sábado, 31 de outubro de 2015

Gisé (José Ames)

DO ESCARRADOR

O escarrador e uma cena do "Doente imaginário", de Molière


"(...) um pai duma compleição doentia, numa comprida casaca forrada de astracã e de pés nus enfiados em chinelos tricotados, que suspirava sem parar enquanto percorria o seu quarto e expectorava para um escarrador cheio de areia depositado num canto;"
"As almas mortas" (Nicolai Gogol)


O escarrador foi um desses acessórios que em todos as casas e escritórios se impunham, há uns anos atrás, duma utilidade que ninguém questionava, até o momento em que desapareceram das nossas vidas, sem qualquer explicação, apesar de, como é óbvio, continuarmos a cuspir.

Ora, há ideias que ocupam o fundo das nossas cabeças, que aparentemente sempre estiveram lá e que, sem sabermos como, se tornam obsoletas e são substituídas, da noite para o dia, por outras com outro design e outra função.

Embora mobilem o nosso interior, essas ideias de facto não nos pertencem, pelo que é natural que não nos seja pedida a opinião sobre o assunto.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Roma

O CASO DA PLAYBOY

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"Nunca consegui misturar-me ao murmúrio comum dessa geração ascendente contra a monogamia, porque nenhuma restrição aplicada ao sexo me parece tão estranha e inesperada quanto o próprio sexo."
"Orthodoxy" (G.K. Chesterton)

Em 'Masters of Sex', série televisiva da Showtime, assistimos, depois da revolução freudiana, nos anos cinquenta do século passado, ao dealbar dos estudos 'in corpus vile' sobre o sexo, levados a cabo por William Masters e Virginia Johnson.

Essa equipa pioneira encontrou, como era natural, alguns dos preconceitos mais arreigados de qualquer sociedade, tendo igualmente de enfrentar  a sua própria subjectividade, os seus sentimentos e inclinações, acreditando embora na imparcialidade e objectividade do 'método experimental'.

A psicanálise, a partir de um problema médico, criou o objecto da análise, pondo fim a um estado de inocência mais do que milenar, e o episódio da 'árvore do conhecimento' e o da 'expulsão do Paraíso' repetiram-se mais uma vez.

Ninguém já considera hoje o sexo com os olhos de Chesterton. Nada de 'estranho', de 'inesperado' ou de misterioso existe nos actuais preconceitos sexuais. Woody Allen já nos deu, num dos seus primeiros filmes, a parábola adequada, em que entram espermatozóides funcionários e cabines para o orgasmo instantâneo.

Por outro lado, o trabalho de implosão do imaginário, através da saturação das imagens, parece ter chegado ao fim de um ciclo, com o anúncio de Hugh Hefner, o patrão da 'Playboy', de que a revista iria, doravante, numa espécie de sequestro de Proserpina, esconder a nudez silicónica num inferno virtual.

Este gesto é característico das tácticas do sistema da moda (Barthes). A nudez, por essa e por outras razões, nunca foi 'real'. A 'Playboy', só consegue 'baralhar e voltar a dar'. 



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

(José Ames)

O FALSO PROFUNDO



George Steiner fala de "um vórtice geral de pseudo-profundidade e arcaísmo que contaminou a língua alemã, desde Herder até Hitler."

Falta, normalmente, à análise desse 'vórtice', que foi o fenómeno do nazismo, o clima cultural em que se deixaram envolver algumas das figuras mais eminentes da elite alemã. Enquanto a república de Weimar se atascava irremediavelmente, os vapores desse ópio intelectual paralisavam a inteligência.

A contaminação da língua a que se refere Steiner foi o estado mais nocivo dessa 'pseudo-profundidade'. A nação, tendo de escolher entre o desespero e a fuga para a frente, predispôs-se a engolir a verborreia assassina do seu líder e a imitar o simulacro de vitalidade  da sua exaltação furiosa.

De facto, a vulnerabilidade de qualquer língua à decomposição do pensamento não é algo que se possa iludir com um reforço académico ou regulamentar. E teríamos de ser muito mais subtís do que aquilo que somos para verificar se existe uma predisposição específica para a abstracção e a pseudo-profundidade na língua de Heidegger.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

(Covilhã)

ABSOLUTISTAS

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"Princípio da Razão Insuficiente: na nossa vida real, quero dizer na nossa vida pessoal, como na nossa vida histórica e pública, apenas se produz aquilo que não tem razão válida."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

O romancista fala ainda da existência de uma 'língua misteriosa' que exige 'uma compreensão particular, imediata, ou melhor ainda uma familiaridade' que permite a certas pessoas 'saltar por cima da compreensão.'

