domingo, 27 de julho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

O MAL FRANCÊS

 

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"O mal francês, sabe-se qual é: inventam-se sempre novos estratos, mas é-se incapaz de suprimir outros. A minha pergunta é a seguinte: por causa da descentralização, não há um degrau a mais e, se ele se encontra ao nível local, o senhor suprimiria essa colectividade que dirige?"

(Jean-Louis Le Moigne, no Colóquio de Cerisy, com Edgar Morin, 2007)

Por alguns séculos, a influência dominante sobre o nosso país foi a da França. Amália cantava ainda "Lisboa não sejas francesa" e o escritor que mais fundamente estabeleceu o modelo da crítica política moderna e da auto-depreciação nacional foi Eça, que assestava o seu monóculo furioso no ambiente do 202 dos Campos Elíseos sobre a choldra nacional. Se Pulido Valente tivesse metade do seu talento era caso para falar de ressurreição.

É verdade que também por cá o 'mal francês' não é só uma doença sexual. A burocracia, que Napoleão levou à perfeição, com o seu espírito legislador militar, é uma espécie carnívora transplantada com todo o sucesso para o solo pátrio.

É por isso que os problemas mais vivos da nossa sociedade começam por ser combatidos com doses homeopáticas de organização que se incrusta no sistema e é quase sempre inamovível. As mudanças necessárias fazem-se por camadas sobrepostas que redundam em expansivas 'prateleiras'.

Descentralizar? Quanta redundância organizativa isso acabaria por causar? É como a assistência social da 'sociedade civil'. Pagos os custos da organização, sobrará alguma coisa para os necessitados?

 

 

sábado, 26 de julho de 2014

Aveiro (José Ames)

O VOYEUR

"A Flagelação de Cristo" (Caravaggio-Museu de Capodimonte)


Três figuras em trabalho, puxando, levantando, golpeando cercam o corpo inteiramente submetido às forças.

Ainda branco e resplandecente, sem os sulcos do látego nem o sangue
Parece que esse corpo vai cair sobre nós, no momento seguinte.
Não há mais nada no quadro, nenhum cenário, nenhum fundo que simbolize outra coisa.

Apenas a sombra donde emergem o trio de pele retesada e escura e a vítima que obedece como um cadáver, sem um rictus, nem um pensamento.
Só o sadismo, palavra moderna, pode explicar-nos o encarniçamento dessa violência. Mas ele não está no trio mecânico.

Sádico é o espectador, cujo lugar ocupamos, anestesiados embora pela tradição.

Ao falar de Caravaggio é todo o sexual que se torna anacrónico.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

O BOM SENSO DA SOBRINHA

 

"Causou riso ao bacharel a simplicidade da ama, e mandou o barbeiro ir-lhe dando daqueles livros, um a um, para ver de que coisa tratavam, pois podia dar-se o caso de se encontrarem alguns que não merecessem o castigo do fogo. "Não", disse a sobrinha, "não há por que perdoar a nenhum, porque todos têm causado dano, e o melhor será deitá-los fora pelas janelas para o pátio, e fazer um amontoado deles, e pegar-lhes fogo, e se não, levá-los para o curral, e alí se há-de fazer a fogueira, para o fumo não ofender." O mesmo disse a ama: "assim era"."

"Don Quijote de la Mancha" (Cervantes)

 

A sobrinha do 'Cavaleiro' atacava menos os livros do que o hábito da leitura, que, segundo ela, tinha dado a volta ao miolo do tio. Era, além disso, a única maneira de poder controlar o seu comportamento, dado que, ao que suponho, não fosse capaz de distinguir entre um perigoso romance de cavalaria e um manual de farmácia.

Para o censor fanatizado, toda a leitura é potencialmente suspeita. A passagem da leitura em voz alta à leitura silenciosa foi um 'passo gigantesco' para a liberdade do pensamento.

Toda a ditadura abomina esta forma de leitura quase tanto como o voto secreto. Mas, longe de ser uma sofisticação moderna, esta repressão do 'estar-consigo-próprio' já era natural no tempo da sobrinha de Dom Quixote. É um reflexo do poder, qualquer que ele seja. No nosso 25 de Abril, o único estado virtuoso era o de 'mobilizado'. A 'desmobilização' favorecia sempre o 'inimigo de classe.'

