sexta-feira, 30 de setembro de 2016

(Amarante)

SOLIDÃO


www.qqxxzx.com


"Qualquer que seja a sua força comunicativa, o pensador proeminente está condenado à solidão: 'Allein zu sein / Und ohne Goiter, ist der Tod.' A solidão sem Deus é a morte. Nem mesmo o ser humano que mais amamos pode pensar connosco."

(George Steiner)

Mas pensar, na sua mais elementar expressão, também não nos poupa a esse destino. Não é por acaso que muitas pessoas preferem não pensar para não sairem do conforto de 'pensar' com os outros, isto é, de se conformarem com o ser superior que é o povo, a nação ou o Deus da sua religião. E sabemos como até um partido pode chamar a si todos os títulos dessa superioridade.

Ninguém procura conscientemente a solidão. Mesmo o eremita 'conversa' com o seu Deus, e o poeta mais inspirado tem a sua musa, ou seja o que for. Todo o nosso ser é a negação do solitário ideal. O mais fisicamente só vive numa comunidade do espírito que pode ser formada por outro 'solitário' como ele, pertencendo, ou não, ao mundo dos vivos.

Comte dizia que pensamos com a comunidade dos mortos. Limita-se geralmente essa pertença aos fenómenos da cultura. Mas vai muito para além disso. É do ser que se trata e não de folclore televisivo, nem de simples memória.

Não, 'directamente', não podemos pensar com aqueles que amamos. E é verdade que a dois nem sequer conseguimos compreender uma conta de somar, como alguém já disse. É preciso o desvio pelo que não tem nome, porque não tem parte no nosso mundo 'acabado', perfeito como é, ao ponto da robótica já prever o nosso futuro exílio.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

(José Ames)

A FERA NA SELVA

Henry James em Talland House, 1894

Uma das mais extraordinárias novelas que conheço é "A fera na selva" de Henry James.

May Bartram seduz John Marcher como uma parca (embora o autor não o diga, parece que não teria podido seduzi-lo fisicamente), inspirando-lhe o segredo de que ele já se tinha esquecido "de estar destinado a qualquer coisa rara e estranha, talvez prodigiosa e terrível, que mais tarde ou mais cedo viria ao seu encontro."

Ele confessara-lhe essa crença, num encontro sem consequências, em Nápoles. Quando se reconhecem, dez anos depois, em Weatherend, ela fá-lo recordar esse segredo.

A partir daí a sua vida torna-se realmente mais interessante, sem que qualquer deles admita pelo outro um sentimento mais forte do que essa amizade, da parte dele oportunística.

Quando May morre alguns anos depois, a fera ataca-o no cemitério, diante do espectáculo da dor dum desconhecido que, na campa ao lado, chora a sua companheira.

"A paixão nunca o tocara, pois era isto que a paixão significava; sobrevivera balbuciando e lamentando-se, mas onde estavam as chagas da dor? A coisa extraordinária de que falamos foi a descoberta repentina da resposta a esta pergunta."

May alimentara-o, na sua própria espera, com a imagem de si próprio, mas, na sua aridez, ele não precisava de mais nada.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

(Lisboa)

ÁJAX



Albert Einstein era claro quanto a uma responsabilidade colectiva do povo alemão pelos crimes do nacional-socialismo. Em carta a James Frank, em 1945, dizia que a presença de alguns 'melros brancos' não devia atenuar esta condenação.

Não sabemos até que ponto a filosofia alemã em geral e o hegelianismo em particular não estão por detrás, mesmo num homem como Einstein, desta noção de um sujeito da história e de uma responsabilidade colectiva cuja incarnação o autor da Fenomenologia via no Estado alemão do seu tempo. Mas o seu famoso 'Espírito' parece bem limitado, quando se olha para a monstruosa prole da segunda guerra mundial.

A questão da 'responsabilidade colectiva' está cheia de ambiguidades e é até insolúvel quanto a mim. Mesmo no caso de uma democracia, de haver um voto explícito num líder ou num regime (sabemos que Hitler chegou ao poder através de eleições, embora, numa atmosfera política muito condicionada pelos métodos e pela propaganda do extremismo político), só por irracionalismo consensual se pode dizer que a escolha foi livre e consciente das consequências.

E, no entanto, temos de 'postular' algum género de responsabilidade colectiva, para que o sistema seja credível.

