quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

UTOPIAS IDENTITÁRIAS


Stretchiest skin


"Veja-se todas essas aventuras arriscadas, quase sacrificiais e mutiladoras, em que se põe o corpo à prova. Repare-se nos atletas deficientes físicos de Atlanta que se mutilam para melhorar o seu desempenho. Isto quer dizer que o indivíduo se sente obrigado a provocar artificialmente uma espécie de adversidade que faz as vezes do seu destino."

"O Grande Jogo" (Jean Baudrillard - conversas com Philippe Petit)


E "o nosso grande problema é o fracasso do destino, a falta de destino."

Baudrillard dá de barato que a morte já não é destino, porque de algum modo conseguimos subtilizá-la, tornando-a tão insignificantemente "real" como a sua simulação no canal de divulgação científica da televisão. "Já nada acontece fora do ecrã."

Compreender como tudo funciona ( e é essa a promessa da técnica) é uma "reprise".

Daí que precisemos de inventar riscos artificiais. E que os nossos heróis sejam heróis do Guinness.


Penafiel (José Ames)

INSECTOS E FLORES



"(...) e como a "União das esquerdas" difere da "Federação socialista" e tal sociedade de música mendelsshoniana da Schola cantorum, certas noites, numa outra mesa, alguns extremistas que deixam passar um bracelete sob a manga, por vezes um colar na abertura do pescoço, forçam, pelos seus olhares insistentes, os seus risinhos, as suas gargalhadas, as carícias entre si, um bando de colegiais a fugir o mais rápido possível, e são servidos, com uma polidez sob a qual ferve a indignação, por um rapaz que, como nas noites em que serve dreyfusistas, gostaria de chamar a polícia, não tivesse vantagem em embolsar as gorjetas."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


Com o quarto volume de "La Recherche", e logo desde as primeiras páginas, que relatam uma conjunção tão extraordinária como, para determinado espectador, a sobreposição dos astros, as escamas soltam-se dos olhos do narrador para dar lugar a um olhar "competente" sobre o semelhante e a uma revisão sistemática do passado.

O comportamento estranhíssimo de Charlus, o seu olhar louco (da primeira vez, tomou-o por um ladrão, tão grande era a atenção, mal disfarçada, com que o observava), a carícia subtilizada de foi objecto a sua orelha, como o gesto casual do homem que nos faz a barba, subitamente revelam-se cheios de significado, possuída a chave sexual.

Mas o desvio sexual é aqui menos função da cultura, que não joga quase nenhum papel, do que um tema das ciências naturais.

O insecto e a orquídea foram feitos um para o outro, como órgãos dum mesmo ser (reminiscência do andrógino de Aristófanes?).

Assim, é sem palavras, e como se reconhecessem o carácter milagroso da oportunidade, sem o normal protocolo dos amantes, que Charlus e Jupien biblicamente se conhecem.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O ENCLAVE MONISTA



"A religião devora os discursos disponíveis, por vezes numa escala maciça. Uma catedral medieval podia levar séculos de trabalho humano a ser construída e, no entanto, nunca era usada como residência ou com algum fim que reconhecidamente fosse útil. Seria uma espécie de cauda de pavão arquitectónica? Se assim era, a quem se dirigia a publicidade?

"A Desilusão de Deus" (Richard Dawkins)


Dawkins sustenta que há um "benefício darwiniano" deste aparente desperdício da religião, não em reforço da sobrevivência dos genes do indivíduo, mas, talvez, das próprias ideias religiosas (se as considerarmos como um vírus, por exemplo) ou das "obsessões profundas e destrutivas" do grupo que são a contrapartida do seu entendimento mágico com a natureza.

Esta "materialização" do fenómeno religioso parece-se muito com o trabalho da psicanálise sobre a psicologia.

A teoria permite-nos explicar que se a religião é universal é porque era necessária à sobrevivência do homem primitivo e que essa necessidade se mantém porque conservamos muito do primitivo (o cérebro reptiliano?), ou porque a religião, independentemente de ser ou não uma necessidade real, se soube adaptar ao mundo de hoje. A prova do sucesso da adaptação é a própria existência e a prova de que é necessária é o facto de ser universal.

Isto é tão irrespondível como a tese de que é a sexualidade que escreve o guião dos nossos sonhos.


(José Ames)

O GRANDE PLANO


David Wark Griffith (1875/1948)

"A lenda pretende que Griffith ficou tão impressionado com a beleza duma actriz quando rodava um dos seus filmes, que fez de novo filmar, de muito próximo, o instante que acabava de o deslumbrar, e que, ao tentar intercalá-lo no seu lugar, e conseguindo-o, inventou o grande plano. A anedota mostra bem em que sentido se exercia o talento dum dos grandes realizadores do cinema primitivo, como procurava menos agir sobre o actor (modificando a sua interpretação, por exemplo) do que modificar a relação deste com o espectador (aumentando a dimensão da sua face)."

"Esquisse d'une Psychologie du Cinéma" (André Malraux)

Era, evidentemente, difícil não "descobrir" o grande plano, logo que se começasse a abandonar a ideia do teatro filmado e da fixidez do ponto de vista do espectador.

O novo meio permitia uma grande liberdade com o tempo (a montagem paralela em "Intolerância", por exemplo) e com o espaço, como era o caso do plano.

Nenhuma arte é realista ao ponto de negar a sua forma. Assim, o grande plano tem pouco a ver com a nossa experiência quando nos aproximamos do rosto de alguém e tem tudo a ver com a capacidade da câmara de seccionar a aparência e permitir a articulação das imagens.

Um rosto iluminado ocupando a tela inteira, numa sala escura, só se torna humano depois de termos sido educados pelo cinema.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

FORÇAS DA NATUREZA



"Na ausência de Wronski, ela teme odiá-lo; é só isso que ela teme. Por uma consequência desse amor que ficou ao nível da natureza, a caridade falta, que é a fé no outro. O outro é considerado por sua vez como uma força natural; é por isso que a felicidade se reduz ao facto da presença. Assim, a suspeita é absoluta; ela nasce da ausência, limita-se a isso e é nisso que tropeça."

