segunda-feira, 30 de novembro de 2015

(José Ames)

ATÉ À BORRA


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" A adaptação a uma nova situação, boa ou má, consiste em grande parte em pensar cada vez menos nela."
(Daniel Kahnman)

Quase nunca um novo factor se apresenta como um problema de adaptação; adaptamo-nos, pouco a pouco, sem pensar nele. É o processo 'natural', o da 'evolução das espécies.

Mas, é claro que, por exemplo, a 'engenharia social' pode colocar um problema de adaptação (às vezes traumático) de que em princípio deveríamos ter consciência. O que acontece é que quase nunca controlamos as consequências (daí Karl Popper aconselhar a 'pequena cirurgia').

A 'grande cirurgia', sendo muito mais arriscada, como a de Lenine ou a de Gorbatchov, se nos esquecermos dos enormes sacrifícios que representaram, neste caso, para o povo russo, é uma grande oportunidade para o conhecimento humano.

A adaptação de uma sociedade maioritariamente rural ao lema dos 'sovietes mais a electricidade' foi uma epopeia e, ao mesmo tempo, uma catástrofe humanitária, que acabou por 'sovietizar' o campesinato com uma religião materialista. Pelo seu lado, a 'Perestroika" do mais célebre 'aprendiz de feiticeiro' dos tempos modernos, trouxe um caos que em nada fica atrás, em custos humanos, do que foi causado pelo regime do czar ou da revolução bolchevique, antes de Estaline.

Todos sabemos por experiência própria que, na maioria dos casos, somos capazes de nos adaptar a uma situação nova, tanto melhor quanto menos ela exigir que pensemos nela.

Segundo o fresco impressionante do último Nobel da Literatura, pensar no destino da Rússia tornou-se cada vez mais um sintoma de desadaptação. Não pensar nisso tornou-se completamente impossível, sem beber a alma até à borra.


domingo, 29 de novembro de 2015

Santo Tirso

O CAPACETE


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"(...) a ciência pensa como uma assembleia, como um tribunal ou uma igreja, e funciona como eles, de maneira que, na realidade, a história das ciências evolui, no pormenor como nas leis de conjunto, como uma repetição da história das religiões ou do direito."
(Michel Serres)

"(...) visto que a tradição nos impõe que apenas existe objecto de conhecimento para um sujeito individual e que o colectivo não pode conhecer objectivamente, pois o seu único objecto são as suas relações." (idem)

Apesar de se dizer que 200 cabeças pensam melhor do que uma só cabeça, a verdade é que uma assembleia não pensa, embora geralmente possa decidir, segundo certas regras e na base de ideias pensadas individualmente. Simone Weil dizia que um colectivo nem sequer consegue fazer uma conta de somar.

A pertinência daquele adágio está nisto: que 200 cabeças, pensando por si, dão melhor conta do interesse colectivo do que uma cabeça 'iluminada'. Quando se entra numa assembleia, o colectivo é uma espécie de capacete que condiciona o pensamento. Isto é ainda mais verdadeiro em relação aos partidos.

Mas o filósofo diz, na epígrafe, que a ciência 'pensa' como uma assembleia. E uma das saídas deste paradoxo é considerar a assembleia como o momento da decisão. A 'reflexão', neste caso, é pura retórica, visto que os partidos já reflectiram no local próprio, antes da assembleia. Um congresso é o estado mais depurado deste ritual. A história destas decisões é que poderia ser tomada como a história do pensamento objectivado quer do órgão político, quer do direito quer mesmo das ciências.

sábado, 28 de novembro de 2015

Alentejo (José Ames)

POR DETRÁS DA CRUZ

“Suffering man” de Matthias Grunewald


"O repúdio do nome e do predicado de religião nas ordens ocidentais é talvez o sinal mais tenebroso da renúncia ao mandato entre todos santo e precioso: confirmar, custodiar destinos. Porque a religião não é senão o destino santificado e o massacre universal do símbolo, a inexpiável crucificação da beleza, como já disse, é o massacre e a crucificação de destinos."
"Os Imperdoáveis" (Cristina Campo)


Isto anda muito próximo do "amor fati" dos estóicos e do pensamento de Simone Weil.

