quarta-feira, 31 de agosto de 2016

(Auschwitz)

O ADVOGADO DE ARRAS



(Arrestation de Robespierre)

"A sua conduta nesta jornada contribuiu poderosamente para os miraculosos acontecimentos que mudaram a face de Paris, e derrubaram os projectos dos nossos opressores. Quando uma cidade inteira é levada a este estado de estupor e de apreensão pelo seu bem-estar, que já não permite que se receie o perigo, basta um entusiasta, um homem devotado, para a revolver, para a precipitar no perigo mesmo e fazer de uma massa inexperiente um corpo de soldados heróicos."
(Robespierre sur Camille Desmoulins)

Assim fala o homem, amigo pessoal de Desmoulins, que há-de condená-lo à guilhotina, ao lado de Danton e de outros. Como se diz, a Revolução devora os seus próprios filhos.

Desmoulins foi o generoso herói de uma onda de entusiasmo que o dispensava da objectividade quanto ao futuro do seu país e de pensar na sua própria segurança. As suas dúvidas começaram logo que os vapores da unanimidade se dissiparam. E daí o seu percurso caracoleante que o tornou mais próximo da dantonesca figura, culpada de 'moderação'.

Robespierre, de todas as personagens do grande drama histórico desse final do século XVIII, é, talvez, a mais trágica.
O que ele diz do entusiasmo revolucionário é bem certo. Porém, esqueceu-se de que na origem dessa palavra está a posse pelo deus. O deus que mata aqueles que favorece.

Deve ter havido um momento na vida deste pequeno advogado da província em que ele sentiu a cera das suas asas a derreter...quando já não podia crer, mas tinha apenas de ser consequente.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

(José Ames)

A ÓPTICA DO DESERTO


Diálogo entre Casanova e o turco Yosouff:

"- Estás seguro, meu querido pai, de que a tua religião seja a única em que uma pessoa se pode salvar?

- Não, meu querido filho, não tenho essa certeza, e nenhum homem pode tê-la; mas estou seguro de que a religião cristã é falsa, porque não poderia ser universal.

- Porquê?

- Porque não há pão nem vinho em três quartas partes do globo. Repara que o Corão pode ser seguido em toda a parte."

E comenta o veneziano: "Eu não soube o que lhe responder, e achei que devia tergiversar."
"Memórias de Casanova"


Do embaraço de Casanova não havia de sofrer um teólogo experimentado em dialéctica, que saberia fazer reverter o concreto em abstracto e o histórico em universal.

Mas a questão das formas e da liturgia é aparentada com a da representação do divino.

No deserto, a única sombra é a nossa e a simplicidade de Deus é experimental.

Continua Yosouff: "Nós dizemos que ele é uno; eis uma imagem do simples. Vós dizeis que ele é um e três ao mesmo tempo; e isso parece-me uma definição contraditória, absurda e ímpia."

- "É um mistério", replica Casanova.
(ibidem)

Há demasiada luz no deserto, e o homem não pode ter segredos, mesmo dos que são essenciais à espécie.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

(Abadia de S. Antimo, Toscânia)

A LEITURA


("La lecture" de Fantin-Latour)

Em mais uma visita à Gulbenkian, revejo o quadro de Fantin-Latour "La lecture" (1870), que me aparece subitamente moderno.

A luz concentra-se no rosto da auditora que, aparentemente, está a pensar noutra coisa. Ela está sentada e rodeada pela voz de uma mulher que lê para ela em voz alta. Mas adivinha-se um drama que não é o do livro e que ela procura, em vão, distrair-se da sua premência.

A que ouve tem o rosto preocupado sob a luz, como se o pintor procurasse nele captar todas as vibrações despertadas pela leitura. 

Dir-se-ia ter desistido de sair. Com uma luva já descalçada vive um drama alheio ao enredo literário. Serve-se, talvez, da leitura para se acalmar. Vai ficar em casa e mil suspeitas lhe atravessam o rosto.

O que nós vemos é a vida impondo-se sobre todos os paliativos. Um livro pede toda a atenção e esperaríamos que o rosto assim cinzelado pela luz fosse uma 'tradução' da palavra escrita.

