sexta-feira, 31 de agosto de 2012

(José Ames)

MULHERES DE DITADOR


Nadia Krupskaia 




Staline, com a sua habitual subtileza, dizia que não era pela Krupskaia dormir com Lenine ou usar a mesma casa de banho que compreendia melhor o marxismo-leninismo (Diane Ducret, "Femmes de dictateur").

Isso, claro, era uma maneira de falar, porque nunca a competência naquela teoria (em Boukharine, por exemplo) impediu  Vissarionovich de passar as suas lagartas sobre os companheiros revolucionários.

E, contudo, ele que se atirou em desespero para a cova de Kato, a sua primeira mulher, amou como o protagonista do conto de James ("A fera na selva") gostaria de ter amado.

Lenine, pelo seu lado, nunca foi o déspota para a família que foi o seu sucessor. Mas levou-lhe a palma na lógica da instrumentalização. Tinha um forte preconceito sobre o "sexo" que o guiava nessas questões. "Lenine repete, com efeito, para quem o quer ouvir que nunca conheceu uma mulher capaz de ler 'O Capital', nem de se desenrascar com a tabela horária dos comboios, nem mesmo de jogar o xadrez." (ibidem)
  

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Madeira (José Ames)

CORRUPTIO

society6.com





Olhando à etimologia, uma sociedade corrupta é uma sociedade que perdeu a coesão (tornou-se 'fraccionária'). Mas é óbvio que o termo não se aplica à sociedade de classes, que é coesa (funciona como um todo) na sua própria divisão.

Hoje, porém, assistimos, muito graças à comunicação global, à degradação desse 'cimento' ou consenso passivo que iludia a fractura social.

Temos, por isso, uma sensibilidade nova em relação a um fenómeno antigo ao qual se adequa o termo de corrupção.

Desde o latim 'corrompido' pelos bárbaros e a depravação dos costumes, ou o gosto popular 'corrompido' pela massificação, até à compra de juízes e deputados tudo é, ao mesmo tempo, uma questão ética e uma dinâmica de 'subversão' da ordem existente que se confunde com o processo da adaptação.

Só a decomposição do cadáver parece ser irreversível e significar o fim da vida (mas trata-se apenas de um processo mais longo de adaptação, a uma escala não humana).


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

(José Ames)

NEURÓNIOS



"Já não há terra secreta, os catálogos de viagem
 cobrem,  com mapas pormenorizados,
 90% dos segredos. Os heróis vieram directamente
 das lendas para os parlamentos;"

(Gonçalo Tavares:"Uma viagem à Índia")


Tudo o que vive está sob escrutínio, à medida que as comunicações se tornam uma gigantesca prótese do cérebro.

E é, evidentemente, impossível voltar a um estado menos...complexo.

Estamo-nos, pois,  a despedir, neste nosso século XXI, duma espécie de infância do mundo. Tudo se cobre da nossa nostalgia ou nos parece mais pequeno, quando voltámos aos mesmos lugares. A experiência passada tem uma geografia que não confere com os mapas.

Uma das consequências do GPS é a de não precisarmos de mapas nem de usarmos a boca "para chegar a Roma". De certo modo, essa ubiquidade da informação parece que nos infantiliza. É como termos um "anjo da guarda".

Na verdade, isso é fazer parte dos novos neurónios. E não sabemos que espécie de indivíduo vai sair daí.

Gonçalo Tavares refere-se a um mundo perdido de lendas e heróis. E aquele advérbio exprime bem a velocidade com que o perdemos.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Veneza (José Ames)

É NECESSÁRIO

Roberto Calasso

"A Necessidade é um laço que cerca, uma corda de nós (peîrar) que retém o todo no seu limite (péras). Deî, 'é necessário', palavra fundadora, aparece pela primeira vez na 'Ilíada': 'Por que é necessário (deî) que os Argivos façam guerra aos Troianos?'"

(Roberto Calasso)



A certa altura, como notou Simone Weil, a única razão para continuar a guerra é que ela já fez demasiados mortos. É preciso honrar esses 'heróis', levando a vingança até à aniquilação final.

Por isso, Helena deixa de ser um motivo convincente para o massacre. Ela pode estar no Egipto ou ser apenas um fantasma. Porque os mortos, mais ainda do que reconhecia Comte, governam os vivos. E não é apenas através da cultura e das tradições que esse governo se exerce.