"Propos de Littérature" (Alain)


Alain diz que o sentimento romântico consiste em nos considerarmos a nós mesmos como uma força da natureza.

É como uma onda que nos transporta e nos leva a esquecer que temos de fazer o nosso caminho. Mas a felicidade do movimento é tal que promete o que não pode prometer. Tudo isto é a própria juventude.

Ana Karenina não se deu o tempo de envelhecer, porque a ideia romântica a tinha tornado fatalista. A própria felicidade dos dias de Veneza com Wronski, a exaltação desse amor contra a sociedade, pareciam-lhe provas contra a possibilidade de viver. Daí o gesto louco do final.


Antequera (José Ames)

TEIAS


Louis Philippe d' Orléans (1747/1793)

"Vã previdência dos homens! A origem foi o receio que os reis tiveram de que os filhos mais novos, legítimos ou bastardos, recomeçassem as guerras civis pela realeza. Julgaram torná-los menos ambiciosos, acumulando nas suas mãos a propriedade, embriagando a sua avareza."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


Ao estabelecerem esta compensação aos cadetes pelo não exercício da realeza, os reis deram-nos uma espécie de equivalente geral do poder.

Neste caso, trata-se de Philippe, dito Égalité, príncipe da casa de Orleães, inscrito no partido mais radical, a Montanha, e possuidor da maior fortuna da Europa.

O contraste entre o nome Igualdade, com que se cobria para atrair a simpatia popular, e os seus privilégios não podia ser mais violento.

A riqueza, salvou-a tanta prudência, mas a sua cabeça não.

Dir-se-ia que o poder representado pela sua fortuna se tinha servido deste homem leviano e da sua falta de princípios, para se manter incólume através da borrasca da Revolução.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O ZANGÃO E A ORQUÍDEA


"Loth fuyant Sodome" (David)



"Mais perto da natureza ainda - e a multiplicidade destas comparações é ela própria tanto mais natural quanto um mesmo homem, se o examinarmos durante alguns minutos, parece sucessivamente um homem, um homem-pássaro, o macho e a fêmea, o macho procurando avançar, a fêmea - Jupien - não respondendo com qualquer sinal a essa manobra, mas olhando o seu novo amigo sem espanto, com uma fixidez desatenta, julgada sem dúvida mais perturbadora e a única com alguma utilidade, a partir do momento em que o macho dava os primeiros passos, e contentando-se em alisar as penas."

"Sodome et Gomorrhe" (Marcel Proust)


Proust considera inadequado o termo de homossexualidade (influência germânica do caso Eulenberg que, em 1908, os jornais trouxeram para a ribalta), preferindo o de inversão, que a citação acima de algum modo justifica.

A cena do encontro do barão com o alfaiate no pátio da duquesa tem por contraponto a célebre conjuntura da orquídea rara e do improvável zangão que lhe está destinado.

Sempre fiel ao ponto de vista exterior, quase marciano, o romancista não apresenta nenhuma conjectura sobre os motivos. Observa apenas homens e insectos com a mesma equanimidade.

A sua teoria dos homens-mulheres decorre da ideia dos "estados sucessivos" num mesmo indivíduo a que os hábitos sociais emprestam uma espécie de ordem e aos quais os estímulos adequados arrancam, como à harpa dependurada na árvore, os sons do vento.

E talvez esta ambivalência tenha origem no discurso de Aristófanes no "Banquete" e na espécie de ovo que reunia os dois sexos e dispunha de quatro mãos e de quatro pernas.


(José Ames)

MUNDOS INCOMPATÍVEIS


Die Verwirrungen des Zöglings Törless


"Numa certa medida, ele sentia-se dividido entre dois mundos: um, solidamente burguês, no qual tudo se passava segundo a razão e a regra, tal como estava acostumado em sua casa; o outro, romanesco, povoado de sombras, de mistério, de sangue, de acontecimentos absolutamente imprevisíveis. Parecia-lhe que esses dois mundos eram incompatíveis. Um sorriso trocista que ele gostaria, no entanto, de manter constantemente nos seus lábios, lutava com calafrios na espinha: donde o borboletear dos seus pensamentos..."

"Les désarrois de l'élève Törless" (Robert Musil)


A descoberta da sensualidade confunde todas as fronteiras. Não é possível que, como por osmose, a natureza não invada o terreno supostamente estanque das convenções.

As forças interiores respondem ao chamamento de fora. Impensáveis afinidades entre reinos longínquos fazem-se imperiosamente sentir,

O instinto sexual desapossa o jovem Törless de si mesmo ou da ficção que tomava por ele próprio.

Podia-se quase dizer que uma espécie de vida sem realidade talvez fosse possível sem o sexo (e a morte).

domingo, 27 de janeiro de 2008

O GANCHO E O GUINDASTE


http://chnm.gmu.edu/resources/essays


Contra a ideia de que tudo, a final de contas, se explica pela hipótese de Deus que, como um gancho, surgido não se sabe de onde, sustenta toda a Criação, no mistério do seu aparecimento, a ideia da evolução, o guindaste, representar-nos-ia, não um quadro incompreensível, mas um filme, em que o tempo e a selecção natural fossem as principais personagens.

De acordo com um pensamento tão antigo como Heráclito de Éfeso, a vida é um processo, e a conjectura de Darwin diz-nos que esse processo não é um simples desenvolvimento, como o do embrião para o ser completo, mas o resultado duma interacção com o meio ambiente e de algumas "decisões" da Natureza.

Assim, é verdade que vemos um pouco melhor como as coisas se passaram e não precisamos para este filme de nenhum metteur-en-scène.

Por outro lado, porém, continua tudo por explicar. Do mesmo modo que se pudéssemos reproduzir a totalidade dos nossos artefactos e deduzir todas as ideias umas das outras, não teríamos ainda nenhuma explicação do homem.

A teoria de Darwin, ao salvar-nos da crendice, abriu, de facto, novas e entusiasmantes dimensões à acção humana.

Mas, apesar do optimismo de Dawkins ("The God Delusion"), esta é uma questão de poder, não de saber.


