domingo, 31 de janeiro de 2016

(José Ames)

HOMO SIMPLEX




"(...) a ideia que Engels retirou de Saint-Simon: a dominação dos homens pelos homens cede lugar à administração das coisas."
(Jürgen Habermas)

Foi esta fórmula que inspirou a Lenine a célebre parábola da cozinheira, suficientemente instruída para dirigir o Estado proletário, a qual, por sua vez, esteve na origem de "La cuisinière et les mangeurs d'hommes" de André Glucksmann.

A ideia é 'proletária', como diria Alain. Se a sociedade deixar de ser 'artificialmente' complicada pela desigualdade nas 'relações de produção', isto é, quando a 'divisão de tarefas' implicada pelo sistema de produção for apenas técnica e sem consequências políticas e sociais, quando, finalmente, a sociedade, vendo-se ao espelho, se reconhecer numa imagem sem fracturas 'esquizóides' (Deleuze), inconsútil na unidade virtuosa do 'bom selvagem' todos os problemas políticos serão mitológicos e o governo do Estado poderá ser entregue a um administrador ou a uma administradora medianamente competente.

O 'espírito proletário', confrontando-se com um problema mecânico, vai direito ao assunto sem mais subtilezas interpretativas. A ferramenta (a revolução), existindo desde os Profetas Alemães, há só que aplicá-la, pondo fim ao palavreado inútil que mais não é que um sofisma da 'ideologia dominante'.

A realidade, depois desta terraplanagem teórica, torna-se de facto muito simples. E a única divisão que persiste é entre os que têm e os que não têm 'vontade política'.

sábado, 30 de janeiro de 2016

(Alcácer-do-Sal)

LEVIATÃ

Frontispice du Léviathan de Thomas Hobbes


Na política, onde se encontram tantas paixões, qualquer coisa tem de ser sempre de mais, ou sempre de menos. O ponto de vista é rei e, dum certo ponto de vista, todos têm razão. Quando há um acordo sobre o princípio é para melhor se dissentir na aplicação.

Reclama-se tempo para estudar ou para negociar e ao mesmo tempo quer-se a energia e a coragem de cortar a direito.

Embora todos saibam que decidir não é conciliar, nem contemporizar, mas preterir, pôr de lado, sacrificar, ter uma agenda e ter prioridades, a escolha a todos escandaliza. Não sendo as mais importantes, as questões de forma ocupam toda a cena política.

É desta algazarra, porém, que sai o poema coral e, se não se vê uma racionalidade, é porque um equilíbrio de tensões não é um pensamento, mas é como que um ser natural que se move sempre para a frente e sempre em risco de cair.

"Não se desmonta uma máquina enquanto ela trabalha; assim, para que a unidade do indivíduo se mantenha e se confirme, é preciso que uma cooperação constante associe as suas forças, e que o equilíbrio sem cessar ameaçado seja sem cessar reparado, como numa marcha que é com efeito apenas uma queda sempre impedida."
"L'action" (Maurice Blondel)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

(José Ames)

ENTRE CILA E CARÍBDES




"Alain é daqueles que sabem que crêem, e não daqueles que crêem que sabem."
(André Sernin) 

Não podemos culpar a Europa que cumpre uma rotina ao mandar-nos os seus 'legatis in partibus' para nos lembrar os nossos compromissos, de acordo com regras consentidas, regras que, desde o princípio, servem para normalizar a 'relação de forças' e a violência da sociedade real. Não preciso de lhe chamar capitalista, o que tal sociedade obviamente é, porque no capítulo da violência estrutural, nenhuma utopia política que até agora se tenha tentado levar à prática foi capaz de resolver esse problema.

O poder da União Europeia não se pode definir por nenhuma das alternativas em epígrafe. Com efeito, não precisa de crêr que sabe, nem de saber que crê. Porque toda a sua ciência é administrativa e fiscalizadora das suas condições de auto-preservação, e mais não se pode pedir à burocracia, ou ao 'Afável Monstro de Bruxelas', como lhe chamou Hans Enzensberger. Como a União não existiria sem a criatura, com mais ou menos decoração democrática, o melhor é procurar outro antídoto, dado que uma certa dose de burocracia é sempre necessária.

Se isto for verdade, Catarina Martins (não falo do resto da esquerda porque tem uma história de bloqueamento suficientemente elucidativa.) talvez não seja tão irrealista como parece nas entrevistas da televisão. Porventura ela sabe que crê, porque ninguém sabe, e muito menos os técnicos de economia e as agências de notação que, no entanto 'existem', como verdadeiros escolhos.

