quinta-feira, 31 de março de 2016

(José Ames)

O PIOR DOS REGIMES

(Karp Popper)

"'Democracia' na acepção de 'governo pelo povo' praticamente nunca existiu, e nos casos em que existiu foi uma ditadura arbitrária e não responsabilizada. Um governo pode e deve ser responsável perante o povo, o governo pelo povo não pode existir. Não pode ser responsabilizado."

(Karl Popper)

Tudo isto é verdade, mas é preciso dizer que este povo perante o qual o governo deve ser responsabilizado, numa democracia, também não existe. Não podemos contar com o sistema eleitoral e com a separação de poderes para o criar. Não se pode falar em povo como um sujeito colectivo com uma idiossincrasia e um sentido de responsabilidade, como se fosse uma soma de indivíduos. Não sei se não deveríamos antes falar de um caos ou de uma 'irresponsabilizade organizada', como diz Ulrich Beck ("The world at risk").

Os momentos em que uma 'vontade' colectiva parece emergir dificilmente pertencem a uma racionalidade política e, portanto, parece mais apropriado falar em húbris do que em responsabilidade. Porém, pode-se também argumentar que, nesses momentos se joga a vida ou a situação, sem medo das consequências, ou melhor, no total desconhecimento delas, como uma verdadeira aposta.

E, é verdade que o jogador, apesar do risco, não pode deixar de ser considerado como o único responsável, mas à maneira como os antigos heróis eram confundidos por um deus.

Com isto, não se está a fazer mais do que uma variação sobre o 'cepticismo' de Churchill quando se referiu à democracia como o pior dos regimes políticos...


quarta-feira, 30 de março de 2016

(Braga)

A LUA SEM OUTRA FACE





"O nosso tempo não compreende entre os êxtases do sentimento senão o êxtase 'sentimental', e reduziu a embriaguês lunar a um desprezível excesso deste género. Não pressente que este êxtase, a menos que seja uma perturbação mental incompreensível, só pode ser um fragmento de uma outra vida!"
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Ulrich, o 'homem sem qualidades', critica a frivolidade 'burguesa' e o seu farisaísmo cultural. Claro que é um ponto de vista 'retrógrado', que o separa do seu meio. É como a prerrogativa de um tempo passado que o conserva numa identidade ameaçada.

As suas excelentes qualidades são inúteis para o futuro da Cacolândia. São parte de um impasse austro-húngaro que Musil não se cansa de tematizar.

O nosso Álvaro de Campos, engenheiro naval de profissão, é contemporâneo do autor austríaco, e escreve quase no mesmo estilo de Ulrich sobre a 'embriaguês lunar', mas não dando qualquer hipótese a uma 'outra vida'.

O célebre heterónimo, na linha de um Walt Whitman, é uma encarnação do espírito americano, prático, prático, prático.

Mas a ambivalência está em todo o lado. Não há povo mais ingénuo quanto ao 'êxtase sentimental' do que o americano: é só ouvir as suas canções de amor, de umas décadas atrás.

terça-feira, 29 de março de 2016

(José Ames)

PASSADO E FUTURO

(Hannah Arendt)



"Contrariamente à nossa concepção de uma maturidade orientada para o futuro, os Romanos pensavam que a maturidade era dirigida para o passado."
(Hannah Arendt)

No entanto, assistimos a uma espécie de desenvolvimento histórico, desde a fundação de Roma até ao império (mas pode ver-se o começo da decadência logo a partir do fim da república).

A ideia de Arendt leva-nos a ver esse fenómeno com outros olhos. Mas temos de nos libertar das 'escamas' hegelianas e abdicar daquilo a que chamamos o processo histórico (talvez a herança dos post-hegelianos melhor conservada).

O passado refere-se a uma origem simbólica (753 AC, provavelmente) donde decorrre a legitimação do poder e da estrutura das classes sociais. Numa sociedade inspirada pela primeira astrologia, onde tudo está fixado para todo o sempre, o futuro nada tem a ver com uma eventual apoteose do homem (se o progresso científico não se destruir a si mesmo) que caracteriza os nossos mais do que incertos amanhãs.

Que faziam, então, os primeiros historiadores da nossa civilização? Em que é que a sua perspectiva era diferente da dos 'cronistas' modernos?

O registo de um Tito Lívio deveria ser, deste ponto de vista, conservador do passado para educação dos vindouros e assumiria a forma, 'nostálgica', de um 'afastamento' da origem (a idade de bronze, por exemplo, em relação à idade de ouro).

