quinta-feira, 31 de maio de 2007

O ÍNFIMO DETALHE


Walter Benjamin (1892/1940)


"Walter Benjamin soube fazer falar melhor do que ninguém aquilo que William Blake, num dito maravilhoso tinha chamado de a "santidade do detalhe". A sua visão anti-sistemática dos objectos específicos, dos artefactos, dos tropos gramaticais, dos lugares urbanos engendra um materialismo que é dialéctico, embora apenas de um modo muito parcial num sentido marxista clássico."

"Les logocrates" (George Steiner)


Steiner chama a esta predilecção benjaminiana um "hiperrealismo visionário".

Já há muito que perdemos a distância média de que fala Musil, em que nos movíamos num mundo familiar, adaptado aos nossos sentidos e à nossa percepção.

Talvez o "ínfimo detalhe" seja uma espécie de átomo do sentido, a partir do qual não é possível mergulhar na realidade das coisas, sem perder o conceito umbilical e sem "perdermos o pé". Compreendo assim a santidade sugerida por Blake: o contacto com Deus só é possível antes da nossa mente fechar o mundo num sistema.

Todos os filósofos anti-sistemáticos, e o maior deles é, sem dúvida, Platão, foram sensíveis a esta ideia de abertura e de suspensão da totalidade.


Cuenca (José Ames)

DO VÍCIO DOS GOVERNOS


Jean-Jacques Rousseau


"Tal como a vontade particular age incessantemente contra a vontade geral, assim o governo faz um contínuo esforço contra a soberania. Quanto mais este esforço aumenta, mais a constituição se altera; (...) É o vício inerente e inevitável que, desde o nascimento do corpo político, tende, sem interrupção para o destruir, tal como a velhice e a morte acabam sempre por derrubar o corpo humano."

"Do Contrato Social" (Jean-Jacques Rousseau)


Rousseau é, sem dúvida, uma das grandes fontes do radicalismo político, tal como na primeira metade do século passado, em França, influenciou o pensamento de homens como Émile Chartier.

Embora o autor do "Contrato" não estivesse a pensar num governo eleito democraticamente de quatro em quatro anos, cujas eventuais tendências para a opressão não podem durar mais do que aquele tempo, sujeitando-se depois à sanção eleitoral, o princípio por ele estabelecido, fundado no estudo da história e da natureza humana, nem por isso é menos verdadeiro.

Todos podemos ter a experiência de como os cargos e o exercício do poder, a qualquer nível, e seja no estado ou nas empresas, modificam os homens.

Daí que a desconfiança e a circunspecção do juízo sejam as atitudes mais saudáveis em relação a todo o governo, qualquer que ele seja.

As coisas são como são, e os homens que não querem dar um rosto ao que os antigos chamavam a necessidade e à coacção de medidas que não podem agradar a todos (mas que precisam de ser aceites e compreendidas), perdendo nesse papel um pouco da sua humanidade, simplesmente não devem entregar-se à política.

Mas esse preço a pagar, nunca é o que a ambição vê em primeiro lugar.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

FIGOS FORA DA ÉPOCA


Rolf Hochhuth

A propósito da peça de Rolf Hochhuth, "O vigário", sobre a atitude de Pio XII em relação ao regime nazi, e referindo-se à resposta da Igreja, diz Hannah Arendt: "Há, em primeiro lugar, as palavras do cardeal Montini antes de se tornar Paulo VI: "Uma atitude de protesto e condenação (...) teria sido não só inútil, mas também prejudicial: é assim que devemos resumir a questão." ("Responsabilidade e Juízo")

Declarações deste tipo são, de facto, irrespondíveis. Nunca saberemos qual teria sido o efeito de uma denúncia das atrocidades nazis pelo papa.

As palavras de Montini são, assim, aquelas que melhor protegem a ideia de uma "infalibilidade", por actos ou omissões, procurando, ao mesmo tempo afastar a ameaça de uma polémica indesejável.

Mas a verdade é que, naquele contexto, o Vaticano se deixou talvez enlear por um pensamento táctico de comparação de forças, abdicando do que é mais próprio da missão papal.

E teria, certamente, merecido o juízo de Cristo sobre a figueira que não dava figos, mesmo fora da estação.


(José Ames)

A MAIOR DEMOCRACIA DO MUNDO?


Nehru e Gandhi, dois reformadores do sistema de castas

"Quatro mil cristãos presos na Índia por pedirem o fim da violência contra minorias."

(Do "Público" de hoje)


O que se costuma chamar de a maior democracia do mundo convive com um problema que começa por ser de natureza religiosa e acaba por contaminar todos os aspectos da vida social. Esse problema é o dos "intocáveis" (Dalit, os "Harijan" de Gandhi). Embora nas áreas urbanas esteja em declínio, não deixa de representar um grave desafio às instituições democráticas a nível nacional. Os Dalit abrangem "cerca de um sexto da população indiana, que totaliza mil e cem milhões de pessoas. Apesar de haver quotas de emprego para as castas inferiores, estas continuam a ser vítimas de discriminação e de condições de vida degradadas." (jornal "O Público")

Esta situação não deixa de recordar a da escravatura negra na jovem nação americana, contra o espírito das leis constitucionais, questão que foi resolvida, como se sabe, através de uma guerra civil. Também a primeira democracia do mundo, a de Atenas, pôde viver com a mais radical das desigualdades e o próprio mundo ocidental moderno negou o direito de voto a metade dos seus cidadãos, até há menos de cem anos.

A grande diferença destes antecedentes históricos para o caso indiano é que a desigualdade não está nas leis (a não ser como discriminação positiva). É um facto que afecta "apenas" a esfera social e privada, o que nos impede de considerar injustificada a nomeação de uma sociedade destas de democrática.

Mas, como é óbvio, o conflito entre o político e a realidade social faz da democracia indiana, que afinal é um enxerto relativamente recente numa cultura antiquíssima, uma democracia paradoxal.

A rápida transformação dos costumes que geralmente acompanha o desenvolvimento económico e a chamada globalização resolverá eventualmente o problema dos "intocáveis", mesmo se à custa de uma ocidentalização descaracterizante.

terça-feira, 29 de maio de 2007

A PLANTA MAIS RESISTENTE


Marcel Proust
http://ccqhumor.com.br

"E como o hábito é de todas as plantas humanas, a que menos tem necessidade de um solo que a alimente para viver e que é a primeira a aparecer sobre a rocha na aparência a mais desolada, talvez que ao princípio fingindo a ruptura, se lhe tenha acabado por acostumar sinceramente, Mas a incerteza mantinha nele um estado que, ligado à recordação dessa mulher, se parecia com o amor."

