sexta-feira, 29 de abril de 2016

(Covilhã)

A SELVA ESCURA


Virgílio entre duas Musas


"(...) como é que ainda podia haver esperança! quem perdeu o caminho está encarcerado sem salvação na selva, sem nenhuma brecha, sem nenhuma clareira, se quiser estender ainda a sua esperança, lançá-la para além da floresta, para o inexpansível infinito, onde é possível vislumbrar a unidade, a ordem, o conhecimento total do conjunto das vozes, o grande acorde cheio de pressentimentos, abafando as vozes, soltando as vozes, o acorde que ressoa das últimas câmaras da unidade dos mundos, da ordem dos mundos, do conhecimento dos mundos, até à última solução onde ecoa a tarefa dos mundos (...), já o primeiro, o primeiro de todos os passos que se dirigisse em qualquer direcção da selva dos caminhos, exigiria para a sua realização, por mais rápida que fosse, toda uma vida, e mais do que toda uma vida, seria necessário uma vida infinita para conservar um único e escasso segundo de memória, uma vida sem fim, para lançar para a profundidade da língua um brevíssimo olhar!"

"A morte de Virgílio" (HermannBroch)

Tive que abreviar esta citação porque este é um dos períodos mais longos do livro de Hermann Broch.

O tema é o que está mais próximo das fontes do ser, para que se exige o "órgão do mistério" de que fala Cristina Campo.

E esta sucessão de espasmos do fraseado faz-me lembrar a lenta excitação que se resolve no orgasmo musical do "Tristão".

Como se poderia ser conciso, ou suficientemente elíptico para falar disto?

Este estilo é como a recitação dos mil nomes de Shiva, no hinduísmo.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

(José Ames)

A CAVERNA MATERIALISTA





"Ora, aquilo que dissemos mostra que a faculdade de aprender e o órgão dessa faculdade existem na alma de cada um. Mas existem lá como um olho que não poderia, a não ser acompanhado por todo o corpo, voltar-se para a luz e deixar as trevas."

"A República" (Simone Weil) 

A ideia da separação do corpo e do espírito é aqui posta em causa por Simone Weil. Qual é a importância, então, de dizer que essa 'faculdade de aprender' e o respectivo órgão existem na alma, quando esta, aparentemente, é inseparável do corpo?

Podíamos considerar o dualismo cartesiano como nada mais do que metódico, como o indica, aliás, o título da obra ("Le discours de la méthode"). Ao tentar actualizar Platão de acordo com o método cartesiano, Simone recorre à alegoria da Caverna para explicar o espírito como função de uma atitude, ou até de uma posição do corpo. Os olhos da alma só 'vêem' na medida em que 'todo o corpo se vira' para a luz.

Com isto, Simone parece resistir ao misticismo que, na verdade, também tem pouco de platónico. O mais difícil é, porém, estabelecer a ligação entre o idealismo do tipo cartesiano com o materialismo.




quarta-feira, 27 de abril de 2016

(Almada)

LUZ DE INVERNO





Em "Luz de Inverno", de Ingmar Bergman (1962), uma das poucas pessoas que assiste à descoroçoada missa do pastor Tomas (Björnstrand) é o pescador Jonas (von Sydow) acompanhado pela sua mulher Karin (Gunnel Lindblom) que pretende que o marido tenha uma conversa com o pastor, no fim da cerimónia. Jonas vive obcecado com a ideia do suicídio desde que soube das intenções do governo chinês de construir a bomba nuclear. Noutro momento, já os dois homens, a sós, Tomas descarrega todas as suas dúvidas acerca da sua vocação e até da própria existência de Deus, num monólogo destrutivo para a crença vacilante do outro. Aliás, depois do encontro na igreja, o pescador põe termo à vida.

A causa da crise religiosa de Jonas (a ameaça chinesa) parece-nos hoje desproporcionada, tanto nos habituámos, entretanto, a viver sob a sombra ameaçadora da insegurança do planeta e da própria insegurança individual. Dir-se-ia um eco da célebre frase da Duquesa de Guermantes: "A China inquieta-me.", transportado do salão parisiense para uma terriola escandinava.

O facto é que esse silêncio de Deus de que se queixa o mau pastor ou a ameaça da China para o seu paroquiano são credíveis graças à arte do mestre sueco. Os admiráveis grandes planos do rosto de Ingrid Thulin têm a mesma força de há cinquenta anos. Thulin é Marta, uma ateísta que em vão proclama o seu amor por Tomas, um amor sem nada que o alimente a não ser a fé.

