segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

POLEMISTAS




Já tenho observado que há uma certa incompatibilidade que se vence pela fala. Mas então é uma fala distorcida e aparentemente inútil. Nas famílias é onde isso é mais visível por causa duma convivência necessária. Suponho que, à falta dessa necessidade, por tantos tecida, as pessoas se evitariam naturalmente, e isso não queria dizer menos respeito ou amor.

Algumas espécies de brincadeira caem dentro desta lei, porém eu penso que se trata duma modificação permanente da fala, e o tom é sensivelmente sério, mesmo sob a aparência mais jocosa. Não se deve brincar com coisas sérias como se diz, mas acontece por vezes ser a única forma de entrar e sair da caverna, sem acordar a fera. É possível assim fingir uma naturalidade que é menos tirânica para o espírito do que os verdadeiros sentimentos.

Pessoas que se tornam de um momento para o outro familiares por causa do casamento e que são obrigadas a um comércio diário que não se contenta com as fórmulas da simples cortesia recorrem quase sempre, por falta duma verdadeira base sentimental que é feita de experiência comum e de fidelidade, a uma espécie de hostilidade, nem sempre consciente, que lhes permite viver uma situação artificial. A sogra é uma mãe de convenção. E não se pode negar o nome nem os direitos por causa do laço conjugal. Mas também é evidente que falta sinceridade a esta adopção, complicada, por outro lado, pelo envelhecimento. Há aqui um problema de vocativo, naturalmente, errado mas justo socialmente. E vê-se o que o humor não educado pode fazer desta situação já de si incómoda. O sinal de que se salvam as aparências é conseguir-se falar, e a única fala que dá conta desta relação intratável é a polémica. E conheço um genro que leva este jogo tão longe que ofende sempre. Estas duas figuras tão glosadas pelo anedotário por causa desta curiosa dificuldade linguística são um exemplo puro da fala polémica.

Entre o pai e o filho, a dificuldade é outra. É uma relação feita para se negar e recuperar. Além disso, a família quando se encerra sobre si própria corrompe-se pelo abuso dos sentimentos naturais. Mas não há prisões para o espírito quando ele se separa das suas paixões, para ser fiel ao mundo apenas e a si próprio. É ao preço duma distância na linguagem que é possível pensar, quando a magia familiar nos cerca no tempo e no espaço. Mas a história de cada um dita a forma de resolver o problema. Há um momento em que o filho deixa de ser filho e a sociedade celebra de várias maneiras esse momento. Ainda que a estrutura antiga permaneça, já nada é como dantes. Daí o silêncio selvagem de alguns, ou a querela aparente de outros. Contudo, as formas chamam a criança sempre presente, o que é julgar sem sequência e sem espírito crítico. Estranha intimidade.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

UM CAVALO


"Guernica" de Pablo Picasso (pormenor)

Ao passar na rua Formosa, pelas traseiras do Coliseu, onde há uns anos via entrar os animais do circo, vejo um cavalo entre grades, sem espaço para se mover ou mudar de posição. Esquecido como uma máquina que se desliga, indo o dono à sua vida, sem pensar mais no caso.

Vem-me à ideia a cena com o cavalo chicoteado, em Turim, de que, dizem, foi protagonista Nietzsche, antes de perder a razão, abraçado ao pescoço do animal, numa manifestação de piedade para além do humano.

Em Auschwitz, havia uma tortura assim, mas pensada para o sub-humano: quatro presos de pé num buraco, uns colados aos outros, sem se poderem sentar.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007


Bom Jesus (José Ames)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

OS POSSESSOS


Andrzej Wajda

Wajda realizou em 1988 um filme inspirado no romance de Doistoiewski "Os Demónios".

Os niilistas russos da última metade do século XIX são aqui retratados em toda a sua paixão iconoclasta e suicida, provocando, sabotando, assassinando, fiéis à divisa do "quanto pior, melhor".

Este grupo viajou pela Europa e trouxe a peste na bagagem, como Freud dizia ao levar a psicanálise ao novo continente.