Não podemos compreender um acto da mesma forma que compreendemos um teorema. De facto, não somos capazes de 'incluir' toda a extensão da sua complexidade. Mesmo o que parece ter uma causa conhecida só resulta em compreensão por praticarmos uma vivissecção convencional. Só porque espontaneamente criámos as condições de uma experiência desligada do seu contexto.

Depois do prelúdio da psicanálise que fez entrar o inconsciente, as pulsões involuntárias e a própria mitologia grega no que até ali tinha sido um mistério inexplicável, a justiça oficial passou a ser também sensível às 'condições sociais' como princípio explicatório e atenuante. Ora, esta evolução, este progresso, faz parte do aparato profano e do recuo geral da autoridade, que caracteriza a nossa sociedade.

O 'Princípio da Razão Insuficiente' seria a consequência lógica deste processo. Conhecemos os monstros engendrados pelo 'sono da razão', mas também aqueles, assassinos de outra escala, e por isso mais monstruosos ainda, do absolutismo da razão.

A ameaça vem de serem poucos os praticantes. A paz e o próprio mundo estão ainda à mercê dos absolutistas.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

(José Ames)

MAPAS

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"O que é uma alma? É fácil definí-la negativamente: é muito exactamente aquilo que em nós se retrai quando ouvimos falar de séries algébricas."
"O Homem Sem Qualidades"  (Robert Musil)

Diz-se, justamente, de um político determinado, não embaraçado pela dúvida metódica, ou pela do comum dos mortais, que 'não tem estados de alma'. 'Sabe o que quer', 'que não vai por aí', nem discute certos nomes com maiúscula. Em defesa deste tipo de pessoas, é preciso conceder que são as mais admiradas, num ambiente demasiado complexo, sem âncoras na realidade, onde já não parece encontrar eco o grito do timoneiro da 'Mensagem'.

Os que fecham os olhos e tapam os ouvidos ao turbilhão do mundo para se verem a si próprios e escutarem apenas a sua própria voz dão-nos assim um simulacro de terra firme, e é por isso que são tão populares.

Mas que tipo de afinidade pode haver entre essa 'determinação' e esse simulacro dos homens sem 'estados de alma' e coisas como as 'séries algébricas' de que fala Musil?

O mundo da ciência é um mundo simplificado que funciona segundo as suas próprias leis. É fechado sobre si mesmo, perfeito tanto quanto pode ser, ou em vias de se tornar tal. Mas onde domina, o humano retrai-se. A ciência pode viver sem um fim à nossa medida. Pode estender-se para fora do sentido do nosso mundo sem ser controlável por ninguém nem nenhuma instância.

É o nosso maior monumento. Aquele que atrai os que buscam alguma espécie de certeza e de 'salvação'. O seu melhor argumento é o de que já não podemos viver sem ela e sem os que acreditam nela, na Ciência.

Tal como os 'homens sem estados de alma', a Ciência é auto-referente. Só se espera dos faróis que iluminem o mapa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

(Campo Grande)

AQUILES, A LOIRA


"As armas de Aquiles"

"Aquiles era chamado pelas suas amigas Pirra, a Loira, a loira-russa."
(Roberto Calasso)

Tétis, que queria proteger o filho do destino anunciado, escondeu Aquiles entre as mulheres do gineceu de Licomedes. Que estado é esse na vida do maior herói da Grécia Antiga? Será diferente do de Cláudio, escondido da guarda pretoriana atrás de um reposteiro, depois do assassínio de Calígula?

A protecção maternal funciona, sem que o futuro herói pareça resistir à nereida, sua mãe, até que o astucioso Ulisses o desmascara por não poder esconder a sua paixão pelas armas. Depois disso, acaba-se o interlúdio feminil e Aquiles assume-se como varão e chefe dos homens, à frente de uma esquadra em direcção a Tróia. No gineceu, deixa um filho, Neptolomeu, única manifestação da sua virilidade no exílio.

A 'Ilíada' começa com um amuo do herói, por causa de uma escrava cobiçada pelo chefe dos exércitos, Agamémnon. Só sai dessa disposição para vingar a morte do amigo do coração, Pátrocolo, às mãos de Heitor, o príncipe troiano. Por fim, uma seta envenenada de Asteropeu, o filho de Pélago, que o atinge no seu único ponto vulnerável, o famoso calcanhar, põe fim a uma carreira meteórica.

Concluíndo, a figura de Aquiles é, não só sexualmente ambígua e militarmente pouco exemplar, sem deixar de ser acutilante como símbolo da guerra. Como dizia Simone Weil, a 'Ilíada' é o 'poema da força'. Da força, porque em nenhuma situação, o homem é, talvez, tão pouco senhor do seu destino como na guerra.

