segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Sem título

 

(José Ames)
 

VISÕES AO NÍVEL DO RÉPTIL

Albert Speer



"Ele era mesmo de outro planeta... Os militares tinham, todos eles, aprendido a lidar com a grande diversidade de situações fora do comum, mas não estavam minimamente preparados para lidar com este visionário."

(Albert Speer sobre Hitler, citado por George Steiner)


Nenhum 'visionário' poderia submeter assim a vontade dos outros se a visão em causa não correspondesse, no espírito das massas, à reconstituição do poder numa sociedade desestruturada pela crise social e pela crise dos valores.

Tal como o indivíduo, que alguns dizem ter um cérebro reptiliano por detrás do 'sapiens sapiens', que é o nosso piloto nas situações-limite, a sociedade em vias de destruição (em direcção à 'amálgama' e ao anti-político), move-se em função da concentração de energia e dos sinais anunciadores da ordem.

A intervenção da casta militar quase sempre é motivada pela falência da política. E, como dizia o filósofo, a tirania nasce e renasce da democracia. A Primeira Guerra Mundial foi um caso típico duma acumulação de 'erros' crassos dos políticos e foi, talvez, a causa principal da outra guerra, ainda mais devastadora.

Enfim, voltando a Hitler. Quando o povo alemão se viu confrontado com as consequências do poder absoluto, a 'visão' passou a ser a dum desequilibrado mental, e as massas 'arrefeceram' até ao ponto do congelamento.

Quanto ao poder mlitar alemão talvez ficasse 'desarmado', menos pela 'visão' do que pelo próprio princípio em que ele mesmo se baseia. As massas seguiam entusiasticamente o Fuhrer. Que legitimidade poderia o exército invocar?

domingo, 30 de dezembro de 2012

Sem título

 

Bérgamo (José Ames)
 

ESPELHO DE CORPO NENHUM

Oxford Playhouse
 


Nunca tinha percebido o que é que a televisão, como espelho deformador do espectador médio, tem de sinistro. É que ela, por causa do tempo em que tem de estar presente, em emissão, é uma espécie de distopia das nossas vidas. Basta pensar no que seríamos se vivêssemos para esse espectáculo ininterrupto, em que as 'diversões' se seguem aos programas pretensamente sérios e às notícias de um mundo formatado, em que nos é servida a ilusão de participarmos no mundo real e de estarmos conscientes, ou pelo menos de não sermos considerados pelas nossas relações como cavernícolas que não sabem, nem querem saber. Tudo isto numa salada de publicidade e de 'soundbytes' provenientes da espuma da política.

A sanidade das pessoas resiste em função da iniciativa do espectador que sabe escolher determinados programas e furtar-se à exposição do 'espelho' mediático. Não foi Marshall McLuhan que disse que a educação serve sobretudo para corrigir os efeitos dos 'media'?

É por isso que algumas experiências de contacto com a televisão, por muito pontuais que sejam, podem transmitir a sensação gelada do 'espelho total', um pressentimento daquilo em nos tornaríamos se a televisão se substituísse, completamente, à realidade.

Bem sei que é costume dizer-se que a televisão, para muitos, 'é uma companhia'. Mas não são esses os que perderam o mundo ou que estão 'perdidos para o mundo' como na canção de Mahler?

 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Sem título

(José Ames)
 

OS JOELHOS DE MARNIE





Dizia o patrão roubado que Marnie estava sempre a puxar a saia sobre os joelhos, como se fosse um tesouro nacional. Sabendo do fascínio de Alfred pela actriz, podemos quase literalmente interpretar aquelas palavras.

Aliás, toda a delinquência e morbo da personagem se podem ler noutra grelha que não a psicanalítica, embora esta seja a mais óbvia.

A psicanálise, de resto, é um método que se presta absolutamente à linguagem do "thriller". Só que aqui se procura um trauma, em vez dum crime, o que faz de "Marnie" a história duma cura.

