sexta-feira, 15 de maio de 2009

DISCURSO CONTRA PANDORA



"As imagens dispensam o comentário e acompanham-se de longos momentos de silêncio pouco comuns na televisão. A surpresa manifesta-se quando alguma coisa interrompe um curso de existência, abrindo abismos de incerteza. Corresponde aqui à distância incomensurável entre o acto de filmar tarefas que têm a ver com a banalidade quotidiana e a irrupção de um facto decididamente insensato. Ainda não se trata de um acontecimento, uma vez que o acontecimento é obra de um discurso que só se revela a posteriori, mas de factos brutos, que abrem o abismo de uma indeterminação completa. Nesse momento, o acontecimento 'que nunca se dá em presença' não está consumado, está ainda em suspenso."

"O mito de Pandora revisitado" (Jocelyne Arquembourg)


As primeiras testemunhas do "11 de Setembro" encontram-se como que fora da protecção da linguagem e a sua única reacção é, tal como nos filmes-catástrofe, o inevitável: Oh, my God!, espécie de mnemónica instintiva.

A televisão vai levar algum tempo a "enquadrar" o que se está a passar. À medida que surgem os comentários e as interpretações, o "facto bruto" torna-se objecto de discurso e pode ser dominado.

Diferentemente dos pesadelos, em que por mais emotivos que sejam, nada acontece realmente, no mundo inter-subjectivo tudo acontece, mas na linguagem.

"Longe de se propagar de forma desordenada para fora da caixa de Pandora, o sentido do acontecimento é assim contido na definição da situação de urgência que os factos engendraram. A informação funciona então como um cicatrizante, quer-se tranquilizadora, unificadora, oscila entre a mostração/demonstrações (as ameaças e, depois. o envio de tropas para o Afeganistão) e a ocultação aceite de maneira consensual (os corpos das vítimas dos atentados, os combates no território afegão)." (ibidem)

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