De resto, a luz de Inverno (do título em inglês) é isso mesmo. Um tempo sem piedade que fustiga o frágil caniço da existência ('le roseau pensant' de Pascal). Tudo tem de vir de uma secreta reserva interior.

Quanto ao título original, 'Os comungantes' ('Nattvardsgästerna'), de que participam todas estas personagens? Estaremos ainda a falar da Eucaristia?




terça-feira, 26 de abril de 2016

(José Ames)

A PERCEPÇÃO MEDIATIZADA




"A cegueira cultural da vida diária na civilização das ameaças é irreversível; mas a 'percepção' cultural é filtrada através dos símbolos dos 'mass media'"

(Ulrich Beck)

O mundo primitivo foi, sem dúvida, um bom exemplo de um mundo de ameaças. O ouvido, o órgão nocturno, testemunha dos tempos em que se vivia em permanente alerta, por causa do inimigo humano ou da fera. A civilização começou, pois, pela segurança e um cosmos à nossa medida, com um deus protector.

Éramos cegos, e contentávamo-nos com os mitos e as lendas. Agora é o conhecimento que nos contenta e que nos torna cegos, de outra maneira. Para só falar de ameaças e de segurança, o progresso do conhecimento revela-nos a imensidão do não-conhecimento e, como diz Beck, a ilimitada realidade da 'impossibilidade de saber'.

O que é irreversível é, então, a perda do mundo perfeito (também na acepção de acabado) da mitologia. A ciência corresponderia, assim, a uma outra 'expulsão do paraíso'. Na Bíblia, era esse o preço de provar o fruto da 'árvore da sabedoria', o 'fruto proibido'.

Beck usa a adversativa para introduzir a questão do 'filtro mediático'. Fomos expulsos do paraíso, mas podemos poupar-nos a percepção disso, graças a uma nova história, desta vez, contada pelos média. E já McLuhan observara que a verdadeira educação devia ter como função contrariar o efeito dos média no espírito humano...


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Allariz (Galiza)

A RAZÃO REVOLUCIONÁRIA


A Revolução Francesa


"Todas as revoluções civis e políticas tiveram uma pátria e a ela se limitaram. A revolução francesa não teve território próprio; mais ainda, o seu efeito foi o de alguma maneira apagar do mapa todas as antigas fronteiras. Vimo-la aproximar ou dividir os homens a despeito das leis, das tradições, dos caracteres, da língua, tornando por vezes inimigos os compatriotas, e irmãos os estrangeiros; ou melhor, ela formou, acima de todas as nacionalidades particulares, uma pátria intelectual comum da qual os homens de todas as nações puderam tornar-se cidadãos. Rebuscai em todos os anais da história que não encontrareis uma só revolução política que tenha tido este mesmo carácter: só o encontrareis em certas revoluções religiosas. Assim, é às revoluções religiosas que é preciso comparar a revolução francesa, se nos quisermos fazer entender com a ajuda da analogia."

"L'ancien régime et la révolution" (Alexis de Tocqueville)

É estranho que esta semelhança entre uma política universal (e não já cingida à 'polis' da etimologia) e a religião não tenha sido mais óbvia nos nossos dias, a propósito, por exemplo, da ideia política mais influente do século XX: o comunismo.

A origem filosófica desta ideia, a partir do sistema hegeliano, dotou-a dessa reivindicação universalista que trazia como primeira consequência a esteticização da religião, depois das iniciais escaramuças pelo domínio do território, em que a religião aparecia ainda como 'o ópio do povo'.

Como se sabe, o próprio Robespierre fez jus a esta tese tocquevilliana, ao instituir a deusa Razão no trono deixado vago por Deus, visto ter consciência de que era demasiado curta a inspiração da Roma Antiga.

O que é mais interessante é o desenvolvimento desta peculiaridade da revolução francesa. Porque, apesar de se parecer com o espírito de conquista, Napoleão encarnou, sem sombra de dúvida, o idealismo da revolução até cair na armadilha do poder absoluto.

Esse idealismo 'unindo os homens para lá das nações', com a reacção política, revelou-se um dos melhores exemplos da chamada 'astúcia' da Razão (ou da História), ao aplanar o caminho do capitalismo nascente e do reino universal da mercadoria, para dizer como Marx.

domingo, 24 de abril de 2016

(José Ames)

O DRAGÃO


(Michel Foucault)

"Crê-se facilmente que o homem se libertou de si próprio desde que descobriu que não se encontra, nem no centro da criação, nem no meio do espaço, nem talvez no cume ou no fim da vida. Mas se o homem já não está como soberano no mundo, se já não reina no centro do ser, as ciências humanas são intermediárias perigosas."
(Michel Foucault)

Mas poderímos alguma vez 'saltar sobre a própria sombra'?