O mandato de que aqui se fala é o da obediência de livre vontade ao que, de qualquer modo, nos destrói.

Podemos, em vez disso, rebelar-nos em nome da utopia, como se a única legitimidade fosse a humana.

Porque só vemos sentido naquilo que nós mesmos criamos, embora isso seja uma ínfima porção do que somos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Cork

O AGENTE RACIONAL


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"O estudo da mão fria mostrou que não podemos confiar plenamente em que as nossas preferências reflitam os nossos interesses, ainda que sejam baseadas na experiência pessoal e ainda que a recordação dessa experiência tenha sido obtida no último quarto de hora! Os gostos e as decisões são moldados pelas recordações e as recordações podem ser erradas. A evidência apresenta um profundo desafio à ideia de que os seres humanos têm preferências consistentes e que sabem como maximizá-las, uma pedra angular do modelo do agente racional."

("Pensar Depressa e Devagar", Daniel Kahnman)

A aposta no modelo do 'agente racional' não tem, pois, fundamento científico. Nem connosco mesmos, sem influências externas, deixamos de fazer escolhas erradas. O corpo interfere, sempre.

Mas, em política económica, por exemplo, não seria igualmente pouco avisado equiparar essa falta de consistência das preferências humanas à inércia de um agente físico, sem ter em conta a parte de racionalidade que nelas se encontra presente?

Alguém disse que um louco só precisa de encontrar outro louco igual a ele para 'ter razão'. Claro que um louco solitário pode achar-se com razão, contra o mundo. Mas o acordo com outro ou outros salva-o do puro subjectivismo e legitima um princípio de racionalidade.

Porque somos racionais, os nossos erros podem tornar-se sistemáticos e, logo, mais previsíveis. As nossas emoções podem ser potenciadas nos seus efeitos. Um mau juízo não deixa de consolidar um carácter. As nossas percepções, sem o enquadramento racional, provavelmente, nem deixariam memória, a mesma memória que quase sempre nos trai. Em resultado disto, deveríamos ser também previsíveis. Mas seria preciso que os modelos dessem conta do paradoxo.

A teoria do agente racional representa uma tentativa para nos sujeitar a sistemas especulativos como a economia e a psicologia que requerem uma previsibilidade do tipo da do 'agente racional'.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

(José Ames)

O ENIGMA DA ARTE



(Rembrandt)

"Todas as obras de arte, diz Adorno, e a arte em geral são enigmas. (...) mas o carácter enigmático não constitui a última palavra das obras; pelo contrário, toda a obra autêntica propõe igualmente a solução do seu enigma insolúvel."
(Michel Meyer)

Em primeiro lugar, temos de admitir o enigma que existe entre o corpo e a pessoa do artista e a sua produção artística. É certo que ele próprio não conhece essa 'alquimia'. Mas esta condição não é específica da arte. Não conhecemos as características nem a dimensão do 'input'. Quanto ao 'output', podemos aplicar-lhe as grelhas (e gralhas) de leitura que quisermos. O estilo de um pintor como Picasso, por exemplo, obriga a um certo contorcionismo de leituras, porque o artista não tem uma só 'persona'.

A ideia de que há um enigma, na arte, com solução explícita ou implícita, corresponde a uma visão superficial e de natureza lúdica, como aqueles passatempos que nos desafiam a encontrar as diferenças.

Por outro lado, qual seria a solução de um retrato 'realista', para além da identificação do retratado? Ou, segundo o artista, de uma das suas facetas?

O verdadeiro enigma encontra o seu grau zero na cópia absoluta.



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

(Amarante)

LÁZARO


(Giotto)

"O último dos mendigos tem sempre qualquer coisa de supérfluo! Reduza-se a natureza às necessidades da natureza e o homem é um animal."

(Shakespeare, citado por Lipovetsky)

Mas o homem é quem julga a natureza porque a cria à sua imagem. Não, evidentemente, o que 'está por detrás' da nossa ideia da natureza, mas a ideia mesma.

O 'supérfluo' é, neste caso, o essencial. 'O último dos mendigos', por muito perto que esteja de cair na natureza, é ainda o juiz da sua decadência.