Mas, no caso, a leitura é apenas um calmante.

domingo, 28 de agosto de 2016

(José Ames)

NOCTURNIDADE

(Sissi e Luís II da Baviera)


"A noite, afirma Thomas Mann, é o asilo e o reino de todo o romantismo, ela é a descoberta disso. Ele (Luís II) apresentou-a sempre como a verdade em oposição à vã ilusão do dia, o reino da sensibilidade contra a razão. Nunca esquecerei a impressão que me fez a visita em Linderhof do castelo de Luís II da Baviera, o rei doente em busca de beleza, onde se afirma na distribuição interior precisamente esta preponderância da noite."
("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano)

E tudo começaria com Wagner, a quem o escritor chama de Cagliostro da modernidade.

A cultura humanista, a das "Luzes", entrou em imparável declínio, a ponto de nos terem vencido quase sem resistência os pesadelos do século XX.

A verdade que assim oscila entre o diurno e o nocturno que em nós existem só nos deixa como âncora o passado ideal e a idade de oiro (porque o futuro não existe, como dizia Simone Weil).

sábado, 27 de agosto de 2016

(José Ames)

PRECEDÊNCIA DE FORMOSURA

Birth of Helen (Apulian Krater, c. 375-350 BCE)

Numa praia da Catalunha, o cavaleiro da Branca Lua desafiou D.Quixote numa questão de precedência de formosura.

Tratava-se de levar o manchego a reconhecer que existia uma beleza superior à de Dulcineia del Toboso.

É mais um caso de tratamento do mal com o veneno que lhe deu origem. Entrando no jogo da loucura, até certo ponto (mas em Cervantes, tanto a estratégia do riso quanto a da medicina levam a que o mundo da loucura tenha o mesmo direito à existência do que o do bom-senso), pretende-se, pela sua honra, fazer D. Quixote renunciar às altas cavalarias.

Ele é, assim, derrubado, mas não convencido a comparar com qualquer outra a mulher que só existe na sua cabeça.

domingo, 21 de agosto de 2016

(Paris)

OS ÍNDIOS DE FELLINI

Federico Fellini

Em "Entrevista" (1987), Fellini volta ao tema de "Otto e mezzo", filmando o fazer do cinema, a pretexto de contar as suas memórias sobre a Cinecittà.

O mesmo silêncio encantado, a presença do vento, o artifício do teatro e do circo, a galeria de monstros. O mundo do cineasta é povoado de tipos inconfundíveis. Anões e mulheres-gigantes. Convenceram uma de grande busto de que tinha o tipo felliniano, por isso ela aparece na audição. 

E, inesperadamente, nesta evocação sentimental que acaba numa paródia do western contra a televisão, com antenas em vez de flechas, a visita ao ícone de "La dolce vita", à mais felliniana das actrizes.

O reencontro do mítico par da Fontana di Trevi é potencialmente destrutivo.

Cerca de trinta anos depois, a realidade disforme debate-se como um pássaro ferido contra o ecrã.

Mastroiani, maquilhado como o Aschenbach no Lido de Visconti, é uma sombra repetindo um papel que foi o seu no mundo dos vivos e uma Anita enorme e porosa, na sua mansão guardada por molossos, deixa aparecer uma lágrima.

Esta confrontação da memória com o presente é como o contra-método do seu estilo. Um Fellini, cedendo ao pessimismo, diz-nos que sabe muito bem que não é o sonho que comanda a vida.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

(José Ames)

O PODER



"O poder é o que mantém o domínio público, o espaço potencial de aparecimento, entre homens que agem e falam, em existência. A própria palavra, o seu equivalente em grego 'dynamis'... indica o seu carácter 'potencial'. O poder é sempre, como poderíamos dizer, um poder potencial e não uma entidade imutável, mensurável e confiável como a força ou a resistência.
(Hannah Arendt)

A primeira consequência deste enunciado é que o poder que 'mantém o espaço público em existência' se distingue do 'poder' tal como ele é visto, nos nossos dias, pelos 'homens que agem e falam'. Não quer isto dizer que esse poder não assuma as funções de enquadramento necessárias, nem garanta o espaço da palavra, a qual, mesmo diminuída, permite, ao menos, uma comunidade política. É que essa natureza do poder fundador deixou de ser reconhecida no espaço público, para só aparecer o seu carácter constringente, burocrático e classista que  teorizações como a de Marx, lhe destinaram. Não é sem razão que já crismaram o nosso tempo como a era da suspeita. O poder é mais uma história do 'lobo mau'.