Até à Crítica de Kant, pudemos confundir as coisas e iludir a questão. O que se tem feito depois é 'fazer metástases científicas' do local, em extrapolação aberta. Como é óbvio, isso não mudou a nossa 'soberania' em termos de funcionalidade. Apenas remetemos essa reivindicação insustentável para o 'Inconsciente'.

Ora, o anátema de Foucault dirigido às ciências humanas apenas pode ajudar a esta camuflagem. As ciências humanas não são credíveis. Seja. Resta-nos continuar a acreditar nelas sob outro nome e protegê-las através de um tabu.

Pôr em causa os fundamentos da ciência e agir consequentemente representaria uma terrível catástrofe. Graças ao velho instinto de sobrevivência, e como nos mitos antigos, colocámos um dragão à entrada e prosseguimos como se nada fosse.

A vida tem sempre razão, ainda que nos mate.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

(Lisboa)

DE LÁ DO IMPÉRIO



"Dada a sua tarefa de evitarem os perigos, os políticos, em particular, podem facilmente sentir-se impelidos a proclamar que a observância dos padrões de segurança está assegurada mesmo quando tais garantias são impossíveis. Eles fazem-no, apesar disso, porque os custos políticos da omissão são muito mais altos do que os de uma reacção exagerada."
"World at risk" (Ulrich Beck)

Uma 'reacção exagerada' é a mais benévola definição da invasão do Iraque em busca de 'armas de destruição maciça'. Contudo, e sobretudo depois da implosão do país e da radicalização 'jihadista', poucos não teriam preferido uma 'omissão', até porque, antes como depois, é impossível controlar o acesso ao nuclear por parte dos radicais. O regime de 'franchising' do Daesh, como vimos nos recentes atentados na Europa, é muito menos previsível e controlável do que um Estado terrorista.

Se Bush foi vítima ou não de um 'complot', se lhe puseram 'olheiras', ou viu só o que queria ver, não é o que importa. O todo-poderoso Estado americano armou-se para a eventualidade de ser bombardeado com mísseis e foi atacado com aviões de passageiros, transformados em mísseis de grande alcance real e simbólico. Se o Estado justifica as suas colossais despesas militares com a defesa dos cidadãos, foi a primeira vez que tal esforço se revelou completamente em vão, mostrando a incapacidade do Estado para garantir a segurança dos cidadãos.

Mas se há povo, embora enganado,  que esteja cultural e subjectivamente 'preparado' para prescindir do Estado (daí a a feroz resistência ao desarmamento individual) é o norte-americano. E quando o poder estatal vem parar às mãos de ilustres energúmenos que prometem proteger 'the american people' e defender os seus interesses, numa situação de incerteza e de risco global, com paradas de efeitos incalculáveis, a prova está feita de que o indivíduo só pode contar com ele próprio.

Esse regresso ao 'espírito de fronteira' é o destino prometido aos europeus que se deixaram seduzir pela cultura americana e imitam a sua ideologia nos negócios e na política, e por isso sofrem as consequências das crises financeiras, sociais e de segurança com origem no coração do império.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

(José Ames)

TENDÊNCIAS

M.C. Escher


"(...) o que há de deplorável nas teorias modernas do comportamento não é que sejam falsas, é que se podem tornar verdadeiras, é que são, de facto, a melhor conceptualização possível de certas tendências evidentes da sociedade moderna."

(Hannah Arendt)

Ou as 'tendências' da sociedade são uma espécie de verdade 'auto-referendada', por assim dizer, o que seria muito parecido com uma democracia sem constituição nem princípios, em suma, plebiscitária (e sabemos como o inferno das ditaduras está cheia de plebiscistos) e, assim, as 'teorias modernas do comportamento' estão certas, ou é preciso, eventualmente,  rejeitá-las em nome de uma ideia do homem (não basta uma ideia de sociedade, como a história o tem demonstrado).

O problema é que vivemos sob o paradigma da 'relatividade' e do relativismo. Einstein abriu grandes portas, mas talvez tenha  fechado outras portas. E, pelo menos, teve consciência do carácter ambivalente do progresso científico.

Suponho que quem quisesse contestar a validade, até agora confirmada no campo da Física e da Astronomia, das suas teorias, quando são de algum modo 'convertidas' às 'disciplinas' do homem, teria direito a uma espécie de ex-comunhão.