"Du Côté de Guermantes" (Marcel Proust)


O hábito que é esse remédio, demasiado simples e ao alcance da mão, para ser levado a sério pelos apaixonados, acaba sempre por se impor, se lhe dermos o tempo necessário.

A outra ideia, mais complexa, é a de que a falta de uma decisão, o estado de incerteza, contraria o efeito do hábito.

O que se assemelha ao amor é, assim, uma inquietude que permanentemente levanta em nós a questão da nossa felicidade depender, como no passado, da outra pessoa.


Lisboa (José Ames)

O DIABO MAL DEFENDIDO



La république casquée (Musée Roty)


"Este grande senhor (La Rochefoucauld) havia sido, antes da Revolução, o amigo, o pai dos filósofos, o centro e o apoio de todas as sociedades filantrópicas. Tinha impelido vivamente as ideias de 89; em 91 assustara-se, quisera recuar. Fez discutir solenemente na sua casa a tese da República perante os que ainda hesitavam, querendo arrematar com um debate contraditório o debate interior que agitava os seus espíritos. O monárquico Dupont de Nemours fez-se (como se faz nas controvérsias teológicas) o advogado do diabo, quer dizer, da República. O diabo, como sempre acontece em tais casos, foi morto sem dificuldade, e a República julgada impossível, a França declarada monárquica."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Este La Rochefoucauld não é o autor das célebres "Máximas", que andou envolvido nas guerras da Fronda, mais de um século antes.

É um homem dividido entre o coração e a cabeça. Não podia dar razão ao partido do medo, sem se convencer, e convencer os próximos, que o medo nada tinha a ver com tal decisão.

Michelet diz que o "advogado do diabo" perdeu a sua causa, "como sempre acontece, em tais casos."

Ora, esta figura tem muitas semelhanças com o advogado de alguém que ele sabe que é culpado, mas que, apesar disso, defende por obrigação profissional. Neste caso, não pode deixar de verificar-se que o "diabo" seja "morto sem dificuldade", o que confere à contradição o seu quê de comédia.

Mas é claro que ganhar uma causa que à partida parece perdida também é um grande motivo para que falhe a predição de Michelet.

É de crer, contudo, que em casa de La Rochefoucauld tenha prevalecido a versão cómica.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O OLHAR DO ESCUTEIRO


"Zodiac" (2007-David Fincher)


Se em "Seven" (1995), o serial-killer conduz, do princípio ao fim, o jogo com a polícia e acaba por conseguir soltar na imaginação colectiva a sua ameaça metafísica, aqui temos a história (autêntica) de um criminoso que faz das leis e da usura do tempo o seu escudo para escapar à justiça e confrontar a máquina humana que o persegue com o seu absurdo e a sua inutilidade.

Depois de alguns anos de silêncio (porque se sabia vigiado), Leigh, o "Zodíaco" só tem um crente: um antigo escuteiro, cartoonista do "San Francisco Chronicle". Ele arrisca tudo na sua obstinação por "resolver o caso", impedindo testemunhas e polícias de fechar os olhos e esquecer. E o que é que o move? Ele quer olhar o criminoso nos olhos.

A sua visão ingénua do mundo reclama, mais do que o castigo, a humanização do assassínio. Quando procura Leigh no seu emprego e o olha sem palavras nos olhos, é como se o mal perdesse a sua transcendência e ficasse reduzido àquele corpo desgracioso, àquela ironia protegida, àquele orgulho demasiado humano.

Não importa que o Zodíaco tivesse morrido de um ataque cardíaco antes sequer de ser acusado.

O escuteiro tinha pacificado o seu mundo e podia escrever o livro da sua vida.

A polícia, pelo seu lado, podia ocupar-se de casos com mais actualidade.


(José Ames)

A ENGENHARIA DO SOCIAL


Litte Rock, Arkansas, 1957

"A igualdade é para o corpo político - enquanto seu princípio fundamental - o que a discriminação é para a sociedade. (...) Porque de cada vez que saímos das quatro paredes protectoras do nosso domicílio privado e transpomos o limiar do mundo público, começamos por entrar, não no reino político da igualdade, mas na esfera social. Somos conduzidos a essa esfera pela necessidade de ganharmos a vida ou pelo desejo com que a nossa vocação nos atrai ou movidos pelo prazer da companhia, e, uma vez que nela tenhamos entrado, obedecemos à velha máxima, segundo a qual "o semelhante atrai o semelhante", que governa o conjunto do domínio social na inumerável variedade dos seus grupos e associações. O que conta aqui não é a distinção pessoal, mas as diferenças através das quais as pessoas pertencem a certos grupos cuja afirmação de uma identidade própria requer a discriminação que visa outros grupos presentes no interior da mesma esfera social."

"Responsabilidade e Juízo" (Hannah Arendt)


Não resisti a esta longa citação que me parece tão reveladora, quanto é óbvia e da "sabedoria das nações".

Porque o erro mais comum é o de se transpor, sem mais, o princípio da esfera política para o social.

Hannah Arendt diz ainda que "Do ponto de vista da pessoa humana, nenhuma das práticas discriminatórias faz sentido; mas é também duvidoso que a pessoa humana enquanto tal alguma vez apareça no domínio social."

Esta contradição entre as duas esferas é representativa de qualquer sociedade, mesmo daquelas em que o realismo e o pragmatismo parecem reduzir a distância entre o que é e a imagem que se tem do que podia ser. Mas a filósofa adverte-nos do perigo da sociedade de massas poder vir a esbater essa diferença.

A "discriminação" no social (passe este cúmulo do politicamente incorrecto) é a fisiologia do colectivo, a sua "dinâmica", para falar como Comte. É assim que pode mover-se e crescer como um grande corpo.

Hannah Arendt, a propósito dos incidentes de Little Rock, no final dos anos cinquenta, por ocasião da política de dessegração forçada nas escolas, demonstra que a "engenharia" no campo social tem, as mais das vezes, resultados contraproducentes.