Mesmo o menos imperfeito dos heróis testemunha da nossa miséria.

domingo, 25 de outubro de 2015

(José Ames)

DECISÕES RACIONAIS




"Faz-se ou não se faz, um filho; não é da ordem da decisão racional, isso não faz parte das decisões que um ser humano pode racionalmente tomar."

(Michel Houellebecq)

Mais uma provocação do romancista, que vai contra a cultura da liberdade e da responsabilidade? Contudo, a declaração decorre de uma ideia proclamada por todas as religiões: tudo é dom, e nós não nos pertencemos a nós mesmos. Qualquer crente subscreverá esse princípio que a morte não se cansa de lembrar. Mas parece que as consequências disto só valem no campo religioso ou no da ética. Poderíamos viver sem qualquer referência a elas no 'mundo real', o da prática.

Houellebecq afirma, noutro passo, que o conceito de 'causa' não é científico. De facto, não é, porque está tudo encadeado e nunca por nunca conseguiríamos isolar uma 'causa', desligada de tudo o que existe. Mas sabemos que a Ciência se desenvolveu, num mundo que só pertence à razão, com aparente sucesso, utilizando o conceito de causalidade e a especialização do conhecimento. Este mundo quase expulsou o outro, nos nossos dias, nos países mais 'avançados', onde, por exemplo, já se pode sonhar com a escolha racional da descendência que preferimos e até com uma vitória sobre a morte. A Ciência permite-nos esperar tudo isto.

Mas como juntaremos os ramos e rebentos de ramos científicos que crescem por cima da nossa cabeça num tronco comum, numa 'árvore'? A salvação está na crença dos tempos modernos de que tudo no final resultará em bem, como se realmente existisse uma Providência própria da Ciência, semelhante à Ideia que Hegel aplicou à História.

A vantagem da revolução científica é que, aparentemente, dispensa uma parteira...

sábado, 24 de outubro de 2015

Almada 

LIBERTAÇÃO




"Contudo, ainda mais significativo que esta possibilidade – a de lidar com entidades que não podiam ser “vistas” pelo olho da mente – foi o facto de o novo instrumento mental, que, sob este aspecto, era ainda mais novo e mais importante que todos os instrumentos científicos que ajudou a inventar, ter aberto o caminho a uma forma inteiramente inédita de abordar e enfrentar a natureza na experimentação. Nessa experimentação, o homem realizou a sua recém-conquistada liberdade dos grilhões da experiência terrena; em vez de observar os fenómenos naturais tal como estes se lhe apresentavam, colocou a natureza sob as condições da sua própria mente, isto é, sob as condições decorrentes de um ponto de vista universal e astrofísico, um ponto de vista cósmico localizado fora da natureza.”
(in “A Condição Humana” de Hannah Arendt)

O que é que isto quer dizer?

Quando abandonamos a escala humana, graças ao poder dos nossos instrumentos, estamos a divergir vertiginosamente da linguagem natural e do pensamento que nela tem origem e em que se fundamenta a própria ética.

É o famoso desfasamento entre o poder e o saber, este cada vez mais confundido com a informação (os dados que se obtêm qualquer que seja o ponto de vista) e mais se enredando na esfera daquele. Ou seja, tudo parece reforçar a prótese através da qual agimos e pensamos, e é quase só memória o longínquo bater do coração.

Se há uma libertação, é em relação ao Homem. Mas quem se liberta?

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

(José Ames)

O QUE É A VERDADE?

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"Se, no entanto, o pensamento já não puder movimentar-se no elemento da verdade e, de um modo geral, das exigências da validade, então contradição e crítica perdem o sentido. 'Contradizer', dizer não, já só contêm o significado de 'querer ser diferente'. "
(Jürgen Habermas)

Voltamos a Pilatos e à pergunta anti-sacramental: 'o que é a verdade?', e a coisa mais bem distribuída, afinal, não é o bom-senso (Descartes), mas o relativismo.

Verifica-se que o 'lugar', o monumento vivo, se quisermos, as raízes do pensamento individual que não dependem de uma linguagem artificial, mas de um 'falar-habitat', incompreensível sem uma sedimentação histórica, são condições para existir qualquer 'elemento da verdade'.

Uma célebre declaração de Comte diz-nos que 'os mortos governam os vivos'. Eles 'pensam' connosco, e essa é a verdade humana, verdade de que Pilatos se serve para humilhar a lei, pôr os seios de fora à estátua vendada, levantando-lhe as vestes, e com isso, deixando o julgamento nas mãos de um comício exaltado. Os novos tempos começaram por um linchamento.