O fosso entre o atraso das condições sociais do seu país e o que essa elite impaciente pôde testemunhar no estrangeiro era um verdadeiro abismo, em que algumas cabeças esquentadas se precipitaram, como a vara de porcos do evangelho, para a qual Jesus transportara o mal dum endemoninhado.

É esse o pensamento redentor do velho Verkhovenski que parece expressar a visão do romancista: o mal estrangeiro tem de ser concentrado nesses possessos do niilismo e nos defensores do progresso em geral, para que a Santa Rússia, enfim, purgada, seja salva.

Este mundo de loucos febris, amorais como algumas personagens de Gide, confia, no fundo num mecanismo histórico. Eles apressam a chegada do futuro, antes de outros darem a essa quimera uma outra eficácia.

Passaram do delíquio dos serões provincianos de Tchekov, sem esperança, mas resignados, directamente para a bomba.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007


(José Ames)

A ATENÇÃO ENTRE PARÊNTESIS


Image of a gamelan


"Não nego que exista uma estética da repetição, que nas peças de concerto e nas danças permite variações sobre um fundo de ostinato. Mas a música de concerto é rara e tardia. A maior parte das músicas, e nomeadamente as músicas repetitivas, acompanham um outro acontecimento, uma ou várias outras acções: teatro, dança, ritual, preparação de ritual. Estas músicas não valem por si mesmas e não são feitas para serem "escutadas", mas para serem "entendidas" ( - entendues - nos dois sentidos do termo: audição e entendimento)."

"Images du monde et traitement du temps dans le gamelan" (Catherine Bassset)


A repetição, quando "demasiado escutada", com toda a atenção, gera impaciência num auditório ocidental, diz a autora mais adiante.

Talvez esta diferença em relação aos balineses explique outras "impaciências ocidentais", como, por exemplo, a que provocam a música e o teatro tradicionais do Japão.

Talvez que esse tempo e essas repetições de notas e de gestos não devam mais ser objecto da nossa atenção do que as paredes do templo em que nos recolhemos.

Mas o nosso modo "ético" de escutar a música concorre, cada vez mais, na cultura moderna, com a música ambiental, que nos rodeia apenas para impedir a entrada do silêncio.

domingo, 16 de dezembro de 2007


Moura (José Ames)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

NO DENTISTA



http://www.duvekot.ca/eliane/archives/dentist.jpg


A mão do velho médico tirou-me o siso difícil. Eu receava que essa mão tremesse e que ele não estivesse à altura do que prometera há cinco anos. Foi quando me disse, depois de ver a chapa radiográfica, que me ia custar um bocado e que não era qualquer um que mo tirava. Já tinha o alicate suspenso, mas eu decidi adiar a operação até quando o dente me doesse de verdade. A rapidez com que tudo se ia fazer devia-me ter alertado, porém a imaginação podia mais e esse siso foi durante uns anos uma espécie de pequena morte. Não que alguma vez me atacasse uma dor forte – era um grande molar pacífico que nascera deitado -, a profecia é que era a verdadeira dor.

Lembrei-lhe essas palavras, e o velho reagiu como que ofendido: - eu só lhe podia ter dito que talvez não pudesse abrir a boca nos primeiros dias! Mais nada… Mas a outra citação foi grata ao prático reformado. Via entrar no seu consultório, de resto sem mãos a medir, o nome que fizera nos seus muitos anos ao serviço da Caixa. Não lhe era indiferente resgatar-se daquele medo que me fizera. Devia saber que nesses tempos tinha reputação de homem brusco e sem maneiras, mas de excelente dentista. Bem vistas as coisas, esta é uma característica operária, e a especialidade é talvez a única que não precise de persuadir, segundo a forte ideia de Chartier. A psicologia acaba nestas presas de marfim que são um objecto distinto, quase todo exterior e que não muda conforme se observa.