A complexidade da adaptação social que o pensamento está longe de poder acompanhar nas suas invisíveis articulações nunca poderá ser substituída por um programa, e todas as mudanças, no sentido desejável, terão de ser a consequência indirecta de medidas controladas até ao limite do possível.

domingo, 27 de maio de 2007

A DÚVIDA HIPERBÓLICA


O jovem Nietzsche

"Proclamar assim a fenomenalidade do mundo interior, é em primeiro lugar alinhar este último pelo mundo dito exterior (...); para compreender este ponto, é preciso ter presente no espírito o ataque contra o positivismo: ali onde este diz: só há factos, Nietszche diz: factos, é o que não há, o que há são interpretações. Estendendo a crítica à assim dita "experiência interna", Nietzsche arruína no princípio o carácter de excepção do Cogito em relação à dúvida que Descartes dirigia contra a distinção entre o mundo do sonho e o da vigília."

"Soi-même comme un autre" (Paul Ricoeur)


Ricoeur reconhece que Nietzsche tem razão para dizer que levou a dúvida ainda mais longe do que Descartes, sem lhe conceder, contudo, a desconstrução do sujeito.

E este espírito, que alguém já chamou da suspeita, não se ficou pela especulação metafísica ou teológica. Está no cerne da teoria popperiana do conhecimento científico, por exemplo.

O que a dúvida hiperbólica trouxe à consciência moderna não foi o fim do dogmatismo, mas, na esteira da revolução kantiana, o fim do nosso sono.

A aceitação de certos artigos dogmáticos tem, por isso, a mesma justificação que a recusa, por princípio, de todos os dogmas.

É o estatuto de verdade que em ambos os casos deixa de poder ser invocado.


Espanha (José Ames)

A FOZ DO OLHAR


Alice, "Através do espelho"


"Se, ao olhar um olhar nele víssemos alguma coisa - veríamos um objecto e não um olhar. Nele vemos a nossa própria não-objectividade, a nossa imaterialidade, o nosso sem-fundo. O que nele se reflecte é o sem fundo, o ilimitado. Eis que o olhar reflecte um buraco, um vazio: único espelho que reenvia o não-visível, o imaterial."

"A imagem-nua e as pequenas percepções" (José Gil)


Diz a tradição que o olhar é o espelho da alma, mas isso é apenas uma parte da verdade. A "alma" assoma ao olhar de quem olhamos, mas para se confundir (numa atmosfera, diz o filósofo) com a alma que nós próprios trazemos ao olhar.

Como quando dois rios se encontram ou um rio encontra o mar e as águas se misturam.

A sedução do olhar ( "e o seu poder de irradiar sobre o corpo todo") é a força do vazio que se oferece como molde da nossa própria forma, "no próprio momento em que a faz dobrar."

O olhar sedutor seria, assim, o espelho do nosso desejo, mais longe da imagem real do que a dos espelhos deformantes.

sábado, 26 de maio de 2007


(José Ames)

AO VOLANTE


http://digglloyd.com


Apenas a massa das árvores de cada lado da estrada, a cem à hora, falávamos de como ia ser a reunião. O condutor, sempre tenso e reagindo agressivamente aos faróis altos e às traseiras de alguma camioneta pachorrenta, era credor de todas as atenções da nossa parte. Se fumasse, seria preciso chegar-lhe o lume. E pode dizer-se que em qualquer dos casos é disso que se trata. A estrada é uma preocupação sua, que retém os seus olhos longe da conversação, na fita de macadame, nos sinais de perigo. E todos os volantes são mais ou menos susceptíveis: uma palavra da companhia, aconselhando ou chamando a atenção, é literalmente castradora.

Já se disse tudo sobre o automóvel como símbolo fálico. Em raras situações, existe um domínio tão forte sobre a afectividade dos outros. O veículo cobre-nos como uma parede de vidro. Homem e máquina no mesmo impulso pulverizam todos os outros interesses e a sociedade só é possível aquém da velocidade e do risco evidente. Mas sempre o que conduz é o menos livre. E há assuntos que são verdadeiras onomatopeias da voz humana e da presença lúcida. Uma discussão pode levar ao desastre.

O chamado “lugar do morto” é além disso uma função ingrata. Não é só o corpo que se oferece ao “trabalho” do outro – posição feminina e mais, da viúva hindu, que deve ser queimada com o defunto, a atitude da direita do volante é um índice sentido imediatamente pela psicologia do eu. É como uma extensão carnal, proeza da velocidade. Mas a fala deste lugar é cativa. Fala para o boneco, como se diz. Nunca a conversação desce a um nível tão mecânico e perde assim o próprio conteúdo. O condutor amarrado ao seu posto não deve perder a noção da realidade. É a situação do bebé ao contrário. Canta-se para adormecer. Aqui, para afastar o sono.

Por isso gosto dum terceiro. É possível então representar para o relais da máquina. A contradição nasce facilmente entre três pessoas e a necessidade mecânica de falar recebe assim um estímulo continuado. Nessa noite, um preguiçoso sentou-se no lugar do morto e deixou-nos falar. O terceiro é também o irresponsável, e nada me agrada mais do que esse papel, num carro em movimento. O interlocutor real de cada um de nós nessa situação é o macadame e o tráfico inteligente. É por isso que os mais alegres viajantes são comentadores dos objectos sem rosto que fazem as peripécias da viagem. Como nos flippers. A poesia são os monstros parados de olhos vermelhos na berma para comer.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

A SEARA E A FAÚLHA



"Quando oiço algumas pessoas explicarem a sua passividade em relação a tal ou tal movimento por um desacordo sobre certos pontos, quando as oiço dizer que elas aderem, apesar disso, ao seu ritmo, mas sem nele participarem efectivamente em razão de certas dúvidas teóricas, compreendo imediatamente que não têm o fôlego revolucionário. Se o tivessem, compreenderiam que só conta esse ritmo e abandonar-se-lhe-iam. As ideias são um cenário variável, só têm na história uma função ornamental."

"Solitude et destin" (Emil Cioran)


Talvez que o papel das ideias nas revoluções esteja sobrestimado e que os motivos profundos da maior parte dos actores que aparecem em cena tenham mais a ver com a imitação, com o contágio das paixões, esse poderoso efeito sobre o indivíduo de um movimento de massa do que com uma ideia em especial.

O que significa que as revoluções pertencem menos à categoria da acção consciente do que à da catástrofe.