As 'exigências de validade' pertencem a todo o empreendimento científico e requerem sobretudo o acordo das leis e dos conceitos consigo próprios. O mundo humano é diferente e não se pode pedir 'validade' aos nossos encontros com a verdade.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

(Hamburgo)

O CADÁVER DE YAKOVLEV



"Yakovlev disse a Gorbachev, em privado (depois do golpe), que falar da 'renovação' do partido era como prestar os primeiros socorros a um cadáver"."
(Archie Brown) 


Somos tentados a crer que o PC permanece 'igual a si mesmo', que é a aparência que gosta de mostrar para dentro e para fora. E que estamos apenas diante de um 'golpe de rins' táctico. 'Apesar das gerações se substituirem umas às outras e dos 'velhos revolucionários', confinados ao último círculo das idades, se terem há muito conformado, como Moisés, a não poderem ver a Terra Prometida, a velha organização continuaria de 'pedra e cal', impenetrável às convulsões sociais, às novas ideias (a que gostam de chamar 'velhas e revelhas') e à revolução tecnológica, essa sim, efectiva e sem dissidências.

O ódio e a cegueira partidária são o soporífero de que se alimenta este 'sono dogmático'.

Parece que, depois de conhecido o resultado destas eleições, se acordou noutro país. A fractura do espelho autista no qual se reviram os comunistas durante tantas décadas, fez entrar a temida actualidade. Vai abrir-se a brecha para o mundo real, ou ganharão os Yakovlev?

O acontecimento de um partido comunista que arrisca sair da sua 'zona de conforto' utópica é em si mesmo de celebrar.

Na história contada por Orson Welles sobre o escorpião e a rã, vão ambos ao fundo, ao atravessar o rio, porque o primeiro cede ao seu carácter, em vez de seguir a lógica. O PS seria infalivelmente o batráquio dessa fábula, muitos anos atrás.

Mas alguém sabe, de facto, quanto é que mudámos, subterrâneamente, uns e outros?


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

(José Ames)

INSAPIENS INSAPIENS

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"A Natureza é o que falta à Lógica."

(G.W.F. Hegel)


Ninguém foi tão longe quanto o filósofo de Estugarda na sistematização da Lógica. Mas, contra a opinião dos seus detractores, que são muitos e alguns importantes para a Filosofia, Hegel era sabedor da diferença radical desta disciplina em relação à natureza.

Alain gostava de citar a lacónica observação do filósofo diante de uma montanha, objecto irredutíval, mas já modificado pela percepção que o constitui: "-É assim.", dizia Hegel.

Da Natureza não há nada a dizer, se não lançarmos sobre ela a rede das palavras e dos números que existe em nós e não na natureza. Claro que também a linguagem é natural e, do mesmo modo, a lógica, mas para compreender isso teríamos de conceber uma transcendência da Natureza, muito para lá da Física. Tão longínqua e inacessível que a seu propósito a própria filosofia tem de imitar Hegel, no momento em que conseguiu 'pensar' fora da lógica.

Aquele "É assim" tem muito a ver com a ideia da Necessidade, herdada dos Gregos. O que é 'necessário' tem de ser cumprido por deuses e homens, sem apelo nem agravo. Mas há um outro tipo de necessidade que parece servir a nossa inteligência, mais do que impor-nos um destino. Esta ferramenta prometeica permite-nos fantasmar o resgate de toda a condição transcendente.

Apesar de todos os avisos e prevenções contra o antropocentrismo, parece que mergulhamos mais fundo ainda na religião do homem.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

(Braga)

A NOVA TITANOMAQUIA

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"É o Antigo Regime. Nem sequer falta o servo. [...] A tropa pensava muito na guerra contra o inimigo, e os oficiais pensavam muito na guerra contra a tropa.
(Alain)

O filósofo, ele próprio tarimbado nas trincheiras da primeira Guerra Mundial, quer julgar Marte, o deus da guerra. A certa altura observa que a guerra 'bem administrada' não tem fim. É uma máquina que encontra sempre objectivos para se perpetuar, como a burocracia. Por isso, os nazis tiveram tanto êxito junto de um povo disciplinado que admirava o protocolo e a eficiência como um fim em si mesma.

Do que não se fala tanto é da necessidade da máquina militar, que se alimenta dos seus mártires para levar o soldado à resistência do 'último quarto de hora', de  se dotar de um dispositivo para 'espicaçar' a 'carne para canhão', através do poder absoluto dos oficiais sobre os seus homens. Poder tão absoluto que os aristocratas mais arrogantes jamais puderam desfrutar.

