segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Parque de S. Roque (José Ames)

DE AGULHAS E CAMELOS

(mzephotos.com)


 
"O 'dever' do homem é de tal maneira ser rico que a presença de um único pobre clama contra os céus, como a abominação de Sodoma, e despoja o próprio Deus, forçando-o a encarnar-se e a passear-se escandalosamente pela terra, vestido apenas dos farrapos das suas Profecias."


"Exégèse des Lieux-Communs” (Léon Bloy)




A passagem do Evangelho que reza que será mais fácil a um camelo passar pelo buraco duma agulha, do que a um rico entrar no Reino dos Céus, foi desde sempre mal interpretada, segundo Bloy, pois que a única exclusão foi a do camelo, refastelando-se os ricos no Paraíso, em cadeiras de oiro.

Tanta provocação tem razão de ser, porque o texto evangélico parece ter sido interpretado, em desfavor do camelo, por todos os ricos ao longo da história. Só isso pode explicar o fenómeno de tantos de entre eles se considerarem ainda cristãos.

A mito americano por excelência, o do "self-made man" ( e o que é que "makes the man", qual o critério do seu sucesso, naquele país, senão a riqueza?) fez precisamente a leitura do satirista.

Acontece que a ideia que pretendia que o enriquecimento de uns poucos não era feito à custa da maioria, ou, no fim de contas a beneficiava, através, por exemplo, da criação de empregos,  está hoje manifestamente posta em causa pelos novos métodos de enriquecer que já não exigem que o homem feito, mas apenas as características mais  predadoras, porque, esses, semeando à sua volta a destruição, já não contam com o futuro nos seus cálculos.

O rico moderado pela falsa interpretação do Evangelho é um homem de fé, comparado com esta espécie que se ri de todos os buracos de agulha e dos respectivos camelos.

domingo, 30 de outubro de 2011

(José Ames)

TODOS OS TIGRES DA INDIA

Hiroshima



"Mas é verdade que os meios de transporte rápidos fazem mais vítimas do que todos os tigres da Índia;  e a negligência, a falta de respeito e de escrúpulos que nos permitem suportar esse facto são, sem dúvida, o que permitiu, por outro lado, os sucessos que não nos podem negar."



"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)




É como se o autor dissesse que existe uma relação de causa e efeito entre o que chamamos progresso e uma crescente desumanidade. Mas, na verdade, o que estamos, talvez, é mais susceptíveis em relação ao que separa o humano do desumano.

Se nos couraçamos contra o sofrimento provocado pelas consequências, voluntárias ou não, do desenvolvimento económico e tecnológico, impomo-nos, doutra parte, o espectáculo do mundo sofredor, tratamento que está, em grande parte, na origem da nossa couraça, mas que, paradoxalmente, satisfaz, ao mesmo tempo, uma consciência impotente que não quer abdicar, no melhor dos casos, duma lucidez que a confirma no seu lugar de "civilizada".

O lançamento, sobre Hiroshima e Nagasaki, de "Little Boy"  e "Fat Boy"  (aqui os nomes são uma tentativa de humanizar o que não é, de todo, humano) é o caso-limite da negligência, da falta de respeito e de escrúpulos de que fala Musil.

sábado, 29 de outubro de 2011

Campanhã (José Ames)

O ABISMO




"O rapaz, Leonard Bast, mantinha-se no extremo da 'educação'. Não estava no abismo, mas podia vê-lo, e, às vezes, pessoas que ele conhecia caíam nele e já não contavam para nada. Sabia que era pobre e admitia-o até:  preferia morrer a confessar qualquer inferioridade em relação aos ricos. Isto podia ser esplêndido para si. Mas ele era inferior a muitos ricos, não havia dúvidas sobre isso. Não era tão cortês como a média dos ricos, nem tão inteligente, tão saudável, ou tão amável. (...) Se tivesse vivido alguns séculos atrás nas coloridas civilizações do passado, teria um estatuto definido, o seu nível e o seu rendimento teriam correspondido. Mas, no seu tempo, o anjo da Democracia erguera-se, ensombrando as classes com asas coreáceas e proclamando: 'Todos os homens são iguais - todos os homens quer dizer, que tenham um guarda-chuva', e por isso ele era obrigado a afirmar a sua educação, para não deslizar no abismo em que nada conta, e onde as proclamações da Democracia são inaudíveis."


"Howards End" (E.M. Forster)




A Democracia já não é a "novidade" que era no século XIX e, por experiência, quase todos sabem o que quer dizer a igualdade que promete.