Trata-se tão-só do triunfo do individualismo e da Crítica (esta tem sempre que calar em nome de quem fala, não é?) que o 'capitalismo', com a sua terraplanagem, tão eficazmente desenraizou, ou é outra coisa, completamente diferente?

À medida que o 'sistema' passa a ser compreendido como uma catástrofe 'natural', percebemos que não é possível conservarmos uma teoria da evolução consistente. Isto é, há que introduzir  a narrativa do espaço público.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

(Alvoco)

TAGARELICE




"(...) toda a gente fora da 'polis', escravos e bárbaros, era 'aneu logou', privado, naturalmente, não da faculdade da fala, mas de um modo de vida no qual a fala e só a fala fazia sentido e onde a preocupação central de todos os cidadãos era falar uns com os outros."
(Hanna Arendt)

Não se deve levar esta ideia para o lado da proverbial tagarelice dos Gregos. Porque uma linguagem, uma mundividência não se constroem com indivíduos isolados ou desenraizados. Era o caso dos escravos, antigos prisioneiros de guerra ou descendentes destes.

A Grécia clássica não durou o tempo bastante, ou o seu sistema de classes foi suficientemente estável para que os 'aneu logou' tomassem a palavra e se pudesse falar numa cultura própria.

A própria noção de uma 'vontade de falar' característica do cidadão ou do emancipado presta-se por demais a uma interpretação pela dialéctica marxista para esta não se impor, à falta de melhor. A classe ociosa é a que tem todo o tempo para falar consigo própria.

É verdade que através dessa 'actividade' se chegou a algo de novo que está na base do mundo moderno. A ciência, nem é preciso relembrar as séries de Auguste Comte, começou pela especulação teológica, fase que, entre os Gregos, já não se podia incluir na tagarelice e no falar por falar.

Tudo isto sugere que a linguagem nos conduz mais do que a conduzimos. Que ela, por assim dizer, 'sabe mais' do que aquilo que lhe 'ensinámos'.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

(José Ames)

TAOISMO





"É fácil manter-se quieto e não deixar rasto, mas é difícil andar sem tocar a terra. Se segues os métodos humanos, poderás enganar e conseguir ainda escapar. No caminho do Tao, o engano é impossível.

Sabes que se pode voar com asas: falta-te aprender a voar sem elas. Estás familiarizado com a sabedoria daqueles que sabem, mas ainda não conheces a sabedoria daqueles que não sabem.

Observa esta janela: não é mais do que um buraco na parede, mas graças a ele todo o quarto está cheio de luz. Assim, quando as faculdades estão vazias, o coração enche-se de luz. Ao estar cheio de luz, converte-se numa influência por meio da qual os demais se vêem secretamente transformados."

"Escritos sobre Chuang Tzu" (Thomas Merton)

O discípulo é dissuadido por Chuang Tzu de se precipitar na acção, pois por essa via encontrará necessariamente inimigos e, no fim, tudo permanecerá igual. A sua sede de justiça esgotar-se-á nos primeiros esforços. São os 'métodos humanos' que nos submetem todos aos trabalhos de Sísifo.

A 'boa-vontade' de que se fala no Evangelho, também poderia ser vista como uma 'transformação interior', mas como o demonstra a tradição dos mártires da Igreja, não estaria completa sem o confronto com a intolerância e a injustiça. Mas esta 'militância' inspira-se em quê? Talvez no episódio da expulsão dos vendilhões, ou na violência descritiva de algumas passagens do Livro.

Mais interessante ainda é a expressão: 'sabedoria dos que não sabem'. E outra aproximação pode ser feita com o texto evangélico. Por exemplo, com o exemplo dos lírios que não sabem fiar e que Deus vestiu sumptuosamente. É a poesia, de facto, que nos pode ajudar a compreender o oxímero de uma sabedoria que não sabe.

Note-se que não se trata de um instinto, nem de uma prática tradicional e sem conceito. É a ideia de uma perfeita e dócil instrumentalização pelo divino, como queria Simone Weil.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

(Legnica, Polónia)

A BÍLIS E O SER

Martin Heidegger (1889-1976)


"Heidegger é o pequeno-burguês da filosofia alemã, que pôs à filosofia alemã o seu barrete de dormir "kitschig", o barreto preto e "kitschig" que Heidegger usava sempre, em todas as ocasiões. Heidegger é o filósofo de chinelos e barrete de dormir dos alemães, nada mais.

