manter o mais selecto dos salões e se referir ao seu próprio marido, perante os domésticos, como o senhor duque, só é possível porque as ideias políticas só mudam o mundo quando estamos dispostos a por elas "abandonar pai e mãe".

Numa sociedade regida pelas boas maneiras, como dizia Alain, pensar é já uma ofensa. Porque o pensamento põe tudo em causa, mesmo as boas maneiras, podendo fazer de uma chapelada um simples cumprimento a outro chapéu (Pascal).

Não se pode pretender que a inteligência está acima do resto sem romper a etiqueta. Mas a duquesa tinha alcançado, graças ao seu snobismo implacável e a algum talento natural, o estatuto de original.

As ideias em que dizia acreditar faziam parte dos seus dotes sociais. Nela, a contradição tornava-a ainda mais apreciada.

Porém, de facto, não pensava. A inteligência e o "espírito" eram apenas uma linguagem entre outras.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A CRIAÇÃO DO NADA


http://sergecar.club.fr/Dessins/foi.jpg

"Segundo uma expressão na moda, inventada como para sublinhar a indiscrição do empreendimento filosófico, ela (a filosofia) é desvelamento. Como, então, tratar enquanto filósofo de uma noção que pertence à intimidade de centenas de milhares de crentes, o mistério dos mistérios da sua teologia e que, depois de quase vinte séculos, reúne os homens e as mulheres com quem partilho o destino e a maior parte das ideias, à excepção precisamente da crença de que é questão esta noite?"

Emmanuel Lévinas (numa conferência realizada em Paris, em Abril de 1968)


O facto das opiniões sobre a religião se dividirem de forma tão marcada, entre crentes e não crentes, é, sem dúvida, um fenómeno de redução da complexidade, como lhe chama Niklas Luhmann.

De facto, a nossa capacidade de crença é mobilizada a todos os instantes e horas e pelas mais insidiosas formas, sem disso nos apercebermos.

Cremos, porque o contrário disso seria, por exemplo, sermos mal educados, termos mau feitio ou ser do contra (o que é também uma crença).

O que mais impressiona no fenómeno da crença colectiva, tão íntima e tão misteriosa, como diz Lévinas, para ser dissecada como um preconceito ou uma ilusão, é a realidade transcendente que faz aparecer no mundo.

E são tão reais os sentimentos, os movimentos e as acções que inspira são tão concretos e efectivos que a história demasiado ingénua que às vezes está na origem do fenómeno é o que menos importa.

Pode-se até fazer fé em quem por natureza não pode ser responsável, nem merece credulidade.


(José Ames)

A MUDANÇA DO SENTIDO



"(...) procedem à troca de nome de todos os conceitos de valor. À prudência chamam agora falta de virilidade, à moderação e à ordem, mesquinhez inculta; e desterram dali todas as virtudes. Sob roupagens sedutoras, entronizam entre gritos de louvor tudo o que é contrário ao que elas representam, e chamam a anarquia de liberdade, a dilapidação dos bens do Estado de magnanimidade, e a desvergonha de valentia."

"A República" (Platão)


Werner Jaeger diz que "Platão usa aqui para os seus fins aquele grandioso relato da obra histórica de Tucídides, onde este descreve a decadência dos costumes, baseando-se na mudança de sentido das palavras." ("Paidéia")

O que o historiador "apresenta para a Grécia inteira como consequência da guerra do Peloponeso", Platão transpõe para a alma do indivíduo. Também nesta uma espécie de guerra civil deu lugar a uma inversão dos valores e à alteração do sentido das palavras.

A "explicação médica do processo político", recorrendo, por exemplo ao conceito de crise e de remédio para ela, não nos deve fazer esquecer que se trata de uma ampliação metodológica (por se verem melhor (?) os efeitos no Estado do que no indivíduo) e que o essencial é a alma.

É por isso que, embora o filósofo antipatizasse fortemente com a democracia, não chega a refutá-la porquanto não é o Estado o verdadeiro objecto do seu estudo.

É óbvio, além disso, que a ideia do rei-filósofo, sendo impraticável (e indesejável) em termos políticos, é a mais apropriada para representar o governo da alma e a unidade do sujeito.

E o que Platão diz sobre a mudança de sentido das palavras, como estratégia política dos inimigos do "Estado", encontra um eco inesperado na situação moderna, descontado o facto de não haver nenhuma estratégia. Digamos que o "sistema", através de mecanismos como a publicidade e os meios de comunicação de massa produz, espontaneamente, a desvalorização e a destruição do sentido das palavras.

Platão sabia que isso era um sintoma de crise e de metabase política. Mas nós já não podemos encontrar em nenhuma metáfora médica a explicação do que vivemos, a começar por hoje quase nem sequer fazer sentido falar em crise de sistema.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

DO ABUSO DO CLOROFÓRMIO


Marie Jean-Pierre Flourens (1794/1867)

"Mas mesmo se nos abstrairmos do facto que a única duvidosa vantagem é um enfraquecimento da memória que dura o tempo da intervenção, o desenvolvimento desta prática parece-me apresentar um outro sério risco. Dado que a formação universitária geral dos nossos médicos é cada vez mais superficial, a medicina poderia atrever-se - na sequência da utilização ilimitada deste remédio - a empreender intervenções cirúrgicas cada vez mais complicadas e difíceis. Em vez de efectuar experiências sobre animais para fazer progredir a ciência, transformará em cobaias os pacientes que nem sequer se aperceberão de nada."