'É isto um homem?', o grito de Primo Levi, só pode ter uma resposta afirmativa. O 'supérfluo' resistiu à aniquilação e escreveu a obra que é um desmentido da natureza.

Mas em muitos casos, se desmentido houve, temos de evocar a figura de Lázaro...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

(José Ames)

NO FIM, A ORGIA


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"O fim da história de que falam os nossos homens de progresso é a orgia."
(Albert Camus)

Esse progresso vive da ideia de que se pode facilitar a vida dos homens até que o trabalho e todo o esforço obrigatório sejam dispensáveis, até que a velhice e a doença e a própria morte se tornem obsoletas. A orgia é, pois, o que fica depois de removidas todas aquelas coisas desagradáveis.

É curioso que este 'fim da história' encontre um equivalente na crença do radicalismo islâmico nas 'mil virgens' que esperam o mártir, no 'outro lado'. E, no entanto, este fanático religioso não pode ser chamado de niilista, porque acima da 'recompensa' acredita no profeta e na sua 'guerra santa'. Assim, é possível que uma versão da história se imponha a outra, porque a 'orgia' não pode ser uma finalidade humana e, só por isso, merece ser derrotada.

O capitalismo é aquele sistema sem alma que todos os seus críticos, marxistas e não-marxistas, disseram que era. Podemos imaginar um mercado 'orgíaco', mas também um progresso que não nos degrade. E o sistema capitalista não é 'totalitário' como uma religião pode ser.

Mas num combate por princípios, o mercado é a parte mais fraca.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Balmoral

ALÉM DE KANT

Immanuel Kant


"(...) a proposição pode apresentar-nos a realidade inteira, mas ela não pode apresentar-nos aquilo que deve ter em comum com a realidade para no-la poder apresentar."

"Tratactus Logico-Philosophicus" (Ludwig Wittgenstein)


A sombra não pode tornar-se independente do corpo. Não podemos saltar sobre ela. Voltamos à encruzilhada onde Kant nos deixou. Os fenómenos podem ser conhecidos, mas não o que está por detrás da última aparência. Mas também não existe um derradeiro véu para a nossa ilusão.

No entanto, há mais do que interpretação no sucesso da ciência e, evidentemente, mais do que coincidência. Embora, nas palavras do filósofo, não possamos 'apresentar o que há de comum' entre a linguagem e a realidade, a pressuposição de que existe uma 'ligação' e um encadeamento lógico entre ambas é a 'aposta' que todos fazemos naturalmente e, sem a qual, o mundo não faria sentido, isto é, onde não nos sentiríamos 'em casa'.

Portanto, a 'realidade' acaba por ser uma fronteira que, se fosse possível atravessar, não nos faria mudar de mundo.

A ciência já pressupõe que a matemática é a linguagem do cosmos. Um pouco mais de 'visão' levar-nos-ia a reconhecer que todo o humano é cósmico.

domingo, 22 de novembro de 2015

(José Ames)

RETÓRICA NATURAL

MC Escher


"O conceito chave da retórica é a divisão: os homens são divididos e raciocinam transferindo para os seus conceitos as suas oposições e as suas diferenças; donde a retórica que lhes é 'natural', e que visa a restabelecer a identidade."

(Michel Meyer, sobre Kenneth Burke)

Como se percebe, esta opinião vai muito para além do ornamento literário que "em vez de seguir a forma, se torna ele próprio forma" (Alain). Como se a 'arte da eloquência" dependesse da divisão ali enunciada? Como se o interesse do auditor fosse estimulado por esse início de paixão, esse antagonismo larvar.

A tese é a de que a nossa identidade não é o fruto natural da igualdade dos indistintos, mas das 'oposições e diferenças' que estabelecemos com os nossos semelhantes.

As civilizações orientais têm, certamente, uma outra matriz, na qual o indivíduo é muito menos solicitado a lutar pela sua identidade do que a fundir-se numa identidade maior.