Em Homero, eles, os mortos, parecem ser a própria razão de ser de Gregos e Troianos. E essa é, talvez, a essência da religião. Não o diálogo entre os vivos, mas com esse  'além' dos mortos, sempre tão real e tão próximo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

(José Ames)

CAMPÂNULAS DE SILÊNCIO

Igreja de Santa Clara (Porto)





No centro do bulício e do tráfego automóvel, uma campânula de silêncio.

O espírito pode estar em todos, como o bom senso cartesiano. Mas se o mundo e os outros não lhe derem espaço, nem  sequer se pode alcançar a vontade e a decisão. Fica só a violência. E só quando esta se interrompe, é que a vontade se pode exercer.

Uma igreja na cidade foi pensada para o culto, mas há melhor do que a curiosidade estética para quem entra e não é da confissão: o lugar propício para se entender o silêncio.

domingo, 26 de agosto de 2012

Paris (José Ames)

TEORIAS E ESPANTALHOS




“A inconsistência sempre foi o calcanhar de Aquiles do pensamento liberal; que combina uma confiança inabalável no Progresso, com uma não menos estrita recusa em glorificar a História, em termos marxistas e hegelianos, sendo que só esta poderia justificar e garantir aquele.”

Hannah Arendt ("On violence")




O papel da teoria nas nossas vidas é geralmente desconsiderado. Mas é a passagem dum simples preconceito a uma teoria, mesmo incipiente, que frequentemente endurece as posições e faz com que algumas leis razoáveis não tenham qualquer viabilidade prática.

A ideia do Progresso é, no fundo, a crença em que o desenvolvimento natural das actuais potencialidades da sociedade humana, se não entravarmos o seu curso espontâneo, é essencialmente bom para a Humanidade.

Um dos pais do liberalismo económico, Adam Smith, acreditava no Progresso, sob a forma da célebre Mão Invisível que, no final de contas, transformava os vícios privados em virtudes públicas.

Tal optimismo foi, posteriormente, várias vezes desmentido pela realidade, levando a que os Estados, muitas vezes, tivessem que ajudar a Mão Invisível. De facto, a ideia do Progresso não está alicerçada em nada, a não ser no prodigioso desenvolvimento das ciências naturais, a partir do século XVI, e das suas aplicações técnicas, as quais, por outro lado, tornaram o planeta cada vez mais vulnerável. Isto é, marcaram um prazo para o Progresso, tal como tem vindo a ocorrer, ao fim do qual só nos resta desaparecer ou voltar atrás, se for ainda possível.

A inconsistência de que fala Hannah Arendt, a propósito daqueles que confiam no livre jogo das forças em presença (mesmo quando concedem nalguns amortecedores) é também o fruto, ainda mal digerido, da terrível experiência, no século XX, do Estado totalitário.

Mas quando a experiência nos leva a incorrer no erro contrário, não é uma experiência, é um espantalho.

sábado, 25 de agosto de 2012

(José Ames)

NÃO MERECEMOS A FLORESTA




Fica provado que não são precisos 30º graus de temperatura e que nem sequer sol é preciso (pode começar à meia-noite), para perdermos floresta. Época de incêndios é quando um homem quiser.

Basta só que não chova e... o factor humano.

Mas sejamos justos: não são apenas os casos mentais, nem os paus mandados de interesses económicos, nem o abandono dos campos. Pode dar-se que os autores nem sequer saibam o que fizeram, e então temos que culpar a velha e revelha falta de civismo.

Lançar uma perisca da janela do carro ou da bicicleta é tão automático para quem está habituado a deitar papéis para o chão ou pela janela e a deixar pelos passeios, jardins e bancos do autocarro essa nova praga dos jornais gratuitos, que não nos podemos admirar.

Assim, apesar duma ponta de cigarro ser tão temível como uma granada na berma da estrada, em tempo de seca, e dos estragos poderem ir até à destruição de habitações e à morte de pessoas, temos que reconhecer que não merecemos a floresta.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Aachen (José Ames)

O MAL JACOBINO

Jacobinos


“Foi por um lado a herança do Terror, por outro, a influência do exemplo inglês, que instalou os partidos na vida pública europeia. O facto deles existirem não é de modo nenhum um motivo para os conservar. Só o bem é um motivo legítimo de conservação.”


Simone Weil (“Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos")


Simone Weil via nos partidos o mal em estado puro. Herança da Revolução Francesa, a qual tinha incorporado o espírito da Inquisição que combatera, os partidos tornam-se, inevitavelmente, o fim de si mesmos, procurando o crescimento ilimitado e exercendo uma pressão colectiva sobre o indivíduo que é destrutiva do pensamento livre.