(...) sempre me repugnou, porque tudo em Heidegger foi sempre para mim asqueroso, nem só o barrete de dormir na cabeça e as ceroulas de Inverno de tecido caseiro por cima do fogão aceso por ele próprio em Todnauberg, nem só o seu bordão da Floresta Negra por ele próprio entalhado, tal como a sua filosofia da Floresta Negra por ele próprio entalhada, tudo neste homem tragicómico foi sempre para mim asqueroso, me repeliu sempre profundamente, em qualquer altura que nele pensasse;"

" Antigos Mestres" (Thomas Bernhard)

A caricatura parece certeira, quando se olham as fotografias e se pensa na forma como tratou o seu mestre Husserl.

O homem exterior está todo nessa figura ridícula, se quisermos (se atravessarmos um limite), com a sua boina preta e o seu bordão. Mas o desenho vai mais longe. Sugere que a impressionante obra filosófica é uma fraude que corresponde ao envelope desse corpo.

O imenso cortejo de admiradores e de discípulos aparece então desencaminhado e seduzido por um contexto lamentável.

Sabemos que a bílis de Bernhardt é particularmente propensa à decomposição de ácidos gordos de essência austro-germânica. Não o podemos levar a sério.

E, no entanto, nunca mais voltarei e olhar uma fotografia de Heidegger da mesma maneira.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

(José Ames)

O OUTRO LADO DA LUA



"Não se pode descrever bem a vida dos homens se a não fizermos banhar no sono em que ela mergulha e que, noite após noite, a contorna como a uma península rodeada pelo mar."

("À la recherche du temps perdu, le Côté de Guermantes", Marcel Proust)

O paradoxo é que essa parte da nossa vida não conta para a maior parte, e alguns sonham em reduzir o tamanho da 'península' ao de uma ínsua à margem da vida, quase sem solução de continuidade. A verdade é que já se pensou em 'aprender' durante o sono, isto é, sem passar pela experiência.

Em contrapartida, lemos com deleite as observações deste 'especialista' do sono. Como se entra e sai dele, como se confundem as formas na passagem, e são páginas e páginas voluptuosas, para quem não tem pressa de chegar ao fim.

É uma verdade que devia entrar-nos pelos olhos dentro, mas que, talvez por boas razões, recalcamos. Durante o sono é como se recebêssemos da terra uma recarga de vitalidade para a nossa existência estremunhada. E já uma vez aqui comparei essa situação com as vagens adormecidas de um célebre filme de Don Siegel ("Invasion of the bodysnatchers", 1956).

Não podemos, realmente, compreender o homem apenas pela sua vida activa. E se um dia conseguirmos 'largar no espaço' essa parte de nós, parece que, ao mesmo tempo, teremos descolado do planeta para sempre.


domingo, 14 de agosto de 2016

(Lisboa)

TORRE DE MARFIM

"Violência e Paixão" (1974-Luchino Visconti)

Em 1973, Enrico Medioli, o argumentista de Visconti, propõe-lhe um filme moderno. É a história dum professor que vive com uma velha criada, no meio dos seus livros e objectos de arte.


"Um homem maduro, no limiar da velhice, um homem duma cultura excepcional", mas, prossegue, "ele é em definitivo culpado, porque se retirou na sua torre de marfim, numa solidão privilegiada e protegida, numa espécie de sumptuoso regaço materno, em que ele estagna, preso aos seus hábitos e sem traumas, na contemplação da arte."

("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano)

Este não é o filme que eu levaria para uma ilha deserta (sendo dos que mais admiro), porque ele me tornaria demasiado sensível o facto de viver numa ilha deserta.

O sonho do professor é a tentação dos que a vida em sociedade desilude pela gritaria e o mau gosto, pela falta de reverência da juventude pelo passado.

No seu palácio romano, ele conversa com esse passado e prefere a pintura dos grupos de família ("conversation pieces") a uma verdadeira família.

O que lhe acontece quando, por razões financeiras, tem de alugar o andar de cima é uma série de catástrofes que são a vida.

sábado, 13 de agosto de 2016

(José Ames)

AS JÓIAS SONORAS

Charles Baudelaire (1821/1867)

"De resto Baudelaire é um grande poeta clássico e, coisa curiosa, este classicismo da forma é aumentado em proporção pela licença das pinturas."
"Sur Baudelaire, Flaubert et Morand" (Marcel Proust)

Esta observação de Proust leva-me a procurar identificar na psicologia um exemplo semelhante de contenção da forma e desregramento do conteúdo.