Verdadeiramente, a situação do herói que se castiga a si mesmo, 'perturbado pelo deus hostil', tão característica do teatro grego, ainda esclarece melhor do que o pseudo conhecimento do futuro e das consequências da nossa acção a questão da responsabilidade colectiva.

É assim que Ájax, o herói de Salamis, provoca uma chacina nos rebanhos gregos, julgando lutar pela vida...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

(José Ames)

COMUNICAÇÃO

(Jürgen Habermas)


"O 'sim' e o 'não' dos actores que agem de modo comunicacional é tão predeterminado pelos contextos linguísticos e tão influenciado pela retórica que as anomalias que se manifestam nas fases de esgotamento já só se apresentam como sintomas de uma vitalidade evanescente, como processos do envelhecimento, como processos análogos aos naturais e não como consequência de soluções erróneas de problemas e como respostas 'inválidas'."
(Jürgen Habermas)

Qual a importância desta ilusão de racionalidade? Se as coisas 'funcionam', digamos assim, que benefício pode advir de 'pôr as coisas no seu lugar' e catalogar de erro as 'soluções' encontradas, em vez de naturalizar a falência dessas soluções, ou seja, qual é a vantagem de 'prever' um esgotamento pela lógica do certo e do errado, ou de esperar esse mesmo esgotamento 'naturalmente'?






segunda-feira, 26 de setembro de 2016

(Lisboa)

A RAZÃO E OS DEMÓNIOS


(Francisco Goya)


"(...) porque o irracional pode ser coerente com ele mesmo, com os seus axiomas implícitos;"
(Paul Veyne)

Entre as 'racionalidades', Veyne inclui a irracionalidade, porque se a razão pode ser plural, basta que a irrazão seja lógica para ser admitida no santuário apolíneo.

Então, a loucura deixa de ser a maldição antiga que excluía o indivíduo da humanidade e que, na mitologia, era muitas vezes o sinal de um favoritismo dos deuses. Só se lhe pede que seja 'maníaca', isto é, de uma lógica 'à outrance'.

O parentesco deste 'destronamento' da razão com o fim do antropocentrismo (do primeiro grau, por assim dizer) é evidente. O homem racional torna-se um homem de racionalidades em que o oposto da razão, outrora parte do paradigma, é absorvido pela pluralidade do sentido.

Poder-se-á ainda falar de uma Razão universal? E qual poderá ser a nova metafísica que sustente este Babel 'legislativo?

domingo, 25 de setembro de 2016

(José Ames)

O PRÍNCIPE




Luchino Visconti (1906/1976)


Visconti não confiava no talento do actor. Queria que fosse exacto. 

Como no caso da decoração do palácio Ponteleone, de "Il Gattopardo", em que os pratos deviam sair da cozinha a fumegar e as flores, trazidas todas os dias, de avião, de San Remo, tinham de ser frescas, o actor tinha de ser autêntico. O corpo não podia simplesmente representar. 

Um dia, Visconti convocou Renato Salvatore para se maquilhar às 7 da manhã e fê-lo esperar até às 8 da tarde. Obteve o estado de exasperação que precisava para a cena de "Rocco". 

No ensaio da célebre cena do baile, Burt Lancaster não foi mais bem tratado. Doía-lhe o joelho e a cena ia mal. Quando Luchino se apercebeu, pôs-se aos berros e disse-lhe que "não era nada consigo essa história de "divo" (Burt era uma star no seu zénite) e da entorse que tinha arranjado só porque ainda tinha a pretensão de se armar em jovem desportista." 

("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano) 

Veja-se o que o cineasta diz de si próprio: 

"(...) Os actores mais inteligentes compreenderam por que é que eu queria em cena coisas verdadeiras, precisas, exactas. Criou-se a meu respeito uma lenda, a do encenador insaciável, terror dos empresários e dos directores de teatro. Existe sobre o cuidado que tenho na montagem dum espectáculo, uma montanha de anedotas divertidas, mas falsas." (ibidem) 

Bem vistas as coisas, esta obsessão em imitar a vida é muito pouco teatral e a maior parte do cinema corre noutra direcção.