No fundo, a violência desse dispositivo, dessa guerra intestina, é quase sempre justificada por fins mais ou menos grandiloquentes, de um lado e do outro, e é impossível que o gosto pelo poder não faça parte da equação. Mas tudo isso é esquecido na contemplação das estátuas dos heróis.

Nos tempos da nobre cavalaria, era possível dirrimir um conflito de gentes através do combate das elites, ou dos melhores. Com a guerra tecnológica, em que o agressor pode 'vencer' sem perder homens, como num jogo virtual, parece que a violência exigida por uma radical instrumentalização, já pode ser dispensada. 

O estado-maior superou a sua maior vulnerabilidade. É quase o raio de Zeus. Zeus, porém, foi vencido. O que há em seu lugar é o deus híbrido de uma nova mitologia, resultante do casamento de um titã com o computador.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

(José Ames)

O SUAVE FRACASSO





André Ivanovitch (em "As almas mortas", de Gogol), depois de ter perdido as ilusões quanto a uma carreira no estado, volta-se para as suas terras na província, julgando encontrar a missão da sua vida contribuindo para a reforma da vida rural que faria a Rússia, finalmente, entrar no século XIX.

Começou por despedir o malandro do intendente e passou ele a superintender todos os trabalhos. Nunca mais os camponeses lhe chamaram paizinho, nem seu benfeitor e pôde assistir a um fenómeno estranho: as suas terras produziam sempre muito menos do que as dos seus camponeses, e as desculpas destes eram o que havia de mais esfarrapado.

Apesar de ter aliviado o trabalho das mulheres, a fim de lhes proporcionar mais tempo para as tarefas domésticas, verificou que, em vez disso, elas se procuravam isentar ainda mais, aproveitando-se da sua fraqueza, e se entregaram às disputas e ao mexerico, a ponto dos maridos se queixarem.

Enfim, nada era como nos livros e o nosso André Ivanovitch acabou por largar tudo e se entregar à bela preguiça dos Oblomov.

Este fracasso é comum a muitas personagens da literatura russa e espelha a bipolaridade dessa grande nação, na altura em que Tolstoi e Tchekov escreveram.

A ideia do progresso e os ideais de 1789 encontravam terreno propício numa classe dirigente que falava francês como o "Anti-Cristo" (Napoleão) e recebia pelo correio os jornais e revistas que a mantinham " à la page", enquanto a grande massa da população até 1861 só conheceu a servidão e as suas tradições mais do que seculares.

Quando tantos indivíduos da classe culta se lançavam às reformas não mediam realmente as suas forças. Iludiam-nos o snobismo lírico da primeira sociologia e as teorias do desenvolvimento histórico automático.

Mas nunca é a parteira que faz crescer.

domingo, 18 de outubro de 2015

Figueirinha

CANIBALISMO

"O Homem-Elefante" (1980-David Lynch)


"O Homem-Elefante", de David Lynch, é uma alegoria do canibalismo psicológico.

Mesmo os bem intencionados, como o médico Treves, nunca estão seguros de não se aproveitarem do "monstro" para fazer um nome e uma carreira, como Bytes, o vilão se aproveita, explorando-o no circo.

Parece que todos se alimentam da disformidade da criatura, e, tanto a ciência como o "frisson" do homem normal cobram do seu sofrimento.

E nisso é semelhante à beleza física, que também tem a sua maldição e serve de alimento aos outros, em vez de permitir que se conheça a pessoa.

sábado, 17 de outubro de 2015

Batuecas (José Ames)

NO PRINCÍPIO ERA A CENSURA

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A censura iludia-nos a todos e a si própria com a força da palavra livre. Como se o sentido da oposição não estivesse dependente dessa anacrónica proibição de existir que o fascismo lhe continuava a impor. Foi a democracia que esvaziou as oposições e as levou a esse confronto implacável com a realidade duma política regida por outras leis.

Como os maus psicanalistas, julgávamos que o diagnóstico bastava para converter as multidões. Era não contar com a história vivida de cada “nevrótico” político. O que se convencionou chamar de fascismo não estava na relação da doença com o doente. O regime foi incorporado nos hábitos da nação como um processo total. Não foram só as ideias – e as ilusões – que ficaram impregnadas. Mas toda a linguagem, desde os sentimentos, às acções e aos gestos simbólicos.