Encontro isto: quando alguém diz coisas enormes com uma perfeita fleuma, risíveis, mantendo um sério imperturbável.
Neste último caso, seria até a fórmula de obter um efeito mais cómico.

Suponho que os períodos de transição sejam propícios a estes "atrasos" da forma, com efeitos tão surpreendentes quanto os clarões numa nudez que só deixasse as suas "jóias sonoras".

La très-chère était nue, et, connaissant mon coeur,
Elle n'avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l'air vainqueur
Qu'ont dans leurs jours heureux les esclaves des Mores.
de "Les Bijoux" de Charles Baudelaire

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

(Viseu)


QUESTÕES MENORES

(Rocha Tarpeia)



"(...) para os romanos como para os japoneses de hoje, o amor pertencia ao domínio das satisfações menores e dos temas de brincadeira, e era mantido afastado do círculo das coisas sérias, de que faziam parte as relações conjugais e familiares."
(Paul Veyne)

Não é o facto de o amor se ter tornado uma das coisas mais sérias na nossa cultura um sinal revelador da ascensão do individualismo na cultura ocidental? Talvez, mas nem por isso fica estabelecida a pertinência da crítica contra a perda dos valores colectivos.

Os passos essenciais dessa ascensão têm de incluir fenómenos como o da separação entre o Estado e a Igreja, o Romantismo e a Psicanálise, para só falar nos mais próximos de nós.

No tempo da lei romana do 'perduellio' (crimes contra a segurança do Estado), até o luto era proibido aos familiares, quer dizer que o foro privado não tinha qualquer protecção face à pressão do colectivo. Não é de estranhar, portanto, a 'marginalidade' cultural do amor e do erotismo, os quais, embora omnipresentes, como não podia deixar de ser, eram considerados 'pouco sérios'.

Contudo, não se pode falar em repressão ou em recalcamento que são ideias tardias e estruturantes do indivídualismo.

A verdade é que estas grandes mudanças favorecem a ideia de uma evolução, em que o culto do indivíduo pode ser visto como uma plataforma para um desconhecido 'abençoado' pela ciência.



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

(José Ames)

VACUUM CLEANER

(Allan Bloom)



"Dei por mim respondendo ao professor de psicologia que, pessoalmente, eu tentava ensinar preconceitos aos meus alunos, porque, hoje em dia - com o sucesso geral do seu método -, eles tinham aprendido a duvidar mesmo antes de acreditarem no que quer que fosse."
(Allan Bloom)

Ensinar novos preconceitos? É que com a teoria (errada) do geocentrismo, tivemos, por exemplo, toda Antiguidade Clássica e o Renascimento europeu. E, socorrendo-me agora do argumento de Harry Lime no "Terceiro Homem", se não acreditássemos nesse erro, ter-nos-íamos, talvez, ficado pelo 'relógio de cuco'.

Os preconceitos devem, naturalmente, ser desafiados e, finalmente, depostos por crenças mais 'verdadeiras'. É um pouco o que diz Popper sobre o progresso da ciência.

A dúvida que só se tem a si própria para 'desconstruir' deixa-nos desmunidos, exilados fora do Sol e fora da Caverna.

Claro que há por detrás desta atitude de crítica no vazio, a enorme pretensão de não voltarmos a ser 'enganados', como se podia dizer que fomos ao longo da história. Deixámos a ciência isolar-se no seu pedestal a que, nalgum dia, teremos, talvez, de injustamente apelidar de pelourinho, esquecendo-nos da terra que com ela se encontra misturada, pois tudo provém dos nossos sentidos e do nosso cérebro, tanto quanto das ilusões colectivas e dessa prótese maravilhosa que é a tecnologia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

(Cuenca)

DO ARBITRÁRIO, A ORDEM7



(Créativité : ordre ou désordre, faut-il choisir ? | Thot Cursus)



"Não há ciência se não se instituíram [...], numa operação independente, as regras arbitrárias da ciência. É no arbitrário que a ciência se prepara para fazer leis, é pelo arbitrário que ela é possível."
(Paul Valéry)

Mas não é por isso, certamente, que as receitas da ciência têm sempre sucesso. Quero dizer, que não é por não existirem regras na natureza que a ciência acerta. É porque, apesar de todo o seu dinamismo, a natureza é absolutamente 'passiva'. O sujeito da acção somos sempre nós.

