quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A RETÓRICA FÚNEBRE

Aquiles ferido


“O problema do elogio fúnebre é que não seja mencionado nenhum problema.”


(Michel Meyer, “Les Rhétoriques du XXe siècle”)



Se a retórica serve para negociar uma distância de posições, um problema, por que será ela necessária na oração fúnebre, em que as vozes se fazem surdina, os agravos se tentam esquecer, e é considerado justo colocar entre parêntesis a própria justiça, como se aquele que fosse a enterrar (ou a incinerar) tivesse perdido a sua identidade, para passar a ser um representante da espécie ou não mais do que um símbolo?

Mas talvez esteja aí o problema. A retórica fúnebre opera essa mudança de identidade para o nada (ou para o simbólico). Não é, como a música, a moderação ou o “desvio” das paixões. É uma transferência entre mundos com linguagens distintas.

Aquiles só lamenta a sua nova condição (no Hades) porque compara o incomparável.

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