domingo, 30 de outubro de 2016

(José Ames)

UNA FURTIVA LACRIMA




Sem Woody Allen como actor, temos outro cinema. É impensável aquele rosto fora duma comédia espirituosa, a tantos gags verbais por minuto.

Em "Match Point", em vez disso, contenção. E a ideia da sorte, condenando uns e salvando outros, independentemente do mérito e da responsabilidade.

Um jovem ambicioso acede aqui à "upper class" londrina, através da porta grande, pelo casamento. Mas o seu sucesso é ameaçado pela sua paixão por uma plebeia dos States. A embraiagem no irracional é preparada pelo tema de Donizetti que se ouve ao longo do filme e este acaba num duplo crime absolutamente demente. Mas o que podia ser tema para uma "english tragedy", desemboca numa comédia graças a um imponderável da sorte.

Admitamos que o jovem leitor de Dostoiewski dará por si, um dia, a rir-se dos problemas de consciência de Roskolnikov. Nada, porém, na personagem nos faz levar a pensar que esteja à altura do cinismo de Ivan Karamazov.

Mas talvez o autor russo seja uma falsa chave. E que baste a Woody Allen que o espectador já tenha perdoado os crimes.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

(Tróia)

ADEUS PIRILAMPOS

(Pier Paolo Pasolini)

"Desde então, e hoje ainda, o mistério é também aquilo de que se tem vergonha."
(Roberto Calasso)

Pasolini escreveu um texto com o título de "o desaparecimento dos pirilampos". A partir do início dos anos sessenta, deu-se conta de que graças à poluição dos ribeiros de água límpida, aqueles simpáticos insectos fosforecentes tinham desaparecido dos campos.

O fascismo, podia dizer-se que é também uma poluição da política que leva à extinção de outras luzes. Mas o paradoxo é que o que poderia ser o contrário da poluição, do entenebramento, é também uma forma de fascismo.

Não é por acaso que os partidos mais opacos tenham desde há muito tempo tentado negar essa opacidade através da 'transparência' que se tinha tornado numa espécie de 'politicamente correcto' antes do tempo. De facto, o ideal do fechamento é um simulacro do transparente.

A transparência é, na verdade, uma distopia. Não conseguimos imaginar uma pessoa 'transparente', nem mesmo ao nível da idiocia. O pensamento transparente é próprio das máquinas onde se encontra plasmado sob a forma de uma equação, de um algoritmo ou da pura geometria. As chamadas máquinas inteligentes, essas podem ser, e só elas, transparentes porque não têm vida, nem corpo.

Ora, o 'flagrante de litro' é que a tecnologia digital e a omnipresente Rede, com o domínio indisputado de toda a informação sobre os indivíduos parece perseguir um ideal da transparência que desaloje todo o mistério da anfractuosidade humana.

Mega empresas como o Facebook e a Google estão lançadas numa corrida para ver qual delas nos liberta mais depressa da vergonha. E com mais um pequeno esforço, seremos, finalmente, transparentes.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

(José Ames)

O MOSCARDO




"Este príncipe do Entendimento, medindo o próprio Entendimento, recusou procurar aí a nossa perfeição, e Deus aí, rebaixando audaciosamente o nosso poder de compreender perante o atributo do querer."

(Alain)

Descartes, crente em Deus, católico até ao fim, tornou-se o apóstolo de uma nova visão do mundo, baseada na razão e na matemática. Abriu o caminho para a revolução científica, e ele próprio foi um luminar do cálculo e da óptica.

A célebre 'dúvida metódica' deve muito a Sócrates que fez da tentativa de compreender aquilo que dizemos, desde a sabedoria tradicional ao simples 'acho que' a grande revolução do pensamento antigo. A sua divisa que proclama uma ignorância assumida, de facto, põe tudo em causa, e ia contra todo o poder instalado num consenso 'natural' que até ali nunca tinha sido posto em causa. Por isso, Veyne pergunta se 'Os Gregos acreditavam nos seus deuses', o que é muito pertinente, principalmente depois de Sócrates, o ímpio que excluiu a abjuração por razões éticas e políticas. O filósofo francês, tanto quanto sabemos, e anunciando Kant, não viu a sua fé abalada pelo seu método crítico, mas na prática fê-la depender da sua fé na geometria.

A 'vontade' cartesiana teve muitos avatares e alguns deles levaram a Europa por um caminho de trevas. Nietzsche, bem ou mal compreendido, foi um deles, mas isso é apenas uma parte da sua enorme influência.

Com o suplemento darwiniano, podíamos dizer que a doutrina da vontade, explica muito da nossa época, um tempo em que o indivíduo 'livre', sede de uma vontade sem compromissos que se explica por si própria, independentemente dos vários sistemas e da engrenagem tecnológica, cessou de existir.

