terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vila do Conde (José Ames)

SABER DO QUE SE FALA

http://www.batashoemuseum.ca




“Há um muito belo texto de Platão, num diálogo com Sócrates, em que Sócrates diz: é curioso o que se passa, há assuntos sobre os quais ninguém ousa falar, a menos que seja competente. Por exemplo, sobre o fabrico do calçado, ou sobre a metalurgia. E depois há uma quantidade de assuntos sobre os quais toda a gente se crê capaz de ter uma opinião. (…) De tal maneira que a filosofia é a matéria em que toda a gente tem uma opinião. Saber se Deus existe? Disso, pode-se sempre falar no momento do queijo. Saber se Deus existe. Cada um tem uma opinião sobre uma questão como essa, cada um tem o seu esquema para dizer. Em contrapartida sobre o fabrico de sapatos?”


“Les Cours de Gilles Deleuze”


Nem o Rei-Sol se atrevia a decidir uma questão técnica. Tinha que confiar na opinião do seu arquitecto ou do seu marceneiro. E sabemos de como era crédulo em relação ao seu médico, apesar da arte deste se prestar tanto à discussão.

Platão escarnece, evidentemente, da facilidade da filosofia popular, sem recorrer ao “momento do queijo”.

Embora quase ninguém se reconheça filósofo, todos, duma maneira ou doutra, amam o saber que julgam ter, o que não é muito diferente, no fundo, da filosofia.

Se pusermos o calçado e os outros problemas práticos de lado, há todo o imenso continente do que não se sabe ao certo que, nalguns casos, não deixa de ser urgente, como, por exemplo, conhecer o semelhante com quem temos uma disputa ou com quem temos de fazer um contrato.

Em vez disso, Platão acena-nos com a “verdadeira” filosofia. Só que não podemos tomar a consistência das ideias pela marca da verdade.

Platão, o menos sistemático dos filósofos, nem por isso deixa de apelar ao nosso sentimento estético e à nossa crença ( a crença no ideal, antes de tudo ).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

(José Ames)

O PODER INDESEJÁVEL




Tibério (42 a.C a 37 d.C)


“Desde o começo do principado, o Senado renunciou energicamente a governar; em vão Tibério pretendia consultá-lo sobre todas as coisas e até sobre o exército e a guerra, que eram prerrogativa sua: o Senado não acreditava nisso e tinha razão, porque Tibério, não menos dividido que ele, ‘detestava a lisonja, mas não receava menos o franco-falar’. Estas contradições reduziram o príncipe à neurastenia e o seu reino terminou num banho de sangue; houve conflito entre o Senado e o príncipe, não porque o Senado quisesse a sua parte do poder, mas porque não a queria.”

“Le pain et le Cirque”   (Paul Veyne)


Se renunciava a governar, o Senado esperava pelo menos que não lhe faltassem as honras devidas e que, entre o povo e os senadores, César  preferisse sempre a “sua família”.

Tibério, que sucedeu a Augusto, um verdadeiro “príncipe perfeito”, tinha tal como seu predecessor  veleidades republicanas, as quais não podiam ser levadas a sério pelos mais interessados. É ainda a história do “com o teu amo não jogues as peras”. Aos senadores bastava que o príncipe “tivesse tacto suficiente para não lhes fazer a duvidosa e temível honra de lhes pedir a sua opinião, e que fosse suficientemente bom príncipe para esperar as suas aclamações sem as exigir: elas não tardarão nunca.(ibidem)

O Senado parecia assim um órgão supérfluo, um monumento vivo a lembrar os tempos idos das liberdades cívicas. Registavam as decisões do príncipe e punham o seu selo. Como as agências de rating conferiam o seu AAA aos gigantes falidos… É que o dinheiro também impõe a sua tirania.

domingo, 28 de novembro de 2010

Elvas: Forte da Graça (José Ames)

TOMAR A PALAVRA

Gilles Deleuze


“A filosofia o que é? A filosofia é qualquer coisa que nos diz, em primeiro lugar: tu não te exprimirás. Tu não te exprimirás. No ano passado, eu falava desses apelos que eram o único lado mau de 1968: exprime-te, exprime-te, toma a palavra. Quando, mais uma vez, não nos damos conta que as forças mais demoníacas, as forças sociais mais diabólicas são as forças que solicitam, que solicitam que nos exprimamos. São essas as forças perigosas. Considerai a televisão, ela não nos diz: cala-te, ela diz todo o tempo: qual é a tua opinião, qual é a vossa opinião sobre isso, qual é a vossa opinião sobre a imortalidade da alma, sobre o génio de Pivot, sobre a popularidade de Maurois, etc. E depois é preciso que vos exprimais (…). Eu digo que é um perigo, um perigo imenso. É preciso conseguir resistir a estas forças que nos forçam a falar quando não se tem nada a dizer. (…) Em todo o caso, sabe-se que a filosofia não é o confronto de opiniões. Portanto, filosofar não é eu dizer por exemplo: quanto a mim, eis o que eu penso, e vocês dizem-me: bem, eu não penso assim. Na medida em que sois filósofos recusaríeis participar numa conversação deste tipo.”

