terça-feira, 31 de março de 2015

Sem título

Porto

 

NÃO PENSAR

 

"Peço-lhe apenas que, se levar o seu projecto por diante, e quando entender que eu sou, objectivamente, como se diz, um horrível fascista, não o negar, o que seria impossível, mas tentar somente não o pensar."

"Cahiers" (Albert Camus)


Parece contraditório entender, mas não pensar segundo esse entendimento. Porque não se trata aqui de 'não pensar'. É antes um 'abrir parêntesis' que permita o diálogo e a amizade. Não pode ser uma suspensão do juízo, porque o juízo está feito, decorre da doutrina como a conclusão decorre das premissas, como num silogismo.

Porém, é como se o sujeito que 'sabe', que 'entendeu' o que estava em causa, decidisse contra a lógica por causa de algo maior do que a lógica, ou diferente dela em termos existenciais. Isto, evidentemente, não se poderia passar no mundo orwelliano, em que os filhos são 'educados' a denunciar os pais, em que a razão de estado é a razão por antonomásia. Passa-se no mundo em que viveu Camus, em que para os intelectuais, como ele diz, a tentação comunista é "do mesmo tipo da tentação religiosa." O escritor que, em 1935, chegou a filiar-se no PCF dizia, na altura que " se podia encarar o comunismo como um trampolim e um ascetismo que preparam o terreno para actividades mais espirituais." (Wikipedia) Esta reserva 'individualista' parece dar 'objectivamente' razão à sua expulsão do partido dois anos depois, embora com a alegação de 'trotskismo'.

Como muitos 'fimdomundistas' de hoje, que trocam as suas frustrações pessoais pela condenação de toda a humanidade, Camus viu na militância partidária um meio de combater uma desigualdade que o afectava especialmente: a que existia entre os franceses da metrópole e os argelinos 'pied-noirs'.

A sua vocação anarquista emergiu dessa experiência liberta de falsas solidariedades.



 

 

 

 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O FIM DO MUNDO OUTRA VEZ

http://www.coupay.com/topoften/wp-content/uploads/2012/12/End-of-World-December-21-.jpg

 


Segundo o artigo do 'Público' "O que é o Estado Islâmico?" ('The Atlantic'), o islamismo do EI é para levar a sério. Não se trata de um grupo oportunista, servindo-se da religião como um pretexto. Eles querem mesmo o retorno do passado que existe no imaginário de milhões de muçulmanos.

Mas não é isso que atrai os adeptos da 'última causa', num mundo de causas desvalorizadas, nomeadamente, pela exposição mediática, entre a juventude europeia, e não só a que tem laços culturais com o Islão. É este desejo do fim do mundo que torna a violência no meio privilegiado. O medo (o que mais devemos temer, nas palavras de F.D. Roosevelt) é essencial para a instauração do caos propício a um final apocalíptico.

Esse desejo do fim do mundo encontrou a verdadeira 'solução final'. Porque todos os 'impuros' serão exterminados, sem outra forma de processo, e os 'mártires' gozarão das mil delícias do paraíso. Um tal programa, se se acredita nele (e por que não, se se paga com a própria vida?), é a recompensa de todas as frustrações sentidas por essa juventude, das pessoais, por sua própria culpa ou das que lhes são infligidas pelo seu meio social. Além disso, tem o prestígio da narrativa bíblica, com as punições divinas de proporções catastróficas, pela água ou pelo fogo.

O problema para o nosso modo de pensar é como a nossa sociedade livre e permissiva perdeu todo o valor aos olhos destes seus 'enteados', a ponto de atingir tal expressão do ódio. Teremos deixado de crescer e, realmente, fomos 'infantilizados' por ideologias, ou as prostituições da ideologia, com coisas como a publicidade? Por que é que, para tanta gente, os valores parecem subitamente carecer de uma espécie de contrastaria pelo suicídio e pela imagem do fim do mundo?

Gestos como o do co-piloto da Germanwings, Andreas Lubitz, podem não ter qualquer ligação prática com o fundamentalismo político-religioso. Mas a matriz do pensamento que lhe subjaz talvez não seja muito diferente...Para já foi arrumado na psiquiatria.

 

 

domingo, 29 de março de 2015

Sem título

 

Moura

 

A LUTA DE CLASSES

http://www.socialisme.be/fr/wp-content/uploads/sites/3/2014/08/lutte_des_classes_UE.jpg

"Ele provavelmente sofreu as consequências de ter decidido as suas conclusões em 1848, antes de ter embarcado nas pesquisas necessárias para as justificar."