Mas a verdade é que as tendências resultantes dessa revolução científica apontam para a indefensabilidade do 'território do homem'.

Então, temos de concordar com Arendt. Quando já não importa que as teorias comportamentais sejam falsas (em relação ao que é próprio do homem), porque são 'verdadeiras' em relação às tendências realmente existentes, a situação é deplorável...


quarta-feira, 20 de abril de 2016

(Elvas)

A INFORMAÇÃO PURA

http://forthewinter.deviantart.com/art/Dejection-204918993


"A informação pura é, em certo sentido, um elemento de desintegração mental, 'um dejecto', como observa Abellio ('a informação objectiva é um resíduo, um dejecto');"
(Edgar Morin)

Não há um 'cogito', de facto, por detrás da informação objectiva, mas começa por não haver um corpo.

Em princípio, nada deve haver de pessoal na 'objectividade'. Esta corresponderia, assim, a um mundo ordenado pela razão desincarnada. Mas, por mais que façamos, não há maneira de transformar essa razão em pensamento.

O que é a 'desintegração mental' de que fala Morin? Um mundo em que o homem passou a ser tóxico para si mesmo. É essa toxicidade que torna a palavra 'dejecto' pertinente.

A ciência, desde há muito que mostrou a inconsistência do 'humanismo'. Comparou-o a um ponto de vista 'local', quando a Física estaria já dotada do 'olhar cósmico'. É a lógica da 'Morte de Deus'.

A 'informação pura' é uma exigência da 'plataforma cósmica'. Mas há o pequeno problema da humanidade real ficar de fora. Não sendo 'processável', nem criadora de sentido, a informação pura formaria um mundo de dejectos atravacando o planeta.

terça-feira, 19 de abril de 2016

(José Ames)

O GÉNIO E AS MÓNADAS



"Os espíritos menos megalómanos ( de que os demasiado cartesianos) sabem, esses, que desde que não se trate de desenrolar a partir de um 'primum verum' esse longo encadeamento de razões de que gostam os geómetras, ao método dá lugar a tópica, que tem como objectivo tentar pensar em tudo, sem estar segura de o conseguir."

(Paul Veyne)

Pergunto-me se este não poderia ser um exemplo da célebre 'astúcia' da razão histórica concebida pelo mestre de Iena e os seus discípulos.

A evidência absoluta em que Descartes fundou o seu racionalismo é a primeira coisa a perder-se ao subirmos ao primeiro andaime de consequências. Quando a álgebra se tornou essencial para o cálculo matemático, o 'primum verum' foi largado nas trevas exteriores. Mas o que ficou tornou-se uma construção formidável, que parece, no entanto, já desconectado com a experiência humana ou o 'sentido da vida'.

Como diz Veyne, a ideia de um método (era o sonho de Marx) que conservasse a independência do Sujeito e a visão prometeica sobre os cumes, sucumbiu ao poder da magia saída de uma lâmpada de Aladino.

Poderia a tópica de que fala o historiador francês ser, afinal, um regresso à monadologia? Não podemos afastar-nos da 'verdade' ou da 'evidência' porque elas estão em toda a parte como um microcosmos em que a totalidade se reproduz...

segunda-feira, 18 de abril de 2016

(Afurada)

A LINHA INVISÍVEL

D. Afonso VI



"(...) entrou no palácio e pediu que lhe mostrassem uma sala memorável, cujo chão polido deixava ainda divisar manchas de sangue de há séculos atrás."
"O salteador" (Robert Walser)

Também no Palácio de Sintra, se pode ver o quarto onde foi encerrado, até à sua morte, em 1683, o rei D. Afonso VI, filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão (padecia desde a infância de doença não identificada, que o deixava mental e fisicamente diminuído).

O pavimento usado pelas suas idas e vindas durante esses nove anos é o que mais excita a imaginação na visita ao palácio.

O chão duma cela vulgar, ainda que tivesse sido gasto durante muitos mais anos não teria nada de extraordinário.
O interesse está no facto de se tratar de um rei e dessa prisão não se parecer com nenhuma outra.

