quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Lisboa

A TEORIA DA REVOLUÇÃO

Lord Acton


"Aquilo que os Franceses tomaram dos Americanos foi a sua teoria da revolução, não a sua teoria de governo, o corte não a costura. Muitos nobres Franceses serviram na guerra, e regressaram a casa republicanos e até democratas por convicção. Foi a América que converteu a aristocracia à política de reformas e deu líderes à Revolução."
(Lord Acton)

O 'corte' dos Americanos com a Inglaterra, nem de longe nem de perto, pode ter o mesmo significado do que o corte com a tradição e os fundamentos do Estado que operou a Revolução Francesa. O primeiro foi a separação de uma nova nação com grande potencial de riqueza da potência colonizadora, concebida à luz da filosofia dos 'direitos naturais', o segundo corte foi intestino, o país separando-se do seu passado (e 'inventando' uma ancestralidade romana), e tentando refundar o Estado na base do 'contrato social' rousseauista. Como sabemos, a violência paroxística desta revolução não conseguiu melhor do que pôr um déspota 'esclarecido' no poder e, depois dele, instaurar o Estado burguês que, com parteira, ou sem ela, fazia o seu caminho 'dialéctico'.

A democracia vingou na América, que não tinha uma aristocracia a 'converter', e que era uma nação onde a igualdade dos cidadãos era a própia evidência. A escravatura tinha os dias contados. Em França não podia passar-se o mesmo. 

No "Vermelho e o Negro", de Stendhal, Julien Sorel, para fazer carreira, tem de esconder o "Memorial de Santa Helena". Napoleão crescera em ideal tanto quanto a monarquia que lhe tinha sucedido se afundava na ignomínia.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

(José Ames)

O IDEALISMO ASTUTO



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"O Terror não é nem subversão do ideal nem subversão pelo ideal. Ele é a próprio violência do ideal, de todo o ideal, porque o ideal não pode deixar de colocar a questão do mal e da salvação.
(Grégory Woimbée)

Esta análise peca por deixar de fora a violência da máquina em que o Terror institucionalizado se transforma. Nesta altura, já o ideal está a ser traído nas consciências.

A Revolução Francesa criou o conceito, e o suicídio dos revolucionários no processo de destilação do ideal que levou à sua 'purificação' numa só cabeça, a de Robespierre, o 'Incorruptível' (este exemplo é suficiente para tornar o 'mundo corrupto' que conhecemos numa espécie de paraíso), revela-nos já o funcionamento de uma máquina verbal, em que o extremismo cada vez mais indepente da realidade faz lei. É a lógica dos argumentos sectários que mata.

E em face do exemplo mais próximo de 'violência do ideal', o do Daesh, ou 'Estado Islâmico' como poderíamos abstrair-nos de uma 'consciência técnica' completamente alheia ao ideal, por detrás da sua manipulação dos símbolos e das imagens à medida das suas necessidades de recrutamento?

A institucionalização do Terror, num verdadeiro Estado, que poderia estender a duração deste movimento de 'purificação' do mundo seria, ao mesmo tempo, o fim do poder de atracção do seu idealismo 'astuto'.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

S. Pedro do Estoril

REFORMA E REVOLUÇÃO

Samuel Huntington


"O revolucionário tem de ser capaz de dicotomizar forças sociais, o reformista, de as manipular. O reformista, consequentemente, precisa de uma ordem muito mais alta de habilidade política do que o revolucionário."

"Political Order in Changing Societies" ( Samuel Huntington)

Isso, porém, não define o marxista que não advoga apenas um método (a luta de classes) que instala o conflito de interesses no âmago das relações sociais, o que opõe esta doutrina a qualquer contrato social 'in Terris'.

Ao método, e em termos religiosos, mais importante do que ele, alia-se uma promessa de justiça que foi capaz de galvanizar sucessivas gerações até que a experiência do poder absoluto por parte dos doutrinários levou estes à completa desfiguração da Promessa.

Por outro lado, o reformista não pode 'manipular' forças sociais que não controla. No melhor, limita-se à pequena engenharia social, cujos efeitos, em princípio, seriam limitados e passíveis de correcção pelo simples exercício do voto.

Houve um tempo em que a distinção entre as duas ideias parecia ser uma questão de velocidade na 'transformação do mundo'. Um certo gradualismo era já traição aos olhos de quem via o fundo do túnel tão próximo e tão dependente da coragem e da firmeza dos princípios que adiar a Revolução era ser inimigo da humanidade e trair todos os princípios éticos.