A incerteza do futuro que é o nosso fardo, o risco crescente, à medida em que ascendemos a uma espécie de consciência da globalidade, não nos permite senão o sentimento da fragilidade humana, ou o refúgio na paranóia revivalista.



segunda-feira, 28 de março de 2016

(Cracóvia)

DEPOIS DA CRÍTICA




"A recusa caridosa do racionalismo jurídico tem o defeito de impedir as condutas de serem previsíveis (...). Interesses económicos, mas também políticos fazem, pois, pressão na direcção do racionalismo jurídico."
"Le pain et le cirque" (Paul Veyne)

Veyne escreve sobre a antiga sociedade romana, conhecida por nos ter dado o primeiro grande modelo do Direito.

Segundo a famosa lei dos três estados da sociologia de Comte (teológico, metafísico e positivo), o chamado 'racionalismo jurídico (a razão é chamada a impor a sua ordem aos factos sociais) corresponderia, assim, à idade metafísica que a Idade Média, o paradigma da 'previsibilidade', veio, a seguir confirmar até ao Renascimento.

O capitalismo é a negação desse espírito que se separa da 'jangada de pedra' medieval. A aspiração pela 'previsibilidade' sobreviveu, no entanto, até aos nossos dias. É, aliás, parte da explicação para as crises 'cíclicas' do sistema. Não são só os rentistas ou quem vive de uma pensão que alimentam esse desejo de controlar o futuro. Os principais agentes da crise, sendo mais pró-activos, calculam também a oportunidade e os ganhos que só eles vêem e prevêem.

A ponto de nos termos de interrogar se uma espécie menor de racionalismo que serve os 'interesses' e a política, deixou alguma vez de se impor.

Desde que Kant lhe roubou o pedestal, não há nada que devolva à razão a  integridade dos seus fundamentos e a certeza de outros tempos.

Poderemos ver nela mais do que um instrumento?

sábado, 26 de março de 2016

(José Ames)

O PLANETA DOS MACACOS

"Planet of the Apes" (1968)



"A face de Janus do 'progresso auto-destrutivo', contudo, gera conflitos que podem corroer a base social da racionalidade - a ciência, os militares, a polícia, a lei e a democracia. A sociedade com isto fica sob constante pressão para negociar fundamentos sem uma fundação. Fica exposta a uma desestabilização institucional na qual todas as decisões - desde os regulamentos do governo local sobre limites da velocidade e aparcamento, passando pela manufactura de produtos industriais, até aos fundamentos da segurança social e da segurança militar, dos serviços de saúde e do abastecimento de energia, dos direitos de igualdade e liberdade - podem converter-se em conflitos políticos fundamentais."
"World at risk" (Ulrich Beck)

Esta situação traduz a 'irresponsabilidade organizada' de que fala o sociólogo. É assim que a organização 'intencional' (que poderíamos elevar ao conceito de racionalidade, se não existisse uma organização espontânea na natureza) é compatível com a anarquia ao nível superior, com consequências impensadas e impensáveis.

O simulacro de um progresso controlado está sem dúvida presente em todas as decisões estratégicas emergentes que, como diz Beck, carecem de 'fundação', a começar pela racionalidade mais avançada, a do 'progresso científico'.

No moderno paradigma, tivemos de abandonar o conceito de criatura aplicado ao homem. Não conseguimos racionalizar uma alternativa que dê sentido ao mundo que 'criámos'.

E, no entanto, chegam ao mundo das nossas certezas, cada vez mais sinais de um naufrágio ocorrido algures, alguma vez. E é um pouco como a cena final do 'Planeta dos Macacos', em que Heston descobre, numa praia, a estátua da Liberdade.


sexta-feira, 25 de março de 2016

Espinho 

KEYNES E O PARTÉNON

O Parténon de Atenas

"(...) a ideia de que o Estado deve fornecer o trabalho aos desempregados em período de crise económica é muito antiga; Péricles pô-la em prática sob todas as suas formas e o Parténon foi construído por desempregados."

E. Grossmann ("Annales de l'Économie collective")

O autor cita o exemplo ateniense para ilustrar a política de obras públicas preconizada pelos keynesianos para atingir o pleno emprego.

A teoria veio depois de experiências como aquela, claro, e foi refutada por outras que destituem de sentido expressões como a de procura global.

E, em vez do mais belo templo do mundo, para o culto de Pallas Atena, hoje foi o próprio social que se tornou templo.
Para aprender a venerar os homens, começámos por venerar os deuses.

Mas por que não foi intuitivo e não foi logo o homem o mais importante?

Porque antes havia o Terror e a Noite.

quinta-feira, 24 de março de 2016

(José Ames)

A MORTE DE CADA DIA




"A ciência, no sentido moderno da palavra, consiste em fazer depender o saber do poder; e vai até subordinar o inteligível ao verificável."
(Paul Valéry)

Isto só não é óbvio porque, modernamente, a ciência substituiu a Providência. A ciência que nos livrará da morte, amen. Entretanto, numa altura em que começamos a vislumbrar a cura para várias doenças, a morte tornou-se o verdadeiro 'espectro que assola a Europa'.