Parece que lhe foi traçada uma linha invisível à entrada da porta que ele nunca teve a coragem de transpor.

domingo, 17 de abril de 2016

(José Ames)

A OBJECTIVIDADE DE LEONARDO

Leonardo da Vinci (1452/1519)

"(...) é a visão sem medo, sempre pronta à objectividade. É a ausência de medo. A aventura espiritual de Leonardo opõe-se à procura das religiões místicas: estas querem a serenidade pela contemplação, ele, com esta misteriosa tranquilidade, faz da contemplação de cada objecto particular, o fim e o termo do seu esforço."
"Le Territoire de l'homme" (Elias Canetti)

O segredo de tantas visões e espantosas antecipações do futuro seria então a capacidade de se abstrair das ideias e preconceitos do seu tempo, como o faria mais de um século depois o autor do "Discurso do Método", para se concentrar no objecto da percepção e dissecar as suas relações numa independência artificial.

A ideia do mundo que nos permite dar um sentido à vida foi por isso, nesses tempos heróicos do pensamento científico, o primeiro obstáculo a vencer, contra a unidade da ciência e da religião, herdada da Antiga Grécia.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

(Monforte)

REQUISITÓRIO CONTRA A CEGUEIRA

"In the Penal Colony", opera by Philip Glass


Numa conversa de pendular, alguém empregou a expressão de "justiça cega" para dizer que a Lei não seria só insensível aos interesses, mas ao próprio homem.

Seria como uma máquina que não pudesse ser travada, um formalismo sem estados de alma, cuja aplicação fosse não só incontroversa mas quase automática, à maneira do dispositivo engendrado por Kafka na "Colónia Penal" que marcava a carne, de acordo com o desvio, com a precisão de uma tabela.

Quem assim falava procurava compreender a injustiça de que fora uma vez vítima.

Mas Shylock é o anti-juiz, e a cegueira que proverbialmente se atribui à justiça é ao mesmo tempo impessoal (não olha a quem, ao seu poder ou prestígio) e atenta ao que faz de cada caso um problema sem qualquer comparação.

A justiça depende, pois, por parte dos juízes duma qualidade negativa como a pureza e dum género de atenção criadora ( a positividade que não está na Lei).

quinta-feira, 14 de abril de 2016

(José Ames)

A UTILIDADE DO ESPÍRITO


Passeiohistoria.wordpress.com



"Não será preciso, então, preservar as realidades espirituais para nelas encontrar a inspiração necessária ao exercício prático, efectivo, da solidariedade e da responsabilidade?"

"Levantar o céu" (José Mattoso)

Esta defesa do espírito (contra o materialismo) poderia ser assumida por um materialista mais subtil. Com efeito, não é preciso acreditar em Deus, nem em qualquer espécie de transcendência, para reconhecer que não é o interesse vital ou económico que só por si pode inspirar uma ideia como a solidariedade, ou a responsabilidade. É preciso uma cultura mais complexa que o capitalismo, e, aparentemente, em contradição com ele, para 'produzir' um ser solidário.

É mais um exemplo do princípio da boa utilização de uma ideia contrária, como é o caso da célebre teoria do aproveitamento das paixões pela vontade moral.

Alain fala-nos do interesse muito moderno que seria o de um negreiro do século XVI que tratasse os seus escravos com os cuidados de higiene e saúde que já nessa altura tinha para com o seu gado.

Isto, evidentemente, não tem nada a ver com humanismo. É comércio apenas. Como na citação de Mattoso, tampouco se trata de espiritualidade ou religião, mas, por mais chocante que pareça, de utilidade social.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

(Lisboa)

PARA LÁ DO VERBO


http://woolpix.deviantart.com/art/meaningless-351051978


"Não há ciência se não se instituíram [...], numa operação independente, as regras arbitrárias da ciência. É no arbitrário que a ciência se prepara para fazer leis, é pelo arbitrário que ela é possível."
(Paul Valéry)

Se isto é assim, fará alguma diferença que o fundamento da ciência seja este ou outro (já que é arbitrário)? E podia, talvez, acrescentar-se que esse fundamento só não é Deus, porque a história da ciência é a história da sua longa luta para se distanciar da religião.

Descartes, pai do racionalismo moderno, pôde ainda incluir a figura de Deus na abóbada do seu sistema. Mas depressa a necessidade dessa inclusão deixou de ser evidente, como deixou de ser para Laplace.

Mas porque é que o 'arbitrário' dos fundamentos parece não prejudicar a lógica dos subsistemas ciêntíficos?

Não será porque o pleno desenvolvimento do animal racional exigiu a crença num universo racional e num ser providencial que é o homem?