“Les Cours de Gilles Deleuze”



A filosofia não é expressão (da pessoa, do que nos vai na alma ou, simplesmente, do que nos parece ser nosso mas é tão-só a “voz corrente”). É, segundo Deleuze, a criação de conceitos, daquilo que poderia merecer o acordo dum espírito universal.

Apesar das ideias aparentemente inconciliáveis dos filósofos, compreender os conceitos de cada um é o contrário de procurar opiniões divergentes. Assim como os diferentes mitos religiosos nos dão a mesma verdade sob diversas formas, em filosofia não há os que são “verdadeiros” dum lado e do outro os que o não são. Os grandes criam algo de novo, os outros apenas imitam. Mesmo um artista deve representar aquilo que é, em vez dos seus gostos, dos seus desejos ou dos seus humores.

As forças sociais que nos querem arrancar a palavra são “diabólicas” na medida em que exercem o seu controlo graças a um simulacro de participação.

sábado, 27 de novembro de 2010

(José Ames)


A AUTARQUIA


1900: o dealbar do telefone público


“É preciso sem dúvida reagir fortemente contra a ideia clássica do valor eminente da autarkia, da suficiência de si para si mesmo. O perfeito não é o que se basta a si próprio, ou, pelo menos, essa perfeição é a dum sistema, não de um ser… Sob que condição a relação que liga um ser àquilo de que tem necessidade pode apresentar um valor espiritual? Parece que aí deve existir uma reciprocidade, um despertar. Só uma relação de ser a ser se pode dizer espiritual… O que conta, é o comércio espiritual entre seres e trata-se aqui não de respeito, mas de amor.”


“Journal Métaphysique” (Gabriel Marcel, citado por Emmanuel Levinas in “Entre Nous”)



Já Spinoza dizia que cada ser tem a sua perfeição que não é a perfeição de outro. Como poderia a auto-suficiência aproximar-se disso, quando na própria linguagem e no pensamento, que é tudo menos “autárquico”, temos flagrantes exemplos de que precisamos dos outros seres? Não apenas dos “outros”, nem a relação espiritual pode ser apenas com o humano, porque antes de homens já somos mais do que “pó das estrelas”.

Podemos, de facto, imaginar um sistema social perfeito na base do respeito mútuo. Mas essa não seria uma sociedade humana. Todas as saídas para a verdade estariam tapadas pelo betão ideológico. Essa sociedade poderia até ter a sua “conquista do espaço” e a sua teoria do “começo do mundo”, para glória da civilização e para resposta às questões mais óbvias.

Mas o acesso às fontes seria o segredo mais bem guardado.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Gaia (José Ames)

O IMPERADOR


Cláudio (10 a.C. /54 d.C.)


“Ora a multidão sabe que o espectáculo é feito para ela, que ela é a rainha da festa e que as autoridades lhe querem agradar; a multidão sente-se em sua casa no Circo e nos teatros (e, também, nos dias de agitação política, é para lá que corre para se reunir e manifestar). Os espectáculos são a sua festa, o editor dos jogos, seja ele o imperador, põe-se ao seu serviço nesses dias e humilha-se diante dela.”

“Le pain et le cirque”  (Paul Veyne)


Cláudio tratava por senhores (domini) os espectadores, “ele a quem , como soberano, a multidão chamava normalmente “nosso senhor” (dominus noster).
A demagogia dos regimes democráticos modernos nem sequer se aproxima disto, desde logo porque lhes falta uma relação pessoal entre as massas e o poder supremo.

Mas a publicidade é outra coisa. Realmente, o consumidor é adulado pelos serviços de venda e parece ele o verdadeiro “rei da festa”.

Se o imperador romano condescendia com os gostos populares (e mesmo Augusto pedia desculpa por não estar sempre presente nos jogos), fazia-o em virtude, apesar de tudo, dum republicanismo residual nos espíritos, embora mais sensível no tempo dos primeiros Césares.

Enquanto que a publicidade nos trata, como certa pedagogia trata as crianças cujos desejos são expressões de liberdade e excelência.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

(José Ames)

RESPONSABILIDADE




“A resolução de tomar a responsabilidade por algum pedaço do mundo na ausência de fundamento metafísico convincente é parte do que significa crescer nele.”