E de que armas dispõe essa ínfima minoria de radicalizados por um ectoplasma religioso da Idade Média? Da crença fanatizada e da falta de alternativas. Como sabem todos os clandestinos e revolucionários, e sabiam os anarquistas russos e os bombistas de Chesterton, todos a certa altura entram num caminho sem regresso e acabam por aquirir o gosto da morte para prosseguirem.

Ora, é só a nossa impreparação para a evidência e para a omnipresença da morte que espalha o medo instantâneo e global. A conjunção do terror e dos 'media' veio para ficar e alimenta esse medo. Percebemos, o que os outros que vieram atrás já tinham percebido. Um símbolo, nem que encarnado num único indivíduo, pode vencer um exército. Constantino parece que acreditava nisso...

E a verdade é que a ciência não nos preparou para estas consequências do seu espectacular sucesso  que nos alienou da nossa morte de cada dia.

'Conhecemos' e adoramos a 'húbris' do poder, da força, do prestígio, do dinheiro. E, no fim de contas, são essas as 'condições de produção' da ciência como instituição. O resto é a esquizofrenia de que falavam Deleuze e Guattari.


quarta-feira, 23 de março de 2016

(Amarante)

A BALANÇA

(Santo Agostinho)

"Nenhum homem está provido de tanta justiça que não lhe seja necessária a tentação da inquietação ('tentatio tribulationis': que o homem se converta num problema para si mesmo)."
(Santo Agostinho) 

Está aqui presente uma ideia da Mecânica, que é muito moderna. Às coisas do espírito, que não são, obviamente, materiais, e como por analogia, são atribuídas certas qualidades físicas, como se pudessem ser medidas e pesadas. O paradoxo desta física espiritual aparece, por exemplo, em Simone Weil (a uma das suas obras mais conhecidas foi dado, aliás, o título muito sugestivo de 'La Pesanteur et la Grâce').

A justiça, dentro do homem, quase só por milagre está livre da auto-reflexão ou, empregando um termo da língua inglesa que significa melhor o que quero dizer, é isenta do 'self-conscious'.

O que Agostinho nos pretende dizer é que essa circunstância 'infeliz', esse défice de verdadeira atenção (palavra weiliana, por excelência) nos obriga a confrontar o problema da verdade. Somos nós que estamos em causa (a nossa virtude, ou a nossa vaidade) ou a justiça? 

A imagem da balança está aqui associada a alguma coisa susceptível de ser pesada e, ao mesmo tempo, à dualidade que é própria do ser humano.

terça-feira, 22 de março de 2016

(José Ames) 

O RISO ENLATADO


Slavoj Žižek

"(...) a função do 'riso enlatado' nas 'Sit-Coms' da televisão contemporânea [...], o Outro incorporado no aparelho de televisão[...]- é rir em nossa vez. Assim, mesmo que cansados após um dia árduo de trabalho estúpido, toda a noite, não fizéssemos mais do que olhar meio atordoados para o écrã de televisão, podíamos dizer depois que, objectivamente, através do 'medium' do outro, nos entretivemos à grande."
( Slavoj Žižek, 1989: 35; Robert Pfaller)

O "riso enlatado" parece a aplicação ingénua do entendimento comum de que o riso é contagioso. Mas podemos estar certos que a haver ingenuidade, é num segundo grau: o princípio tem vindo a ser validado pela experiência, segundo a tradição do positivismo americano.

Não importa que seja repetitivo e que se saiba tratar-se de uma ideia pavloviana, sem nada de espontâneo ou pessoal. A coisa deve funcionar, para se manter ao longo de décadas na televisão. E poderíamos acusar o método de artificialismo, quando tudo, mesmo na mais comum das entrevistas, é pré-programado e sujeito a um formato que defenda a produção de surpresas indesejadas? O reflexo pavloviano faz parte da edição geral.

Žižek atém-se a um conceito de alienação marxista e, como não podia deixar de ser, moraliza sobre o tema do espectador derreado por um dia de trabalho que pode, depois do espectáculo, sentir-se compensado por umas horas de ócio bem passadas. A televisão, neste aspecto, não é melhor, nem pior do que um banho seguido de massagem. O relaxamento é real, ou é uma ilusão socialmente significativa, como a dita 'compensação'?

Seria supor que, sob essa ilusão, esse 'atordoamento', existisse uma consciência em estado de hipnose, acompanhada de um 'verdadeiro' tédio que a ideologia transformasse no prazer do conformismo.

