quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O ELOGIO DA PREGUIÇA





“Num reino do Antigo Regime, um pobre não tem dignidade cívica; se a razão de Estado o exige e se a autoridade do rei ou o estado das técnicas o permitem, não se hesitará em forçá-lo a trabalhar, a moral reinante permitindo considerar que, ao arrancar o pobre à preguiça, se está a fazer com que se esforce pela sua salvação; mais tarde uma moral do trabalho já não dirá que a obrigação que se comete aos pobres de trabalhar é um dever, mas antes que a necessidade em que toda a gente se encontra de trabalhar é uma dignidade.”

“Le pain et le cirque” (Paul Veyne)



A moral cristã, “retomando a moral popular, contra a moral cívica e oligárquica, fará trabalhar a pobre gente servindo-se da sua própria linguagem.” (ibidem)

A dignidade do trabalho era desconhecida no paganismo, quando muito aconselhavam-se os patrícios a ter uma actividade qualquer, para não “amolecerem”.

A origem da palavra trabalho, tripalium, um instrumento de tortura (embora também tinha sido uma ferramenta agrícola), evoca até um certo dolorismo de natureza religiosa. Com estes antecedentes, a tese de Max Weber que relaciona o período de acumulação primitiva do capital com o protestantismo parece fazer todo o sentido. Não se pode dizer, contudo, se esta moral está na origem do desenvolvimento do capitalismo ou se é a consequência dele…

O certo é que a ideia da dignidade do trabalho se encontra fortemente posta em causa num tempo, como o nosso, em que grassa o desemprego de longa duração ou sem qualquer esperança, e em que existe toda uma cultura justificando a acédia, essa preguiça condenada por S. Tomás e Dante, tão necessária ao espírito do consumismo.

Por outro lado, já não se faz sentir a influência da religião nesse debate a favor da dignidade do trabalho.

Não tem qualquer sentido hoje dizer-se que a necessidade de trabalhar nos dignifica a todos, porque isso reduziria à indignidade uma multidão, onde os que a merecem se misturam com a maioria que não a merece.

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