Madrid (José Ames)

FISIOLOGIA POLÍTICA


George Danton (1759/1794)


"Que vindes buscar aqui? Para que vos refugiais nesta sala a que os vossos jornalistas chamam um antro de assassinos?... E que momento escolheis para vos reconciliardes? O momento em que o povo está no direito de pedir-vos a vossa vida. Sois traidor? Sois estúpido? Em ambos os casos já não podeis comandar. Tínheis respondido com a vida em como o rei não partiria? Vindes pagar a vossa dívida..."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Esta catilinária assassina é dirigida por Danton a La Fayette que acaba de entrar na sala onde decorre a assembleia dos jacobinos, de braço dado com Lameth e seguido de Sieyès, Barnave, "toda a esquerda da Assembleia marchando sob o mesmo estandarte."

Danton parecia o único a ver, naquele momento de falsa reconciliação, com o rei em fuga e a ideia republicana mal segura, que La Fayette era o verdadeiro perigo, porque popular e sempre pronto a deixar-se enganar pela Corte.

Michelet continua: "Responder, contestar, recriminar seria atear o incêndio. Para lançar água fria, Lameth pronunciou uma pastoral sobre os prazeres da união fraterna. La Fayette desenvolveu, sem dizer uma palavra sobre a questão, a sua conversa habitual, "que fora o primeiro a dizer: Uma nação torna-se livre quando quer ser livre, etc." (...) A sociedade ficou satisfeita, pois, por volta da meia-noite, quando os deputados saíram encabeçados por Barnave, La Fayette, todos os jacobinos, todos os auditores e espectadores, duas ou três mil pessoas talvez, formaram-lhes um cortejo (...)"

Na política, as perguntas nem sempre têm resposta. Mesmo uma acusação tão grave como a de Danton pôde ser ignorada e, para falar na linguagem homérica, tida como nunca tendo passado a barreira dos dentes.

E isto porque uma assembleia (sobretudo quando nela se joga a vida das pessoas) não se comporta como um indivíduo racional. A sedução, a imaginação, a arte de desviar as atenções contam muito mais do que a lógica.

Basta ver o cuidado que os modernos congressos puseram na sua regulamentação para nos apercebermos de que a surpresa é o verdadeiro inimigo. De uma maneira ou de outra fazem jus à célebre imagem de um gigantesco carimbo.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

O OLHAR INTERIOR


Paul Cézanne, "Les Grandes Baigneuses"

"(..) o olho vê o mundo, tanto o que falta ao mundo para ser quadro, como o que falta ao quadro para ser quadro."

"L' Oeil et l' Esprit" de Merleau-Ponty, citado por José Gil ("A imagem-nua e as pequenas percepções")

"A pintura desperta, leva à sua última potência um delírio que é a própria visão, uma vez que ver é ter à distância, e que a pintura estende essa possessão bizarra a todos os aspectos do Ser." (ibidem)


Ter à distância é o movimento que constitui o objecto. Mas Merleau-Ponty fala em possessão.

Alguma coisa passa a ser nossa pelo facto de a vermos, e isso só se entende porque é o nosso próprio corpo que se projecta no que vemos, e é esse o delírio.

A pintura seria a tomada de consciência dessa visão irredutível ao mundo.

Mas quando, a partir de Cézanne, falta cada vez mais ao mundo para ser quadro, por haver um deslocamento do que está por detrás da aparência (o "invisível" que está diante de nós) no sentido contrário ao dos sentidos, o "quadro que falta ao quadro" é uma pura convenção. Uma cifra.


(José Ames)

A IDADE TEOLÓGICA


René Descartes (1596/1650
)

"O eu que conduz a dúvida e que se reflecte no Cogito é tão metafísico e hiperbólico quanto a própria dúvida em relação a todos os seus conteúdos. Não é por assim dizer ninguém."

"Soi-même comme un autre" (Paul Ricoeur)


O passo decidido, quase militar, com que avança a argumentação cartesiana deslumbra-nos até o ponto de não reconhecermos o óbvio.

Quando o filósofo se propõe "seriamente e com liberdade destruir todas as minhas antigas opiniões" ("Méditations métaphysiques", citação de Paul Ricoeur), lança-se numa aventura que seria impossível nos dias de hoje, depois da desintegração do eu, do positivismo e da psicanálise.

É o grande momento do Sujeito, que à imagem de Deus, julga poder recriar o mundo pensado por uma acto da vontade, sem ver a própria sombra reflectida nessa recriação.

É certo que Descartes advertiu a hipótese de ser enganado, na ideia do "malin génie", mas para a repelir por não ser conforme à perfeição divina a ideia de ser enganado pela própria razão.

Porque o podemos conceber é que deixámos para trás a idade teológica.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

IDEIAS IMPOLÍTICAS


Baruch Spinoza (1632/1677)


É a felicidade a própria virtude, como queria Spinoza? Certamente, mas não é uma ideia fácil, porque se confunde depressa o egoísmo e o prazer com a felicidade. O homem que dorme no pedestal da estátua tem o poder de comunicar tristeza. A criança que pede esmola dispensa angústia como o olhar do animal que se abate. Dessa força dos signos do sofrimento e da miséria, tiram muitos o seu sustento senão o seu lucro. E todos sabem que não é essa a verdadeira miséria. A que não se vê nas ruas da baixa é a pior, mas em contrapartida não custa a suportar aos outros. É demasiado abstracta.

Pode imaginar-se o espectáculo do último pobre, ou do último sofredor, condenados por qualquer lei inexplicável a essa diferença irredutível. E basta isso para ver que toda a riqueza e toda a felicidade dependeriam do privilégio negativo desses homens. E se eles não existissem, haveriam de erguer-se templos em cada cidade e em cada casa à sua figura divina. Sem dúvida que era sob essa forma que todos gostaríamos que existissem. Por isso a ideia da igualdade tem um limite simbólico.

De resto, a igualdade poderia ser o fim da política, mas sê-lo ia da injustiça? A realidade é que antes de sermos injustos para os outros, somos injustos para nós mesmos. Daquilo que é sentido como uma necessidade inexorável todo o homem sabe tirar partido. O verdadeiro mal, porque é íntimo e divide o ser contra si próprio, é o que se atribui à vontade e à liberdade humana. Daí que nenhum pobre esteja condenado à partida a viver acabrunhado. O mendigo na história de mestre Eckhart, citada por H. Arendt, não dizia que estava “muito melhor no Inferno com Deus do que no Céu sem Ele”? É cem vezes mais difícil que o empobrecido e o politizado escapem a isso. Mas a virtude e o pleno uso dos recursos podem fazer brilhar a réstia de sol que acalenta o coração no bairro de lata.