(José Ames)

EXPIAÇÃO


"Atonement" (2007-Joe Wright)

No filme de Joe Wright, "Expiação", Briony Tallis, uma imaginativa escritora de 13 anos, diaboliza a sexualidade dos adultos. Uma mensagem de Robbie, o filho da governanta, para a sua irmã Cecília, na linguagem do desejo, parece-lhe a prova da monstruosidade. A sua ingenuidade, aliada ao ciúme e ao preconceito classista, tramam Robbie que é acusado de violar uma criança e, na sequência disso, preso e enviado para a frente de guerra, onde morre sem voltar a encontrar a amada. Cecília, por sua vez, sucumbe nos subterrâneos, durante o bombardeamento de Londres.

Tallis expia o seu crime, devotando-se como enfermeira a tratar os feridos de guerra. No plano imaginário, onde o drama começou, concebe, num romance autobiográfico, um final feliz para os amantes para sempre separados pelo seu falso testemunho.

O filme é bastante convencional, embora de estrutura complexa. Salva-o o cenário dantesco da praia de Dunquerque, onde os soldados ingleses, entre feridos e moribundos, aguardam o reembarque, mas que parasita esteticamente a história, e a intervenção de Vanessa Redgrave no papel de Briony, no fim da vida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008


(José Ames)

LATRINÁRIAS


Latrina romana de Minturno


O eufemismo é-nos essencial como andar a pé. Um posto de observação existe, donde isso é claro e comum a todos os homens: é a retrete. Esse compartimento absoluto que nos defende da aparência e nos impede de cair colectivamente.

O homem “ocupado”, mas com a cabeça de fora, mostraria demasiado. Por isso as paredes cobrem todo o corpo e os gestos necessários, e as palavras que às vezes se trocam com o exterior querem sempre dizer outra coisa do que o que dizem. O water-closet é o começo da ética.

Em nenhum outro lugar também a verdade literal e a ordem dos factos aparecem como menos significativas. É preciso escolher contra as provas que provam sempre de mais. A sociedade preparou esse juízo durante toda a história da religião, e é isso que se vem reflectir no azulejo e no regime da água. Esta nudez íntima, quase visceral, é insuportável ao pensamento. É o contrário do slip da publicidade e da nudez da praia. A beleza juvenil nunca está completamente nua. O prestígio da arte e a longa educação visual prendem-nos à formas e aos signos perante o espectáculo da multidão indiferente e que se recusa a lisonjear.

O escândalo existe sempre no despir sem arte e sem preparação. Nunca a cidade se viu tão olhada pelo sexo, e, no entanto, o sistema moral não mudou. Porque os cartazes dirigem-se a crianças feitas, formadas pela censura do corpo delirante e anárquico e que nos hábitos da boca e do ânus continuam o culto religioso. É superficial o poder da indústria pornográfica quando a influência da casa e do trabalho tem a mínima possibilidade de se exercer. Que pode o sexo como ideal de vida? Todo o pensamento é contra, e o energúmeno que corre atrás das sensações, no fundo, aborrece-se da vida.

Não há nada que mais levante o moral do que a educação a que o maior bruto se sente obrigado, e mais, que até certo ponto lhe é natural, numa retrete frequentada. Aí se vê que é o espírito a verdade do homem e nenhuma misantropia pode convencer-me de que é o animal que fecha a porta. No cubículo, o perigo é o espelho e a leitura do papel que tão bem se diz higiénico. Há um prazer da função que é perfeito e só se pensa ao nível da terra iluminada. Mas a civilização nevrótica é impaciente e não sabe que fazer dessa atenção. É o peso então que resolve, enquanto o paciente lê o jornal. Na realidade, a leitura é ainda um pretexto. Quando a secção toda passa os olhos pelo “Notícias” na “casa de banho”, desculpa a actividade inferior que é a mais importante, com um exercício todo intelectual. Ninguém pensa nas calças descidas nem no homem humilhado. Quem ouve de fora o virar das páginas, pensa num leitor que se balda um pouco ao trabalho. O autoclismo é sublimador. A água transporta para o rio do inconsciente colectivo o corpo separado, punido com a morte e o inorgânico.

A falta de água é sempre uma crise moral. Até a cortesia se ressente, porque se suspeita da mão do outro. E para salvarmos o espírito em nós, acusamos de traição os infectos da latrina. A função de pensar depende de bons esgotos!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

DEBATE ENTRE O OLHO E A ORELHA


Stendhal e Victor Hugo

"Hugo não gostava de Stendhal; recusava-lhe o estilo. Eu gosto de ambos; mas confesso que Hugo é demasiado longo para mim. Leio-o a correr, e passo mesmo à frente. Vejo por de mais para onde ele vai; ele desenvolve quase sempre uma ideia comum, mas emocionante: justiça, caridade, lealdade, coragem, fraternidade, desenvolve-a sem a explicar; não acrescenta nada; só que mexe connosco." Pelo seu lado, Stendhal "É um autor que é preciso reler de instante em instante; porque não repete nem desenvolve nada; é como uma paisagem longínqua: quanto mais nos aproximamos, mais descobrimos; por isso não tem ritmo; não arrasta; não quer arrastar; isso iria contra a sua arte."

"Propos de Littérature" (Alain)


Para Alain, este é um debate entre o olho e a orelha. Hugo, o orador, move-nos pela eloquência da palavra; as suas redundâncias são como boas-maneiras destinadas a cativar-nos.

Stendhal deixa-nos mais livres e apela em nós para a inteligência apenas. Uma ideia, que no outro interromperia o ritmo e o passo militar, obriga-nos a parar e a contorná-la como a uma bela estátua. O que quer dizer?

Quem tem alguma experiência das assembleias, sabe que são o reino da orelha. O movimento é tudo e a ideia é nada. Passa desapercebida, ou escandaliza.

Em compensação, os quadros e as projecções que acompanham certas alocuções deixam-nos frios. O colectivo não se chega a fusionar e a razão tem muito mais hipóteses.