O fim do humanismo já foi e é muito falado. Falta um 'moscardo' ateniense que o 'desoculte'.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

(Berlim)

TOTALITARISMO






"O maior perigo de reconhecer o totalitarismo como a maldição do século seria uma obsessão por ele a ponto de ficarmos cegos perante os muitos males pequenos e não tão pequenos que perfazem o caminho para o inferno."
(Hannah Arendt)

Totalitário é um termo que se deixou de usar 'como soía' por estar ligado ao contexto da guerra fria e à 'novidade' do nazismo. Nem o Eclesiastes poderia negar essa característica do fenómeno. É decerto, também, uma questão de grau, porque noutras alturas da história as tiranias usaram de todo o seu poder. O que é novo aqui é a natureza desse poder.

Se o iluminismo surgiu, como Tony Judt dizia, "tanto para os simpatizantes como para os inimigos como a origem reconhecida dos dogmas políticos e programas sociais do século seguinte.", o fenómeno totalitário é o seu lado negro. E ainda servindo-nos da metáfora da luz, talvez a consciência do advento desse fenómeno e a militância política a que deu origem se tenham acomodado, desde então, à luz triunfante, sem sombras, que correspondeu, historicamente, ao colapso da URSS.

O perigo de 'ficarmos cegos' tornou-se a fatalidade de uma cultura da luz que negava transportar as trevas no seu interior. O 'totalitarismo' do mundo da técnica tornou-se invisível para aqueles que sonharam com a libertação da classe oprimida, ou, simplesmente, com a liberdade do indivíduo acima de tudo.

O poder do Estado e dos grupos mais racionalmente organizados foi a 'diferença específica' do nazismo. Tão eficaz e tão extensa (o extermínio em massa está aí para prová-lo) que esse poder pôde ser manipulado por loucos irresponsáveis.

Podemos dizer que, hoje, os 'males mais pequenos e não tão pequenos' de que falava Arendt ocupam toda a cena e que o totalitarismo se tornou no ambiente que já não sabemos nomear.

terça-feira, 25 de outubro de 2016


(José Ames)

CRISE DA ARTE?

(Félix Nadar)

"E, contudo, a arte contemporânea é inevitável que aconteça, mas o atributo “contemporâneo” como qualificativo desta arte é cada vez mais gerador de desalentos e equívocos, cuja grande responsabilidade está ligada ao facto de a sua matriz ser euro-atlântica, mas o seu mercado financeiro ser global e determinante no estabelecimento dos modos maioritários de produzir e consumir arte."

(António Pinto Ribeiro in "O embaraço da arte contemporânea", Público de 19/10/2016)

Poderemos falar da arte de uma maneira geral, no contexto de uma crise que  já vem dos inícios do século XX? Ou este é um fenómeno que atinge especialmente a pintura e o estatuto da imagem por ela veiculado?

De qualquer modo, a consciência de uma crise no campo da arte, começou, talvez, com o advento da fotografia que obrigou os artistas e o público a questionarem-se sobre o valor representativo da pintura. Depois de Nièpce ter obtido uma vista do sótão da sua casa, a pintura cresceu em arbitrío e má-consciência. Nunca mais a proeza de Ingres, ao tentar voltar ao classicismo, seria possível. Pode-se reproduzir uma obra do passado, ou falsificá-la (o que são as únicas vias de acesso a esse 'realismo' ingénuo), mas sem a inocência requerida e a fé que estava implícita no acto de pintar.

Claro que a globalização põe tudo em causa e a arte também. Não é mais possível 'visitar' uma obra contemporânea sem a corte mediático-financeira ou sem se estar acompanhado de um Virgílio especialista ou crítico. É mais um passo na 'descolagem' da terra para uma plataforma 'universal'.

O articulista cita Agamben, dizendo, no final, que "a contemporaneidade não é uma evidência, nem algo que se torna visível na actualidade." É mais do que certo que o pássaro de Minerva se levanta ao escurecer (Hegel). Sinal de que esta crise não é um esgotamento nem o fim de uma época. É apenas uma aceleração do tempo. Não é o que significa, no fundo, a globalização?

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

(José Ames)

O NOVO ROSTO DA FORÇA


(Júpiter e Tétis de Ingres)



"E é precisamente a 'objectividade', a neutralidade moral em que as ciências rejubilam e atingem a sua brilhante comunidade de esforço, que lhes retira a relevância final. A ciência pode ter as ferramentas e as pretensões insanas de racionalidade para aqueles que concebem os crimes de massa. Dificilmente nos diz alguma coisa sobre os seus motivos, um tópico sobre o que valeria a pena ouvir Ésquilo ou Dante."