Bem podia desprezar a cerimónia e ir direito ao dente. Mas raramente o homem foge à tentação de experimentar a sua força, e eu esperava naquela cadeira uma sentença. O operário não resistiu a fazer-me um pouco de medo e a entrar no domínio do padre e do médico vulgar. Eis por que lhe faço subir o sangue. Ao lembrar-lhe uma fraqueza, é o passado que julgo sem saber. E este velho tem qualquer coisa de romano que não suporta florilégios no seu epitáfio. Ah! como é doce viver na memória dos homens! Depurar-se a vida embora do que fazia o seu sabor, para ficar só o mármore e a ideia.

Há pessoas que guardam os dentes, e aquele siso mal tocado pela cárie dava um bom amuleto. Mas quando ele mo mostrou, ainda no alicate: - olhe que matulão! – pensava no poder duma simples frase e da imaginação sempre acordada pela língua e o palito. E, por outro lado, em como a anestesia me tinha deixado sem queixo por umas horas, o que reduzia a dor a um mau sonho. Vi como o médico se aplicou e torceu. Senti bater no fundo da maxila, mas foi apenas um estremeção, logo ampliado pelo pensamento. E compreendo por que razão me mandou o velho abrir os olhos. Ele leu, na declaração teatral que lhe fiz ao chegar e sobretudo no meu aspecto, o temperamento nervoso. Ter os olhos fechados era imaginar sem remédio. Enquanto que a luz da janela e o movimento das mãos me podiam chamar à realidade. Mas também ele se enganou pelo meu exterior, e o pânico foi dum segundo imediatamente vencido. Alguma coisa partia no meu corpo e por um momento fiquei sem saber o que se ia passar a seguir. Foi essa espera quase metafísica que me alarmou. Assim deve ser a última consciência.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007


(José Ames)

domingo, 9 de dezembro de 2007


Lisboa (José Ames)

sábado, 8 de dezembro de 2007

TELEMASSA




A misantropia vê mal. Quando todo um povo elege a telenovela, é melhor ser prudente e não falar em colonização e mediocridade demasiado depressa. Preferíamos que as pessoas se interessassem pelo teatro grego, mas esse povo já foi. O livro parece-nos uma cultura superior à televisão, e ninguém lê. O prazer da leitura é para o iniciado, enquanto a história do pequeno ecrã pode ser seguida por um analfabeto e despertar o seu interesse. De resto, nenhum livro conseguia reunir tantas pessoas ao mesmo tempo e nivelar assim a compreensão dos leitores. A possibilidade de escolher o seu ritmo de leitura, o treino da atenção e da inteligência abstracta, o esforço de tradução dos signos distanciam o leitor do homem que “convive” com as personagens da telenovela.
Descobriu-se um meio de aumentar a experiência global da humanidade e de conformar a linguagem. Mas seria errado pensar que isso significa tornar menos complexo o facto humano e cair numa civilização inferior. O mais provável que aconteça depois da sonda da televisão ter posto em contacto os diferentes planetas humanos é uma nova riqueza de formas e uma espécie de bilinguismo. Porque a vida e o trabalho não se transformam só por força da televisão, e a cultura tradicional subsiste por isso a par da cultura de massas. Ora essa situação é propícia ao juízo crítico e à mudança. Uma segunda língua permite pensar a língua mãe. A domesticação das espécies não teve como efeito reduzir as suas diferenças. Como mostra Darwin, foi o contrário que se passou. O meio humano multiplicou as formas de adaptação para além do que a vida selvagem poderia ser causa.
É verdade que a televisão não educa e é um meio ruinoso de formar o carácter e o pensamento. A televisão recria a aldeia humana, de acordo. É um instrumento de civilização, certamente. Mas quem vai ao teatro popular para se instruir? A telenovela é o teatro em grandes planos e som estereofónico. É a tragédia grega que merecemos. Mais os deuses da pequeno-burguesia.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007


Baleal (José Ames)

O JUDEU DESNATURADO


Abraão e Isaac ( Rembrandt)


"Na aversão de Weil à sua própria identidade étnica, na sua denúncia estridente da crueldade e do "imperialismo" do Deus de Abraão e de Moisés, na sua quase histérica repugnância perante aquilo a que chamava o excesso de judaísmo no catolicismo, ao qual, finalmente, recusou unir-se, as marcas duma clássica aversão ao Judaísmo são levadas ao clímax da perturbação mental."