Mas imaginar que existe, na linguagem ocidental, um 'a priori' agonista (Chantal Mouffe) de natureza pré-política leva-nos a pensar que esse 'a priori' deve ter sido adquirido muito antes do capitalismo.

sábado, 21 de novembro de 2015

(Lodz)

SACIEDADE

Anton Tchekov (1860/1904)


"Tchekov sabe muito bem - e com que paciente obstinação se aplicou a demonstrá-lo - que o fechado e imóvel círculo do hábito é a roda que mais velozmente rapta a alma à morte. O que se pode opor portanto ao hábito ( a que ele chama com frequência, justamente, "saciedade"), o que pode enfrentá-lo como remédio e salvação senão o seu contrário, a atenção?" E também: "Pedir a um homem que nunca se distraia, que subtraia sem descanso ao equívoco da imaginação, à preguiça do hábito, à hipnose do costume, a sua faculdade de atenção, é pedir-lhe que actue na sua máxima forma."

"Os Imperdoáveis" (Cristina Campo)


A propósito de Tchekov, um outro eco weiliano na autora italiana.

A atenção que ela aqui opõe ao hábito não é a concentração do espírito num objecto, para o conhecer ou modificar, relaxando-se em seguida, precisamente, no hábito.

É mais um estado de vigília, aquilo sem dúvida que, na Epístola aos Tessalonicenses, S. Paulo entendia por: orar, sem cessar. E Cristina Campo comenta que foi a estranheza dessas palavras que levou o autor anónimo (do século XIX) do "Peregrino russo" a iniciar a sua deambulação. Refere também que, hoje, se perdeu o sentido da oração que passou a ser apenas o duma "petição". É o mesmo espírito de "o tempo é dinheiro", a oração não podendo igualmente deixar de render.

O hábito, de qualquer modo, se calhar aquela felicidade de que só nos damos conta depois de a termos perdido e porque a perdemos, é o verdadeiro ladrão do tempo.

Quando nos damos conta, já vivemos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Sem título


(José Ames)

O PRAZER E O VÍCIO

(Giotto)

"(...) nada é mais limitado do que o prazer e o vício. Pode-se verdadeiramente, nesse sentido, mudando o sentido da expressão, dizer que se anda sempre à volta do mesmo círculo vicioso."

"Le Temps Retrouvé" (Marcel Proust)

O oposto do vício é a virtude, e cada um de nós é vicioso ou virtuoso conforme a sua forma e não de uma maneira abstracta. Daí que já se tenha observado que os nossos vícios são mais parecidos com as nossas virtudes do que com os vícios de outra pessoa, o mesmo valendo para as virtudes.

Sendo assim, não é tão difícil como isso imaginar um mesmo círculo por detrás das nossas qualidades e defeitos e que, como a um agulheiro ferroviário, bastasse um desvio da linha para mudar de direcção.

Porque uma coisa é certa, nenhuma virtude está completamente 'incomunicável' em relação ao seu gémeo vicioso, e nenhuma qualidade é para sempre. Já o vício é um plano inclinado em que se exerce como que uma força de gravidade.

Note-se, aliás, que Marcel, examinando a questão como na sua célebre imagem do aquário que nos permitiria observar o comportamento humano com a 'isenção' do ictiologista, traçou o destino do prazer colocando-o no mesmo círculo, embora na órbita inversa da do vício.

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Aquileia

A IDEIA ÚNICA

(Madame de Staël)


"A natureza em nada está submetida ao império de uma só lei. A loucura consiste no domínio de uma ideia única, e quando se pretende organizar a sociedade como a cabeça de um homem demente [...], o que parecia ser a clareza evidente pela combinação abstracta, na sua aplicação não é mais do que o caos."
(Mme. de Staël)

Em certos aspectos, somos ainda mais racionalistas do que o século XVIII, pois que ainda buscamos uma 'teoria de tudo' para explicar a 'natureza'.

Mas esteja ou não a razão por detrás da 'ideia única', podia dizer-se que esta sempre foi, de uma maneira ou doutra necessária para organizar o caos, e a ideia de Deus talvez tenha sido a primeira 'teoria de tudo'.

O radicalismo islâmico parece ter prescindido de uma fase 'iluminista' para chegar à sua 'ideia única'. Bastou-lhe diabolizar a dissidência (xiita, sunita, ou o que seja) e os infiéis de qualquer parte do mundo, para idealizar o Bem para que os crentes foram predestinados.

