quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sem título

 

Sicília

 

O ESPANTALHO


Lenine

"A guilhotina" não era senão um "espantalho que quebrava a resistência" activa. Isso não nos basta. [...] Não devemos unicamente quebrar toda a resistência, qualquer que ela seja. Devemos ainda "obrigar as pessoas a trabalhar" no quadro da nova organização do Estado."

(Lenine, Setembro de 1917: "Les Bolcheviks garderont-ils le pouvoir?"; cit.Stéphane Courteois)


A guilhotina, na concepção do sr. Guillotin, seu inventor, devia ser um instrumento 'civilizado', sem os percalços da decapitação manual por um carrasco. Na linha do progresso industrial nascente. Mas, naturalmente, conservava o seu papel dissuasor de repelente político, como, de certa maneira, o espantalho. O mais importante, porém, era o poder corruptor da guilhotina, o que à primeira vista parece paradoxal. Mas lembremo-nos de que o 'incorruptível' Robespierre que não se podia corromper pelo dinheiro, nem talvez pelo poder, foi, na verdade, integralmente corrompido pela Razão, ou, se quisermos, pela loucura da razão.

A tarefa que se impôs Oulianov revelou-se uma tragédia pelo mesmo motivo. Havia à partida aquela declaração de que o medo (o espantalho) nunca bastaria, porque, ao mesmo tempo era preciso despertar um grande entusiasmo pela construção do novo estado. Esse era o nó do problema. Em vez de entusiastas, depois da sua morte, só se podia contar com os escravos do medo.

Staline compreendeu isso muito bem e, perante a contradição, ficou-se pelo tiro na nuca, ou seja, pelo espantalho.

 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

(José Ames)

A TÉCNICA

(Daniel Kahneman)

" A adaptação a uma nova situação, boa ou má, consiste em grande parte em pensar cada vez menos nela."
(Daniel Kahneman)

É assim com o corpo saudável que, em princípio, não nos deveria chamar a atenção para nenhuma das peças do seu 'mecanismo'. Mas o que distingue o corpo de uma verdadeira máquina é a desadaptação permanente: o meio ambiente e o próprio corpo mudam, constantemente.

A perfeita adaptação corresponderia, assim, à conservação no gelo, em que todas as funções vitais e a própria lei da entropia estivessem suspensas.

Desde a teoria da evolução que as espécies parecem ter sofrido um processo de adaptação que estabeleceu o homem no seu trono planetário e, praticamente, com ou sem divindade interposta, no centro do Cosmos.

E, na medida em que falamos do que não sabemos, a antropologia continua a ser o 'horizonte inultrapassável' de todos os nossos 'estudos celestes'.

A ilusão ascendente da espécie justifica que nunca possamos considerar-nos 'adaptados'. Pelo que só poderíamos pensar cada vez menos na adaptação se delegassemos as nossas preocupações em qualquer coisa que 'pensasse' por nós, num regresso da figura da Providência, tornado possível graças à Técnica. 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

(Amarante)

A SURDEZ ESTRATÉGICA


(T.S. Eliot)

"Se o século XVIII tivesse admirado a poesia mais antiga como nós a admiramos, disso teria resultado uma babel: o século XVIII, ou seja aquilo que conhecemos por tal, não teria existido. Os escritores não teriam possuído a convicção necessária para aperfeiçoar aqueles géneros de poesia que efectivamente conduziram à perfeição. A surdez de Johnson para certos tipos de melodia era a condição necessária para aguçar a sua sensibilidade para uma outra espécie de valores verbais."
(T.S. Eliot)

A situação é conhecida, as nossas escolhas supõem um juízo de valor, quer ele seja estético ou moral, mas na realidade actualizam algo de mais profundo que tem a ver com uma espécie de instinto, o de 'perseverar no seu ser', como dizia Spinoza.

Teríamos, talvez, de considerar a 'surdez' de Johnson, e a dos escritores do século XVIII de que fala Eliot, não como um verdadeiro juízo, mas como a estratégia de afirmação de uma nova fé.

O exemplo que melhor serve esta ideia do poeta anglo-americano é o da admiração dos Romanos pela arte dos Gregos que não resultou numa babel, mas no atrofiamento de uma arte própria.

