segunda-feira, 2 de junho de 2014

AS ARTES DO CAFÉ

Igreja de Santo Inácio, em Roma

 

"Exercícios espirituais de Santo Inácio para prevenir a sonolência na oração."


(entrada do 'Carnet III' de Albert Camus)


O café, por exemplo, não faria o mesmo efeito. O corpo, como 'prisão da alma', mesmo sem a presença do 'Maligno' (se não quisermos complicar as coisas), está aqui bem ilustrado.

Platão, o supremo teórico da 'prisão da alma' não teve necessidade da hipótese satânica. São as grandes fomes do corpo e as paixões da alma que, para ele, nos desviam do Bem. Daí, o aforismo socrático de que 'ninguém é mau voluntariamente'. Que o mesmo é dizer que o Mal não existe. Nem como princípio metafísico oposto ao Bem. As especulações sobre o Mal fazem parte da 'paixão', isto é, daquilo que 'sofremos'.

Não é assim que Loyola pode ver as coisas. Ele escreve os seus exercícios para um mundo bipolar. E as armas contam. O exercício espiritual não visa só afastar a sonolência. Inácio quer fazê-lo com as próprias forças (ou artes) do espírito, sem procurar mais uma dependência.

O café, se o santo o conhecesse na sua época, seria uma bebida do Diabo.

 

 

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