Esta diabolização não desqualifica a natureza racional do pensamento único, que pode ser lógico, consequente e compatível com as altas matemáticas. A necessidade (física ou abstracta) é o departamento da razão; a ideia do Bem é platónica e decide-se 'com o corpo todo', se entendermos bem o platonismo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

(José Ames)

OFTALMOLOGIA

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"Ora aquilo  que  dissemos  mostra  que  a  faculdade  de  aprender  e  o  órgão  dessa faculdade  existem  na  alma  de  cada  um.  Mas  existem  lá  como  um  olho  que  não poderia,  a  não  ser  acompanhado  por  todo  o  corpo,  voltar-se  para  a  luz  e  deixar  as trevas."
"A República"  (Platão)

Isto, apesar da metáfora, talvez  'ingénua' aos nossos olhos, parece ainda escapar-nos.  O idealismo platónico concebe a alma como prisioneira do corpo, logo, compreende-se que a verdadeira sabedoria esteja dependente de uma posição do corpo, este deve virar-se para a luz para que o 'olho interior' (chamemos-lhe assim) possa ver. Mas aqui trata-se, explicitamente, de uma analogia. O que quer dizer Platão?

Notemos que a célebre fórmula da 'mens sana in corpore sano' (de origem latina) que define as relações ideais entre o corpo e o espírito, deixa ainda a alma no seu cativeiro. E a visão das silhuetas, na Caverna, depende também do corpo estar voltado para elas...

A alegoria 'oftalmológica' privilegia a razão estratégica e a perspectiva de um território. O espírito científico terá tido outros começos, mas aqui se apura, talvez, a diferença 'ocidental'.

Os limites da especialização também são anunciados. O olho tem de voltar-se para a luz,  'acompanhado por todo o corpo'.

Sabemos como a razão separada, o estrabismo cientista se podem aproximar da loucura. Os monstros que o 'sono da razão' engendra, equiparam-se à prole não menos monstruosa da razão abstracta.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cacela Velha

ARTE E VIOLÊNCIA

O retábulo de Isenheim de Mathias Grünewald



Depois de ver o filme de Mel Gibson, um escrúpulo me assaltou e que me foi suscitado pelo retábulo de Isenheim, em que Grünwald, ultrapassando todos os cânones da tradição e do "bom gosto", antecipando o que viria a ser o expressionismo, nos dá um Cristo leproso, pendurado ainda na cruz, mas em estado de putrefacção, sem dúvida com a intenção de nos mover à conversão e ao arrependimento.

Penso que não há qualquer comparação entre o nível de inspiração da pintura e a do filme. Mas, exterior à arte, há ou não em ambas as obras a mesma "militância"?

Hoje admiramos o retábulo de Colmar, e a anomalia da forma é perfeitamente compreendida como metáfora, os vários planos da realidade e do tempo podem co-existir sem que isso nos perturbe mais do que a co-existência no espaço, graças à perspectiva.

O filme de Mel é insuportável, e isso deve-se em grande parte ao poder do cinema. E talvez seja esse poder que, mais do que tudo, condene, esta ideia de nos fazer sofrer através das imagens.

Grünewald estimula a nossa contemplação. Não é o caso aqui, por excesso de violência.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

(José Ames)

O QUE É O MAL?

Friedrich Nietzsche (1844/1900)


"O mal verdadeiro, o mal do mal, não é a violação dum interdito, a subversão da lei, a desobediência, mas sim a fraude na obra de totalização (...) se o mal do mal nasce da vida da totalização, ele só aparece numa patologia da esperança, como a perversão inerente à problemática da realização plena e da totalização."

"Le conflit des interprétations. Essais d' herméneutique", de Paul Ricoeur, citado por Fernanda Henriques ("Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal")


Esta interpretação do mal parece nascer directamente da experiência, no século XX, do fenómeno totalitário e ter, portanto, uma causa exclusivamente humana.

A fraude de que fala Ricoeur, afastada a hipótese do "Malin Génie" de Descartes que nos iludiria nas nossas próprias evidências é, então, a mentira consubstancial a um sistema, do qual brota como um manancial poluído.