É assim que propõe aos chefes da Resistência no exílio a supressão geral dos partidos políticos para depois do fim da guerra mundial.

Simone ressalva o caso dos partidos anglo-saxónicos cuja tradição, que “não é transplantável”, apresenta um elemento de jogo e de desporto, só possível “numa instituição de origem aristocrática.”
 
“Acha-se perfeitamente natural, razoável e honroso que alguém diga: “como conservador” ou “como socialista – eu penso que...” e “(...) se não há verdade, é legítimo pensar desta ou daquela maneira enquanto se é isto ou aquilo.”

Ora, parece que esta é a maneira de falar de todos os políticos. Portanto, como se a verdade fosse relativa e dependesse de se pertencer ou não.

Esta posição radical do filósofo tem, pois, muito a ver com a actualidade. São cada vez mais as vozes que reconhecem o império asfixiante dos partidos na vida política e a corrupção generalizada que esta inversão dos meios e dos fins acarreta.

Para Simone, os partidos, como máquinas de fomentar a paixão política, trabalham contra a democracia e, ao levarem os seus membros a defenderem um pensamento colectivo (quando só o indivíduo tem a capacidade de pensar), são contra a verdade.

A desvalorização da política tem, evidentemente razões culturais profundas, em que o descrédito dos partidos é apenas uma parte do problema. De resto, talvez que a crescente aproximação dos partidos continentais ao bipolarismo anglo-saxónico venha ao caso.

Por outro lado, é claro que a democracia sem os partidos ficaria demasiado exposta à organização estatal e à movimentação clandestina, para além de que os media têm hoje um poder que não tinham. Está pois por inventar um novo equilíbrio que nos poupe o dilema entre partidos jacobinos e partidos sem alma.

Uma coisa é certa: democracias exangues não podem vencer o fanatismo religioso. E isso é duma urgência que está à vista de todos.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

(José Ames)

ESTÁTUAS DE SAL

O rei de sal (Cracóvia-foto de Risto Hänninen)



“A visão trágica da literatura grega gira em torno deste paradoxo profundo: o acontecimento mais esperado, mais ligado à lógica interna da acção, é também o mais surpreendente.”

George Stein (“Depois de Babel”)



Por que será assim? Mas esperado não quer dizer que o seja consciente ou pacificamente.

É assim a morte para cada um, que todos esperam, sem que ninguém saiba quando nem como vem. Outra coisa é a lógica dos nossos actos, cujas consequências não podemos inteiramente determinar, mas que importam uma necessidade até certo ponto legível.

O que acontece é que sem a capacidade de nos iludirmos a nós mesmos e de fabricarmos os nossos próprios mitos definharíamos de realidade, ante o rosto de medusa da morte e a vertigem da responsabilidade absoluta.

Não podemos olhar directamente sob pena de nos tornarmos em estátuas de sal.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Aachen (José Ames)

A PELE DAS IMAGENS

Rainer Maria Rilke



Há nas imagens uma perfeição que nos permite patinar, sem sair da sua superfície lisa. 

O estilo MTV é o extremo dessa irrealidade. A vida não tem espessura, nem duração. E tem o sentido dum chão de gare riscado por milhões de passos.

Dizem que vivemos num mundo de imagens e que uma imagem vale mais do que não sei quantos discursos. Não sei. 

Não podemos pensar por imagens, e uma imagem pode seduzir-me, mas nunca convencer-me (depois do digital, haverá imagens fidedignas?).

E quando é que uma imagem me abrirá o mundo da 3ª Elegia de Duíno?

“(...) Escuta, como a noite se arredonda e se cava. Ó estrelas, não provém de vós o desejo do amante pela face da amada? Não lhe vem este olhar íntimo, que penetra na face pura dela, da pureza dos astros?(...)”


Rainer Maria Rilke (As Elegias de Duíno – tradução de Paulo Quintela)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

(José Ames)

SUSPEITA




Em “Suspeita”, Gary Grant é um homem em quem não se pode confiar, e Joan Fontaine, uma mulher capaz de acreditar no maior dos escroques, desde que o possa considerar irresponsável como uma criança (quando se encontram no comboio, ele viaja em 1ª com um bilhete de 3ª e ela lê ”Child psychology”). O limite é o assassinato, e só quando Fontaine suspeita que Grant assassinou o seu melhor amigo para pagar as dívidas é que começa a ver o marido com outros olhos e a temer pela própria vida.