Mas o outro olhar, o que descobre o trabalho da sedução, poderia ver nos problemas desta loira predadora a vingança duma paixão frustrada.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Sem título

 


Abbaye de Fontevraud
Abbaye de Fontevraud
 

"AQUI ME FICO"

Tony Blair


"Na última conferência do Partido Trabalhista, em vez de tentar defender as suas razōes para ir para a guerra do Iraque, Blair informou simplesmente o público que "acredita" que ele deve partilhar a sua "crença", e que de qualquer modo (como Martinho Lutero: "Aqui me fico, não posso fazer outra coisa") ele não mudaria de ideias."

(Tony Judt)


Um caso destes pôde ocorrer num país com as mais consagradas tradições democráticas, aparentemente, sem pôr em causa a democracia.

Mas o essencial da ideia democrática moderna é a livre discussão entre iguais com base num atributo que é comum a todos os homens, independentemente das suas crenças religiosas, da sua classe, do seu sexo ou da sua raça: a razão. Nos seus começos, na Grécia antiga, os 'iguais' eram uma minoria constituída apenas pelos cidadãos que excuia os escravos e as mulheres.

Quem parece defender a invasão do Iraque, a julgar pelas palavras de Blair, é o próprio Deus que representa aqui a impossibilidade de qualquer discussão. Blair, como seu intérprete só pode 'partilhar a sua crença' que é na verdade um mandato que se sobrepõe à política e à própria razão.

Esta atitude não é muito diferente, no fundo, da do líder carismático que estabelece com as massas um pacto de adesão para um fim, quase sempre, irracional, como se viu na Alemanha e na Itália do século XX.

Só o contexto era muito diferente e faltava, evidentemente, o carisma. Mas o episódio, retintamente anti-democrático passou sem comoção de maior e a Inglaterra ajudou Bush filho na sua mentira, ou na sua crença de 'evangelical rally'.






quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sem título

 

(José Ames)
 

O CLARO E O OBSCURO




"Odeio aqueles que dizem obscuramente coisas claras. Odeio aqueles que dizem claramente coisas obscuras. E são os mesmos."



(Émile Chartier)



Os que lançam uma nuvem de tinta para falar do que pode ser compreendido sem qualquer ambiguidade estão de facto embuscados e não querem que, por exemplo, a sua platitude seja descoberta. No tempo da linguagem minimalista (embora se possa tentar enganar alguém com um 'sms'), dir-se-ia uma espécie ameaçada.

Já apresentar como uma coisa simples o que é complexo (termo que os 'técnicos' usam cada vez mais frequentemente para explicar por que é que os seus modelos e as suas previsões falharam) é vício de muito boa gente. Pode dizer-se até que não há coisas simples (depende do nível de referência, do contexto, etc) e que só existe linguagem e comunicação porque simplificamos a realidade. Grande parte do que hoje sabemos teria sido inútil e como que se referindo a algo de não existente, apenas uns séculos atrás.

Uma razão de peso para sermos modestos e socráticos quanto ao que julgamos que é simples.

Penso, assim, que o ódio do filósofo é dirigido aos que sabem que falam de uma coisa que não sabem. Convenhamos que devem ser muito poucos. A maioria está no processo de aprender a ser mais comedido (pelo menos nas palavras) como o nosso ministro das finanças.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Sem título

 

Bomarzo (José Ames)
 

PARA SEMPRE



"Só uma 'mudança radical' ('umwälzung', a expressão favorita de Hitler, que Martin Heidegger frequentemente citava) poderia 'rejuvenescer' a Alemanha e repor a sua liderança espiritual e política no mundo."


("Hannah Arendt e Martin Heidegger", Elzbieta Ettinger)



'Mudança radical' é uma expressão que muitas vezes aparece na política, em situaçōes de crise e que não quer dizer o que diz. Ou melhor, as pessoas que a empregam não sabem o que querem dizer com isso.

O melhor exemplo de radicalidade é a morte que, em princípio, é irreversível. Esta característica é, aliás, de todos os 'finais felizes' em inúmeros contos infantis e histórias do cinema: 'e foram felizes para sempre'... É também a marca distintiva das utopias políticas, como a de Marx, por exemplo: depois da revolução do proletariado, advirá a sociedade sem classes e o Estado classista 'deperecerá'; a própria história conhecerá o seu fim, como história da 'luta de classes'.