E escusado será dizer que tanto os que beneficiam do sistema são agentes do mal, como os que são enganados por aqueles. Nada escapa à influência deletéria deste mundo das trevas, a partir do momento em que dar uma espécie de cumprimento à utopia parece ser a única forma do poder se conservar, mesmo se para isso tem de adoptar a linguagem dúplice e sacrificar a verdade. Ou seja, esta deixa de ser independente do sistema e passa a confundir-se com a coerência.

Para se perceber o significado da experiência-limite do século XX, basta ter presente a definição de Nietzsche:

"O mal não é um problema abstracto que é preciso resolver, mas um trágico afrontamento de que é preciso sair vencedor."

E, no entanto, nesta apologia da vida, já se poderá ver o "ovo da serpente".

domingo, 15 de novembro de 2015

(Lisboa)

O TORRÃO DE AÇÚCAR DE "AZUL"

Krzystof Kieslowski (1941/1996)


Explicando o grande plano, em que se vê Julie (Juliette Binoche), em "Azul", embeber de café um torrão de açúcar, Kieslowski diz-nos que a personagem, que acaba de recusar o amor de Olivier e se isola do(no) passado e do acidente que mudou a sua vida, reduziu o mundo àquele pedaço de matéria.

A sua atenção concentrada nesse objecto, não podendo ser mais concreto, e ao mesmo tempo mais abstracto, pelo corte de todas as suas relações com o mundo, é uma verdadeira arma.

A propósito, sabendo da preocupação de Kieslowski em reduzir de 8 segundos para metade o tempo que leva, nessa cena, a osmose do café, porque o espectador não suportaria a demora do grande plano num detalhe como esse, não pude deixar de pensar em como tudo é ético neste cineasta.

sábado, 14 de novembro de 2015

(José Ames)

A VERDADE DE PILATOS

Justiça (Lorenzo Bernini)




A verdade deve estar acima disso. Mas é caso para se falar de uma energética da verdade, que explicaria por que é que, por exemplo, a idade nos faz pensar duma certa maneira de preferência a outra e de, através de sucessivos e subtis deslizamentos, a nossa disposição, a energia de que dispomos, nos dar um motivo e uma conclusão antes de sabermos o que pensar das coisas em concreto.

É por isso que não é nada evidente que o veredicto dum Conselho de Anciãos esteja mais próximo da verdade do que a decisão de um "herói".

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

(Anvers)

O MUJIQUE E O COWBOY



"- Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho."

"A cidade e as Serras" (Eça de Queiroz)

O pai de Svetlana Aleksievitch ('O Fim do Homem Soviético') recordava que "pessoalmente passou a acreditar no comunismo depois do voo de Gagarin."

Quantas pessoas 'passam a acreditar' numa coisa quando foi outra, muito diferente, que se tornou mais credível? Por esta lógica, a conquista de um título desportivo tem mais possibilidades de reforçar um regime do que a sua propaganda. Não é que os êxitos em qualquer domínio, durante a Guerra Fria, não fossem objecto de propaganda. Por parte da URSS, para demonstrar uma pretensa superioridade moral ou científica; a proeza de Gagarin não foi excepção. Os Americanos, pelo seu lado, faziam outrotanto para engrandecer o seu prestígio de grande potência, mesmo tentando ocultar os paradoxos da sua democracia.

A lição que se tira deste comportamento e desta estratégia 'imperial' é que 'levar a água ao seu moinho' se torna mais eficaz, a partir de uma certa posição, do que brandir princípios ou disputar o território da 'verdade'.

O pai de Svetlana, de facto, cedeu à demonstração ideológica da superioridade soviética (era ainda a convicção de Krushov, que esperava ultrapassar os EUA numa década), baseada no inesperado sucesso do primeiro ímpeto da corrida espacial. Este sucesso não era apenas científico, nem apenas técnico. Era místico-político, como era natural que fosse num país que acordava do sono mujique para o estrondo do Sputnik. 

Sugerindo um curioso paralelo, 'Dr. Strangelove' de Kubrick mostra-nos um 'cowboy-kamikaze' a montar um míssil nuclear. 