Não há dúvida que manipular o ódio de classe com vista à 'dicotomização' doutrinária' é a via mais fácil, porque segue a linha do instinto reptiliano. Mas a maioria dos revolucionários perde esse 'estado de desgraça' quando 'cresce' ou pode pensar pela sua cabeça.

A habilidade do reformista, por outro lado, seria melhor chamada de prudência, porque a 'engenharia social' não é um campo do saber, como não o é o mero tecnicismo. Mas é também verdade que as grandes mudanças sociais nem sempre requerem as virtudes políticas correspondentes. De tal modo, que mais do que sabermos para onde vamos ou para onde queremos ir, continuamos a 'sofrer' as consequências dos nossos actos, como se tudo estivesse entregue ao acaso.

domingo, 27 de setembro de 2015

(José Ames)

UM POSTULADO




"A liberdade ética, (Kant) declara, não é um facto, mas um postulado."

(Ernst Cassirer)

É no sujeito, o mais inesperado 'processo histórico' do Cristianismo, e nele só, que podemos encontrar esse postulado. É uma consequência da salvação individual.

Sócrates é o primeiro pórtico. Preso e condenado à morte pelo Estado ateniense permanece até ao fim senhor do seu destino. É-lhe aconselhada pelos amigos a fuga à sentença e o exílio, mas Sócrates abraça a oprtunidade de se mostrar fiel aos seus princípios e encerrar em beleza uma carreira exemplar.

Todos os factos se conjugam para negar a liberdade do filósofo e a moral do pedagogo. Mas a factualidade não pode impedir o condenado de se sentir livre. De, submetendo-se às leis, as considerar injustas e ao abrigo da injustiça que não pode fechar o tribunal interior.

A glosa secular desta liberdade ética, contudo, pressupõe demasiado para sustentar uma autonomia individual que depende, em maior ou menor grau, das circunstâncias.

Platão descreveu-nos a morte do mestre, com uma arte suprema, como se não bastasse um imponderável para fazer dessa despedida, em vez de um sinal de força, um sinal de fraqueza.

Mas é a arte que salva o melhor de nós, e esse talvez seja  o primeiro postulado.

sábado, 26 de setembro de 2015

(Conde de Óbidos)

O CORAÇÃO

Dante e Virgílio (Giani)

"Para além dos deuses está a piedade da alma individual, ela está para lá do Estado, para lá do povo. Que importa que os deuses se limitem ao povo e não queiram conhecer o indivíduo! A alma pouco precisa dos deuses que ela própria criou, já não precisa deles, nem deste deus nem daquele, desde que trave o seu piedoso diálogo com o insondável..."

"A Morte de Virgílio" (Hermann Broch)


Esta profecia de Virgílio que anuncia a salvação individual e o Cristianismo anuncia também a sua superação e o advento duma religião sem deuses, mas não sem proporções e harmonia. O coração do coração.

"Fonte do centro a jorrar, resplandecendo invisível na angústia infinita do saber; o nada encheu o vazio e transformou-se em Universo."
(ibidem)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

(José Ames)

SUB SPECIE AETERNITATIS



"É uma astúcia do historicismo a de remover toda a resistência à história, que nos nossos dias significa opinião pública, dias em que a opinião pública já estabeleceu o seu reinado."

(Allan Bloom)


É o mesmo que dizer que os 'media' governam o mundo. Mas se fosse assim, devíamos procurar para lá dos títeres. E os donos dos 'media' seriam, então, os verdadeiros reis do mundo democrático.

Mas a essa ideia simplista é preciso contrapor a velha ideia de McLuhan. A de que os meios de comunicação não se cingem a qualquer informação ou desinformação teleguiada pelo capitalista. Eles próprios são a 'mensagem', nas palavras do profeta canadiano. E, de acordo com isso, não podem 'reinar'. São do domínio 'ambiental'.

Bloom neste texto exprime a nostalgia de uma ética intemporal. O historicismo, radicando a eticidade no contexto atira-nos para o fosso do relativismo. Mas, paradoxalmente, pretende fundar nesse relativismo a ideia de um progresso inexorável. Tal como as coisas se apresentam, isso corresponderia a um progresso independente da ética, mas julgado suficiente para nos livrar de um sistema condenado pela doutrina social.

Marx escarnecia de um conceito do homem 'sub specie aeternitatis', mas acabou por transferir essa qualidade para o 'desígnio' da História.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Gaia

BOLETINS DE CAMPANHA

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"Falso como um boletim tornou-se um provérbio no tempo de Napoleão."