(George Steiner)

Utilizando a linguagem de Comte, a ciência (o estado positivo) teve, ao longo da sua história, de abandonar o seu casulo teológico e metafísico, antes de se tornar o 'horizonte inultrapassável' da nossa época, que foi a expressão com que um dos mais mediáticos filósofos do século XX, Jean-Paul Sartre, se referiu ao marxismo, na altura considerado 'objectivo' e, até certo ponto (enquanto se cingiu à crítica do capitalismo), 'moralmente neutro', como é apanágio do espírito científico.

Este espírito nimbou a teoria do 'Capital' até o espírito e a prática da organização política a terem posto ao seu serviço, na ex-URSS. E o que havia de 'teológico' (as profecias) na ideia de Marx não sobreviveu ao novo 'horizonte inultrapassável' do progresso científico e tecnológico que se tornou a única utopia possível.

Mas, ao mesmo tempo, algo mudou no ponto de vista humanista (chamemos-lhe assim). É que os motivos de uma mente, ou de uma organização criminosa, pouco nos ajudam a compreender os acontecimentos. Que poderia dizer o autor da Orestíada, por exemplo? A não ser, talvez, que outras forças caprichosas substituíram os deuses e que a 'responsabilidade' não pode ser, de facto, atribuída a nenhum ser com aparência de homem, de deus ou semi-deus. Mas, é verdade, que já Zeus ou Neptuno eram 'irresponsáveis'...


domingo, 23 de outubro de 2016

(Portalegre)

LADAINHA

"O homem de barba branca"(Tintoretto)

"Eu parto do princípio de que o perfeito, o total, não existe mesmo e sempre que, de uma destas obras de arte ditas perfeitas aqui penduradas nas paredes, consigo fazer um fragmento, procurando nessa obra um erro grave, o ponto determinante do fracasso do artista que fez a obra, até o encontrar, dou um passo em frente."

"Antigos mestres" (Thomas Bernhard)

A primeira reacção à leitura de "Mestres antigos" de Thomas Bernhard é a de dizer que esta prosa merece o destino que Reger, a personagem principal, reserva à produção artística de todas as épocas, com especial destaque para a produção austríaca.

Neste meu segundo encontro com o reputado autor, continuo ainda "às escuras" e sem ver como é que esta obra pode alguma vez estar ao nível da de outros autores contemporâneos de língua alemã. Nem sequer falo no maior de todos, Musil.

Na ladainha dispéptica de Reger (só comparável na maledicência ao masoquismo português), há, certamente ideias interessantes. Tampouco se pode negar o efeito irresistível de algumas repetições "ad nauseam", repetições que fazem parte do estilo do autor e que só são passíveis da crítica do gosto.

Mas talvez esta literatura seja mais complicada do que parece e não possa ser lida no primeiro nem no segundo grau.

Só me lembro de idêntica dificuldade ( se é disso que se trata) no caso dum filme de Manuel de Oliveira: "O passado e o presente". Este filme sempre me pareceu intragável, mesmo quando se sabe que é suposto dramatizar gente ridícula.

E aquele portão que continuamente se abre e se fecha ao som de Mendelssohn bole-me com os nervos como o monótono repisar de frases de Bernhard.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

(José Ames)

OS SONHOS E A BARRIGA

Karl Popper (1902/1994)


"É importante que seja o sonho de voar que leve a que se voe e não, como defendia a concepção materialista da história de Marx e Engels, o sonho de ganhar dinheiro."

Karl Popper ("Em busca dum mundo melhor")

Embora o sonho de ganhar dinheiro não leve a que se voe e seja com o sonho do poder das menos nobres aspirações do homem, ambos representam uma dessas "linhas tortas" pelas quais Deus ou a História escrevem direito. É a ideia de Adam Smith, claro, de que o interesse geral resulta de cada um lutar pelo que aparentemente interessa só a si.

É assim que uma paixão misantrópica como a da avareza pode ser tão útil à economia, como Alain já disse. Mas se a concepção materialista é preciosa para explicar a sociedade natural, depressa encontra os seus limites quando se depara com uma sociedade mais complexa, a qual se transforma mais pela produção indirecta dos sonhos e dos desejos do que pela razão utilitária e pelo aumento das mercadorias.