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

(José Ames)

AS ALMAS DESCONHECIDAS

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"(...) dizer que se tem uma alma grande, nobre, cobarde, temerária ou baixa, é ainda concebível, mas dizer simplesmente 'a minha alma', ninguém teria a coragem. É uma palavra estritamente reservada às pessoas de idade, e só se pode compreender se admitirmos que se torna cada vez mais sensível no decurso da vida uma qualquer coisa para a qual se tem grande necessidade de um nome, sem se chegar a encontrá-lo, até ao dia em que, enfim, se aceita a contragosto adoptar aquele que primeiro tínhamos desdenhado."

"L'Homme Sans Qualités" (Robert Musil)

Qual é essa coisa que os "jovens não podem pronunciar sem se rirem"? É como se estivessem ofuscados pela luz que emana da sua juventude. Na fase seguinte confunde-se essa coisa com o carácter, porque o carácter parece algo de concreto. Mas poderia bastar para definir um homem? Então tem-se a sensação que as palavras ficam muito aquém da realidade. Na fase final, adopta-se a palavra, à falta de melhor. Na velhice, a luz torna-se quase toda interior, mas não se sabe dizer o que significa. É o contrário da ofuscação, a qual não se deixa pensar. Mas o pensamento da velhice é lunar. A sua luz não aquece e não pode ressuscitar o colibri da ilusão.

Dir-se-ia que a tradição católica nos permite 'ter uma alma' e não uma soma de traços caracteriais. Mas é  tão-só o domínio em que a sociedade civil de bom grado cede ao 'braço espiritual' a gestão dos mortos.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

(Hamburgo)

O RELÓGIO DE PULSO


(Henry Kissinger, Richard Nixon e Chou-en-Lai)

"Deng, em 1992, exaltou os 'quatro grandes artigos' que era essencial disponibilizar aos consumidores do campo: uma bicicleta, uma máquina de costura, um rádio e um relógio de pulso."

A citação é de Henry Kissinger, no seu livro sobre a China.

Da enumeração, talvez o relógio de pulso seja o artigo mais interessante. E talvez o mais 'caricato'. Essa prótese, para nós, é tão natural como uma cama para dormir. Já não podemos conceber a vida citadina sem essa  epígrafe do contrato social. O Estado e a própria economia dependem de todos nos guiarmos por um tempo comum. Em sinal de rebeldia, quem já não tentou, nas férias (se não precisar de um transporte ou de um serviço público), ou no fim-de-semana, viver sem o inexorável adereço?

A administração militar dos Romanos forjou as bases do nosso Estado centralizado enquanto o chamado Império do Meio se refinava num tempo estático dentro da sua muralha. A Guerra do Ópio foi uma das muitas humilhações que a actualidade e o imperialismo estrangeiro trouxeram ao povo chinês.

Depois dos tempos heróicos de Mao que resgatou esse passado ofensivo, a 'medicina' de Deng encontrava a fórmula tradicional de 'dar a volta por cima': "Observe cuidadosamente; fortaleça a sua posição; lide calmamente com os assuntos; oculte as nossas capacidades e aguarde o nosso tempo; seja bom a manter um perfil discreto; e nunca reivindique a liderança. (Deng: 'Instrução de 24 caracteres')

Depois foi o que se viu. Os 'quatro grande artigos' fazem ecoar a célebre palavra de ordem leninista que resumia o programa comunista aos 'sovietes mais a electrificação' do país. Mas a China, país ainda mais rural do que a Rússia, precisava de uma centralização básica que pusesse o Estado moderno no seu soclo.

Os 'quatro artigos' têm tudo o que o campo do ponto de vista comunista precisa para se integrar no sistema: comunicações, indústria familiar, doutrinação.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

(José Ames)

VERDADES PAVLOVIANAS

"O candidato da Manchúria" (1962-John Frankenheimer)


Um filme típico da Guerra Fria é "O candidato da Manchúria" que passou há dias na televisão.

Choca-nos hoje o maniqueísmo dessa psicologia e Frankenheimer não esteve com subtilezas, dando-nos uma história inverosímil, mas instrutiva sobre o espírito da época.

A saga desse pelotão que é raptado durante a guerra da Coreia e caninamente condicionado pelos técnicos do Instituto Pavlov para, já no papel de heróis inconscientes, subverterem as instituições democráticas é o paradigma da "lavagem ao cérebro".