Mas a política pode ser um mar agitado e o importante é encontrar passagem entre Cila e Caríbdes.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

(Lisboa)

HIPNOSE

cienciahoje.uol.com.br




"(...) ele quis acordar do sono antropológico todos aqueles 'que não querem pensar sem ao mesmo tempo pensarem que é o homem que pensa.'"

(Jürgen Habermas, referindo-se a Michel Foucault)

Como se sabe, Kant tentou despertar-nos, a primeira vez, de um sono 'dogmático', sono que impedia a razão de reconhecer os seus próprios limites e a fazia correr atrás dos nossos sonhos.

Mas, entretanto, a filosofia descobriu um sono mais profundo ainda, aquele que tem sustentado, há mais de dois milénios, a noção de sujeito que está na base da civilização ocidental e do próprio monoteísmo.

Desde que o objecto de estudo passou a ser a forma e as condições do pensamento, a estrutura linguística e as suas regras, de acordo com o programa materialista (que já vem de Demócrito - Marx dixit), a 'hipótese de Deus' tornou-se, de facto, supérflua (Laplace).

O inesperado surge com a necessidade teórica de fundamentarmos a existência de um sujeito individual que pensa, depois da genial tentativa cartesiana. E dá-se que a hipótese de tal indivíduo, pode ser, também ela, afastada.

A conclusão é a de que não podemos pensar o que pensamos. Algo, a linguagem, o contexto, a história, a Natureza, nos confisca essa autoria. Já dizia o poeta: 'o que em mim sente, está pensando'. E Freud cavou no mesmo terreno com o seu Inconsciente.

Até a fórmula de Alan Kay, um pioneiro dos computadores ('A melhor maneira de predizer o futuro é inventá-lo.'), parece parte de uma hipnose.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

(José Ames)

O VAZIO



www.elephantjournal.com



"'A acústica do vazio'. Quando um alfinete cai no soalho de um quarto vazio, o ruído que faz parece desproporcionado, desmedido: é o mesmo que acontece quando o vazio reina entre os seres."

"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

Basta a mobília para que um quarto não esteja vazio. Ninguém precisa de estar lá. Entre os seres, é o tempo (em) comum que os 'mobila'. Não só o passado, porém, mas todos os modos do tempo.

Perante um desconhecido não é o vazio que aparece, mas as projecções recíprocas de um futuro, por insignificante que seja. De facto, o que é natural é darmos-lhe algum crédito, antes de sabermos se o merece. Alguns dos mudos figurantes da nossa 'comédia humana' são mesmo indecifráveis e, provavelmente, profundos (de um modo não queirosiano). Mas o vazio nunca é o caso.

O cineasta Antonioni, nos anos setenta, ficou célebre por ter introduzido em alguns dos seus filmes o tema do silêncio entre as personagens, uma espécie de 'mal de vivre' sem causa específica. É, contudo, legítimo pensar que o cinema tem a sua própria geneologia e que este desconforto das personagens de Antonioni descenda, por emaranhados caminhos, do 'Rebel whithout a cause' de Nicholas Ray. O ponto, no entanto, é que o vazio não dá lugar a nenhuma rebeldia. São mundos separados por velocidades diferentes. Daí a incomunicabilidade que James Dean tão bem exprimiu.

A frustração e a impotência é que preenchem esse silêncio. Coisas negativas, decerto, mas que não fazem o vazio.



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

(Lisboa)

A NOVA LÍNGUA





(www.hobotraveler.com)






"(...) existe agora uma linguagem do bem e do mal, inteiramente nova, que dá origem a uma tentativa de ir 'para além do bem e do mal' que nos impede doravante de falar com qualquer convicção acerca do bem e do mal. Mesmo aqueles que deploram a nossa condição moral o fazem na própria linguagem que exemplifica essa condição. A nova linguagem é a do relativismo dos valores, e constitui uma mudança na nossa visão das coisas da moral e da política tão grande quanto aquela que ocorreu quando a Cristandade substituiu o paganismo Grego e Romano. Uma nova linguagem reflecte sempre um novo ponto de vista, e a popularização gradual, inconsciente de novas palavras utilizadas de nova maneira, é um sinal seguro de uma mudança profunda na articulação do povo com o mundo."

"The Closing of the American Mind" (Allan Bloom)

O Estado absolutista não descurou a necessidade de controlar a língua e de normalizar as regras da gramática e da sintaxe, tentando, assim, pôr em execução uma 'polícia da palavra' que compreendeu ser tão ou mais importante do que a polícia dos costumes. Mas, no fundo, trata-se de uma utopia política, como aquela que Platão tentou implementar em Siracusa, com risco da sua vida.