É ainda o velho problema da publicidade. Será que, de facto, somos enganados? Ou gostamos que nos contem histórias?


segunda-feira, 21 de março de 2016

(Lisboa)

A ESPLÊNDIDA MALVADEZ

Nicolau Maquiavel


"Ele é capaz de realizar muitas acções boas, mas quando as circunstâncias requerem um curso diferente, pode ser 'esplendidamente malvado'."

(Ernst Cassirer, referindo-se a Maquiavel)

Isto segue-se à declaração de que "O Príncipe" é apenas um livro técnico, não sendo nem moral, nem imoral.

Não é esse o juízo dos povos, evidentemente. Mesmo quando justificado por todas as razões técnicas do mundo, um governo que tenha a má sorte de ter de aplicar um cautério, quase sempre imprevisível a prazo, é 'maquiavélico' no mau sentido.

No nosso vocabulário político fazia falta um 'conceito' como esse. Que definisse um político como a personalização da antiga Necessidade, ou como uma encarnação da Lei ('dura lex, sed lex'). Um dos homens que mais se aproximou da ideia foi Churchill que explicitamente disse ao que vinha: 'sangue, suor e lágrimas', e que foi compreendido, pelo menos enquanto durou a guerra.

Como sabemos, a demagogia é o veneno próprio da democracia. Tem sido assim desde os Gregos. Quem contrariar esse vício junto do povo tem que ter o medo pela vida do seu lado. Mas a prova dos mortos é normalmente eloquente para se continuar o massacre. E lembremo-nos do discurso de Marco António sobre o cadáver de César, em Shakespeare, que a ingenuidade de Brutus permitiu. O que devia ser uma homenagem foi a quintessência da demagogia.

Quanto a mim, atrever-me-ia a dizer que, por muito espertos que alguns homens se julguem em relação a todos os outros, nenhum pode realmente antecipar o futuro e medir todas as consequências das suas acções. Pelo que o 'maquiavelismo técnico' é pouco mais do que uma ideia.

Há um eco dessa espécie de 'pureza técnica' no conto de Kafka, "A Colónia Penal". Na máquina que 'inscreve', automáticamente, na própria carne do culpado a sua sentença.

Não é esta aplicação instantânea da Lei, a demonstração perfeita daquela 'esplêndida malvadez'?


domingo, 20 de março de 2016

(José Ames)

SEGURANÇA DE TERRACOTA



(Howard Carter opens the innermost shrine of King
Tutankhamen's tomb near Luxor, Egypt)

"A primeira estátua egípcia, foi, pois, uma múmia, curtida e petrificada em natrão. Mas as pirâmides e os corredores labirínticos não eram garantia suficiente contra a pilhagem. Outras formas de segurança foram por isso procuradas. Assim, próximo do sarcófago, ao lado do trigo destinado a alimentar o morto, os Egípcios colocavam estatuetas de terracota, como múmias de reposição que pudessem substituir os corpos se estes fossem destruídos. Assim se revela, a partir das suas origens religiosas, a função primordial da estatuária: salvar o ser pela aparência."

"Ontologia da imagem fotográfica" (André Bazin)

A mumificação é, portanto, a primeira tentativa, não de prolongar a vida do ser num Além transcendente (o trigo junto ao sarcófago não estava ali na sua função de alimento real), mas de o 'salvar' através de um simulacro.

Bazin, em 1957, não podia adivinhar o significado moderno, na gíria dos computadores e dos 'smartphones' , da palavra salvar. Mas o sentido que lhe atribuímos hoje, numa perspectiva, na aparência, o mais afastada de um contexto religioso, é o de guardar na memória artificial. Isto é, salvar da impermanência vertiginosa dos fluxos de dados.

É isto 'salvar pela aparência', conforme a definição do grande crítico de cinema?

Não podemos estar certos de que esta memória seja durável, mesmo com a terracota sobresselente. Embora a pirâmide seja a forma geométrica que mais se assemelha a uma ruína do tempo (Alain), o monte de pedra em que as mais orgulhosas construções humanas acabam, as pirâmides mesmas e todas as outras formas de arte são terraplanagem adiada. Sem contar com a ajuda de quaisquer talibãs.

A 'segurança' contra o tempo através das imagens está demasiado exposta ao nosso cinismo. É a entrada do espírito na clandestinidade que anuncia todas as pilhagens.

sábado, 19 de março de 2016

(Parque das Nações)

RUA DA VERGONHA

"Rua da Vergonha" (1956-Kenji Mizoguchi)

Em "Rua da Vergonha" de Kenji Misoguchi, o prostíbulo corre o risco de fechar, devido a uma lei em discussão no parlamento.

Todas as mulheres têm uma triste história por debaixo da pintura, escondida nos adereços da profissão.

É a esposa que sustenta o seu bebé e um marido doente, a jovem "Harpagon" que entesoura para não voltar a cair na miséria, a ingénua que conta com um casamento em vez da escravidão doméstica, tudo contado com a sensibilidade quase feminina de Mizoguchi.