(Ernst Cassirer)


Até que não se pôde mais esconder o descalabro nos campos da Bélgica. Existe aqui um ponto de contacto entre a guerra e a 'alta finança'. Até se chegar à fórmula do bom banco e do mau banco, os sinais de alerta não paravam de piscar, e depois foi o que se viu. Os 'impérios' podem ruir como qualquer muro no nosso quintal. A diferença é que os 'boletins' da banca nunca se transformaram em provérbio popular. O deus Crédito, como outro Proteu, pôde por muito tempo, e com as cumplicidades que se adivinham, esconder os pés de barro nuns vistosos sapatos Prada.

Dizemos 'alta finança', mas podíamos dizer política (mais baixa do que alta). A política-espectáculo veio para ficar. É tão óbvio que já não nos espanta que, como nos USA ( o 'Futuro' de Pessoa, na 'Noite Antiquíssima', que 'adoramos sem conhecer'), os candidatos prestem homenagem ao 'humor' na televisão. Tão solícitos e comprometidos como a Dama de Ferro que dizia apreciar muito a sátira da BBC ('Yes Minister').

Uma das consequências disso é que o discurso político se tornou literalmente publicidade (enganosa, naturalmente).

O desafecto crescente dos eleitores talvez queira dizer que não apreciam tanto ser enganados por um programa político como pelas mensagens publicitárias embrulhadas em entretenimento.

Mas a astúcia da publicidade é que a mentira consabida fica na memória do potencial consumidor, em vez do vazio.

O engano político (é escusado dizê-lo), mesmo consabido, também. É tudo o que existe.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Aeroporto

DOIDOS E VILÕES





"Ora digo que o poder ainda é peior em mãos de vilões – que as armas nas mãos dos doudos."

(D. Francisco Manuel de Melo, in "A Visita das Fontes")

Este pensamento é benévolo em relação ao poder, pelo menos de acordo com Lord Acton. Porque supõe que os homens honestos não são modificados por ele.

E bastava isto: todos cometemos erros que afectam, algumas vezes, a nossa vida e a dos mais próximos. Normalmente, pagamos por eles, de uma maneira ou de outra.

As consequências dos erros do poder, mesmo do mais bem intencionado, estendem-se a toda a sociedade e grande parte das vezes os responsáveis não lhes sentem os efeitos, tendo que imaginá-los, se estiverem de boa fé. Precisavam de 'olheiros' em todos os cantos e esquinas. Estão protegidos pela nuvem da ignorância. É impossível que esta situação não aprofunde a distância entre essa imagem, quase sempre lisonjeira, e a realidade.

É então que os homens honestos se esquecem do que uma vez foram. Não há critério para julgar da honestidade de alguém que, no fundo, só presta contas a si próprio e ao grupo que o cerca. Depressa o bem se confunde com a necessidade que é, simplesmente, a lógica do poder.

A democracia e o seu equilíbrio de poderes, o sistema de voto e a limitação dos mandatos não impedem  a corrupção e a vilanagem, e temos de reconhecer, com Churchill, que é o "pior dos sistemas, à excepção de..." Os seus enormes defeitos estão aí para quem os queira ver, mesmo nas democracias 'exemplares', como a da Grã-Bretanha ou a dos EUA.

Concluo que o poder é uma máquina de fazer vilões, e é por isso que tem de ser contido pelas leis. O pessimismo que daqui resulta é saudável. Mas não nos protege de um sistema sem rosto que julga saber melhor do que nós aquilo que nos convém. Há sempre um ponto em que é preciso desligar o Hal que tem uma missão a cumprir.



terça-feira, 22 de setembro de 2015

(José Ames)

A CASA






"Mas o optimismo da época tinha sido falso e desencorajador por esta razão, que tinha sempre tentado provar que nós estamos 'ajustados' ('fit') ao mundo. O optimismo cristão é baseado no facto de não estarmos 'ajustados' ao mundo."
"Orthodoxy" (G.K. Chesterton)

A ciência, hoje, tornou-se o receptáculo desse optimismo que resulta de 'estarmos em casa' neste mundo. Por muito decepcionantes que sejam os testemunhos que parecem provar que este não é o 'melhor dos mundos' leibniziano, a ciência permite-nos esperar que a 'correcção' depende das novas e incessantes descobertas que hão-de afastar a miséria, as doenças e (por que não?) a própria morte do mundo em que vivemos.

Digamos, então, que todos estes 'desajustamentos' são problemas devidos à nossa ignorância (incluídos aqueles que dependem da natureza do poder político que só sofremos por não sabermos melhor) e que estão ao alcance da tecnologia e da ciência do futuro. Pode-se falar aqui num determinismo histórico, tão ao gosto da sociologia hegeliana.