Guimarães (José Ames)

A ESTÁTICA E A DINÂMICA


Miniature du XIII° siècle, Paris, Bibliothèque nationale de France

"Esse trabalho nunca viria a ser realizado se os cientistas se dessem por satisfeitos com a preguiçosa solução por defeito proporcionada pela "teoria do desígnio inteligente". Eis o tipo de mensagem que um imaginário "teórico do desígnio inteligente" poderia transmitir aos cientistas: Se não compreendeis como uma coisa funciona, não faz mal: desisti e dizei que é obra de Deus."

"A Desilusão de Deus" (Richard Dawkins)


Tanto o "Desígnio Inteligente" quanto a teoria de Darwin são conjecturais, uma vez que nenhuma certeza sobre elas é possível.

Mas as duas teorias não se equivalem, visto que o evolucionismo é mais compatível, como aproximação à verdade, com o pensamento científico desenvolvido.

Contudo, o argumento de Dawkins contra o que seria uma explicação preguiçosa do mundo, através da hipótese de Deus, não implica que a explicação "diligente" se tenha de fazer no sentido da verdade.

A lógica disso levar-nos-ia a considerar, por exemplo, o tempo relativamente estático da Idade Média como verdadeiramente tenebroso.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

MORDER A PROPRIA CAUDA


Alban Berg (1885/1935)


"Foi só depois de Wagner que a música imitou o destino. Como um jogador, o compositor dodecafónico tem de esperar o número que sai e regozijar-se, se é um com sentido musical. Berg falou expressamente da alegria que se sente quando por acaso a série produz relações tonais."

"Philosophie de la nouvelle musique" (Theodor Adorno)


E, assim, a música mais vanguardista vai ao encontro da música de massas. Não estão estes automatismos presentes nas composições populares que recorrem ao computador?

O subjectivismo (cada um a criar a sua própria tradição) acaba, deste modo, no lúdico e na completa indiferenciação.

A tonalidade proscrita por essa vanguarda tornou-se o fruto desejado. Mas o ascetismo da escola só o permitia a conta-gotas e como que outorgado pela divindade do acaso serial.


(José Ames)

RETÓRICA FORENSE



"Platão culpava no "Górgias" a retórica forense da velha guarda por ensinar aos seus adeptos a arte reprovável de apresentar como admissíveis as coisas más."

"Paideia" (Werner Jaeger)


Há um bom senso que condena, como o Filósofo, a defesa do culpado, a qual, para não entrar na função do juiz, e segundo a episteme do contraditório, não se pode limitar a procurar atenuantes e justificações contextuais.

Isso pode desviar o sentido da justiça, se a parte contrária não tiver a mesma habilidade e se o juiz se deixar influenciar pelo debate desigual das competências.

É claro que a defesa tem um preconceito contra si própria, que decorre da situação do arguido e provar a inocência é, nesse ponto, mais difícil do que justificar a abertura do processo.

A figura do advogado do Diabo resume todos os preconceitos contra a aparente amoralidade duma profissão obrigada a defender o que não tem defesa.

A posição platónica tem todo o sentido contra a prática dos sofistas que se orgulham de poder provar o quer que seja e de ganhar as causas mais difíceis, independentemente da verdade.

Mas esta perversão é o custo de se querer uma justiça inteligente que procura estabelecer os factos pela razão argumentativa.

E quando se convence a razão, mesmo a pura retórica cumpre o seu papel.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

ARBITRÁRIOS PRINCÍPIOS


http://img263.imageshack.us/img263


"Ela vivia também dessas emoções, desses princípios arbitrários que enchem a sensibilidade e o cérebro dos políticos, das assembleias parlamentares. Se na Câmara um ministro interpelado explica a sua conduta dizendo que acredita fazer bem em, etc., que pensou que seria mais simples de... coisas que para uma pessoa de bom senso, ao ouvi-las, pareceriam muito razoáveis, são acolhidas por uma longa agitação: "É muito grave, é muito inquietante." e se o orador que replica começa, pontuando as palavras: "O espanto, e é dizer pouco, que me causaram as palavras do Sr. Ministro", é acolhido por uma tripla salva de palmas, movimentos vários que revelam no espírito dos parlamentares reunidos uma ideia do dever absolutamente fictícia que as explicações do ministro exasperaram, enquanto teriam convencido uma consciência simplesmente humana, e uma necessidade de emoção teatral que se desencadeia fora de todo o motivo de emoção humana."

"Esquisse du Côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Podia-se dizer melhor do que com estes "princípios arbitrários"?

Sintomaticamente, são os que mais se contradizem que, a torto e a direito, mais invocam os princípios.

Do seu quarto forrado a cortiça da rua Hamelin por causa do ruído e no meio das fumigações contra a asma, Proust encontra o tom zurzente do nosso Eça para descrever uma certa política. Parece-nos, com aquele "É muito grave", estar a ouvir o Conde de Abranhos.

E se a "emoção teatral" fazia já os oradores da Câmara comportarem-se como actores, esquecidos do seu papel na vida real, o que dizer da emoção induzida pela televisão?

O sistema dos partidos, aliado à sua monitorização televisiva, leva ao acme a ideia do "principio arbitrário".

Ninguém, ali, é livre para ser razoável, mas todos têm de aprender a lei da demarcação. Ser diferente a todo o custo, mesmo se isso custar um infinito ridículo.


Alcácer do Sal (José Ames)

O ESPERANTO ATEÍSTA



Dawkins parece acreditar que o mundo estaria muito melhor sem a religião, à qual associa os principais conflitos do planeta.

O poster da Fundação Richard Dawkins sugere até, com aquele clarão por detrás das Torres Gémeas, que o 11 de Setembro foi uma espécie de radiação maléfica do fenómeno religioso.

É certo que as piores guerras sempre foram as guerras de religião porque implicam geralmente a guerra civil. Mas o século XX mostrou-nos que há pior ainda do que uma guerra de religião.

Não adianta, porém, lamentar que algumas guerras poderiam ter sido evitadas, caso a religião não as assanhasse. A religião está provavelmente inscrita no código genético. Mas esta perspectiva não afasta a possibilidade de a virmos a deixar para trás, como uma parte atrofiada do esqueleto. Será assim?

Dawkins confunde, talvez, a religião com o fanatismo e com a intolerância e os preconceitos mais inamovíveis.