A cena do jovem operário que marca um encontro com a mãe nas traseiras da fábrica para de vez a repudiar, fazendo-lhe sentir o quanto o transtorna o sublime sacrifício, destroçando todo um sonho de regeneração, comove-nos como o mais puro teatro grego.

Os dois são dilacerados por uma divindade intransigente. A gratidão é abafada pelo forte preconceito e a desilusão da velha cortesã é mais forte do que a sabedoria.

E os destroços separam-se pelos caminhos do remorso e da loucura sem possibilidade de apaziguamento.

sexta-feira, 18 de março de 2016

(José Ames)

O PADEIRO, A PADEIRA E...



"(...) nas Jornadas de Outubro (1789), as mulheres foram a Versalhes buscar o padeiro, a padeira e o aprendiz de padeiro."

(Emmanuel Le Roy Ladurie)

Tuteia-se o rei, a rainha e o príncipe herdeiro, num tempo em que vale tudo. É um Carnaval em que o 'faz de conta' e a realidade se encontram, a máscara não se diferencia já do rosto.

É isso que se está a passar no Brasil, com o carnaval 'a sério' que segue na peugada do outro, celebrado a algumas semanas?

Porque em vez de corpos despidos e plumas, temos o regime posto a nu, e não se sabe quando é 'quarta-feira'. A grande 'válvula de escape' tornou-se viciosa, e em vez do frenezim sensual que aliviava as tensões sociais, surge agora dos filtros mais venenosos do ressentimento político, o prazer diabólico de derrubar os símbolos e as estátuas dos heróis da véspera.

Enquanto é restaurada a velha ordem classista, em nome da moral, a maioria dos brasileiros, incluídos os 40 milhões que alegadamente o ex-presidente 'tirou da miséria', sentem que foram enganados, porque o seu herói é, afinal, igual a todos os outros políticos. Ao contrário do que Lula poderia pensar, a corrupção não muda de nome por se terem tomado certas precauções.

Todos guardamos ainda na memória a grande devassa que foi a operação 'Mãos Limpas', em Itália e o seu resultado para os partidos do regime. Foi o fim deles e o advento de uma era de demagogia desenfreada, dominada por um 'rei' dos 'media'. O 'Lava Jato' terá provavelmente consequências muito parecidas.

Mas a destruição da política nunca será compensada por um sucedâneo da democracia.


quinta-feira, 17 de março de 2016

(Guimarães)

O CALDEIRÃO DOS VENTOS

(Torre dos ventos, em Atenas)


"O executivo é monárquico necessariamente. É preciso sempre, na acção, que um homem dirija (...). O legislativo é oligárquico necessariamente, porque, para regular qualquer organização, são precisos sábios, juristas e engenheiros que trabalhem em pequenos grupos nas suas especialidades (...). Onde está então a democracia, senão nesse terceiro poder a que eu chamo o Controlador? Não é outra coisa que o poder de depor os Reis e os Especialistas no minuto se eles não conduzirem os assuntos segundo o interesse do grande número."
(Alain) 

Alain foi o grande mentor do pensamento político radical, entre as duas guerras mundiais, em França. A doutrina não podia ser mais cristalina.

O povo (os milhões de cabeças) não pode governar, nem legislar (não é especialista em nada). Resta-lhe controlar os seus representantes.

No tempo em que por cá se discutia o controlo de gestão nas empresas, o 'poder monárquico' do executivo obrigou-se a um ritual de comunicação de dados às comissões de trabalhadores, que para não serem tidas por lorpas, os sujeitavam ao escrutínio de algum advogado ou economista, 'amigo dos trabalhadores'. Essa informação e os respectivos pareceres dos assessores sindicais foram uma arma política, a favor dos sindicalizados, mais do que um verdadeiro controlo de gestão.

A empresa era, na ideologia em voga à esquerda, a mina de uma mais-valia que tinha de ser disputada à picareta para haver justiça. Não era um organismo que fazia parte do seu ambiente, com necessidades próprias e de cuja 'saúde' dependiam os postos de trabalho, os dividendos, os bónus e os salários. Na linha do que muitos 'empresários' faziam às suas empresas antes do 25 de Abril, a nova política trouxe rapidamente a descapitalização e o FMI.

A ilusão de um 'controlo de gestão' foi das primeiras a perder-se e, sem pena, para a maioria, essa complicada encenação foi trocada por melhores contratos que mantiveram a 'monarquia' de sempre.

O apólogo de Chartier tem a utilidade de nos lembrar que o Controlo por parte do cidadão numa sociedade mil vezes mais complexa do que a maior das organizações estatais ou empresariais é pouco mais do que um voto piedoso. De facto, toda a gente devia estar consciente desse facto que aproxima a nossa percepção do mundo de um caos titânico, antes de Zeus trazer uma espécie de ordem.