Chesterton diz que se na natureza tudo é bom (ou pode vir a ser feito tal, pela acção do homem - que também é natureza), o homem torna-se incompreensível, visto que o homem é pior e, ao mesmo tempo, melhor do que a natureza.

Enquanto que o optimismo cristão "se funda na não-naturalidade de tudo, à luz do sobrenatural." Para o cristão, o mundo não é a casa. Ora, este 'desajustamento' é essencial e não é um problema científico.

Não podemos desqualificar a opinião do filósofo por ele ser cristão. Basta um pouco de imaginação cosmológica para concordar que o ponto de vista das grandes religiões nos diz mais sobre o nosso verdadeiro domicílio do que qualquer especialidade científica.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Lisboa

OS PODEROSOS NÃO CRÊEM




"Pode-se fazer crer na verdade, mostrando-a; mas não basta mostrar a injustiça dos poderosos para os corrigir."

(Blaise Pascal)

Os Gregos voltaram a dar a vitória a Tsipras. Muitos que não tinham votado nele apoiaram, desta vez, o 'esquerdista' vencido, mas aparentemente não convencido. Muitos outros não lhe terão perdoado a vontade traída do referendo. Nunca se viu tão grande esforço para 'provar' o sentimento popular se revelar, no dia seguinte, uma simples jogada de póquer para explorar o medo da instabilidade nos adversários. Tsipras não percebeu a alma da 'coligação' que tinha pela frente.

A democracia pareceu, então, ridicularizada e o povo grego 'utilizado' numa jogada de alto risco.

Em face do resultado destas eleições, já não se pode aceitar tal explicação. O povo grego compreendeu a 'jogada' do seu primeiro-ministro. E não se sentiu traído porque, no fundo, estava de acordo com que o referendo fosse utilizado como a última arma de defesa. Compreendeu que o Syriza jogasse essa cartada e que, no caso de ela falhar, como falhou, fosse posta de lado e o governo não ficasse atado de pés e mãos a uma 'vontade expressa' que todos sabiam que ia ser jogada. A cedência final aos credores não foi uma traição do Syriza, que provou ter tentado tudo, e inclusivé correu o risco de não ser compreendido pelos seus eleitores. Foi uma derrota de todos os povos da Europa.

A democracia não saiu ferida, bem vistas as coisas, se aceitarmos que o povo grego estava disposto a jogar o 'tudo por tudo', até esta mímica de vontade popular.

Ficou demonstrado que os grandes responsáveis por este extremismo, como dizia Pascal, não se corrigem com o espectáculo da sua injustiça.

domingo, 20 de setembro de 2015

Clown (José Ames)

MELANCOLIA

Anton Tchekov (1860/1904)

 

"Ele fala muito bem, mas quem me garante que não são frases ocas? Ele só pensa nas suas florestas, planta árvores... É belo, mas se fosse um sinal de loucura?..."

Sónia em "O Selvagem" de Anton Tchekov

Khrouchtchev (o Selvagem) quer ser olhado nos olhos, sem preconceito, sem programa, que nele se procure antes de tudo o ser humano, mas há astúcia e desconfiança no olhar de Sónia.

É o amor incondicional duma mãe que ele busca e que só o sacrifício pode alcançar.

Admiro estes melancólicos desencontros em Tchekov. As personagens perderam tudo menos a infância.

A acção contempla-se, como às vezes as estrelas, pelo canto do olho.

sábado, 19 de setembro de 2015

Furadouro

MICROCOSMO




"Sim, as refeições na sala de sete mesas tinham o maior encanto para Hans Castorp. Ele tinha pena que cada uma delas acabasse, mas a sua consolação era que em breve, dentro de duas horas ou duas horas e meia, de novo estaria sentado nesse lugar, e quando ele de novo ali estivesse sentado, era como se nunca se tivesse levantado."

"A Montanha Mágica" (Thomas Mann)


É pouco dizer que somos animais de hábitos e que a tudo nos adaptamos, mesmo a uma eterna convalescença.

Hans Castorp não se sente doente quando, de visita ao seu primo Joachim, decide passar alguns dias no sanatório de Begerhof, em Davos.

A ordem e a tranquilidade que reinam na montanha entranham-se-lhe pouco a pouco, a ponto de, para justificar o prolongamento da sua permanência, começar, com toda a sinceridade, a sentir-se doente. Isto é, conforme a esse microcosmo de sociedade.

Não é apenas a confusão do seu espírito e a falta de sentido da sua vida que explicam esse facto.