No zénite da sua eficácia histórica, aliás, até esse materialismo foi impulsionado pela mais venerável das utopias, a da justiça, e não pela do poder necessário para a concretizar. Continua a ser verdade que com a barriga vazia não se especula nem se idealiza.Mas isso é duma outra ordem de razões. Porque é como se um darwinista dissesse que sem o macaco não existiria o homem. A verdade é que sem a capacidade de teorizar continuaríamos a viver nas árvores.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

(interior)

UTOPIA



"Em 2010, dois pesquisadores da Universidade do Tennessee construiram um modelo da teoria dos jogos para examinar este problema. Os resultados, publicados por Francisco Úbeda e Edgar Duéñez-Guzmán num artigo chamado ‘Poder e Corrupção', foram, francamente, deprimentes. Nada, concluíram, deteria a corrupção de dominar um sistema de polícia evolutivo. Uma vez, instalada, permaneceria estável em quase todas as circunstâncias. O único ponto positivo é que a má polícia poderia ainda suprimir a deserção no resto da sociedade. O resultado seria uma população mista de carneiros facilmente ludibriados e de senhores feudais hipócritas. No final de contas, o bem--estar seria algo superior ao da situação em que cada um agisse de forma completamente egoísta, mas acabaríamos por ter uma sociedade como a das vespas."

("Game theory's cure for corruption?", Suzanne Sadedin in 'Aeon')

Não é razoável chamar de pessimista esta abordagem, visto que a história não tem deixado de a confirmar. Mas o pessimismo, sem alguns caprinos ingénuos (todos?) que acreditam que tudo poderia ser diferente se Cristo descesse à terra (ou qualquer coisa de parecido, como a Grande Revolução Fina, não seria uma sociedade humana.

Há muitas formas de fatalismo (religioso, científico, económico, estatístico ou, simplesmente, humoral). O seu defeito congénito é estar subordinado a uma lógica que tanto pode ser a da razão, ou a da loucura, como no caso do doutor Strangelove. Todos os analistas sociais (e especialmente os analistas do mercado) se sentam na cadeira daquela estranha marionete do filme de Kubrick quando tentam ser 'objectivos'.

Não sabem o que se passa fora da sala de uma muito particular estratégia planetária.

Finalmente, será a corrupção inerente ao poder e, ao contrário do que pensava Marx, não há classe libertadora das próprias algemas e das algemas de todas as outras, mas é o poder em si que tem de ser o objecto da utopia?

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

(José Ames)

O CLIQUE DA TEIA




"A teia, algures no exterior estendida, no céu da abstracção, tal como ele a recordava, devia ter-se cerrado subitamente com uma fabulosa prontidão. Ela era de facto qualquer coisa de concreto, de real, uma cabeça debatia-se dentro dela, com o pescoço apertado."

"Les désarrois de l'élève Törless" (Robert Musil)

Este súbito ataque da abstracção é o que parece incrível, pois todos temos a tendência para exaltar o valor do concreto, do real, do "pão, pão, queijo, queijo".

Contudo, Musil, nesta passagem, não nos diz mais do que o que está diante dos nossos olhos, se quisermos ver.

A sofística e os desvios gongóricos da escolástica, tanto como a filosofia, prepararam a artificialização do mundo pela ciência e pela técnica.

Não há nada, por mais afastado do senso comum e da "natureza humana" que não se possa conceber e, desde que encontre as condições de possibilidade lógica, não se possa também pôr a funcionar. Se tudo isso é real, é outra questão.

Törless vislumbra aquela verdade quando percebe, por exemplo, que um conceito tão inatingível como o de infinito pode ter um valor prático e confundir-se com ele.

Ele via uma extensão dessa lei no facto da fantasia orientalista dum dos seus companheiros de troika ter encontrado uma vítima real, em Basini.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

(Lisboa)

AS PROVAS CONTRA ARARAT



"Ararat" (2002-Atom Egoyan)


O filão de Egoyan é a memória. Depois de ver "Ararat", em que se filma o genocídio da população arménia de 1915, para que os que o negam (os Turcos) e os que o desvalorizam ( pensando como Hitler) não imponham a sua versão da História, melhor se compreende uma obra como "O futuro radioso" (1997).

Nesta, trata-se de não vender a memória das crianças desaparecidas, num processo milionário. Em "Ararat", o monte bíblico em que Noé construiu a sua Arca, reúnem-se os testemunhos dessa tragédia, antes do dilúvio do esquecimento.

O passado é objecto duma luta apaixonada, não só pelos que o viveram directamente, mas também pelos herdeiros destes.

O actor de origem turca descobre em si uma alma de algoz, como se essa história inexpiada o modificasse a ele, imigrante no Canadá, que não viveu os acontecimentos.

O episódio da alfândega em que Cristopher Plummer, pensando no próprio filho, põe de lado o cão-polícia e apesar da heroína que tinha nas mãos, decide acreditar no homem que precisava de se sentir inocente para cumprir a sua missão, é a chave do filme.