Mas isso é o que cada criador traz à arte: o que não existia antes dele.

sábado, 24 de setembro de 2016

(Lisboa)

O SONAMBULISMO



"Ah, o facto de não te teres apercebido de nada", aqui ela pareceu hesitar por um instante - "o facto de não te teres apercebido de nada é o estranho do estranho. É o mistério do mistério."
"A fera na selva" (Henry James)

Marcher não adivinha nos silêncios de May o que ela não lhe podia dizer (que o amava). Mas o que estava para acontecer, o destino que ele esperava e que ela concebera como um filho, já tinha acontecido.

E Marcher sem compreender ainda, sempre à espera que o grande perigo desse um sentido à sua vida e que, por isso, tinha que se lhe dar a conhecer.

É a melhor ilustração da ideia de que se pode falhar a vida, por não nos precavermos contra o tempo, que a certa altura nos falta, e por adormecermos no hábito que amamos sempre de mais.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

(José Ames)

PLATÃO E SAVONAROLA

(Girolamo Savonarola)


"Savonarola sem dúvida admirava e amava Platão. Mesmo assim sentia que o objecto da arte era a edificação religiosa e mostrou esse ideal para os artistas 'no rosto de uma mulher piedosa quando está em oração, iluminada por um raio da beleza divina.'

Miguelângelo desprezava essa arte feita para os devotos e deixou-a para os Flamengos. Tinha horror à sentimentalidade e quase que ao sentimento. 'A verdadeira pintura', disse, 'nunca fará ninguém derramar uma lágrima.'"
(Romain Rolland)

A sentimentalidade torna-se ridícula numa escultura, e Miguelângelo era, sobretudo, um escultor. Na pintura, e ainda mais na fotografia, o instantâneo é muitas vezes aquilo que se procura e que é mais apreciado. E é claro que o sentimento pode ser passageiro e, ao mesmo tempo, revelador. Poderemos então falar de uma ética da economia de meios?

As 'tentações' da pintura são por isso muito maiores do que no caso da arte de esculpir. Mas quem 'saberá' escolher entre a poliferação barroca de um Bosch e o 'ascetismo' de um Malevich, por exemplo? 



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Braga

ENGENHARIA SOCIAL


Niklas Luhmann

"Luhmann constrói o seu argumento segundo o princípio de que aquilo que não é controlável não existe verdadeiramente."
(Ulrich Beck)

Isso não faz com que o 'déspotismo esclarecido' ou o 'estado totalitário' confiram mais realidade à existência de tudo aquilo que controlam.

A razão é que a ditadura e o sistema militar ou burocrático são 'simplificações' radicais da sociedade política. São a forma mais 'natural' de reduzir uma complexidade que inviabiliza qualquer tipo de controlo.

O 'regulamento' impõe um simulacro de ordem necessária à comunicação. É o destino de todas as revoluções, pois começam pela destruição do aparato invisível que mantém a possibilidade de haver comunicação e controlo dos desenvolvimentos.

A Revolução Francesa é o melhor exemplo do descontrolo revolucionário pois levou  à guilhotina os principais protagonistas e os seus 'pais fundadores'. 

Pior do que a própria injustiça é o caos, que como pensava o sociólogo alemão é uma espécie de não-existência que nega até o sentido da própria justiça, revolucionária ou não.

Os 'engenheiros sociais' não são mais competentes, nesta matéria, do que o primeiro que aparece. Infelizmente, o exemplo do pequeno escravo do 'Menon' não funciona aqui. Não existe uma 'luz natural'.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

(José Ames)

O SUJEITO



"O homem é o único animal que recusa ser o que é."

(Albert Camus)

Também é o único a fazer-se a pergunta sobre o que ele próprio é, donde veio e para onde vai, como na epígrafe de um célebre quadro de Gauguin.

Mas essa é a contrapartida de ser consciente. De ter que 'criar' um mundo à sua volta dotado de sentido. O sentido do mundo impõe uma gramática, com o sistema dos pronomes, verbos e substantivos e tudo o que é essencial para construirmos a nossa 'alienação'.

Porque a nossa existência a partir daí se afasta cada vez mais da 'realidade' que supostamente é o objecto da actividade científica. As leis da Relatividade deveriam ser mais reais do que a incoerência do nosso viver...