Continuando a ser o pior dos regimes, "excepto todos os outros", se pouco mais adiantou à igualdade na questão dos guarda-chuvas, também acabou com os abismos da sociedade vitoriana. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde, nos últimos tempos, mais do que nunca se escavou a  desigualdade, acredita-se "duro como ferro" que o "último dos homens" pode chegar a presidente ou tornar-se um colosso da indústria (se bem que mais recentemente seja mais plausível falar de finança e especulação bolsista do que em indústria). Nada de abismos que o valor individual e a graça de Deus não possam ultrapassar.

Por isso, já muito poucos têm a temer a queda num abismo sem direito a voto e que não esteja debaixo das "asas coreáceas" a que se refere E.M.Foster.

Pensando bem, gente como o Leonard Bast, pertencia ao tempo da boa consciência dos privilégios. Ele segurava-se às ervas para não cair no abismo, para não deixar de ser "igual" aos ricos.

Hoje, felizmente, temos menos areia nos olhos, e os mais ricos sabem que, também para eles, a Democracia é o que Churchill disse dela.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

(José Ames)

A BELA E O MONSTRO

O Perseu de Cellini



"(...) onde há um monstro, há uma mulher, e onde há uma mulher, há Afrodite.


(Roberto Calasso)




Outra forma de dizer o conhecido aforismo de Shakespeare de que o horrível é belo e o belo é horrível. Ou  o mito de Andrómeda e de Perseu. E é a ideia de que o conhecimento da beleza passa por uma prova que começa por afastar a aparência proteiforme. O herói tem de vencer-se a si próprio (vencendo o próprio medo) para ser "purificado" e se tornar digno de contemplar a beleza liberta do seu cativeiro. Claro que isto se parece aplicar mais ao feito de Perseu do que à deusa do amor citada por Calasso. Mas talvez esta seja o lado activo da mulher que se encontra presa à rocha. Ela é o prémio do perséiada que a liberta, matando a serpente. No outro caso, é Afrodite que inspira no amoroso a força de confrontar-se com o monstro.

Naturalmente, são mais os monstros vencidos pela paixão do que os vencidos pelos "trabalhos" levados a cabo em cumprimento duma sentença. E por isso, também, não se fala tanto deles.
 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Parque das Nações (José Ames)

PRENDAS DE NATAL

 
Himmler, Hedwig Potthast e a sua filha Gudrün.




"O membro da hierarquia nazi mais dotado para resolver problemas de consciência era HImmler. Ele cunhava slogans, como a famosa 'palavra de ordem' das S.S., tirada dum discurso de Hitler perante as S.S. em 1931: 'A minha Honra é a minha Lealdade", 'slogans' a que Eichmann chamava de 'palavras aladas' e os juízes de 'palavreado oco' - e emitia-as , como se recordava Eichmann, 'à volta da passagem do ano', presumivelmente com um bónus de Natal. Eichmann só se lembrava de uma delas e não deixava de a repetir: 'Estas são batalhas que as futuras gerações já não terão de travar.'


"Eichmann in Jerusalem" (Hannah Arendt)




Para sossegar as nossas consciências ou um resto de esperança na natureza dos homens, precisaríamos que os "assassinos de massas' do regime nazi fossem muito diferentes da gente comum. Mas veja-se o tão inspirado chefe da Gestapo, ao mesmo tempo exemplar chefe de família, não esquecendo, como qualquer de nós, as mensagens de Natal e uma pequena lembrança paternal às suas feras em negro.

Como diz Hannah Arendt, estes carrascos não eram sádicos e, em vez de escolherem os psicopatas que mais prazer tirassem das torturas, procuravam neutralizar nos alemães "normais" um natural, mas perigoso, sentimento de piedade.

A retórica do III Reich ia nesse sentido, fazendo que o horror e a falta de escrúpulos se tornassem um dever "alemão". Tal como em simétricos regimes, é em nome do futuro ( "les lendemains qui chantent") que se liberta o Apocalipse. No fraseado de Himmler, a embriaguez do poder exigia o sacrifício da geração presente como uma grande tarefa histórica.



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

(José Ames)

O DIREITO DO MAIS FORTE

"Les pièces à conviction" (Daumier)


"Os tribunais parecem-se com caves onde dorme em garrafas a sabedoria dos nossos antepassados; abre-se essas garrafas e é quase de chorar quando se descobre até que ponto o esforço de precisão do homem, quando chega ao último grau de perfeição, é imbebível."