Mas todos sabemos como o adepto dum clube desportivo pode ser fanático e intolerante. E encontramos essa atitude, essa neurose (definição da religião para alguns psicólogos) nas mais diversas situações: no amor, na família, nos partidos, etc.

Quanto aos preconceitos e à intolerância, suspeito que Dawkins tenha sido contaminado pelo "politicamente correcto". Todos nós precisamos de preconceitos e, em certas coisas, de intolerância. O homem religioso pode abraçar o pensamento crítico como qualquer outro, e a diferença está em encontrar o ponto sensível para sentir o dogmático no ateu.

Enfim, o mundo sem religião parece-me uma ideia demasiado lógica, como a ideia do esperanto. Não somos feita dessa argamassa.

Teríamos outro tipo de conflitos, mas não necessariamente menos destrutivos.

Sobretudo, faltaria o elo do homem comum ao cosmos, que nas elites pode ser suprido por qualquer estética do tipo da "religião de Einstein". A grande maioria, porém, só poderia alimentar-se do medíocre ersatz da indústria cultural.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A MÚSICA DOS BÁRBAROS


Ludwig Van Beethoven (1770/1827)


"É a oposição à ideia duma organização racional muita avançada da obra, à indiferença entre as dimensões do material, que tornou manifesto o carácter reaccionário de processos como os de Stravinsky e de Hindemith: reaccionário precisamente do ponto de vista técnico, sem ter em conta, em primeiro lugar, a posição social."

"Philosophie de la nouvelle musique" (Theodor Adorno)


Adorno analisa o novo papel da variação e do desenvolvimento na música do século XX, que tenderia a abolir "a contradição, fundamental na música ocidental, entre a polifonia da fuga e a homofonia da sonata."

E diz que passou a existir entre os vários elementos uma indiferença, em que se fundem o horizontal e o vertical.

A subjectividade romântica dum Beethoven terá iniciado essa deriva para longe do cânone, com a crescente individualização da música moderna e o seu isolamento em relação a um público, ao mesmo tempo que manifesta uma maior liberdade e uma maior coerência.

Mas a outra música nunca teve tanto público. E se pensarmos na importância que ela tinha na educação dos Gregos, temos que concluir que a sua evolução, contra o platonismo de "As Leis", se fez no sentido da generalização do "modo lídio" e da influência dos "Bárbaros".


(José Ames)

O SONO DOS JUSTOS


Luís XVI e o filho na prisão do Templo

"O que mais impressionava os guardas nacionais e lhes fazia crer que o rei podia muito bem estar inocente era a profundeza e a calma do seu sono. Todos os dias depois do jantar, adormecia duas horas, no meio da família, entre os que entravam e saíam. Era o sono dum homem em perfeito estado de consciência, que se sente justo e de bem com Deus."

"História da Revolução Francesa" (Jules Michelet)


A expressão "o sono dos justos" quer dizer alguma coisa e é mais forte do que a doutrina para a imaginação.

Da noite para o dia, o tetraneto do Rei-Sol viu-se arrastado para as trevas exteriores, separado do mundo e da natureza (Saint-Just). Os municipais vão buscar à prisão do Templo um tal Luís Capeto.

A acusação era tão desproporcionada em relação a qualquer ideia de responsabilidade por parte do rei que não é de admirar que este, na sua devoção, se tivesse inspirado em Job, também ele perseguido sem motivo pelo seu Deus.

O confessor que lhe aplacava as dúvidas e, sobretudo, uma natureza destemperada pelo excesso de comida ("quatro entradas, dois assados, cada um de três peças, quatro entremezes, três compotas, três pratos de fruta, um pequeno garrafão de Bordéus e outro de Malvesia ou de Madeira") e a falta de exercício fizeram muito melhor do que Morfeu para lhe dar o sono dos bem-aventurados.

Mas esse espectáculo, a própria mediocridade do homem, rodeado pela mulher e os filhos, a quem tentava ensinar a geografia, era um verdadeiro tiro no pé para os Convencionais.

O processo arrastava-se, no meio de dúvidas angustiantes, e foi a mola dos partidos, envolvidos numa luta de morte, que decidiu.

Como se ao entrarem em certos esquemas, por actos e palavras, os homens declinassem uma responsabilidade demasiado pesada para os seus ombros.

domingo, 20 de janeiro de 2008

ULISSES NO HADES


Ulisses vendo a sombra de Hércules

"Quando Ulisses convoca a sombra dos mortos em redor da vala de sangue, não encontro erro nenhum nessa história; mas antes a situação humana e a relação dos vivos aos mortos está ali descrita sem uma falta; este jogo da imaginação soa poderoso e justo como uma bela sinfonia. Os mortos estão à nossa volta e principalmente misturados às nossas percepções nocturnas e crepusculares; porque pelo enfraquecimento e a confusão das percepções verdadeiras, as nossas recordações ganham importância."

"Propos de Littérature" (Alain)


Não se pode provar a influência dos mortos sobre os vivos porque eles não existem no sentido físico.

Como é que algo que não tem existência, nem sequer a forma dum gás ou do flogisto poderia ser uma força entre as forças, uma coisa entre as coisas?

Se Deus fosse outro nome para essa outra humanidade, imensa, que nos envolve desde o princípio dos tempos e nos inspira pelas vias mais secretas e misteriosas, seria já um fundamento da religião na verdade humana.

Não é por acaso que Auguste Comte idealizou uma religião da Humanidade.

Mas, de facto, a Humanidade é transcendente em relação àquilo que sabemos.


Barcelos (José Ames)

DEUS COISA


Richard Dawkins

"Richard Dawkins, em "The God Delusion", apresenta um argumento inusitado e aparentemente científico contra a existência de Deus.

O facto de não se poder provar essa existência permitiu uma espécie de armistício entre os teólogos e os que se reclamam da ciência. O terreno dessa convivência é a posição agnóstica de Kant.

Dwakins refere-se, a esse propósito, à teoria de Stephen Gould, NOMA, acrónimo de "magistérios não sobrepostos" (non-overlapped magisteria). Isto é, "o magistério da ciência abrange o domínio empírico (...), o magistério da religião estende-se a questões que têm a ver com o sentido último e o valor moral supremo".