Enfim, não se trata verdadeiramente de uma recusa de sermos o que somos. Não há aqui nenhum imperativo moral. Simplesmente não conseguimos ser espectadores da nossa existência, desde o momento em que nos compreendemos através do Sujeito que gramaticalmente somos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

(Caminha)

O IDEAL OBJECTIVO

Platão (427/347 A C)


"Portanto, não só a objectividade e o despojamento de valores são praticamente inacessíveis ao cientista, como também essa objectividade e esse despojamento são já em si valores. E sendo o despojamento de valores ele mesmo um valor, a exigência desse despojamento constitui um paradoxo."

"Por um mundo melhor" (Karl Popper)

Um valor tem de ser defendido, não se impondo por si mesmo como evidente.

O facto de não nos podermos completamente despir da subjectividade e dos preconceitos não nos condena, porém, ao relativismo ( de cada um ter o seu ponto de vista e a sua verdade ).

Aqui é o passo perigoso. Porque como é possível acreditar numa verdade não relativa e conforme o momento histórico, por exemplo?

A ideia de Poper (que era a de Sócrates) é que não sabemos nada com certeza e apenas podemos formular hipóteses e conjecturas, as quais devemos continuamente submeter à crítica.

A compreensão histórica e o que Karl Popper chama de "situação do problema" postulam, de facto, um conceito de verdade provisória. Como é o caso da teoria que, através da crítica, cedeu a outra teoria que a compreenda a ela e que explique melhor do que ela.

É a existência deste pensamento objectivo, fora de nós ( o mundo das ideias de Platão e o Mundo 3 de Popper) que nos permite refutar o relativismo da consciência individual.

domingo, 18 de setembro de 2016

(José Ames)

SABER DORMIR

O filme de Volker Schlöndorff (1966)

"A sua vida concentrava-se sobre cada dia tomado isoladamente. Cada noite representava-se-lhe como um nada, um túmulo, uma extinção. Ele não aprendera ainda a deitar-se todos as noites para morrer, sem dar a isso qualquer importância."
"Les désarrois de l'élève Törless" (Robert Musil)

Tornar-se adulto é perder essa sensibilidade à flor da pele e essa importância.

E, de facto, a maior prova são as longas horas de sono, em que saímos de cena e nos privamos do mundo.

sábado, 17 de setembro de 2016

(Lisboa)

CORPORATIONS

http://www.horschamp.qc.ca

O problema do poder, nas empresas que não são geridas militarmente e que conservam alguma autonomia, confunde-se com o problema do saber.

Supõe-se que, existindo uma teoria da gestão e do governo das empresas, só os mais competentes deveriam exercer o mando. Mas isto, segundo Karl Popper, é pôr a questão à maneira aristocrática dos inimigos da liberdade.

O que ele quer saber é antes como limitar os erros e a incompetência e nos livrarmos, sem turbulência para a empresa, dos que não cumprem a sua função.

Porque o saber sobre as empresas não é certo (como todo o saber) e porque todos os homens se podem enganar, para além de qualquer pessoa ser negativamente afectada pelo cargo.

Por outro lado, os trabalhadores constituem um outro poder, movido pelos interesses que lhes são próprios, embora subordinado a regras e a contratos.

A luta de classes é uma das leituras possíveis desta situação. Mas é óbvio que os trabalhadores têm tudo a perder se inviabilizarem a empresa e impedirem a aplicação das medidas justas.

O problema é que não existe a empresa como entidade não social, independente das forças que dentro dela se equilibram. E esse equilíbrio que, na realidade, é político depende, nas sociedades livres, da forma como é resolvida a questão do saber. Se todo o saber é conjectural, o que é invocado pelos que mandam nas empresas, além de conjectural é distorcido pela função.

Logo, a crítica das ideias que dimanam do poder empresarial corre o risco de nunca se exercer dum modo racional (a não ser onde exista uma tradição de respeito pelos árbitros).

De facto, a auto-crítica é pouco provável e a que é possível é a do mercado (pelos maus resultados) ou a da força social interna, pela reivindicação ou contestação dos trabalhadores.

Motivo por que a ideia da luta de classes pôde, no passado, algumas vezes desempenhar um papel positivo no desenvolvimento das empresas, evitando a humilhação e o sofrimento que algumas reestruturações impostas pelo mercado normalmente implicam.

Hegel chamava astúcia da Razão a esta produtividade dos erros.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

(José Ames)

O HORIZONTE




Não admira que a geometria tenha nascido num país voltado para o mar. Porque a linha recta mais pura é a do horizonte entre duas tonalidades de azul.