Que a liberdade se pode prezar mais do que o conforto provam-no povos inteiros e cada um de nós, nos melhores momentos da nossa vida. Não é verdade que os ciganos recusaram a integração, mesmo em troca do socialismo – promoção que seria bem real para eles, apesar de tudo? E não preferiram sempre os judeus a sua cidade em ruínas à protecção e à ajuda de Roma para construir de novo? Adriano não compreendia esse orgulho inflexível dos israelitas. Era o poder que o transtornava. Também ele persistia, como os novos sonhadores da unidade humana, em fazer os homens felizes à força.

O que é evidente é que qualquer homem pode fazer mal a si próprio e, portanto, directa ou indirectamente, aos outros. Eis por que o primeiro problema da justiça é a liberdade. Depende de como usamos o nosso corpo e todos os instrumentos que o prolongam haver mais ou menos justiça no mundo. A violência está ao alcance do pobre, mas é ele, as mais das vezes, a vítima da violência. Contudo, deve separar-se o que é do domínio das coisas e da necessidade do que é efeito da acção humana. O rico e o poderoso não são mais livres, apesar da aparência. Os seus meios dependem estritamente do querer de muitos homens. A sua vontade é uma soma que não lhes pertence.


Avis (José Ames)

OS NOSSOS BOTÕES



"A necessidade de pensar só pode ser satisfeita através do pensamento, e os pensamentos que eu ontem pensei só continuarão a poder satisfazê-la hoje, na medida em que me seja possível pensá-los de novo."

"Responsabilidade e Juízo" (Hannah Arendt)


Nem todos sentem essa necessidade, ao que parece, como o comprova o caso de Eichmann e de outros como ele. Que não são más pessoas no seu coração, mas que podem agir como uma força maléfica por incapacidade de se julgarem, por falta, precisamente, desse diálogo de si consigo mesmo que é o pensamento e que os leva a agirem como autómatos no "cumprimento de ordens".

Mas como diz Hannah Arendt, o que se pensou no passado só existe se de novo o pensarmos, e essa necessidade de pensar pode secar como uma fonte.

Este estiolar-se do diálogo íntimo faz-se anunciar pelas certezas que muitas vezes com a idade ou com os compromissos, vêm poisar uma a uma nos fios eléctricos, como no filme "Os pássaros".

E uma bela manhã, a paisagem fica transtornada.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

POLÍTICOS SEM CRER



"Crer é uma coisa, ter a vontade de crer é uma outra. No primeiro caso, vive-se feliz em Deus; no segundo, pensa-se nele. A consciência transformou o absoluto numa função do desespero. Muito poucos mortais podem viver em paz, em bom entendimento com Deus. Um conflito insolúvel engendra uma decepção metafísica que tem por consequência imediata a paixão na imanência. Eu não explico de outra maneira a sede de poder de Nae Ionescu (*) e o estranho equívoco da sua paixão política."

"Solitude et destin" (Émil Cioran)


É assim. Não crê quem quer. Cioran, que considera a lucidez uma maldição, não sabe o que fazer com o pensamento da transcendência.

A embriaguez pela simples existência que este programa sugere é confundida por essa espécie de niilismo mimético a que se devotam alguns "anjos caídos", como o professor Ionescu.

É outro caminho para encontrar o mal no mundo. Hannah Arendt fala-nos daqueles que não conhecem o diálogo interior de que vive o pensamento. Cioran dos metafísicos desiludidos que parecem crer na política.


(*) Professor de extrema direita (1890/1940) que exerceu uma influência nefasta sobre os intelectuais da geração de Cioran. (nota de Alain Paruit)


(José Ames)

A INTELIGÊNCIA DO SNOBISMO


Marcel Proust, À la recherche du temps perdu. Du côté de chez Swann
95 placards corrigés, Typographie Colin, Mayenne
31 mars - 11 juin 1913, 51 x 36 cm
BNF, Manuscrits, N. a. fr. 16753, f. 48 vo-49


"Era precisamente essa incomodidade que me dava a coragem de falar a Robert; a presença dos outros era para mim um pretexto que me autorizava a dar às minhas palavras um tom breve e descosido, graças ao qual podia facilmente dissimular a mentira de dizer ao meu amigo que eu tinha esquecido o seu parentesco com a Duquesa e para não lhe dar tempo de me questionar sobre os meus motivos (...)"

"Le côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Marcel deseja ardentemente ser apresentado à Duquesa, prima de Robert Saint-Loup. Mas como nos acontece tantas vezes, temia que esse desejo proporcionasse ao seu amigo uma visão pouco lisonjeira sobre si próprio.

Ora, se com esse estratagema, impediu Robert de lhe fazer perguntas naquele momento, não deixou de semear a dúvida no seu espírito, que, sem dúvida se debruçará, mais tarde, sobre essa incongruência de carácter.

Digamos que a situação (os amigos à espera que se juntassem a eles à mesa do restaurante) sugeriu uma solução ao nível da táctica e que a própria felicidade dessa solução impediu Marcel de ver um pouco mais longe.

O snobismo, evidentemente, é o que trai este movimento em falso.

Mas essa paixão de penetrar um dos meios mais fechados da sociedade, convertida em escrita, deu-nos a obra-prima absoluta sobre a vaidade humana.

E não é, precisamente, o tempo a verdadeira medida da vaidade?

quarta-feira, 16 de maio de 2007

DA PRÁXIS À PRAXE


Peter Sloterdijk


"Se há um denominador comum para a multiplicidade de crises que dilaceram a consciência contemporânea, poder-se-ia deduzi-lo do segredo de Polichinelo que as catástrofes divulgam: o mito moderno da práxis está a morrer, o activismo ocidental atravessa o seu crepúsculo dos deuses. (.
..) Ele fica a dever a força revolucionária com que se impôs, à autoridade da técnica científica e aos artifícios desta, e a sua atractividade psico-política às vantagens de uma ética de expressão individualista, que assumia que é melhor fazer do que sofrer."

"A Mobilização Infinita" (Peter Sloterdijk)


A práxis já não é então o "último critério da verdade"?

Podemos verificar a volta que levou esta ideia na situação da própria ciência. O submeter de uma teoria a um teste que a ponha à prova, todas as experiências que imaginemos para a confirmar, apenas nos permitem encontrar uma teoria melhor fundada do que outra, sem que, em qualquer caso, possamos dizer que é verdadeira (Popper).