Como Chartier dizia, a natureza não nos quer bem nem mal, e é por isso que sucedemos ao impor as regras do nosso cérebro à matéria 'inerte'. A ordem que encontramos dentro de nós é a única a que temos acesso. Porque não sabemos 'donde viemos', pode ser que esse sucesso, afinal, não seja realmente nosso, mas do que transcende o homem-e-a -natureza.

Tarkowski, em 'Solaris' (1972), revela um pouco do que acontece quando a natureza deixa de ser uma criatura dialéctica.



terça-feira, 9 de agosto de 2016


CÉPTICOS




"(...) somos grandes é no cepticismo. Começa no D. Afonso Henriques, com o milagre de Ourique, quando o Cristo lhe aparece e ele olha e diz: 'está bem, está bem, não me apareças a mim,  aparece aos meus inimigos, eles é que precisam que lhes apareças, que eu por mim já acredito!' Está no Damião de Góis!"
(Agustina Bessa-Luís na entrevista a Clara Ferreira Alves)

É pena este cepticismo de que fala Agustina se parecer tanto com o 'juízo' e a manha do escudeiro Sancho sobre as grandes tiradas do seu amo. Mais bom-senso que grandeza.

Mas na nossa história também não faltam os quixotescos como o rei que nos arrastou a todos consigo, em Alcácer Quibir.

O cepticismo é uma virtude da velhice, de quem já consumiu as suas forças nos enganos e desenganos do mundo e, enfim, se recolhe para 'jogar a feijões' num mundo àparte.

Não é Descartes quem quer. Ele que quis recomeçar a aventura do espírito, a partir de um pedacinho de cera, ao canto da lareira.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

(Aquileia)

LEVANTAR O VÉU

("La Belle au bois dormant"; Gustave Doré)



"O trabalho de Louis de Broglie causou-me uma enorme impressão. Levanta um grande pedaço do véu."
(Carta de Einstein a Langevin)

De Broglie recebeu o prémio Nobel em 1929, pela sua hipótese sobre a dualidade 'partícula-onda' de toda a matéria, na sequência dos primeiros trabalhos de Einstein.

Em que é que a imagem do véu, referida pelo autor da teoria da relatividade, é reveladora, num segundo grau (já que 'descobrir' é o mesmo que 'levantar o véu') das condições psico-culturais, digamos assim, da 'descoberta científica'?

A imagem supõe que o mundo, os seus segredos e o seu sentido está, desde o início dos tempos, em estado de espera, como a 'bela adormecida'. O 'princípe', contudo, encontra-se, ele próprio, adormecido (Kant é o primeiro a falar em 'sono dogmático') e só pouco a pouco vai 'destapando' o belo sujeito do encantamento.

Neste maravilhoso conto, o beijo do desencantador 'ressuscita' a bela adormecida de uma só vez. Não é esse o método científico de 'levantar o véu' que é sinuoso e às vezes incompreensível.

Mas a dupla 'dormição' é comum à história e ao conto.


domingo, 7 de agosto de 2016

(José Ames)

A REPETÊNCIA




"O 'sim' e o 'não' dos actores que agem de modo comunicacional é tão predeterminado pelos contextos linguísticos e tão influenciado pela retórica que as anomalias que se manifestam nas fases de esgotamento já só se apresentam como sintomas de uma vitalidade evanescente, como processos do envelhecimento, como processos análogos aos naturais e não como consequência de soluções erróneas de problemas e como respostas 'inválidas'."
(Jürgen Habermas)

Mas como escapar a esse determinismo, quando ele é tudo menos consciente (dir-se-ia até que só funciona porque é inconsciente)?

Sendo assim, as respostas 'válidas' apenas se distinguem das outras por não terem tempo de envelhecer. O seu contexto linguístico é retirado como um falso cenário. Mantendo-nos no mundo do teatro, a palavra 'certa' é definitiva e imposta pelo que vai seguir-se.

É por isso que não há resposta certa que sobreviva à representação. Ela só se compreende porque 'está escrita' para um contexto evanescente, eternamente 'superado', como dizem os hegelianos.