De resto, esta é uma pergunta retórica da parte de qualquer novo artista ou escritor, em face do legado dos que o antecederam: como, por exemplo, escrever em inglês depois de Shakespeare?

De uma maneira ou de outra, podemos imaginar uma nova 'surdez' para cada época, a fim de evitar o desencorajamento dos novos talentos.

A força da admiração tem de ser menor do que a da auto-estima (ou da confiança em si-próprio), para não secar a tinta.


domingo, 27 de dezembro de 2015

(José Ames)

A VIDA TAL QUAL

(Robert Musil)

"É um sinal de saúde renunciar hoje a procurar o acesso desabado da alma, e em vez disso esforçar-se por se acomodar à vida tal qual ela é!"

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Esta frase acaciana é pronunciada por Diotima, dona de um salão influente no reino das 'duas águias'.

O que é mais curioso é que esta fórmula pequeno-burguesa de acomodação ao 'status quo' tem muitas semelhanças com a teoria da evolução das espécies.

Isso, porém, não a torna imune à crítica política do género marxista, que vê por detrás dessa 'acomodação' uma moral de classe. A solução deste paradoxo é a ideia de Revolução, que é a 'tabula zero' de uma 'remissão dos pecados'.

A Vida não exigiria menos do que este 'limpar da lousa' para voltar a pôr a sociedade humana nos trilhos e para, enfim, dar lugar a uma verdadeira adaptação parecida com a de Darwin.

Até lá, até esse Jubileu, o capitalismo só pode evoluir dentro do sistema. E embora não exista nenhuma prova científica para esta fatalidade, por muito que o sistema mude e se 'adapte', por exemplo, à tecnologia, não haverá nada de novo sem um 'reset' apocalíptico.

sábado, 26 de dezembro de 2015


(Cork)

O NÃO-HUMANO

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Toda a verdade tem um carácter não-humano (inhumain), "se se entender aqui por não-humano uma espécie de desconexão entre a verdade e os efeitos de sentido de que o humano se alimenta."

(Alain Badiou)

A verdade não poderia, assim, ser a verdade inteira, por causa deste seu carácter não-humano, de que não podemos fazer sentido. Esta falha explicaria porque sentimos necessidade de distinguir as várias acepções do termo: verdade absoluta, verdade pura, ou verdade comezinha, 'lapalissade'.

Há a verdade do vivido, da nossa experiência que se confunde com a sinceridade, a honestidade, etc., ideia a que a filosofia sempre quis contrapor a verdade objectiva, universal e eterna, conforme a sua origem teológica. Para Platão, por exemplo, o mundo da aparência inclui as nossas próprias opiniões 'sinceras' e a mais 'honesta' das ignorâncias.

No pólo científico, da verdade objectiva e comprovada experimentalmente, a necessidade de 'domesticar' o 'não-humano' e de o abrangermos nas nossas projecções é quase inevitável e de todos os tempos.

"É assim que Descartes, que distingue da metafísica, busca do Ser através do pensamento, a ciência, análise da natureza, não pode impedir-se de unir a ciência à metafísica como o tronco e as raízes da mesma árvore do conhecimento, e de utilizar para uma e para outra a mesma palavra verdade."(M. Deschoux, J. Gagey, P. Bigler, Philos. dernière)






quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

(José Ames)

O CIDADÃO DO MUNDO




(A Carta de 1826 reservava) "a cidadania política para aqueles que tinham meios para uma vida independente, segundo o modelo clássico do cidadão, e interesse na manutenção da ordem pública."
"História de Portugal" (Rui Ramos & al.)

Dir-se-ia que o Cristianismo não passou por aqui. A igualdade, reconhecida no Céu, não está ao abrigo da mesma jurisdição na Terra, e só encontrou tradução política na Revolução Francesa, para confirmação do poder de facto do Terceiro Estado. Parecia ter razão Karl Marx quando viu na revolta e elevação à cidadania dos 'últimos da terra' o princípio da libertação da Humanidade.

A 'vida independente' confunde-se hoje com o individualismo, este, porém, continua a ser uma quimera para grande parte da humanidade, uma quimera que nem sequer pode ser aprovada por todos como um ideal.