O contra-ataque de RD, que fala em pobreza do agnosticismo (não seria carne, nem peixe), baseia-se nessa muleta da teoria quântica que é o probabilismo.

De facto, não sabemos o que se passa no seio da matéria, mas obtemos resultados práticos tal como se soubéssemos.

O argumento de Dawkins é este: a probabilidade, num caso como o da existência ou não de Deus, não significa uma equivalência de possibilidades. O facto de não podermos provar a não-existência do "bule celeste" de Russell (um bule de porcelana que gravitaria entre a Terra e Marte, demasiado pequeno para ser visto pelos telescópios) não quer dizer que a probabilidade dele existir seja de 50% e que o ónus da prova de tão extravagante teoria caiba aos não-crentes.

Ora, o que é visado por toda esta artilharia é, não "o velho de barbas sentado numa nuvem", mas, de qualquer modo, uma entidade física (se dermos à Física o maior âmbito possível).

Deus e os deuses criadores ou destruidores, pessoais ou colectivos que estão, ou estiveram no centro das diversas religiões podem não ter qualquer probabilidade de "estarem" dentro ou fora do universo, mas é mais do que provável que tenham sempre estado no espírito dos homens, mesmo dos que negam a sua existência.

E o espírito dos homens é de facto insondável.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O ANTI-DIGEST


Resumo da vida marinha

"Seguindo então a afinidade das palavras cultura e culto, aperceber-me-ia desse traço comum que, no homem culto tal como no homem piedoso, a forma exterior regula os pensamentos. Precaução, a meu ver, contra essa rapidez e instabilidade dos pensamentos de ocasião. Tentai resumir uma página forte; quase sempre a ideia foge; fica um resumo banal."

"Propos de Littérature" (Alain)


Ora, a ideia que aqui está em causa e que perdem esses "pensadores de segundo grau", pelo desprezo da forma, é uma outra maneira de nos referirmos ao célebre problema do corpo-espírito.

Um resumo é o espírito separado do corpo, uma fórmula que não tem a ver com nada nem ninguém.

Alain diz que não se pode pensar a letra "i" e abrir a boca.

Enquanto que o gesto se encontra plasmado na forma e é inseparável do tempo. E nós só pensamos (e concebemos verdadeiras ideias, as que trazem terra agarrada), quando imitamos os gestos necessários. Isto é, a preparação da ideia com um primeiro esboço, a dúvida, a ponderação e a decisão que conclui a sua forma.


(José Ames)

ANTÍDOSIS


Isócrates (436 AC a 338 AC)


"Cada uma das pessoas sobrecarregadas com o imposto da trierarquia tinha direito, se considerasse o gravame injusto, a dar o nome de um cidadão mais rico a quem pudesse com maior razão exigir o cumprimento do mesmo dever; e para demonstrar que a riqueza desse cidadão era maior que a sua podia pedir que trocasse de fortuna consigo."

"Paideia" (Werner Jaeger)


Esta troca de fortuna era conhecida, entre os Gregos, por antídosis, título dum discurso de Isócrates.

Falta-nos saber a frequência com que se praticavam essas permutas, e se esse artigo não funcionava antes como uma escapatória para os indivíduos com menos escrúpulos, mas fortunas iguais ou até maiores, dado estar muitas vezes associado à propriedade o chamado valor de estimação, o que persuadiria as "vítimas" a preferir pagar o imposto.

Mas o que apela à imaginação, para além do que esse costuma revela de simplicidade, é este raciocínio salomónico: se não és mais rico do que eu, então troca comigo.

E, como entre os implicados, se fazia a igualdade dum momento graças a essa troca de situações.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

ASCETISMO MUSICAL


Arnold Schönberg (1874/1951)


"Nenhuma obra, melhor do que as mais breves peças de Schönberg e de Webern, poderia fazer prova de densidade e de consistência na sua estrutura formal. A sua brevidade deriva justamente da exigência de extrema consistência. Esta interdita o supérfluo; e volta-se também contra a extensão no tempo, que está na base da ideia de obra musical desde o século XVIII, certamente desde Beethoven."

"Philosophie de la nouvelle musique" (Theodor Adorno)


O abandono do "esquema extensivo e a crítica do conteúdo, quer dizer, da frase e da ideologia" pelo atonalismo de Shönberg e Webern significa igualmente uma ruptura na forma de ouvir música.

O desenvolvimento duma sinfonia, por exemplo, permite, quase só por si, preencher um serão público. A brevidade, que Adorno compara a uma experiência negativa como o sofrimento, com sacrifício de todo ornamento e do "simétrico-extensivo" implica já outra espécie de escuta, ao encontro do individual e da privacidade.

Mas a ideia negativa que compara o "essencial" da música à experiência física constrangente supõe uma ética da consciência, da lucidez sobre o "real", que separa a música completamente do sentido estético.

Este espírito militante está presente na fórmula do autor de "Pierrot Lunaire": "a música tem o dever não de ornamentar, mas de ser verdadeira." E Adorno conclui que, assim, "a música tende para o conhecimento".


Pico (José Ames)

A DUPLA DUCAL


Laurel and Hardy

"Ele emitia primeiro a nova opinião, geralmente sob uma forma incompleta, enigmática, que forçava Mme de Guermantes, a qual não esperava outra coisa, a explicar ao visitante aquilo que o marido queria dizer, e ao mesmo tempo a rectificá-lo. Sem dúvida que essas opiniões novas não continham mais verdade do que as antigas, geralmente menos. Mas, justamente, o que elas tinham de arbitrário, de falso, dava-lhes qualquer coisa de teatral que as tornava emocionantes ao serem comunicadas."

"Esquisse du Côté de Guermantes" (Marcel Proust)


Como dois "compères" na revista, ou algumas duplas do cinema, como a de Stan Laurel e Oliver Hardy, que sabem tirar em cena o melhor partido das suas diferenças, servindo um ao outro de contraponto, o duque, mais tosco, fornecia à sua brilhante comparsa as deixas que lhe permitiam dar largas a um espírito malicioso. Malicioso, porque, como diz Proust, a duquesa "vivia desses deveres e dessas emoções artificiais", único antídoto para a nulidade e o aborrecimento da vida mundana.