Todos encontramos uma Montanha Mágica alguma vez.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

(José Ames)

IN UTERO

Alain de Botton


Alain de Botton, em 'A Arte de Viajar', cita Baudelaire: "A vida  é  um  hospital  onde  cada  doente  tem  a  obsessão  de  mudar  de  cama. Este  quer  sofrer  diante  dos  tubos  de  aquecimento,  e  este outro pensa que melhoraria perto da janela." É o conhecido aforismo que reza: "Ninguém está bem com a vida que tem". Que espécie de 'seres racionais' seríamos se não quiséssemos melhorar a nossa situação que às vezes depende de uma simples mudança de lugar? A liberdade apenas imaginável faz de nós prisioneiros de um horizonte fechado. A imaginação converte a nossa falta de investimento na situação real em monotonia e desespero.

O poeta estende a toda a humanidade a sua melancolia. É tão eloquente que nos faz esquecer o 'amor fati' por  detrás desse pessimismo. O sistema de segurança da nossa prisão (ou do hospital de Baudelaire) é sensível à mínima possibilidade de abrir qualquer fechadura.

Talvez isso não seja mais do que regredir ao conforto uterino...

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

(José Ames)

NOMEAR E CLASSIFICAR

Giotto



"(a observação de Lévi-Strauss fazendo valer que uma sociedade não pode proibir o que não pode nomear e classificar, e que o reconhecimento do que é permitido ou proibido na ordem do parentesco depende da medida em que correspondem a uma designação linguística precisa, é evidentemente profunda e válida.)"
George Steiner

O livro IV da Bíblia, intitulado "Números", começa e acaba com um censo militar. Esta contagem é o princípio da organização e da separação em relação às outras tribos e aos seus deuses. Mais tarde, na história do Cristianismo, o episódio da 'Matança dos Inocentes' revela-nos a importância para o poder de dispor de todos os nomes numa qualquer classificação. Na falta desse controlo, a proibição pode virar-se contra a própria existência da sociedade. A 'Matança' foi uma ordem absurda e completamente fora de proporção.

Um Estado moderno como o do partido nazi dispunha, pelo contrário, da informação precisa e estava organizado de tal modo para que não fosse necessário matar indiscriminadamente. Foi, contudo, esse o sentimento das testemunhas depois da 'Solução Final'. A vida de um homem, depois de atingidos os judeus, passara a valer menos do que o dinheiro nos últimos tempos da República de Weimar.

Os tabus e os interditos estudados pela etnologia correspondem a estruturas necessárias à organização que a espécie desenvolveu sem ter disso consciência. A tecnologia digital que a quase todos fascina nos nossos dias oferece, à primeira vista, perspectivas de futuro que nem somos capazes de explorar. Mas o que no fim se revelará mais importante será o que, sem o sabermos, nem pressentirmos, estamos a fazer de nós e do nosso mundo.


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Génova

O DESESPERO É A ÚLTIMA COISA A MORRER




Astrov, o médico de o "Tio Vânia" ( e que era Khrouchtchev em "O Selvagem"), despedindo-se de Elena Andréievna:

- Está bem, parta... (Sonhador:) Você parece boa, simpática, mas há em si um não sei quê de estranho. Desde que chegou aqui com o seu marido, todos aqueles que trabalhavam, se atarefavam, criavam alguma coisa, pois bem, abandonaram tudo para se ocuparem apenas, durante este verão, da gota do seu marido e da sua pessoa. Ambos, nos passaram a vossa ociosidade. Eu enamorei-me de si, há um mês que não faço nada e durante este tempo houve homens que sofreram, e nas minhas florestas, nos meus viveiros, os mujiques apascentaram o seu gado...

Em resumo, você e o seu marido, trazem para todo o lado a destruição...

Estou a brincar, decerto, e no entanto, é estranho... estou persuadido que se permanecessem aqui, tudo acabaria num formidável desastre."

Que maldição é esta? As pessoas "desastradas", já em processo de auto-destruição, mas parecendo ainda prometer, pela idade ou pela beleza, não se sabe que futuro, são como neutrões bombardeando o núcleo da feliz resignação.

"- Espera um pouco, tem paciência; mais cinco ou seis anos, e estarei velha, eu também."  Palavras de Elena, a jovem esposa de Serebriakov, o professor gotoso.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

(José Ames)

VENCER A DEMONSTRAÇÃO

"A Trindade" de Andrei Roublev



Roublev ("Andrei Roublev" de Andrei Tarkowski, de 1967) vive uma intensa crise de inspiração, arrastando os seus companheiros para o impasse diante das paredes nuas da nova catedral.

A sua experiência rejeita a ideia do pecado dos camponeses que se entregam à sua orgíaca noite de verão ou da pobre demente que ouve a recitação epistolar sobre a maldade da mulher.