"Paixão intacta" (George Steiner)


Este, o terceiro dragão de Simone: o seu alegado antijudaísmo (segundo H.L. Finch).

E o pior, para Steiner, é a sua "recusa de encarar, entre o seu eloquente pathos em relação ao sofrimento e à injustiça, os horrores, o anátema que estava a ser infligido ao seu próprio povo."

É claro que a sua aversão ao "imperialismo" de Jeová e o seu silêncio em relação à perseguição e ao massacre em massa dos judeus que, de facto, é pouco provável que desconhecesse, ainda que só no final da guerra fosse revelado ao mundo toda a extensão do horror, não seriam problemas se Simone não fosse judia.

Mas nesta crítica está implícita, não é verdade, uma concepção religiosa do judaísmo. Como se qualquer distância em relação às origens étnicas fosse uma traição ontológica e devesse ser lida, conforme o método psicanalítico, como um sintoma.

Esta ideia, de facto, invalida toda a possibilidade para um judeu de ser um "cidadão do mundo".

Se aplicássemos esta "chave" a Marx, por exemplo, podíamos reduzir a sua crítica do capitalismo ao espírito irreconciliável de um povo marcado pelo destino a ter que ser diferente.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O SENTIMENTO DO POVO


A batalha de Jemmapes (H. Vernet)

Antes da batalha de Jemmapes (6/11/1792) que consagrou o exército revolucionário, Danton, apoiando a Gironda na Convenção, defendia uma constituição republicana: "Se, por conseguinte, não é lícito pôr em dúvida que a França quer ser e será eternamente República, tratemos apenas de fazer uma constituição que seja a consequência desse princípio;"

E Michelet pergunta: "Grande questão de iniciativa. Tinham os republicanos, que eram uma minoria, o direito de impor a República à maioria? Tinham, porque a própria maioria, se não compreendia a República, possuía-a instintivamente, era então anti-monárquica, sentia que a realeza, cúmplice da invasão, se tornara impossível. A minoria republicana mais não fazia do que explicar e formular o que a maioria sentia, sem poder perceber bem."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Grande questão, de facto.

Depois do que aconteceu ao mundo desde então, as boas palavras seguidas de obras execráveis, a confiança traída e, sobretudo, a monumental ignorância do que se sabe e do que se pode, todo o intérprete declarado do instinto popular e do sentimento das massas deve olhado com suspeita.

Danton enganava-se quanto à eternidade da República, mas Michelet sabia que estava destinado aos Franceses, depois do rei, adorar um imperador e suportar a sua descendência.

O método democrático de votar em eleições não pode exprimir nenhuma espécie de instinto, nem nenhum sentimento duradoiro. Os eleitores são mais mobili do que a donna do "Rigolletto".

Mas é uma oportunidade para alijar a canga dum mau governo. É pouco? Arranjem melhor.


(José Ames)

O MASOQUISMO


"O êxtase de Santa Teresa" (Bernini)



"O segundo dragão é a imputação de masoquismo (...). Temos de entender os seus esponsais de dor como etapas obrigatórias no caminho para "o Bem". E, uma vez mais, este é um tópico extremamente complexo. Mas o que é certo é que até os amigos íntimos de Weil ficaram chocados com a sua confessada inveja das agonias físicas de Cristo, com o seu desejo de emular a Paixão. Por muito que se enquadre numa tradição mística de maceração divina, um sentimento destes situa-se na linha de sombra do patológico."

"Paixão intacta" (George Steiner)


O masoquismo é uma acusação diabólica, pois pode converter a maior devoção e o sacrifício mais abnegado no seu contrário. Lançar o veneno da suspeita sob a intenção mais pura. Suspeita de quê? Da virtude não ser mais do que um meio para servir algo de inconfessável como o prazer do corpo na forma paradoxal duma dor física. Sabemos que a própria consciência da virtude lhe é funesta, mesmo se procura o bem, mas aqui o próprio bem está ao serviço da luxúria.