Esta lei que força o entediado a sempre procurar, "sobre uma pessoa, o contrapé da opinião até ali admitida", para chocar o seu auditor e alimentar o culto da sua própria originalidade, dissolveria qualquer sociedade se não estivesse presente na mente de todos a dualidade entre a vida e o teatro.

O bom senso exige-nos, em múltiplas circunstâncias, as aptidões do tradutor.

E é o que falta quando deixamos de perceber que os chamados meios de comunicação são tão artificiais como o salão da duquesa de Guermantes.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008


(José Ames)

O BOM SENSO TÉCNICO


Kurt Gödel (1906/1978)

"Se concordarmos em utilizar o termo "verdade" apenas no sentido objectivo, então há algumas declarações que podemos provar serem verdadeiras; contudo, não podemos ter um critério geral de verdade. Se tivéssemos um tal critério, seríamos omniscientes, pelo menos potencialmente, o que não somos. De acordo com o trabalho de Gödel e Tarski, nem sequer podemos ter um critério geral de verdade para as declarações aritméticas, embora, é claro, possamos descrever infinitos conjuntos de declarações aritméticas que são verdadeiros."

"Unended Quest" (Karl Popper)


A inexistência de um critério geral significa que tudo é possível?

É, no fundo, em nome duma espécie de bom senso (actualizado pela técnica), que alguns negam a existência de Deus, mesmo se não se podem justificar com um critério científico.

E, na verdade, pese embora a aparente ressurgência do religioso ( que é, no entanto, um fenómeno marginal em relação à tendência preponderante), Deus parece tornar-se, cada vez mais, um escândalo para a inteligência formada pela Técnica.

O último romance de Gonçalo Tavares, numa cena que justifica o seu sugestivo título, acaba com um reconciliado Lenz Buchmann a "apagar-se" numa epifania de luz emitida pelo aparelho de televisão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

REVELAÇÃO DA ARTE


GWF Hegel (1770/1831)

"Aquilo que, como objecto, pela arte ou o pensamento, se revelou aos nossos sentidos ou ao nosso espírito tão perfeitamente que a sua substância se encontra esgotada, que tudo nela se tornou exterior e que nada mais subsiste de obscuro nem de interior, perde o seu interesse absoluto."

"Estética" (Hegel)


Adorno cita Hegel para achar o pensamento digno do verdadeiro burguês que era o filósofo, e que o "elemento obscuro" não é mais do que uma produção da autoridade, da "todo-poderosa cultural industrial".

Mas se não houvesse interferência desse poder e a "substância" duma obra de arte nos fosse inteiramente exposta, como num plano sem relevo nem sombras, o que é que poderia continuar a alimentar o nosso interesse?

É evidente que cada nova perspectiva sobre uma obra consagrada contribui para ressuscitar esse interesse. Contudo, não é isso ainda revelação?

Adorno fala dum obscuro ideológico, duma manipulação, duma espécie de mais-valia pela gestão da ignorância que, a existir, não pode ser o essencial.


Porto (José Ames)

ABANAR O CÃO



"O imperativo categórico e central de que fazer dinheiro é não só a mais tradicional e socialmente mais útil das maneiras que um homem tem de gastar a sua vida terrena - um imperativo para o qual, certamente, existe um precedente no etos da Europa mercantil e pré-capitalista - é uma coisa. A convicção eloquente de que fazer dinheiro é também a coisa mais interessante que se pode fazer, é inteiramente outra."

"Paixão intacta" (George Steiner)


No filme "Manobras na Casa Branca" ("Wag the dog"-1997, Barry Levinson), o produtor (Dustin Hoffman), depois de montar o "show" da sua vida, para desviar a atenção dos eleitores dum outro caso de assédio sexual no "Salão Oval", metendo uma guerra fictícia com a Albânia e o resgate dum pretenso soldado (na verdade, um presidiário psicótico), não quer honras, cargos em embaixadas, ou dinheiro, mas só crédito. Quer que o seu nome apareça no genérico deste "show" político-televisivo.

Ora, a política, em grande parte, pode ser espectáculo, mas não deixa de ser política, jogos de poder e fachada institucional. Sobretudo, não se deve levar as pessoas a pensarem que o sistema político se tornou autónomo a ponto de se poder encenar com total independência dos factos e que nada tem já a ver com a democracia.

Por isso, a produção teve o seu epílogo esperado com o ataque cardíaco fulminante do seu produtor, que se esquecera de que é o cão que abana a cauda e não a cauda que abana o cão.

Por onde se vê que não é o dinheiro em si que é interessante, mas, como diz Steiner noutro passo, o "sucesso monetário e material".

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O ALIMENTO E O PITÉU


Johann Sebastian Bach (1685/1750)


"O verdadeiro músico, segundo creio, é antes um homem que se alimenta do que um homem que saboreia. E esta diferença é patente nas obras: porque entre aqueles que compõem, há também apreciadores, que saboreiam, se posso assim dizer, o seu próprio molho, e até, por precaução, o dão a provar a outros amadores, acrescentando assim pimenta, sal e noz moscada; e parece-me que reconheço logo a música que foi feita assim."

"Propos de Littérature" (Alain)


É ainda a diferença entre a obra que resulta da expressão do artista sobre si próprio ( e tanto a mais celebrada arte como o mais puro vandalismo urbano podem ter tal motivação) e a obra que é feita, o melhor que se pode e se sabe, mais segundo a sua própria lei do que segundo o sentimento de quem a faz.

Seria isso que, como diz Karl Popper, distinguiria Bach de tantos outros músicos.

É à perfeita humildade do compositor, que escrevia "para maior glória de Deus", e não para cumprir uma qualquer necessidade de expressão, que devemos essa música sem vaidade, nem salamaleques, como se a ética fosse também uma regra estética.

E, fazendo jus ao ditado de que ninguém é profeta na sua terra, o próprio filho, Carl Philipp Emanuel, o considerava um velho picuinhas (der alte Zopf) ultrapassado.