"O Homem Sem Qualidades"    ( Robert Musil)



Mas o que é que  acontece quando o réu é "parcialmente" doente?  Diz Musil que, então, os "professores de direito querem que se seja, também, parcialmente são.", ou seja, responsável. E a lei, sem dúvida, não poderia ser aplicada se o juiz devesse considerar a consciência de Moosbrugger como uma corrente alternada, sem se saber onde e quando se verificam as "fases".

A "precisão" consiste, então, em isolar a consciência do seu contexto psíquico e do seu contexto social, convertendo a "justiça" em anatomia.

Contra isso, a tendência de justificar o crime pela influência do meio e pelas origens sociais, ou pelos traumatismos da infância, veio pôr a nu a falta de fundamento da "sabedoria engarrafada", arrastando os tribunais no mesmo processo de perda de autoridade que corrói os outros baluartes da sociedade burguesa. E nem era precisa a degradação da justiça pelos impulsos corporativos para compreender como o mal é profundo.

Uma justiça "dessacralizada" e sem o álibi dos grandes princípios é o que parece resultar desta situação. Mas limitar-se a impedir a violação da lei parece-se, em sociedades tão desiguais como a nossa, com o direito do mais forte...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

(José Ames)

A OUTRA REVOLUÇÃO

Máquina a vapor



A ideia da Revolução divide o mundo político (entre a moral de um antes e a moral de um depois) e o mundo real (entre  a "necessidade", o que tem de ser por causa duma herança e dum contexto,  e o desejo de utopia).

É mais que certo que a nossa percepção do que é possível, o nosso sentido da realidade, se quisermos, varia de acordo com as circunstâncias psico-sociais, permanecendo o mundo e a necessidade, em tudo o resto, os mesmos. Daí que euforias e desânimos encontrem sempre o seu antídoto na resistência das coisas. Depois de "assentar a poeira", defrontamo-nos com os problemas de sempre, quando não os agravámos numa reviravolta inesperada. Mas não há sabedoria que modere o nosso impulso de mudar o mundo.

Se a Revolução (com maiúscula) nunca tirou as asas dos pés para se juntar à nossa peregrinação terrena, podemos vê-la ao trabalho, transformando realmente o mundo e suscitando a menor desordem possível,  numa criação nossa, na verdade, no fogo roubado aos deuses por Prometeu: a "tecnologia".  É aí que somos revolucionários, com um sucesso inequívoco. É graças à ciência e às suas aplicações que resolvemos os problemas da humanidade (mesmo se criando outros que pedem mais estudo e mais tecnologia). A máquina a vapor trouxe a riqueza e o poder a algumas economias. Hoje, consideraríamos um regresso às trevas ter de passar sem o computador.

Mas mesmo aqui, vamos de olhos fechados. As consequências das nossas invenções são imprevisíveis, quando não representam uma ameaça directa à nossa existência, por poderem ficar fora do nosso controle, ou, quanto às suas implicações, para lá da nossa compreensão.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

(José Ames)

QUI PRO QUO





A presente crise está a fazer compreender a todos o papel do crédito (e da banca) no nosso sistema. Precisamos sempre do futuro nas nossas apostas e nos nossos empreendimentos, e é aí que entram o capital (sem juízos morais) e o risco. Quando os bancos se limitam ao seu papel de instrumento necessário duma economia sã, não é provável que se financiem projectos inviáveis, nem que se empreste a quem não pode pagar. Como os riscos são grandes, é o que eles estão a fazer neste momento, mas só depois de, como diz Jim Stanford (Who's bailing whom? - challenging the private credit-system), "A verdade pura e simples é esta: os bancos privados têm o poder de criar dinheiro novo quando emitem crédito alavancado. Eles usaram dum modo lamentável esse poder: facilitando bolhas de activos em vez duma acumulação real do capital, e sacudindo a economia com o pára-arranca do crédito em vez do estável apoio de que precisamos."

A Banca teve, como é sabido, de ser salva destes desvarios com o esforço dos contribuintes, mas estes não podem, agora, esperar qualquer tipo de reconhecimento. Devem, pelo contrário, esfarrapar-se para reconquistar a confiança deles.

Assim vai o mundo. Os que tinham as alavancas do crédito fizeram dinheiro "com ar e vento" e injectaram as veias da nossa economia com o estimulante perigoso do crédito fácil. Drogaram-nos e não merecem mais benevolência dos que vendem estupefacientes à porta das escolas. Agora que quase deitaram abaixo o salão de jogo, querem que nos desintoxiquemos de um "dia para o outro".