Ontem, como hoje, a construção do inimigo deve ser preservada de todo o contacto com a realidade.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Lisboa

PASCAL E O MARKETING

Blaise Pascal


"Por exemplo, para Pascal é claro que a filosofia - o cartesianismo, entendamo-lo - é a forma sofisticada e mascarada de um divertimento."

"L'anti-philosophie de Wittgenstein" (Alain Badiou)

Compreende-se que, para um jansenista do século XVII, tudo o que nos distrai da regra e da pureza da fé, seja um 'divertimento', algo de oblíquo que conspira contra a nossa 'salvação'.

Custa a crer quanto as coisas se inverteram, entretanto. É o que culpabiliza a diversão ou moraliza sobre a nossa 'insouciance' que hoje parece dominado por um espírito maligno que nos quer privar da única vida que temos.

Mas, se validarmos a ideia de Badiou, teremos de excluir da filosofia os próprios 'Pensamentos' e enfrentar a questão da célebre 'Aposta' ser na sua concepção atingida de 'frivolidade'.

A 'Aposta' (le pari), segundo o fragmento n.233 de 'Pensées', diz: "Tendes duas coisas a perder: o verdadeiro e o bem, e duas coisas a empenhar: a vossa razão e a vossa vontade, o vosso conhecimento e a vossa beatitude; e a vossa natureza tem duas coisas de que fugir: o erro e a miséria. A vossa razão não é mais ferida, escolhendo um ou o outro, uma vez que é preciso necessariamente escolher. Eis um ponto esvaziado. E então a vossa beatitude? Pesemos o ganho e a perda de crer na existência de Deus. Avaliemos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai portanto em que ele existe, sem hesitar."

Pascal revela-se aqui um 'marketeer' 'avant la lettre'. Para conquistar um crente apela ao 'farisaísmo pequeno-burguês', como diria o profeta do 'Manifesto'.

domingo, 8 de novembro de 2015

(José Ames)

O PROFUNDO SEM ESPESSURA

O túmulo de Virgílio

"Conseguiremos alcançar, com o nosso trabalho voltado para a terra, essa profundidade infinita entre todas, bem mais profunda do que o mundo subterrâneo, essa profundidade que é ao mesmo tempo a dos mais altos céus?"
"A morte de Virgílio" (Hermann Broch)

Há quem diga que é na superfície que está todo o profundo.
Não por se ter abdicado de procurar um sentido para lá da aparência, mas porque se acredita que o nosso mundo não é mais do que relação de relações.

Para isto coincidir com o kantismo, só falta supor que o nosso mundo não é a realidade das coisas.

Virgílio quer destruir o poema porque vai contra a revelação da sua morte. Porque testemunha contra a verdade para além da beleza e da arte.

É Augusto, no romance, que se ergue contra: "A tua obra é Roma, e por isso um bem do povo romano e do Estado romano, que tu serves, como todos nós temos de o servir... somente o que não está feito nos pertence individualmente, talvez também o acto falhado e infrutífero; mas o que foi de facto realizado pertence a todos, pertence ao mundo." (ibidem)

sábado, 7 de novembro de 2015

Alentejo (José Ames)

NO SERVO TUDO SE APROVEITA

Nicolai Gogol (1809/1852)


Ao reler Gogol, muitas vezes penso em como este humor corrosivo se aparenta ao do nosso Eça.

A ideia estapafúrdia de comprar almas mortas ( a riqueza dos senhores da terra, na Rússia, contava-se em almas de servos do sexo masculino), que lhe terá, aparentemente, sido inspirada pelo seu amigo Pushkin, é daqueles absurdos que denuncia a lógica profunda de certos sistemas racionais.

Afinal, se a alma é o que temos de mais precioso, e se é, justamente, a medida da riqueza dos proprietários, por que é que um pormenor como a morte há-de impedir Sobakevitch, para regatear o preço das suas almas, de exaltar as qualidades morais do defunto, como se ele ainda pudesse servir para alguma coisa?

É caso para dizer que no servo tudo se aproveita, e até a alma, depois de morto, pode ter o seu rendimento.