O controlo da sociedade sobre o indivíduo parece ser o alfa e o ômega da política. Um controlo eficaz seria compatível com qualquer regime. Levar-se-ia o prisioneiro a louvar as grades e o mais escravo a submeter-se, feliz, porque 'compreensivo', fazendo de Job um caso de rebeldia e de contumácia.

Claro que a 'sociedade', depois de Marx, pode ser vista como a mais ingénua das imposturas. O controlo social é, antes de ser do interesse da sociedade como um todo, satisfaz os privilégios da 'classe dominante'. Estas são palavras que já foram novas e que mudaram a maneira de pensar das pessoas.

Mas hoje existem outras palavras que expõem esse dogmatismo, uma vez revolucionário, e denunciam a natureza retórica dos seus argumentos.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

(José Ames)

O DESEJO DE LÓGICA




"Como a ideologia, em suma, que pode dar conta de tudo e que pode fazer face a todas as questões porque não são mais do que questões 'retóricas' para dogmas prévios."

(Michel Meyer)

O modelo deste 'fechamento' é o silogismo lógico, que 'responde a priori às questões que poderiam tornar a proposição problemática.' (Idem)

Aqui podemos ver, por parte da razão, um 'desejo de lógica' por detrás do proselitismo ideológico que só não tem sucesso por lhe faltar o mesmo nível de abstracção e de concisão do silogismo. Até o escravo do 'Menon' platónico pode participar do pensamento geométrico e lógico do cidadão ateniense e testemunhar da sua consistência. O que deveria separá-los a esse nível seria a retórica de classe e os respectivos dogmas. Mas nada é menos certo do que a existência nas consciências de uma ideologia e muito menos da 'ideologia alemã' que só surgiria depois do grande cisma da Revolução francesa.

Em resumo, a ideologia não prescinde de uma lógica que não pode deixar de ser confusa para poder ocultar os seus 'dogmas'. A retórica é a arte de satisfazer o 'desejo de lógica' no mar das contradições.



domingo, 24 de janeiro de 2016

(Cork)

CEPTICISMO BENEVOLENTE


Sigmund Freud


"A atitude que mais apreciamos neles (os nossos pacientes) é a de um cepticismo benevolente. Tentai, pois, vós também, deixar lentamente amadurecer em vós a concepção psicanalítica, ao lado da concepção popular ou psicológica, até que se apresente a ocasião de uma e outra entrarem numa relação recíproca, medirem-se e associando-se, fazerem nascer finalmente uma concepção decisiva."
"Introduction à la Psychanalyse" (Sigmund Freud)

A palavra-chave é benevolência. Significa que, mesmo se ao princípio estamos um pouco incrédulos, estamos disponíveis para uma mudança de opinião.

É o mesmo crédito que temos de dar a um autor, antes de lermos a sua obra. O aborrecimento e a incompreensão são o preço a pagar pela preguiça ou pela má-vontade. Eis por que é tão raro o autodidata que não pode contar com a 'garantia' académica de que dedica o seu estudo aos 'melhores' e que o seu esforço será, seguramente, recompensado.

Mas temos boas razões para pensar que o sucesso da psicanálise, especialmente entre os Americanos, quando lhes levou, conscientemente, a 'peste', contou menos com qualquer 'cepticismo benevolente' do que com uma cultura urbana, sedenta de novidade e de ideias práticas, que espalharia aos quatro ventos uma teoria 'desmistificadora' e de grande operacionalidade ritual.

Nas palavras da 'Introdução', temos, além disso, o modelo de uma influência respeitadora da liberdade do indivíduo, como convém a uma sociedade democrática, que pode também ser interpretada como astúcia da razão invasora.

Porque corre-se o risco de um cepticismo encenado, meio ganho para a causa. Um compasso de espera em nome de uma certa 'delicadeza'.




sábado, 23 de janeiro de 2016

Bairro do Aleixo (José Ames)

JUSTIÇA E SEGURANÇA

Stanza della Segnatura

"Assim quando se fala do carácter moral que deve revestir a penalidade, é preciso entender unicamente que a culpabilidade é aqui apenas uma função do perigo social; que as circunstâncias atenuantes, agravantes ou absolutórias só podem ser avaliadas do ponto de vista da protecção comum; e que em vez de nos preocuparmos com uma justiça absoluta, com uma liberdade total e uma responsabilidade perfeita, temos somente que determinar em que medida a acção incriminada, procedendo duma decisão reflectida e por aí atinente ao que liga as vontades, toma um carácter contagioso, imitável, dissolvente para a vida colectiva. O que é essencial e legítimo aqui é portanto a necessidade da sociedade se conservar."
"L'action" (Maurice Blondel)


Ao ler esta passagem de Blondel vislumbra-se, através da confusão em que as sucessivas influências mergulharam a ideia da justiça penal, uma ordem, o palimpsesto duma verdade primordial.