"Le Capital au 21e. siècle" (Thomas Piketty)

O autor refere-se, claro, a Karl Marx e aos seus 'Manuscritos' filosóficos de 1848, opinando que o 'Opus Magnum', escrito mais de vinte anos depois, seria uma tentativa de forçar o 'sistema económico' a corresponder àquelas premissas.

O termo 'embarcar' já traz consigo uma série de conotações teatrais (Molière, "Les Fourberies de Scapin" ou Cyrano de Bergerac, "Le Pédant joué") como o célebre refrão do "Que diable allait-il faire dans cette galère?"

A ideia é que o velho Marx 'embarcou', não numa galera turca como, supostamente, o filho de Geronte, mas numa fadiga intelectual que se mostrou, apesar de prolífica, ao mesmo tempo extremamente frustrante pelo seu óbvio desfasamento com os factos. "Das Kapital" ficou por concluir, o que nos impede de ter uma ideia sobre a coerência 'final' com os textos da juventude. O profeta teve um enorme sucesso. O homem de ciência, como era de esperar, não conseguiu convencer-nos de que foi outra coisa que um filósofo de sistema, como o seu amado-odiado mestre de Stutgartt.

A crónica de VPV, no 'Público', traduz o desencanto que hoje provoca em muitos de nós a comparência no 'banco dos réus' dos representantes máximos de um poder mitificado pela teoria. Peço escusa pela transcrição:

" Mas não fiquei tão desconsolado como agora quando passaram à minha frente na televisão as grandes figuras do capitalismo financeiro cá de casa (segundo a doutrina, o mais poderoso e o mais cínico) e os seus servos da gleba. Era então por causa deles que tínhamos odiado a Ditadura e amado o povo; por causa deles que tínhamos sofrido e também tremido; por causa deles que se fizera o PREC à custa da economia do país. Nunca fui um crente, mas mesmo assim a patética cara do Diabo – finalmente revelada – e a descrição das suas mesquinhas trafulhices foram um desapontamento e uma tristeza."

sábado, 28 de março de 2015

Sem título

(José Ames)

 

CLÁUSULAS DE SALVAGUARDA

Zbigniew Preisner, o autor da música nos filmes de Kieslowski

Hanka mantém uma relação com o estudante de Física, depois de saber que Roman, o marido, tem de renunciar ao sexo. Ela não dá muito valor a essa ligação e não sabe que Roman vive por ela obcecado, a ponto de escutar as conversas telefónicas e de espiar o encontro dos amantes.

Quando recebe o primeiro alarme, rompe com o estudante, ignorando que o marido está a vigiar a cena. Mas, ao sair do apartamento, descobre, humilhado, um Roman "voyeur".

Segue-se uma separação temporária, de comum acordo. Porém, enganado pelo movimento do amante, Roman tenta suicidar-se.

É no hospital, que tem a prova de que precisava do amor da mulher. Hanka pensava que podia ter o amor, mais o quarto de hora de "espasmo e suor".

Este 9º episódio de "O Decálogo" mostra-nos também uma jovem doente que enfrenta um dilema: ser operada e poder vir a ser uma grande cantora, ou não o fazer, precisando de bastante pouco para viver (ela faz o gesto, deixando um pequeno espaço entre o indicador e o polegar).

É a admiração de Roman, que é o seu médico, pela música de Budenmeyer (Preisner?) e pelas possibilidades da sua voz que a levam a decidir-se pela operação.

Nem ela podia renunciar à música, nem Roman ao amor, sem cláusulas de salvaguarda.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Sem título

 

Duíno

 

O ALHEAMENTO DA POLÍTICA


"A solução, fazendo eco de Blinder e da sua defesa de um modelo como o da Reserva Federal, seria delegar poderes a instituições que, por desígnio, não são directamente responsáveis perante os votantes ou os seus representantes eleitos (Majone, 1996:10,3). Majone descreveu tais instituições como 'não-maioritárias' (...)

"Ruling the Void" (Peter Maier)


Voltámos, pois, à velha questão platónica. Devem governar os que são mais competentes na 'arte', ou os que são mais 'populares'? Platão, como se sabe, serviu-se do exemplo do piloto. Numa tempestade, estaríamos mais dispostos a entregar o leme (a conotação com os 'grandes timoneiros', de má memória, é inescapável) ao piloto ou a quem tivesse mais votos?