Quanto ao interesse na ordem pública, esse, enfim, alargou a sua base de apoio, sobretudo no Estado social, onde a desigualdade é até certo ponto compensada pelos impostos. E mesmo num país como os EUA, tão relutante em constranger de qualquer modo que seja a liberdade dos interesses económico-financeiros de uma casta, a ordem pública merece um amplo consenso. De uma forma contraditória, embora, por se mostrarem conciliadores, não só com o 'lobby' das armas, mas com todos esses anacrónicos cultores dos mitos do Faroeste.

O atraso com que as modas europeias chegavam a este cantinho do continente preservou-nos do ambiente excitado dos grandes momentos de crise. Podíamos repetir os mesmos erros dos nossos 'congéneres', mas estes, encontrando-se já no estádio seguinte, podiam ser mais razoáveis e... mais cínicos.

A presente fase de globalização por via da técnica mudou drasticamente os dados da situação. Diferentes tempos e modos tornaram-se simultâneos e actuais. Tudo isto corresponde ao que se poderia chamar de uma implosão da história e das entidades políticas tais como as conhecíamos.

Será concebível ainda a ideia de um cidadão do mundo?



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015


(Cracóvia)

O DIVERTIMENTO




"(...) por exemplo, para Pascal é claro que a filosofia - entendamo-la como o cartesianismo - é uma forma sofisticada e mascarada de um divertimento."
(Alain Badiou)

Não a contemplação platónica do Bem, nem a 'preparação para a morte' dos antigos estóicos, mas a mundanidade e a aparência das coisas. Foi, no entanto, por esse 'orifício' (o da beleza do mundo, como dizia Simone Weil) que se iniciou a aventura da ciência.

Para Platão a aparência é a ilusão que devemos abandonar na nossa busca da verdade. Descartes endeusa a razão e reconstrói o mundo a partir dela. Mas Kant expõe os limites da racionalidade e a sua inutilidade para desvendar mais do que o mundo dos fenómenos.

Pascal, embora um pensador de génio e um espírito científico nas suas horas, pretende ir direito ao essencial, acessível apenas à fé e ao 'pensamento subtil'. É, contudo, um homem prático e atento às fraquezas da espécie que imagina o célebre 'pari', a aposta numa escolha lucrativa para a alma, independente da fé e do coração.

Isto parece não casar bem com o seu jansenismo e a sua austeridade. Parecia estar a cavalo de dois mundos de uma forma não problemática. Chapeau!

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

(José Ames)

FORA DE ORDEM

Michel Foucault


Segundo Foucault, a verdade pertence ao domínio do controlo social. Assim, existe uma ordem do discurso que legitima as instituições e a estrutura social. Tal como a ideologia, em Marx, o discurso cumpre tanto melhor a sua função quanto menos revelar da sua natureza.

A 'naturalização' do discurso é um processo ininterrupto e abrange todas as formas de poder. A economia, como 'instância determinante' tem tudo para concitar o máximo de 'verdade' exclusiva e o máximo de ocultação. De facto, a crescente sofisticação dos modelos de explicação vai de par com um autoritarismo mal disfarçado. Esta situação assemelha-se, sem grande exagero, ao dogma religioso. Foi o caso do recente 'there is no alternative'.

Claro que, comentando este filósofo da nossa época, que tentou, com génio, uma espécie de geologia do conhecimento, temos de nos lembrar que este conceito de verdade, como 'vontade de verdade', pouco tem a ver com a acepção de verdade que está na base da civilização ocidental.

A instrumentalização da verdade é de todos os tempos, e é a isso que corresponde esta 'vontade' que intenta controlar o discurso 'fora de ordem'.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015


Lisboa

HERMENÊUTICA

Frederico Lourenço (Diálogo com Frei Bento Domingues, 'Público' de ontem)




"A minha tese é que nenhum dos autores dos 70 livros que compõem aquilo a que chamamos a Bíblia, nenhum, escreveu com o intuito de que nós lêssemos nas palavras deles outra coisa que não as palavras que foram escritas."

Frederico Lourenço 

Não posso senão concordar. O 'texto aberto' é uma ideia do século XX. Isso não quer dizer que não seja preciso uma chave, porque, em princípio, o texto é 'inspirado'. Podemos contentar-nos em rodar qualquer outra chave, num sentido ou noutro, mas a 'porta' só se abre no 'estado de graça' e com uma única chave.