No entanto, sabemos que é mais propriamente curva e que não é uma linha. De resto, a recta perfeita só existe em ideia.
O nosso cérebro, que converteu o movimento em espaço, já tinha a ideia da recta quando a reconheceu no horizonte.

Esse encontro é o platonismo.

Mas admire-se como a beleza e a perfeição compareceram.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

(Alcácer do Sal)

O ORGULHO DE MUSIL

Robert Mason: "Young Torless"

"Eu admiro Musil, nem que seja só por ele não largar o que a sua sagacidade penetrou. Estabeleceu-se aí durante quarenta anos e aí se encontrava ainda na hora da morte."

Elias Canetti ("Le Territoire de l'homme")

A enorme susceptibilidade do homem que Canetti conheceu em Viena e a qual foi origem duma ofensa involuntária que pôs fim ao que poderia vir a ser uma frutuosa amizade, era a contrapartida dum orgulho intelectual que, evidentemente, a obra justificava, mas que ao nosso olhar não pode deixar de ser considerado como um defeito moral.

É assim que tantos artistas não suportam a comparação com o que saiu das suas mãos e do seu espírito.

Como se, realmente, o sujeito da criação fosse outro, indefinível e extravasando da pessoa como um rio na enchente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

(José Ames)

A CAVERNA



"O  primeiro  sacerdote  que,  com  essa  ponta  (da  corda)  na  mão  e  tendo  cercado um  terreno,  encontrou  os  vizinhos  satisfeitos  com  os  limites  do  seu  cercado comum,  foi  o  verdadeiro  fundador  do  pensamento analítico  e,  a  partir  dele, do direito e da geometria."

(Michel Serres)

Não tem interesse esta especulação sobre as origens? De qualquer modo, a aventura humana começou por uma especulação sobre o que não se sabia, nem se podia saber. E ainda hoje a situação é essa. A 'origem' é sempre um mito.

A diferença está em que postular a existência de um Criador é uma escolha que o pensamento moderno não pode deixar de classificar de 'ingénua', mas que é, ao mesmo tempo, a mais natural e a mais 'abrangente', desde o princípio dos tempos. E extrapolar, de um modo lógico, a origem da geometria e do pensamento (analítico) parece  entronizar o Homem e torná-lo senhor do seu destino.

A verdade é que, 'ceteris paribus', a organização em rede de um  cérebro que transcende o indivíduo está mais perto de ser uma criação humana do que divina.

É a nova caverna platónica.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

(Aachen)

OS AMANTES CRUCIFICADOS

"Os amantes crucificados" (1954-Kenji Mizoguchi)



A paixão de Mohei é secreta. Ele é um servo talentoso mas humilde. Não ousa levantar os olhos para a sua senhora. É uma paixão que o impede de aceitar o amor duma serva e a quem o sacrifício desta deixa indiferente.

No Japão do século XVII, as barreiras de classe são infranqueáveis. O escriba apaixonado por O-Haru foi degolado com uma perfeição caligráfica. E o adultério é o crime nuclear duma sociedade estratificada como esta. Porque o mais fácil e o mais natural.

Adivinhamos no suplício da crucificação, lento e espectacular, a fragilidade do poder. Que pode este contra o amor? A paz que a multidão admira no rosto dos amantes, essa alegria tranquila, exerce uma atracção que supera de longe o efeito da morte ignominiosa. 

Uma intriga cheia de coincidências e de má vontade dos deuses faz do servo e da senhora dois fugitivos. Ele, até à hora em que vai executar a última vontade de Osan, mantém secreto o amor humilhado. A mulher do rico fabricante de estamparias de Kyoto sabe que está perdida. As aparências condenam-na irremediavelmente. O seu futuro dependerá, no melhor dos casos, do perdão dum marido indigno. Decide pôr termo à vida. Então, no meio do lago – como uma anti-Aurora -, Mohei confessa o seu amor sem esperança. Ele diz: agora posso confessar-te este segredo: eu sempre te amei. 

A morte, eterna niveladora, aproxima as duas personagens condenadas pelo destino social a viver separadas por um biombo cruel. Osan compreende que é preciso viver, mesmo sem futuro. Retrospectivamente, a generosidade de Mohei parece-lhe transfigurada pelo amor.