A 'farsa' (modo em que a tragédia se repete na História, segundo Karl) resulta, então, do erro de pensar que a história se repete, e que a lotaria dos nossos juízos 'pré-determinados' têm um objecto real.

sábado, 6 de agosto de 2016

(Matosinhos)

CASANOVA PINTA A MANTA

(Veneza e as gôndolas)

Ainda com vinte anos, mas tendo já experimentado os alcatruzes de cima e de baixo da nora da fortuna, Casanova abandona-se por algum tempo, em Veneza, a um tipo de prazeres inconsequentes com os seus dotes de grande sedutor.

"Muitas vezes acontecia-nos passar as noites percorrendo os diferentes bairros da cidade, inventando e executando todas as impertinências imagináveis. Um dos nossos prazeres favoritos era desamarrar da margem as gôndolas dos particulares e deixá-las ir pelos canais ao sabor da corrente, folgando por antecipação com todas as maldições que os barqueiros, pela manhã, não deixariam de nos lançar."
"Memórias de Casanova"

Este comportamento surpreende num homem que até ali tinha sabido insinuar-se na sociedade mais cortês e "policiada" do seu tempo.

Giacomo, por assim dizer, caiu nesta altura num mundo e numa idade anteriores, por demasiado acreditar na sua estrela.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

(José Ames)

A SERPENTE




"Trabalhei muito, é certo, mas é igualmente verdade que rejeitei a maior parte daquilo que fiz; e ainda não sei se o futuro me dará razão sobre a restante. De facto, não possuo nem um saber, nem uma competência particulares, mas 'apenas' a paixão pela investigação."
(Albert Einstein)

Não se podia ser menos presunçoso, nem menos 'importante'. Só as aspas daquele apenas deixam passar alguma pretensão.

O cientista fala, com simplicidade, de um sucesso que, em definitivo, ele não sabe o que vale, nem por quanto tempo se manterá. Dir-se-ia que a sua 'isenção' devia ser a atitude de todos os que conseguem tais feitos.

Bem ou mal, devido às consequências nem sempre felizes para a humanidade, a vaidade, a rivalidade, ou outro defeito qualquer fazem parte das fadas que presidem à descoberta do novo.

Nada move o grande homem para além, como o próprio diz, de uma paixão, paixão demasiado útil para a humanidade, que seria a da investigação.

Em termos bíblicos, isso é muito parecido com a famosa curiosidade de Adão pela maçã de Eva. Tudo isto seria inofensivo não fora o Livro referir também uma terceira personagem: a serpente...


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

(Roma)

INQUIETAÇÃO


(Santo Agostinho)

"Nenhum homem está provido de tanta justiça que não lhe seja necessária a tentação da inquietação (tentatio tribulationis: que o homem se converta num problema para si mesmo).
(Santo Agostinho)

A 'dúvida metódica' foi, talvez, uma resposta a esse problema. Porque a justiça dos que estão 'mais providos dela' e de todos os outros justos, está assegurada contra a inquietação. O método convida-nos a expurgar os nossos juízos de todo o erro das paixões, bem como os da própria razão.

Descartes não nos salvou da tentação agostiniana. Mas deixou-nos o legado de uma razão autocrítica que estabeleceu os fundamentos da ciência moderna.

Mas a inquietação persiste, e damo-nos conta de que nem a crítica mais severa nos salva do extravio. De tempos a tempos, um filósofo aparece que pretende iluminar as origens, antes da razão ter feito o seu 'coup d'état'. Heidegger foi o último a fazer da poesia o verdadeiro começo.

Cada homem, diz a tradição religiosa e filosófica, tem um sentimento inato da justiça, que não é a justiça dos tribunais nem a divisa da Revolução Francesa e das outras que se seguiram. 

Todas as instituições (que já foram revolucionárias um tempo), nos querem 'libertar' da inquietação de que fala o santo, para o bem de todos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

(José Ames)


O ORADOR




(Terrifying new facial reconstruction of Robespierre:www.thehistoryblog.com)


"A discussão memorável que acabo de evocar foi levantada por um homem que chegava à assembleia com uma reputação imensa. O abade Sieyès tomara o seu lugar entre os nossos mais distintos publicistas, com a sua brochura 'O que é o Terceiro Estado?' As suas palavras eram esperadas como oráculos, e como os oráculos, ele não foi pródigo. Mirabeau, que manejava o sarcasmo com uma superioridade nunca alcançada, desferiu um golpe mortal sobre Sieyès dizendo dele: 'o silêncio de Sieyès é uma calamidade pública'. Era dizer, e ele não o escondia: 'vou fazer-lhe uma reputação que não poderá suportar'. Com efeito, Sieyès, levando a sério a ironia de Mirabeau, achou por bem sair da sua taciturnidade para impor as suas ideias à assembleia, ora defendendo os abusos do clero, ora apresentando como modelo uma profissão de fé que não lhe tinha sido pedida;"
("Mémoires de Robespierre")