Pelo seu lado, o 'texto aberto' corresponde já a um mundo sem Deus, em que o leitor exerce uma espécie de 'direito de escolha', para glória da alma individual. O Deus que corresponde a esta auto-suficiência hermenêutica, na realidade, faz parte do mundo 'profano' e individualista.

É certo que o próprio Jesus condenou a interpretação literal (a dos fariseus), por contraposição da fé. Mas a fé não encontra 'o' sentido necessariamente, e parece não depender dela esse 'milagre'. De certo, só sabemos que a letra está condenada ao fracasso...excepto no caso dos fatalistas.




domingo, 20 de dezembro de 2015

(José Ames)

TRÓIA E A FALTA DINHEIRO




"Já Tucídides observava que a força que faltou, aquando da expedição de Tróia, foi precisamente o dinheiro. Por causa desta 'falta de dinheiro' (akhrēmatía), tudo era muito menos poderoso do que se ia seguir, mesmo se fosse muito mais glorioso."

(Roberto Calasso)

O dinheiro e a tecnologia tornam as guerras modernas cada vez menos 'gloriosas', do nosso ponto de vista, claro. Porque os que continuam, onde quer que seja, a fazer-se explodir em nome da religião, esses conhecem a sua versão da glória que lhes é incutida por autênticos ou pérfidos mentores.

A guerra entre gregos e troianos ter-se-ia decidido mais cedo, com menos custos humanos, se abundasse a força do dinheiro, ou se o valor das partes não se equivalesse. Mas os Gregos combatiam pela honra e por um fantasma chamado Helena (poderia estar no Egipto, ou em qualquer nuvem), enquanto os troianos de Heitor lutavam pela sua cidade e pela vida dos seus.

Assim, não se compreenderia como foi possível o triunfo dos Gregos. O pretexto de Helena deve ter servido no tempo das incertezas, da falta de vento, da quezília entre Aquiles e Agammemnon. Mas os primeiros mortos encarniçaram a guerra e tornaram-se o motivo principal. Foi a morte de Pátroclo que fez o filho de Tétis abandonar o seu amuo tão impróprio de um 'herói'. A cólera de Aquiles é o símbolo da força precária dos Gregos. Não houve uma falta dessas na cidade sitiada.

É aqui que entra uma força superior à do dinheiro, à coragem e ao valor militar, que faz a guerra sair do impasse. É a força da inteligência que se revela no estratagema de Ulisses. É também uma força sem glória e, até por isso, deveria opor-se a todas as guerras. Mas nem sempre está à mão no momento preciso...



sábado, 19 de dezembro de 2015

Alfama 

O QUE SABEMOS DO SER PARA PERGUNTAR

Platão e Aristóteles

"Quando a ironia socrática foi levada a sério, quando o conjunto da dialéctica se confundiu com a sua propedêutica, resultaram daí consequências extremamente deploráveis, pois a dialéctica deixou de ser a ciência dos problemas e, em última análise, confundiu-se com o simples movimento do negativo e da contradição. Os filósofos acabaram a falar como jovens da ralé. Deste ponto de vista, Hegel é o resultado de uma longa tradição que levou a sério a questão "que é?", servindo-se dela para determinar a essência, mas que, assim, substituiu a natureza do problemático pelo negativo."

"Diferença e Repetição" (Gilles Deleuze)

Compreender como o perguntar o que as coisas são, que é a pergunta das crianças (o que é isto?), só pode ter um nome como resposta. E sabido o nome, não tem sentido perguntar porquê.

No limite, a cada coisa deveria corresponder um substantivo, duplicação do real pela linguagem. Só haveria diferenças e nenhuma semelhança.

Mas a pergunta do ser não pode descobrir mais do que a semelhança, porque tudo se reduz ao mesmo (o Ser).

"A questão "que é?" anima apenas os diálogos aporéticos, isto é, aqueles que a própria forma da questão lança na contradição e faz com que desemboque no niilismo (...)" (ibidem)

O movimento de ideias que se gerou a partir da oposição platónica entre a essência e a aparência, com repercussões em todos os campos do saber e da experiência, desde as ciências à religião, teria sido possível, então, graças a uma "doença infantil" da filosofia?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

(José Ames)

IMPOSSÍVEL ESPECTADOR

"All about Eve" (1950-Joseph Mankiewicz)



Quando o satânico Addison DeWitt (o magnífico Georges Sanders), na festa de Margo, anunciada já a tempestade prestes a rebentar ( - apertem os cintos! diz Bette Davis), faz algumas reflexões em voz alta, alguém diz que não é preciso ser adivinho para saber qual vai ser o teor da sua crónica do dia seguinte.