A psicologia da servidão é varrida do seu espírito que quer salvar-se com o outro. Momento belo entre todos, o dessa conversão dos amantes num barco sem margens! Mohei julga tudo arrumado de vez pela força das coisas. É a razão triste que o condena. Porque os acontecimentos só na aparência são como ele pensa. Mas o instinto da vida e da felicidade leva a uma reacção inesperada a personagem feminina: depois do que disseste (depois de saber que me amas), mudei de ideias (não quero morrer)!

A razão já não pode julgá-los. A vida retoma todos os seus direitos. Que importa que passem as últimas horas a fugir da espada? Que corram de abrigo em abrigo até caírem nas mãos dos soldados? 

Na montanha, Mohei concebe a fuga para salvar Osan, a quem o mau marido quer perdoar. Vemos claramente que essa é uma ideia masculina, embora do coração. O desespero da companheira, pelo contrário, faz-nos logo compreender que o passado morreu para Osan, e que a partida do seu amante é pior do que a morte.

Mais forte do que as leis é esta fé que erige o outro em absoluto. Dessa maneira tudo perde o sentido, para só ganhá-lo a efabulação amorosa, contemplativa e ilógica. Seria demasiado fácil desprezar esta paixão da alma. Nós queremos que o homem dê sem se perder: como um vulgar industrial romântico de ideias sociais. 

Os amantes crucificados falam-nos da liberdade e do espírito por detrás do símbolo. E o sacrifício da sua juventude eleva-os da paixão sem forma e dos prazeres tristes.

domingo, 11 de setembro de 2016

(José Ames)

RITUAIS

Alain (1868/1951) 

"No mundo pré-moderno, o ritual não era o produto de ideias religiosas: pelo contrário, estas ideias foram o produto do ritual."

(Walter Burkert, citado por Karen Armstrong in 'The case for God')


Dir-se-ia que encontramos nos diversos rituais, cívicos ou religiosos, uma ordem (artificial), uma sequência de gestos e... a total superfluidade do pensamento activo.

O filósofo Alain gostava de citar a 'sabedoria jesuítica' que primeiro exigia do contumaz, da 'ovelha tresmalhada, a genuflexão, e só depois admitia o seu arrependimento. Não há aqui palavras desnecessárias, mas um gesto, igual a todos os outros de uma norma, de um rito consagrado que dispensa de todo a justificação, como um hábito que cobre toda a cerimónia. O que é pensar nestas circunstâncias?

O que parece mais polémico é que esta seja a fonte de algumas (de todas?) deias religiosas. A esta luz, podemos compreender todo o alcance de um dogma e a sua natureza essencialmente colectiva.

Custa-nos a admitir que estes fenómenos de um 'espírito gregário' mereçam o belo nome de ideias. Ideias que a cultura individualista nos habituou a considerar 'livres'.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

(José Ames)

É ISTO A CIDADE?




"A cidade em si nasce exactamente quando o 'medium' para a partilha da soberania e para a rivalidade entre os pares se torna discurso."

(Jacques Taminiaux)

Pode concluir-se que onde a soberania não é naturalmente disputada (mesmo que apenas potencialmente), como seria o caso de um patriarcado em que todos os problemas de sucessão tivessem uma solução do tipo religioso, a cidade, isto é, a política, não teria condições para existir.

Ora, a evolução da sociedade tecnológica parece encaminhar-nos para algo de muito diferente da cidade e da política. Razão que tornaria desde logo compreensíveis fenómenos como a radical indiferença perante o político e o sucesso de demagogos que exploram essa indiferença.

O 'Big Brother', que foi uma obsessão, umas décadas atrás, no tempo da 'co-existência pacífica', está a ser experimentado a uma escala cada vez maior, através da 'novilíngua' da tecnologia, mas sem um 'Brother' identificável.

Aquilo a que os profetas do 'Anti-Édipo' chamaram de 'corpo sem órgãos' é uma possível antevisão do que se está a passar. E a ideia de um 'capitalismo esquizofrénico' não envelheceu de todo.



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

(Cracóvia)

OS DENTES DO DRAGÃO

Mahmud I

"(...) mas isso não impede que cada um seja senhor de se condenar, se isso o diverte. Os Turcos devotos lamentam os libertinos, mas não os perseguem. Não há nenhuma inquisição na Turquia. Aqueles que não observam os preceitos da religião, dizem eles, serão já bastante infelizes na outra vida, para que seja necessário fazê-los sofrer nesta."