Mas os tempos estão a mudar, graças à tecnologia. Não para o desenvolvimento da consciência individual (sucedem-se os certificados de óbito dessa consciência), mas para uma espécie de tribalismo inteligente. Deleuze e Guattari, no 'Anti-Édipo", falavam num 'corpo sem órgãos'. Onde estaria, então, a 'sede do poder' ou a da inteligência? É a História que sai pela esquerda baixa.

 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sem título

(Alcobaça)

 

O CLAUSTRO

 

"Salazar telefona ao governador do Banco de Portugal, para que ele lhe passe um cheque de 420 dólares."
(Diane Ducret "Femmes de Dictateurs")

É para o anel que vai oferecer a uma jornalista francesa, Christine Garnier, com quem se enamoriscou durante uma entrevista. Tinha ele então 62 anos. Não é curiosidade mórbida por parte de Ducret. Há fotografias reveladoras de que houve um seduzido e, talvez, até sedução mútua.

Esta imagem de Salazar descola nitidamente do mito de austeridade e afastamento do 'mundo' (em primeiro lugar, o do dinheiro e o das mulheres 'perigosas' que o desviem do seu 'verdadeiro destino'), mas foi uma descolagem tão rápida e inesperada que não beliscou o mito do monge das finanças sacrificando tudo à causa.

Naqueles olhares enviados para o mesmo horizonte do forte de S. António da Barra, Cupido, que nunca foi historiador, fartou-se de fazer caretas ao voto irrevogável do 'grande homem'.


Mas tudo se resolveu dentro da ordem, com a obrigatória cena de ciúmes em França e o escriba dos anais encerrando o parênteses. Uma veleidade amorosa em idade tão provecta até humaniza um pouco a vida noesse claustro voluntário do poder.

 

 


 

 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

UM GÉNERO DE LOUCURA

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"É preciso compreender, dizia Beckett, que Joyce tinha chegado ao ponto de considerar a queda de uma folha como um acontecimento tão aflitivo como a Queda."


"A bicicleta de Leonardo" (Guy Davenport)

 

 

Passe o trocadilho da queda. Não penso que se possa exagerar sobre a propensão do escritor para preferir o seu mundo de palavras que faz sentido (pelo menos para ele) ao mundo real (inter-subjectivo, na verdade). As duas espécies de queda têm, em qualquer caso, uma afinidade no texto que não pode ter a realidade que elas representam.

O Dia de Bloom (a personagem do "Ulisses" joyceano é objecto dessa homenagem literário-turística que é o Bloomsday) é apenas um daqueles imprevisíveis ricochetes da literatura na realidade, mas está aí para provar que os dois mundos não estão, de facto, separados. Podemos entusiasmar-nos ou afligir-nos com uma ficção (que, ao transformar-nos, de facto, ganha foros de realidade) ou com um facto que, é verdade, sempre fazemos nosso, quando o 'processamos', para falar na linguagem da técnica.

O que queria, pois, dizer Beckett, segundo Davenport (um dos escritores preferidos de Steiner)? Não é a 'equivalência geral' das palavras na literatura que impede o escritor 'obsessivo' de respeitar as diferenças obrigatórias da convivência humana.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Sem título

 

Cacela Velha

 