(citado em "La raison dialectique" de Max Horkheimer e Theodor Adorno)


Esta é a transcrição de uma carta de Jean-Pierre Flourens, fisiologista francês, sobre a utilização do clorofórmio.

O seu principal argumento é o de que "na sequência geral da enervação, as dores são ressentidas ainda mais vivamente do que no estado normal. O público é iludido pelo facto do paciente ser incapaz de se recordar do que se passou, uma vez a operação terminada."

Mas o que é uma dor de que não nos lembramos?

Esta concepção do corpo inconsciente que não deixa de sofrer os traumatismos que o narcótico impede que atinjam a consciência pode, de facto, ser generalizada.

Os efeitos a longo prazo, por exemplo, de certas tecnologias, nomeadamente as que produzem radiações ainda não suficientemente estudadas, não deixarão de ser averbados ao nosso estado físico e mental, num futuro mais ou menos próximo, mesmo se actua sobre a consciência dos danos uma outra espécie de clorofórmio que é a habituação e a sugestão colectiva ou institucional.

E o que se diz sobre alguns avanços temerários da medicina poderiam ser aplicados, palavra por palavra, à ciência moderna. Tudo o que não se sente imediatamente como limite é como se não existisse.

Como dizem os autores, "a técnica médica e extra-médica tiram a sua força de tal cegueira: ela só terá sido possível graças ao esquecimento. A perda da memória como condição transcendental da ciência. Toda a reificação é um esquecimento."


Alcácer do Sal (José Ames)

A LÓGICA E A MÃO INVISÍVEL



http://www.theatlantic.com/issues

"Uma economia, no sentido restrito do termo, que pode designar um lar, uma quinta, uma empresa ou até a administração das finanças públicas, é efectivamente a organização ou o arranjo deliberado de um conjunto de recursos ao serviço de uma ordem unitária de fins.

(...) A ordem espontânea do mercado que resulta da interacção de numerosas economias desta ordem é algo de tão fundamentalmente diferente duma economia propriamente dita que temos de considerar como uma grande desgraça que as duas coisas tenham alguma vez utilizado o mesmo nome."

"Essais" (Friedrich Hayek)


Segundo Hayek, a causa principal da condenação do mercado pelos seus opositores reside precisamente em que "o seu carácter ordenado não dependa da sua orientação para uma hierarquia de fins e que, por esse facto, não assegurará, enquanto conjunto, que o mais importante passará antes do menos importante."

E acrescenta que é justamente essa característica, a de não existir "uma escala única de fins concretos" e tampouco uma "opinião particular sobre o que é o mais importante" no governo da sociedade que permite aos indivíduos "utilizar com sucesso o seu conhecimento individual para atingir os seus fins individuais."

Aqui é que bate o ponto.

Os que acreditam no poder da razão (e não são as realizações técnicas o maior propagandista desse poder?) não se conformam, se forem justos, com o que é socialmente aberrante, independentemente de se registarem avanços significativos quando se comparam as épocas (mas são esses avanços mesmos que revelam os anacronismos e as contradições).

Parece um insulto à humanidade que quando se vêem os males não se ataquem imediatamente os problemas e se confie nos resultados, na verdade impressionantes, duma ordem espontânea, tanto mais que, pelo mesmo princípio que leva a sobrestimar a capacidade racional de lidar com uma sociedade desenvolvida, como se fosse um sistema lógico, se atribui a certas forças sociais e económicas uma tendência contrária à do verdadeiro progresso.

É por isso que a ordem espontânea se diz, de facto, uma relação de forças.

Ora, o que é realmente decisivo não é compreender um sistema, de qualquer modo, demasiado complexo para se poder correr o risco de se impor uma opinião sobre a sua essência e sobre o nosso futuro.

O que importa é mobilizar a inteligência do maior número possível, não para um fim único que não é possível estabelecer, mas para qualquer fim suficientemente motivado que respeite as regras da convivência e da justiça.

domingo, 14 de outubro de 2007

O PESCOÇO QUE LEMBRA A CATÁSTROFE


Madame de Lamballe (1749/1792)


"Via-se que entre os mercenários e os fanáticos se travava uma luta por causa dela. Um dos mais raivosos, um pequeno fabricante de perucas, Charlat, tambor nos voluntários, caminha para ela e arranca-lhe o barrete com o chuço; os seus belos cabelos desenrolam-se e caiem por todos os lados. A mão desastrada ou ébria que lhe fizera este ultraje tremia, e o chuço aflorara-lhe a fronte; Mme. de Lamballe sangrava. A vista do sangue produziu o seu habitual efeito; vários se lançaram sobre ela, um deles veio por trás e atirou-lhe uma acha; ela caiu e imediatamente foi trespassada várias vezes. Ainda mal respirava, por uma indigna curiosidade que foi talvez a causa principal da sua morte, os assistentes, julgando surpreender nela algum vergonhoso mistério que confirmava os rumores que haviam corrido. Arrancaram-lhe tudo, vestido e camisa; e nua, como veio ao mundo, foi estendida ao canto de um marco, à entrada da rua Saint-Antoine."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Depois de lhe cortarem o sexo e a cabeça, passearam-na pela cidade e levaram-na a uma das futuras vítimas (o duque de Orléans) e ao Templo onde o rei estava prisioneiro com a família.