Não existe nenhuma justificação para julgar o que não conhecemos, nem para punir a responsabilidade que não podemos determinar, senão a defesa de algo mais precioso e de sagrado, no que esta palavra conserva de irredutível. Precisamente, o meio vivo que alimenta o espírito e a liberdade do indivíduo.

Quando revemos a transformação que se operou na justiça, por efeito da psicologia e das ciências sociais, no sentido da desresponsabilização e da contextualização, a ponto de em boa verdade se ter que julgar mais a sociedade do que o indivíduo, percebemos como esse é um caminho sem saída.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

(Cascais)

A TEIMOSIA


inspirably.com


"(...) preciso de uma 'obstinação dúctil'."
(André Gide) 

Para escrever? Ou simplesmente para se manter 'igual a si próprio'?

Há uma espécie de teimosia no querer continuar. Porque não é a razão que nos pode convencer. Ela que é perita em atar e desatar os laços da lógica (a necessidade que veio do espaço, como alguns heróis das sagas).

Nem a inteligência, que mais depressa se deixaria convencer por todo o plano inclinado que se estende aos nossos pés. Julieta dos espíritos escorrega para a piscina azul da sua fantasia. E, antes dela, conhecemos todos o alçapão em cai Alice no seu sonho.

Embora pareça longe de favorecer estas quedas e escorregadelas, a verdade é que a inteligência nos seduz a metermo-nos por estranhos caminhos, alguns dos quais terminam no pesadelo. E se estamos a sonhar, por que não poderia ser assim?

Daí a obstinação, também chamada de persistência pelos 'bons olhos' e de estupidez, ou de uma certa limitação do juízo, pelos 'maus'. Mas talvez se encontre aqui um nó dos muitos em que se deixa prender o 'livre pensamento'. Não é verdade que Cristo chamou a si as criancinhas e os 'pobres de espírito'? E embora alguns fariseus de sempre queiram reservar a expressão para aqueles que, sendo ricos pelos critérios normais, se comportam como pobres (mas para isso há um nome mais acertado que é o de avareza), os 'pobres de espírito' são legião e a presa favorita dos predadores deste mundo, os espertos. É o 'mexilhão' do adágio popular 'quando o mar bate na rocha...'

Seja como for, um certo grau de teimosia, em que a 'estupidez' aparece mais como uma técnica de sobrevivência e um método natural para lidar com a complexidade artificial e as distorções do poder, do que com um 'defeito'. A literatura dá-nos um exemplo desse tipo de homem quando se refere à 'manha' do camponês (como a do pai Sorel, na obra-prima de Stendhal).

Gide quer que ela seja 'dúctil', talvez porque não confie nos seus instintos.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

(José Ames)

A ESPERA





"Ele era sem qualquer dúvida um homem crente, mas que não cria em nada; a sua devoção à ciência nem sequer tinha conseguido fazê-lo esquecer que a beleza e a bondade dos homens provêm daquilo em que eles crêem, e não daquilo que sabem."
"O Homem Sem Qualidades" (Robert Musil)

O que é um crente que não crê em nada? Falamos aqui da força dessa crença, e Ulrich teria uma crença demasiado débil para influenciar a sua vida? Ou deveríamos considerá-lo um homem mais propenso à crença do que às provas da ciência? De qualquer modo, fora do 'saber' e do conhecimento, nenhuma espécie de transcendência fora suficientemente viva para não preferir uma razão limitada à partida.

Portanto, à falta de melhor, é um crente 'em esperança' (como Stendhal dizia de Mathilde de La Mole, na célebre análise de Alain).

Sirvo-me ainda desta personagem do 'Le Rouge et le Noir' para dizer ainda o seguinte: aquele que espera, sem ter encontrado ainda, ou mesmo que não venha  a encontrar, é inconfundivelmente crente dessa esperança. É a falta de objecto dessa crença, como é o caso, no fundo, de toda a crença no futuro que justifica o veredicto de Musil sobre a personagem.




quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

(Aquileia)

O ELOGIO DA LOUCURA

Claude Lévi-Strauss


"Nenhum psicólogo comportamentalista que observasse as pequenas aldeias isoladas no Interior do Brasil declararia decididamente que os seus habitantes 'desenvolvem diferentes formas de loucura' a fim de enfrentarem a chuva, as carências alimentares e a desolação."

