quarta-feira, 23 de março de 2016

A BALANÇA

(Santo Agostinho)

"Nenhum homem está provido de tanta justiça que não lhe seja necessária a tentação da inquietação ('tentatio tribulationis': que o homem se converta num problema para si mesmo)."
(Santo Agostinho) 

Está aqui presente uma ideia da Mecânica, que é muito moderna. Às coisas do espírito, que não são, obviamente, materiais, e como por analogia, são atribuídas certas qualidades físicas, como se pudessem ser medidas e pesadas. O paradoxo desta física espiritual aparece, por exemplo, em Simone Weil (a uma das suas obras mais conhecidas foi dado, aliás, o título muito sugestivo de 'La Pesanteur et la Grâce').

A justiça, dentro do homem, quase só por milagre está livre da auto-reflexão ou, empregando um termo da língua inglesa que significa melhor o que quero dizer, é isenta do 'self-conscious'.

O que Agostinho nos pretende dizer é que essa circunstância 'infeliz', esse défice de verdadeira atenção (palavra weiliana, por excelência) nos obriga a confrontar o problema da verdade. Somos nós que estamos em causa (a nossa virtude, ou a nossa vaidade) ou a justiça? 

A imagem da balança está aqui associada a alguma coisa susceptível de ser pesada e, ao mesmo tempo, à dualidade que é própria do ser humano.

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