Há qualquer coisa de profecia milenar na invocação da 'mudança radical' que é inseparável desta irreversibilidade. Nesse aspecto, a experiência soviética abriu uma crise de enormes consequências na concepção da utopia, pois que, mesmo se para os crentes ela foi 'globalmente positiva', até esses têm de reconhecer que ela foi tudo menos irreversível.

A primeira consequência disso é a consciência de que, talvez não seja possível ser-se demasiado radical. Há um ponto antes da aniquilação da antiga ordem das coisas que não pode ser ultrapassado sem inviabilizar qualquer ordem que seja. Contudo, pelo menos, conforme as lições da história que conhecemos, esse 'resíduo' é suficiente para restaurar a ordem que se julgava ter sido 'superada'.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sem título

(José Ames)
 

ARRUMADORES

https://lh6.googleusercontent.com





"Cada país é um pormenor que cada habitante utiliza
como melhor lhe convém e como a lei
permite."
(Gonçalo M. Tavares, 'Uma Viagem à Índia')


Estaremos a dirigirmo-nos para isso, com a distopia das comunicaçōes, a 'deslocalização' das empresas e do trabalho?

O trabalho, para além da sua função económica, é, na nossa cultura, uma ética, a ponto de existirem 'trabalhos' sem qualquer significado económico, mas que permanecem conotados com uma ética, como o de 'arrumador' de carros: na fórmula do 'ganharás o teu pão com o suor do teu rosto', a ética está no suor e não na utilidade do esforço. É provável que também o trabalho se transforme num 'pormenor', a exemplo do país de cada um.

Há cada vez mais razões para isso, porque não é possível garantir trabalho a todos os cidadãos e a tendência é para que essa situação se extreme, com, dum lado, os que trabalham para o complexo político-tecnológico e que são cada vez menos, do outro os 'irrelevantes' que precisam duma ocupação remunerada que não é necessariamente um trabalho. E se não quisermos que o 'arrumador' se torne um símbolo do futuro, é urgente um 'update' da ética.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Sem título



Bérgamo (José Ames)

A VIDA DE PI



"A vida de Pi" leva-nos, homens de pouca fé, a aderir à sua bela metáfora que tão bem explica a religião, como se Pi (Suraj Sharma) pudesse pensar nos dois planos (o da realidade prosaica e o do mito e da poesia) e fosse preciso escolher entre o que é 'realista', mas falso, e o que é incrível, mas verdadeiro.


Pi, desde criança que se interessa por todas as religiões, contra o conselho paterno de ter de escolher a do seu povo. Mais tarde, o pai tem de vender o zoo familiar (e com ele um tigre de Bengala chamado Richard Parker, por troca de nomes no registo) para emigrar para o Canadá. Durante a viagem, ocorre uma pavorosa tempestade e o barco afunda-se. Escapam o jovem Pi e alguns animais. A hiena mata a zebra ferida e o tigre devora a hiena. A longa navegaçäo sem destino com o tigre obriga o rapaz a lutar pela sua vida, numa situação já de si perigosa, levando Pi a refugiar-se numa espécie de jangada a poucos metros do bote. Por fim aprende a 'domar' a fera e a impor o seu território. Aportam depois a uma ilha pejada de suricates que se torna carnívora durante a noite (revelação de um dente humano incrustado no interior duma flor), onde Richard Parker abandona o seu 'amigo' sem olhar para trás. Pi tem de abandonar a ilha depois de se reabastecer em água e frutos. Por fim, é salvo por um navio que passa. A cena que vem 'esclarecer' este belo conto passa-se com os dois investigadores da companhia japonesa de seguros que ouvem de Pi esta história e a recusam por não ser verosímil. O jovem conta-lhes então uma outra história que é aquela em que todas as pessoas (e os patrões da companhia) acreditam. Que os animais eram de facto membros da tripulação, sendo um deles, o cozinheiro (Depardieu), particularmente violento e canibal, representado pela hiena. Pi teve mesmo de o matar e com isso alguma coisa de mau entrou nele e passou a viver dentro de si. Era o tigre.