A partir dum certo momento, passada a euforia ingénua, a verdade deixou de poder ser dita por toda a gente, ou melhor, deixou de ser universal. A vontade de esclarecer tornou-se partido, e para a maioria fonte de extrema complicação. O efeito paradoxal da liberdade foi o de absolver o reino da mentira e erigi-lo, pouco a pouco, em terra firme para os náufragos duma revolução palavrosa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Almada

A PALAVRA MÁGICA

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(Nas sociedades primitivas, a palavra mágica) "não descreve coisas nem relações entre coisas; tenta produzir efeitos e mudar o curso da natureza."
(Ernst Cassirer)

Enquanto que a função semântica procura garantir a universalidade do sentido, o uso mágico da palavra mostra-nos a origem do conceito de acção. Essa diferença, longe de se esbater no decurso da história, aprofundou-se nos nossos dias, mas está escondida no discurso moderno. A magia é a nova positividade, o mútuo esconjuro, o 'debate de ideias', e a política, a simples gestão de massas.

A entrada da política no terreno do espectáculo anunciava já o que agora se vai revelando. A passagem do testemunho da política ao entretenimento aproximar-nos-á da versão-farsa do Estado como 'administração das coisas', tão cara ao jovem Marx, dos "Manuscritos".

Tal subversão do estado de coisas é, porém, aparente. A partir de um certo grau de complexidade do mundo, não podemos mais dispensar a tecnologia numérica que rapidamente atinge o ponto de não-regresso na especialização drástica da sociedade humana (já a relação da maior parte das pessoas com o seu 'smartphone', por exemplo' é de natureza mágica). Com esse desenvolvimento, deixarão de fazer sentido palavras como a desigualdade e a justiça (um plano de 'reajustamento' não é justo nem injusto: é necessário, etc), como no seu tempo, para a Grécia clássica, não fazia sentido o 'problema' da escravatura; tivemos, pois, de arranjar outro nome para a mesma coisa, agora, sob relações de um outro tipo, num reino que já não é o da 'mercadoria'.

A própria democracia convive com isso desde sempre, o que é, aliás, um dos tais 'defeitos' que a tornam o pior dos regimes..."à excepção de todos os outros".


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

(José Ames)

NUVENS COM CALÇAS

"Almas Mortas" (Marc Chagall)


"Duas horas antes de jantar, ele retirava-se para o seu escritório, a fim de trabalhar seriamente numa obra que devia abarcar a Rússia inteira de todos os pontos de vista - civil, político, religioso, filosófico -, determinar o seu grande futuro, resolver os problemas difíceis na ordem do dia; tudo isso à maneira e sob a forma que afeiçoam os nossos contemporâneos. Aliás, esse empreendimento colossal estava ainda no estado de projecto(...)"

"As Almas Mortas" (Nicolai Gogol)

Esta é mais uma das etéreas personagens (Maiakowski dizia dele próprio que era uma nuvem com calças) que fazem o encanto do romance russo, figuras que, dir-se-ia, abatidas por um destino geográfico, em que fatalmente a desilusão se sucede à miragem dos grandes espaços e dos horizontes ilimitados.

Gogol satiriza aqui, magistralmente, a quimera dum conhecimento total ao alcance de qualquer espírito, e que parecia possível só porque as pessoas se haviam libertado de um mito (embora para abraçar outro).

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Roma

RENOVAÇÃO DA POLÍTICA?

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"Com o tempo, apercebi-me que há na política dois tipos de pessoas: as que aceitam a política com os seus defeitos para chegar ao poder e as que só aceitam a política depois de tudo o resto (a Europa, o capitalismo, o “sistema”) ter mudado. Acho que é necessário um terceiro tipo de pessoas: aquelas que entendem que para mudar as coisas é preciso mudar a política. Essas estão maioritariamente fora da política porque acreditam que na política não há lugar para elas. É preciso levar a política até elas."

(Rui Tavares, no 'Público' de hoje)

É bem verdade que se a nossa participação cívica depender de um acordo sobre as 'grandes ideias', abstractas, por natureza, mas que dividem os homens tanto quanto as religiões, podemos adiar a nossa responsabilidade até ao fim dos tempos, 'protegidos' pela pureza dos nossos princípios. Veja-se o que custou à sociedade portuguesa a auto-exclusão dos partidos de esquerda.

Rui Tavares sugere outra coisa interessante no seu 'diagnóstico'. É que esse isolamento da esquerda, por não querer 'sujar as mãos' na realidade social e política do capitalismo, tal como ele hoje se apresenta, não configura uma acção política. A frase é: "as (pessoas) que só aceitam a política depois de tudo o resto". Pelo contrário, temos de inferir, é uma abstenção da política. Uma hibernação que pode durar outra idade polar, cujo único objectivo é conservar a pureza da doutrina. É por aqui que a semelhança com as sociedades religiosas salta aos olhos.