O filósofo tinha em mente, claro, uma sociedade muito menos complexa do que a nossa e pressupunha que a 'arte de governar' tinha como objecto um 'barco' conhecido. E hoje não é assim. A metáfora do barco e do piloto só serve para usarmos em expressões como 'estamos todos no mesmo barco', ou a do 'Grande Timoneiro', precisamente.

Apesar disso, 'mete-se pelos olhos dentro' que a intromissão de técnicos, especialistas ou simplesmente burocratas como o Sir Humphrey de uma conhecida série da BBC, no que 'deveria ser' ditado pelo voto popular, é cada vez maior. A União Europeia é o exemplo maior desse 'rapto' da Europa 'popular'. O 'sistema' das instituições comunitárias rege-se pela sua própria lógica e o que quer que se interponha é 'desvitalizado' como um dente supranumerário.

Estou em crer que a 'despolitização' crescente (rumo a quê? à 'domesticidade', sem dúvida) dos putativos eleitores não decorre do grande logro que não podem deixar de presenciar. Nalguns casos, o velho e revelho nacionalismo toma a vez do 'sentimento europeu', e é a única reacção.

O facto dos partidos se terem substituído à sociedade civil não podia por si só ser motivo da indiferença geral (a politiquice pode ser apaixonante, como o clubismo o é, se bem que aqui já estejamos um pouco fora do político). A realidade de uma transferência do poder dos partidos para a máfia financeira e para as instituições 'não-maioritárias', apesar da gravidade que apresenta e da grande frustração democrática que significa, tampouco me parece decisiva para explicar aquele 'alheamento' (termo que se deve distinguir do de 'alienação', no sentido marxista, porquanto não podemos conceber ainda uma 'saída do sistema').

Parece-me que o 'inquérito' deveria começar peo contexto tecnológico, o qual vai muito mais além da problemática de uma 'alienação' pelo consumo. Sinal de que o poder está a deixar de ser 'interessante'?

quinta-feira, 26 de março de 2015

Sem título

(José Ames)

 

A DIREITA SENSÍVEL

Marcello Caetano

 

"(...) muita pobreza, salários baixíssimos, desrespeito de horário de trabalho na indústria e nas obras públicas, exploração de menores; as Casas do Povo reduzidas a museus de folcore, etc."

(carta de Marcelo Caetano a Salazar sobre as suas férias em Trás-os-Montes e Minho, citado por Filipe Ribeiro de Meneses in "Salazar")


Como seria simples se esta 'sensibilidade' fosse apanágio somente dos homens de esquerda!... Para simplificar a política é preciso cortar todas as pontes. Reduzir todo o espaço para a dúvida.

O mundo assim contraído revela-se então de uma lógica muito próxima da razão. O racional mede-se pela sua eficácia. E quem a pode negar a uma tecnocracia que seduz as 'massas' no seu próprio aprisionamento e que lhes proporciona, ainda por cima, o conforto do não-político, isto é, da insignificância da dúvida?

A ditadura é o mais antigo instrumento desta 'simplficação'. Com ela cessa, de facto, a política (ou tudo se converte nela, o que vai dar ao mesmo). O regime soviético foi o maior esforço até agora feito de uma supressão do político por submersão de todas as funções da sociedade e do Estado na política. É por isso que esse regime se assemelha, no fundo, a uma tecnocracia (mais do que burocracia, o domínio das pseudo ciências sociais).

Como dizia Tony Blair (citado por Peter Mair in "Ruling the Void"), em 2001, "A política neste sentido já não é sobre o exercício da 'mão directiva' ('directive hand') do governo, mas sobre a sinergia que pode ser gerada pela combinação dos 'mercados dinâmicos' e de 'comunidades fortes'." Coisas, para nossa educação, já experimentadas por Reagan e Thatcher.

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Sem título

Afurada

 

O RISO DO ESQUELETO

http://www.abroadintheyard.com/wp-content/uploads/The-skeleton-of-Richard-III.jpg

 

"Anedota (suponho que imaginária), na Rússia: Estaline teria ordenado a Krupskaïa para cessar toda a crítica, sem o que designaria uma 'outra viúva' de Lenine."
(Albert Camus)

Imaginária, mas muito lógica. E com o chiste de ridicularizar o abuso do poder. Quando aperfeiçoada pela prática repetida, a 'imagem' pública funciona quase independentemente do indivíduo. É uma sua extensão com vida própria, como uma personagem fictícia agindo na realidade e fora dela. Suponho que o mito é isso. A verdade de Estaline, a sua vida, perdem-se entre as memórias 'para a posteridade' e a biografia oficial.