Esta cena é descrita por Grace na "Inglesa e o Duque", o filme de Rohmer.

Madame de Lamballe tinha o defeito de amar a detestada austríaca. Prejudicara-a muito que a rainha tivesse utilizado a sua casa para algumas reuniões secretas.

O massacre dos prisioneiros, de Setembro de 1792, perpetrado por umas dezenas de "fanáticos e de mercenários", com a mira de se locupletarem com os despojos, engrossou, talvez mais do que qualquer outra causa o número dos inimigos da Revolução.

Naquele momento só o partido mais extremista podia, avalizando os crimes, mostrar alguma espécie de poder.

Nenhuma das grandes figuras políticas se arriscou a denunciá-los, fosse por medo, ou para não serem ultrapassados por outro mais violento.

A máquina do terror estava montada e só tinha lugar para um mecânico que, pelo seu carácter jesuítico e dissimulado, tanto como pela sua honestidade, fosse o cérebro dessa ferragem assassina.

Esse mecânico foi Robespierre.


(José Ames)

UM PROBLEMA DE PIGMENTAÇÃO


"Adivinha quem vem jantar"
(1967-Stanley Kramer)


Sidney Poitier foi na história do preconceito racial no cinema o rosto da mudança.

Num filme como "Adivinha quem vem jantar" vemos que o casal de liberais que se confronta com a escolha da filha de casar com um negro, belo e educado, dotado de um currículo profissional distintíssimo, não teve só a coerência das suas posições públicas sobre o assunto a impedi-los de ceder ao "instinto social".

As hesitações e as moratórias só servem aqui a acção dramática, porque este doutor Prentice é, de facto, um negro-branco, tanto pela sua perfeita adesão aos valores do "establishment", como pela ausência de qualquer peculiaridade rácica, além de um certo problema de pigmentação.

Quarenta anos depois do filme, damo-nos conta do caminho percorrido e de como foi preciso começar pelo espécime perfeito, quando toda a diferença física era um argumento.

sábado, 13 de outubro de 2007


Toledo (José Ames)

EPÍSTOLAS


S. Paulo escreve as suas Epístolas


Duas pessoas podem sofrer de não poderem trocar correspondência. A distância existe, mas não é geográfica. Porém, o carteiro seria um enviado dos deuses. O amor pode ser soprado na nossa orelha e é assim que as mais das vezes a imaginação é apanhada, tão fácil é a um terceiro modelar com as suas palavras a imagem que temos do outro. Porque quando temos a impressão de ser mais livres e de seguir menos uma regra exterior, é quando precisamos mais de razões para nos decidirmos.

Talvez que verdadeiramente ninguém seja lógico quando escolhe o par. E que exista já nessa escolha um desejo de obediência a um princípio superior à nossa vontade, mas que não se quer assumir. O alcoviteiro bem pode ser o que põe o peso numa balança que não quer matéria. Ele liberta-nos do medo de fazermos o próprio destino e de sermos responsáveis por todos os males futuros. O oráculo põe fim à falta de coragem. Não é a beleza a espécie de consenso que o amor procura? Amamos mais a opinião do que o que é perfeito. E pela mesma razão de há pouco: é preciso dizer eu quero, mas também saber por que quero.

A escolha dum companheiro é demasiado grave para não ser pensada. Mas pensar o quê? Tudo é arbitrário antes de ser. Como julgar o que ainda não é? Porque é a união que é necessário julgar. E a opinião dos outros, mesmo quando é o culto da beleza feminina, é o único pensamento disponível e criador.

Como funciona a literatura epistolar? A carta pode fazer o amor? Quem escreve dá-se a ver, mas quem nos escreve na linguagem amorosa, que é abandono do mundo e existência para nós, quer ver uma única pessoa. Assim solicitada, a nossa experiência infantil impede-nos de ver no outro um simples objecto de escolha abstracta. Procuramos a leitura maternal, em vez duma evidência socialmente instituída. Eis por que a correspondência é sempre demasiado lisonjeira para o amoroso.

E nada prova, antes pelo contrário, que seja possível actualizar a literatura no amor da presença. A carta pode despertar o amor sem dúvida, mas como fazer permanentemente distância à beira do amante? Porém, o desejo, passado o que mantém a palavra, é precisamente um jogo e uma distância artificial que, todavia, não sabe inspirar a paixão da literatura. É o tempo da amizade ou das cinzas.