Com a arma do masoquismo, não há santuário que não se remodele em lupanar.

E, no entanto, quem pode olhar o êxtase da Santa Teresa de Bernini sem sentir a ambiguidade?

Mas deixemos as armas à entrada, no caso de Simone.

Por que é que o excesso e a loucura não seriam expressões do amor autêntico?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

OS DRAGÕES DE SIMONE


a celebration of Simone Weil's spiritual journey by Megan Terry


George Steiner, em "Paixão intacta", refere-se à tese de H.L. Finch de que há quatro dragões que "obstruem o caminho que conduz a uma avaliação correcta" de Simone Weil.

"O primeiro é o da anorexia, tal como esta pode ser encarada pela psicologia comum."

Simone deixou-se morrer de inanição, num hospital do Kent, aos 34 anos de idade.

Supostamente, por compaixão, por querer compartilhar os sacrifícios alimentares da França ocupada. Steiner considera "mais ou menos" melodramática esta atitude.

Mas a verdade é que esta "paixão" não se compreende sem o modo, aos olhos do comum, excessivo de viver de acordo com a sua teologia.

O carácter sacrificial da sua proposta de participar na frente de guerra como enfermeira e, sobretudo, o grau da sua preocupação com os problemas sociais ou os duma colónia tão distante como a Indochina tinha a pungência duma dor física que aos outros podia parecer teatral (isto era antes da revolução mediática. Como suportaria a sua imaginação compassiva, por exemplo, as imagens da televisão?).

Num outro extremo, temos um exemplo, em Proust, duma preocupação impotente e um tanto ridícula no seu exagero, quando a duquesa de Guermantes confia a alguém, com toda a seriedade, que a China a inquieta.

Enfim, poderemos pôr em causa a autenticidade desta paixão e aquilo que hoje se chama de honestidade intelectual levada à sua quase impossível perfeição?

Voltarei aos outros dragões.


Toledo (José Ames)

ALGURES, COPÉRNICO


Retrato de Copérnico por Jan Matejko


"Camille - Digo-vos eu, se não recebem tudo sob a forma de cópias inábeis etiquetadas em teatros, concertos e exposições de pintura, eles não têm olhos nem ouvidos. Se alguém talha uma marioneta pendurada na ponta de um fio que a faz gesticular e cujas articulações rangem a cada passo em pentâmetros iâmbicos, que personagem, que lógica!"

"La mort de Danton" (Georg Büchner)


O tom do discurso denuncia a paixão do orador. Se nos move, é porque ele parece abarcar o assunto no laço da sua voz e das suas palavras, como se o tivesse sob o olhar flamejante e o pudesse varar de um lado ao outro com os raios da sua inteligência.

Um nome é melhor do que um conceito e uma "dramatis persona" melhor do que um simples nome.

A certa altura, falando do sistema político (já em si uma audaciosa simplificação), põe-no em cena como uma personagem, frente a outras do drama. Empresta-lhe as intenções e as palavras, e como tem a peça na cabeça sabe o que se vai passar. Temos a sensação, ao ouvi-lo, de que não estamos mais no tempo real, mas no da tragédia.

A sua ficção faz todo o sentido, como outra faria. O nosso orador não é diferente dos outros. É com uma ficção que interpretamos a história e a política. Sem excepção. O mito é o princípio da ciência.

Mas depois das lições do século XX, persistir na mesma ficção é como se insistíssemos na versão ptolomaica quando já um certo monge polaco escrevia "De Revolutionibus Orbium Coelestium".

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

OS ALCATRUZES DA NORA


Uma Roda da Fortuna futurista
(http://www.hgf-synthesizer.de/se/X-WoF/Wheel-Of-Fortune.jpg)

A consciência (essa invenção dos Judeus, segundo Hitler) é cismática e criadora de diferenças tanto como fazedora de concórdia e de unidade.