O trabalho da escrita, que se prepara mesmo no sono e que nunca deixa de impor um sentido à realidade, independente da acção, pode ser uma espécie de exílio.

Também, quando se viaja com uma câmara fotográfica que nos dá algum prazer, já não há situações, nem libertação dos sentidos, mas luz, enquadramento e oportunidades.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015




Ericeira

FUTURO ANTERIOR

Frédéric Chopin (1810/1849)



"Os Estudos são ensaios para uma teoria da infância e, justamente por isso, uma preparação pianística para a morte, uma pesquisa em que o ouvido é o olhar da alma."

(Boris Pasternak sobre Chopin, citado por Cristina Campo)

É preciso acreditar que a infância não foi uma idade de oiro, para sempre perdida, na qual todos os nossos órgãos se afeiçoaram ao mundo e a que só é possível voltar regredindo, caindo na farsa da primeira idade que é o senil.

Não, é na maturidade dos Estudos, por exemplo que escutamos o jorrar da fonte, secreta, mas sempre presente.

E devíamos ir ao encontro da morte com a primeira inocência (porque, enfim, não há saber, nem experiência que possamos invocar), como o viajante que por momentos poisou a sua mochila e nela volta a pegar quando retoma a caminhada.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

(José Ames)

MULTICULTURALISMO OU ASSIMILAÇÃO?

www.athirdopinion.net
                      

"Que muitos dos refugiados sírios sejam profissionais e homens de negócio não escapou aos analistas e empregadores, e já algumas companhias dispõem de novos aprendizados direccionados aos refugiados. Os instintos humanitários de Merkel podem a longo prazo trazer benefícios materiais para o seu país, tanto quanto a Alemanha seja cautelosa em não alienar os cidadãos em perspectiva, exigindo-lhes em troca a assimilação como preço da cidadania."

Tariq Modood (The Guardian, 16/12/2015)

O multiculturalismo torna-se a prazo um regime de 'apartheid', ou uma 'reserva de índios' (não é essa a lição do judaísmo?), se não houver uma escalada demográfica dos refugiados e dos seus descendentes, caso em que assistiremos a uma nova versão do 'fim do império romano', sem bárbaros conquistadores, mas com os novos Átilas da rede global.

A falta de previsão dos líderes europeus é agora punida com o discurso triunfante da extrema direita. O chamado 'politicamente correcto' que assim expôs as nossas ideias fundamentais, através de um respeito supersticioso do Outro, cada vez mais confundido com as suas franjas fanatizadas, as únicas que têm voz no espaço mediático, levou-nos a esta situação de perigo iminente.

A palavra morta, soterrada nos índices estatísticos da nossa 'qualidade de vida', na nossa demografia extenuada, no nosso egoísmo,  é o verdadeiro destilador do 'politicamente correcto'.

O falhanço do 'multiculturalismo' reconhecido pela Alemanha, país com uma população em declínio e, portanto, numa situação mais perigosa, com os 'cucos' a ocupar em pouco tempo a maioria dos 'ninhos', deve ser reconhecido por todos neste tempo vertiginoso. No contexto da guerra mediática global, o paradigma medieval da convivência pacífica entre comunidades com cultos distintos e uma religião dominante tampouco pode ser retomado quanto o califado do Daesh.

E é outra vez um caso-limite para a democracia ocidental. Devem as civilizações morrer, ou apressar o seu fim, em nome de uma maioria?

Para falar só da Alemanha, que tem uma fraqueza, para lá das gerações mais próximas, que é o seu horroroso genocídio em nome de algo que nem merece o nome de utopia que a torna inelegível para a condução dos destinos europeus, incapacidade que se reflecte, num complexo de culpa e na relutância dos seus dirigentes em chefiar a Europa, o 'multiculturalismo' é, de facto, o caminho para o suicídio.