E, enfim, com este processo pós-eleitoral, parece despontar a esperança numa renovação da política, que deixará de ser a realidade amputada que tanto tem sobrecarregado os defeitos próprios da política.



terça-feira, 13 de outubro de 2015

(José Ames)

APOSTA

Jürgen Habermas


"Uma vez que as ciências do espírito que procedem metodicamente se firmam num ideal de objectividade falso, ou seja inatingível, elas neutralizam os padrões necessários à vida e difundem um relativismo paralisante."

("Discurso Filosófico da Modernidade", Jürgen Habermas)


Veja-se o que a economia, com o alegado rigor do seu método, faz do seu 'objecto', a sociedade humana. Não há dúvida que o método, qualquer que seja o seu rigor, não pode servir de caução à ideologia económica, por exemplo. O rigor pertence ao 'procedimento' e não ao ideal de objectividade.

O ideal científico de um Karl Popper acolhe a 'verdade científica' desde que refutável e não definitiva. Logo, não sabemos se o grau de objectividade de uma asserção o aproxima do ideal (desde que não tomemos este por uma situação concreta).

Ricoeur, pelo seu lado, fala num 'círculo hermenêutico' de que não podemos sair, a não ser através de uma aposta. Não temos nenhuma certeza sobre a realidade futura (porque é o futuro que está em causa nas nossas projecções e no nosso julgamento sobre o passado e o presente), mas podemos acreditar que as nossas opções se baseiam no que temos de melhor.

Mas este é um assunto que transcende a política e a questão do melhor dos regimes.



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

(Belém)

O INFERNO MINUCIOSO



"Não há amor, Hélène, há só provas de amor."

("Les  dames du bois de Boulogne", diálogos de Jean Cocteau)

Hélène quer saber se Jean já não a ama, como dizem alguns do seu círculo. Finge, então, que o amor por ele se está a transformar em amizade. Jean, aparentemente aliviado, revela que o mesmo se passa consigo e diz que, doravante, se deveriam considerar apenas  amigos. Hélène procura vingar-se, manobrando para fazê-lo casar com uma ex-prostituta. Depois do casamento, Hélène mostra o jogo, mas Jean já está apaixonado pela jovem noiva em perigo de vida e perdoa-lhe.

Como em Proust, o amor é aqui "uma discussão sobre as provas". E Jean acaba por passar um atestado de inocência contra as provas.

Entre Jean e Hélène o que existe antes do rumor e do 'querer ver para crer' é a 'felicidade'. O amor começa logo por ser problemático quando depende da prova. Mas isso acontece desde sempre, e é o que quer dizer a eterna repetição das juras. É como se a fé no outro não bastasse. S. Tomás anuncia já o desafecto, o princípio de um jogo que leva à destruição do amor.

O ciumento perdeu o 'estado de graça'. Tudo o que vem a seguir é inquietude e desilusão. É o reino das provas, e elas nunca são suficientes.

O aviso feito a Hélène não se refere ao amor, mas ao inferno minucioso que Marcel descreveu.

domingo, 11 de outubro de 2015

(José Ames)

OS BURACOS DO MANTO

Júlio César (100-44AC)

O homem que escreveu os "Comentários sobre a Guerra da Gália" cometeu a proeza literária de esconder o narrador sob a descrição dos factos (não decerto da selecção destes).

Este modelo de objectividade e de discrição interessadas é como o buraco no manto esfarrapado do cínico que deixa passar a vaidade.

Com a diferença de que o estilo de César indica também a consciência da probidade intelectual para além da sua "virtus".

Talvez não tenha existido na História uma ambição tão controlada e tão "necessária".

sábado, 10 de outubro de 2015


Lisboa (José Ames)

OS INCOMENSURÁVEIS

André Weil, em 1977



A existência dos números irracionais, dos segmentos que não se podem medir nem com números inteiros, nem com fracções, como diz Simone Weil, lançavam o aluno Törless em plena especulação metafísica.

Esses números são o símbolo de que há um limite para pensar aquilo que fazemos.

O facto de, a certa altura da demonstração lógica, termos de suspender a razão é um problema de outra ordem do que o da crescente complexidade dos cálculos.

Assim, para além dum cada vez maior afastamento do pensamento "terrestre", em relação ao pensamento do ponto de vista astrofísico (Arendt) que caracteriza a ciência mais avançada, temos que lidar com o problema, tão antigo, é certo, quanto Aristóteles, que é o dos limites da razão. Simone vê nessa dificuldade um motivo de regozijo:

"Porque, em primeiro lugar, uma relação numérica, impossível de expressar em números, existe apesar de tudo, definida por quantidades perfeitamente determinadas. Depois, esta relação, para ser apreendida como tal, exige um exercício da inteligência bem mais puro e mais despojado de todo o socorro dos sentidos do que qualquer relação entre números.