É, pois, claro, que as teorias políticas, estando ainda mais longe da sua "autentificação" pela prática ou por um qualquer juízo da História, só podem aspirar a um simulacro da verdade que, nuns casos se chama de consenso democrático e noutros de linha do partido ou de "vontade" popular.

Porto (José Ames)

A VERDADE OBJECTIVA


Marco Túlio Cícero (106/43 AC)

"Nas suas Disputas Tusculanas, Cícero considera o conflito que opõe as opiniões dos filósofos acerca de certas matérias, que não nos interessam no contexto presente. E quando chega ao momento de decidir quem tem razão e quem erra, de súbito e de modo muito inesperado, apresenta um critério completamente diferente. Põe de lado a questão da verdade objectiva e diz, perante a escolha entre as opiniões dos pitagóricos e a de Platão: "Por Deus, prefiro mil vezes enganar-me com Platão, a sustentar ideias verdadeiras com essa gente."

"Responsabilidade e Juízo" (Hannah Arendt)


Hannah Arendt, mais adiante, comenta que esta passagem do "aspecto objectivo, daquilo que alguém fez, ao aspecto subjectivo, que considera antes do mais quem foi o agente", a podemos encontrar, "enquanto elemento marginal", dentro do nosso próprio sistema jurídico. Caso de se perdoar, às vezes, um homicida, mas não o seu acto.

Mas tentando compreender a posição de Cícero, é caso para perguntar que valor podemos dar à verdade dita por um louco?

Se uma seita diz ocasionalmente a verdade e um homem como Platão, eventualmente, está errado, no juízo de quem podemos mais confiar?

Também, um erro "platónico" é natural que esteja, de muitas formas directa e indirectamente relacionado com o acerto do filósofo. Porque todos temos uma maneira própria de nos estatelarmos no chão.

terça-feira, 15 de maio de 2007

AFUNDADOS EM VERBORREIA


Martin Heidegger contemplant la montagne Sainte-Victoire, septembre 1968

"Se bem que menos visível, um processo comparável de decomposição contamina a palavra civilizada. Para Heidegger, o Gerede, a verborreia que encheu a maioria das vidas humanas, atesta directamente o eclipse do logos, a sua retirada na dissimulação.

"(...) Na fórmula de Heidegger, é a catástrofe da Seinsvergessenheit, a incapacidade na qual se encontra o homem, depois dos pré-socráticos, de "se lembrar do ser". Nesta amnésia, Heidegger situa não somente a falha constante da metafísica ocidental, mas também a causa activa da anomia individual e das loucuras colectivas que caracterizam a história e a sociedade moderna."

"Les logocrates" (George Steiner)


Esta suspeita lançada sobre toda a linguagem desde que Sócrates elaborou a sua teoria dos conceitos remete, evidentemente, para o mito de uma idade de oiro do pensamento poético (os poetas seriam "os curadores do ser").

Steiner vê uma origem teológica nesta transcendência atribuída à linguagem, cuja degenerescência se pode igualmente ler como uma necessidade decorrente da "Queda".

É irresistivelmente sedutora a ideia de que todos os males da nossa civilização se devem a termos perdido o caminho, algures no passado.

Mas "as pulsações de luz do logos" interpretadas pelos poetas, como poderiam abolir esse passado e regenerar a linguagem?

E é aí, como numa nova Revelação, que entram os logocratas. Steiner remata que podia ser verdadeira a conclusão de William Hazlitt: "A linguagem da poesia encontra naturalmente a linguagem do poder."

Também se poderia aplicar aqui a ideia da infância como metáfora de um paraíso perdido e de uma verdadeira imersão no ser. Todo o crescimento, nesse sentido, seria um descaminho.

E imediatamente nos ocorre que a linguagem do poder fala, então, através da psicanálise.


(José Ames)

O DIREITO POR LINHAS TORTAS

c
Cartaz criado por Wieslaw Walkuski en 1990



"Não é possível duvidar de que Calígula tenha sido louco, mas a sua loucura consistiu muitas vezes em ressuscitar tradições que remontavam a um passado colectivamente rude."

"A sociedade romana" (Paul Veyne)


"(...) era um grande folclorista. Foi igualmente grande em fazer exercer pela multidão a justiça de nível mais baixo."

Como diz Suetónio: "Pretendeu que um cidadão, que prometera combater na arena se o imperador se curasse, cumprisse o seu voto; abandonou aos rapazes (pueris tradidit) um outro homem que fizera a promessa de morrer pelo mesmo motivo e que hesitava; coroaram-no de verbena, vendaram-no, e os rapazes, recordando-lhe o seu voto, levaram-no de bairro em bairro até acabarem por atirá-lo do alto das muralhas."

Como distinguir entre esta loucura do poder, já que também não temos dúvidas de que o "Sandalinhas" só se servia da tradição para satisfazer a sua crueldade e um macabro sentido de humor, e uma galvanização "providencial" das formas arcaicas do direito, através da instrumentalização do próprio Calígula?

Quando a autonomia do sujeito se tem de pôr em causa, como nesta caso, não será legítimo supor que, ainda assim, ele obedece a uma lógica?

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O GARGALO DO NADA



"Leaving Las Vegas" (1995-Mike Figgis) é uma história sobre beber até à morte, que faz de "Lost Weekend" (1945-Billy Wilder) e do delirium tremens de Ray Milland um caso de simples fraqueza humana.

Não percebemos por que escolheu a personagem de Nicholas Cage, contra tudo e contra todos, essa maneira de morrer. Mas desde o princípio, sabemos que não há qualquer esperança. E até aquela cidade irreal se torna como que a metáfora de uma eutanásia.

O seu encontro com a hooker (Elisabeth Shue) é um breve agarrar-se a dois à tábua do naufrágio. Quando questiona a razão de o querer assistir no suicídio, ela responde que, na verdade, está a usá-lo.

Afinal a vontade de sofrer não é incompatível com a instrumentalização do outro.

E é essa impotência do amor que dá a este filme uma fosforescência quase apocalíptica.


Porto (José Ames)

O REI NA MERCEARIA


A sagração de Luís XVI

Quando a mercearia de Sauce é invadida pelos populares, em Varennes, quando está enfim descoberta a sua fuga, Luís XVI disse: "Pois bem, sim, sou o vosso rei; eis aqui a rainha e os seus filhos. Conjuramo-vos a que nos trateis com a deferência que os Franceses tiveram pelos seus reis."

