terça-feira, 23 de agosto de 2011

CRENÇAS COMUNS




“Quando um debate se desloca para aqueles que nele participam, mais o logos subjectiviza a implicação, o valor (que, mais do que da validade de um argumento, traduz a comunidade de crenças e de emoções que aí participam) e a qualidade (o ‘quem fala?’ importa mais do que ‘o que é que se diz?’). A distância ela mesma é o seu próprio objecto. Num tal contexto, a desqualificação do oponente leva a melhor sobre a refutação do seu argumento, tal como, para o pathos, aquilo que se sente passa à frente em relação ao juízo de adequação das respostas. Pelo contrário, quanto mais a argumentação é ad rem, mais as noções de implicação, de qualificação e de valor se dirigem para os próprios argumentos.”


“Principia Rhetorica” (Michel Meyer)




Todos os dias podemos assistir nos debates da televisão ao momento em que os argumentos se tornam um “corpo a corpo”, referindo-se às pessoas envolvidas. Basta uma ponta de humor para o ad rem se transformar em ad hominem. Por isso, a táctica de cobrir a voz do outro ou de o interromper não pretende mais do que “desqualificar o adversário”, em vez de lhe responder.

Ora, são precisamente estes momentos que tornam os debates interessantes para a maior parte dos espectadores, e que são televisão. A ideia de que as pessoas acendem o aparelho para escolher a mais bem justificada das opções é ingénua. Só aqueles que não sabem “para que lado cair” é que procuram o simpático imponderável que, à semelhança dum lance de dados, os ajude a decidir.

O espectáculo de um debate deve sempre ser distinguido de um debate, porque tem outras regras. É ainda a “comunidade de crenças e de emoções” que está em causa, em vez da validade dos argumentos, mas o espectador não se envolve.

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