Como Pi mais tarde explica, a religião é entre as duas versões escolher a melhor (a mais bela, e por isso a mais verdadeira, segundo a ideia platónica).

E é a célebre anedota do escorpião que Welles gostava de contar: Kane, Arkadin, Quinlan...

Uma história que condena a humanidade ao Inferno, ou a escolher o seu animal.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Sem título



(José Ames)

O ESTADO-MAIOR




"A guerra, desde que feita ao alcance da espingarda, acalma as paixões, até ao ponto em que eu me creio capaz, a partir dos discursos, de adivinhar se um homem fez a guerra ou não."

(Alain)


Consegue-se também distinguir, pelo modo como os especialistas do que não se sabe, nem se pode prever (o especialista-mor já se sentiu obrigado a usar de mais prudência, continuando a servir a única mezinha que lhe é permitida), gostam de perorar, indiscriminadamente, sobre os que 'vivem acima das suas possibilidades', se eles próprios já estiveram nas 'trincheiras'.

Mas correríamos o risco de cair na demagogia fácil, se quiséssemos que a 'carne para canhão' tivesse propostas convertíveis num modelo matemático reconhecível pelo 'estado-maior'. É preciso que uma linguagem esotérica se interponha para calar o sentimento da justiça. Daí as castas que fizeram dessa linguagem e das suas possíveis interpretações o seu seguro estatutário.

Todos somos capazes de compreender que a sociedade moderna se vem tornando cada vez mais complexa. Mas dantes, os 'especialistas', eles próprios, julgavam que sabiam com o que lidavam. Agora, depois do descrédito completo que os ameaçava, são mais modestos e invocam o deus da Incerteza. Tornaram-se, assim, os sacerdotes dum novo culto. Confirmados no seu privilégio de casta, lançam do púlpito os seus inspirados anátemas.

Reconheço, no entanto, que ainda não chegamos aí. Os instalados ainda julgam que sabem.




sábado, 22 de dezembro de 2012

Sem título



Abrantes (José Ames)

OLHARES

http://www.virusphoto.com/member-basile-sanglard.html



Ao meu lado no café, uma discussão que é tão velha como a minha experiência. O pessoal que vem de longe chega a horas às reuniões, os que vivem perto quase sempre se atrasam.

Claro que até pode haver uma explicação simples (o longo curso obriga à pontualidade porque as ocasiões são mais espaçadas), que nos dispense do habitual recurso à diferença de carácter.

Mas uma grande cidade é mais do que um lugar onde se vive, é também uma maneira de pensar.

O provincianismo só se vê da grande cidade. A vaidade e a suficiência só de fora dela se vêem.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sem título


(José Ames)

MUDA-SE O AMADOR




"A partir do momento em que duram, perdem a sua autenticidade. Se se quiserem manter, é preciso que renasçam constantemente, e mesmo então tornam-se outros. Uma cólera que se mantivesse cinco dias já não seria uma cólera, mas uma perturbação mental: ela transforma-se em perdão ou em vingança, e todos os sentimentos sofrem uma evolução análoga."


Robert Musil ("O Homem Sem Qualidades")



Mesmo o 'espinho na carne' se torna outra coisa e uma prova de vida. Lê-se em alguns romances que o ódio chega para manter uma pessoa viva, pelo mesmo processo que o avarento vive só pelo e para o seu 'tesouro na terra'.

Mas se existem ódios e amores contra-natura como esses que vão para além do perdão e da vingança ou do 'valor de troca', quando duram, que relação têm ainda com a sua primeira causa?

A cumplicidade do primeiro-ministro com um homem que todos os comentadores reconhecem ser uma das principais causas de desgaste do governo, já foi considerada fidelidade de amigo. Enfim, um político que põe um valor estimável acima da política.

Certamente não seria gesto que devesse ser limitado aos 'cinco dias' que, segundo Musil, transforma a cólera em doença mental, mas o problema é que, à medida que se escava a história dessa relação, a amizade é substituída por uma coisa muito mais prosaica.