E de que é que se têm de queixar os contribuintes alemães (e outros) da "ajuda" à Grécia ou a Portugal? " Não é a Grécia e outros estados fracos que estão a ser "salvos" (bailed out). São os bancos que emprestaram dinheiro a esses países. Se fosse só o incumprimento da Grécia, isso já teria acontecido há dois anos. É por temerem o colapso dos bancos em França e na Alemanha e noutros lugares - causando o congelamento do crédito e a depressão continental - que correm os altos funcionários tentando prevení-lo." (ibidem)



domingo, 23 de outubro de 2011

Lisboa (José Ames)

MÁSCARAS

Marcus Licinius Crassus (115 AC – 53 AC)


"Num dia em que se perguntava a Crassus se ele concorreria ao consulado e que a ele não importava nada responder, disse uma bela frase: Sim, se isso for útil ao Estado. Se não, não."

(Paul Veyne)




É o célebre "If called, I will serve" de Richard Nixon. Entre o homem mais rico da Roma Antiga e o homem do "Watergate", a mesma necessidade de esconder a paixão particular a cada um sob o manto da retórica.

Na política, encontram-se as "máscaras" e não as pessoas, como tem de ser. Isso acontece porque desde o momento em que o homem assume uma parcela, por pequena que seja do poder, já não pertence a si próprio mas à necessidade política e social.

Nisso, a situação é semelhante a uma mudança de velocidade, em que aumenta o número de regras que condicionam o nosso comportamento. No automóvel, por exemplo, temos de ser muito diferentes porque passamos a encarnar uma força mecânica que se impõe aos protocolos da convivência.

Devia ser possível julgar a política pelas forças que a condicionam, mas as paixões são mais fortes. Por isso é de regra a máscara que protege o rosto humano, demasiado sensível e incapaz, sem se desfazer, de suportar tantas contradições

sábado, 22 de outubro de 2011

(José Ames)

MEDO NO CASINO




"'Então tu dirias que a sobriedade mental é uma condição da nossa natureza, tal como a dor, e não uma matéria que possa ser aprendida? Porque decerto, se aquele que deve ser mentalmente sóbrio, precisa de aprender primeiro a sabedoria, não poderá ser convertido, dum dia para o outro, da sua loucura.

-Não, Ciro', disse o príncipe,  'mas certamente tu terás conhecido pelo menos um homem que por pura loucura se dispôs a lutar com um homem mais forte do que ele e que no dia da sua derrota ficou curado da sua insensatez.'"


"Ciropedia" (Xenofonte)




Tigranes quer convencer o rei dos persas de que nada terá a temer da parte do pai e dos seus, se não forem castigados, devido à sua rebelião, porque a derrota devolveu o juízo às suas cabeças. E, como lisonja, acrescenta que os vencidos reconhecem, agora, não só a força de Ciro, mas que ele é melhor homem do que eles.

Mas no final o que fica é que só o medo impedirá os subjugados de repetir o desafio.

De facto, ninguém aprende pela força, mas pode preferir, na incerteza, manter-se sob o jugo. Assim governaram o mundo os Romanos durante alguns séculos. A pedagogia romana utilizava tanto o medo (através da dizimação, por exemplo), quanto a  sedução que corrompia de um modo seguro as elites.

No nosso presente aperto, temos o exemplo dos Gregos que vão de greve geral em greve geral, sem uma solução à vista. Não é certo que seja a força a chamá-los à razão, porque essa razão é a da morte lenta. No fundo, eles estão, conscientemente ou não, a usar a arma do medo contra os que lhes querem cortar a carne.

Rui Tavares referiu-se há dias ao caso da Bélgica que é um país sem governo há mais de um ano e um dos mais endividados da Europa. “Mas a economia belga é das que mais cresceu na zona euro nos últimos tempos, sete vezes mais do que a economia alemã." (...) "Sem governo, nos tempos que correm, quer dizer sem austeridade."

É caso para reflectir. O cerne do problema das "dívidas soberanas" é a imaginação, por vezes chamada de falta de confiança dos "mercados". Ora a imaginação combate-se com mais imaginação.

Talvez que os Gregos consigam inspirar um medo maior do que o medo de perder um grande negócio.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Adraga (José Ames)

SI ILLE CUR NON EGO?

Santo Agostinho



"Ora o direito dos seres vivos exprime-se hoje de duas maneiras: a segurança do risco zero e o direito à felicidade."

(Fr.Jean-Michel Potin)




"Wishful thinking", sem dúvida. O que temos hoje é a insegurança e o empobrecimento, e não creio que alguém se esteja a sentir "pobrete, mas alegrete".