Esse optimismo falha necessariamente, quando aplicamos a nós próprios os instrumentos e os conceitos que aplicamos à 'natureza'.



terça-feira, 12 de abril de 2016

(José Ames)

SEGUNDAS INTENÇÕES




"Não se pode viver com pessoas das quais conhecemos as segundas intenções."
(Albert Camus)

Segundo uma espécie de radicalismo ético-político isso seria talvez impossível. Porque tal transformaria a vida pública numa farsa. Poderia esta 'transparência' deixar de originar uma imediata 'descodificação'?

E, no entanto, não é a essa farsa que assistimos, todos os dias, no mundo político? Os partidos 'pensam' segundo a fórmula de que as 'verdadeiras intenções' dos partidos concorrentes são um 'segredo de Polichinelo'. E quando existe um partido radical, com as características, por exemplo, do nosso partido comunista, torna-se um jogo demasiado fácil desqualificar todas as suas propostas, porque as suas 'segundas intenções' balizam as fronteiras ideológicas do próprio regime. Só por ter confundindo os 'cães de guarda' da ideologia, este governo merecia governar.

A própria existência das instituições democráticas é o desmentido daquela citação. As 'pessoas' convivem com a diferença, encontrando uma linguagem comum, apesar de tudo, mas dotando essa diferença de uma característica dir-se-ia física, como se se tratasse de uma bossa de camelo, ou de um gargalo de girafa. A fábula teve sempre um grande significado político.

E em vez da incomunicabilidade abstracta, essas pessoas dedicam-se à 'comédia de enganos' que é um 'diálogo civilizado' perfeitamente funcional, porque nunca está em causa a verdade,  mas o 'contrato social'.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

(Braga)

O CÉU DE ETTY

(Etty Hillesum - n.1914 na Holanda e m. em Auschwitz em 1943.)



"
Muitas pessoas julgar-me-iam louca e totalmente estranha à realidade, se soubessem o que eu penso e o que eu sinto. No entanto, eu vivo com toda a realidade que cada dia me traz. O Ocidental não aceita o sofrimento como inerente a esta vida. É por isso que ele é sempre incapaz de retirar forças positivas do sofrimento." 
"(...) É preciso saber viver sem livros, sem nada. Sem dúvida que um pequeno pedaço de céu continuará sempre visível e que eu terei sempre em mim um espaço interior suficientemente amplo para juntar as mãos em oração."
"Une vie bouleversée" (Etty Hillesum)

Etty sabia o que a esperava quando escreveu estas linhas no seu diário. Bastava-lhe ver o que acontecia aos outros judeus por essa Europa de trevas.

Ontem, encontrando-me diante do mar, pensei que, tirando o céu, nada talvez tenha o aspecto do primeiro dia da criação como o mar.

E o mar alimenta-nos de tantas maneiras.

domingo, 10 de abril de 2016

(José Ames)

METÁSTASES POLÍTICAS

S.t.a.l.k.e.r.: shadow of Chernobyl

"Stalker" (1979-Andrei Tarkowski) permite uma infinidade de olhares e não nos amarra a um fácil simbolismo.

Os cenários espectrais, filmados na Estónia, espectáculo duma generalizada mutação de paredes e máquinas em vegetação e água adequam-se de tal modo às sequelas dum acidente nuclear que muitos pensaram estarem, neste filme, diante duma verdadeira profecia de Chernobyl, ocorrido algum tempo depois da estreia (existe, aliás, um jogo para PC com fantásticos ecrãs, explorando o tema).

Mas é a própria mentira política que se poderia ver na metáfora da Zona.

Uma versão da realidade defendida com arame farpado e metralhadoras.

sábado, 9 de abril de 2016

(Lodz)

PENSAMENTOS TERRESTRES

Karl Jaspers (1883/1969)


"Estamos, decerto, mais adiantados do que Hipócrates, o médico grego. Mas já não podemos dizer que estejamos mais adiantados do que Platão, exceptuando apenas o conjunto material dos conhecimentos científicos que teve ao seu dispor. No filosofar propriamente dito, talvez nem sequer chegássemos ainda até onde ele chegou."

"Iniciação filosófica" (Karl Jaspers)

Como é possível que 2500 anos não tenham feito nada ao caso?
Por que não conseguimos avançar. O caminho não é apenas íngreme, é vertical.

Voltamos a cair no mesmo sítio. É a melhor prova de que só somos capazes de pensamentos terrestres.

