segunda-feira, 2 de maio de 2011

ANGÉLICA

"O estranho caso de Angélica" (2010-Manoel de Oliveira)


Um homem de 102 anos que ainda faz filmes, ele que ainda conheceu o cinema mudo, tem de falar do seu mundo, um mundo que ganha algo duma transcendência poética só pelo facto de existir cada vez menos.

O estranho caso de Isaac, fotógrafo, que descobre no sorriso duma morta o amor ideal, aquele que convive com as imagens do trabalho duro das enxadas para escândalo da dona da pensão, pertence ao universo camiliano, ao dos amores de perdição, como a própria paisagem no-lo recorda.

Issac não se apaixonou pela morta por causa daquele olhar e daquele sorriso, que só ele viu. Apaixona-se pela vida das imagens que podem passar duma bela adormecida para o anjo que nos chama. A vida em que tudo o que acontece é um símbolo que remete para outra coisa, como a morte do canário parece a continuação do sonho de Isaac.

A conversa à mesa sobre matéria e anti-matéria, no seu tom prosaico, é a legenda dos pensamentos do homem que quer evadir-se para o imaginário. Esse contraponto, como o das cenas do trabalho na vinha (o filme acaba ao som do canto dos homens e das suas cavadelas) não é só pedido pelo ritmo da obra, são outras imagens do mundo donde é possível extrair o sorriso transcendental.

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