A consolação é que, mesmo assim, a democracia é o único regime que através de eleições livres, torna possível não o controlo, directo ou indirecto, mas a participação no 'caldeirão dos ventos'.

quarta-feira, 16 de março de 2016

(José Ames)

SHERMAN E CRASSO

William Sherman



"Um dia em que perguntaram a Crasso se disputaria o consulado, e em que ele não se importava de responder, deu como resposta uma bela frase: 'Sim, se for útil ao Estado, se não, não'."
(Paul Veyne)

São conhecidas outras respostas do género, entre a insolência e o 'pontapé para canto'.

Mas a posição de William Sherman, general da Guerra Civil, contra a ideia de uma qualquer obrigação de se candidatar ou de aceitar o cargo presidencial, fez história: "Aqui declaro, querendo dizer tudo o que digo, que nunca fui candidato a Presidente, nem nunca serei; que, se for nomeado por qualquer dos partidos, peremptoriamente declinarei; e que, mesmo se eleito por unanimidade, declinarei servir." (John F. Marszalek in Encyclopedia of the American Civil War-A Political, Social, and Military History; Wikipedia)

O que é que diferencia as duas declarações, a do homem mais rico do fim da República romana e a do general americano?

Marcus Licínio Crasso, apesar de toda a sua fortuna e do seu prestígio político, sente-se obrigado a prestar homenagem à 'coisa pública', por isso a sua resposta ressuma de hipocrisia. Como nunca se pode saber 'a priori' a utilidade do esforço cívico de qualquer cidadão, a resposta de Crasso é uma não-resposta e uma prosápia indigna.

Tudo na declaração do americano nos faz sentir o novo estatuto do indivíduo, fruto da revolução social e moral ocorrida entre os dois períodos da história. Sherman é um homem livre, comparado a Crasso. Isto apesar do poder ser tão desigual entre os dois.



terça-feira, 15 de março de 2016

(Berlim)

UNHAPPY END

Mel Brooks


"E se é verdade que a análise do real não está acabada, nem poderá está-lo nunca, longe de os inquietar, disso se valem; porque, mesmo em face do desconhecido, a ciência não tem que recear encontrar o nada, nem o ser, nem o incognoscível; o que ela ignora ainda, pode vir um dia a sabê-lo; o que ela ignora não destrói o que sabe agora, e não a impede de explorar cada uma das suas conquistas sucessivas."

"L' action" (Maurice Blondel)

A infinidade da ciência não é o Infinito.
Que a tarefa da ciência nunca possa acabar compreende-se à luz do pensamento positivista.
O Infinito é outra coisa.
É o que torna a ciência um jogo. Uma diversão, no sentido que Mel Brooks lhe deu, numa entrevista.
Disse ele que a vida era um grande divertimento, com um final muito, muito sério.

segunda-feira, 14 de março de 2016

(José Ames)

MENTES OBNUBILADAS

Zeus


"(...) e uma dor aguda lhe atingiu o fundo do espírito e logo agarrou na Obnubilação pela cabeça de cabelos gordurentos, enraivecido no seu espírito, e jurou um juramento ingente, que nunca mais ao Olimpo e ao céu cheio de astros de novo regressaria a Obnubilação, que a todos obnubila."

"A Ilíada" (Homero, tradução de Frederico Lourenço)

Ter sido obnubilado é a desculpa que Agamémnon oferece a Aquiles para o ter ofendido. E invoca o exemplo de Zeus, que também fora obnubilado por Hera, no caso de Héracles.

É um belo sistema para enjeitar a responsabilidade própria sobre quem pode mais do que nós.

Assim, o chefe dos Aqueus descarrega sobre o Pai dos Deuses. Mas este, que não tem ninguém acima dele, sacode para cima do que hoje se poderia ainda chamar de Eterno Feminino.

Hera, para favorecer Euristeu, obtém do seu divino e ingénuo esposo um decreto: "Mas agora jura-me ó Olímpio, um poderoso juramento, que a quantos vivem à sua volta regerá o homem que neste dia cairá entre os pés duma mulher (...)" e, amarrando-o à sua palavra, frustrou os direitos de Héracles, antecipando o parto da mulher de Esténelo e atrasando o de Alcmena.

A Palavra é pois maior do que Zeus.

E era a forma de encontrar no espírito uma lei que correspondesse à harmonia no universo.

O programa de Kant já está todo aqui.

domingo, 13 de março de 2016

(Setúbal)



ORÁCULOS

Carl Jung (1875-1961)

Jung acreditava na existência dum inconsciente colectivo e em figurações ancestrais não hereditárias, mas "possíveis", os famosos arquétipos.