(José Ames)

UM ISCARIOTE NO MISSOURI



"O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford" (2007-Andrew Dominik) marca uma época na história do western.

A complexidade da relação entre o fora-da-lei e o seu "executor", mais do que psicológica, entra no domínio do simbólico, evocando a mais arcaica e ambígua das traições: a de Judas Iscariote.

Tão explicitamente quanto Jesus, James serve-se do seu discípulo para dar um fecho à sua lenda. E é na agonia de ter sido escolhido para essa missão que Robert Ford cumpre o que se espera dele.

E todo o resto do filme, que narra a celebração no teatro, centenas de vezes, da traição e da morte e, por fim, o assassinato do próprio Bob às mãos dum "procurador" anónimo da justiça dos heróis, acima do bem e do mal, é como um comentário ao enforcamento de Judas na figueira, incapaz de escapar à sua maldição.

O contraponto das duas personagens é servido por duas interpretações extraordinárias. Pitt (Jesse James), a certa altura cai num tique já visto (a facécia com o chapéu), mas a inteligência do olhar, fundamental para a consciência da personagem sobre o seu próprio destino, é-nos dada com força e verdade. Quanto a Casey Affleck (Bob Ford), é genial na sua abjecção, no olhar velado e nas quebras de voz, como que se apagando diante do ídolo e oferecendo-se-lhe como o perfeito instrumento.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008


Esposende (José Ames)

TRAUMAS


Sigmund Freud (1856/1939)


Que há de inverosímil no trauma infantil? Que ninguém tenha pensado nisso. Porque este ser tão plástico, tem de guardar as marcas de toda a violência. E o corpo sendo também memória deve revelar.

Mas a psicanálise fala-nos numa economia do sujeito consciente destinada precisamente a esquecer o trauma. E, nessa medida, é que um facto da memória censurado pode ser o princípio organizador da personalidade. Nenhuma cena do passado tem esse privilégio, a não ser o que é sentido pela criança como uma ameaça à sua vida. O amor dos pais e, sobretudo, o materno é uma condição do crescimento e da inteligência.

Se a violência fosse a norma dentro das famílias, a espécie chegaria ao fim rapidamente. O homem nasce nu e sem linguagem. O corpo da mãe e a sua fala são ainda placenta, porque o filho do homem sem protecção não vive.

Compreende-se que o perigo tenha de ser sempre exterior a este sistema para a flor de estufa que somos se desenvolver conforme a sua natureza. O trauma obriga a uma defesa interior e à interrupção do processo de adaptação ao mundo. O cérebro infantil tem de se fazer estratega e a lei da sobrevivência é que possa viver primeiro com a mãe. Sem recurso à duplicidade e à astúcia, a criança tem que vencer sobretudo a aversão, porque o amor e a confiança são obrigatórios. Mas essa contradição é fatal para a inteligência e para o equilíbrio da personalidade. O mal amado conheceu um mundo hostil que não era o mundo. A ambivalência dos sentimentos que não se podia exprimir põe em causa a síntese da consciência e exprime-se no adulto por uma das formas da histeria.

A reapropriação do passado significa desarmar e julgar o íntimo como o estranho. Compreender o trauma é por isso recomeçar a adaptação ao mundo e libertar a função da memória dum dispositivo que a vampirizava. A cura nesse sentido é possível. Mas adivinha-se que em todos haja matéria para psicanalisar e que a ambivalência dos sentimentos seja a lei geral. Daí que o sujeito consciente e normal possa ver a teoria de Freud como um oráculo e a resposta para os problemas da vida. É de novo viver segundo a ideia do destino. A psicanálise fora dos casos clínicos e de alienação da personalidade é uma especulação sobre a história do indivíduo e a noção de inconsciente.

Não é possível mudar o passado, mas está ao nosso alcance pensá-lo doutro modo, e isso é já mudar o presente. Esta é a verdade mais tangível da psicanálise. Contudo, é cair numa outra alienação que é a do político. Fazendo acreditar o absoluto da situação familiar e o determinismo dos complexos inconscientes, o homem regressa de facto à protecção original. Não espanta por isso que a vontade seja aqui uma excrescência do sujeito que se debruça sobre si mesmo. Todos nós podemos refugiar-nos do mundo, abrindo o espaço imaginário do inconsciente. E é isso que se vê nos homens descrentes da verdadeira religião. É o sonho escrito e comentado que os guia, ou seja o mito individual. Por medida.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O TEMPO DA LEITURA



"A vida parecia-lhes demasiado curta para se poder desperdiçar uma hora a ler romances, excepção feita àqueles de hoje porque, persuadidos de que havia sempre uma "chave" para a sua leitura, era para eles um regalo poder encontrar quem os "iniciasse", alguém que estivesse dentro do segredo."

"Esquisse du Côté de Guermantes" (Marcel Proust)


A leitura dum romance continua a ser vista por muitos como pouco produtiva, e o "roman à clef" já não está na moda (a não ser que já traga a chave, como no caso de alguns best sellers).

Sem lhes poder proporcionar o prazer de deter uma "chave", os romances não têm também a informação útil que eles consideram necessária.

O raciocínio parece ser o de que se aprende mais com um livro técnico ou científico do que com uma história, inventada do princípio ao fim. E o tempo é de facto por de mais curto para não irmos direitos ao essencial. Esta é a ideia que está por detrás dos resumos de uma publicação como a "Reader's Digest". O leitor desta revista poupa-se ao trabalho de ler as 1300 páginas de "Guerra e Paz" e fica a conhecer a intriga, que é uma espécie de chave, mas perde o que faz do romance uma obra original.

Na verdade, o romance nunca vai direito ao assunto, nem nos dá, a maior parte das vezes, qualquer informação "útil". Em vez de fórmulas, expõe-nos, desenvolvidamente ou não, o problema humano no tempo.

E com isso amplia o espírito e forma a inteligência que aprende a pensar a complexidade, em vez duma simples opinião, e o homem todo, em vez do que é preciso saber para se estar "a par do que se passa".


(José Ames)