Julgamos saber que ele era capaz das maiores atrocidades (mesmo se o braço do poder fosse mais curto): mas é razoável pensar que temia o ridículo. O 'homem de aço' tem pouco jogo de cintura, e mudar a viúva seria mais próprio do rei Ubu. Não é como mudar uma fotografia (compreendemos isso muito bem, na era do Photoshop).

Há só uma espécie de riso permitido na corte do poder absoluto: o riso infernal do esqueleto.

Anedotas como esta podem não traduzir os factos, mas são justas. Esta, além disso, é de certo modo consoladora. Marca o limite do poder. A vítima que pudesse rir por dentro desintegraria o seu algoz.

 

 

terça-feira, 24 de março de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

A NOSSA SOMBRA



"As petições que eram oferecidas nos altares de Júpiter ou Apolo exprimiam a ansiedade dos seus adoradores pela felicidade temporal, e a sua ignorância ou indiferença com respeito a uma vida futura. A importante verdade da imortalidade da alma era inculcada com mais diligência, e também com mais sucesso, na Índia, na Assíria, no Egipto e na Gáulia; e, uma vez que não podemos atribuir tal diferença ao superior conhecimento dos bárbaros, temos de a imputar à influência de uma sacerdocracia estabelecida que empregava os motivos da virtude como instrumento da ambição."

"The History of the Decline and Fall of the Roman Empire" (Edward Gibbon)

A "vida futura", para além da existência terrena, não era, segundo o grande historiador, um artigo de fé para os politeístas da Grécia e de Roma. Gibbon considera mesmo que essa ideia de origem platónica é de todo injustificável e interessa só a alguns filósofos.

Em abono desta tese podíamos referir o caso da divinização de alguns imperadores romanos que estavam longe de poder servir de modelo para qualquer espécie de humanidade, o que prova quanto a ideia da imortalidade tinha perdido toda a transcendência e passara a ser mais um "instrumento da ambição".

De resto, essa ideia que sobrevIveu e se revigorou com o fim do paganismo e o advento da civilização cristã, encontra-se hoje num estado muito parecido ao descrito por Gibbon. Paradoxalmente, ou talvez não, é a ciência, ou a ficção científica que lhe procuram algo de parecido com uma transcendência. Um filme recente ("Transcendence", de Wally Pfister) explora o tema como um dos mais 'lógicos' desenvolvimentos da tecnologia. Esse raciocínio implica, naturalmente, que já nos devamos considerar em 'odor de transcendência' em relação ao primata mais próximo.

Essa 'banalização' do transcendente é apenas mais uma tentativa de saltarmos sobre a própria sombra.




segunda-feira, 23 de março de 2015

Sem título

Batalha

 

ALEXANDRIA

Alexandria

 

"Por que é que as pessoas não deveriam mostrar mais do que um perfil ao mesmo tempo?"


"Justine" (Lawrence Durrell)


Justine é uma personagem caleidoscópica. Será por isso que é misteriosa? Já alguém disse que a superfície é o que há de mais profundo no homem. Porque esta figura central do "Quarteto", personificação de uma Alexandria incestuosa e sexualmente ambígua, não tem um perfil, digamos assim, 'responsável'. Ela deixa-se ir como os papiros na corrente do Nilo.

Nem se pode dizer que seja uma espectadora do que lhe acontece. É uma incarnação meio voluntária da cidade espúria, miscigenada. Daí a reivindicação da pluralidade.

Não há dúvida que Durrell inventou esta cidade e convida-nos a ver nela o verdadeiro sujeito do romance.

Quando admitimos que a cultura e o clima do país moldam aquilo que somos uns para os outros, pelo mesmo passo recusamos que sejam 'determinantes'. A verdade é que apuramos o 'perfil' involuntariamente 'negociado' (ou traficado) com os outros, à custa do que poderíamos também ser.

É a esse sacrifício que Justine julga poder eximir-se...por endosso à cidade cosmopolita.

domingo, 22 de março de 2015

Sem título

(José Ames)

 

O BUSTO

Plínio, o Jovem (catedral de Como)

 

"Recentemente, fez-me chamar com alguns dos seus mais íntimos amigos, e pediu-nos para perguntarmos aos médicos aquilo que pensavam do desfecho da sua doença, para se resolver a deixar a vida voluntariamente, se o seu mal fosse incurável, ou a suportá-lo e esperar a cura, se ele fosse apenas longo e penoso."