Estamos ainda a sofrer o impacto das ondas de choque da Guerra que ultrapassou todos os limites.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015


(Holanda)

A MAGIA DE UM FÓSFORO


Flesh and the Devil



Num filme mudo como "Flesh and the Devil" (1926-Clarence Brown), é a própria rudeza dos meios que força à imaginação, com momentos tão irreais como os rostos da Garbo e de Gilbert "iluminados" pelo fósforo que acende o cigarro, ou as cenas do regresso do exílio, em que a obsessão amorosa é sugerida pela imagem flutuante sobre as dunas do deserto e as ondas do oceano.

E embora estes processos sejam característicos de muitos outros filmes da época ( as lentes não eram tão luminosas, nem existia ainda a voz-off) e tenham conhecido até, possivelmente, a exaustão, o que experimentamos agora em pleno domínio técnico é a irredutível poesia do tempo.

Como as antigas peças de cerâmica, tantas vezes copiadas, e que trazidas à luz do dia adquirem o valor da raridade e a beleza dos símbolos.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

(José Ames)

MARQUISES





"A parte, só pelo facto de ser uma parte, é mais do que ela só, porque exprime a sua relação com todo o resto. Se se reflectir no desenvolvimento das ciências exactas e nos andaimes da construção abstracta, descobrir-se-á que elas insinuam nas suas sínteses sucessivas um carácter crescente de idealidade subjectiva."
"L'action" (Maurice Blondel)

E quanto mais impressionante é esse edifício e mais distante no tempo da construção dos seus alicerces, maior é a ilusão de que nele conseguimos encerrar toda a realidade.

No trabalho de acrescentar piso sobre piso, perdeu-se a proporção e o próprio estilo. Parte-se cada vez mais da última camada de "concreto" para uma nova "marquise".

domingo, 13 de dezembro de 2015

(Setúbal)

O SALÃO DE MALLARMÉ

André Gide (1869/1951)


Em "Si le grain ne meurt", André Gide conta-nos como eram as famosas quartas-feiras à noite de Mallarmé:

"Em casa de Mallarmé, reuniam-se quase exclusivamente poetas; algumas vezes pintores (penso em Gauguin e Whistler). Descrevi noutro lado esta pequena assoalhada da rua de Roma, ao mesmo tempo salão e sala de jantar; a nossa época tornou-se demasiado ruidosa para que hoje se possa imaginar facilmente a atmosfera calma e quase religiosa deste lugar. Decerto que Mallarmé preparava as suas conversas que não diferiam muito das suas "divagações" mais escritas; mas ele falava com uma tal arte e num tom tão pouco doutrinal que parecia que tinha acabado de inventar no momento cada nova proposição, a qual ele não afirmava tanto como parecia vo-la submeter quase interrogativamente, de indicador levantado, e o ar de dizer: "Não se poderia dizer também?... talvez..." e fazendo quase sempre seguir a sua frase de um: "não é assim?", com o que mais influenciava, sem dúvida, alguns espíritos. Algumas vezes uma anedota cortava a "divagação", algum dito de espírito que ele reproduzia na perfeição, atormentado por essa preocupação de elegância e de preciosismo, que levou a sua arte a afastar-se tão deliberadamente da vida."

Pensar que hoje um documentário sobre o poeta, na televisão, nos pode parecer mais instrutivo que frequentá-lo.
Por causa da ideia de que um pensamento se pode resumir em algumas imagens mais o seu comentário. De que o corpo só produz "ruído".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

(José Ames)

TAPEÇARIA

(Cristina Campo (1923/1977))


"A um tapete de maravilhosa complicação, do qual o tecelão não mostra senão o avesso - nodoso, confuso - tem sido por muitos poetas, por muitos sábios, assimilado o destino. Só do outro lado da vida - ou por instantes de visão - é dado ao homem intuir o outro lado, precisamente: o inconcebível desígnio do qual foi linha e nó, um castanho ou verde a condizer com outro castanho ou verde, fragmento de figura, parte pelo todo."
"Os Imperdoáveis" (Cristina Campo)


E não é verdade que nos nós e na confusão do avesso há uma perfeita correspondência com a ordem e a beleza da frente do tapete?

Não temos a chave da leitura, mas temos no caos aparente da paisagem nodosa matéria e coerência para uma outra ordem, segundo as leis da mente, essa.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Sanfins

A CURA PELO TEMPO


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"That time is no healer: the patient is no longer here."