NOITE ANTIQUÍSSIMA

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"Assim, tudo o que se passa nas noites de lua tem o carácter do que não se reproduzirá mais, o carácter do que é maior do que a natureza, da generosidade e do desprendimento desinteressados. Tudo aquilo de que nos fazemos parte nasce de uma partilha sem reserva. Dar, é de cada vez receber. Toda a concepção e a embriaguez da noite estão intimamente entrelaçadas. Só esse estado permite aceder à consciência do acontecimento. Nessas noites, o Eu não retém nada em si próprio, nenhuma condensação do seu ter, dificilmente uma recordação; o Si-mesmo exaltado irradia num esquecimento infinito de si próprio. E essas noites impõem-vos o sentimento absurdo de que vai passar-se qualquer coisa de inaudito, uma dessas coisas que a razão diurna, empobrecida, a custo seria capaz de imaginar. Não é a boca que delira, mas entre as trevas da terra e a luz do céu, o corpo é tomado de uma febre que vibra entre duas constelações. O sussurro do diálogo transborda de uma sensualidade completamente desconhecida, que não é a sensualidade de uma pessoa, mas a das coisas da terra, de tudo o que força à sensibilidade: a súbita ternura desvelada de um mundo que nunca cessa de tocar os nossos sentidos e de ser tocada por eles."


"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)


A razão diurna empobrecida, que expressão admirável! Contudo, a noite traz consigo o medo primordiai, os fantasmas da imaginação. Mas eles são os monstros que nas lendas antigas guardavam a entrada do Céu e do Inferno. Vencidos, toda a nossa percepção muda radicalmente.


As pessoas, em geral, fogem de situações como esta. Agarram-se à sua rotina, ao seu mundo pré-fabricado. Tapam as frinchas das janelas e das portas para não entrar a angústia. A angústia de estarem sós consigo mesmas, a angústia de estar sobre a terra escurecida sem um néon por perto. Mas, às vezes, o pânico instala-se na própria lâmpada, como num filme de David Lynch.


O intenso pressentimento da terra. É contra ele que trabalha afanosamente, a razão diurna. A imagem mais reveladora é a que nos transmite o facto de, em muitas cidades, a palavra noite ter sido apropriada para significar a espécie de vida 'nocturna' a que, hoje, nenhum jovem que se preze se quer subtrair.


A Grande Presença está sempre vigilante e como que triste por não lhe dedicarmos um pensamento. A pior censura não é a que nos impede de falar, mas a que nos 'põe a falar'. Dizia Pasolini, por outras palavras.

 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

FARISEUS



Agustina, citada por Bénard da Costa, disse algures: "A justiça é uma coisa furtiva como um ladrão na noite."

Se assim for, isso é dizer que ela é mais do domínio da graça do que do da lei. Que espécie de justiça, então, é servida nos tribunais que pretextam, já não, evidentemente, o seu carácter sagrado, mas a sua necessidade primordial? Sem lei não existe sociedade digna desse nome. Se há algum poder que parece estar acima acima da política, mesmo numa sociedade democrática, é esse.

Mas não serve necessariamente a justiça. A segurança vale mais. Perdida esta, mesmo o que restava de justiça na lei deixa de contar.

A figura do ladrão furtivo tem, claro, uma conotação evangélica. Ora, o ladrão vive fora do que é tido como lei. Como pode a justiça ter alguma coisa a ver com o seu 'método'?

É talvez porque a justiça não é uma instituição (não podia jazer sob a laje de nenhum mausoléu). Ela tem qualquer coisa de comum com o verdadeiro saber. Nunca o saber alcança o estado de adquirido. É sempre preciso recomeçar o que julgávamos já sabido.

Os 'sábios' que dizem outra coisa do que disse Sócrates e que 'raramente se enganam' têm um nome na nossa tradição. São fariseus.

 

 

domingo, 20 de julho de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

RUST COHLE

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"(...) Isso mesmo era expressamente afirmado pelo rei (Afonso II) quando dizia que "a nós pertence fazer mercê aos mesquinhos e os defendermos dos poderosos"."

("História de Portugal", de Rui Ramos & al.)

O monarca era, no século XIII, um poder travado e discutido por outros poderes, como o dos senhores feudais e o da Igreja.

Os 'mesquinhos' de então deram lugar ao 'proletariado' do marxismo, e o Estado constitucional e liberal viu-se obrigado à mesma função 'paternalista' contra o poder económico e político, através, sobretudo, da legislação social.

O rei tinha um interesse evidente em apoiar-se no povo e na burguesia para alcançar uma posição indisputada, até pretender confundir-se com o próprio Estado, como aconteceu no absolutismo. A partir dessa altura, a monarquia já não precisava de ninguém e pôde entregar-se ao seu irremediável declínio.