Essa mudança de visão é sensível na encenação (Grant enfia-se, de costas para o espectador, num plano médio de Fontaine, como se a estivesse a observar em silêncio, o que lhe provoca um estremecimento de susto, uma teia projecta-se sobre outra cena, o leite que se suspeita envenenado está iluminado por uma lâmpada dentro do copo, enquanto a música parodia num tom sinistro a valsa do primeiro baile), e encaminha-nos para a conclusão de que Grant é realmente culpado do assassinato do amigo e da intenção de matar a sua mulher, de acordo, aliás com o 'script'.

Ora, isso não acontece, porque Hollywood, invocando os desejos do público não está de acordo em adulterar a imagem de marca do actor ( e o consequente rendimento).

Tirando o final inconsequente, em que toda a manipulação do espectador parece feita em vão e apenas para salvar o efeito de surpresa, o filme faz jus à arte hitchcockeana de iludir com brilho e inteligência, sem quaisquer premissas éticas ou de estética.

Mas o facto de se verem os “cordelinhos” não permitirá a esta obra, apenas voltada para o domínio oficinal, alcançar o estatuto de outras, ditas duma arte maior e mais inspirada? Teríamos, então, de considerar esta arte “desonesta”? Mas acaso poderá ser desonesto alguém que anuncia que nos vai enganar para nosso deleite?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Porto (José Ames)

A POÉTICA DA SAUDADE





"A palavra poética não se opõe apenas à linguagem comum, mas também à linguagem do pensamento. Nesta palavra, não somos mais reenviados para o mundo [...]. Nela, o mundo recua.".


(Maurice Blanchot, in "L'espace littéraire", cit. Jean-Pierre Cometti)


O mundo recua para fazer espaço a um mundo 'criado', regido pelas suas próprias leis, mas que não perdeu o outro 'de vista'. Se não, como teria sido possível o nascimento da poesia?

De resto, todas as nossas construções teóricas, as próprias ideias políticas que nos 'reenviam para o mundo' podem tornar-se 'poéticas' pelo desaparecimento desse mundo, pelo anacronismo, enfim.

Se pensarmos no papel dos deuses na vida dos Romanos ou dos antigos Gregos, vemos a poesia mancomunada com a política.

Hoje, porém, o território poético e o político parecem claramente demarcados. Mas basta falarmos com um 'saudosista', de qualquer sinal, para nos darmos conta que não é assim.

domingo, 19 de agosto de 2012

Bastide (José Ames)

O TEATRO DO COLOSSO



"Ele vinha elevar a sua alma ao tom que era preciso para sentir a beleza e os defeitos do seu próprio desenho da cúpula de S. Pedro, tal é o império da beleza sublime; um teatro fornece ideias para uma igreja."


"Promenades dans Rome" (Stendhal)


Miguel Ângelo cismando nas ruínas do Coliseu. Mas aquele foi um cenário de massacres hediondos para pasto dum público depravado. Se bem que o vaso não seja o veneno que pode conter... A arquitectura mais grandiosa e menos grandiloquente, simples, necessária (hoje diríamos 'funcional') pode sempre ser associada ao crime pelos seus 'utilizadores'.

Com a mudança do regime, em Portugal, as sedes da polícia política não foram arrasadas, foram convertidas em museus de história. Os cristãos, depois de Constantino, contemporizaram com a 'glória de Roma', transformando os seus monumentos em igrejas, ou saquearam-nos, pedra a pedra, coluna a coluna. O Coliseu é o melhor exemplo visto ter sido durante séculos uma pedreira para os palácios da aristocracia religiosa ou não. Stendhal refere o caso dos Barberini (o seu palácio é hoje um dos mais importantes museus romanos), que motivaram o célebre adágio: 'Quod non fecerunt barbari fecere Barberini': o  que não fizeram os bárbaros fizeram os Barberini (Paulo II é responsável por ter feito abater o lado  meridional).

O milagre dos milagres, pois chegou quase intacto à nossa era, é o Panthéon. Já foi igreja e agora é uma espécie de mausoléu ( o mais célebre dos seus 'inquilinos' é Rafael).

Em toda esta ideia de beleza sublime aplicada a monumentos como o Coliseu, percebe-se que é um pouco a civilização romana que se julga e quase nada o sacrifício dos primeiros cristãos, considerados pelo poder de então, e com grande perspicácia, como uma seita subversiva.

De facto,  a nova religião atingiu o império no seu íntimo mais vital, verificando-se, no entanto, uma reapropriação do antigo, mais do que uma extinção. Era essa mescla perigosa de prestígio romano e de pompa cristã que, por exemplo, Simone Weil execrava.