"Memórias de Casanova"

A intolerância de hoje parece não ter nada a ver com a situação que descreve o cristão convertido ao islamismo que assim se exprime nas "Memórias".

No entanto, o Corão já continha todas as virtualidades daquilo em que o fundamentalismo radica hoje a sua violência.

Dir-se-ia que os dentes do dragão, enterrados durante séculos, só estavam à espera da sua aurora para formarem o alfabeto da morte.

Esse despertar de antigos ódios vem pela mão das tecnologias da comunicação.

Acabaram-se os mundos perdidos ou exóticos. Tudo está debaixo dum único olhar planetário.

Chegou-se ao ponto em que as diferenças, sejam elas económicas ou culturais são vistas por uns como riqueza e estímulo e por outros como humilhação e ameaça à sua identidade.

É como uma revolta dos escravos dirigida contra a boa consciência dos que os "libertaram".

A informação instantânea torna a liberdade dum desenho que se pretendia local num sarcasmo de patrício romano feito ao planeta.

Todos admitimos que tenha existido uma perfeita manipulação.

Mas algum súbdito da Porta, nos tempos de Mahmud I, se sentiria (se saberia) atingido?

domingo, 4 de setembro de 2016

(José Ames)

A GUERRA DE TRÓIA

"Munich" (Steven Spielberg)

"Munich" é um filme feito para não agradar a Gregos nem a Troianos.

É a sua honestidade e equilíbrio que o condenam aos olhos dos que viveram (e vivem) a tragédia.

E o facto dos principais actores representarem judeus, mesmo se para saberem, no final, que foram manipulados pelos serviços secretos israelitas, desvirtua de tal modo qualquer teoria sobre uma pretensa igualdade das causas que o filme falha necessariamente, quase diríamos, por razões gramaticais.

Há um sujeito com quem partilhamos a revolta e o amor, o heroísmo e o medo, a esperança e o desencanto, e esse sujeito é judeu.

A eficácia do estilo de Spielberg é mais do que demonstrativa. Mas não está nas suas mãos ajudar-nos a compreender a violência e o terror que se geram mutuamente.

As raízes não são razões, mas forças.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

(Berlim)

SABEDORIA VALETUDINÁRIA



Giacomo Casanova (1725/1798)

"O mais feliz dos homens não é o mais voluptuoso, mas aquele que sabe escolher as grandes volúpias; e as grandes volúpias, repito-o, não podem ser senão aquelas que, não agitando as paixões, aumentam a paz da alma."
"Memórias de Casanova"

Yosouff-Ali é o filósofo turco de sessenta anos que faz semelhante discurso a um Casanova de vinte, como se o preço a pagar pelas paixões fosse o mesmo em ambas as idades.

O libertino terá aprendido à sua custa a justeza dessas palavras, ao mesmo tempo que reconheceu, às portas do Inverno, que não estava já em idade de recomeçar as suas aventuras, sem carruagem, pelos caminhos dantes calcorreados.

Não chamo a isto uma lição da vida, mas uma mudança de intriga e de personagem. Temos um outro papel, é tudo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

(José Ames)

DE SALSICHAS E MOSTARDA

Hitler e Rohm

Para a "noite das facas longas" dos "Malditos", diz-se que Visconti fez substituir as salsichas austríacas, demasiado cor-de-rosa, na estalagem de Unterach am Altersee, pelas suas congéneres, mais pálidas e historicamente mais autênticas, vindas directamente da Baviera ("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano).

Não seria eu a aperceber-me duma tonalidade falsa dos comestíveis durante o travesti alcoolizado dos soldados de Rohm. Acreditamos que o espírito dum filme como esse não passa por pormenores tão comezinhos e quase ridículos.
Visconti não pensava assim.

Embora, essa questão de honra a propósito da autenticidade dum detalhe pareça não se justificar pela obra, justifica-se plenamente pelo homem, tal como no-lo dão a conhecer os que com ele privaram.

Coisas como esse supérfluo, esse rigor extravagante são talvez o que permite ao cineasta o que se poderia chamar de ética da inspiração.

O gratuito não existe aqui, e a única proporção é a do génio.
Afinal, que tamanho tem um grão de mostarda?