É preciso acreditar contra as provas.

Existe já um outro monte de Ararat feito de recusa e de esquecimento.

É preciso acreditar que as mãos da mãe de Gorky, apagadas da pintura, representam, sem palavras, a tragédia.

domingo, 16 de outubro de 2016

(José Ames)

A CLAREZA DO MUNDO

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"A clareza é em si mesma um valor intelectual; mas não o são nem a exactidão nem a precisão. A precisão absoluta é inacessível, e é inútil pretender ser mais rigoroso do que o exige a problemática em causa. A ideia de que devemos definir os nossos conceitos com o propósito de os tornarmos "precisos", ou lhes darmos um "sentido" é um fogo fátuo. Isto porque toda a definição tem de recorrer a conceitos definidores; deste modo, nunca poderemos evitar, em última análise, trabalhar com conceitos indefinidos. Os problemas cujo objecto se traduz no significado ou na definição dos termos não são relevantes. Na realidade, essas questões meramente verbais deveriam ser evitadas a todo o custo."

"Em busca dum mundo melhor" (Karl Popper)

O erro comum seria então pensar que não se chega a acordo porque não se definiram os termos e poderá não se estar a falar da mesma coisa.

Isto pressupunha que se pusessem de lado as questões mais abstractas ( conceitos como a justiça, a verdade, a beleza, etc.), justamente as mais relevantes.

E a verdade é que a exactidão não interessa nem é possível aqui, mas que só podemos ser claros se estivermos a falar da mesma coisa.

É, aliás, a situação típica do "diálogo de surdos" de todos os conflitos religiosos, de hoje como de ontem.

O optimismo de Popper e a sua higiene de pensamento receio que só tenham validade para aquele a que chama de Mundo 1 (o da Física).

sábado, 15 de outubro de 2016

(Chenonceaux)

ANOMALIAS TRANSCENDENTES


Immanuel Kant (1724/1804)


O facto do mundo parecer obedecer às leis do nosso entendimento, como descobriu Kant, essa recôndita harmonia que faz com que a matemática e a geometria dentro de nós correspondam a qualquer coisa de real no mundo que nos cerca, quase como o monadismo o previa, só acontece, claro, porque o nosso cérebro é o produto não só duma herança genética mas da exploração do mundo pelo indivíduo, que assim assimila, sem se dar conta, as suas/nossas leis.

Materialismo e idealismo são ambos irrepreensíveis. É por isso que as anomalias da matemática, como os números irracionais e imaginários, ou as paralelas que se "encontram" no infinito, que tanto fascinavam o aluno Töerless (Musil), constituem uma espécie de desmentido dessa harmonia e dessa adequação, apesar da sua eficácia prática. Como ele diz: "no princípio de qualquer cálculo desse género, temos números perfeitamente sólidos que podem simbolizar metros, pesos ou o que se quiser de concreto. E são cifras semelhantes que encontramos no fim da operação. Mas estas últimas cifras estão ligadas às primeiras por qualquer coisa que não existe!"

Parece pois que a nossa inteligência, através da matemática, não pode ir além dum certo ponto e que é a própria matemática que nos diz que existe algo para além dela e que o espaço que interiorizámos não é o que pensamos, nem se pode explicar pelas leis do entendimento.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

(José Ames)

ESCALADAS




"Nunca se instalam belvederes nos cumes mais altos, mas sempre em montanhas de altitude média."
"L'Homme sans Qualités" (Robert Musil)

O belveder chama a atenção do que passa para uma bela vista e custa, às vezes, não mais do que um pequeno desvio. Os cumes 'acima das nuvens' exigem um outro empenho e outras forças, e é sempre o objectivo principal. Nenhuma varanda é precisa, a vista, tal como a natureza a apresenta é apenas a coroa do esforço. Este, porém, traz a sua própria recompensa.

A montanha é, aqui, o símbolo de uma escala de valores. É inútil tentar poupar a alguém a escalada. O que ele obterá não se aproxima, nem de longe, nem de perto, à experiência que o corpo do outro sente e que é qualquer coisa de incomunicável.

Mas, como no caso da fruste transmissão das palavras a uma criança que não as compreende, a um certo ponto, a linguagem começa a exercer o seu mágico poder. O infante (o que não fala ainda) 'lembra-se', então, do que lhe ensinaram.