O Juízo Final revolta-o como a consagração da injustiça terrena. Por isso não consegue pintar.

Ele precisa de vencer a demonstração e de acreditar no seu sentimento, como faz o filho do sineiro ou o homem que sobe aos céus num balão, no princípio do filme.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Porto

A REALIDADE CORAL


Claude Lévy-Strauss


"Interpretar consiste em reduzir um tipo de realidade a outro."

Claude Lévy-Strauss


Não deveríamos procurar saber o que acontece com essa 'redução'? Afinal as 'realidades' têm intensidades diferentes e são mais ou menos 'densas'. Suponho que há coisas que não se podem interpretar por não sofrerem 'redução' a qualquer outra coisa conhecida. Como interpretar o divino? Wittgenstein já passou por aqui. Tudo o que se possa dizer a título de interpretação é absurdo.

Mas vejamos o caso da interpretação dos mitos (serão eles já uma interpretação absurda?), ou a dos sonhos pela psicanálise. Todas as dificuldades desaparecem se identificarmos o sentido (a linguagem) com a realidade. Temos então uma interpretação dos mitos que ajuda à construção do mundo inteligível e podemos postular a existência de um inconsciente produtor de mensagens mais ou menos encriptadas, à espera do médico-arqueólogo que as 'interpretasse' em função de outro tipo de inteligibilidade.

Em qualquer caso, a 'redução' da realidade à linguagem não corresponde a uma diminuição do ser, só pelo facto da realidade não ser interpretável. Partimos sempre do facto linguístico.


domingo, 13 de setembro de 2015

A cimenteira (José Ames)

SUAVE PESSIMISMO




"Vem comigo, vem, minha querida, partamos daqui! Nós plantaremos um novo jardim, mais belo do que este, tu verás, tu compreenderás, e a alegria, uma alegria calma e profunda descerá sobre o teu coração, como o sol no fim da tarde, e tu sorrirás, mamã! Vem, minha querida! Vem..."
(Ania no "Cerejal" de Anton Tchekov)


Lopakhine, o filho do mujique, não se cansa de o lembrar: a venda do Cerejal, por dívidas, está marcada para vinte e dois de Agosto, mas ninguém o escuta, ninguém quer sair do seu sonho de infância.

Os proprietários são como o velho criado, Firs, para quem a grande desgraça foi a libertação dos servos. Quando todos abandonam a casa, julgando-o no hospital para acabar os seus dias, ele é a última personagem em cena, preocupado ainda com o agasalho que o seu patrão se esqueceu de levar, enquanto se ouvem os primeiros golpes de machado.

A juventude recusa-se a morrer com o cerejal. Nas suas palavras, a esperança parece brilhar através das intermitências do suave pessimismo de Tchekov.

Ania será talvez uma futura "Gaivota" e Pétia, o eterno estudante, é já a imagem do fracasso.

A fatalidade que pesa sobre todos estes seres prepara-se, com a Revolução, para mudar de ombro.

sábado, 12 de setembro de 2015

Génova

O ESPÍRITO DA TEMPERATURA


Pátio do sanatório (Van Gogh)




"(...) eles não podiam, parecia, dizer nem fazer nada que não os traísse, sobretudo numa sociedade que, como o tinha observado um espírito sagaz, tinha tido só duas coisas na cabeça, em primeiro lugar a temperatura, e em segundo...uma vez mais a temperatura (...)"
"A Montanha mágica" (Thomas Mann)



A boa gestão do termómetro, com medições a toda a hora, e a disciplina alemã convertem a população do sanatório de Berghof numa seita de felizes hipocondríacos.

Depois de se sentir menos bem, durante uma caminhada por sua conta e risco, Hans Castorp, submete-se a um exame pelo dr. Behrens que lhe confirma todas as suas suspeitas e lhe prescreve a posição horizontal em "doca seca".

Ao fim de três semanas, tem de aproveitar uma visita médica para lembrar o tempo que já tinha passado. A autorização para se levantar é-lhe concedida, com relutância.

No regresso dum passeio higiénico com o primo, ocorre-lhe pôr-se a questão de saber por quanto tempo ainda Behrens o teria deixado na cama, se ele não falasse...

"E Joachim, de olhar sombrio, a boca aberta como para um "infelizmente!" desesperado, traçou no ar o gesto do infinito."

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

(José Ames)

DÚVIDA VENTRÍLOQUA


http://31.media.tumblr.com

"Dei comigo a responder ao professor de psicologia que eu pessoalmente tentava ensinar aos meus estudantes preconceitos, uma vez que hoje em dia - com o sucesso geral do seu método - eles tinham aprendido a duvidar das crenças antes mesmo de acreditarem em alguma coisa."