"Four Quartets" (T.S. Eliot)

O tempo não cura: o paciente deixou de estar aqui. Por contra-intuitivo que pareça, podemos colocar a verdade sobre os pés (e não sobre a cabeça, como disse sobre Hegel o seu mais célebre aluno).

O que sofre a sua vida, pode deixar de ser paciente, no tempo, 'curar-se' no tempo ou pelo tempo. Num certo sentido deixou de 'estar aqui'. É outro homem. A morte não é a única solução do problema.

Que situação poderia ser essa em que faltássemos ao tempo? O tempo seria então a forma do trágico. Não, o tempo morre connosco. Tudo o resto é mecânica e relojoaria.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

(José Ames)

EM NOME DO HOMEM


(Gershom Scholem)

"O rabi Mendel reduziu a revelação a uma revelação mística, ou seja, a uma revelação que apesar de em si ser infinitamente repleta de sentido, não tem um 'sentido 'específico'"
(Gershom Scholem)

Não estará a 'revelação' dependente de um contexto, assim, devendo ter um sentido específico? Ou, são todas as interpretações possíveis independentemente do contexto, um pouco como a 'abertura' da primeira teoria do texto barthesiana?

O que parece absurdo em literatura, por exemplo, deixa de o ser no elemento místico que corresponderia, nos termos de Scholem, a uma 'redução'. Mas a revelação mística do rabi é-nos, ao mesmo tempo, apresentada como 'repleta de sentido'...sem ter um 'sentido específico'.

A qualidade do místico sugere, nesta versão, uma abertura sem resistência ao não racional. Esse nome teria todos os predicados possíveis, tal como a palavra Deus, ou como Tudo ou Todo.

Não estamos já, efectivamente, no nosso mundo que é o mundo da 'medida média' (Musil), antropológica.

Só podemos chamar a isto uma redução em nome do Homem.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Alcochete

A GUERRA SEGUNDO LEÃO


Leão Tolstoi (1828/1910)

O príncipe André poderia escrever um tratado da guerra no momento em que, depois de defender o tímido capitão Tushin da acusação de ter abandonado dois canhões no campo de acção, se levanta da mesa em que reúne o estado-maior do príncipe Bagration. Acaba de perder as suas ilusões de glória militar.

A guerra, que o jovem ajudante observa lucidamente, pela sua frieza e o seu carácter altivo que o mantêm à distância das emoções da camaradagem e do poder, é julgada pelo que é: uma confusa e incontrolável cadeia de acontecimentos que arrebata a vida e a saúde de muitos homens e a imaginação de todos. É uma loucura a que indevidamente se presta homenagem. Os heróis, neste tumulto, são os mais inconscientes dos actores. Como o pobre Tushin exaltado pelo estrondo da sua bateria e o jogo de abater fardas azuis à distância. Se conseguiu deter o avanço dos franceses, foi porque os enganou com uma genica que não representava de facto força nenhuma. A bateria estava completamente isolada, e isso era ignorado por toda a gente, excepto de Bolkonsky. A sorte da batalha foi, portanto, decidida por um louco que escapou a todas as malhas da rede de comando.

O príncipe pôde assistir com espanto, mais de uma vez, às ordens dos oficiais mais experientes. E o próprio general reduzia a sua intervenção à táctica de assumir todos os relatos do que se passava nos vários pontos do campo de batalha, e visivelmente fora do seu controle, como se fossem exactamente aquilo que estava por si decidido e o que sempre esperara que acontecesse. Mas essa atitude, reprovável noutra situação, como a mentira e a vaidade, produzia um efeito maravilhoso na multidão de homens aterrados pela incerteza e a desordem.

O simulacro de pensamento e de vontade nesse símbolo a cavalo da unidade do exército era suficiente para insuflar o entusiasmo e provocar os hurras dos soldados. Compreende-se como a presença de Napoleão nas suas campanhas militares pôde transformar uma nação dada à frivolidade e à inconstância.

Se o homem não é senhor do seu destino no fragor das armas, se a única forma de espírito que se vê no rosto do semelhante é a fúria e o medo, é necessário dar à imaginação o exemplo dum homem que é o contrário de tudo isso. Quando o chefe é acometido pelo furor divino, os homens avançam para o suicídio com alegria. Bagration, cansado do seu papel de secretário da fatalidade, vislumbra, excitado, a ocasião de determinar o resultado duma escaramuça entre as centenas de acções que são suas por empréstimo.