Conforme a 'lei' da mudança dos sentimentos acima enunciada, a insistência do chefe do governo em conservar o seu Ministro-Adjunto estará destinada a deixar de ser cumplicidade para passar a ser, talvez, o sinal dum homem com princípios...autocráticos.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sem título

Aachen (José Ames)


MAIS DA DOUTRINA DO CHOQUE




"(...) O que estava em jogo nas lutas de classes não era tanto a partilha do poder, o conflito entre democratas e oligarcas, como a supressão das dívidas e a redistribuição da propriedade do solo."

( Paul Veyne, "Le Pain et le Cirque")



A ideologia dum progresso contínuo absoluto na situação das classes não pertencentes à 'oligarquia', foi até há bem pouco confirmada pela experiência, sobretudo ao nível da classe média, apesar do fosso entre os extremos não ter parado de crescer.

É claro que na presente crise do euro (cavalgada por outras crises talvez mais complicadas), a nossa situação é bem diferente daquela que existia na Roma antiga, conforme a descrição de Paul Veyne.

Não podemos suprimir a 'dívida odiosa' que nos esmaga, criada muito por culpa de terceiros (os que agora nos submetem ao jugo), porque estamos numa armadilha chamada Europa. Na altura da nossa adesão parece que não havia economistas do regime que pudessem prever o efeito da moeda forte na nossa economia, como faltaram os que antevessem o desastre da 'bolha imobiliária' e da 'desregulação' 'à la Reagan & co.'.

A Europa parece ter-se tornado, assim, na melhor garantia para os credores (os honestos e os outros) para que a dívida odiosa seja cobrada, mesmo que não fique 'pedra sobre pedra'. Passe o exagero, porque esses credores querem continuar no negócio.

Não chegaremos ao grau zero porque o lucro não nasce aí. A 'Europa' não quer isso. Mas pelo caminho aplicarão a receita neoliberal de que fala Naomi na 'Doutrina do choque'.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

(José Ames)

FANÁTICOS E MERCENÁRIOS

Carlos V


"Carlos V ou Luís XVI podiam permitir-se negociar antes de serem completamente vencedores ou completamente vencidos; porque eles tinham exércitos de mercenários, para o essencial. Desde que os exércitos se tornaram nacionais, e que se é obrigado, para obter a obediência de povos inteiros, a apresentar o adversário sob um aspecto odioso, a paz sem vitória tornou-se quase impossível."


(André Sernin, "Alain, Un sage dans la cité")



É por isso que o fanatismo se pode encontrar mais facilmente num dos lados, quando a religião é chamada a acirrar o ódio, do que do outro, mais 'civilizado' e que pode contar com a obediência de mercenários, como é o caso do conflito entre os EUA e algumas nações ou grupos islamitas.

Como se viu, o lado 'civilizado' pode ser dispensado de fanatizar os seus operacionais que fazem a guerra por um estipêndio, mas não de mentir ao seu eleitorado, quando isso é preciso para levar a cabo uma estratégia político-militar. Assim, se inventou a existência de armas de destruição massiça no Iraque.

A manipulação religiosa também não é 'flor que se cheire'. No fundo, é cinismo contra cinismo.




terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Santo Tirso

CORAGEM

Hannah Arendt



"(...) no nosso tempo, mesmo pessoas boas e no fundo valorosas têm o medo mais extraordinário de emitir juízos. Essa confusão com o juízo pode ir a par de uma inteligência refinada e robusta, tal como o bom juízo se pode encontrar naqueles que não se notabilizam pela sua inteligência."

(carta de Hannah Arendt a Karl Jaspers, Dezembro de 1963)




A liberdade do pensamento está na ponta da dúvida sistemática (ou metódica, como dizia Descartes). Compreende-se, assim, que a inteligência mais esclarecida se retraia de tomar um partido. Felizmente que essa sabedoria chega com a idade própria, que é a velhice contemplativa.

Mas na 'força da vida', como dizia Alain, a primeira virtude não é a sabedoria, mas a coragem, que novos e velhos admiram. Não sem que o vício, tantas vezes, ao longo da história, não tenha imolado os melhores e os mais fortes em guerras do seu interesse. Porque quem provoca é o vício, mas quem combate, até ao sacrifício total, é a virtude (Vauvenargues).