"The Closing of the American Mind" (Allan Bloom)


Talvez a escola só possa corrigir os nossos erros, no sentido em que McLuhan dizia que, na sociedade mediológica, a educação tem por principal missão corrigir o efeito dos 'media' na nossa percepção do mundo.

O método de que fala Bloom põe de lado a evidência de que não nascemos adultos e de que há uma percepção das coisas que não pode ser iludida. Antes de homens, todos fomos crianças, como dizia Alain. E é a partir desse mundo mágico da infância que podemos construir o mundo adulto, através da desilusão. Se se pretende partir de um início abstracto, sem passar pelo tesouro dos erros infantis, e ensinar a última verdade científica, ou politicamente correcta, não estamos a 'queimar etapas', mas a formar homens sem substância, e a submetê-los aos 'updates' do sistema. Esta ideia tem um antecedente na utopia do esperanto, que também fazia 'tábua rasa' do passado do indivíduo e da história da sociedade.

Não ficaremos mais ricos com a língua única, nem comunicaremos melhor. Orwell fez-nos o favor de antecipar o que seria o mundo da 'novilíngua'. Talvez esse 'formigueiro' do futuro venha a ser mais 'eficiente', à custa da humanidade essencial. Evitará, talvez, o esforço de adaptação dos indivíduos que terão, naturalmente, uma só crença, a da verdade estabelecida pela termiteira.

Na realidade, não podemos prescindir do erro como etapa do conhecimento. O engano não é arbitrário, porque é nosso. E a verdade a que chegarmos, 'incorporando-o', é genuína e não um 'produto de fábrica'.

E afinal que dúvida é que podemos conceber se dispomos da 'verdade instantânea'?

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Gaia

A PELE HUMANA


Karl Kraus

"Kraus afirmaria em 1909, em termos ao tempo inteiramente fantásticos (e hoje insuportáveis), que o progresso do tipo científico-tecnológico faria 'carteiras de pele humana'"

(George Steiner) 

Primeiro, conhecemos o reino da mercadoria, onde tudo encontra equivalência e onde tudo se troca. Num tempo em que isso ainda poderia chocar, o vate inglês foi ao ponto de pôr o judeu Shylock a tirar as últimas consequências dessa equivalência geral, reclamando de um mercador falido a libra de carne 'correspondente' à sua dívida. A carne humana não lhe serviria para nada, mas valia o peso do seu ódio racial. Ninguém se lembrou de trazer à barra o anti-semitismo de Shakespeare, mas a histórica filiação bancária da diáspora ainda podia justificá-lo. Apesar de tudo, o domínio do 'sagrado' conseguia limitar a monetarização geral.

Como o estuque do barroco enquanto 'forma universal' (Baudrillard) que antecipava o plástico dos nossos dias, a busca de uma linguagem das coisas acompanhou o 'passo de ganso' da mercadoria. E, como se houvesse predestinação, ou um plano secreto dos deuses, todos esses esforços culminaram num desenvolvimento do sector científico-tecnológico sem precedentes. O advento do digital estilhaçou de vez a nossa representação do mundo como um todo, como 'criação' do sentido.

De uma forma mais radical do que o capitalismo e do que o dinheiro, o digital está em vias de se tornar 'o' equivalente geral, uma economia e uma epistemologia, acima da divisão entre um sagrado que se retrai como a 'pele de asno' e um profano que seria o oposto do sagrado.

A profecia de Karl Kraus anuncia essa 'evacuação' do homem no novo cenário. Como a 'libra de carne' de Shylock designa-nos um lugar fora da terra, donde nos pudéssemos observar com toda a 'objectividade'.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

(José Ames)

A PSICOLOGIA PROFUNDA

T.E. Lawrence



"(...) porque uma época que foge da profundidade intelectual só com espanto pode tomar conhecimento de que possui uma psicologia das profundezas."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

A superficialidade intelectual deve ser, em qualquer tempo, a coisa mais bem distribuída entre os homens (a par do bom senso, claro). É ainda o princípio do menor esforço. E, nos primeiros tempos, é de crer que nem sequer dispuséssemos da energia necessária.

Musil pode querer dizer que, na nossa época, os homens são especialmente preguiçosos, talvez porque prefiram despender as suas forças 'excedentes' (do trabalho) nos dispositivos do prazer que a sociedade lhe oferece. O que seria quase um moralismo, incongruente da parte do mais lúcido dos homens.