E Michelet continua: "Luís XVI não era falador e não disse mais nada. Infelizmente a sua casaca, o seu triste disfarce, pouco pesava a seu favor. Este lacaio, de peruca, pouco lembrava o rei. O terrível contraste desta condição, desta casaca, podia inspirar mais piedade que respeito. Várias pessoas puseram-se a chorar."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Tudo tinha corrido mal nessa noite. Às portas da cidade, depois de ter falhado o encontro com a escolta que os devia conduzir ao território austríaco, toda a gente na carruagem foi vencida pelo sono, como qualquer família, extenuada por uma aventura. Mas os guardas-nacionais não tardaram a acorrer de todos os lados, enquanto os sinos tocavam a rebate. "Todo o campo tenebroso estava emocionado".

Um rei sagrado em Reims, como todos os seus antepassados, e depois isto, este negociar a sua vida e a dos seus. Era o fim de uma religião.

Os que o julgaram e condenaram, menos de dois anos depois, já não eram capazes de pensar. Se sondássemos os seus corações, só encontraríamos o medo.

domingo, 13 de maio de 2007

A MATÉRIA DOS SONHOS


http://curiouszoology.com

"(...) em seguida, por razões interiores, em geral antes da puberdade, mas por vezes também depois, opera-se uma transformação em consequência do recalcamento; e a partir de então, sem que as antigas tendências desapareçam, a neurose substitui-se à perversão. Isso recorda-nos o velho adágio: "jovem prostituta, velha devota".

"Trois essais sur la théorie de la séxualité" (Sigmund Freud)


O efeito mais notável da psicanálise foi o de ter libertado a sexualidade da moral.

Naquele trecho, mesmo a palavra perversão, apesar da sua conotação ético-religiosa, deve ser lida como uma energia desviada dos seus fins.

Na interpretação da devoção como uma neurose, a doutrina prossegue esta materialização insidiosa da "alma".

O código sexual torna-se a chave que serve em todas as fechaduras da metafísica.


"Explicação" (José Ames)

A PLATITUDE


Gravura de Massonet (1933): Debate e Consenso


"É que a ideia de consenso não precisa de fazer propaganda dispendiosa da sua validade; poderia, tranquilamente, baixar o orçamento da sua teoria e concentrar-se no ofício diplomático."

"A Mobilização Infinita" (Peter Sloterdijk)


O consenso, ou a filosofia dos diplomatas "limita-se à conciliação mínima de vozes dissonantes e a uma junção frouxa dos elementos que não se coadunam, isto no âmbito de um interesse específico pelo entendimento." (ibidem)

Esta filosofia exalta a superioridade de virtudes como "a clareza, a sinopse das matérias e a comunicabilidade" que são as que mais favorecem o acordo, sem se entrar nas questões vivas e mais profundas.

Por detrás desta atitude, está a ilusão de um mundo ordenado pela razão que não pode deixar de se impor ao comum dos homens.

Felizmente, ou infelizmente, assim como na ciência são as teorias pouco prováveis as mais interessantes, também na política o mais verdadeiro pode ser o menos consensual.

Evidentemente que o consenso tem um outro uso, menos aparentado com a boa educação, num partido leninista, por exemplo, porquanto aí visa mais libertar a vontade "colectiva" de entraves internos do que assegurar o entendimento.

sábado, 12 de maio de 2007

MASCULINO/FEMININO



A figura humana é mutante. O rosto viaja num caleidoscópio. Às vezes sentimo-nos atraídos por uma estação que promete frutos imaginários. Queremos, nesse momento, fixar numa estampa japonesa o traço lisonjeiro. O encontro exploratório é dominado por esta atenção aos signos. Registamos todas as nuances e a verdade continua à espera de uma decisão que ponha ordem no caos e na insignificância. Antes disso existe a simulação da busca, porque realmente se trata duma impregnação do sentido e da espera ingénua do milagre.

No fundo ansiamos por um sentimento autoritário que nos conduza por entre o bazar da imaginação, sem nos deixar deter. Temos saudades dum brinquedo que nunca chegaremos a ter. Porque olhamos na direcção errada, como se ele estivesse à nossa frente. Esse revérbero da infância oculta-nos o sol da acção. Não se pode pedir à consciência esse abandono do corpo. Há uma passagem difícil a que a vontade nua não se arrisca. Aí são os deuses inferiores que nos transportam. Só neles confiamos para salvar as nossas ilusões mais queridas.

Todas as considerações da lógica e da moral não fazem corpo. Convencem-nos, mas não nos movem. É de graça a facilidade de que necessitamos. O desejo cria a partir do nada, e é esse o verdadeiro objecto da moral. Domar a força, trazê-la à forma humana. A maturidade não pode viver a paixão da juventude. O lugar que pedem estas núpcias de verão é o pomar contemplativo. Um passeio à roda da natureza sem envolvimento trágico nem luta. E talvez que o nosso olhar perscrutador viva ainda na primavera, como se fosse possível abolir o tempo e o passado. Como se o amor que convocámos puerilmente não significasse a morte do que somos.

É a estação presente que salva o trabalho e o sentido da nossa vida. Atentos à nuvem que passa, ao perfil fugitivo, projectamos a visão dos nossos humores no hieróglifo sexual que não sabe como estar, porque não deixa de pôr em causa, ao sabor dos fenómenos insignificantes, a própria imagem que reenviamos. E quanto mais desabrigada dos signos da mitologia erótica, quanto mais exigente o nível da proposta amorosa, mais inquietos nos sentimos.

Os fora da “casa” não podem encontrar-se no primeiro grau. É sempre no meio dum jogo com regras obrigatórias que os passos se dão, até um esclarecimento, que não pode deixar de acontecer. Homem e mulher estão submetidos à lei do tempo, sem alternativa. A história sacramentalmente impõe as suas etapas à “durée” psicológica.

Como se a reprodução e a eternidade relativa fossem virtude da própria existência dos sexos, do jogo da sua diferença, mesmo antes do trabalho biológico. O amor transfigura pela palavra sem que apareça a causalidade natural.


Coimbra (José Ames)

O BURACO DA AGULHA


Georges Bernanos (1888/1948)

"- É preciso reflectir muito antes de falar da pobreza aos ricos. Senão, tornar-nos-emos indignos de a ensinar aos pobres, e como ousar alguém apresentar-se então no tribunal de Jesus Cristo?