Robespierre, o pequeno advogado de Arras, foi discípulo, por um tempo, do tribuno mais fascinante da Revolução, Mirabeau. Suspeitou-se que este recebera dinheiro da Coroa para servir os interesses da monarquia. Não se pode dizer, portanto, que fosse um apóstolo do grande movimento burguês. Era conhecido pelas suas aventuras libertinas e as prisões por que passara deram-lhe o tempo necessário para trabalhar a arte oratória. Talvez acreditasse em si próprio antes de em qualquer verdade superior e, nisso, antecipou o cinismo de tempos posteriores. 

O seu admirador julga-o finalmente: '(...) e talvez vender-se por um pouco de oiro! Não, qualquer que seja o prestígio que rodeia o génio, só a virtude é adorável (...).'

De qualquer modo, há ainda lugar para a hipótese do tribuno ser um indefectível do regime em que sempre vivera e a que devia o título de conde, o que torna este formidável orador numa espécie de espião com as ideias de Sade.

Era de origem italiana. O nome de Riqueti tem uma estridência suspeita. Como poderia aquela ser a sua revolução?



terça-feira, 2 de agosto de 2016

(Brugges)

PROMETEU SAGE



“Tive, pois, de suprimir o saber para encontrar lugar para a crença, e o dogmatismo da metafísica, ou seja, o preconceito de nela se progredir, sem crítica da razão pura, é a verdadeira fonte de toda a moralidade e é sempre muito dogmática...” 
(Immanuel Kant)

A nossa época sempre nos tem apresentado o preconceito e o dogmatismo (que os crentes, no ambiente religioso, aceitam como parte importante da 'pertença' a uma comunidade) como qualidades negativas para o 'cidadão cosmopolita' que tem de se confrontar 'correctamente' com as crenças dos outros.

Como demonstra o filósofo alemão, o crente não tem meio de provar a sua fé, através da razão, e por isso tem de afirmar dogmatica e acriticamente as 'grandes verdades'. Mas crentes e não crentes (ou crentes em verdades menores) não podem provar, pela ciência ou pela razão, que a dogmática de cada um é verdadeira ou falsa.

Sabe-se que Kant ambicionava alcançar uma justificação da metafísica, logo, independente da experiência, que a tornasse semelhante à matemática, que é 'verdadeira' e de facto independente da experiência.

Era preciso, porém, que Prometeu fosse mais comedido e aceitasse que há coisas (incluídas as deste mundo) que não pode saber.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

(José Ames)

PATHOS


"Ethos, Pathos and Logos: Three Communication Elements since Aristotle" (Savio Nassar) 


"(...) só agora o 'pathos' da auto-afirmação se torna a principal característica de uma subjectividade que domina a modernidade. Na filosofia da última fase irá substituí-la o 'pathos' do deixar ser e da servidão.

(Jürgen Habermas)

Haveria, então, uma 'sentimentalidade' geral que caracterizaria as diferentes épocas e que deveria fazer parte do 'paradigma', proposto por Foucault?

Seguindo esta ideia, a auto-afirmação pode ter sido minada pela vontade de conciliação e por fenómenos como o 'politicamente correcto'.

O 'deixar ser' seria o sinal de que, enfim, venceu a tolerância, graças, entre outras coisas, à moderna democracia. Esta conservou o vício da demagogia, denunciado pelos Antigos. Mas as razões para ver no semelhante uma ameaça parecia terem se evaporado num mundo centrado no indivíduo 'liberal', até que o 'recalcado' medieval da religião islâmica engendrou o extremismo global.

Esta ressurgência não é, verdadeiramente, um fenómeno religioso, mas é antes a explosão mediática resultante do encontro, no global, entre sociedades abertas e sociedades fechadas. A violência com que a 'Idade Média' é reproduzida numa representação em que os 'mais aptos', tecnologicamente falando, se tornam num desafio à sua sobrevivência, desafio que os 'mais atrasados' estão ainda muito longe de poder racionalizar. A falta de uma tradição crítica é, talvez, responsável por isso.