A 'psicologia das profundezas', pela sua motivação principal, deveria ser um instinto, apenas mais complexo. Mas desde a 'interpretação dos sonhos' freudiana julgamos saber que as 'profundezas' são tão providas de sentido como a 'superfície', com uma hierarquia articulando os dois níveis, o que introduz uma espécie de 'fatum'. O herói aqui é Lawrence (da Arábia), que diz aos fatalistas que "nada está escrito".

Não deveria ser caso de espanto aprendermos que a nossa preguiça (que tem consequências) tem o preço da nossa liberdade. Mas vigilância e diligência só nos podem salvar da culpa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Lisboa

Franz Kafka


"Kafka sabia (temos o seu testemunho relativamente a esta percepção) que tornara uma letra do alfabeto romano só sua."
George Steiner

Nenhuma obra foi tão carregada de premonição, como a de Kafka. Assim, erguendo-se como um pórtico à entrada do século XX, não podia deixar de atingir com a sua sombra o sentido da tragédia que se seguiu. Houve outras ditaduras e outros regimes inumanos como os de Hitler e Staline. Mas estes estavam crismados pelo absurdo e pelo autofagismo burocrático, antes de serem de facto.

O paradoxo da civilização que engendra a barbárie mais monstruosa tinha o seu enquadramento na 'imaginação' de Kafka. Ao nomear a sua personagem principal (no 'Processo' e no 'Castelo') com o apelido K, a sua própria inicial, o escritor checo criou um símbolo de grande eficácia literária e política para designar a sociedade que acabara de perder Deus e que, num inesperado ricochete, estava em vias de perder a Razão, como a loucura de Nietzsche parecia significar. Não tem um conteúdo, é um 'molde' para 'compreender' a época. O texto de Kafka assemelha-se aos óculos de que fala Proust. O oculista pergunta-nos se, com eles postos, vemos melhor. E sim, tudo parece mais nítido. A sociedade 'totalitária', tendo ingerido a justiça e a tradição, dá grandes arrotos de não-sentido. Coube ao mais inverosímil dos heróis mostrar o absurdo.

A Justiça, no 'Processo', não é um ideal. É uma 'montagem' para manter o sistema da culpa. O 'acusado' K. morrerá "como um cão", sem conseguir saber qual é o seu crime. Mas isso é a ponta de um 'iceberg' chamado cumplicidade. E é o que  nos leva, passados 70 anos sobre os 'campos', a recusar a ideia do monstro nascido de um parto asséptico, anti-mefistofélico, em que, como Pilatos, não tivéssemos ensanguentado as mãos.

domingo, 6 de setembro de 2015

Sem título

 

(José Ames)

 

O VALOR DA ARTE

 

"A estética da produção ostenta a experiência do artista genial, que 'cria' valores: do seu ponto de vista, as apreciações de valor são ditadas por um "olhar que põe valores." Se, no entanto, o pensamento já não puder movimentar-se no elemento da verdade e, de um modo geral, das exigências da validade, então contradição e crítica perdem o sentido. 'Contradizer', dizer não, já só contém o significado de 'querer ser diferente'."

(Jürgen Habermas)


Na pintura, por exemplo, já estamos nesse ponto. Se o espectador vir a diferença é tudo o que importa. O único valor que se impõe não é intrínseco à obra de arte, nem 'criado' por nenhum artista genial. É o que é ditado pela lei da oferta e da procura (sabemos que a arte é, cada vez mais, um 'valor-refúgio').

Não há razão nenhuma, como pintura, para consideramos o quadro 'Os Girassóis' de Van Gogh (um dos mais caros do mundo) mais valioso do que a pintura de um desconhecido que não consegue vender os seus quadros. O valor de mercado é exterior a qualquer apreciação desse género. Deveria ser possível, no entanto, que o valor mercantil aumentasse com um comentário especializado, ou com o reconhecimento de uma autoria, mas nada disso pode valorizar a obra em si mesma.

Ao pôr fora do nosso alcance qualquer critério 'objectivo' (por exemplo, a 'fidelidade' a uma percepção comum do objecto pintado - que a fotografia inviabilizou), realmente, a pintura tornou-se imune ao juízo negativo e a diferença passou a ser o único critério válido. Com isto, o tempo aparece como um 'criador' de valor. Quem não sentiu já, por exemplo, que um filme igual a tantos outros umas décadas atrás, ganhou, entretanto, uma espécie de valor, graças à sua diferença e à sua raridade?

À medida que a arte do passado se aproxima do estatuto de um 'vestígio' monumental, mais impossível se torna apreciarmos o seu valor íntrinseco.