Contem-me suficientes relatos dessas gloriosas escaladas, e eu, algum dia, me tornarei perito em montanhas faladas e montanhas que falam.




quarta-feira, 12 de outubro de 2016



(Dublin)

TRANSPARÊNCIA

(Transparency. I don't know, ask the skipper)




"'Medir os meus poderes no silêncio e limitar-me a esse exercício secreto.' Assim, o sistema valéryano tende menos a resultar numa imagem transparente do real do que a construir um 'sistema de mim' e a 'fazer o [s]eu espírito'."
(Paul Valéry; cit.Tagami)

De certa maneira, a imagem que resulta do 'sistema do eu' reflecte fielmente o real. Mas essa correspondência é tudo menos linear e tudo menos directa.

Era o que havia de 'verdade' no estado dionisíaco e profético da antiga pitonisa. Os seus pretensos enigmas, mais não eram do que um eco longínquo do estado de um mundo. Dado que não é possível à maior inteligência nem à maior 'consciência' conceber a totalidade, um 'mundo local' tem de ser o mais importante.

Ora, o 'sistema do eu' não é assim tão diferente de um 'sistema local'. A história filosófica do Sujeito preencheu, na verdade, e por um tempo, o trono vazio de Deus.

O espírito valéryano é simplesmente o espírito, e o espírito é a totalidade possível.


terça-feira, 11 de outubro de 2016

(José Ames)

PROGENITURAS



"O próprio Heidegger, já no fim da vida, fez uma abertura à Nova Esquerda. A fórmula mais sinistra do seu Discurso Reitoral de 1933 era, apenas com ligeiras alterações, o slogan dos professores americanos, que colaboraram com os movimentos dos estudantes da década de 60: "O tempo da decisão passou. A decisão já foi tomada pelos jovens da nação alemã."

Diz Allan Bloom ainda: "em ambos os países, as universidades cederam sob a pressão dos movimentos de massas, e foi assim em grande medida porque pensavam que esses movimentos possuíam uma verdade moral superior a qualquer que a universidade pudesse proporcionar. A responsabilidade era entendida como sendo mais profunda do que a ciência, a paixão do que a razão, a história do que a natureza, os jovens do que os velhos."

"The Closing of the American Mind"

Devemos distinguir esta crítica, publicada já em 1987, do pensamento que se vai fazendo moda de ver nos desmandos dos sessentistas a origem de todas as crises presentes, como a da autoridade, da família e da educação.

Porque o princípio por detrás do Maio de 68, que representou uma ruptura "libertária" (e sem qualquer finalidade) com todos os fundamentos da nossa cultura, actuava já no celebre Discurso Reitoral.

E aí, o pensamento, na sua mais alta expressão, a da Filosofia, abdicava perante a "Vida", representada na força genésica da juventude e no facto consumado.

É este corte abstracto com o passado, esta refundação no caos que caracterizam o niilismo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

(Aquileia)

PALIMPSESTO




"Martha Nussbaum mostra que 'a fonte da tragédia, a fatalidade que é espoletada para lançar a destruição sobre os heróis, reside na decisão que eles tomam de esquecer os conflitos inerentes às suas respectivas causas.' Nisto, diz ela, existe uma estratégia mortal de sobresimplificação de uma situação complexa."
(Jacques Taminiaux)

Simplificar, não é um erro. É uma condição. Não podemos deixar de fazê-lo para tornar o mundo 'compreensível', o que já é em si uma redução de cabeças, uma jivarização.

O alfa e o ómega dessa simplificação é a matemática. É simplesmente perfeita, mas não é a realidade. Se olharmos para o progresso dos últimos cem anos, o que na racionalização dos sistemas e das organizações foi alcançado, podemos ter uma ideia do quanto nos aproximámos do mundo ideal da matemática e nos afastámos do mundo real.

A pergunta é, então, se isso faz alguma diferença, na medida em que sempre nos protegemos da realidade, desde o pensamento mágico aos cumes da filosofia alemã.

Ora, segundo a reflexão de Nussbaum, esta situação é verdadeiramente trágica. Esquecemos (estaria certo Platão ao dizer que não conhecemos nada, e apenas nos recordamos?) e, no fim, fazemos da nossa vida tão-só um palimpsesto sobre a realidade.

domingo, 9 de outubro de 2016

(José Ames)

QUEM VAI AO LEME?

(Robert Musil)



"Todavia, Ulrich não tinha qualquer intenção de velar por mais tempo pelo destino de Moosbrugger. A desencorajante mistura de crueldade e de sofrimentos que forma a substância destes seres era-lhe tão desagradável quanto a mistura de precisão e de negligência que caracteriza os juízos que habitualmente lhes são destinados."