O mundo, tornado mais pequeno pela comunicação instantânea, é um espectáculo difícil de suportar para os filhos da Revolução Francesa (mesmo se têm tendência para reduzir o tríptico célebre à igualdade e à fraternidade).

No entanto, também os privilégios se encontram mais expostos e se tornaram mais vulneráveis.

Se perante a impotência de actualizar as ideias de uns e a de se justificarem com um mundo mais justo de outros, um consenso for possível, deverá ter por base uma nova versão da famosa teoria da "igualdade de oportunidades". Na realidade, muito mais próxima do antigo conceito de Fortuna. Desde que os factores que decidem a desigualdade possam ser separados da influência política, tenderão a assemelhar-se a uma espécie de fatalidade objectiva.

É por isso que a filosofia e a separação de todas as formas de religião da política se tornaram o caminho da paz e da sobrevivência.


(José Ames)

OS SEGREDOS DA CONFIANÇA


"Citizen Kane" (1941-Orson Welles)



"Porque é contrário à função e ao estilo da confiança exigir ou fornecer informações factuais detalhadas e provas objectivas, se bem que a possibilidade de uma tal explicação possa ser sugerida. O perito pode constituir um perigo para o político e os seus argumentos, se ele se puser a argumentar no mesmo sentido. Porque quanto mais o político fornece argumentos, menos é necessário ter confiança nele e mais se torna indiferente saber
quem realiza o programa. Ou ainda quando a questão da confiança permanece mesmo assim real, a acumulação de argumentos trai uma incerteza que provoca a retirada da confiança."

"La confiance" (Niklas Luhmann)


Porque não é possível afastar a incerteza da política é que a confiança se torna necessária.

Mas o paradoxo referido por Luhmann que é o de quanto mais se demonstrarem as razões para os outros terem confiança em nós, menos ela ser necessária, como se a argumentação equivalesse de facto a um menor grau de incerteza, ainda é mais interessante quando se revela que a argumentação é até contraproducente.

E pode-se ver aqui um pouco da natureza do poder, que tem algo de sagrado e de primordial, como o deixa pressentir a palavra hierarquia.

Em vez das certezas partilhadas, o que se exige do poder é uma espécie de solidão visionária e inspirada. E, neste caso, a confiança está muitas vezes na origem dos mitos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

FIDELIDADE


"Melancolia” de Edward Munch

"As palavras não mudam tanto de significado, em séculos, como os nomes para nós no espaço de alguns anos. A nossa memória e o nosso coração não são suficientemente grandes para poderem ser fiéis. Não temos espaço bastante, no nosso pensamento actual, para aí conservar os mortos ao lado dos vivos."

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Questão de memória, questão de espaço.

Como o nosso convívio com as máquinas "inteligentes" nos permite compreender esse limite!

O temperamento melancólico (segundo a ordem clássica dos quatro temperamentos), propenso a fechar-se sobre si mesmo e a ver tudo negro, é também o mais fiel.

É que nele a fidelidade é possível à custa das novas sensações e dos novos afectos.

Neste caso, os mortos podem expulsar os vivos, por não haver espaço para todos.


Alqueva (José Ames)

SIMONE E OS CÍNICOS


Diogenes, Jean-Léon Gérôme

"Segundo consta, Platão disse de Diógenes, o Cínico: "Ele é a versão enlouquecida de Sócrates." Nesta observação há tanto de homenagem inquietante como de escárnio. Como podemos evitar que esta descrição nos venha à lembrança quando pensamos em Simone Weil?"

"Paixão intacta" (George Steiner)


Diógenes queria menos reformar o mundo com o seu exemplo do que poder troçar dele e confrontá-lo com as suas próprias contradições.

Há aqui, como é proverbial, um orgulho feroz e uma vaidade paradoxal ("a vaidade transparece através dos buracos do teu manto.").

Se Platão fala em loucura neste caso é porque o que está implícito na "pedagogia" de Diógenes nunca poderia obter o acordo dos outros, por ser intrinsecamente anti-social.