Um tal choque, uma alegria destas podem muito bem ter levado à fórmula "tudo é número", i.e.: há em todas as coisas sem excepção relações análogas às relações entre números."


Carta a André Weil de 28/3/1940 (Simone Weil)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

(José Ames)

A ILÍADA




"A Necessidade é um laço que cerca, uma corda de nós ('peîrar') que retém o todo no seu limite ('péras'). 'Deî', 'é necessário', palavra fundadora, aparece pela primeira vez na 'Ilíada': 'Por que é necessário ('deî') que os Argivos façam a guerra aos Troianos?'"

"Nozze di Cadmo e Armonia" (Roberto Calasso)

Se percorremos os motivos para a guerra nos testemunhos da 'Ilíada', encontraremos em primeiro lugar a honra ofendida (o rapto de Helena por Páris) mas, rapidamente, os mortos dessa mesma guerra encerram os vivos no nó corredio da vingança e numa espécie de competição assassina entre o valor de uns e de outros. Esta, porém, ainda não era uma guerra de 'estados-maiores."

A aritmética, por exemplo, tem uma necessidade de outro tipo. Não pode deixar de ser 4 o resultado de 2+2. Mas antes de pensarmos isso, tivemos de postular a vontade dos deuses. A coisa mais parecida com uma lei da natureza. Ora, os deuses, para os Gregos, eram humanos 'maiores do que a vida', pois tinham as mesmas paixões e eram sujeitos aos mesmos caprichos dos mortais. Para que houvesse ordem no Olimpo, inventou-se a Necessidade ('Ananke') a que o próprio pai dos deuses se tinha de submeter. A Necessidade é a ideia do limite. Toda a força da onda acaba no seu perímetro de areia.

Depois, há aquela conhecida anedota do homem rico e do mendigo que é mais ou menos assim:
-"Cavalheiro, uma esmola por favor. Preciso de comer." ao que o outro responde:-"Não vejo a necessidade."

Ambos invocam a necessidade, mas só o mendigo a sente. A insensibilidade do outro também 'tem que ser', está na ordem das coisas, mas é coisa que ele nem pode pensar.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

(Belém)

SUBIR DE PATAMAR




http://beaconintlgroup.com/wp-content/uploads/2013/03/Black-Swan-Black-Flies.jpg

Não podemos estar certos de nada quanto ao futuro, e não é só do longínquo que se trata. Os 'cisnes negros' e as 'borboletas' têm uma predilecção especial por baralhar as projecções.

Por isso, temos de ser bastante cépticos quanto à correspondência dos cálculos com os factos do futuro. Em cima disso, é aconselhável alguma prudência, observando a lei de que, se todas as condições permanecerem iguais, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.

A Dívida é uma dessas realidades de que não podemos prever o futuro, mas temos de agir como se 'as condições permanecessem iguais'. Nesta perspectiva, a dívida de Portugal e a de outros países não poderão, realmente, ser pagas.

Todos sabemos disso, mas os principais protagonistas não se sentem obrigados a tirar todas as conclusões desse cálculo. Só especulam sobre essas conclusões os que não têm que tomar decisões, ou aqueles que, devendo tomá-las, 'titularizam' as conclusões, como fizeram os bancos na crise do 'subprime', utilizando argumentação ao nível  do lixo (BBB-).

É possível, por conseguinte, uma situação estagnada, de paz pôdre, em que muitos parecem acreditar nas virtudes do apodrecimento e na virtude regeneradora da corrosão. Os credores fingindo que contam ser ressarcidos, e os devedores fingindo que nunca terão de pagar a 'libra de carne' imposta por Shylock (de facto, já podem mostrar o coto ou outra deformidade).

Para alguns historiadores isto não é uma fábula. É a verdade de uma falência e de uma independência sempre periclitantes, talvez, desde D. Manuel, "O Venturoso" ('et pour cause').

A Roma da decadência caiu de vez sob as patas dos cavalos húnicos, depois de ter sido minada no seu interior durante séculos pelas consequências sociais e económicas do seu império. Um caso de 'viver acima das suas possibilidades' muito mais eloquente do que a versão nórdica do nosso.

Para acabar, sem 'concluir' o que seja, a crise pouco mais é do que rotina, se subirmos ao patamar apropriado. Dessa altura, já dá vontade de rir a ideia de que estamos a pagar a factura dos nossos erros.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

(José Ames)