Este nível mais profundo explicaria a semelhança de alguns mitos primordiais em culturas diferentes.

Diz Deleuze que, segundo Freud, as três grandes ignorâncias do Inconsciente são o Não, a Morte e o Tempo. É o que nos permite, de facto, fazê-lo dizer tudo o que quisermos e nele encontrar motivo para tudo.

Não tendo a versatilidade, nem o valor psicológico da Teogonia que permitia que um grego perseguido por uma divindade pudesse ainda buscar a protecção de outra, tem a mesma função de moderar, através do mito, a paixão da liberdade.

Os arquétipos seriam então um recurso de última instância, quando falhasse a defesa das reminiscências pessoais.

sábado, 12 de março de 2016

(José Ames)

O PROBLEMA DA VIDA

A Lua


"Em vão portanto se esperaria resolver, dum ponto de vista positivista, o problema da vida; haveria incompetência, haveria inconsequência em fazê-lo. As ciências positivas não são mais do que a expressão parcial e subalterna duma actividade que as envolve, as apoia e extravasa."

"L'action" (Maurice Blondel)

Este texto de 1893 é ainda novo hoje.

E quanto maior o progresso da ciência, mais visível o facto de que, apesar de contínuo e indefinido, em nada se aproxima do que Blondel chama o problema da vida.

O que ninguém disse como ele é que o sucesso da ciência (que se confunde com a sua justificação) depende de serem os homens, através da acção, a realizarem a "ponte" entre o simbolismo matemático, que é perfeito em si mesmo, mas não pertinente em termos de realidade, e o mundo misterioso em que aqueles sucessos se verificam.

sexta-feira, 11 de março de 2016


(Moscovo)

PILOTOS E POLÍTICOS

"The Sea Wolf" (1941, Michael Curtiz)



"É muito natural pensar que o homem que, doente, mais depressa se confia aos cuidados de médicos especializados do que aos seus pastores, não tem nenhuma razão, quando está de boa saúde, para se deixar tratar por tagarelas muito pior classificados do que pastores, como é o caso nos seus negócios públicos; é por isso que os jovens, que se prendem ao essencial, começam por julgar secundário tudo aquilo que, no mundo, não é nem belo, nem verdadeiro, nem bom, por exemplo o Ministério das Finanças ou, justamente, um debate parlamentar. Pelo menos, outrora, eles eram assim (...)

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

O exemplo é socrático e lembra-nos o argumento do piloto (numa tempestade, confiamos no piloto ou no primeiro que aparece?).

Mas assim como há médicos especializados, há burocratas e políticos que se movem 'como peixe na água' no domínio dos 'negócios públicos'. É também uma especialização, mas cuja utilidade é muito mais discutível do que aquela dos que cuidam de nós na doença.

Vamos discutir a necessidade de um Draghi à frente do BCE? Queremos, em cima dos defeitos da União, um órgão central acéfalo, ou governado pelo 'twitter' (que nos serve aqui para caricaturar uma democracia 'instantânea').

É verdade, como diz o autor austríaco, que os políticos sabem menos do que os pastores em...pastorícia. E, indo mais longe, sabem menos do que alguns pastores daquilo que realmente importa à vida das pessoas. Mas se fossem realmente sábios, só constrangidos aceitariam um cargo público, como já aconteceu na Antiguidade. Mas ninguém os escolhe por brilharem na sapiência antiga. Se muitos já estão convencidos de que a política é, em primeiro lugar, um espectáculo da reprodução da própria política, o que importa é que 'representem' bem. Alguns ex-actores de Hollywood, como se sabe, chegaram à cúspide do poder máximo, em sincronia com um eleitorado crente na magia do cinema.

Quanto à juventude de hoje, parece-me tão generosa e tão superficial como a do passado. É costume empregar-se aquele adjectivo porque se supõe que os jovens, em princípio, estão menos comprometidos com os interesses instalados e por isso se julgam mais livres. E acrescenta-se a superficialidade porque é própria de quem  tem de aprender tudo desde o princípio (é preciso sempre subir aos ombros dos gigantes). Não é um defeito moral, nem coisa que se pareça; é uma condição.

As categorias platónicas do Bem, do Belo e do Verdadeiro, na sua pureza e simplicidade, parecem-lhes mais destinadas do que a qualquer outra idade. 



quinta-feira, 10 de março de 2016

(José Ames)

ENIGMAS E VÍRUS





"Sugere o eventual benefício da irracionalidade (não a irracionalidade sentimental do romantismo, mas a que resulta da oposição e da conjugação dos contrários, em que insiste a sabedoria chinesa), não enquanto fautor de caos, mas enquanto mistério irredutível à uniformização."
"Levantar o céu" (José Mattoso)

É o que diz Morin: "Temos de reconhecer esta característica consubstancial ao universo, à realidade, ao ser, ao nāo-ser, à razão, às ciências, ao homem: o enigma." ("Le vif du sujet").