A loucura (ou a santidade) de Simone Weil, aquilo que Steiner descreve como a patologia presente na sua vida e nas suas ideias, como a inveja da crucificação e o desejo de obedecer como a matéria, parece também destruir todas as pontes para o outro e enfermar de um luciferino orgulho.

Mas com isto não se tocou ainda no que constitui a grandeza de Simone Weil, nem se explicou como é que a sua "loucura", que tanto a religião, como a sociedade só poderiam condenar, assumiu tantas vezes a forma da preocupação social (desde que não se tratasse do seu próprio povo, o povo judeu, acrescentaria Steiner).

Essa grandeza só será patente quando nos pudermos abstrair da hagiografia: "Naquela aragem fria, não há lugar para o incenso."

domingo, 2 de dezembro de 2007


(José Ames)

CONTRADIÇÕES MILITANTES


http://www.ulm.edu/studentsuccess/career


Um amigo brusco e que quer demasiado fazer-se amar contorce-se na eterna imprecação contra os males da empresa. Mas agora houve uma mão-cheia de promoções e ambos fomos contemplados. Bem vejo por isso na sua irritação o desejo de mostrar que permanece o mesmo, apesar dos novos galões. Com o chefe que lhe deu a notícia, sentiu-se obrigado a dizer que era muito crítico em relação ao que se estava a passar, ao que o outro respondeu que não tinha o exclusivo.

Esta capacidade que tem o poder para desarmar o militante distribuindo-lhe uma parcela que ele não sabe recusar é prova de inteligência e não de força. O delegado sindical é assim aspirado para o mundo dos gabinetes, e mesmo que queira conservar o seu anorak, tem de aprender a cortesia e a pensar como os homens de gravata. As ideias perdem sempre com a mistura, e o militante divide-se dentro de si mesmo. Acontece também, mas raras vezes, que o poder não satisfaça o homem de ideal e se veja então a mesma pessoa presidir ao conselho dos chefes e conspirar na célula do partido. São estes exemplos, de resto, que escondem a ambição do militante e levam a que perante o primeiro degrau da escadaria triunfal, o delegado diga sim.

E eu não disse que não. Tomei laconicamente como um dever a cerimónia da investidura. O mal-estar de ambos é porém uma crise da adolescência. É mais fácil acusar o poder de discriminação e de arbitrário, quando somos o exemplo vivo da incomunicabilidade com a hierarquia. É como gozar duma renda de situação. Sem palavras nem actos, o juízo está feito pelo simples contraste. Tudo isso muda, e quase sem custo, se o sistema nos oferece a paz e a tolerância, apesar de havermos quebrado tanta loiça e vociferado tanto. E se pensarmos que a ordem e a organização são coisas indispensáveis a qualquer sociedade, se não confundirmos a empresa com o poder e os títulos de propriedade, não podemos recusar um acréscimo de responsabilidades. Menos ainda o podemos se criticámos esse poder no passado e acusámos as pessoas de não cumprirem com o seu dever.

No fundo, receamos sempre não estar à altura da nossa crítica e falhar onde os outros falharam. A honestidade exige pois que se aceite o cargo, por muito que agradasse mais ao filósofo ser razão e juiz apenas. Para isso era preciso não entrar no jogo da política. O delegado sindical só será escolhido agora se fizer melhor do que os outros, porque não está confinado apenas à fala rebelde.

Quanto mais a necessidade cinge o homem, mais pura é a liberdade. Mas também mais difícil é agradar, e isso é bom para o espírito. O meu amigo prefere ler os factos pela grade da esquerda e da direita. E como não pode deixar de acontecer a sua cólera é toda política. O sistema explica tudo. É uma palavra que substitui a ideia da totalidade e nesse sentido, podia ainda ser útil. Mas quando se reduz o sistema a leis da produção manuseáveis pela sociedade ou pela vanguarda, pensa-se que é possível mudar a totalidade.

Daí que estas promoções selvagens sejam fruto do sistema, que nos indignem maximamente, mas que se desculpem os homens e se esqueçam as paixões até à Revolução.