(Lévi-Strauss, citado por George Steiner)

Segundo este pensamento, a razão tem a capacidade de se 'retrair' para dar lugar a uma estratégia de sobrevivência mais eficaz do que ela, chamemos-lhe instinto ou outra coisa qualquer. O poder racional surge a esta luz como um luxo da sua evolução que o 'animal racional' nem sempre se pode permitir.

Estamos familiarizados, de resto, com esse retraimento perante a dor ou uma grande perda afectiva. Esses 'loucos', de algum modo, não consideram a sua racionalidade à altura do problema existencial que enfrentam.

Este comportamento tem um certo paralelismo com o fenómeno da hibernação que pertence ao domínio da 'economia da força vital' num ambiente demasiado hostil. Quem perde a razão para poder continuar a viver experimenta uma 'hibernação' de outro tipo, quase sempre irrecuperável para o sentimento da realidade.

É assim que algumas teorias, como a do 'crescimento zero' dos anos setenta, exprimem a necessidade de suster uma corrida desenfreada para o Caos, nem que seja por um inverno.

Stephen Hawkings, ao alertar, recentemente, para o lado destruidor da ciência e da tecnologia que a 'razão ocidental' é, por ela própria, incapaz de criticar porque se trata dos seus filhos mais queridos, não faz mais do que repetir o que a antropologia vem dizendo.


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

(José Ames)

INSEGUROS ANDAIMES




"Em todo o sofrimento, emoção, paixão, há um estádio em que isso pertence ao próprio homem no que ele tem de mais individual e de mais inexprimível e um estádio em que pertence à arte."

(Albert Camus)

O que seriam aqueles sentimentos se o pensamento ou a arte não os 'modulassem' numa forma que pode, até certo ponto, distanciar-se de nós e ser por nós contemplada?

Uma amálgama caótica resultante dos choques de um ambiente em que ficamos indistintamente envolvidos. Uma espécie de estado oracular através do qual o próprio universo parece balbuciar. Assim o entenderam os Antigos, seguindo a ideia de que, neste mundo (e no outro), 'tudo está ligado'.

A arte e a linguagem parecem confundir-se nessa função de fazer aparecer o mundo, de o replicar no nosso molde.

Mas não é o mais individual no homem que surge antes da forma artística, no automatismo enigmático da pitonisa que lhe é ditado pela natureza. É, pelo contrário, o colectivo e o animal.

Só o 'artista', na sua actividade criativa, pode atestar do indivíduo. O mais profundo em cada um de nós não é individual. Mas do que não sabemos, o melhor é o silêncio, diria o autor do 'Tratactus'...


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

(Génova)

A LIBERDADE

Henri-Dominique Lacordaire (1802/1861)



"(...) entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o patrão e o escravo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta.

(Henri-Dominique Lacordaire)


Esta citação de um dominicano é do ano em que Marx escreveu os seus famosos 'Manuscritos Filosóficos e Económicos', os quais, durante um tempo foram uma fonte, no próprio Marx, contra o marxismo oficial.

Podemos, ainda hoje, acrescentar alguma coisa ao seu conteúdo essencial?

A Liberdade inspirou todos os nossos heróis desde os Gregos. Lendo as páginas de Plutarco que foram uma verdadeira 'vida dos santos', na versão laica, para as elites europeias, ou os historiadores romanos, julgamos compreender tudo o que há a dizer sobre a liberdade. Bruto esteve sempre do lado certo, mesmo quando traiu o seu 'pai' espiritual. A Revolução Francesa inaugurou o princípio da liberdade na lei.

Com origem nessa mudança radical, descobriu-se uma nova teoria da sociedade e o método revolucionário para produzir efeitos semelhantes onde quer que 'estivessem reunidas as condições'. A desgraça é que ninguém possuía a fórmula dessas condições. Foi preciso que os continuadores de Hegel a extraíssem, já em armas, como Atena, da cabeça do 'Idealismo Alemão'.

Chega a parecer incrível a simplicidade dessa 'extracção': tratava-se de colocar a dita fórmula 'sobre os seus pés', como uma criatura normal.