Um dos homens do estado-maior, sentado à mesa presidida pelo príncipe Bagration, inventa a enérgica atitude que gostaria de opor à debandada do seu destacamento. Ninguém o pode contradizer, e é melhor assim, para o moral de todos. Ele próprio acaba por se convencer de que imaginou a realidade. É natural que André Bolkonsky despreze uma tal cozinha da coragem e do valor militar.

Essas pobres personagens do drama que tomam a cadeira dos deuses só merecem que a bela figura do príncipe os deixe entregues à suas tristes ilusões.

Assim, o espírito diz não à força.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

(José Ames)

CASUÍSTICA

Charles Maucourt: expulsão dos jesuítas de Espanha

"Eles têm uma tão boa opinião sobre si próprios a ponto de acreditarem que é útil, e de alguma maneira essencialmente necessário ao bem da religião, que a sua reputação se deveria estender a toda a parte, e que  deveriam governar todas as consciências. Mas como estas máximas não estão de acordo com a maneira de ver da maioria das pessoas, não se insiste nelas em relação a essas pessoas, para permitir a satisfação geral. A este respeito, tendo de lidar com pessoas de todas as condições de vida e de todas as diferentes nações, é necessário recorrer à casuística para corresponder a toda esta diversidade."

"Lettres Provenciales" (Pascal)

Este é, afinal, o espírito da famosa casuística depreciativamente  atribuída aos jesuítas. E por que é tida em tão má conta? Pelo seu formalismo, me parece. Que a lei geral deva ser adaptada ao caso concreto, é uma necessidade. Mas não pela dedução especulativa. Sem dúvida, os Jesuítas foram grandes organizadores e grandes educadores, num sentido que levou à dessacralização da sociedade e ao advento do mundo moderno. Esta confluência de tantas forças no mesmo sentido e partindo de uma mesma matriz do pensamento, é aquilo a que Foucault chamou de paradigma.

Talvez neste ponto, o Cristianismo tenha abandonado de vez  a literalidade da Bíblia em favor de uma abertura hermenêutica.

A casuística da Companhia tornou-se assim num verdadeiro Cavalo de Tróia, que podia prescindir da fé para encarnar a lei no caso concreto.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Cortegaça

GIDE ENCONTRA WILDE

Oscar Wilde (1854/1900)


Oscar Wilde, pouco antes de voltar a Londres por causa do célebre processo que o iria levar à prisão e que para sempre arruinou a sua vida, corria certos cafés de Briska (Argélia), em busca de jovens árabes, músicos e fumadores de "kief", "belos, como estátuas de bronze".

Gide, que o acompanhou nessas noites de prazer, dá-nos conta (em "Si le grain ne meurt") do riso demoníaco que tomou o corpulento irlandês, ao aperceber-se de como era fácil desencaminhá-lo a ele, Gide.

Um homem que reservava o seu génio para a vida ( e apenas o talento para a literatura), como ele dizia, saudava com esse riso a chegada dum companheiro ao inferno do seu puritanismo.

sábado, 5 de dezembro de 2015

(José Ames)

A COMÉDIA DA JUSTIÇA

"A Divina Comédia" ilustrada por Doré



Se houve homem que acometesse a temerária empresa de julgar os homens do seu tempo e os dos tempos passados, como se fosse Deus em pessoa, cedendo sem pruridos às suas simpatias e antipatias pessoais, sempre sob a capa da infalível justiça, atribuindo com uma precisão quase burocrática a cada falta a sua correcção e a cada crime o seu castigo, e o tempo dele, e o lugar (círculo ou a bolsa deste), esse homem foi Dante.

Espantamo-nos por ver certas figuras da História, cujos erros e loucuras se transformaram no motor duma injustiça mecânica "(...) é um tema recorrente de todo corpus lendário do mundo. O inferno representado não como arbitrário castigo mas como horrível e interminável repetição de um gesto." - Cristina Campo) que estava para a sua causa como o mistério divino para a razão humana, injustiça essa que deveria receber por direito, como essa paisagem infernal, o qualificativo de dantesca.

A "Divina Comédia", na sua desmesura e genial visão é talvez, mais do que tudo, uma alegoria da inconsequência e do absurdo do juízo humano sobre o semelhante.