Que direito tem o judeu Shylock de exigir do seu devedor, António, a celerada libra de carne, só porque o navio deste foi ao fundo com todos os seus bens? Claro que se pode invocar um "direito", mas nunca foi tão transparente a  identidade deste com a força bruta ou a força cega de um sistema.

Pelos vistos, nós vamos ter de abdicar dos direitos constitucionais (Canotilho dixit), na maior das legitimidades, porque se trata de salvar "os dedos". Salários e pensões, para lá do estrito limiar da fome, parecem ser os "anéis".

Mas, como dizia Santo Agostinho, "Si ille cur non ego?" ( Se eles, por que não eu?) Mas, aqui, no sentido inverso. Se nós abdicamos do essencial, por que não abdicarão eles (os donos do casino) do supérfluo?

Felizmente que já vimos esses entrarem em pânico, mais de uma vez, e só sossegarem  depois de nos carregaram de impostos, como qualquer governador de província ao serviço do imperador estrangeiro.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

(José Ames)

FADÁRIO

(Estação do Rossio, Lima de Freitas)



"A única coisa que importa, como em todo o pessimismo bem compreendido, é ter encontrado o elemento inelutável sobre o qual repousar."


"O Homem Sem Qualidades"
(Robert Musil)




Ora se há povo que tenha os ingredientes de cultura necessários para ser fatalista ("o elemento inelutável"), é bem o português, ou a canção nacional não se chamasse fado.

O "fado" exprime-se de diversas formas. É o "é tudo uma cambada", que não distingue o " trigo do joio", a "choldra" queirosiana e são, mais recentemente, os vícios do "portuguesinho" ( assim mesmo, com o diminutivo queremos reduzir-nos à porçāo côngrua e fazer um paralelismo "inelutável" com o tamanho do país): como fomos atrás da sereia do euro e do crédito fácil, "vivemos agora acima das nossas possibilidades" e há que sofrer os trabalhos do serralheiro que fará encolher a cama em que nos deitamos, qualquer que seja o tamanho do corpo. Já estamos a pôr as pernas a jeito para serem cortadas e caberem neste leito de Procusta forjado pela finança do desespero.

Somos pessimistas sim senhor, e desde, pelo menos, a morte do Príncipe Perfeito. Mas, coisa de surpreender, isso não nos torna menos amáveis. Descarregamos como podemos e fazemos boa cara. Sabemos "desenrascar-nos" com o nosso fatalismo todo e manter a cabeça fora da água. Podeis estar certos de que o Estado não nos merecerá mais lealdade depois de mandar vir o "serralheiro" e de deixar impunes os poucos, mas que são a tristíssima elite deste país, que abriram os odres da tempestade (falo só das causas internas). O mercado paralelo florescerá como nunca se viu, e com a cumplicidade da mesma maioria intratável.

Temos muito a ver com os gregos e, com razão, se Ulisses entrou pelo "mar da palha". E estamos hoje nos mesmos apuros, porque, lá bem no findo, acreditamos no destino com o hemisfério esquerdo, e com o direito não. Ou pode ser ao contrário.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Chester (José Ames)


POLICROMIA





Um exemplo flagrante da ilusão turística (o turista sendo, no fundo, um coleccionador a quem importa mais ter "lá estado" do que conhecer) é a impressão que, a quase todos, dão as ruínas da Grécia Antiga. Para além de serem muito menos "físicas" do que os vestígios romanos, foram pelo tempo duplamente "maquilhadas". A brancura e o despojamento dos templos não correspondem ao espírito da nação, mas são o inescapável efeito do trabalho incansável do tempo. Porque o que os Gregos tinham diante dos olhos, como se sabe, era uma policromia. Os verdes, os azuis e os vermelhos gritavam dos frontões, dos trÍglifos e das métopas contra o céu intenso e puro. Tanta garridice casava bem, afinal, com a proverbial tagarelice dos Atenienses. O que resta da cidade já não espelha nada disso. Por cima da verdadeira, outras cidades se foram "construindo", de que podemos hoje fazer uma outra arqueologia.

É difícil, para nós, conciliar com a cor o que nos chegou até hoje, por exemplo,  da poesia e da filosofia gregas. A Idade de Ouro deve ser sempre idealizada para motivar o espírito.  Mas, nas suas contradições, o povo grego é, sobretudo, a imagem da própria liberdade.

É muito significativo que, hoje, os descendentes desse povo magnífico estejam, em vida, a sofrer o destino das suas ruínas.