“Evil in modern thought” (Susan Neiman)



Responder pelo que conhecemos ou pelo que é nosso? Certamente que da parte do mundo em que crescemos conhecemos apenas uma história que mais ninguém reconheceria, porque é interior. Que revelações não nos esperam ainda na nossa cidade se quisermos abrir-nos a elas? E então se quisermos saber o que são as pessoas que nela vivem…

Por isso entendo aquela responsabilidade de que fala Neiman como se referindo menos a um pedaço do mundo, a um local ou a uma teia de relações, do que àquilo que somos para os outros que nos conhecem.

Mas é verdade que até a arquitectura duma cidade e os seus pontos de vista fazem parte daquilo que nos faz fiéis a nós mesmos e, do mesmo passo, responsáveis.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Furadouro (José Ames)

O ELOGIO DA PREGUIÇA





“Num reino do Antigo Regime, um pobre não tem dignidade cívica; se a razão de Estado o exige e se a autoridade do rei ou o estado das técnicas o permitem, não se hesitará em forçá-lo a trabalhar, a moral reinante permitindo considerar que, ao arrancar o pobre à preguiça, se está a fazer com que se esforce pela sua salvação; mais tarde uma moral do trabalho já não dirá que a obrigação que se comete aos pobres de trabalhar é um dever, mas antes que a necessidade em que toda a gente se encontra de trabalhar é uma dignidade.”

“Le pain et le cirque” (Paul Veyne)



A moral cristã, “retomando a moral popular, contra a moral cívica e oligárquica, fará trabalhar a pobre gente servindo-se da sua própria linguagem.” (ibidem)

A dignidade do trabalho era desconhecida no paganismo, quando muito aconselhavam-se os patrícios a ter uma actividade qualquer, para não “amolecerem”.

A origem da palavra trabalho, tripalium, um instrumento de tortura (embora também tinha sido uma ferramenta agrícola), evoca até um certo dolorismo de natureza religiosa. Com estes antecedentes, a tese de Max Weber que relaciona o período de acumulação primitiva do capital com o protestantismo parece fazer todo o sentido. Não se pode dizer, contudo, se esta moral está na origem do desenvolvimento do capitalismo ou se é a consequência dele…

O certo é que a ideia da dignidade do trabalho se encontra fortemente posta em causa num tempo, como o nosso, em que grassa o desemprego de longa duração ou sem qualquer esperança, e em que existe toda uma cultura justificando a acédia, essa preguiça condenada por S. Tomás e Dante, tão necessária ao espírito do consumismo.

Por outro lado, já não se faz sentir a influência da religião nesse debate a favor da dignidade do trabalho.

Não tem qualquer sentido hoje dizer-se que a necessidade de trabalhar nos dignifica a todos, porque isso reduziria à indignidade uma multidão, onde os que a merecem se misturam com a maioria que não a merece.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

(José Ames)

UM AI QUE ATÉ QUE SOA



Um amigo meu dizia que quando nos batem, e não podemos retorquir, ao menos podemos dizer ai.

Eu tenho lido o que se diz sobre a greve de amanhã e não vejo que a defendam de outro modo. Porque uns dizem que não serve de nada, mas mostra que estamos vivos, outros que se espera criar com ela uma dinâmica, como se o movimento pelo movimento fosse alguma saída, e até já ouvi um dirigente sindical admitir, por outras palavras, que a greve nos evitará uma explosão social, ao canalizar o descontentamento e a revolta, o que me parece mais próximo da verdade do que a esperança numa dinâmica cega.

Porque todos sabemos que o problema não é só do governo que temos, mas do leito de Procusta em que os credores e os maus parceiros da União Europeia querem que nos deitemos. E de como chegamos a este aperto é uma pergunta que, infelizmente, não devemos só dirigir aos governos e aos predadores estrangeiros e nacionais, como os do BPN e do BPP. Tem algo a ver connosco, mas, claro, não com os pobres dos pobres.

Tal como os países da UE que não sabem fazer a união e deixam que mande o mais forte, assim ou pior estão as forças sociais da Europa. Aquilo que poderia criar uma verdadeira dinâmica de mudança no sentido da integração e duma verdadeira estratégia económica e social está desarticulado e sem qualquer préstimo.

É por isso que a greve geral será sobretudo força de expressão, que nos deixará frustrados e prontos para o que vier a seguir, porque tudo ficou na mesma e vai ser preciso pagar ainda o país parado.

Vamos, quero crer, soltar um grande ai batendo em nós próprios, talvez com a remota esperança de que, como diz o secretário-geral da CES, que a greve  seja um sinal para a Europa dos trabalhadores…

Mas ninguém disse que a política era racional.