Não há plataforma donde nos possamos ver a nós mesmos.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

(José Ames)

A VIRTUDE NO MUSEU

(Batalha de Queroneia)


"A última imagem da 'areté' (virtude), na Grécia, é o campo de batalha de Queroneia, juncado de cadáveres dos jovens de Tebas. Estes corpos apresentavam-se dois a dois: eram todos pares de amantes que tinham partido para o combate, um perto do outro, contra os Macedónios. Foi a última batalha da Grécia. A partir desse dia, Filipe e Alexandre transformaram-na em museu."
(Roberto Calasso)

A 'perfeição' (que faz parte do sentido de 'areté') deste morrer juntos dir-se-ia que se sobrepõe ao próprio objecto do combate. Não é preciso que a batalha tenha sucesso, se os 'amigos' cumprem a promessa do 'até à morte'.

Os reis da Macedónia ficariam, então, com as pedras dos templos, com a escultura, a epopeia e o drama. Alexandre dormirá com Homero à cabeceira e terá Aristóteles como mestre.

Mas já não é a vida, a vida daquela 'amizade' que nos é tão estranha. Uma outra 'areté' surgirá segundo outros códigos.

A nostalgia de Calasso é poética e 'verdadeira', sem ser histórica.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

(Porto)

A ABÓBADA

A fonte do Letes (Gustave Doré)


"Ainda não e no entanto já", foi a resposta do seu próprio peito, em suave voz de sonho, que já quase não era a voz do rapaz, mas antes a da noite e de todas as noites, a voz do espaço argênteo, que é a solidão da noite, da abóbada da noite, contemplada inúmeras vezes e no entanto nunca perscrutada, cujas paredes ele tinha tocado vezes sem conta e que agora se tinham transformado em voz. "Ainda não e no entanto já", graciosa e senhoril, sedutora e constrangedora, brilhando na noite e profundamente oculta, a palavra espontaneamente vibrante, a unidade da língua e da humanidade (...)"
"A morte de Virgílio" (Hermann Broch)

A experiência que nos é mais íntima é a que nos é mais estranha.

A abóbada de que fala Hermann Broch, de facto, fundimo-nos nela, formando um único ser, durante um terço da existência.

Mas antes de abrirmos os olhos e de nos pormos a pé, todos bebemos da água do Letes.

É um truísmo dizer-se que o sono se assemelha à morte. Mas nem por isso compreendemos melhor a noite.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

(José Ames)

O PODER CORROMPE

(Baltasar Garzón)

"Citando o amaldiçoado juiz Baltasar Garzón em "Um Mundo sem Medo", por exemplo,  os custos empresariais na China encarecem em cerca de 46% por causa das comissões de corrupção, na Rússia em cerca de 43% e na Turquia 36%."

(Maria José Morgado, Expresso de16/06/12)

Com os 'Panama Papers' e as revelações desta ululante crise financeira, torna-se evidente que a virtude não está em lado nenhum. Pode-se procurar à lupa: a corrupção parece estar em todo o lado e em todos os sistemas,  tanto no poder absoluto como no poder das novas ou velhas democracias. Claro que se pode sempre dizer que o poder, nestas, tem de mentir aos seus cidadãos, enquanto os servos de todos os queridos líderes da terra só podem esperar que a força tenha o rigor mecânico e o carácter indiscutível da morte. Daí o impacto das imagens das decapitações. 

A opressão de um déspota não é só pior do que o poder corrupto, ele é a quintessência da corrupção, porque o medo também corrompe.

Os 'offshores' não parecem meter medo a ninguém e até serão impecáveis do ponto de vista legal. São, no entanto, uma injustiça que brada aos céus. Se, 'ao menos mau dos regimes' que concede esta licença para alguns fazerem o mal através da lei, juntarmos a incapacidade, cada vez mais flagrante, em garantir a segurança dos seus cidadãos face ao terror global, temos todo um outro défice de que não se fala.

Este triunfo dos advogados 'do diabo' e dos legisladores contra a lei para proteger uma coutada que, depois da Revolução Francesa, ficou de repente sem futuro, ilustra bem aquele aforismo de que não adianta expulsar um demónio pela janela, porque ele logo encontra a entrada pela janela.

Esse Terceiro Estado que teve em Robespierre o seu luminar vive agora o pós-vida do cinismo. Se escapasse à guilhotina e tivesse podido desafiar a lei do tempo, seria talvez esse o futuro do Incorruptível.


terça-feira, 5 de abril de 2016

(Lisboa)

OS PRINCÍPIOS

(Alain Badiou)



"(...) a igualdade não é um objectivo nem um programa, é um princípio ou uma afirmação, não se trata de crer que os homens são iguais, ou tirar as consequências deste princípio."