A acção que não espera pede a coragem de decidir sem se estar certo de tudo o que seria preciso para o seu êxito.  E o nome de acção, neste sentido, não deveria confundir-se com a actividade programada que só exige bom sentido administrativo e capacidade de planeamento.

É certo, porém, que há uma coragem superior a todas, mas que é rara, do que 'sabe' e decide  sem saber tudo, mesmo assim. É a coragem nua, por assim dizer. Porque não há entusiasmo ou ilusões que a amparem.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sem título

(José Ames)

FALAR SEM SABER

Émile Chartier (Alain)



"Evidentemente um literato gostaria de seguir todo este trabalho. Tiraria daí a conclusão que eu sempre falei antes de saber. É aos meus olhos o verdadeiro método, e é a forma que mostra se a ideia está bem esclarecida..."

(Alain)


 


Quem julga que sabe está perdido, depressa se transforma num recitador de fórmulas. Ninguém dirá que as máquinas de calcular sabem.

Ora, especialistas que aplicam fórmulas ao que não conhecem fazem a opinião que conta na eeconomia e na política. Não é, pois, coisa de somenos.

O método de que fala o filósofo é outro e procede como se toda a fórmula tivesse de ser reinventada. Os mais autênticos dos nossos pensamentos vêm do invencível problema da epistemologia que é a ligação corpo-espírito que alguns resumem num órgão (seja o coração ou a glândula pineal de Descartes). Não vêm das nossas abstracções que, no entanto, podem engendrar novas abstracções ou quimeras, indefinidamente. Se houvesse um puro matemático, esse seria um exemplo. Mas temos a outra ideia, a do homem-todo que pensa: como Einstein. Não fosse ele um poeta da natureza em busca duma harmonia que tantos gigantes, antes dele, procuraram, seria mais um 'jogador' de fórmulas, à espera de encontrar o novo com um lançamento de dados. Mas já ele mesmo dizia: "Deus não joga aos dados."

Estamos, pois, obrigados e justificados a falar do que não sabemos se quisermos chegar mais perto da verdade humana.


 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Toledo (José Ames)

O LUGAR DA SERPENTE


"A encantadora de serpentes"
(Henri Rousseau)


Foi Aristóteles quem disse que não ter filosofia é ainda uma filosofia. 

Por detrás do baluarte das opiniões mais inabaláveis e menos teorizantes, sob a boa-consciência do conformismo mais completo, existe uma ideia que não quer vir à luz do dia para que a angústia da dúvida continue extra-muros.

Essa ideia, se exposta, mostraria as circunvoluções da serpente mítica, donde sairiam a criação do mundo e o primeiro homem e a primeira mulher.

É por isso que uma teoria pode mudar o mundo, desde que ocupe o lugar da serpente.

sábado, 15 de dezembro de 2012

(José Ames)

ENERGIA MACABRA

"O triunfo da morte" (1562-Pieter Bruegel )



"Centenas de mortos sob a forma de esqueletos, esqueletos muito activos, ocupam-se a puxar para si outros tantos vivos. São personagens de toda a espécie, tomados em conjunto e em detalhe, reconhecíveis no seu estatuto social, no momento dum grande esforço e cuja energia ultrapassa em muito a dos vivos para os quais se voltam. Sabe-se, aliás, que vão ter êxito na sua empresa, mas ainda não o conseguiram. Estamos do lado dos vivos, dos quais gostaríamos de reforçar o poder de resistência, mas ficamos perturbados porque os mortos parecem mais vivos do que eles. A vitalidade dos mortos, se se pode chamar assim, só tem um objectivo: atrair a si os vivos. Eles não se dispersam, não se dedicam a isto e a seguir àquilo, há só uma coisa que eles querem, enquanto que os vivos estão agarrados à sua existência de tantas maneiras diferentes. Cada um obstina-se sobre alguma coisa, ninguém se rende, não encontrei neste quadro nenhum vivo cansado da vida, é preciso arrancar cada um para o arrastar para aquilo a que não se quer submeter. Eu herdei deles essa energia na defesa e muitas vezes depois tive o sentimento que eu era toda essa gente em conjunto que resistia à morte."