Apesar desse começo nada auspicioso, os novos hegelianos foram certeiros ao identificar na grande Revolução a passagem de mãos do poder de 'jure' para o poder de facto e a nova supremacia burguesa. A Liberdade deixou de servir à aristocracia para oprimir o poder do dinheiro. Solução que estava na ordem das coisas, já que os nobres estavam, em grande parte, falidos.

Hoje sabemos que houve já uma transferência silenciosa, sem revolução, do poder da burguesia industrial e comercial para os 'Grandes': os Grandes Investidores, a Grande Finança, os Grandes Fundos e a Grande Especulação. Quando nos dizem que fazemos parte, através das nossas pensões, desses Grandes Investidores, atingiu-se a perfeição do sistema. 'La boucle est bouclée', como dizem os Franceses.

Voltando ao início, podemos dizer que a Liberdade nunca foi para todos, nem pode ser, nos termos de Lacordaire. Basta a necessidade de uma divisão de tarefas para multiplicarmos as desigualdades e as oportunidades para oprimir até ao infinito. A experiência soviética mostrou que as desigualdades do poder aumentaram exponencialmente, embora a diferença em rublos pudesse não ser tão 'expressiva' como nos países capitalistas, mas há que contar com a riqueza 'em espécie' da 'nomenklatura'.

Outra coisa óbvia é que não é a 'base da pirâmide' que faz as leis. Estas, 'devem' assegurar a 'desigualdade intrínseca' que faz o sistema funcionar.

Por isso, continua a ser verdade que a liberdade livre continua a ser a dos fortes; a outra é a liberdade retórica, em que as sociedades mais felizes acreditam. Quanto à lei, liberta uns e oprime outros, como sempre. Mas o seu primeiro valor é o da segurança do sistema que torna tais leis indispensáveis.

domingo, 17 de janeiro de 2016

(José Ames)

ANTENAS



"O que quero dizer é que, sem experiência, o pensamento pode ser justo, sensato, correcto e até profundo, mas dificilmente será comunicativo, transformador ou renovador;"
(José Mattoso)

O valor da experiência já teve melhores dias. Se a 'prótese' cerebral que representam os computadores e os 'smartphones' estivesse disponível, digamos, na Idade Clássica, não teríamos aquilo a que chamamos Civilização Ocidental. Pela simples razão que não poderíamos lidar com esse passado e com essa tradição. Anteciparíamos em mais de 2000 anos a civilização americana e o seu característico desenraizamento.

A ideia de Mattoso, a ser verdadeira, significaria que nos estamos a tornar cada vez menos 'comunicativos, transformadores ou renovadores', isto numa época em que parece que nunca fomos tanto essas coisas. O paradoxo só se resolveria se aceitássemos que a comunicação do tempo presente não é uma verdadeira comunicação, porque não comunicamos experiência, a experiência individual, pelo menos.

Talvez estejamos a participar na metamorfose da ideia de indivíduo que esteve na base da nossa filosofia de vida e da nossa sociologia. O indivíduo em rede não tem profundidade, vive numa única dimensão do tempo. É um neurónio de um novo tipo. Tem muito para ligar e muito pouco de um abismo pessoal.

Nem toda a experiência é transmissível, mas as 'antenas' podem tocar-se.

sábado, 16 de janeiro de 2016


(Viseu)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A FÍSICA PARTEIRA

Charles Péguy (1873/1914)


"(...) E um problema, do qual não se via o fim, um problema sem saída, um problema ao qual toda a gente estava aferrada, de repente já não existe e perguntamo-nos do que se falava. É que, em vez de receber uma solução ordinária, solução que se encontra, este problema, esta dificuldade, esta impossibilidade acaba de passar por um ponto de resolução, por assim dizer físico. Por um ponto de crise. É que, ao mesmo tempo, o mundo inteiro passou por um ponto de crise, por assim dizer, físico. Há pontos críticos do acontecimento, como há pontos críticos de temperatura, pontos de fusão, de congelamento; de ebulição, de condensação; de coagulação; de cristalização. Nos acontecimentos, encontram-se até mesmo estes estados de superfusão que não se precipitam, que não se cristalizam, que não se dominam a não ser pela introdução de um fragmento do acontecimento futuro."

"Clio" (Charles Péguy, citado por Gilles Deleuze)

É como quando se diz que o tempo resolve, e sem que se tenha procurado uma solução, o problema deixou de existir. Se somos demasiado velhos, e por maioria de razão se já morremos, já nada é como era. O mundo muda connosco, e ao mudar (e " não muda já como soía"), muda o sentido das nossas acções.