("L'Homme sans Qualités", Robert Musil)

Não é só a condenação do pensamento a preto e branco, da dicotomia dos bons e dos maus. Porque a verdade é que se pode ser 'exacto' na aplicação da lei, por exemplo, a infelizes como Moosbrugger, um 'desclassificado', um instintivo que não prima pela racionalidade, e, ao mesmo tempo, outra coisa (a negligência, como diz Musil), e aí é que estará talvez o cerne da (in)justiça.

Sabemos que não podemos deixar de 'simplificar', de reduzir a complexidade social (ou da natureza...) a um conceito operacional. A justiça quer-se célere, e um inocente condenado à morte, é um 'dano colateral' que é, em termos de um certo progresso, vantajoso pagar. Esse problema resolvido, a sociedade pode concentrar-se no que realmente interessa: o seu 'andamento', cheio de promessas e de surpresas. A bicicleta da Revolução não pode parar. Sim, porque o capitalismo conseguiu a proeza de fazer sua a ideia dos 'amanhãs que cantam' e os da revolução permanente. E a tecnologia é a nova cornucópia.

A bem dizer, se recuarmos ao tempo dos Antigos, temos de concordar com o Eclesiastes: nada é realmente novo.

O 'método' musiliano evita-nos, porém, o maniqueísmo, as certezas infundadas. O homem encontra aqui uma espécie de salvação, ou, pelo menos, de atenuante. É que a 'negligência', ou o amor da exactidão são paixões como as outras. O homem ideal não está aqui. A terra de que é feito, sim.

Antes de termos inventado os robots que fazem quase tudo por nós e os automóveis realmente auto, desde o princípio que confiamos as nossas principais funções a um piloto automático.



sábado, 8 de outubro de 2016

(José Ames)

O TRIPLO SALTO MORTAL

"O Leopardo" (1963-Luchino Visconti)


"Não somente Lancaster se abandonou sem resistir a este cineasta "de que não tinha visto ainda equivalente em Hollywood, ele que tinha trabalhado com Preston Sturges, Robert Aldrich e John Huston", mas mergulhou na leitura de tudo o que se podia ter escrito sobre a época, sobre o meio que lhe era preciso representar, ele , o antigo acrobata de circo, o cow-boy sem cultura. Foi, dirá Visconti, "um desenvolvimento progressivo e duramente alcançado, do qual o filme aproveitou"; de que aproveitou também o actor que a partir dali tomou como modelo, até no seu comportamento privado, o aristocrata italiano (...)"


in "Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano

A transformação da star Burt Lancaster no príncipe Fabrizio de "Il Gattopardo" é das coisas que mais me impressiona. Tenho sempre presente a imagem daquele sorriso mecânico do actor em, por exemplo, "Vera Cruz", de Aldrich. Não foi uma mudança temporária nem superficial, como se viu em "Conversation Piece" e "Atlantic City".Visconti conseguiu tanto moldar o intérprete, como recriar o homem.

O artista segue o seu sonho de rebelião contra as normas, sejam elas as da vanguarda, intransigente na sua ideia que podia ir até à mania na reconstituição do passado. E o mundo é como cera nas suas mãos.

Não se livrou de ser apodado de académico e decadentista pelos mais novos.

Mas a obra está aí, sempre jovem e luminosa.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

(Génova)

O ZERO E O INFINITO




"O facto é que já não acredito na minha própria infalibilidade. É por isso que estou perdido."

("Darkness at Noon"- Arthur Koestler)

A lógica pode ser um demónio e o pensamento de que os fins justificam os meios é o melhor exemplo.

Quando se sentia 'infalível', respaldado numa fé comum no sistema histórico (que é uma contradição nos termos), Rubashov não tinha dúvidas sobre os sacrifícios que era preciso impor aos 'leigos', em nome da Grande Causa. Quando, por sua vez, foi apanhado na rede da suspeição generalizada, não podia deixar de querer a salvação da lógica em seu prejuízo. Tinha de aplicar a si mesmo a sentença dos infalíveis.

Nem a questão do erro judicial se podia pôr. Porque o que podia parecer um erro aos olhos enevoados ou que deixaram de ver, na realidade, era apenas uma forma mais complexa da verdade. Pôr em causa a sentença do tribunal equivalia a questionar a própria infalibilidade, a infalibilidade que resulta de conhecer o futuro, porque se conhecem as leis da história.

Rubashov deve, pois, condenar-se a si mesmo, embora sinta que está a ser injustiçado. Mas ele não conta. Na caldeira da grande locomotiva, ele é apenas uma acha. Que pode ele colocar no outro prato da balança?

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

(José Ames)

CALMO BLOCO

"To be or not to be"

A realidade é, como disse René Char, esse "calmo bloco aqui em baixo, caído de um desastre obscuro". Temos de lhe dar um sentido que abra um espaço para nós, humanos. Coisas como a economia e a ciência só são possíveis na medida em que podemos contar com aquela 'calma'. Isto é, enquanto pudermos confiar nas leis que encontramos em nós mesmos.