Um paralelo se apresenta com a sorte da monarquia e a do Estado moderno capitalista. Os novos poderes precisam, evidentemente, do Estado, que se tornou pouco a pouco coisa sua, sem prejuízo de proteger os 'mesquinhos', por motivos de segurança. Já Alain observou que o interesse do 'senhor' é tratar bem os seus escravos, olhar pela sua saúde, não menos do que é do interesse do ganadeiro alimentar e acomodar bem os seus touros de lide. Por que seria esse meio de riqueza desbaratado e desvalorizado?

Esta fábula podia ser a da 'luta de classes', mas sem uma lei histórica linear por detrás, com toda a esperança justificada.

Talvez que o discurso que se aproxima mais da realidade seja o do protagonista da magnífica série americana "True Detective", Rust Cohle, e a sua teoria dos ciclos. O mundo nunca será um lugar ideal.

 

 

 

 

sábado, 19 de julho de 2014

Sem título

 

(José Ames)

 

O SENTIMENTO DE SI

"(...) vive escondido, a fim de poderes viver para ti. Vive ignorante daquilo que parece mais importante para a tua época. Põe entre ti e ela pelo menos a espessura de três séculos.

(...) Hás-de querer socorrer também: mas sejam apenas aqueles de quem compreendes a miséria porque só têm contigo uma mesma alegria, uma mesma esperança... que sejam os teus amigos; e somente da maneira como vens em ajuda a ti mesmo."

"A Gaia Ciência" (Friederich Nietzsche)

A profissão de fé dum egoísta, ou de alguém que não quer enganar-se a si próprio?

O efeito mais visível da inflação dos media é que parece aumentar a nossa impotência à medida de que dispomos de mais informação e de mais imagens.

Limpar a soleira da nossa porta surge já como um programa ambicioso.

Este discurso vai, porém, contra toda a crença no dever e na responsabilidade.

E se, desde Nietzsche que há uma alternativa, no Ocidente, à ideia de Deus e ao platonismo, é preciso que a parábola de Zaratustra deixe de engendrar monstros.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sem título

 

DO PODER DOS CARNEIROS

Afonso Costa
 
Afonso Costa
"indivíduos que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a república".


Afonso Costa, 12/6/1913, no Parlamento (in "História de Portugal" de Rui Ramos & al.)

Tal era o homem. "Sem papas na língua" e, 'muito, muito orgulhoso' como disse M. Albreight, a emissária de Clinton, sobre o povo chinês (a sua liderança, entenda-se).

Mesmo ao mais alto nível da República, é o mesmo discurso de Salazar: o da menoridade do povo, não estamos preparados para a democracia. É como, se quisermos aprender a nadar, evitar a água, porque ainda não estamos preparados. Mas isto já é ortodoxia. Depois de quarenta anos de prática, já ninguém pode dizer que não estamos preparados, ou que nos dão 'gato por lebre'.

O cansaço e o 'desencanto' atingem também regimes mais antigos, cientes, um tempo, das incomparáveis vantagens, pelo menos no caso do seu país, da democracia em relação a qualquer outro regime. Quanto aos outros países, nem mesmo os Americanos pensarão, hoje (que conhecem melhor o assunto), que os Chineses estariam mais perto de resolver os seus problemas com a democracia. O caso é que o gato do partido único e do seu capitalismo 'sui generis' parece 'caçar gatos.

Ninguém dirá é claro que a imensa 'maioria silenciosa' obedeceria aos critérios de Afonso Costa, relutante democrata como ele era...

 

 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sem título

 

A NOBREZA QUE NÃO É UMA CLASSE

 

"(...) mas desse modo, precisamente, a inteligência terá perdido tudo da sua dignidade. Será sem dúvida necessário ser inteligente, mas, ao mesmo tempo, isso será coisa tão comum que um espírito mais nobre sentirá tal necessidade como uma vulgaridade. Ser nobre significará talvez, então, 'ter ideias loucas na cabeça.'"