- Ensiná-la aos pobres? disse eu.

- Sim, aos pobres. É a eles que o bom Deus nos envia em primeiro lugar, e para lhes anunciar o quê? A pobreza."

"Journal d'un curé de campagne" (Georges Bernanos)


Essa pobreza que significa hoje? E não é a Igreja a imagem de que não é ela a rainha na própria casa de Deus?

Mas Bernanos toca um outro problema que é o de como falar aos ricos, sem ser como um pró-forma, uma portagem que lhes abra o caminho do Céu, à custa de uma pequena ou grande espórtula ou de uma simbólica penitência (se fosse real, também não se alargaria o "buraco da agulha").

Como tratar com o castelão, o protector da paróquia, fazendo-lhe sentir não a responsabilidade, mas a sua condição maldita?

sexta-feira, 11 de maio de 2007

A PROPORÇÃO


"A Greve" de Serguei Eisenstein


A questão do sentido das proporções põe-se, aqui e agora, a propósito de uma greve geral.

Se essa greve não é, assumidamente, pré-revolucionária, nem visa salvar a democracia, opondo-se, por exemplo, a um golpe de estado, justificar-se-á então como um simples aviso aos poderes?

Ora, o ponto sensível é este. Avisa-se o governo de que não pode continuar com uma política lesiva dos direitos e dos interesses dos trabalhadores.

Mas pode-se pôr de lado a questão de saber se são necessárias reformas, implicando sacrifícios para a maioria da população, e se essa política vai ou não em tal sentido, antes de se decidir como defender aqueles interesses?

Recusar todo o tipo de reformas na base do que se chama, imediatamente, um ataque aos trabalhadores e de todos os sacrifícios só porque são exigidos "sempre aos mesmos", pode não ser uma política sindical com muito futuro, mesmo se é fiel a um passado que se revê numa tradição corporatista.

A greve geral, nestas circunstâncias, decretada fora de um perigo iminente e sem que se veja, dentro do regime político-económico em que vivemos, qualquer alternativa, é o corporatismo alçado a princípio político.

Fica em aberto uma apreciação de outro tipo e que é sobre o papel objectivo de uma greve geral numa sociologia de massas.

Parece-me que a descredibilização geral da política e a improvável permeabilidade de uma sociedade consumista a qualquer discurso de austeridade, são, eventualmente, geradoras de uma energia explosiva que, noutros países europeus, não pode já ser canalizada por "greves de aviso".

Por isso, em Portugal, o efeito de amortecimento e de controle da violência pode bem valer os custos de uma greve geral. Mas é sempre pensar a curto prazo.


(José Ames)

PRAGMATISMO E PARANÓIA



"A desmoralização resulta da preponderância das circunstâncias sobre os princípios. Quem considera a desmoralização como o maior dos males não deve deixar de examinar o contrário, pois quando os princípios são mais fortes que as circunstâncias - como sucede em comunidades ascéticas, em subculturas jacobinas e em sistemas totalitários -, o princípio impõe a sua encarnação à custa de todo o resto da vida."

"A Mobilização Infinita" (Peter Sloterdijk)


O autor insere no cerne da falta de credibilidade política a "regra fundamental do pragmatismo, que diz que a gestão de um problema tem de ser considerada, até nova ordem, como a respectiva solução." (ibidem)

O político estaria, assim, entre dois fogos, a desmoralização e a paranóia.

Contudo, não me parece justo confundir um princípio com uma regra que se tenha de impor em todas as circunstâncias.

A regra monástica, por exemplo, funciona porque reduz as circunstâncias ao eremitério, mas um princípio é como uma estrela guiando-nos no mundo aberto.

No caso dos jacobinos, o fechamento, através da suspeita mútua e de uma interpretação paranóica dos acontecimentos, estava nas suas precárias cabeças.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

DO ALTO DA PIRÂMIDE



Quando voltamos, depois de algumas décadas de ausência, a encontrar os amigos e aqueles que foram durante um tempo companheiros de um exílio do mundo, nalgum quartel africano, todos somos como Marcel, o narrador de "Le Temps Retrouvé", regressado de uma longa convalescença para reconhecer, nos antigos salões, sob as máscaras do tempo, o jovem perfil deste e daquele.

E o sentimento que a todos se impõe, mais do que a alegria do reencontro ou até a inescapável nostalgia, as quais, decerto, vêm na sua euforia ou timidez marcar presença, é o de que todas as diferenças físicas e psicológicas e as de temperamento, a própria polaridade das simpatias espontâneas e das inexplicáveis antipatias, tudo se esbate, tudo perdeu o relevo que tinha antes, face a uma nova igualdade, a uma espécie de solidariedade trágica, que é a consequência de nos vermos uns aos outros do alto da pirâmide do tempo como um punhado de resistentes que cercam as areias do deserto.


Arrábida (José Ames)

A RAZÃO A GALOPE


Paul Valéry (1871/1945)

"A emoção é a fonte; digo a emoção e não a paixão. Não é inútil dizer que as paixões são muito razoáveis, e falam a linguagem do pretório; eis por que eu digo que toda a poesia é selvagem, e, neste poeta, talvez a mais selvagem que já se leu. Creio que o primeiro trabalho do poeta, na sua primeira e principal recusa, é voltar da paixão à emoção pura. E a emoção pura é um estranho delírio; porque tudo sobe então dos calcanhares, como um pavor ou uma cólera:

O formidablement gravie,
Et sur d' effrayants échelons..."

("Charmes" de Paul Valéry, commentés par Alain)

Parece que hoje se abandonou o estudo das paixões, pelo estranho preconceito que as confunde com a emoção ou com a maquinaria do inconsciente.

Mas o filósofo vem, com toda a pertinência, lembrar que é só quando a razão nos abastece de uma aparência de argumento que a paixão surge e ganha todo o seu ímpeto.

E há palavras-cofre, como alguém já disse, que dispensam que o argumento se desenrosque do seu fundo, bastando-lhe mostrar a cabeça de serpente, para nos lançar numa defesa ou num ataque apaixonados, e desferindo a "linguagem do pretório". Justiça é uma dessas palavras.

O trabalho do poeta é o de uma espécie de electrólise, para separar os elementos. Fazer soar a "recôndita harmonia" que nos atravessa como a uma harpa.