Elias Canetti ("Le Flambeau dans l'oreille")



A força que Canetti retirou deste quadro célebre é o que é mais natural e próprio dum homem saudável. Mas se ali se anuncia o fracasso, donde vem o suplemento de força?

Mozart, numa das suas cartas, trata a morte como "esta amiga dos homens" e está pronto para a sua vinda, mas ele está já sob o efeito duma premonição e toda a sua vida teve uma saúde frágil.

O tema do quadro é a derrota da vida, porque os mortos são em muito maior número e têm na imaginação dos vivos o seu melhor aliado.

Todas as classes sociais são vítimas desta cruzada, do rei que vemos estendido por terra, em primeiro plano, ao mais humilde dos seus súbditos.

Podia parecer, no entanto, que o século XVI tinha mais razões do que os modernos para acreditar na ressurreição.

E eis porque esta pintura é para mim uma parábola do homem sem fé, entregue a si próprio, condenado a não ser mais do que uma ruína adiada. O triunfo dos esqueletos seria a consequência dum mundo sem Deus.

O pintor dos camponeses e da multidão pagã não sai, assim, do seu tema predilecto.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Varsóvia (José Ames)

OIRO, INCENSO E MIRRA




“É estultícia pôr-se a meditar profundamente, pedantemente, sobre o fabrico de objectos – material didáctico, brinquedos ou livros – destinados às crianças. Desde as Luzes que essa é uma das mais bafientas especulações dos pedagogos. A psicologia que os cega, impede-os de ver como a terra está cheia dos mais incomparáveis objectos de atenção e de exercício infantis.”

Walter Benjamin (“Rua de sentido único”)



Não se pode dizer, evidentemente, que as crianças hoje sejam menos inventivas e menos livres do que as que viveram no tempo em que Rousseau abandonava à Roda os filhos que tivera de Thérèse Levasseur.

Costuma-se dizer que elas, hoje, já vêm com os olhos abertos.

A verdade é que a criança foi colocada num trono, nas famílias burguesas, com o oiro, o incenso e a mirra, saídos das cavernas do Toys ‘R Us, depostos a seus pés. Por outro lado, nunca a sua saúde e educação foram tão vigiadas e normalizadas.

Porém, nunca como agora foi tão sujeita à ditadura da opinião e da moda pedagógica.

Vigora uma especialização, nomeadamente, através da tecnologia dos brinquedos e dos media, que prepara o mundo infantil para a perda da Natureza.

O virtual é uma língua sem passado.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

(José Ames)

O DIREITO DE ASSINATURA




Em tempos, uma notícia do “Expresso” alertava para uma doença grave do espaço urbano: os 'graffiti'.

As metástases dos 'graffiti' pela cidade têm origem num erro de percepção (do sentido do real): para os seus autores são uma forma de expressão artística ou de poder (um direito de assinatura: o 'tag'). O único limite é o da sensibilidade pública. Funciona enquanto revoltar, provocando dissonância e ruído. A tendência, se nada se fizer, poderá ser a das novas construções anteciparem o seu próprio graffiti, roubando a iniciativa aos maníacos do 'spray'. Nessa altura deixarão de chamar a atenção.

Só que então todos teremos caído na desmoralização e na esquizofrenia.

Foi preciso uma grande empresa quantificar (em euros) o vandalismo sobre o seu património para soar o alarme.

O artigo explica o que já se fez lá fora para acabar com a praga: “(em Nova Iorque) está probida a venda de material para 'graffiti' a menores de 18 anos”, “no Reino Unido, a guerra aos 'graffiti' remonta aos anos 70. Quem for 'apanhado' pode pagar uma multa de cinco mil libras e a lei prevê o recolher obrigatório ou zonas de exclusão por comportamento anti-social, para os menores.”

Talvez porque os Ingleses têm uma tão boa opinião sobre si próprios, o centro de Londres esteja limpo de garatujas.