(Carta de Plínio (o Jovem) a Catilius Severus sobre um amigo comum, Titus Ariston)

 

Como se vê, já no século II da nossa era, os médicos não diziam a verdade aos doentes, embora tivessem a desculpa de confiar num eventual favor dos deuses, o que é o princípio da modéstia.

Mas, na atitude de Titus, vemos também uma grande dose de confiança na opinião desses profissionais, a ponto de decidirem o seu futuro em função dela.

Sendo o suicídio entre os romanos ( e nas peças de Shakespeare inspiradas na história de Roma) uma questão meramente política, não se confrontando com um interdito religioso como o da tradição católica, era muitas vezes o 'golpe de cinzel' que acabava a estátua para a eternidade do homem público. O renome contava incomparavelmente mais para esse povo do que para nós, que já só o conhecemos sobre as formas mais passageiras, no melhor dos casos para alguns contemporâneos, sem ilusões quanto a qualquer perenidade.

Parece evidente que, para nós, a vida é o valor supremo e, na situação de Titus Ariston, raramente confiaríamos no parecer de um médico para abreviar o nosso tempo de existência em favor do busto em mármore numa galeria do futuro...

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Sem título

Parque das Nações

 

A ESCOLA REPUBLICANA

http://a406.idata.over-blog.com/448x303/1/65/80/86/Rentree2012/Refonder-ecole-republique.jpg


"A escola moderna começou somente com o catecismo, quando o padre tinha o dever de ensinar ao mais adormecido e ao mais atrasado justamente o que sabia de mais belo."
(Alain)

Pode ser chocante, para alguns, que o dever de ensinar universalmente não tenha provindo da ciência, ou das ideias de liberdade do cidadão, mas da fé numa doutrina religiosa por eles considerada 'obscurantista'.

Não chocará tanto se considerarmos a origem da própria ciência, rebento da filosofia que surgiu num contexto precisamente religioso. Segundo a ordem comtiana, a teologia é o primeiro estado teórico.

A ideia de fraternidade é, como o prova a história do homem, demasiado anémica para mobilizar um desígnio 'universal'. Comparada com a ideia da salvação da alma ou com o espírito missionário falta-lhe o motivo redentor que tão ambiguamente se identifica, na maior parte dos casos, com um egoísmo paradoxal.

A força de começar algo de novo não pode provir de uma ideia tão abstracta como a de 'Humanidade'. A própria política não tem fôlego para esse esforço de criação.

Assim, faz todo o sentido que uma noção tão republicana como a do direito de todos ao ensino (direito muito relativizado nos nossos dias) tenha nascido não nas nuvens jupiterianas, mas numa 'mangedoura'.

A crónica de VPV no 'Público' de hoje dá-nos um aspecto mais negro (de acordo com a melancolia do cronista) da desilusão que é hoje o 'dever universal' de educar.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Sem título

(José Ames)

 

ISABEL COM OS SEUS BOTÕES

 


"Era difícil, para Isabel, pensar em si sob qualquer forma distanciada ou privada, ela existia apenas nas suas relações, directas ou indirectas, com os seus mortais semelhantes. Custava até a imaginar que espécie de comércio poderia ela ter com o seu próprio espírito."

"The portrait of a lady" (Henry James)


O 'perfeito animal social' descrito por James terá morrido com o culto da análise psicológica. A integração social não pode ser perfeita se o indivíduo for sempre exterior a si próprio. Mas talvez, até relativamente há pouco tempo, a integração não estivesse ameaçada como hoje está pelo individualismo.


Na época inocente de Isabel Archer, o social era uma peça representada por todos com maior ou menor convicção. O espírito individual era uma declinação da alma, não um novo absoluto, base da consciência e das instituições políticas.

O que é que poderia, de facto, levar a personagem do romance a procurar respostas no seu espírito? Fora das suas relações não havia salvação para uma criatura assim modelada pelo exterior.

O diálogo interior moderno começou pela transformação do confessionário. Rousseau abriu o caminho, falando de si sem qualquer intuito pedagógico ou apostólico (como Agostinho). Apresenta-se ao mundo como o Sujeito em toda a sua plenitude. O individual é o único, a perfeita originalidade. O indivíduo é uma espécie de obra de arte.

Um século depois, através da figura de Isabel, James avalia o passado sob o signo da vacuidade social. Apesar da sua juventude e de ser uma americana na sociedade britânica conservadora, ela é irremediavelmente oca.

 

 

quarta-feira, 18 de março de 2015