Karl Gerhard foi o antigo médico de Himmler e quando o informaram sobre o campo de Dachau, encontrou isto para dizer: "Lamento que a injustiça seja ainda deste mundo". Podia ficar em silêncio, mas aquela resposta é claríssima: o que se tinha passado nos campos de extermínio não era nada com ele. Acreditava, talvez, na ficção de uma justiça automática que surgisse no mundo por obra e graça de alguma entidade superior.

O Estado providencial vem-nos logo à cabeça, porque é o que fica depois da retirada dos deuses. Quando se lhe entrega a alma é a abdicação total, por maior que seja o zelo e a militância com que nos empenhemos.

Lubitsch, em "To be or not to be", mostra o orgulho do funcionário a quem o impostor (Jack Benny) chama de 'concentration camp Ehrhardt'. Um título mais anestesiante não era possível num mundo às avessas.

O mundo do sentido percorre estranhos caminhos.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

(Lisboa)

A NÊSPERA




"Plutarco opõe esta execrável liberdade (da igualdade) à verdadeira, a que ele chama também parrésia; poder falar sem medo ao soberano, falar-lhe de igual para igual (isegoria), eis a 'libertas', o franco-falar, eis a liberdade sob o Império."
(Paul Veyne)

O conceito de classe foi a escada para sair deste mundo sócio-político e pôr em movimento um novo mundo em que a política mal se distingue da dialéctica. E a dialéctica hegeliana é idealmente dinâmica, implica o dizer de um processo e de uma 'superação'.

No actual estado de coisas, o que já foi novidade e 'horizonte inultrapassável' (Sartre) envelheceu inexoravelmente e tornou-se simples retórica.

Supunha-se que o antigo orador falava verdade (se seguisse as regras) e era tanto mais verdadeiro quanto maior era o perigo que corria (Foucault). A parrésia, entretanto, morreu quando lhe foram exigidos provas e factos, segundo o espírito das ciências da natureza.

Evidentemente, a retórica continua a cumprir a sua função de encantamento, dispersa pela galáxia mediática, mas dispensando já orador e orações (é uma técnica experimentada e de eficácia segura) e largamente extravasando da vida política.

Nestas circunstâncias, a liberdade de tutear o soberano tornou-se possível graças a um avatar, ou a um 'banho de multidão', mas não tem qualquer relevância. A igualdade execrada por Plutarco, desde o princípio que foi mais ambígua do que o 'franco-falar'. E a igualdade das classes sempre foi o preâmbulo de uma evicção da História de todas as classes menos uma, que no fim já não teria direito a esse nome.

De qualquer modo, a realidade de hoje provou a falência de todas as profecias. E a 'salvação' é uma retórica que mirra a olhos vistos como a nêspera do Mário Henrique Leiria.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

(José Ames)

POTÊNCIA FRUSTE


opiniaocentral.wordpress.com


"As coisas que têm de ser tidas por certas perdem a sua força quando surgem na forma de proclamações arbitrárias...Fazer erradamente com que certas matérias sejam legisláveis resulta apenas na limitação, se não na anulação completa, daquilo que se tenta salvaguardar."
(Henry Kissinger)

Mas parece que só deve ser assim porque não conseguimos 'programar' com suficiente eficácia num mundo aberto. O sonho de qualquer monstro orwelliano é o de fechar o mundo ao imprevisto e poder desprezar o imprevisível.

Desde a República platónica que o ideal político continua a ser o do máximo controlo e da ordem espontânea (as cadeias não têm que se ver, pois a 'transparência' é o 'nec plus ultra"). Popper em 'A Sociedade Aberta e os seus Inimigos' elege Platão como o grande inspirador da ideia 'totalitária'.

Mas, por outro lado, todos os nossos esforços na ciência tendem para um controlo cada vez maior sobre as nossas vidas, vencendo doenças e as causas da instabilidade social e das revoluções políticas.

A URSS é filha dessa 'utopia' e só falhou por ter tornado as coisas piores comparativamente com alguns expoentes de um sistema 'historicamente ultrapassado'. A conclusão a tirar desse desfecho é pois que o controlo exercido não podia abarcar a 'realidade' e se tinha tornado conspicuamente opressor.

O famoso 'pragmatismo' da cultura anglo-saxónica não é mais do que prudência disfarçada em doutrina liberal.

Kissinger, evidentemente, nisto, tem razão. Para quê pressupor um poder e uma visão que (ainda) não podemos ter?