O "ponto de crise físico" foi atingido, talvez com o nosso concurso inconsciente, e o problema está já para trás, quando ocorre a imponderável antecipação do futuro.

Uma teoria revolucionária pode ser o fragmento de que fala Péguy, mesmo quando é um erro futuro, porque esta ideia já faz parte duma visão do mundo em que o problema deixou de se pôr, ou foi formulado de outro modo.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

(José Ames)

"MEMENTO MORI"




"Segundo ela (a noção egípcia de justiça), o ideal do bom juiz seria "fazer com que as duas partes saiam do tribunal satisfeitas".
(José Mattoso)

Este ideal pertence, justamente, ao Céu. Porque esse é o lugar onde todas as contradições se resolvem. As duas partes encontrarão um juiz 'compreensivo', ao ponto de não discriminar entre inocentes e culpados, levando a ideia da igualdade à sua plena consumação. Seria assim que um pai 'não-severo' julgaria uma querela entre os seus filhos, contextualizando sempre e dando à sorte imprevisível a sua parte.

Por que é que isto faz todo o sentido? Aqui parece que abdicámos de qualquer pedagogia ou de exemplaridade moral, como se o objecto da narração não pudesse 'mudar a sua vida', ou de algum modo corrigir-se. Como se falássemos do mundo dos Mortos.

O ideal do bom juiz só poderia influenciar a prática do tribunal e as suas decisões como um pensamento de segundo grau, que deveria estar sempre presente nos actos da justiça. Há uma certa semelhança entre este 'sub-texto' de uma justiça impraticável, sem deixar de ser 'produtiva', com o costume romano de lembrar os que alcançavam o poder de que eram simples mortais. "Memento mori."






quarta-feira, 13 de janeiro de 2016


(Braga)

OS NÚMEROS PRIMOS



"A série infinita de números naturais é (como a linguagem humana em geral) uma grande invenção do homem. Mas ninguém inventou os 'números primos': foram 'descobertos' na sequência do acto de contar."
(Karl Popper)

Por causa de questões como esta, o filósofo considerava-se um 'realista metafísico'.

O que está para além da natureza (Physis) é ainda Natureza. É a tese materialista. Deveríamos considerar todo o invisível e todo o inaudível, por exemplo, como fenómenos 'metafísicos'? Sabemos como os nossos instrumentos e a nossa razão tornam essa questão sem sentido.

De facto, não podemos ter consciência das últimas consequências dos nossos actos, nem sequer do verdadeiro contexto em que eles nascem. Ficamo-nos pelas aproximações mais convenientes.

Quando 'inventámos' a série infinita dos números naturais não precisávamos de mais do que contar. A descoberta de que esta operação não era tão simples como pensávamos e que implicava o encontro do 3. grau com o impensável dá crédito à ideia de que existem outras propriedades em todas as nossas invenções que são incompatíveis com a noção de que somos realmente os seus autores.

Uma vez mais, a humanidade se vê despojada da esperança de ser alguma vez o sujeito da sua história. Todo o indivíduo se confronta com essa fragilidade, mas sentindo-se parte da humanidade, recompõe-se em Deus ou no 'falso infinito' do Semelhante.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

(José Ames)

A ANTIMATÉRIA DO LOGOS




"Há ainda muita coisa por analisar na linguagem de Hitler, essa antimatéria do 'Logos'"
(George Steiner; "Martin Heidegger")

Com a passagem ao domínio público, o livro de Adolf Hitler, 'Mein Kampf', está a ser objecto de alguma polémica. Deve a democracia promover a divulgação do panfleto de um dos seus maiores inimigos?

A propósito desta questão, parecem confrontar-se dois pontos de vista irreconciliáveis: o da extrema-direita, inspirada pela ideia do poder absoluto como meio de regressar a uma espécie de estado pré-político em que todos os conflitos sociais se resolvessem pela força e que conta com o Estado para catapultar o seu proselitismo e, por outro lado, o de alguma esquerda que teme precisamente o poder diabólico da antimatéria de que fala Steiner.

Poderíamos ainda identificar, do lado da pró-divulgação, um certo 'politicamente correcto' que se sente suficientemente seguro para dar às ideias do líder nazi todas as oportunidades para conquistar os espíritos, submetendo-as à livre discussão e a uma análise objectiva, só possível com a distância histórica, na convicção de que a verdade se imporá pela evidência.