(Friedrich Nietzsche, citado por Camus)

É isto o grau de loucura que preconizava Pessoa? Nada obsta a que o 'cadáver adiado que procria' seja inteligente.

A temática do herói está bem presente nesta vontade de distinção. Mas o super-homem poderia contentar-se em pensar e agir contra a razão comum?

Na verdade, a aristocracia histórica impôs-se pela sorte das armas e pela manutenção do poder, eficamente servidas, assinale-se, pela razão comum. E é o que a tecnocracia continua a fazer, do modo mais impessoal possível. A razão não pode ficar de fora deste debate, mas ela fornece armas a todos os campos. É exímia, como já o disse Descartes no 'Tratado das Paixões' ( obra que Alain já considerava imerecidamente desconhecida), em emprestar um ar razoável a todas as nossas 'reivindicaçōes' infundamentadas - pelos vistos, foi assim que muitos leram o livro de Louçã & al. sobre a Dívida.

Finalmente, a nobreza de carácter de que nos fala o filósofo do Zaratustra, resplandece como um astro maligno em qualquer democracia. Pode ser 'namorado', como na meritocracia, e na elite imanente a qualquer sistema. Claro que Nietzsche nada nos diz sobre os privilégios dos poucos (que é o que fica do heroísmo de um tempo).

A verdade é que tudo deve repetir-se desde o início. Assim, a nobreza separar-se-ia do poder instituído e dos seus castelos e bastilhas (há dois dias, a propósito, passou o 'Quatorze Juillet')

 

terça-feira, 15 de julho de 2014

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OS TRÊS SEXOS

O jovem Nietzsche

"(...) quase se poderia falar de uma antinomia natural entre o amor e a fidelidade do homem: o amor do homem sendo desejo de possuir e não abandono, renúncia, e o desejo de possuir cessando com a posse...
Se o amor do homem persiste é de facto porque o seu desejo é suficientemente fino e suficientemente prudente para não se confessar, a não ser rara e tardiamente, que "possui"; é mesmo possível então que esse amor cresça depois do dom da mulher: ele não se confessa facilmente que ela não tem mais nada para lhe dar."

"A Gaia Ciência" (Friederich Nietzsche)


Pensamento mais do que indigesto ao nosso tempo, em que o amor, com pequenas nuances, deve ser, como os direitos, igual para ambos os sexos.

A revolução sexual, não foi tanto uma "libertação" nos costumes, como a invalidação da ideia tradicional de que há uma divisão natural de tarefas entre os sexos (não necessariamente doméstica).

Por força disso, quase se poderia dizer que em vez de dois, passou a haver três sexos: o homem, a mulher e a mãe.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Sem título

(José Ames)

 

VIGILÂNCIA

Píndaro

 

"Se o fragmento 133 de Píndaro ilustra bem o orfismo, então a alma daquele que dorme, vela; e a alma daquele que vela, dorme."

(Paul Ricoeur)

A ideia de que a salvação e a vida eterna dependem da vida que levamos na terra parece impor aquela vigilância. Mesmo durante o sono, a sentinela está atenta aos perigos.

Mas como poderíamos ser 'condenados' pelo que fazemos quando dormimos? Sem consciência do que fazemos, teríamos ainda que responder diante do 'tribunal celeste'? De que perigos nos guarda a sentinela da alma?

A 'vigília' é como uma luz que não pode apagar-se, se queremos ser dignos da 'vida eterna'. É o 'moto' de toda a fé redentista. "Franceses, um esforço mais, se quereis ser republicanos!", ironizava o autor de "La Philosophie dans le Boudoir".

Há aqui uma espécie de equivalência em lúmens entre a consciência e a eternidade. Não se pode supor que a persistente vigilância órfica fosse recompensada pelo sono eterno, por mais bem-aventurado que ele fosse.

A vida eterna para os Antigos Gregos seria, talvez, um colóquio de almas não interrompido pela fatalidade. Dante, no 'Paraíso', revelar-nos-á, em vez disso, uma rotina processional em círculo à volta do esplendor de Cristo. O aborrecimento é demasiado humano...

 

 

domingo, 13 de julho de 2014