(Conferência de Alain Badiou, na Argentina, 2/6/2004)

À  política  pertence,  por  exemplo,  uma 'política justa', à justiça, 'a transformação da situação subjectiva' pela consequência de duas afirmações: 'a afirmação da inseparabilidade do corpo e da ideia, e a consequência de princípios igualitários'.

"A justiça não é um programa a seguir no futuro, não é um estado de coisas, a justiça é uma transformação, digamos que é o presente colectivo de uma transformação subjectiva." (idem)

Da ideia de Badiou resulta que não pode haver justiça num país de escravos, como não pode haver entre as feras. Mas isso é ir um pouco longe de mais. Já foi reconhecido que, numa sociedade de ladrões, não deixa de existir uma espécie de justiça entre correlegionários - quem acreditaria num chefe que roubasse os seus homens?- e que isso seria um exemplo de homenagem do vício à virtude. Por outro lado, quem nos diz que certas situações 'exóticas' de desigualdade e de 'separação da ideia e do corpo' não passaram por algo de parecido com a 'transformação subjectiva' referida?

A sociedade da antiguidade clássica pôde conviver com a escravatura, talvez durante um milénio, sem que essa transformação subjectiva ocorresse de modo a permitir a unidade moral da Grécia e de Roma. Por outro lado, se houve uma declaração inaugural sobre o princípio da igualdade, ainda foi preciso imaginá-lo para além 'desta vida', com o triunfo do Cristianismo.

Parece, além disso, que no nosso 'presente colectivo', por força de uma subjectivação 'espontânea' ao nível do indivíduo, o princípio da igualdade não tem suficiente força declarativa, visto depender de outros princípios que, entretanto, entraram em crise.

Porque é tão natural que se comece por algum princípio de justiça, Badiou diz ainda: "o problema da justiça é o problema da sua perda,  não é o problema da sua vinda, há sempre a possibilidade de trazer algo de justo, e o  problema
mais difícil é o problema da sua perda, porque a justiça está sempre ameaçada."


segunda-feira, 4 de abril de 2016

(José Ames)

A OBJECTIVIDADE DO COLECTIVO



"A matemática é, portanto: tão objectiva que apenas ela é verdadeiramente colectiva; tão colectiva que apenas ela é verdadeiramente objectiva:"
(Michel Serres)

Que significa esta redução, na matemática, do universal para o colectivo? Serres parece pensar num contexto político, mais do que numa abstracção 'para-teológica'. É uma saída intencional da Razão Iluminista do século XVIII que veio durante um tempo a disputar o trono celeste.

Ao fim de contas, vamos encontrar aqui a melhor justificação de Rousseau e da sua descendência democrática. A 'vontade da maioria' adquire uma espécie de certificação racional, com esta comparação entre o colectivo e a objectividade e a matemática. O colectivo no seu modo estático, entenda-se, ou não soubéssemos que a sua dinâmica o pode transportar para as regiões ignotas de um deus como Pã.

Esta outra história da matemática é, porém, adequada à nossa imperfeição. E, de alguma maneira, continua o Kant da 'Razão Prática'.


domingo, 3 de abril de 2016

(Adare, Irlanda)

O GRANDE INCÊNDIO




"Era o fogo que unificava a situação. Sentíamos o fogo (no Palácio da Justiça de Viena, em 15/7/1927), a sua presença era avassaladora; ainda quando o não víssemos, tínhamo-lo presente no espírito, a sua atracção e a atracção exercida pelas massas era uma e a mesma força..."

"Masse et Puissance" (Elias Canetti)

A experiência dessa atracção não saiu do pensamento de Canetti, até que a 'exorcizou' pela escrita. Quando jovem testemunhou, em Frankfurt (1920), uma multidão tumultuosa em protesto contra a inflação. Sete anos depois, em Viena, a massa furiosa lança fogo ao Palácio de Justiça. O espectador é arrebatado por um temor que o paralisa. Canetti fala em atracção. O que se entende se considerarmos que a 'massa' na sua exibição de força pode esvaziar o discernimento do indivíduo e submetê-lo ao poder da imitação. A multidão agitada provoca sempre o alarme no 'cérebro reptiliano'.

No caso de um grande fogo há também uma espécie de curiosidade, mesclada de prudência. Precisamos de ver o incêndio controlado, a fim de podermos dormir.

A segurança é uma necessidade muito mal compreendida desde que confiamos no Estado e na polícia. Mas o terrorismo tem vindo a subverter esse 'pacto'; o Estado falha na segurança mínima, desde que o inimigo individual esteja disposto a trocar a sua vida pelo maior número de vítimas inocentes.