Ora, o que começa a tornar-se claro é que o impacto das ideias do 'frustrado artista' nascido em Linz dependeu de um contexto histórico de decadência e de desequilíbrio social de cujas entranhas haveria de sair à luz do dia um novo começo. O facto de hoje este livro ser ainda capaz de despertar polémica deveria, porém, levar-nos a pensar no que os tempos presentes conservam de um contexto histórico que julgávamos sepultado nos escombros da Alemanha ao cabo de duas guerras mundiais.

Steiner atribui, talvez, uma importância simbólica à linguagem do panfletista que ela não merece, e que significa ressuscitar, de certo modo, a teologia medieval.

Mas também é verdade que 'há ainda muita coisa por analisar' nessa linguagem. Principalmente porque o que aqui está em causa ultrapassa em muito o indivíduo. Nesta divisão de tarefas entre o indivíduo e a massa podemos até conceber que Hitler foi, a maior parte do tempo, o ventríloquo de um desvario colectivo. Como se poderia então 'analisar' a sua linguagem? E será ainda linguagem?



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

(Lisboa, Museu do Teatro)

SOB INFLUÊNCIA




Uma conversa amorosa não deixa de o ser em surdina quando a actualidade parece tomar conta da cena.

Observo este par de namorados, e as palavras parasitam sobre as ondas da sedução.

Diante desse silêncio, maior do que ela mesma, ele expõe-se, quase infantil, lutando pelas asas.

Os pedaços de informação, as trôpegas ideias que emergem no seu discurso são apenas pontos de apoio para os pés brilhantes que dançam.

domingo, 10 de janeiro de 2016

A estela (José Ames)

O SINO DA MINHA ALDEIA

Bertrand Russell (1872/1970)

"Agir está bem, por algum tempo: é um tratamento e como uma psicoterapia que reanima um pouco a confiança dando a quem se lhe submete a bela ilusão duma fé ou dum amor fecundo. Mas depois? Viver por viver, não é finalmente absurdo e cruel? O homem bem pode procurar dentro dele ou fora dele, no infinito da ciência ou do universo; está ainda só, e não pode ficar só."
"L'action" (Maurice Blondel)

A bem-aventurança que nos promete Bertrand Russell ("Por que não sou cristão"), apoiada no imparável progresso da ciência e do conhecimento, longe dos terrores do homem primitivo e dos tempos de superstição, não parece hoje menos idealista do que a esperança no Reino dos Céus.

Os limites da ciência estão cada vez mais à vista e mesmo que o seu desenvolvimento fosse ao ponto de eliminar a morte (God forbid!), não nos poderia assegurar a felicidade nem o sentido da vida.

Por isso penso que se iludem os que ligam o sentimento religioso apenas ao medo da morte.

Como se especula no último livro de Saramago, isso traria decerto muitos problemas à Igreja, enquanto dispensadora dos ritos e do protocolo de "passagem".

Mas a vida em função dum conhecimento instrumental e que, quanto ao resto, nos deixa em impenetráveis e perpétuas trevas, não é muito diferente da auto-ilusão ou duma vida pelo prazer de viver (enquanto se pode).

Quando Bertrand Russell nos exorta a procurarmos o nosso paraíso na terra, soa-me estranhamente ao "sino da minha aldeia" e às alegrias paroquiais dum tempo que para sempre pertence ao passado.

O chamado mundo global, se tem um mérito é o de esvaziar de sentido o narcisismo terráqueo e o de nos confrontar com o problema da nossa "orfandade" face ao universo.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Burgos

BALÍSTICA DO SILOGISMO





"Porque se se pensasse que a "consciência" é passível da dialéctica, seria o seu fim. Nada de mais perigoso, aqui, do que as deduções lógicas, do que as ideias claras e distintas, do que o simplismo. As crenças vitais do homem resultam de longos tacteamentos, de inúmeras provas e por assim dizer duma lenta acumulação: aí se resume mais sabedoria e previdência do que nos sistemas dos mais luminosos génios, ou nos profundos pensamentos de toda uma academia."
"L'action" (Maurice Blondel)

É por isso que uma conversa ou uma discussão não convencem ninguém. Se aquelas ideias e sentimentos de que dependem o nosso equilíbrio psicológico e o nosso "mundo" estivessem à mercê do primeiro silogismo, poderíamos realmente ser substituídos pelos computadores que, esses, são impecavelmente lógicos.

Por exemplo, as pessoas não mudam de pensar em função daquilo que vêm e ouvem na televisão.

Contudo, o facto de verem as suas opiniões e apreensões repetidas e elevadas à enésima potência pela sondagem televisiva isso equivale a uma espécie de verdade objectiva, imune a qualquer filosófico cepticismo.