Mas o mistério não se opõe à razão. É de outra ordem. Pelo que a irracionalidade, como o contrário da razão, não o pode 'descrever'; só como não-racional o problema pode ser posto. Porque podemos ser irracionais, por exemplo, por descontrolo emocional. A ignorância, por outro lado, não faz com que o nosso comportamento seja, eventualmente, contrário à razão. Os nossos erros não são irracionais. São apenas uma maneira inadequada de pensar. Temos de ter em conta que a humanidade se iludiu durante milhares de anos com o geocentrismo que a teoria de Ptolomeu consagrou. Um erro fértil para a história da Igreja e para o endeusamento do poder terreno.

A dualidade dos contrários da antiga filosofia chinesa parece infringir o princípio da não-contradição. Porque não é em tempos diferentes que uma coisa é o que é e o seu contrário. A razão nunca pode ter a última palavra. Este princípio pode explicar uma civilização estática, que se limita a viver no seu isolamento e na sua forma de eternidade. E isso significa - não é verdade? - uma espécie de desprezo da acção, tal como a entemos, que é coerente com algumas religiões do Oriente. 

Mas o mundo aberto e o fim do isolamento confrontam uma tal civilização com uma nova dialéctica em que a filosofia dos 'bárbaros' é a outra face da quietude e do estaticismo tradicional. Esse processo foi 'providencialmente' facilitado pelo vírus do idealismo alemão. 


quarta-feira, 9 de março de 2016

Porto

OVOS E OMOLETAS

Charles de Gaulle 


De Gaulle uma vez disse que as nações são ovos cozidos e que com ovos cozidos não se faziam omeletas. Assim reza a citação de José Cutileiro, no 'Expresso'.

A expressão parece-me feliz por expor a terrível simplificação de uma mudança total da sociedade ou de um seu reinício a partir de uma ideia abstracta.

É claro que desde a Revolução Francesa, se abriu a cortina de um mundo novo, tornado necessário por leis históricas recentemente descobertas pela universidade alemã e que o homem fez suas e antecipou como a célebre parteira, através da revolução.

O Novo Mundo (a descoberta da América) foi a primeira cortina aberta, mostrando que era possível criar uma nação de raiz. Nada parecia impedir a omoleta gaullista. Quem tinha os 'ovos já cozidos' era a nação francesa. O grande empreendimento enciclopédico serviu na altura para uma generalizada carência de bom senso e para uma tresloucada sensação de conhecimento. A liberdade acabou por ter as cores e a licença de um carnaval sangrento.

A complexidade da história social, da sua estática e da sua dinâmica (Comte), talvez só pudesse ser minimamente vislumbrada através dos erros da engenharia social, teoria que aparentemente nos permitiria falar de uma providência da História.

E é o mais fascinante de tudo isto. Não podemos, hoje, racionalmente admitir coisas como o destino e a providência, mas a alternativa é impensável.


terça-feira, 8 de março de 2016


(José Ames)

OS DIVISORES




"A maneira mais simples de ganhar os eleitores era ainda a de lhes distribuir dinheiro no próprio dia de voto; para isso, os candidatos dirigiam-se a profissionais, os 'divisores' (...)"
(Paul Veyne)

Para Cícero, por exemplo, a igualdade seria injusta "por não comportar diferenças de dignidade" (idem). Alguns podiam, pois, alegar que a corrupção dos eleitores fazia parte da legítima preocupação dos candidatos e dos seus apoiantes em preservar um mínimo de 'dignidade' nos resultados da eleição...

Mas os Romanos não foram conhecidos pelo seu espírito, nem pela sua subtileza. Foi, pelo contrário, na adoração da força e do prestígio do nome romano, que melhor souberam exercer as suas mais distintivas virtudes. E nisso foram realmente os percursores das modernas ditaduras de Estado, como bem viu Simone Weil.

A venialidade do voto entre os romanos bem pode ter sido uma das causas determinantes do fim da república e das virtudes estóicas das primeiras famílias patrícias. Certamente que o povo não podia acreditar em eleições compradas. O passo seguinte foi marcado pela nomeação cavalar de Calígula que colocou a dignidade dos cidadãos ao seu verdadeiro nível.

Mas por muito tentadora que seja a comparação de certos aspectos mais caricatos das primárias nos EUA com a dignidade tal como a concebiam os romanos, não podemos ignorar que a história da democracia americana foi a de um ser natural, na emulação e no confronto com a história europeia, enquanto que em Roma, a democracia foi mais uma estética política herdada da sua mais célebre colónia.