sábado, 12 de maio de 2007

MASCULINO/FEMININO



A figura humana é mutante. O rosto viaja num caleidoscópio. Às vezes sentimo-nos atraídos por uma estação que promete frutos imaginários. Queremos, nesse momento, fixar numa estampa japonesa o traço lisonjeiro. O encontro exploratório é dominado por esta atenção aos signos. Registamos todas as nuances e a verdade continua à espera de uma decisão que ponha ordem no caos e na insignificância. Antes disso existe a simulação da busca, porque realmente se trata duma impregnação do sentido e da espera ingénua do milagre.

No fundo ansiamos por um sentimento autoritário que nos conduza por entre o bazar da imaginação, sem nos deixar deter. Temos saudades dum brinquedo que nunca chegaremos a ter. Porque olhamos na direcção errada, como se ele estivesse à nossa frente. Esse revérbero da infância oculta-nos o sol da acção. Não se pode pedir à consciência esse abandono do corpo. Há uma passagem difícil a que a vontade nua não se arrisca. Aí são os deuses inferiores que nos transportam. Só neles confiamos para salvar as nossas ilusões mais queridas.

Todas as considerações da lógica e da moral não fazem corpo. Convencem-nos, mas não nos movem. É de graça a facilidade de que necessitamos. O desejo cria a partir do nada, e é esse o verdadeiro objecto da moral. Domar a força, trazê-la à forma humana. A maturidade não pode viver a paixão da juventude. O lugar que pedem estas núpcias de verão é o pomar contemplativo. Um passeio à roda da natureza sem envolvimento trágico nem luta. E talvez que o nosso olhar perscrutador viva ainda na primavera, como se fosse possível abolir o tempo e o passado. Como se o amor que convocámos puerilmente não significasse a morte do que somos.

É a estação presente que salva o trabalho e o sentido da nossa vida. Atentos à nuvem que passa, ao perfil fugitivo, projectamos a visão dos nossos humores no hieróglifo sexual que não sabe como estar, porque não deixa de pôr em causa, ao sabor dos fenómenos insignificantes, a própria imagem que reenviamos. E quanto mais desabrigada dos signos da mitologia erótica, quanto mais exigente o nível da proposta amorosa, mais inquietos nos sentimos.

Os fora da “casa” não podem encontrar-se no primeiro grau. É sempre no meio dum jogo com regras obrigatórias que os passos se dão, até um esclarecimento, que não pode deixar de acontecer. Homem e mulher estão submetidos à lei do tempo, sem alternativa. A história sacramentalmente impõe as suas etapas à “durée” psicológica.

Como se a reprodução e a eternidade relativa fossem virtude da própria existência dos sexos, do jogo da sua diferença, mesmo antes do trabalho biológico. O amor transfigura pela palavra sem que apareça a causalidade natural.

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